Não se sabe até hoje porque existem bruxos e muggles. E mesmo entre os muggles, não se sabe porque certas pessoas são dotadas de habilidades extraordinárias e outra não. Também não se sabe porque humanos são conectados com elementos e até mesmo criaturas, a ponto de isso interferir na personalidade. Mas são coisas que existem, quer você acredite ou não.
Havia muitas simbologias que faziam Gryffindors e Slytherins serem antagonistas. Algumas delas pareciam meras mitologias, mas eram bem reais. Os animais que simbolizam as casas, por exemplo. O basilisco era uma das criaturas mágicas mais poderosas e raras. Possivelmente, Harry Potter extinguiu a espécie ao matar o basilisco na câmara secreta. O grifo também era uma das criaturas mágicas mais raras e poderosas. Era conhecida a existência de três grifos no mundo inteiro, mas especulava-se que poderiam existir até 10 espécimes. De um jeito ou se outro, o que interessa era que basiliscos e grifos eram adversários naturais. Eram forças de natureza antagônica. Grifos e basiliscos eram animais capazes de se matarem. Eram predadores um do outro.
Henry Ollivander não era um espião de Samuel Evans ou de qualquer outro supremacista que desejava a cabeça de Santana Lopez. Ele não estava naquela guerra para cumprir uma agenda capciosa. Havia o que se costumava chamar de "erro honesto". Ou seja, aquele erro que se cometia sem a intenção de prejudicar alguém. Era chamado também pela famosa frase: "merda acontece". O especialista em varinhas não cometeu um erro honesto ao reaproveitar os restos da relíquia da morte. Sim, era verdade que o resultado era pálido em vista ao poder do objeto original. Ele era um especialista experiente no ofício, mas diante de um desafio como aqueles, ele cometeu um erro honesto ao se concentrar no desafio em si, se esquecendo do usuário.
Ou seja, ao fazer uma varinha com um núcleo de basilisco, porque era a única coisa na oficina dele que reagia com a pequena amostra de pelo de thestral, e entregar o objeto a alguém cujo patronus era um hipogrifo, ou seja, uma criatura originária de um grifo, a reação seria a pior possível. A essência da energia mágica de Santana simplesmente antagonizava com a energia da varinha recém-fabricada. O resultado? Booom!
Os corpos de Santana, de Henry e de Draco foram arremessados alguns metros com a força da explosão de energia. Uma luz foi gerada, se espalhando por todo acampamento, e assustando todos que ali estavam. Rachel, assim como as demais que estavam dentro das tendas, saiu correndo para fora para saber o que havia acontecido. Estava em alerta, com a varinha em riste, preparada para lutar. Foi quando viu que algumas tendas estavam no chão, e havia gente correndo em direção pessoas que estavam caídas no chão.
"Foi um ataque?" Ela não perguntou a alguém em específico. Era uma pergunta que estava sendo replicada por diversas pessoas.
"Eu não sei." Finn respondeu, também muito confuso.
"É Lopez!" Alguém gritou.
Rachel não pensou duas vezes. Correu em direção o grupo que supostamente estava cercando a irmã. Ela apontou a varinha para o pequeno círculo. Algumas pessoas foram magicamente empurradas o suficiente para que ela conseguisse chegar até a irmã sem ter que abrir caminho com as próprias mãos. Ao chegar até Santana, levou a mão à boca e ficou apavorada. Santana estava com as roupas sujas de sangue e inconsciente.
"Ela..." Rachel teve medo de completar a pergunta.
"Ela está respirando." Grace James respondeu. Ela estava ajoelhada ao lado do corpo de Santana, prestando os primeiros atendimentos de cura.
"O que diabos aconteceu?" Rachel ouvia as pessoas perguntarem.
"Eu não sei. De repente a tenda explodiu."
"Foi um ataque?"
"Eu não sei."
"Ela está viva?"
"O que faremos?"
Rachel ouvia todos os questionamentos ao redor dela. Era muita gente falando ao mesmo tempo: pessoas mais próximas ou não. Em meio a pequena multidão, ela identificou Quinn e também Finn, que estava imediatamente ao lado dela.
"Estamos sendo atacados!" alguém gritou.
Rachel olhou para cima, no céu escuro de lua nova, e pôde perceber as sombras que sobrevoavam o acampamento e atacavam no alto das respectivas vassouras. Um súbito pânico a invadiu. Rachel, ofegante e tomada em adrenalina, atirou-se contra o corpo da irmã, abraçou-a e aparatou.
Desaparatou em meio a Hogsmeade. No momento de pânico, aquele era o único lugar que lhe veio à mente. Desaparatou justamente ao lado do pub Três Vassouras, dando susto em quem passava por ali. Um homem se aproximou.
"Vocês... oh, Merlin..."
"Não se aproxime!" Rachel apontou a varinha para o homem.
Ela não racionalizava direito e, por isso mesmo, era ainda mais perigosa. Um movimento errado e ela estava preparada para aparatar novamente, sem se dar conta de que o deslocamento sempre prejudicava as condições de alguém ferido ou com a saúde frágil.
"Eu não vou machucar vocês." O homem assegurou.
Rachel não quis pagar para ver. Ela abraçou a irmã mais uma vez e desaparatou. Dessa vez estava mais consciente para onde deveria ir. Desaparatou ainda na região, desta vez na floresta proibida, próxima a antiga cabana de Hangrid. Pegou a varinha e conjurou uma versão mais gentil de levicorpus. Fez o corpo da irmã flutuar até dentro da cabana, que estava imunda de terra e destroços. Pelo menos era um lugar onde ela achava estar protegida. Pegou um recipiente, tirou a terra e a poeira o melhor que podia e conjurou água. O líquido, como pura mágica, surgiu no recipiente. Lembrou-se de um ditado sobre um bruxo morrer de fome, mas nunca de sede. Bom, ela achava o dito um tanto quanto de mau-gosto, mas era verdade. Com a água, limpou o rosto ensanguentado de Santana. Não havia ferimentos na pele da irmã que justificavam o sangue. Rachel ficou em dúvida se o sangue era realmente de Santana.
"Enevarte!" Rachel conjurou.
Santana acordou num susto, erguendo o tronco e ficando sentada naquele chão sujo. Levou um tempo até que ela percebesse que estava tudo bem e que estava segura. Então conseguiu reconhecer Rachel, apesar do breu dentro da cabana.
"O quê..." Santana disse ainda confusa.
"Lumus." Rachel conjurou.
"Onde estamos?"
"Ao lado de Hogwarts, na velha cabana de Hagrid." Rachel respondeu. "Santana, o que aconteceu?"
"Eu não sei bem... eu acho que a varinha explodiu."
"A varinha com o fragmento que viemos procurar em Hogwarts?"
"É... acho que não será possível usá-la. Pelo menos, não comigo a manuseando. Rach, por que estamos na cabana de Hagrid?"
"O acampamento estava sendo atacado. Eu precisei pensar rápido para te proteger."
"A gente tem que voltar." Santana levantou-se do chão com certa dificuldade. O corpo estava bastante dolorido.
"Mas você não pode!"
"Posso e vou." Santana procurou a própria varinha. A encontrou no lugar esperado, presa à calça jeans.
"Você não está em condições!" Rachel insistiu.
"E daí? Que tipo de líder eu sou se fujo ao sinal da primeira crise?" Então sorriu ligeiramente para a irmã e lhe acariciou o rosto. "Você pode ficar. Eu não vou ficar zangada contigo. Pelo contrário."
Santana aparatou. Rachel suspirou. Fechou os olhos e também aparatou de volta ao acampamento.
...
"Mãe!" Lily gritou.
Ginny correu para o lugar que a filha havia lhe chamado, e chegou poucos instantes depois. Não era uma casa grande. Ginny, Lilly e Hermione estavam num apartamento secreto em Dublin. Por questões de segurança, elas não passavam mais de uma semana no mesmo lugar. Havia uma série de imóveis em todo território da Irlanda que eram destinados a chefe de governo da Inglaterra que estava exilada na Irlanda sob proteção e acordo com a Confederação Internacional. Mesmo que os imóveis se repetissem, a sequência de ocupação era randômica. Isso garantiu a segurança de Hermione Granger e os aliados dela mais próximos ao longo de todo período de ocupação europeia ao supremacismo.
Aquele apartamento em específico era de três quartos localizado na R802, rua que Lily, habituada em ver locais mais lúdicos e vivos, achava deprimente. Lily estava com um sentimento ruim ao longo da semana. Algo motivado pelo estresse da situação de exilada numa cidade só, pelo afastamento da namorada, pela gravidez avançada, e por um sexto-sentido que lhe preocupava: algo estava para acontecer.
"Mãe!" Lily berrou mais uma vez.
"O que foi?" Ginny apareceu à porta do quarto em que a filha estava.
A mulher levou a mão à boca quando viu a razão do grito. Havia uma poça de água pelo chão, e Lily estava exatamente no meio dela, com parte do vestido molhado.
"Oh!" Ginny levou alguns segundos para processar a informação de que a neta dela havia decidido nascer com uma semana ou duas de antecedência em relação ao tempo previsto. Ginny sorriu para a filha, buscando transmitir tranquilidade e segurança. Ela segurou a mão de Lily e conduziu a filha até a poltrona.
"Santana vai lutar amanhã. Isso não deveria estar acontecendo. Ela deveria estar aqui comigo!"
"Eu sei, filha. Eu sei." Ginny sorriu. "Infelizmente isso não vai ser possível, por isso vamos respirar fundo porque você tem um longo trabalho pela frente."
"Mas mãe..." Lily repetia, chorosa.
"Lilian Luna Potter II, eu não a criei para fraquejar.!" O tom de Ginny foi mais duro. "Fique calma, ou tudo vai parecer pior do que realmente é. Preciso que você conte o tempo entre as contrações, enquanto eu limpo essa água daqui. Pode ser?"
Lily acenou. Ginny beijou a filha na testa e sorriu confiante. Ela pegou a varinha, apontou para a poça de água e começou a fazer movimentos circulares. A água começou a se concentrar numa poça menor no chão, formando uma bola. Aos poucos, a água começou a flutuar e a ser conduzida por Ginny, ainda muito concentrada no feitiço que parecia ser simples, mas que na verdade exigia bom nível de concentração. Um vacilo e a água condensada numa bola disforme e translúcida ia desabar no chão, provocando mais sujeira que antes.
"Ginny! Lily!" Hermione entrou de supetão no apartamento, fazendo exatamente o que Ginny não queria. A água caiu no corredor e escorreu pela sala.
"O quê?" Ginny perguntou irritada, ao encarar a melhor amiga e cunhada.
"Precisamos correr. Há um ataque coordenado em curso. Dolohan está vindo para cá."
"Mas não podemos sair correndo!" Ginny disse em tom mais baixo.
"Por quê?"
"Porque essa água está no chão da sala veio de dentro da sua sobrinha."
"Lily entrou em trabalho de parto?" Hermione levou a mão à boca.
"Lily entrou em trabalho de parto! A gente não pode aparatar com ela assim. Seria perigoso demais."
Hermione encarou a cunhada e depois foi até o quarto em que Lily estava. Encontrou a sobrinha ainda sentada na poltrona, com cara de assustada.
"Tia..." Lily disse já chorando, depois de ouvir a breve conversa. "O que vamos fazer?"
"Lily, você entender que aparatar é a nossa melhor chance, mas também a nossa escolha mais arriscada?"
"Sim."
"Você decide."
"Eu acho que posso aparatar uma única vez."
"Eu sou contra." Ginny protestou.
"Mãe, eu não vou conseguir correr ou voar. Eu entendo os riscos."
Ginny pegou a mochila velha de Lily. A decisão estava tomada. Hermione liderou o caminho, enquanto Ginny e Lily tentavam andar o mais rápido que podiam. Era preciso sair do prédio antes de aparatar. Hermione precisou agir assim que colocou os pés para fora do edifício. Agentes de Dolohan já estavam no local.
"Você não conseguiu me vencer nem quando eu tinha 17 anos, seu bastardo!" Ela disse mais para ela mesma enquanto dava o melhor de si para derrubar os cinco bruxos que estavam lhe dando muito trabalho.
Ginny juntou-se a Hermione. Com todo talento da amiga, ela ainda precisava de cobertura.
"Ginny. No três!"
Ginny voltou-se para a filha e a puxou para fora do prédio. Hermione pegou na mão de Ginny e aparataram. Quando desaparataram, estavam em meio a uma avenida na borda de uma floresta no País de Gales.
"Oh meu deus!" Lily curvou-se ao sentir uma fortíssima pontada no ventre. Ginny imediatamente veio ao socorro da filha.
"Mas que inferno, Mione? Você nos trouxe para o meio do nada com a minha filha em trabalho de parto! O que vamos fazer? Entrar nessa floresta no meio da noite?"
