Disclaimer: I do not own Relic Hunter – Relic Hunter e suas personagens pertencem a Fireworks Entertainment. Esta fic não possui fins lucrativos.

Summary: Nigel narra a busca de Sidney por uma relíquia que pode mudar o destino, a pedido de um amigo de longa data. O novo rumo dos acontecimentos trazido pela relíquia trará um futuro melhor ou pior para todos?


Caminhos errados

26. O dia número zero

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Dia n. 0: Eu e Sydney chegamos à Tessália logo ao amanhecer. A morena alugou um carro e reuniu o equipamento que Karen havia reservado. Eu ainda estava pensando em como impedir a amiga de tocar no alabastro quando o encontrássemos. Havia conseguido obrigar a mulher a prometer que estudaríamos todos os detalhes do templo e que não usaríamos a relíquia se não estivéssemos convencidos de que daria certo, mas eu sabia melhor do que acreditar piamente em sua promessa, contudo. Ela faria algo drástico se tivesse a oportunidade, eu a conhecia bem demais.

Durante o caminho até a base do monte, discutimos de novo e de novo sobre a necessidade de eu voltar para continuar o tratamento e sobre Sydney não se arriscar daquela forma quando não tínhamos sequer ideia do que fazer quando chegássemos ao templo. E eu confesso que acabei surpreendendo-me no decorrer da aventura: não esperava que fosse tão forte, mas viajar depois de ter ficado os dois últimos meses limitado ao hospital e ao meu apartamento acabou sendo como uma brisa para minha alma. Se a situação fosse diferente, eu gostaria de passar o resto da minha vida daquela forma, percorrendo o mundo com Sydney ao meu lado. Aquela estava sendo uma típica caçada, sempre fora assim: eu me opunha a encarar os perigos, e Sydney jogava-se em direção a eles. Saboreei a sensação de voltar a ser mais como eu mesmo a cada segundo que me afastava de casa e aproximava-me do local do alabastro. Era como se o Nigel Bailey que se apagava retornasse de onde quer estivesse. Estava sendo muito bom. Se a tentativa da professora não funcionasse – como era muito provável que o seria – eu teria ao menos as lembranças desta última caçada, deste último passeio com minha amiga enquanto estivesse no hospital. Guardaria este memento de mim para quando voltasse a me apagar.

Chegando à base do monte, passamos pela mesma oliveira – o tronco entrelaçado e as folhas verdes brilhando sob o sol da manhã –, passamos pelo mesmo riacho, pelas mesmas pedras e finalmente pela mesma clareira. Lá estava a marcação, aguardando Sydney e desafiando-me a impedir a mulher de alcançá-la. Antes que eu dissesse qualquer coisa, a professora já estava adiante, ajoelhada ao lado da pequena pedra e empurrando-a para o leste.

Não ouvi qualquer barulho que indicasse que o templo estivesse abrindo-se abaixo de nós – o mecanismo não estava funcionando, assim como da última vez. Vi Sydney empregar mais força na tarefa e caminhei vagarosamente até ela; parei de pé ao seu lado e da pedra. A morena estava com a cabeça baixa, concentrada, fazendo esforço com as duas mãos; mas a rocha não se movia. A mulher não desistiu, e observei em silêncio enquanto ela tentava inúmeras vezes mais, sem sucesso. Ouvi palavras que me nego a repetir saírem de sua boca, vi-a chutar a marcação, bater na rocha com outra pedra, usar sua faca, gritar e amaldiçoar até sua voz ficar cansada e seus olhos vermelhos. Então ela ficou quieta.

Ajoelhei-me ao lado dela e segurei seus ombros frementes: "Não está funcionando. Vamos para casa, Syd."

"Não! Devo estar fazendo da maneira errada, eu vou conseguir abrir o templo!" Os punhos dela cerraram-se mais uma vez sobre a pequena pedra, as juntas dos dedos já machucadas, tentando acioná-la de novo. Pus minha mão sobre as dela.

"Você fez da forma correta. Viemos até aqui e tentamos, já é o suficiente."

"NÃO, NÃO É!" Os olhos castanhos cheios de desespero encararam-me. Eu ia dizer algo a ela, mas um ruído chamou nossa atenção. A morena virou o rosto para o lado, alarmada. Calei-me, e ela puxou as mãos de baixo da minha vagarosamente, alcançando a faca que estava no chão ao lado da rocha. Não me movi, prestando atenção nos arbustos ao nosso redor. Apoiei-me na marcação, e a pedra moveu-se violentamente, fazendo-me perder o equilíbrio. Caí no chão aos pés da professora, e nós dois arregalamos os olhos ao ouvir o barulho grave e já conhecido vindo do barranco ao sul.

