SARA – PDV

Minha cabeça latejava. Meus ouvidos zumbiam como se eu estivesse com a cabeça dentro de sino durante seu badalo. A claridade do quarto ofuscava por completo minha visão. Eu mal sabia onde estava, o que havia feito noite passada. Eu mal me reconhecia. Assim que vou me acostumando com o ambiente lembro-me de tudo e a dor em meu peito volta me sufocar...

* Flash back on – 3 meses antes

- O que houve? – pergunta meu amigo soltando nosso abraço.

- Eu estraguei tudo Mike. – começo a dizer sem olhar diretamente pra ele. – Ele estava me enlouquecendo com a quantidade de perguntas que me fazia, nada do que dizia parecia muito coerente pra ele. – então resolvi mudar a tática.

- Como assim? – ele indaga confuso me puxando para pudéssemos sentar.

- Eu resolvi ser sincera. Dizer que não pretendia me casar e que nos adiantamos para não nos separarmos. – explico com voz apavorada.

- Mas o que deu de tão errado? – pergunta preocupado.

- Que agora ele tem certeza que o casamento é de fachada. – repondo sentindo as lágrimas brotarem.

- Não Sara, na verdade eu acho que foi uma ótima ideia. – ele diz calmo e firme. – O fato de você ter dito o que disse deu um ar ainda mais real e sincero pra tudo. – ele explica.

- Como assim? –pergunto.

- Olha só, a maioria das pessoas que vem aqui trazem uma bagagem de armações e mentiras sobre seus relacionamentos e planos futuros, você assumir que o casamento é algo que você não pretendia agora, só reafirma o fato de que vocês fariam de tudo pra ficar juntas. – ele explica e coloca a mão em meu ombro em um afago amigo.

- Você acha? – pergunto sentindo certo alivio.

- Claro! – afirma ele confiante. – Nossa, estou realmente mais aliviado agora. – diz ele sentando-se mais confortavelmente.

A sensação de angústia volta a me brindar. Aquele pressentimento ruim que eu vinha sentindo desde que essa história toda começou, voltou a tomar conta de mim, mesmo eu esforçando-me a deixa-lo no mais escuro lugar da minha mente.

Mike e eu permanecemos ali, sentados. Ora ou outra trocávamos alguns olhares e poucas palavras. Ele, aparentemente, estava aliviado com toda aquela situação. Como se tudo estivesse resolvido. Eu por outro lado, sentia como se já soubesse o que estava por vir. Não sei ao certo quanto tempo durou a entrevista da Jessica, mas pra mim pareceu uma eternidade.

- Nossa finalmente você saiu, pareceu que durou mais do que a entrevista da Sara. – diz Mike ao ver a loira se aproximando de nós.

- E ai como foi? – pergunto nervosa.

- Foi ótimo. – ela diz com um sorriso nos lábios. – Quero dizer, ele é carrancudo e grosseiro às vezes, mas tenho certeza que o convenci.

- Eu sabia loira, você não me decepcionaria. – diz meu amigo abraçando Jessica. Ela parecia confiante e isso me dava algum conforto.

- E você não vai me abraçar? – pergunta ela abrindo os braços a minha espera.

- Claro meu amor. – digo abraçando-a e todo medo vai embora. Estava confiante novamente. – Muito obrigada Jess, por tudo. – digo selando um beijo simples em seus lábios.

- Você não tem nada o que me agradecer, eu te amo e faço qualquer coisa pra não te perder. – ela diz afagando meu rosto com uma das mãos.

- Por favor, queiram entrar. – chama o homem mal humorado de dentro da sala. – Queiram se sentar. – ele diz apontando as três cadeiras a sua frente.

- Então? – pergunta a loira ao meu lado com seu sorriso estonteante.

- Bom, primeiramente gostaria de dizer que fico feliz em recebe-las em meu escritório, não é todo dia que sou agraciado com a presença de mulheres tão linda e talentosas. – ele diz em um tom mais cordial, diferente do que usou comigo.

- Obrigada, Sr. Edwards. – respondemos juntas e Mike apenas da um sorriso amigo e sinaliza um joinha longe do campo de visão do homem a nossa frente. Sinto outra onda de alivio correr meu corpo.