"Não é o meio do nada!"
Hermione conjurou lumus e entrou na floresta. Ginny, segurando Lily, hesitou por um momento em seguir a amiga. Ela estava com medo, com raiva, apreensiva. Mas se teve uma coisa que ela aprendeu a fazer ao longo de todos aqueles anos era que se podia confiar a vida em Hermione.
"Mãe..." Lily cerrou os dentes ao sentir outra contração.
Ginny parou de caminhar, sustentando a filha em pé. Aparatar acelerou o parto e, pela proximidade das contrações, ela temia que Lily fosse parir no mato em meio a toda aquela escuridão.
"Só mais alguns metros." Hermione disse ao ajudar a sobrinha. "Confiem em mim."
"Eu não sei se consigo andar." Lily estava molhada de suor. As contrações estavam muito próximas e ela já não conseguia mais andar.
Apavorada, Ginny abriu a mochila rasgada e velha da filha, que a acompanhou numa jornada pelo mundo. Havia uma casa inteira ali dentro, caso precisassem.
"São só mais alguns metros!" Hermione insistiu.
"Não dá, Mione." Ginny disse enfurecida enquanto ouvia os gritos da filha. "Accio colchão."
O colchão de ar voou para fora da mochila. Ginny usou magia novamente para inflá-lo em segundos. Lily deitou-se no colchão que dividiu com Santana incontáveis vezes nas viagens que fizeram pelo mundo.
"Você já fez algum parto na sua vida?" Hermione perguntou.
"Não."
"Eu vou buscar ajuda!"
Hermione correu para o local que originalmente estava disposta a chegar, deixando mãe e filha na floresta. Lily gritava. Ginny conjurou lumus e levantou o vestido da filha. Levou um susto quando tirou a calcinha encharcada de Lily. Ela não era especialista, mas já tinha parido três crianças. Lembrou-se de toda leitura que fez sobre o parto de quando estava grávida de James, e de tudo que releu motivada pela gravidez de Lily. Lembrou-se dos procedimentos que foram feitos.
"Mãe!" Lily gritou, cerrando os dentes.
"Tudo vai dar certo."
Ginny sorriu para Lily e, sem tirar os olhos da filha, fez o que tinha de fazer: introduziu dois dedos na vagina de Lily para checar a dilatação. Era loucura, mas ela teve certeza que tocou a cabecinha da neta, sem mencionar que ela conseguiu abrir os dedos lá dentro, em posição de "V". Arregalou os olhos e encarou a filha.
"Lily... eu sei que está doendo muito, mas você vai ter que puxar. Agora!"
Ginny posicionou-se entre as pernas da filha e observou.
"Puxe, Lil, puxe!"
"Vai pro inferno, mãe. Isso dói!"
Mesmo com a dor, Lily puxou. Gritou, cerrou os dentes, e puxou. Ginny viu a cabeça da neta aparecer na vagina da filha. Ela não sabia exatamente como pegar a criança, mas estava ali posicionada para agir. Lily soltou um urro gutural, e Ginny segurou a cabeça da criança. Com cuidado, ela puxou o corpinho para fora. Era a neta dela. A emoção que sentia era inacreditável. Ginny chorava e sorria. Apesar de estar suja, envolta pelo sebo, e inchada, a criança era simplesmente perfeita. A criança começou a chorar bem a tempo de Hermione voltar na companhia de duas pessoas: um casal.
"Ela é linda!" Ginny entregou a neta nos braços de uma exausta, chorosa, mas feliz Lily.
Foi o tempo de verem pessoas se aproximando com lanternas em mãos. Eram muggles, com certeza. Lily abraçou a criança e Ginny se preparou para defender a filha e a neta. A tensão durou pouco. Era Hermione de volta em companhia de um casal.
"Uau, você não estava brincando mesmo que se tratava de uma emergência, Mione." O homem disse apontando a lanterna para as mulheres. A cena era, de fato, impressionante.
"Esses são Tom e Carry Granger. Tom é meu primo e eles estão nos ajudando nessa guerra."
"Como?" Ginny perguntou.
"Acho melhor a gente cuidar dessa situação primeiro." Carry ajoelhou-se diante de Lily e Ginny. "Não se sintam ofendidas. Eu sou veterinária, mas posso perfeitamente ajuda-las, se me permitirem."
Uma veterinária era melhor do que nada. Lily, segurando a filha recém-nascida, acenou. Ela não estava mesmo em posição para dispensar ajuda por orgulho.
"Okay", Carry abriu a maletinha com instrumentos cirúrgicos. Pegou uma tesoura já esterilizada, limpou as mãos com álcool o melhor que podia e colocou luvas descartáveis. Então pegou o cordão umbilical e ofereceu a tesoura para Ginny. "Quer fazer as honras?" Assim que Ginny cortou o cordão, Carry sorriu. "Agora vamos expulsar essa placenta!"
...
Santana desaparatou em meio ao caos de uma batalha no acampamento, com Rachel logo atrás dela. O plano original era atrair os extremistas com um grupo-isca liderado pela própria Santana. A força internacional que supostamente estaria na Itália, cercaria os supremacistas e assim eliminariam as forças ofensivas de uma vez por todas. Mas foram os oponentes quem surpreenderam ao "anteciparem" o ataque num ponto não planejado.
Estava escuro, havia muita fumaça, fogo, gritos, duelos para todos os lados e corpos pelo chão. A batalha estava espalhada em consequência do campo aberto e do ataque surpresa. Santana não tinha tempo algum para se recompor. Tirou a varinha que estava presa ao suporte da calça jeans e começou a agir. Olhou para o céu e percebeu que havia alguns embates aéreos. Muitos dos rebeldes aliados jogaram quadribol e uma vassoura era como uma extensão do corpo.
"Fique próxima, Rach!" ordenava à irmã.
Circulou entre a fumaça, o fogo, a sujeira e os lampejos soltados pelas varinhas nos duelos. Era preciso cautela, pois a visibilidade estava ruim e não era fácil distinguir quem era um rebelde e quem era um death eater. Ela queria procurar por Quinn e pelos amigos, mas antes de mais nada, precisava fazer a parte dela. Defendeu-se de um ataque graças ao extraordinário reflexo que possuía. Contra-atacou certeira enquanto Rachel lhe dava cobertura. As irmãs agiam como um time. Derrubou o oponente. Não tinha tempo para saber quem era. Reconheceu outro death eater no duelo mais próximo. Atacou o adversário, deixou-o fora de combate, e correu para ver se o aliado estava bem. Era Lupercia Potter.
"Está ferida?" Santana perguntou.
"Estou bem." Ela disse passando a mão no próprio rosto para aliviar a poeira.
"Fique conosco."
Santana não sabia exatamente que plano deveria executar diante do absoluto caos, mas entendia que a batalha espalhada como estava só beneficiaria o próprio oponente. Lembrou-se das estratégias de defesa que treinava com os refugiados no campo que provou dar certo tão logo a população superou o susto inicial do ataque. Correram até o duelo mais próximo. Somaram três contra dois e venceram. Resgataram Glory Watson, que estava com um ferimento nas costas. Santana ia sempre a frente, instruindo o grupo a lhe dar cobertura. Conseguiram alcançar uma dupla de aliados que estavam tendo problemas. Era Mike e Teddy.
"Você viu Quinn?" Santana perguntou urgente a Mike.
"Não! Não a vi."
"Ok, não quebrem a unidade, vamos nos deslocar como um bloco. Eu vou providenciar proteção. Mike vai a frente e vocês protejam as demais direções."
Passaram a caminhar cercando Santana, que conjurava um campo de força que envolvia o grupo. Movimentar-se em bloco não seria nada bom dentro de uma guerra muggle, mas bruxos não usavam armas de fogo, especialmente os supremacistas, pois consideravam instrumentos vulgares. A cada resgate, o pelotão aumentava e se dividia em outro que ia organizando o caos. O grupo avançava entre outros duelos para liquidar o oponente e estruturar outros bruxos para formar outros blocos de ataque.
Quando os rebeldes conseguiram recobrar o domínio da situação e do território, os death eaters bateram em retirada. Santana não estava confortável, muito menos aliviada. Quinn não estava em lugar algum, apesar de que amigos próximos dela terem sobrevivido ao ataque surpresa.
"Agora o que vamos fazer?" Santana foi surpreendida por Draco Malfoy. Permitiu-se pensar por um minuto antes de responder.
"Eles vão se reagrupar e vão voltar. Albus, vá com Rachel até a cavalaria. Odeio dizer isso, mas precisamos de Harry Potter. Malfoy, cuide dos feridos. Organize tudo para sair daqui com eles. Estamos num campo aberto e perdemos nossa vantagem."
"E quanto aos mortos?" Mike perguntou.
"Não há nada que vamos poder fazer por eles neste momento."
Os aliados começaram a acender tochas ao longo de todo acampamento. Santana sinalizou os grupos que deveriam resgatar os feridos e aqueles que deveriam ficar em guarda. Ela própria passou a ajudar no resgate dos feridos confiando não apenas nas noções de primeiros socorros que tinha como também motivada a encontrar as pessoas que amava e que não conseguiu encontrar em meio a batalha.
Reconheceu uma figura que estava agachada ao lado de um ferido (ou seria um corpo?). Era Marley. Respirou aliviada por um momento até que reparou que a colega estava chorando compulsivamente. Santana ajoelhou-se ao lado dela, repousou a mão no ombro e olhou para a pessoa deitada no chão. Não reconheceu o homem por quem chorava, também não se importava. Puxou Marley para um abraço forte.
"Ele me salvou... Finn e eu nos separamos e daí... ele entrou na minha frente..." Marley não continha o choro.
Santana olhou novamente para o homem morto em meio a lama. Sentiu-se culpada por não reconhece-lo, sobretudo agora que sabia que o desconhecido aparentemente salvou a vida de Marley, por quem Santana tinha grande estima. De um jeito ou de outro, a atitude altruísta parecia aumentar mais e mais a dívida e a responsabilidade de Santana em relação aos rebeldes. Rompeu o abraço e só então pode checar o estado físico de Marley. A Hufflepuff estava com o supercílio aberto e o sangue cobria a lateral do rosto.
"Não me parece sério, mas você precisa ver Malfoy." Santana disse num tom mais baixo, cauteloso. "Não há nada mais que possamos fazer por ele. Ainda coisa que podemos lutar para honrá-lo. Para isso, você precisa se levantar."
"Ele me protegeu." Marley disse sem conseguir parar de chorar. "Ele morreu porque tomou a minha frente."
"Ele morreu como um herói. Só que ele foi embora. Isso não é mais ele e você precisa seguir adiante. Há uma batalha para terminar. Depois, nós voltamos, o identificamos e o honramos."
Santana segurou Marley pelo braço, a levantou e a abraçou mais uma vez. Queria dar tempo para a jovem respirar. Aquilo era uma guerra, pessoas morriam, se sacrificavam. A realidade era dura, crua.
"Lopez!" Rose correu até as duas. "Precisamos decidir o que fazer agora. Eles vão atacar novamente."
Santana acenou para Rose. Ela estava certa. Mas, primeiro, conduziu Marley até o posto improvisado de atendimento que Draco Malfoy organizava. Santana ficou impressionada e triste com a quantidade de feridos que tinha sido reunido. Tudo estava ainda confuso, Draco gritava com os demais medibruxos e voluntários sobre fazer triagem entre os feridos. Eles seriam separados de acordo com a gravidade. Enquanto Marley era tratada a toque de mágica, que consistia em jogar uma meleca no corte e colocar um curativo por cima, Santana foi andando devagar entre os feridos, observando de perto o trabalho dos medibruxos.
Entre os feridos estavam os gêmeos Scamander e mais alguns membros dos Weasleys. Henry Ollivander também estava desacordado e parecia estar em péssimas condições. Santana entendeu que na explosão, ele levou a pior. E que parte do sangue que estava nas roupas dela, era dele. Mas Santana não podia fazer nada por Henry. Ela, tão pouco, podia ter o luxo de sentir-se culpada. Entre os demais feridos, não havia sinais de Quinn Fabray, o que começou a deixar Santana apreensiva quanto ao destino da melhor amiga.
"Deixe-me ver isso." Draco abordou Lysander Scamander de modo nada sutil e examinou o corte no braço. Santana observou a ação a certa distância. "Não é nada!" Apenas pegou mais um pouco da tal meleca e a lambuzou no braço da integrante da Ordem do Hipogrifo. Depois enfaixou o ferimento. "Mantenha pressionado por uns cinco minutos que logo estará nova em folha."
"Malfoy." Santana juntou-se ao medibruxo. "Precisamos conversar."
"Não estou com tempo, Lopez." Draco disse de maneira rude.
"Eu sei... mas preciso que o senhor ajude a aparatar todos os feridos o mais rápido possível. Pode terminar o tratamento em outro lugar."