"Funcionou! Você abriu o templo!" Ela exclamou. Eu não sabia se ficava feliz por ver a esperança de volta aos olhos de minha amiga, ou se ficava ainda mais preocupado. Seria impossível impedi-la depois disso! A morena ficou séria, à minha frente, e deu alguns passos até o canto de onde havíamos escutado o ruído anterior. Remexeu nas folhagens por alguns segundos e voltou. "Deve ter sido o vento. Ou algum animal", ela concluiu.

"Animal? Que tipo de animal?" Olhei para todos os lados.

"Não se preocupe. Vamos descer!" Ela abriu a mochila procurando as cordas, sorridente.

•••

Mais uma vez via-me naquela situação: a clareira verde e segura à minha frente, e o barranco irregular tomado de pedras e galhos abaixo de mim. Fechei os olhos e rezei para não escorregar enquanto realizava a conhecida descida até a gruta, onde a relíquia aguardava por Sydney e pela desculpa que eu ainda teria que elaborar para que ela não tocasse arriscadamente no alabastro.

O rapel estava sendo um pouco mais fácil que da última vez. Espiei mais abaixo e vi a colega já quase na entrada da pequena caverna; enxerguei a vegetação tortuosa, vários metros depois dela, e olhei para cima novamente. Respirei fundo e acalmei-me para continuar a descida. Então, algo que eu não esperava aconteceu: fui assaltado por uma onda violenta de náusea e dor e segurei a cabeça com uma das mãos. Encolhi-me, tocando os joelhos na parede do barranco e forcei os olhos a ficarem abertos, tentando concentrar-me em não soltar a corda. A dor aumentou muito, muito mais do que qualquer outra vez, e minha visão embaçou. "S... Syd..." Balbuciei, sentindo os dedos soltarem das amarras.

Tudo estava escuro, mas eu ainda senti a cabeça querendo explodir. Um calor se espalhou pelo meu rosto e eu consegui voltar a enxergar, aos poucos: azul, nuvens, uma brisa suave, a voz de Sydney... Arregalei os olhos e fiquei confuso ao encarar o céu ensolarado.

"Nigel!" Movi levemente a cabeça, e minha amiga estava à minha direita. Mas ela estava de cabeça para baixo... Não, algo parecia estranho. Levantei o pescoço e percebi que eu quem estava de ponta-cabeça. A mulher alcançou a minha mão e passou seu braço pelo meu ombro, puxando-me. Eu me esforcei para ajudar a erguer meu peso, mas me sentia tonto e esgotado. Ainda estava preso à corda do rapel, então tomei fôlego e segurei-me à amiga. "O que está sentindo?" Ela me equilibrou, também segura apenas ao seu equipamento, evitando que eu virasse novamente e ficasse pendurado apenas pelo cinto.

"Eu... não sei", respondi debilmente.

"Meu Deus, vamos voltar. Vamos escalar até o topo!"

"Não... espere..." Eu não tive confiança de que conseguiria subir naquele momento. Passei a mão pelo rosto com um pouco da dor que ainda persistia. Assustei-me ao olhar para os dedos ensanguentados. Esfreguei a mão novamente e ela ficou suja com ainda mais sangue. Parecia ser o meu nariz, devia ter sangrado enquanto eu pendia com a cabeça para baixo, e o líquido se espalhara por todo o meu rosto. Entendi melhor o pavor nos olhos de Sydney.

"Nós temos que subir, Nigel. Preciso levá-lo a um hospital. Por que não me disse que estava se sentindo mal?" Ela me repreendeu, sem conseguir afastar o tom de preocupação de sua voz.

"Eu estava bem... Já estou ficando melhor." Peguei o lenço que sempre mantinha no bolso da jaqueta cáqui e limpei-me como consegui.

"Vamos subir", a mulher insistiu.

Analisei novamente a distância, vendo que a caverna estava consideravelmente mais próxima de nós do que o topo do barranco; devo ter soltado um bocado de corda quando desmaiei, era um milagre eu não ter caído até o final do declive! "Eu... eu não sei se conseguirei subir agora." Apontei para a gruta quase ao nosso lado. "Vamos descansar."

Sydney não discutiu e ajudou-me a chegar à gruta. Descemos nas pedras, e ela nos liberou dos equipamentos. Fiquei sentado, enquanto a colega mexia na mochila amarrada à corda e voltava com mais lenços e um cantil. Depois de limpar-me melhor e tomar uma dose cavalar do medicamento que me ajudava contra as enxaquecas, olhei para o interior da pequena caverna: a porta de basalto estava aberta.

A professora continuava ao meu lado, mas também olhava para a entrada do templo. "Não quero que vá até lá sozinha", falei.