- Segundo, quero dizer que a entrevista de vocês foi impecável e agradeço a sinceridade de ambas. Isso falta para a maioria das pessoas que vem aqui. – ele diz alternando seu olhar entre Jessica e eu. – Sara você tem uma vida aqui. Jessica também. Trabalham juntas. Mas...

- Mas? – pergunto o interrompendo e ele me olha sobre os óculos em sinal de reprovação a minha atitude.

- Mas o que eu faço aqui, não é avaliar os níveis de sentimentos das pessoas. Eu trabalho pro governo, minha função é definir se o estado deve ou não conceder vistos a imigrantes. – ele diz sério, sua feição havia voltado a ser dura. – Você mesmo sendo conhecida, não pode ser tratada diferente de nenhum dos que estão lá fora querendo o mesmo que você.

- O que o Sr. está querendo dizer exatamente? – pergunta Mike.

- Quero dizer, que para conceder um visto de noiva neste caso, eu precisaria estar frente a um casal com uma relação estável e não apenas escrituras de uma nova casa e todo aquele blá blá blá de amor. – ele explica.

- O senhor está dizendo que Sara e eu não nos amamos? – pergunta a loira irritada.

- Se vocês se amam ou não é isso que estou julgando. Estou julgando o fato de duas pessoas estarem a minha frente, mentindo sobre um casamento de conveniência. – ele responde sério. – Você sabe qual a importância e o peso que um visto tem para nosso país? – ele questiona.

- Espero que não o mesmo peso que deve ter os fast foods para o senhor. – ela provoca fazendo referencia ao peso do homem.

- Jessica. – eu rosno apertando sua mão.

- Senhora, acho que não sabes com quem exatamente está falando. – ele aumenta o tom de voz e bate forte com mão sobre sua mesa.

- Faço uma leve ideia. – ela responde.

- Retire-se da minha sala agora! – ele ordena. Ela tenta relutar, mas tanto Mike quanto eu pedimos para que ela obedeça. Mike a acompanha até a porta e logo depois volta a sentar-se ao meu lado.

- Bom Sr. Edwards, peço que desculpe minha amiga, ela está um pouco nervosa. – perde Mike tentando evitar mais problemas.

- Como eu dizia, minha função aqui é avaliar a veracidade e estabilidade de um casal. E vocês não tem isso, julgo que nesse momento esse casamento seria meramente para burlar as regras. – ele diz um pouco menos rude.

- Então o que acontece agora? – pergunta não querendo ouvir a resposta.

- Bom, por mais que vocês possam me odiar agora, isso é pro bem de vocês. – ele tenta se justificar. – Vocês provavelmente não passariam nas próximas etapas de avaliação para validação do seu Green Card, e neste caso vocês seriam punidos como já sabem. – ele explica.

- Sim. – respondo baixo me lembrando de quais eram as consequências se fossemos pego na mentira.

- Por isso, sinto em informar-lhe que seu visto de noiva foi negado. – ele diz e é como se milhares de agulhas invisíveis atravessassem meu corpo. – Você tem até sábado as 00:00 horas do próximo sábado para sair do país. – aquilo era como uma sentença de morte. Morte da vida e de tudo que construir aqui. – Não poderá retornar ao país, nem mesmo a passeio, por um período mínimo de ano. Passado esse tempo, se ainda for do seu interesse, poderá retornar e tentar um visto de permanência no país.

- E quanto a Jessica? – pergunto preocupada.

- Não se preocupe, como vocês não foram "pegas na mentira" – ele diz fazendo aspas com os dedos. – Esse será tratado apenas como mais um caso de visto negado, nada será aplicado a ela. – ele explica e sinto certo alivio por saber que ela não seria prejudicada.

- Ok, Obrigada. – respondo me levantando, não querendo ouvir mais nada. Mike apenas recolhe os documentos que eu precisaria assinar e me segue porta a fora.

Assim que atravesso a porta, meu olhar encontra um par de olhos azuis arregalados de preocupação. Não consigo fazer nada além de começar a andar para fora dali, precisava respirar. Meu corpo inteiro sufocava como se estivesse preso a uma camisa de força e correntes. Ouço Mike pedir a ela que me desse um tempo sozinha.