"Eles não vão voltar."
"Eles podem voltar. É uma tática de guerra." Santana disse firme. "Não temos muito tempo. Eles vão voltar e tentar nos pegar desestruturados para nos massacrar de vez. Então, você pegue os feridos que não podem e não querem lutar e dê o fora daqui em, no máximo 10 minutos. Fim da discussão."
"Quem te fez líder disso aqui, mocinha?"
"Eu sou a escolhida. Eu nasci líder."
Os feridos ali próximos observaram Santana com espanto. A chosen one sempre foi a líder que não queria ser. Alguém forçado pelo destino. Mas o front da guerra obrigou Santana a assumir de fato o papel que lhe cabia. O lugar estava uma zona, escuro, frio e começava a garoar. Mas Santana parecia um ser que não se afetaria com nada. Era como se ela pudesse convencer o mais hesitante a segui-la. Marley observou Draco luta contra o próprio orgulho. Ele, um representante de uma das mais tradicionais e respeitadas famílias de bruxos da história, um sangue puro, o sujeito que se tornou o melhor medibruxo da geração dele. Ali estava Draco recebendo um ultimato da filha mestiça de um subalterno filho de imigrantes que trabalhou com ele.
"Preciso de pelo menos 15 minutos para completar a triagem."
"Faça em sete!" Santana disse sem tirar os olhos do medibruxo. "E... obrigada por estar trabalhando nessas condições."
Santana viu observaram Finn Hudson se aproximar como um trator desengonçado. Ele abraçou Santana em primeiro lugar.
"Cadê Rachel?" O homem alto perguntou ansioso.
"Está bem. Ela esteve comigo o tempo inteiro. Mas eu a mandei para fora, numa missão juntamente com Albus."
"Graças a Merlin, Rachel está bem."
"Ela me salvou." Santana trocou olhares com Finn. Era a confirmação do que, no fundo, todos sabiam: de que Rachel era uma duelista extraordinária e podia muito bem cuidar de si mesma.
O galeão no bolso de Santana começou a vibrar e a ficar quente. Ela pegou a moeda e teve dificuldades de ler a mensagem. Era um código entre ela e Lily. Em meio às luzes parcas de tochas acesas, ela procurou ter certeza que leu o código certo. Então ficou pálida.
"O que foi?" Finn estranhou o comportamento inquieto de Santana.
"Lily... minha filha nasceu..."
"E agora?" Finn ficou apreensivo.
"E agora, nós vamos terminar essa guerra."
"O que tem em mente?"
"Vencer." Ergueu a varinha e enviou um discreto sinal luminoso, indicando que os líderes deveriam encontrá-la.
Não demorou cinco minutos, e Santana viu-se cercada por Finn Hudson, Rose Granger-Weasley, Scorpius Malfoy, Marley Rose, Mike Chang, os gêmeos Scamanders, Athena Milles, Grace James, Anya Caulfield e Gail Thomas.
"Lily teve o bebê." Santana informou especialmente para Rose.
Ela sorriu. Ao menos uma notícia boa em meio ao caos.
"Talvez seja melhor você acompanhar sua esposa. Acho que seria melhor adiar, de qualquer forma. Vamos nos retirar e reagrupar", Athenas Milles sugeriu.
"Não." Santana respondeu com firmeza. "Se a gente recuar, vão nos massacrar. Evans está atacando, significa que o exército dele está aqui, e não lá. Essa é a nossa chance."
"Você quer que todas essas pessoas arrisquem seus pescoços porque você não sabe recuar?" Milles insistiu.
"Eu recuei por três anos. Não mais."
"O que tem em mente, Lopez?" Scorpius perguntou.
"Vamos a Hogwarts."
"Por quê?" Finn perguntou.
"A varinha de Evans é tão poderosa e fiel a ele porque é essencialmente uma horcrux. Nós tentamos reutilizar o fragmento da varinha das varinhas, mas a explosão de hoje mais cedo mostra que eu sou incompatível com o manuseio dessa varinha que Ollivander tentou fazer."
"Por quê?" Finn perguntou.
"Eu não tenho a menor ideia, Hudson. A questão é que se a varinha de Evans é uma horcrux, a única arma que eu conheço capaz de destruir um objeto desses está em Hogwarts."
"A espada de Gryffindor." Rose murmurou. "Ninguém mais viu essa espada desde a última guerra. Não é ilógico correr atrás de um objeto que você nem sabe se está lá?"
"A espada está lá. Ela aparece sempre que um Gryffindor está em necessidade. Foi assim com o seu tio. Foi assim com Neville Longbottom."
"Não é muita pretensão dizer que será assim contigo?" Rose desafiou.
"Talvez." Santana encarou a prima de Lily. "A espada não precisa atender ao meu chamado, Weasley. Talvez ela atenda a você, ou a qualquer outro Gryffindor que mereça."
"E Lily?" Finn perguntou.
"Ela está em boas mãos."
...
Lily estava exausta. Depois de finalizar o parto com a expulsão da placenta, Tom a carregou, juntamente com a criança recém-nascida, até a casa do pequeno haras que o casal mantinha. Não deixava de ser coincidência que Lily, cujo patronus era uma égua, fosse parar num lugar daqueles. Tom a colocou em cima de uma cama de casal em um quarto amplo, porém muito simples. Carry pegou toalhas limpas para limpar e abrigar a bebê, enquanto Hermione ajudava o melhor que podia, Ginny tratou de limpar a filha. Ela pegou uma camisola na mochila, limpou Lily com uma toalha úmida, deixou-a decente, digna, antes de devolver a criança recém-nascida aos braços da mãe.
"É uma garotinha muito forte." Carry entregou a criança de volta para Lily, já limpa e seca, acomodada numa cama confortável.
Lily, mesmo exausta, sorriu fraco e abrigou a criança em seus braços.
"Ela precisa mamar. O leite desceu?" Ginny perguntou.
"Eu não sei. Na verdade, eu nem sei o que fazer. Eu deveria fazer todos esses cursos que as mulheres muggle grávidas fazem, mas eu não pude, não tive tempo." Lily ameaçou chorar. Ela estava feliz, apavorada, ansiosa, triste. Tudo ao mesmo tempo.
"Calma!" Ginny procurou consolar a filha. "Não é um bicho de sete cabeças. Leve a boca dela até o seu mamilo e vamos ver se ela vai conseguir pegar."
"Santana deveria estar aqui." Lily reclamou.
"Santana está resolvendo uma guerra." Hermione assegurou.
"Oh..." Lily espantou-se quando a bebê começou a sugar o bico do seio. "Ela é forte, e parece estar faminta!"
"Ela é perfeita." Ginny sorriu.
"Ela tem um nome?" Carry perguntou.
"Sim. Santana pode ficar chateada, mas eu acho que é um nome mais que justo."
"Não vai dizer?" Ginny questionou.
"Não enquanto Santana não chegar. É o que seria justo."
"Concordo."
"Mãe..."
"Sim?"
"Você passou o recado para Santana?"
"Sim."
"Então?"
"Lily, eu acho que você precisa descansar. Amanhã teremos respostas."
...
Aparataram em meio a floresta proibida. Daquele ponto não era possível ver Hogwarts devido a densa vegetação. Era preciso ter cuidado redobrado, pois agentes de Evans poderiam estar ali vigiando o espaço. Santana fez sinal para que fizessem silêncio. Apontou para a direção do castelo e conduziu o grupo com cautela. Assim que a floresta clareou, ela e seus companheiros estranharam a aparente tranquilidade. Podiam ver luzes acesas e alguns vigias circundando. Mas tudo estava aparentemente normal, considerando que havia uma guerra direta acontecendo. Hogwarts era um lugar estratégico por ser o coração de todo mundo mágico britânico.
"Sinto cheiro de armadilha." Mike comentou com o grupo.
"Rachel e eu estivemos aqui semana passada. Estranho seria se não tivessem tomado providência alguma." Santana apontou a varinha em direção ao castelo e conjurou um simples raio de luz. O grupo observou a pequena luz ser interrompida no que parecia ser um campo de força.
"Obviamente!" Albus resmungou. "Claro que esse obstáculo é nada. Só precisamos da varinha das varinhas e um exército para conseguir romper a barreira."
"A gente pode tentar passar por baixo." Santana disse já se movimentando.
"Onde você vai?" Rachel correu para o lado da irmã.
"À casa dos gritos. Há uma passagem por lá."
"Mas todas as passagens para entrar em Hogwarts foram desativadas." Marley argumentou.
"Nem todas. Podemos entrar mergulhando no lado pelo antigo sistema de esgoto ou podemos ir a casa dos gritos."
"Você não pode ir a casa dos gritos." Mike franziu a testa. "Além disso, a passagem que existia lá não levava ao castelo."
"Mas leva até ao salgueiro lutador, que está dentro da barreira. Isso é o suficiente." Santana continuou a avançar em direção a casa dos gritos sem ligar muito para os apelos do amigo.
Continuou a liderar o pequeno grupo composto pela Ordem do Hipogrifo até a velha casa dos gritos e depois apontou para Mike, Rose e Marley. Pediu para os demais ficarem em posição de espera. Os quatro avançaram em direção ao local que ainda guardava a fama de ser mal-assombrado. Mike sentia certo pesar em estar ali. A Casa dos Gritos era a residência informal de Teddy Lupin antes da guerra. Ele queria transformar o lugar em que o pai sofria as terríveis dores da transformação em algo revigorado. A guerra o fez abandonar a casa, mas ele sempre contava ao grupo da força de Inteligência como o lugar era importante.
Santana e Marley não conheciam esse lado de Teddy. Eles mal conheciam Teddy Lupin. Por isso que Mike sentiu-se mal quando desativou o feitiço de proteção que havia sido conjurado em uma das entradas. Ficou ainda mais injuriado quando Marley começou a mexer em alguns objetos assim quando entrarem para um local estranhamente bem-arrumado, apesar de poeirento, como se ninguém aparecesse há meses, o que era verdade.
"Não toque nisso por favor." Mike advertiu.
"Por quê?" Marley ficou confusa com o modo abrupto da fala de Mike.
"Porque essa é a foto dos pais de Teddy. É valioso para ele."
"Se é tão valioso, porque está aqui nessa casa velha?" Marley questionou.
"A casa está protegida, caso não tenha reparado." Mike respondeu à colega mais nova. Ele ainda achava estranho trabalhar com a equipe do campo de refugiados. Eles pareciam amadores frente ao que ele, Lorcan, Teddy, Rose, Scorpius e Quinn fizeram. Infelizmente Teddy se feriu gravemente e ninguém sabia de Quinn.
"Marley..." Santana chamou a atenção da amiga. "Estamos aqui a negócios. Deixe as coisas de Lupin em paz." Voltou-se para Mike. "Onde é a passagem?"
"Ela estava bloqueada, Lopez."
"Isso é o que a lenda diz." Disse seguindo o colega.
Os quatro desceram as escadas para o porão e, depois, Mike resmungou. Ele parecia muito bem onde estava pisando. Abriu uma espécie de baú, que revelou ser a passagem secreta que precisavam.
"As passagens para Hogwarts estavam bloqueadas, exceto a que conectava a sala precisa ao bar de Dumbledore." Marley estava admirada com a revelação.
"Algumas foram recuperadas em segredo." Mike resmungou e depois voltou-se para a líder. "Como sabia? Teddy nunca quis envolver esse lugar nessa bagunça."
"Meu pai sabia. Ele próprio ajudou na restauração dessa passagem quando Lupin ainda estudava em Hogwarts." Rose disse quase casualmente. "Mas ele nunca considerou essa passagem muito útil porque ela não leva propriamente até o castelo, mas sim até ao salgueiro lutador."
"Este é o segredo mais mal guardado do nosso mundo." Santana desdenhou. "Por isso que precisamos ter cautela."
Entraram no túnel e verificaram todo percurso em busca de armadilhas ou qualquer problema. Tudo parecia limpo. Santana sinalizou para que o restante do grupo se juntasse a ele. Em poucos minutos, todo o grupo estava atravessando a passagem secreta em fila indiana. Santana à frente e Lorcan como último homem. Chegaram em segurança até o fim do túnel e sorriram com o objetivo alcançado. Hogwarts estava protegida, mas área não incluía o subsolo. Santana conjurou o feitiço para paralisar o Salgueiro.
"E agora?" Mike perguntou ainda irritado.
"A torre negra nunca é protegida e eu conheço todos os atalhos dela." Santana observou. "Marley e eu vamos voando até lá."
"Marley?" Scorpius questionou. "Com todo respeito, mas Rose passou tempo demais fora da guerra. Ela não está preparada."
"Eu me virei muito bem até agora e posso continuar assim." Marley bronqueou. "Não me subestime, Malfoy."