"Me ocorreu que se a relíquia é mesmo o motivo, você ficará melhor quando eu desfizer o pedido."

Mesmo o tom baixo que ela usara ainda fora bem mais alto do que a minha própria voz, e senti uma pequena pontada no crânio. "Sabe que eu não quero que se arrisque, e mesmo assim irá até lá?" Ela suspirou, e eu soube que iria. "Então me levará com você. Vamos estudar o local juntos."

"Você ainda não está em condição de fazer isso."

"É só me ajudar." Estiquei o braço para ela. A morena levantou e auxiliou-me a ficar de pé. Certifiquei-me de que conseguiria andar e soltei-a. Entramos no templo, com Sydney encarando cada movimento meu, e reconheci as flores que cresciam nos cantos das pedras parcialmente iluminadas, assim como o rosto de Atena, que nos saudava do final do longo corredor. Os raios de sol, que vinham de algum lugar, estavam nas mesmas posições que eu lembrava de nossa última visita.

Sydney tomou a frente ao chegar à recâmara. Ela iluminou o local com uma das lanternas em forma de lampião. Adentrei a sala, apontando a luz para o altar, onde mais uma vez vi o alabastro solitário. Estava tudo exatamente igual à ultima visita. Eu ouvi um ruído na porta, atrás de mim, e virei-me vendo de relance a expressão estranha que Sydney estava fazendo ao olhar também para a saída. "NÃO!" A voz dela gritou de repente. Fechei os olhos ao sentir uma sensação horrível e forte em minha nuca, que fez uma explosão de pontos disformes irromper-se à minha frente.

Minha visão ficou conturbada, cheia de cores iridescentes que pulsavam. Entre os jogos de luz em matizes incompreensíveis, registrei o som e a imagem de Sydney, e também de outra pessoa... eu conhecia aquela pessoa... era... Josh?

Eu havia perdido a noção de tempo e espaço, mas ainda assim reconheci o rosto satisfeito – até cruel – do arqueólogo, intercalado pelos olhos desesperados de Sydney e pelo instrumento curioso nas mãos do americano. Enxerguei antes de fechar os olhos mais uma vez com a onda de náusea e dor: ao olhar para cima, adivinhei se era um galho, ou um bastão, ou qualquer outra coisa que o homem empunhava.

O rosto de Sydney novamente, sobre o meu; seus cabelos balançando e fazendo cócegas em minhas bochechas, em meus lábios. Eu deveria estar no chão, pois a única sensação além da dormência que indicava a ausência de um corpo era aquele leve roçar das mechas castanhas. Perguntei-me se ainda estava vivo e decidi que sim, já que a dor retornou junto com um pouco mais de lucidez.

Eu estava apoiado em Sydney, minha cabeça em seu colo, e a mulher sentada no piso da câmara. Os braços dela ao meu redor, os olhos atentos adiante. Ouvi alguém falar: "Por que não se desapega? Ele está doente, vai morrer!" A voz masculina só poderia pertencer a Josh. Não tive forças de virar o rosto para ele, tudo o que eu via era o rosto de Sydney em perfil e o teto da sala de basalto fracamente iluminado pela luz da lanterna.

"Ele não vai! Como você pôde, Josh? Sabia que algo aconteceria quando usássemos a relíquia e mesmo assim nos deixou vir até aqui! O que estava pretendendo?"

"Tem razão. Eu sabia o que aconteceria." Disse ele. Demorei a ver o que Sydney fez, até que ouvi a voz de Josh novamente e concluí que ela apenas havia ficado em silêncio por algum tempo: "Quando descobri que estava doente, minha noiva devolveu o anel. Ela me abandonou para morrer sozinho, pois eu não tinha nada a lhe oferecer. Eu não tinha nada, Sydney, assim como esse oportunista em seus braços! Por que você não o abandona? Eu não entendo porque ainda insiste em ficar ao seu lado, ele não vai durar!"

"Então é esse o motivo de tudo? Tudo isso porque está doente?"

"Eu ESTAVA doente. Não estou mais. Durante as minhas pesquisas, descobri que essa relíquia seria minha única chance, Sydney. As escrituras do homem que construiu este templo explicavam que a maldição tiraria algo de valor de quem a usasse, como forma de restabelecimento o equilíbrio, então, quem tivesse seu desejo realizado teria que sofrer. Descobri como burlar a maldição, a culpa não é minha se depois disso outras pessoas assumiram o que era antes meu destino."

Sydney apertou-me forte e abaixou a cabeça. "Do que está falando?" Meus olhos inconstantes não conseguiram enxergar o rosto dela.

"Você sabe do que eu estou falando, foi por isso que resolveu me interrogar ontem à noite. Imaginei que viria para cá e fui obrigado a lidar com a relíquia eu mesmo desta vez."