Mas ela não atende ao seu pedido e quando eu estava prestes a sair do prédio sinto uma mão me puxar. Sem ter tempo para recusar ou discutir sobre aquilo, me vejo sendo empurrada para dentro do carro. Silenciosamente agradeço o gesto. A loira dirige por um longo tempo. Ao que parece não tínhamos um destino especifico, estávamos apenas dando voltas para passar o tempo. O silencio era quem regia o som do ambiente.

Eu estava presa em meus pensamentos. A única coisa que eu "ouvia" era a voz do homem se repetindo "seu visto de noiva foi negado". Aquilo estava me matando por dentro. Eu perderia tudo. Meus trabalho, meus amigos, minha nova casa e, principalmente, perderia Jessica. Quando finalmente parecia que íamos ficar juntas, acontece isso.

Ela tinha uma vida, tinha seu trabalho. E eu não poderia pisar em solo americano por um ano. Como iriamos fazer para lidar com tudo aquilo? Como poderíamos esperar por um ano inteiro para que eu pudesse novamente tentar um visto no país? E se fosse recusado novamente? Tudo estava me sufocando. Fazendo meu coração se apertar.

Sou tirada de meus pensamentos quando uma música começa a tocar e cortar o silêncio. Logo me dou conta de que não estávamos mais andando pelas ruas de Los Angeles. Era uma estrada fora da cidade. Não sei quanto tempo havia se passado. Mas vejo que o sol já começava a baixar.

A música continua e logo o caro para. Estávamos em algum lugar de montanha. Me deparo com uma paisagem linda do mar. Finamente crio coragem para virar e olhar para a loira ao meu lado. Ela havia tirado o sinto e virado de frente pra mim. Nossos olhares se cruzaram e eu senti meu mundo cair por completo. Ela devia ter chorado o percurso todo, porque seus olhos estavam inchados e vermelhos.

Meus olhos não resistem aquilo. Meu corpo não resiste e finalmente as lágrimas escorrem. Descendo lentamente como se tentassem fingir que a dor não existia. Então ela sussurra o refrão da música "Como é que eu vou passar por isso... Como irei supor que meu coração baterá... Sem você." E nesse momento, um choro doloroso se espalha entre nós duas.

Ela se debruça sobre mim e me abraça. Foi um abraço de amor, mas principalmente de dor. Tudo ali parecia estar desmoronando ao nosso redor. Mais uma vez o refrão se repete e sou quem o canto agora. Minha voz embargada pelo choro copioso mal me dá chance se ser compreendida e a única coisa que sai compreensível é "sem você". E era exatamente como me sentia. Se não fosse por Jessica eu já teria desistido e ido embora antes mesmo do prazo que eu tinha, mas ela me deu força e coragem para tentar e, agora como eu faria pra encarar o meu novo/velho mundo no México sem ela?

Permanecemos ali abraçadas até que nosso choro diminuísse. Eu podia ver. Eu podia sentir. Ela estava sofrendo tanto quanto eu. Ela solta seus braços aos poucos. Encosta sua testa na minha e murmura em meus lábios um eu te amo triste. Nosso choro cessa e apenas um soluço baixo faz lembrar que havíamos chorado.

Selo meus lábios nos dela. Um beijo cheio de ternura. O toque macio e aveludado de sua boca faz com que a tristeza dentro de mim cessasse por um momento. Coloco minha mão direita na lateral de seu rosto segurando-o delicadamente para que não perdesse aquele contato.

Nossas línguas se tocavam de maneira suave. Ninguém ali estava lutando por espaço. Estávamos apenas tentando aproveitar o máximo que podíamos da presença uma da outra enquanto ainda podíamos. Queríamos apenas registrar a essência de nosso beijo. A sensação de que nada poderia nos separar.

Nos separamos lentamente assim que o ar se faz necessário. Ela tinha suas mãos na minha cintura. De olhos fechados ela roçava seu rosto no meu, acariciando minha pele com a ponta do seu nariz. Aquele toque fez um riso bobo se formar no meu rosto. Ela abre os olhos e estranhamente se afasta saindo do carro. Ao parar em frente a porta do passageiro e abri-la, me oferece sua mão em convite para que eu saísse.