"Além disso..." Santana abriu um sorrisinho. "Eu posso voar, mas não tenho super-força. Marley e Rose são as mais leves entre todos nós. Nós entramos por cima. Nosso alvo é a antiga sala comunal de Gryffindor. Se conseguirmos chegar lá sem sermos notadas, melhor ainda."
"Você deveria levar um segundo time." Malfoy ainda estava incerto de que aquele era o melhor plano.
"Quanto menos gente melhor nesse tipo de trabalho." Rose se pronunciou. "Mas eu concordo com Scorpius num ponto: com todo respeito, mas Marley não é a melhor opção. Se o peso é o seu problema, me leve. Tenho experiência nesse tipo de trabalho."
Santana pensou por um momento e viu que Rose tinha razão. Afinal, Rose permaneceu ativa e na linha de frente durante todos aqueles anos. A escolhida Santana abraçou Rose e alçou voo. Ou melhor, pulou alto com algum controle de direção. Ainda precisaria de muito tempo para controlar tal habilidade. Mas o que tinha, por hora, lhe servia. Sobrevoar o castelo trazia sensações conflitantes para ambas garotas. Era a primeira vez que Rose voltava a Hogwarts desde que se formou. Para a Granger-Weasley, Hogwarts não tinha nada além do que boas lembranças. Para Santana, a tomada de Hogwarts e ascensão de Evans foi o evento mais traumático de sua vida até o presente macabro que recebeu no dia seguinte ao casamento. Voltar a Hogwarts, entrar efetivamente no castelo, era como enfrentar alguns fantasmas interiores.
Pousaram no alto da torre negra, exatamente no pátio em que quatro anos antes as adolescentes Santana e Lily estavam se divertindo num encontro antes da bomba literalmente estourar. As lembranças estavam lá, mas Santana as reprimia. Sinalizou para a colega que ela deveria ficar atrás, como apoio. Desceram as escadas em silêncio e precisaram se esconder rapidamente quando perceberam um monitor se aproximando. Era um aluno com o escudo de Slytherin que parecia alheio a toda situação. Deixaram ele passar e continuaram a jornada até a antiga casa de Gryffindor.
Apesar do desgosto geral quando a cada de Gryffindor foi extinta em Hogwarts, a ação do governo supremacista não foi uma surpresa. Era como se o novo governo quisesse eliminar a principal fonte de oposição do mundo bruxo. Ravenclaws podiam ter moralidade dúbia porque a racionalidade que lhes era natural rejeitava extremos e tendia a seguir a uma linha política de centro, o que não era de todo mal. Os Hufflepuffs sempre foram a cola do mundo bruxo e Evans usou a experiência que ele teve exatamente naquela casa para ser um líder mais carismático. Os Slytherins tendiam a ser conservadores.
Todos os gryffindors veteranos foram expulsos de Hogwarts, os alunos até o terceiro ano foram remanejados para outras casas. A torre de Gryffindor foi lacrada e abandonada. Dizem que os fantasmas relacionados à casa foram confinados entre as ruínas. Santana não estava interessada nos fantasmas e muito menos no destino da casa a qual deveria ser destinada. Ela precisava de uma arma e a melhor chance que teria para encontrá-la era naquela torre em ruínas. As duas esperaram o movimento em frente as escadarias passar antes de avançarem.
"Quem me dera ter o manto do seu tio." Santana sussurrou para Rose. "Tinha de estar cheio logo aqui?"
"É possível saltar da torre negra até uma das janelas dos dormitórios. Se a hipogrifo voou do salgueiro até lá, um salto de alguns metros será nada."
Voltaram a torre negra, trajeto feito com relativa facilidade. Subiram no alto da torre e Santana calculou a distância e a força que deveria fazer. De fato, o salto seria nada se comparado com o que teve de fazer anteriormente.
"Prepare-se para estourar a janela. Eu vou estar ocupada te segurando... e voando."
Abraçou Rose e saltou diretamente em direção a uma das janelas dos dormitórios da torre de Gryffindor. Rose fez a parte dela e quebrou a janela antes das duas colidirem. Passaram através da estrutura, Santana se desequilibrou com o choque num caco de vidro e as duas rolaram no chão do que costumava ser o dormitório dos garotos. Santana serrou os dentes quando tirou um pedaço de caco nas costas.
"Deixa eu ver..." Rose examinou rapidamente a colega.
"Não foi nada."
"Mas está sangrando. Dois minutos de um pouco de pressão e..."
"Rose..."
Santana chamou atenção da colega quando viram adolescentes entrarem no quarto. Era garotos e garotas que pareciam ter a idade entre 12 e 17 anos, ou seja, a idade de qualquer aluno regular. A diferença era que eles tinham semblantes cansados. Alguns apresentavam hematomas e ferimentos. Outros tinham roupas rasgadas e estavam sujos. Um deles se aproximou das duas jovens mulheres, um adolescente de 15 anos, com traços indianos e cabelos num corte militar.
"Você voltou! Amelia disse que você voltaria e você voltou!"
"O que está acontecendo aqui?" Santana estranhou. Na semana anterior, os alunos não pareciam em situação tão desesperadora.
"Eu conheço você." Rose interrompeu Santana e se aproximou do garoto. "Você é filho da Parvati Patil. Seu pai é um muggle e eles vivem em Leeds, certo?"
"Sim."
"Parvati... não acredito! Eu convivi com a sua tia durante esses últimos meses." Santana voltou a conversar. "Padma está com os refugiados junto com Longbottom. Ela falava da irmã e dos sobrinhos. Desculpe por não te reconhecer."
"Tudo bem..." O menino acenou timidamente.
"O que aconteceu aqui?" Rose perguntou. "Essa torre deveria estar lacrada e abandonada."
"Deveria..." O menino respondeu em meio a outros curiosos. "É que a gente precisou de um lugar para se refugiar. Tentamos resistir e dar o troco após a sua visita. Mas eles foram mais fortes."
"Cadê Amélia James?" Santana perguntou.
"Está presa nas masmorras."
"Você veio aqui tomar Hogwarts de volta?" Perguntou uma garota de cabelos castanhos claros que parecia ter a mesma idade do filho de Parvati Patil.
"Não posso. Há uma guerra além da barreira. É onde eu devo ir depois de pegar o que preciso."
"O que você precisa?" O sobrinho de Padma perguntou.
"A espada de Gryffindor." Santana respondeu.
"Ela só aparece para um Gryffindor em necessidade. Sem mencionar que ninguém a vê desde a segunda guerra bruxo. Ninguém sabe onde ela está."
"Também não há mais Gryffindors em Hogwarts." Disse uma garota que parecia ser mais jovem.
"Quem disso isso?" Santana argumentou com mais ênfase. "Eu sou uma Gryffindor que foi forçada a ficar em Slytherin por questões políticas de gente que interferiu na minha vida desde cedo. Quem garante que você não está na mesma situação? Ou alguns de vocês? Eles eliminaram a casa de Gryffindor, o que não significa que não exista mais Gryffindors natos. E se alguns de vocês estão aqui conversando conosco sem correr para soar alarmes por sermos invasores, bom, isso prova o meu ponto."
"Ok, suponhamos que esteja certa. Ainda assim não sabemos onde está a espada. Como vamos acha-la?"
"Vamos torcer para que a magia dê certo. E que a espada aceite nossa causa como justa."
...
Era realmente difícil tentar revirar um castelo sem poder ser visto. Ao passo que os demais alunos tinham alguma flexibilidade para ir e vir. Era incômodo para Santana e Rose transitar pelo castelo desconfiando de qualquer barulho ou sombra. Vertiam o robe da escola e chapéu pontudo. Santana vestia o verde de Slytherin, o que lhe deixava à vontade, pois foi a roupa que usou com orgulho por anos. Rose vestia um robe emprestado de um aluno Hufflepuff. Ela não se importava com aquilo.
Sabiam que, no fundo, aquela caça tinha poucas chances de ser bem-sucedida. Que provavelmente não teriam como encontrar a espada antes de alguém ser pego e dar com a língua nos dentes. Foi quando mudaram os planos. Rose entrou na sala de poções e misturou alguns ingredientes enquanto Santana ficou de guarda.
"Não estou bem certa se isso vai funcionar, Lopez. Parece loucura."
"Você me disse que a linha de frente fazia isso todo instante."
"Não deu certo na última vez. Quinn pagou o preço."
"Eu sei." Santana suspirou. "Mas esta é nossa última cartada. A minha última. Estou cansada, Weasley. Todos nós estamos exaustos. Isso tem que acabar aqui. Os velhos podem resolver a política depois."
Rose acenou. Ela terminou a poção e a colocou num frasco vedado. As duas saíram da sala sorrateiras em meio a escuridão do castelo de Hogwarts. Desejavam estar fazendo coisas diferentes. Santana sonhava em estar com Lily, mas tinha um trabalho urgente a fazer.
"Eis a sala precisa..." Santana suspirou em meio ao breu dos corredores do castelo, em que apenas uma parca tocha de parede fornecia alguma luz naquela alta madrugada. "Precisamos nos separar agora..."
"O que foi?" Rose franziu a testa quando Santana parou a frase no meio. Observou a escolhida levar a mão ao bolso de trás da calça e pegar o galeão. "Lopez? O que foi dessa vez?"
"O seu pai e os outros estão à caminho..." Ela disse baixinho, quieta.
"Você não está de acordo?"
"Eu não queria travar uma luta em Hogwarts."
"O que vai fazer? Quer dizer, ainda está em tempo de abortar tudo. Você pode ir ficar com Lily e sua filha."
"Pelo contrário. Não posso permitir nem mais um minuto que ela viva neste mundo fascista. Eu tenho que acabar com isso aqui e agora. Por isso que você tem que ir e seguir com o novo plano."
"Boa sorte." Rose se afastou de Santana.
A chosen one ainda observou a colega desaparecer pelo corredor. Suspirou e permitiu que uma lágrima escorresse pelo rosto. Deu-se o direito de ficar emocional por um minuto e um minuto apenas. Depois secou as lágrimas, respirou fundo e encarou a parede à sua frente. Uma porta surgiu como mágica. Santana a atravessou e sorriu ao rever a velha sala em que passou horas e horas treinando primeiro com Albus Potter e depois com as pessoas que viriam formar a Ordem do Hipogrifo.
Ela sentou no chão em posição indiana e esperou.
...
Marley pegou o galeão de queimava e tremia dentro do bolso. Franziu a testa enquanto conferia a mensagem. Achou que algo não estava certo.
"O que foi?" Finn se aproximou quando percebeu a cara de preocupado do amigo.
"Mudança de planos."
"O quê?" Scorpius reagiu com desproporcional energia ao ouvir a notícia. "Como assim mudança de planos? Este era bem razoável. Por que mudar os planos?"
Marley olhou mais uma vez para o galeão. Havia uma nova mensagem e depois ele olhou em direção ao castelo. Havia um pouco mais de movimento próximo a ponte de entrada.
"Vamos ter de esperar por Rose."
...
Santana levantou-se com calma quando ouviu o primeiro choque contra a parede. Ela segurou a varinha e ébano com núcleo de grifo e se preparou. Quando a parede cedeu numa explosão, a escolhida se envolveu num campo de força, desviando os estilhaços para longe do corpo dela. Colocou um falso sorriso no rosto e encarou o grupo que entrou na sala precisa. Lá estava o diretor da escola, alguns dos professores e ainda reconheceu um dos alunos que ocupavam as ruinas de Gryffindor. Acenou para o adolescente.
"Sempre há um traidor..." Disse para si mesma.
Atacou com toda força e habilidade que tinha. Ela sabia pelo menos uma coisa a respeito do cerco: de que não seria morta ali. Eles precisavam a capturar viva para que Evans a matasse como um espetáculo público. Isso seria fundamental para que ele pudesse afirmar a autoridade e abafar a série de motins que acontecia no Reino Unido, uma vez que a Europa havia sido retomada quase que a totalidade. Samuel precisava de um feito político simbólico. Sem o "hipogrifo", a aliança internacional que isolava a Inglaterra lhes daria tempo para renegociações.
Santana iria se divertir enquanto podia. Não ia facilitar.
"Expelliarmus!"
"Levicorpus!"
"Estupefaça!"
"Fulgari!"
"Estupore!"
Santana ouviu tudo que é tipo de feitiço sendo conjurado contra ela, nenhuma maldição imperdoável, e foi capaz de desviar de todos. Ela sabia que tinha plenos poderes para provocar uma onda de energia capaz de derrubar todos os adversários, mas não o faria. Não era parte do plano vencer ali. Voou por cima dos professores e tentou alcançar a parede destruída. Conseguiu derrubar dois professores com contra-feitiços e correu pelo corredor até ser atingida pelas costas. O impacto a jogou para a frente e Santana perdeu a consciência antes mesmo de seu corpo tocar ao chão.
...