"...Você livrou-se da doença passando-a para Nigel", a mulher disse. Encarou o homem novamente: "Como fez isso? Quem mais você trouxe aqui?"

Voltei a ouvir a voz dele e vi o sorriso amargurado no rosto do doutor enquanto ele entrava no meu campo de visão: "O destino está a meu favor. Usei Stewie Harper de uma maneira simples: eu o trouxe até aqui e entreguei algumas palavras escritas em grego antigo para que ele recitasse. Ele ficou doente, e eu curado. Funcionou apenas por alguns meses, contudo. Foi então que eu soube que se não se desejasse de verdade, o pedido ficaria incompleto. Dessa forma, contei a Zack sobre estar 'amaldiçoado' por um vaso falso, lhe parece familiar? Depois disso, o garoto também ficou doente e morreu rápido. Fiquei triste, ele era um ótimo amigo e assistente; o seu pedido fora mais forte, contudo, e o efeito durou mais tempo. Só que a doença retornou quando ele se foi."

"Você... matou estas pessoas... Matou Stewie, matou seu amigo..." A voz grave de Sydney doeu em minha mente. O homem ajoelhou-se frente à mulher, e vi a fisionomia dos dois encarando-se: ele com desgosto, e ela com ódio.

"Não fui eu, Sydney. Foi o destino, ele estava me mostrando o caminho. Algo teria que acontecer, não tenho culpa se eles pereceram em vez de mim."

"Um inferno que não tem culpa! Você causou tudo isso, Josh, matou aqueles homens e está fazendo o mesmo com Nigel! Mas eu não o perdoarei! Não deixarei que o faça!"

O arqueólogo riu, sem haver qualquer graça naquele som. "Como pode falar assim quando foi você a usar o alabastro naquele dia?" Sydney pareceu tomada por surpresa. "E você o fez tão prontamente que nunca cansarei de agradecê-la."

"Não, eu... queria salvá-lo", ela murmurou. "Nunca imaginei que você era uma assassino!"

Vi ainda mais seriedade no rosto do homem, como se as palavras de minha amiga tivessem-no afetado. "Não sou um assassino. Embora eu soubesse que isso poderia acontecer, tentei evitar ao máximo sujar minhas mãos. Eu pretendia fazer isso com Dallas Carter, e você nunca teria se envolvido, Sydney. Mas meu tempo estava acabando... e o caçador fora mais esperto do que eu imaginava..." As palavras dele foram diminuindo, como se revivesse algo indesejado em sua memória.

"O que fez com Dallas?" Sydney exigiu. Eu tentei me movimentar, mas ainda não consegui, parecia que a única coisa que eu comandava naquele momento era a direção de meus olhos falhos e entreabertos.

Josh fitou a caçadora, sério: "É uma pena as rochas da orla da caverna serem tão escorregadias." Sydney arregalou os olhos parecendo horrorizada, e Josh continuou: "Mas quando você usou o alabastro eu pensei que estivesse curado de verdade. Aquilo foi o começo para que eu me salvasse, Sydney. Tudo vai dar certo agora: Nigel já está morrendo e eu mesmo usei a relíquia antes de vocês chegarem. Desta vez o pedido foi completo, quando seu assistente se for, levará a doença consigo!"

Sydney apertou-me sem retirar os olhos vidrados do homem, suas unhas tremendo e enterrando-se em meus braços. Josh ficou de pé e sorriu. "Está tudo se encaixando para que eu me salve. E eu sabia que de todos os caçadores, você seria a única a conseguir escapar da maldição, Sydney. Agora seu assistente irá morrer e eu ficarei livre. Logo você irá superar, e nós dois poderemos ficar juntos. Ainda podemos ser felizes!"

Nesse momento, Sydney passou uma das mãos pelo meu rosto e abaixou-se na minha direção. Ela alisou meus cabelos, e senti sua respiração tocando meus lábios. "Desculpe." Ouvi-a sussurrar. Então ela me soltou, deixando-me sobre o chão. Vi-a levantar-se e assumir a posição típica de combate. Reconheci a silhueta das vezes em que a mulher preparava-se para destruir qualquer obstáculo à sua frente. "Vai se arrepender, Josh." Ela declarou e lançou-se contra o homem.

A pressão em minha cabeça aumentou subitamente, ensurdecendo-me e borrando a imagem das duas pessoas gritando e enfrentando-se adiante. Tentei falar alguma coisa, mas antes de conseguir raciocinar, voltei a perder-me no breu que nos rodeava...

•••

Continua


N.A.: Ui!

Cris, obrigadíssima pelo comentário divo, afilhada do meu coração! Neila, muito obrigada pelo review, meu xuxu! Amo vocês!

Beijosssss!