Sem nem parar para pensar no motivo, eu apenas aceito de bom grado o convite e caminho com ela até a grade de proteção que tinha há alguns metros nos separando da beirada do precipício. Ela me abraça por trás e ficamos ali apenas olhando para o horizonte e vendo o sol se pôr. O silêncio volta a tomar conta do ambiente, sendo quebrado apenas algumas vezes com o barulho das ondas quebrando na encosta. Mas desta vez era um silêncio confortável.

- O que vamos fazer agora? – pergunta ela me virando de frente pra ela.

- Bom dessa vez é oficial... você eu não sei, mas eu arrumarei minhas malas. – repito a frase que já havia dito a ela. E ela me lança um olhar duro de raiva. - Eu não sei. – sussurro encarando o chão evitando começar a chorar novamente.

- Você não pode tratar as coisas como se eu não estivesse perdendo alguma coisa. – diz ela irritada.

- Eu sei, me desculpe. – peço. – Mas é que você não tem nada a perder Jess, você vai continuar com sua vida, seu trabalho, seus amigos e me certifiquei que não aconteceria nada com você por conta dessa história. – completo e vejo a feição da mulher se fechar ainda mais.

- Você acha que te perder não é nada? – ela pergunta me soltando. – Você acha que eu não estou sofrendo? – questiona.

- Você quer trocar? – pergunto e logo me arrependo da besteira que havia dito. – Jessica, me desculpe... eu... não quis dizer isso. – tento me justificar e ela permanece a me olhar incrédula.

- Vai ver que foi isso que nos fez reprovar na porcaria dessa entrevista. – ela começa e olho confusa. – Você não me ama e nem acredita no meu amor, pra você apenas sua carreira importa, e ele percebeu que seria apenas uma conveniência. – ela diz severamente.

Um som baixo, mas não o suficiente, interrompe nosso momento de tensão. Ela se afasta e vai até o carro. Fica lá algum tempo falando ao telefone. Percebo um pequeno sorriso se formar em seu rosto. Viro de costas pro carro e continuo a olhar o mar. Provavelmente seria a última vez que estaria naquele lugar esse ano. Na verdade, nem eu sabia onde estava.

- Ei... estou chamando você. – diz a loira ao se aproximar de mim.

- Desculpe, não ouvi. – respondo e percebo que ela carrega um pesar no olhar que não mais apenas por causa da minha deportação. – Jess. – digo tocando seu rosto. – Me desculpe, eu não quis dizer aquilo.

- Tudo bem. – ela responde se afastando do meu toque. – Vamos, precisamos voltar.

- Por quê? Não, vamos para algum hotel aqui perto. – peço.

- Não Sara, precisamos ir. – ela diz firme. – Mike nos espera. – ela fala e se vira indo em direção ao carro.

- O que Mike tem a ver com isso? – pergunto confusa, mas ela não responde.

O silêncio voltou a tomar conta do carro. Agora era aquele tipo de silêncio ensurdecedor. Que faz os ouvidos doerem como se estivesse prestes a explodir. Fiquei pensando no que dizer para tentar desfazer a burrada que eu havia acabado de dizer. Quando finalmente reúno forças pra falar vejo as luzes da cidade se aproximarem.

- Nossa, que rápido. – digo ao ver que já estávamos de volta. – Achei que tínhamos ido mais longe.

- Eu não sabia para onde te levar, então ficamos por horas rodando pela cidade. – ela explica. – Resolvi sair da cidade e pegar a estrada. – ela explica.

- Obrigada. – digo olhando a ela e dando-lhe um sorriso agradecido sincero.

- Não por isso. – ela responde apenas forçando o sorriso. "Parabéns, se você achou que não tinha mais nada a perder, conseguiu provar o contrário", meu cérebro resmunga.

- Acho que vou ligar pra Shonda e avisar a ela. – digo puxando assunto. – Ela tem uma semana para dar um destino a Callie.

- Acho que você não precisará fazer isso. – ela diz estacionando o carro em frente a casa de Mike. – Bom, é aqui que você fica. – diz ela.

- Você não vem? – pergunto sentindo um nó na minha garganta.

- Você não precisa mais de mim Sara, daqui pra frente é só você e... seu trabalho. – ela responde e meu peito se rasga.

Ela se forçava a olhar pra frente. E eu podia ver pelo movimento em seu rosto que ela cerrava os dentes para segurar as lágrimas. Não digo mais nada, apenas toco em sua mão que descansava sobre o volante, mas ela rejeita meu toque. "A culpa é toda sua", grita meu cérebro.