Anna Martel olhou pela janela, estranhando o estranho movimento em Hogsmeade no raiar dos primeiros raios de sol do outono chuvoso do norte da Escócia. Os moradores e lojistas do pequeno vilarejo bruxo estavam indo à principal avenida atraídos pela agitação que acontecia nas proximidades de Hogwarts. Ainda incerta, a administradora do correio de corujas correu para conversar com a Clara Hamilton, que trabalhava na loja de materiais esportivos.
"O que está acontecendo?" Ele perguntou.
"Lopez foi capturada em Hogwarts. Evans está a caminho."
"Ele vai matá-la." Anna disse como um suspiro para a mulher que sabia que simpatizava pela causa rebelde, mas que, assim como ela, não teve a coragem de ir para o front.
"Pelo menos essa guerra vai chegar ao fim." A moça disse com melancolia.
"Será?"
"A gente precisa seguir com nossas vidas." A mulher concluiu e entrou para dentro da loja. Não ia querer ficar no fogo cruzado.
...
Santana estava com os punhos amarrados e com braços voltados para trás do corpo. Estava de joelhos olhando em direção a ponte de entrada da escola em que podia ver uma pequena multidão se aproximando. A forma como o grupo se moveu, mostrou que o campo de proteção em torno da escola havia caído, o que, para ela, era um bom sinal. Era início da manhã, o sol ainda não havia nascido, mas era possível ver a luminosidade do astro rei surgindo por de trás das montanhas que circundavam o castelo. Garoava. Ao lado de Santana estavam o diretor da escola e alguns dos professores. Atrás dela estavam os estudantes, inclusive os rebelados. Alguns apreensivos, outros ansiosos para ver o espetáculo final.
Samuel se aproximou acompanhado dos death eaters mais próximos, liderados por Noah Puckerman. O momento havia chegado.
"Finalmente." Evans parou diante da adversária e apontou a poderosa varinha para a adversária, com a ponta a poucos centímetros do rosto dela. "Seria muito simples. É até tentador, mas não é assim que eu vou te vencer."
Samuel sinalizou para o diretor de Hogwarts, que entregou-lhe a varinha de ébano e núcleo de grifo. Ele pegou o objeto com certo desprezo. Analisou rapidamente o material e envergou a varinha com as duas mãos, que provou ser mais resistente do que o normal.
"Foi você quem fez? Não que isso realmente importe. Só estou curioso."
"Foi um presente." Santana respondeu procurando controlar a própria emoção. Para o plano dela continuar a dar certo, ela precisava jogar.
"Interessante." Samuel jogou a varinha em Santana, de maneira grosseira, com o intuito de humilhar e menosprezar. "Pode pegar a sua varinha, Lopez. Você vai precisar dela se quiser sobreviver cinco minutos."
Era um convite a um duelo. Logicamente que Samuel não poderia assassiná-la a sangue frio, porque isso iria desmoralizá-lo. Era uma lição que ele aprendeu com Voldemort, que morreu como um mortal qualquer. Não, ali ele tinha uma situação controlada. Pensava que havia esmagado a rebelião na Inglaterra ao mandar atacar o acampamento. Não havia muita ajuda restante a Santana. E mesmo se houvesse, ele tinha a elite do próprio contingente aguardando qualquer tentativa de ataque surpresa. De muitas formas, aquela era a linha final que a profecia se referia. Seria a afirmação de Samuel como ditador da região do planeta com maior energia mágica.
Santana mexeu os dedos e a varinha voou até a mão atada para trás. Num movimento rápido, ela conseguiu se libertar e levantou-se já preparada para o duelo.
"Se eu morrer..." ela tentou falar.
"Não se preocupe, Lopez, sua morte será uma benção, pois você não estará mesmo aqui para testemunhar o fim da sua linhagem."
O peito de Santana encheu-se de fúria. Ela estava disposta a dar a vida dela, mas Samuel havia acabado de deixar claro que Rachel e a filha recém-nascida seriam as próximas. Ele não iria parar com as duas. Quem seriam os próximos? Os Potters? Os Weasleys? Os Longbottons? Os Scamanders? Quinn? Não, Samuel estava viciado não apenas no poder político e financeiro. Ele queria o poder de decidir entre a vida e a morte.
Santana foi a primeira a atacar.
"Expelliarmus."
Foi um golpe correto, bem aplicado, mas a varinha permaneceu nas mãos de Samuel. Ele sorriu.
"Você não é tão forte quanto disseram." Samuel desdenhou.
"Everete Statum."
Samuel foi surpreendido por uma fortíssima onda de choque que o jogou para trás, chegando a dar uma cambalhota no chão. Santana sorriu quando viu que o adversário ficou assustado. Como se há a muito tempo ninguém tivesse o afetado daquela forma.
"Então você ainda sangra." Santana disse ao ver a mão esfolada de Samuel, devido ao choque e ao atrito com o chão.
"Avada Kedavra!" Samuel atacou com ódio, mas Santana se defendeu, fazendo que a poderosa energia verde fosse dividida e desviada a partir da ponta da varinha dela.
Houve uma comoção em quem testemunhava o duelo: parte dos moradores, alunos e professores de Hogwarts, além da guarda de elite de Samuel. Santana era a primeira pessoa que conseguia se defender de uma maldição imperdoável desferida por Samuel desde que ele construiu a própria varinha.
"A brincadeira acabou." Samuel gritou.
Nesse meio tempo, a cavalaria chegou. Harry Potter atacou Samuel apenas para chamar a atenção dele. O chosen one da segunda guerra bruxo posicionou-se ao lado da nora e encarou Samuel.
"Quais são suas ordens, Lopez." Harry disse a Santana.
"Isso acaba aqui."
Foi a ordem para que o grande confronto direto entre os dois grupos finalmente tivesse início. Muitos ali tinham suas próprias questões a resolver. Ali estavam, por exemplo, Glory Watson, lutando bravamente contra minions e de olho em Noah Puckerman, que a estuprou durante a primeira copa do mundo de quadribol escolar. Também se via Rachel e Finn lutando lado a lado, Albus e Scorpius repetindo a velha parceria, Marley, Mike e Teddy Lupin trabalhavam em equipe. Alguns dos alunos, especialmente os mais velhos, reagiram em favor da Ordem, e voltando-se contra os colegas que eram seus repressores dentro da escola. Os mais velhos também batalhavam: Ron Weasley com os irmãos, noras sobrinhos e sobrinhas contribuíram no duelo.
As forças internacionais também estavam ali, sinalizando a Samuel e aos aliados supremacistas de que aquela história iria chegar ao fim. Era o dia D.
Glory finalmente encarou Puckerman.
"Lembra de mim?" Ela perguntou com fogo nos olhos e fel na boca.
"Claro. Foi o pior boquete que recebi na vida."
"Sectumsempra", Glory conjurou o ataque que raramente era usado por um bruxo. Puck caiu e gritou ao sentir os vários cortes sendo abertos na própria carne. "Agora você sabe a dor que eu senti." Glory disse ao passar por Puckerman e seguiu adiante na batalha, deixando o terror da vida dela para trás, morrendo de hemorragia.
Rachel era uma duelista fabulosa. Finn, que por anos recebeu treinamento de Neville Longbottom, também era muito habilidoso. Eles encontraram pela frente uma Amber Nox enlouquecidíssima. A death eater estava prestes a interferir no duelo central, mas Rachel foi mais rápida e a empurrou antes que ela tivesse a chance de conjurar uma maldição imperdoável nas costas de Santana.
"Cuidado garotinha. Você não sabe com quem está se metendo."
"Se você chegar perto dela, eu te mato!" Rachel esbravejou.
Mas foi Nox quem atacou primeiro, fazendo com que uma energia de um stunning impactasse no tórax de Rachel, a fazendo cair no chão com falta de ar. Finn tomou a frente, enfrentou a bruxa experiente. Ele estourou a vitrine da loja de livros e conjurou para que vários livros voassem em direção a bruxa. Sem conseguir desviar todos, Nox foi atingida justamente na cabeça pela maior e mais pesada enciclopédia sobre as invenções dos muggles britãos a partir da lenda do Rei Arthur. A death eaters desmaiou, o que permitiu Finn ir até Rachel.
"Está bem?"
"Só muito dolorida." Finn ajudou Rachel a se levantar.
"Você deveria..."
Finn não terminou a frase. Foi atingido por uma energia verde e caiu em cima de Rachel. Estava morto. Rachel desesperou-se pela situação. O marido dela estava morto. Ela não parava de chama-lo pelo nome, mas Finn não respondia. Já tinha ido. No campo de visão borrado, ela viu ninguém menos que Netunus Black. O jovem homem que outrora simpatizava com Santana e os rebeldes, passou a odiá-los depois de ser mantido prisioneiro por semanas por Juan Lopez. Isso o arruinou dentro do Ministério da Magia. Matar Finn Hudson para ele não representou nada. Mas em baixo do corpo de Hudson, estava uma chorosa, desesperada e indefesa Rachel Berry. Aquela sim seria uma morte importante que ele poderia gabar-se. Depois de Rachel, ele beberia um vinho com Kurt Hummel, que ofereceu a ele comida, água, entre outras coisas, enquanto esteve no cativeiro. Os dois ficaram próximos.
Antes que ele pudesse conjurar a maldição imperdoável, alguém o atingiu com os pedaços de caco de vidro. Netunus, ferido, não teve escolha a não ser refugiar-se. Athena Milles tirou Finn de cima de Rachel e a ajudou a se levantar.
"Finn..."
"Lute agora e chore depois." A auror disse com dureza na voz. "Sua irmã está segurando Evans por todo esse tempo não se sabe como. Se ela não está fraquejando, você também não pode."
Mesmo que o lado internacional fosse mais forte, aliados importantes caíam durante a batalha. Heidi Macavoy, Anya Caulfield e Greil Thomas sucumbiram. Mas a morte que viria a ser mais sentida, além de Finn Hudson, seria de Mike Chang. Morreu em decorrência de uma barra de ferro que foi fincada no peito dele como consequência do fogo cruzado. Ele não era o alvo. A barra o encontrou quando Albus Potter desviou-se do objeto atirado contra ele. Não havia o que fazer.
Na luta central, Samuel tirou Harry Potter da briga com dificuldades, deixando Santana o encarando sozinha.
"Expelliarmus!" Samuel disse num momento de desatenção de Santana.
Santana esticou a mão para a varinha voltar a ela, mas Samuel desviou a rota do objeto, que acabou sendo destruído no ar. Santana precisou proteger o rosto, mesmo assim, um estilhaço da varinha a feriu no braço. Era uma madeira do tamanho de um palito de dentes que entrou na carne do braço direito. Santana tirou a madeira do corpo e encarou Samuel. Estava sem varinha, cansada, e ele ainda tinha a varinha-horcrux que lhe obedecia como um cachorro fiel.
No primeiro ataque de Samuel, Santana defendeu-se com as mãos livres. O impacto foi tão forte que ela teve certeza que alguns dos ossos da mão foram deslocados. Mais um ataque de Samuel, e Santana precisou de um esforço muito grande para manter-se protegida sem uma varinha.
"Acabou, Lopez!" Samuel sorria satisfeito. "Eu vou te matar tão lentamente, que você chegará ao outro lado traumatizada, pedindo clemência. Sua mãe morreu num instante. Ela nem soube o que a atingiu. Mas o seu pai... ah eu me diverti com o seu pai antes de cortar a cabeça dele para te entregar. Você quer saber o que ele sentiu?"
Mais um ataque que fez Santana defender-se com conjurando protego sem varinha. Por mais que fosse considerado extraordinária a habilidade que ela tinha em conjurar feitiços complexos sem precisar da varinha, a advertência que recebia dos professores era verdadeira: era altamente cansativo, e o desgaste físico inevitável. Mais um ataque, mais uma defesa e Santana foi ao chão no meio da rua principal de Hogsmeade. Samuel sorriu e apontou a varinha para o próprio pescoço.
"Meus amigos, vocês são privilegiados em testemunhar aqui o início de uma era em que nós bruxos poderemos ser soberanos em nosso próprio mundo. Uma era em que um bruxo puro não será mais subjugado por um bruxo de sangue ruim inferior. Não aceitaremos mais ordens desse tipo de gente. É a era que não teremos mais Hermiones Grangers comandando nossa sociedade e nem uma mestiça gay como essa garota como a escolhida. Está na hora de todos souberem o que nós sabemos. Que essas pessoas são, na verdade, símbolos de repressão. Símbolos da nossa repressão. Isso acaba agora."
Quando Samuel girou o corpo para voltar-se novamente contra Santana, ele foi atingido no rosto por uma ave que colidiu contra ele.
Um falcão.
Samuel gritou de dor. Uma das garras do falcão atingiu certeiramente o olho esquerdo. Passada a surpresa, alguns death eaters apontaram suas varinhas em direção a ave que fugia, mas os aliados deram cobertura ao pequeno animal, reiniciando alguns dos confrontos.
Em meio ao novo fogo cruzado, Rose Granger-Weasley (sob efeito da poção de polissuco) correu pelas costas de Samuel, tirando uma espada de dentro do robe de death eater. Aproveitou a oportunidade única que teria e golpeou a varinha com a espada de Gryffindor. A explosão provocada com a quebra da horcrux jogou o corpo dela, de Santana e de todas as pessoas próximas para trás devido ao poderoso impacto. Houve um momentâneo silêncio. Quando a fumaça se dissipou, Ezra Goyle ajoelhou-se até o fiel amigo, que estava com a lateral do rosto sangrando e visivelmente atordoado. O mesmo acontecia do outro lado. Rachel correu para o lado da irmã.
"Expelliarmus!" Alguém que veio de dentro da loja de varinhas de Henry Ollivander. Ela conjurou alto, para chamar atenção. Era uma mulher linda e que estava completamente nua. Quinn Fabray finalmente havia mostrado ao que veio.
"Agora!" Gritou.
De repente, outras pessoas saíram correndo de dentro da loja para a arena. Era pessoas comuns, a população cansada de ser explorada e coagida, atacando os death eaters e aliados com tudo que tinham.
"Você consegue andar?" Rachel perguntou assim que conseguiu ajudar a irmã em meio ao fogo-cruzado.
"Tô com vontade de vomitar..." Santana disse ainda meio grogue. "Minhas pernas estão moles e minhas mãos..." Disse e de fato vomitou quase em cima da irmã. Santana estava trêmula.
Rachel olhou para os lados, abraçou a irmã por trás, pelas axilas, e a arrastou para dentro da loja de doces e o mais longe possível da confusão. Um death eater apareceu no caminho. Rachel derrubou a irmã no chão e apontou a varinha contra o agressor. Errou o primeiro golpe e o seguinte foi defendido. Surpreendeu-se quando o death eater foi ao chão, atacado por uma segunda pessoa. Era Ron Weasley, que corria para tirar o cunhado, Harry Potter, de cena antes que ele fosse morto por um oportunista. Rachel acenou agradecida e voltou a se concentrar na irmã.
"Essa foi por um triz." Rachel comentou quando encontrou um local mais isolado e sentou-se ao lado da irmã.
"Eu preciso acabar com isso..."
"Você vai deixar o heroísmo um pouco para os demais por cinco minutos, ok? Nem consegue ficar de pé! Eu vou te proteger."
Ao passo que Santana estava completamente drenada de energia pela quantidade de tempo que precisou sustentar a barreira de protego horribilis em si mesma, Samuel parecia um cão raivoso. Com o rosto sujo com o próprio sangue e poeira, ele tomou a varinha de um aliado e começou a atacar quem via pela frente. Provou que mesmo sem o próprio instrumento, ainda era um bruxo altamente treinado e poderoso.
"Você não vai passar!" Para a surpresa de todos, foi James Potter quem entrou na frente do escolhido das trevas. Rachel aproveitou a proteção e correu com Santana para fora da loja.
"Não sei se é o meu olho ruim, mas por um momento achei que o filho covarde de Harry Potter estive disposto a me enfrentar." James manteve-se firme na posição, provocando uma risada falsa de Samuel. "O que foi Potter? Você é o cara que sobrou. Que achou que seria uma estrela do quadribol, como a prima, e acabou virando nada. Um idiota covarde que escolheu viver acoitado em outro continente colocando refugiados em cima de um trem. Acha mesmo que pode me encarar? Você é um nada!"
James atacou primeiro e ficou surpreso que o golpe foi desviado com facilidade por Samuel. A visão comprometida lhe deveria comprometer noções de profundidade, que ele deveria deixar de ver por um certo ângulo. James deveria ter teórica vantagem, mas não era o que estava acontecendo. Ele estava tendo problemas em conter os ataques de Samuel: rápidos e precisos. O pior de tudo era que Samuel parecia se divertir.
"Destruccio." Samuel conjurou e conseguiu quebrar o nariz de James, que levou a mão ao rosto por causa da dor. "Destruccio." Samuel repetiu, desta vez quebrando o braço, o que fez a varinha de James cair. "Destruccio."
Foi a vez da perna de James se quebrar, fazendo-o perder o equilíbrio e cair no chão, batendo a cabeça contra o parapeito da ponte.
"Acabe logo com isso." James disse com a coragem que lhe restava.
"Destruccio." Samuel apontou a varinha para a outra perna. "Destruccio." Foi a vez do braço ainda bom. "Destruccio." Apontou para a caixa torácica. "Desdruccio." Apontou para a mandíbula.
Deixou James no chão para morrer imóvel, em dor e agonia. Olhou ao redor e ficou preocupado ao perceber que os death eaters estavam em desvantagem. Os death eaters estavam sofrendo para manter a posição. Albus e Scorpius faziam o melhor deles contra os duelistas mais experientes. Albus nem tinha ainda se dado conta do que aconteceu com o irmão mais velho. Mas Rose estava lá. Ela gritou pela dor de ver o primo morto e tentou atacar Samuel com a espada de Gryffindor, mas foi atingida e arremessada para longe.
Marley lutava contra o diretor de Hogwarts. O fato de estar conseguindo fazer frente e até ganhar alguma vantagem mostrava o quanto ela foi bem preparada. Ron, por sua vez, estava perturbado. Ele viu o sobrinho cair e não estava se segurando. Era a dor da perda do filho que era revivida. Rachel continuava a ver os duelos entre alunos e as explosões que aconteciam enquanto protegia Santana. Estava numa ruela entre as lojas, onde ninguém estava. A questão é que ela não iria conseguir manter a posição por muito tempo.
Samuel avançou em direção a ruela. Ele sabia que Santana estava em posição vulnerável. Era a melhor oportunidade que teria em liquidar uma pessoa que era mais poderosa que ele, sobretudo quando ele não tinha mais a horcrux, a varinha que era a conquista dele numa posição de privilégio na Ordem dos Puros.
Ele matou uma pessoa que amou. Por mais que Brittany amasse Santana, e por mais que ele, Samuel, fosse obcecado por Quinn Fabray, ele chegou a amar Brittany. Essa era a condição para a escolha da vítima: amor. Ele atraiu Brittany, facilitou o fato de ela estar magoada justamente com o relacionamento entre Santana e Lily, a estrangulou, a matou e arrancou o coração dela. Ele dissecou o músculo e no tempo certo realizou a segunda etapa da construção do objeto. Cortou um amieiro, a árvore cuja madeira escolheu por ser ótima para feitiços não verbalizados e pela fidelidade ao dono. Ele matou um thestral. Foi para a Romênia, matou um dragão com requintes de crueldade para ter certeza que o animal sofreria usando apenas uma espada – etapa que o mentor Zabini nunca conseguiu concluir e acabou ganhando as cicatrizes que o fez se tornar um recluso.
Samuel irrigou o coração dissecado e a madeira no sangue do poderoso animal junto com o próprio e comeu parte da própria carne num ritual macabro. Formatou a própria varinha, mandando posteriormente Henry Ollivander a esculpir para satisfazer a própria vaidade. Assim a horcrux foi feita. A peça guardava uma parte da própria alma. Agora que havia sido destruída, ele sentia que não tinha nada mais a perder.
"Você não vai dar mais um passo adiante." Rose, já sem o efeito da poção, entrou na frente do poderoso bruxo, o desafiando para um duelo.
"Weasley. Vou adorar derramar o seu sangue ruim."
"Não vai não." Scorpius ficou lado a lado com a namorada para enfrentar o lorde das trevas.
Samuel sorriu e com um movimento enfático de varinha, provocou uma onda de choque que derrubou o casal, arremessando seus corpos metros para trás. Houve uma intensificação no movimento da rua. A batalha se espalhou pelo vilarejo, pela estação de trem e parte dos arredores. Podia-se ver alguns estendendo os duelos até na estrada que ia para Hogwarts.
Entre as pessoas que travavam duelos nos arredores do vilarejo estava Draco Malfoy. Draco havia atingido um requinte peculiar como duelista. Ele também era, de certa forma, um humorista. Como medibruxo, Malfoy fez alguns juramentos sobre o código de ética da profissão, mas aquela era uma guerra, afinal. Provavelmente a última grande batalha. Em vez de bombardas e estupefaças, usava azarações que deixavam o oponente fora de combate sem ferí-lo gravemente o mata-lo. Fez alguns agentes ficarem com as pernas moles, desequilibrados, inconscientes. Os duelos não passaram desapercebidos pelos moradores do vilarejo, especialmente por Anna Martel. Ela acompanhou da janela os temíveis agentes serem combatidos. Viu que um deles iria atacar Draco pelas costas e decidiu agir.
"Estupefaça." Disse assim que saiu da loja, salvando a vida de Draco.
Nesse meio tempo, Harry Potter já havia se recuperado e estava disposto a acabar com Samuel Evans com a mesma dor que o bruxo das trevas causou ao filho mais velho. Foi como se muitos dos duelos paralelos estivessem cessados apenas para ver o embate. Samuel sorriu e atacou, sendo bloqueado por Potter. Os dois pararam por um instante. Potter piscou para Samuel, de forma a desafiar o jovem. Samuel iniciou uma sequência de ataques em que variava os comandos não-verbalizados de estupefaça, confringo e expulso. Harry, sempre na defensiva por enquanto, conseguia bloquear todos.
Samuel fez com que alguns destroços das lojas, resultados de outros duelos voassem contra o bruxo mais velho, mas estes foram desviados. Samuel estava perdendo a paciência. Potter estava o fazendo de bobo diante de uma plateia e isso era inadmissível. Cansou de jogar limpo, ou o mais limpo que conseguia. Iniciou outra sequência de ataques contra Harry, com mais fúria, forçando o chefe auror a dar vários passos para trás. Harry também procurava atacar, mas não esperava que Samuel fosse tão habilidoso. Muito mais do que ele jamais sonhou em ser com a mesma idade.
Sorrindo pela vantagem que sabia que havia conseguido, Samuel resolveu deixar o duelo mais interessante e desviou um dos ataques de Harry Potter diretamente para Albus. Ele viu o outro filho cair no chão e se desligou completamente do duelo, sendo atingido no peito por um forte confringo. Caiu inconsciente e o sangue rapidamente brotou através da camisa branca por de baixo do grosso casaco.
Samuel se aproximou do antigo escolhido e olhou para os demais que haviam parado de lutar, perplexos demais com a cena.
"Está mais que na hora da sua geração ir embora. Avada Kedavra!"
O feitiço ricocheteou, por pouco não atingiu um aluno ravenclaw. Samuel levantou os olhos para ver a origem da proteção que salvou Harry Potter. Santana estava de pé.
"Achei que você não voltaria mais para a festa."
"Desculpe se precisei respirar por 30 segundos." Santana respondeu sem realmente colocar humor na frase.
"Vejo que estamos em condições de igualdade agora." Samuel disse andando lateralmente, forçando Santana a fazer o mesmo e, com isso, abriam um círculo maior para si mesmos, como um ringue humano. "Irônico chegarmos a essa etapa sem nossas varinhas. A sua de pelo imundo de grifo e a minha feita com o coração dissecado de Brittany Pierce."
Santana não sabia. Ela podia desconfiar e especular que o assassino de Brittany era Samuel Evans. Até então aquele era um mistério que ela escolheu não investir. Ou não teve mesmo tempo e oportunidade. De qualquer forma, isso a chocou. Por mais que ela amasse Lily de corpo e alma, e por mais que ela também amasse Quinn Fabray, Brittany sempre teria um lugar reservado por ter sido o primeiro amor e namorada. Chocou mais ainda o fato de ele ter tido a capacidade de transformar Brittany, ou o coração dela, como parte constituinte de uma horcrux. Como ele pôde transformar algo luminoso em uma peça das trevas? Santana sentiu-se enojada.
"O que foi, Lopez? Deveria ficar feliz. A morte do nosso primeiro amor foi limpa. Diferente do que aconteceu com o seu pai. Ou de como estuprei a sua amante por dias de todas as formas possíveis simplesmente porque eu pude."
"Cala a boca!" Santana gritou com a visão turva em lágrimas.
"O quê? Eu tenho que comemorar minha vitória."
"Você não ganhou merda alguma."
"Não?" Samuel sorriu. "Se eu te matar, eu vou matar a sua criança, vou estuprar a sua esposa e a sua irmã, vou erradicar Potters e Weasleys deste mundo só por prazer. Se eu morrer pelas suas mãos, ainda assim a vitória é minha porque eu terei marcado a sua alma permanentemente."
"Eu pago o preço!" Santana apertou a varinha de Rachel em suas mãos, apesar da terrível dor que sentia, e atacou com tudo que tinha.