Desço do carro e logo ela o acelera em disparada. Fico ali acompanhando o veiculo se afastar. Assim ele some do meu campo de visão, levanto meus olhos para o céu que estava estrelado, já era noite e tudo estava tão reluzente e cintilante que nem parecia que tinha algo errado. Volto pro mundo real e sigo para as escadas em direção à entrada da casa.

Para minha surpresa, Mike abre a porta antes mesmo que eu pudesse tocar a campainha. Quando entro sou recepcionada por Shonda e Betsy que me ofertam abraços afetuosos. Elas já sabiam.

- Não sabia que vocês estavam aqui. – digo assim que nos separamos. – Me desculpem por não ter ligado pra avisar, mas eu precisava de um tempo. – explico.

- Como você está? – me pergunta Shonda puxando-me para sentar ao seu lado. – Por que não nos falou isso antes? Poderíamos ter dado um jeito, ajudar de alguma forma.

- Me desculpe, isso foi culpa minha. – diz Mike atropelando minha fala. – Achei que quanto menos pessoas soubessem da deportação, menos risco da história vazar. – ele explica.

- Mas isso não importa mais agora. Acabou. – digo cortando meu amigo.

- Cadê a Jessica? – pergunta Betsy. – Achei que ela estava com você.

- É, estava, mas não pôde ficar. – respondo e sinto o olhar de Mike sobre mim, ele sabia que eu estava mentindo.

- É uma pena, queríamos dar a boa noticia a vocês duas juntas. – diz Shonda abrindo um leve sorriso.

- A menos que me digam que não serei mais deportada, não vejo o que pode ser bom. – digo e sou repreendida por Mike.

- Apenas nos escute Sara. – ele pede. – Infelizmente, não poderemos fazer nada a respeito de sua deportação, e você será obrigada a ficar um ano fora, mas... – Betsy o interrompe.

- Mas conseguimos junto com os produtores da ABC que permitissem que você continuasse a trabalhar conosco e com seu trabalho para Sofia the First. – ela diz animada e eu não consigo processar a informação por certo tempo.

- Mas... Mas como conseguiram isso? – pergunto. – Achei que não seria permitido que eu trabalhasse "aqui" estando fora daqui. – digo confusa.

- Foi a... – a mulher é interrompida.

- Isso não importa agora. – diz Mike. – A questão é, poder, não poderia, mas entrei com um recurso pedindo a revisão da sua solicitação de visto. A ABC entrou com seu incentivo persuasivo para que enquanto o processo corresse você continuasse a seu trabalho e com isso os produtores do outro programa fizeram o mesmo. – ele explica em um só fôlego e eu permanecia apenas atordoada.

- Sendo assim, você continuará nos saudando com sua personagem, só que sendo gravado por um estúdio do México em parceria com o nosso. E as cenas serão trabalhadas com dublês e computação gráfica, sempre que você estiver contracenando, assim você "estará" sempre aqui, mesmo estando lá. – explica Shonda e a única coisa que consigo fazer é correr e abraça-los.

Impossível segurar as lágrimas. Mas agora eram lágrimas de alegria. A coisa toda não estaria do jeito que eu gostaria, mas já era um começo. Não perderia meu trabalho. Não perderia aquilo que construí e, se tudo continuasse assim, logo poderia estar de volta. Passamos mais algum tempo conversando e começando a planejar como tudo seria organizado. Shonda achou melhor que eu gravasse quanto mais cenas pudesse até o dia de ir embora.

- Nossa, você não imagina como estou feliz agora. – digo abraçando Mike, assim que as duas mulheres saem de sua casa.

- Sarita, eu também estou. – diz ele me abraçando forte. – Você vai ver, logo você estará de volta e com um visto oficial. – diz ele segurando meu rosto e beijando minha testa.

- Yay. – comemoro não tão empolgada como deveria.

- O que foi? – pergunta Mike me levando até a cozinha. – Vamos jantar, sei que você não comeu nada o dia todo.

- Como sabe? – pergunto arqueando a sobrancelha.

- É... eu... Sabendo oras... – diz ele tropeçando nas palavras. – Mas então, me diga por Jessica não ficou, sei que ela ia gostar da novidade.

- Pelo visto estraguei tudo pela segunda vez no dia. – digo dando um suspiro longo.

Conto a Mike, o que havia acontecido poucas horas antes. O que falei, o peso que aquilo deve ter sido pra ela. E como de certa forma, ela tinha razão. Talvez o visto não foi aprovado pela falta de estabilidade da nossa relação, minha estabilidade em relação a nós duas. Isso deve ter deixado claro ao Sr. Edwards que tudo aquilo era uma conveniência. Mike apenas ouvia tudo.

- Acho que você deveria conversar com ela e se desculpar. – ele orienta. – Ela realmente te ama e estava empenhada em ajudar. – ele completa.

- Eu sei. – digo envergonhada. – Mas eu só queria que ela entendesse, que mais do que ela quem perderia seria eu, porque ela vai continuar aqui. – repito o que falei pra ela.

- Você não entende Sara. – diz ele balançando a cabeça. – Tudo isso que você diz que perderia, conseguiria fácil quando voltasse. Você já tem um nome, já tem prêmios, já tem carreira. Nada seria difícil como foi no começo. – ele diz em tom firme me fazendo sentir a pessoa mais egoísta do mundo. – Mas a relação de vocês... Alguém como Jessica, não se encontra todo dia... Ela sufocou o sentimento dela por 5 anos para que você ficasse com Ryan... Ela poderia ter sido presa hoje, pra tentar te fazer ficar... E você só está pensando no que de fato nem perdeu.

Eu podia sentir a tristeza e uma certa decepção no tom da voz de Mike. Mas eu não entendia por que ela estava agindo assim, mas do que ninguém ele deveria me entender. Por que ele era tão focado no trabalho quanto eu. Tudo bem, eu admito que fui rude e insensata nas minhas palavras com a loira. E eu a amava. Mas estava tudo desmoronando...

- Você tem razão. – digo olhando pra ela. – Mas agora que ainda manterei o emprego e as chances de voltar ao final de um ano são grandes, ela pode me esperar. Se aguentou 5, aguenta mais 1. – digo com um riso sem graça.

Um ano pode não ser nada, mas também pode ser tudo. – ele diz e eu estremeço, ele estava sério.

- Acha que ela vai me desculpar? – pergunto ainda mais sem graça.

Acho que você deveria conversar com ela. – aconselha ele.

O restante as noite passou tranquilamente. Jantamos, conversamos um pouco sobre nada muito importante. Pedi a Mike para ficar na casa dele. Não queria dormir sozinha. Na verdade tudo que eu queria era dormir nos braços da loirinha mais maravilhosa que eu conhecia, mas eu não tinha como encará-la aquela noite. Conversaria com ela no dia seguinte.

* Flash back off

Assim que tomo consciência reconheço que estava em meu quarto. Alias, meu antigo quarto na casa dos meus pais. Assim que voltei pro México, vim para a casa deles. A casa da minha infância. Onde nasci, cresci, me tornei a mulher que sou. Muita coisa havia mudado isso era óbvio, mas também muita coisa ali permanecia igual. Como o cheirinho de café fresco vindo da cozinha e era capaz que inebriar toda a casa.

A claridade do quarto também era uma coisa que não havia mudado. Assim que me mudei pra Los Angeles, fiz questão que meu quarto fosse o mais escuro quanto possivel, a claridade matinal invadindo meu sono nunca me agradou. Porém meus pais diziam que era o jeito mais eficiente de me tirar cedo da cama.

Sinto meu estômago roncar. O gosto de cabo de guarda-chuva em minha boca era pungente. Com certeza eu estava de ressaca. Com certeza eu havia passado da dose. Assim que lembro do motivo de ter caído na bebedeira sinto meu estomago revirar.

Ela voltou pra ele, geme meu cérebro e sinto meus olhos começarem a marejar. Decido afastar aquilo da minha cabeça, tentando manter qualquer lembrança de uma certa loira escondida bem no fundo da minha memória e mais fundo ainda em meu coração. Ela seguiu em frente e eu também seguiria. Tento me levantar e logo um peso desconhecido mostra-se presente.

- Ai meu Deus, o que eu fiz? – rosno baixo tentando lembrar de algo.