Foi a vez de Samuel erguer uma barreira ao redor de si para se proteger do impacto. O ataque foi tão forte, que os pés deles deslizaram no chão poeirento. Santana sabia que mesmo fisicamente exausta, ela era mais forte e habilidosa que Samuel. Que ela tinha habilidades especiais. Não negava tal fato para si mesma. Mas eram justamente tais habilidades que a faziam ter de se esforçar muito mais para não sucumbir ao próprio orgulho e arrogância. Samuel tinha razão? Aquela era uma luta perdida independente do resultado? Santana atacava com violência e não permitia que o adversário fizesse outra coisa que não se defender.
A medida que Santana golpeava, se aproximava mais e mais do outro. Até que ela conseguiu desarmar Samuel. Não com o expelliarmus: foi com um chute na mão do supremacista quando ela se aproximou fisicamente num momento de desequilíbrio do adversário, em seguida, deu-lhe uma banda que fez Samuel cair de costas, completamente surpreso com a combinação de magia e força física. Ele não imaginou que uma garota de um 1,62m e 45kg fosse capaz.
Samuel se ajoelhou e encarou Santana de pé a sua frente com a varinha apontada para o rosto. Ela estava ofegante. Ele estava temeroso pela própria vida pela primeira vez em muito tempo.
Eram apenas duas palavras. Duas pequenas palavras e a vontade de fazer. Duas palavras. Avada Kedavra. Comando simples e a vontade. Nada além, duas palavras. Vontade. Duas palavras e uma luz verde sairia da ponta daquela varinha. Morte instantânea. Sem dor. Morte limpa. Duas palavras. Vontade e mais nada. Duas palavras. Um comando. Uma vontade e tudo estaria resolvido. Duas palavras.
Ele matou Brittany, a deixou órfã, estuprou Quinn. Ele iria matar todos que ela amava. Não era só uma questão de poder. Era pessoal. Era preciso fazer. Era preciso ter vontade.
Não havia mais duelos ao redor. Havia silêncio. Expectativa. Espera. Era como se o tempo estivesse andando tão lentamente que seria possível observar com detalhes o bater de asas de um pixie. Santana apontou a varinha, Samuel estava rendido, à espera.
"Estupefaça." Santana conjurou, deixando Samuel inconsciente.
Ela olhou ao redor. Aquela parte da cidade estava muito danificada com os duelos, havia pessoas no chão e ela não sabia se estavam vivas ou mortas. Eram tanto agentes e death eaters quanto alunos e aliados da resistência. Ninguém se mexia.
"Tranquem esse sujeito." Santana disse particularmente a Athena e aos ex-aurores que haviam se aliado a resistência. "Que ele e seus parças sejam julgados de forma apropriada."
"Não conte com isso." Ezra gritou e avançou em meio a pequena confusão que se instalou entre alguns death eaters que saíram correndo para tentar fugir. Ele apontou a varinha para Santana, que estava de costas. "Avada..."
"Avada Kedavra!" Ezra Goyle foi atingido em veio pela maldição imperdoável antes que conseguisse conjura-la em Santana. A escolhida voltou-se para a direção do bruxo e viu Quinn Fabray apontando a varinha.
"Quinn..." Santana disse baixinho.
"Diz uma razão muito boa para que eu não faça o seu trabalho com esse aqui também!"
"Furar o olho dele não foi o bastante?"
"Não, aquilo eu fiz pra te salvar. Agora eu vou fazer algo por mim."
"Então deixa eu te salvar agora." Santana se aproximou da melhor amiga. "Esse cara não merece nossa misericórdia." Chegou até Quinn sem a tocar. "Essa morte, essa justiça com as próprias mãos é a misericórdia dele e a nossa ruína. Nosso trabalho está feito."
"Se você coloca-lo em Azkaban, ele vai escapar e vai fazer tudo de novo. Você vai arriscar a vida da sua filha, de todos, porque não consegue acabar de vez com essa história? É sua responsabilidade, Lopez. É a sua!"
"Eu sei. Estou assumindo a responsabilidade agora. Não posso fazer isso, Quinn. Evans tinha razão. Se eu matá-lo desse jeito, intencionalmente, minha alma se quebra e ele ganha. Se você matá-lo, acontece a mesma coisa. Ele abusou do seu corpo e ainda vai ficar com a sua alma? Não deixe isso acontecer. Não deixe ele ganhar."
Santana pegou na mão da melhor amiga e a segurou com cuidado e cautela. Quinn pareceu relaxar um pouco o corpo. Ela levou a mão até o rosto de Santana e a beijou nos lábios. Foi um beijo breve, mas cheio de significado.
"Você foi a única pessoa que consegui amar." Quinn sussurrou para Santana.
"Eu sei. Por isso que eu não posso deixar você fazer isso."
Num movimento sutil com a varinha, era Quinn quem estava inconsciente. Santana aparou a queda de Quinn, e a colocou gentilmente no chão. Nesse meio tempo, Samuel despertou. Aproveitou o momento em que Santana estava de costas, cuidando de Quinn, para alcançar a varinha. Samuel não foi sutil. Ele agarrou a varinha, a apontou para Santana, mesmo sem a precisão e falou as duas palavras imperdoáveis.
"Santana!" Rachel gritou ao longe.
Foi um momento de tensão, quando o raio verde que saiu da ponta da varinha não conseguiu atingir o alvo, e retornou, atingindo o próprio ofensor.
Santana calmamente voltou-se para Samuel, deitado no chão, sem vida. Ela levantou, caminhou cinco passos até o oponente e o observou. Estava mais pálido que antes, olhos arregalados, expressão assustada. Seria esse o reflexo da morte em alguém que vendeu a própria alma em busca do poder? Santana olhou mais uma vez para Samuel morto e pensou que quando a hora dela chegasse, que ela fosse serena, feliz por ter cumprido a missão na Terra.
"Como?" Rachel perguntou quando finalmente alcançou a irmã. "Eu vi ele disparar."
Como foi dito, Samuel não foi nada sutil, o que permitiu a antecipação de Santana, que largou a varinha e conjurou não-verbalmente protego horriblis. Sem a varinha, o feitiço não pode ser direcionado, fazendo com que a energia rodeasse o corpo dela. O que ninguém conseguiu prever, nem mesmo Santana, foi o efeito de espelho, que fez a maldição imperdoável fatal ricochetear e voltar para o próprio Samuel. Não era algo novo, entretanto. O mundo havia conhecido que protegos podiam adquirir efeito de espelho quando, há mais de 40 anos, Lilian Potter usou o próprio corpo como escudo para proteger o filho. Isso foi possível graças a um ingrediente fundamental: amor.
Diferente do oponente, Santana estava repleta de amor.
...
Harry Potter, Ron Weasley e Santana Lopez desaparataram no haras do primo de Hermione Granger meia hora depois dos eventos que haviam acontecido em Hogsmeade. Ambos estavam em estado lastimável: pele e roupas sujas de sangue, fuligem e terra. Ambos fediam. Ambos pareciam que iriam desabar a qualquer momento. Ambos tinham ferimentos abertos em alguma parte do corpo. Ambos estavam tristes, mesmo que vitoriosos.
"Harry?" Ginny correu para os braços do marido. Ela estava radiante em saber que o pesadelo acabou. Mas Harry Potter trouxe para a esposa, a pior notícia que poderia para uma mãe. James estava morto. O filho dela estava morto. O filho deles.
Ginny desabou.
Minutos depois, Albus, Rose e Rachel desaparataram no haras. O sentimento era conflitante. Havia o alívio da vitória, a alegria de um novo nascimento, mas a tristeza do luto. James Potter, Mike Chang, Finn Hudson eram apenas alguns dos nomes que ficariam no memorial das baixas de guerra.
Santana procurou o quarto onde estava Lily e a filha. As encontrou com certa facilidade, pois aquela casa não era tão grande nem sofisticada. Ela abriu e fechou a porta para que a namorada não testemunhasse a comoção que acontecia na frente da casa.
"Eu sabia que você ia conseguir." Lily sorriu.
"Eu vim assim que pude."
Santana se aproximou da cama, mas ficou com receio de tocar Lily ou a criança, dado o estado físico que se encontrava. O corpo doía por completo, especialmente as mãos e os braços. Santana mal sabia como ainda estava de pé.
"Ela é linda." Santana sorriu para o bebê. "Você foi grande, Lily. Obrigada."
"Obrigada por sair dessa viva e... quase inteira."
Santana riu e resmungou da dor que o riso poderia provocar naquele instante.
"Você escolheu o nome dela?"
"Eu pensei em um nome, mas queria ouvir você primeiro."
"Que tal Clarie Shelby Potter-Lopez?"
"Que tal Clarie Marie Potter-Lopez?"
"Você reluta mesmo em homenagear a sua mãe."
"Pelo contrário, Lil. Nós duas temos Marie como nosso nome do meio, e seria uma honra que nossa filha continuasse a tradição."
"Clarie Marie Potter-Lopez soa perfeito." Lily sorriu.
Santana ajoelhou-se ao lado da cama.
"Um nome perfeito para uma garotinha tão perfeita. Não acredito que nós a fizemos, Lil. Os muggles têm razão: isso é surreal."
"Às vezes nem eu acredito que você teve a coragem de beber aquela poção. Eu faria de novo, Lil. Por você, eu faria de novo."
"Vem aqui."
Lily beijou os lábios castigados de Santana.
"Como foi lá?"
Santana suspirou.
"San, o que foi?"
"Acabou... eu nem acredito que acabou."
...
(TRÊS ANOS DEPOIS)
Santana pegou o Profeta Diário que havia entrado pela lareira. A manchete era sobre a condecoração da ministra da magia britânica Hermione Granger junto a Confederação Internacional de Bruxos pela luta contra os avanços extremistas. Ela recebeu o prêmio das mãos de Adila Amandi, que se tornou embaixadora Angola. A matéria chamava a atenção do quão forte era a ministra que sobreviveu ao exílio, a morte de um filho e do marido (Ron Weasley morreu seis meses depois a última batalha devido a um ataque cardíaco causado por um câncer descoberto tarde demais para ser tratado). Havia outras notícias que despertaram algum interesse de Santana, como a construção do memorial da guerra coordenado por Hannah Longbottom. O museu tinha propósito educativo e traria não apenas objetos e fotografias, como toda uma estrutura para eventos. Santana havia assinado uma autorização para ter a imagem colocada no museu. Era uma honra ter a foto dela como a última de uma linha de heróis protagonistas, como Albus Dumbledore, Severus Snape, Sirius Black e Harry Potter. A questão é que Santana não sentia que realmente merecesse. Havia um misto de opiniões a respeito do que aconteceu. Alguns a admiravam por ela ter procurado ser misericordiosa, outros a criticavam por não ter tido a coragem de matar diretamente. Tecnicamente, Harry Potter também não matou Voldemort.
Harry Potter mal conseguiu sobreviver ao duplo golpe que levou de Samuel. Ficou alguns dias internado e foi submetido a uma cirurgia para estancar um sangramento interno. A semana de internação foi nada perto do luto pela perda de James Potter. A guerra afetou profundamente o ex-chosen one. Ele tornou-se um sujeito amargurado, afastou-se da mulher e dos filhos sobreviventes devido a depressão. Culpava-se constantemente por não ter tido condições para salvar o filho, pois era o mínimo que ele poderia fazer. Não gostava de reuniões familiares pois não suportava ficar na presença de Santana. Ele não a culpava diretamente, mas lembrava-se o tempo inteiro que James morreu ao tentar salvar a atual chosen one. Ginny sofria com isso, mas não tinha alternativa a não ser voltar a tocar a própria vida. Ela retornou a carreira de jornalista esportiva e havia se tornado uma avó coruja. Tinha orgulho em dizer que era avó de dois netos e outro a caminho. Se referia a pequena Clarie, ao pequeno Tiago, filho de James, e a gravidez de Marley Rose anunciada há algumas semanas. Ela e Albus Potter estreitaram os laços de amizade após a guerra e terminaram por se envolver romanticamente.
"San, me ajude aqui com Clarie."
Santana deixou o jornal em cima da mesa e foi até a cozinha. Clarie Marie Potter-Lopez havia feito um estrago com o café da manhã. A garotinha havia espalhado mamão, leite e cereal pelo chão.
"Quando é que você vai aprender a comer como gente?" Santana beliscou levemente a bochecha da filha antes de pegá-la nos braços.
"Limpe ela enquanto eu dou um jeito nessa zona." Lily ordenou sem pensar muito a respeito. Era mais ou menos a rotina da casa.
"Sim senhora."
"A gente precisa se arrumar rápido ou vamos nos atrasar."
"Eu sei."
"Ela nunca vai nos perdoar se a gente se atrasar."
"Eu sei." Santana disse mais alto enquanto passava toalha úmida no rosto da filha. "Precisamos trocar essa roupa, Clarie. Tem alguma ideia do que quer vestir?"
A garotinha foi até o guarda-roupa e apontou para a fantasia de Frozen. Santana tinha de admitir que ela era a responsável por aquilo, pois sucumbiu as propriedades que um desenho animado tinha para deixar uma criança quieta por alguns minutos. Ela viu Frozen tantas vezes com Clarie, que perdeu as contas.
"Elsa outra vez?" Lily franziu a testa quando viu novamente a esposa e a filha após dar um jeito no chão da cozinha.
"Eu sei... a culpa é minha."
"Não deveria fazer a vontade dela todas as vezes, San."
"Eu sei Lil, mas veja só? Clarie não fica fofa vestida de rainha?"
"É melhor trocar, San. Tem gente que pode se sentir ofendida."
"Mas Elsa é uma bruxa com poderes!"
"Criada por muggles."
Santana não respondeu, até porque a esposa tinha razão. Havia todo esforço para equilibrar os anseios da população europeia de bruxos, especialmente a britânica, após a guerra. Querendo ou não, era preciso levar em consideração muitos dos anseios conservadores para estabelecer um equilíbrio. A guerra ainda estava fresca na memória de todos. Se Santana aparecer com a filha vestida de princesa da Disney em um evento, com certeza iria provocar falatórios desnecessários. As duas se arrumaram para o compromisso. Lily escolheu um vestido grená na altura do joelho e optou por levar o chapéu pontiagudo. Era o figurino de uma executiva. Pela facilidade que tinha com poções, e pela experiência de vida, Lily estava se especializando e poções de cura. Ela trabalhava no hospital St. Mungus, e já falava em estudar por seis meses na Rússia para se especializar.
"Odeio isso." Santana reclamou assim que colocou o robe de passeio dos Puddlemere United por cima do vestido preto. "Não é sequer um evento oficial. Não sei porque tenho que vestir isso."
"Porque você é a maior estrela do time e assinou um contrato." Lily beijou o rosto da esposa. "Não reclame. Você sempre quis uma carreira jogando quadribol."
"Parece até a sua mãe falando."
"Se eu ganhasse o seu salário, toparia até usar a calcinha dos Puddlemere em qualquer ocasião."
"Você pode usar a calcinha dos Puddlemere hoje a noite, se quiser..."
"Santana... Clarie na área."
"Ela não vai ligar. Ela não entende dessas coisas."
"Por enquanto."
Lily e Santana trocaram um beijo apaixonado nos lábios, pegaram a pequena e saíram de casa. Moravam numa casa em Basingstoke, Inglaterra, em um bairro suburbano, com gramado e um carro na garagem. Santana e Lily geralmente usavam vassouras, o Knight Bus ou mesmo simplesmente aparatavam para irem trabalhar. Mas quando a pequena Clarie saía com as duas, elas preferiam usar o bom e velho transporte muggle, especialmente o trem e o metrô. O carro era muito pouco utilizado. Geralmente era Lily quem dirigia para fazer compras no supermercado da cidade, ou deixar a garotinha na creche.
A viagem até Londres de trem levava quase uma hora. Tudo para a segurança da pequena garotinha. Andaram pelas ruas de Londres até o Beco Diagonal. Santana sorriu e acenou para os fãs do time e para a imprensa no caminho até o teatro. Entraram no pequeno lugar com a capacidade para até 200 pessoas e foram até aos camarins. Santana viu a irmã nervosa, andando de um lado para outro.
"Rach!" Foi até a irmã e segurou a mão dela.
"San, ainda bem que você chegou. Estou tão nervosa."
Rachel queria que tudo saísse perfeito. Ela tinha investido quase todo dinheiro que herdou da mãe e da avó para comprar um pequeno edifício no Beco Diagonal. Rachel o reformou e o transformou numa escola de teatro que seria finalmente inaugurado naquele dia. Planejou alguns números com Marley Rose e Kurt Hummel para a estreia e naquele momento precisava controlar os nervos. Pegou a sobrinha no colo e a abraçou.
"Meu amuleto de sorte!" Rachel disse abraçando e dando beijinhos no rosto da garotinha.
"Parece que está tudo no lugar, Rach." Lily comentou. "E o bar que você montou na recepção é um charme."
"Foi inspirado nos teatros off-Broadways que minha mãe costumava frequentar." Rachel deu um sorriso fraco. Santana acenou para a irmã. Aquele negócio significava muito para ela.
Mais meia hora e a frente do teatro, tal como o bar e a recepção já estava cheia. Circulavam por ali a imprensa do Profeta Diário, além dos convidados especiais para a inauguração. Além da família Potter-Lopez, compareceram Harry e Ginny Potter, Marley Rose e Albus Potter, Scorpius e Rose Malfoy, os Longbottoms, os Patil, os Scamanders além de mais uma série de convidados entre colegas de Hogwarts, os remanescentes da Ordem do Hipogrifo e da política. Quinn Fabray chegou de forma discreta. Cumprimentou os conhecidos que cruzavam o seu caminho com graciosidade.
"Sua outra esposa não sabe o que é pontualidade." Lily ironizou o fato de que Quinn chegou justamente no momento em que as luzes do teatro piscaram.
Santana franziu a testa e suspirou. Lily foi definitivamente sarcástica, mas não se podia dizer que estava sendo irônica. Não foi fácil e nem simples quando Santana, Lily e Quinn chegaram a um acordo silencioso sobre o triângulo amoroso. Santana se casou com Lily e era feliz com ela, mas Quinn estava definitivamente na vida delas. Era algo que Lily sempre soube que aconteceria eventualmente.
"Lily." Quinn sorriu falsamente.
"Quinn." Lily retribuiu no mesmo tom.
"Oi Clarie!" Quinn curvou-se um pouco para falar coma garotinha, e ela foi genuína. Sim, mesmo com pouquíssimo contato, ela gostava de Clarie. Achava a garotinha esperta e inteligente, o que realmente ela era.
"Sorvete explosivo." A menininha disse, provocando sorrisos de Quinn e troca de olhares tensos entre Lily e Santana. A chosen one teria de explicar algumas coisinhas depois, como o fato de ela, Clarie e Quinn terem tomado sorvete explosivo juntas na semana anterior, passando por cima do fato de Lily ser radicalmente contra dar açúcar à filha.
"Sorvetes explosivos só são servidos em ocasiões especiais, como aniversários." Quinn explicou gentilmente.
"Bom..." Santana achou melhor cortar o desconforto. "Sabe como Rachel é. Vai trancar a porta na nossa cara se a gente não entrar logo."
Quinn passou um ano se recuperando da depressão e do trauma pós-guerra. Santana exerceu um papel importante para a recuperação dela. Mas não foi a única. Rachel e Athena também foram determinantes para a recuperação emocional e física de Quinn. Houve um período naquele ano em que Quinn desapareceu por três meses, tempo em que passou exclusivamente como falcão. Quando Quinn conseguiu vencer a depressão e controlar os ataques de ansiedade, Athena a recrutou para o departamento auror, em que ela passou a fazer trabalho de CSI e burocrático na maior parte do tempo. Quinn raramente tinha de se envolver com a ação direta. O trabalho que ela fazia à perfeição lhe dava segurança e senso de normalidade.
A relação entre Santana e Quinn era mais afetiva do que sexual. O sexo acontecia sim algumas vezes, por fruto do momento e do amor que sentiam uma pela outra. Nunca era planejado, com dia e hora marcada, ou forçado. Lily sabia disso, que se podia contar nos dedos das mãos as vezes em que Santana e Quinn realmente dormiram juntas ao longo daqueles três anos. Não era fácil Lily saber de tudo, mas também não era o fim do mundo. Para Lily, era melhor ter tudo às claras do que ver as coisas acontecerem pelas costas dela. Além disso, Lily e Santana continuavam a ter uma boa relação. A esposa "oficial" não deixava os lençóis esfriarem, e Santana adorava o lado aventureiro e leve de Lily.
Quando as luzes piscaram pela última vez, os últimos convidados entraram no pequeno teatro, completamente tomado. Quinn sentou-se ao lado de Marley, ao passo que Santana, Lily e Clarie ocuparam cadeiras mais à frente. Rachel foi à frente do público, colocou a ponta da varinha no pescoço para amplificar a voz e discursou.
"Meus amigos, caros convidados, obrigada por terem vindo. Exatamente hoje faz três anos que a primeira guerra europeia de bruxos teve fim. Não posso dizer que estive envolvida integralmente na luta pela liberdade, mas estava lá na batalha derradeira. Eu vi sangue ser derramado, amigos queridos perecerem num solo que considero sagrado. Mas o que vi depois disso foi o renascer de uma sociedade. Faz três anos que a guerra acabou, meus amigos. Mas faz três anos em que finalmente bruxos de todas as ideologias começaram a sentar na mesma mesa e a dialogar. Faz três anos que vejo um esforço coletivo para encontrar uma forma justa e equilibrada de conduzirmos a nossa sociedade. Posso dizer que testemunhei de perto essa parte dos eventos, e o que vejo e a nossa sociedade se transformando numa comunidade forte e unida, com as famílias tradicionais, os mestiços, os nascidos muggles, como eu. O que testemunho nesses últimos três anos é um renascer. É um renascer que precisa ser celebrado.
O último teatro bruxo foi fechado há mais de 50 anos porque a escola de música e artes dramáticas desceu as portas com a morte da fundadora Elfivra Hornby. Nesses 50 anos de ausência, bruxos com habilidade para as artes dramáticas se viram forçados a sair da própria comunidade para se aventurar entre os muggles. Muitos tiveram carreiras bem-sucedidas, mas com o custo de viverem praticamente como exilados. Não mais. É por isso que estamos aqui inaugurando esse teatro que também é uma escola que vai dar a oportunidade dos bruxos que quiserem seguir naquilo que amam possam fazer o que amam sem precisar viver como um exilado. Eu vejo esse teatro como mais um passo que conquistamos no sentido de reintegrar a nossa sociedade. Para torna-la mais forte. Por isso que eu convido a todos a participarem desse sonho e deste projeto comigo. Senhoras e senhores, bem-vindos ao Teatro Shelby Corcoran."
Rachel precisou aparar uma lágrima que teimou em escorrer pelo rosto. Estava emocionada com o discurso, mas também pelo apoio de tantos amigos queridos. Estava emocionada também com a lembrança de uma heroína anônima, uma vítima da guerra, mas que a encarou com toda dignidade.
"Este lugar ficou lindo." Disse um dos jornalistas que cobriam o evento. Então ele reparou nos nomes que eram dados a sala de aula e lugares do teatro. Finn Hudson, Mercedes Jones, Blaine Anderson, Hugo Weasley, Brittany Pierce. "Por que você decidiu homenagear essas pessoas?"
"Porque todas essas pessoas dividiram sonhos comigo e nunca vão sair do meu coração."
Os convidados se acomodaram e viram durante meia hora uma apresentação musical sucinta e emocionante de Rachel Berry, Marley Rose com a participação especial de Aurora Bloom ao piano.
Ao final da apresentação, Clarie ficou inquieta, fazendo com que Santana saísse do teatro com a filha no colo. Ela própria preferiu tomar um pouco de ar fresco e dar espaço para a esposa conversar com amigos e parentes enquanto apreciavam o coquetel. Andou pelo Beco diagonal e olhou a vitrine de roupas usadas. Havia um uniforme de quadribol usado de Gryffindor oferecido por uma pechincha. Sorriu. A casa de Gryffindor havia sido reaberta, e as coisas estavam voltando aos trilhos também na escola. Ali próximo, a parede que dava para um beco na loja que fazia esquina, tinha cartazes de procurados pela justiça. Dolohov era o principal deles. Santana não se preocupava com eles. Os aurores estavam fazendo uma varredura nos templos bruxos e havia descoberto informações sobre a Ordem dos Puros. Era questão de tempo para esses fugitivos serem pegos e a Ordem que esteve por trás do movimento extremista cair de uma vez por todas.
O mundo não era perfeito, a vida ainda lhe jogava dezenas de problemas a resolver. Bom, que graça teria se tudo fosse lindo e maravilhoso? Santana olhou para Clarie e sorriu. Beijou a filha no rosto.
"Olha, mamãe. Hipogrifo."
Santana olhou para cima, vendo o animal mágico voar acima dos telhados do beco diagonal. Era mesmo um ser estranho, temperamental, híbrido, mas formidável. Voltou ao teatro. Viu a família interagindo. Viu Rachel ser celebrada. Viu Lily brincando com Marley e Albus. Viu Quinn conversando com os Scamanders. Viu Ginny e Hermione continuarem a vida apesar da perda dos filhos. Principalmente, via o grupo de vencedores que estavam destinados a manter a estabilidade do mundo bruxo pelos próximos cem anos. Era uma tremenda responsabilidade. Mas era como as coisas deveriam ser.
