Nota da Autora: Sei que demorei. Mas a vida anda atribulada. Também estou cuidando do meu livro :)
Queria ter postado isso aqui no dia oito, mas não deu. Mas aqui está um presente de "aniversário" atrasado pra Rin-chan. Se estivesse aqui, ela completaria 22 anos este ano.
Vou tentar atualizar Damashi esta semana também.
Espero que gostem do capítulo e que comentem. Vou postar um novo capítulo quando tiver pelo menos doze reviews. Ele já está 70% pronto ;)
Obrigada a quem comentou e quem ainda acompanha isto aqui. Será que ainda estão aí ou isso aqui é meio Sexto Sentido? Falo, falo, falo e ninguém vê/lê? :P
UM CAMINHO PARA DOIS
CAPÍTULO 26
Caminho de volta a Nagoya – parte 2
Posso ligar que horas?
Rin piscou ao ler a mensagem. Depois olhou o relógio.
Estarei livre às 14 horas. Depois do almoço, ela mandou como resposta.
Na tela do novo celular (porque ela perdeu o antigo que tinha há menos de 10 horas) apareceu mensagem enviada a Sess. Depois deu um suspiro e guardou o aparelho, voltando a andar em direção ao quarto do pai. Bateu e esperou.
-Pode entrar. – a voz da mãe soou.
Rin abriu a porta e se deparou com uma cena que ainda não havia se acostumado nos últimos três dias: o pai deitado na cama, perna e braço direitos engessados; a mãe ao lado dele, dando mais um remédio conforme o horário.
-Eu vim perguntar sobre o almoço. O que querem comer? – ela perguntou, forçando a voz num tom mais alegre. A última coisa que queria é que o pai percebesse o quanto ela estava chateada de vê-lo naquela situação.
-O que você quiser preparar, princesa. – a mãe falou num tom delicado. Ela sorria, como se a situação não fosse tão delicada – Eu gostei da sua gioza vegetariana que fez da última vez que esteve aqui.
-Então vamos ter gioza vegetariano hoje! – Rin bateu palmas e aproximou-se da cama – Precisam de alguma coisa?
-Rin, minha filha, você já perguntou isso quatro vezes na última hora. – o pai a repreendeu – Eu já quebrei a perna quando criança. Nem dói mais tanto assim.
-Ah, não? – Rin e a mãe falaram ao mesmo tempo. A mãe aproveitou para dar um tapa no braço engessado. O homem deu um grito e fez beicinho depois.
Era bom ver que ambos estavam encarando o estado do pai com bom humor.
A maior preocupação de Rin, além das provas a fazer e as aulas perdidas, era a idade avançada do pai sofrendo aqueles acidentes. Ele se inquietava de ficar imobilizado quando o que mais queria era dar as caminhadas matinais, cuidar do jardim e ajudar a mulher nas tarefas da casa. A mãe também tinha quase a mesma idade e se sobrecarregava fazendo tudo sozinha.
Hakudoushi passava manhãs e tardes trabalhando e somente à noite estava presente, ajudando a mãe e cuidando do pai.
Quando Rin chegou, uma hora e meia depois de deixar Sesshoumaru na estação em Tokyo, foi direto ao hospital onde o pai faria uma cirurgia para colocar um pino de metal na perna. O braço também havia sido prejudicado na queda, e a previsão era de voltar a andar em quatro meses.
À noite, quando tinha uma chance de descansar, Rin conversava com Sesshoumaru. Ele falava sobre as aulas, sobre o que Miroku havia feito de errado e que o fazia querer matá-lo, como andava a gravidez de Kagura e sobre o avô que estava morrendo para conhecê-la.
Na última noite, porém, ele não havia ligado. Apenas mandou uma mensagem dizendo que estava com o avô num evento social e que ligaria no outro dia.
Agora ela conversaria com ele no horário que havia marcado na mensagem.
Rin saiu do quarto dos pais e foi à cozinha, onde começou a abrir os armários e a separar o material para preparar mais um prato vegetariano: frigideira, massa, óleo, recheio...
Que evento será que Sesshoumaru havia ido? Será que foi o avô que o arrastou?
E Sesshoumaru estava acompanhado de mais alguém? Por que ele não falou nada sobre aquilo antes?
Tinha tantas perguntas a fazer, mas não queria deixar à mostra o lado ciumento de namorada.
E ela não era ciumenta.
Claro que não, falou apenas na cabeça enquanto cortava a cebola para acrescentar à carne vegetariana.
Lembrou-se da última mensagem e que não havia lido a resposta dele. Pegou o celular e lá viu o que queria:
Bom almoço. Nós nos falamos depois.
O coração dela acelerou, mesmo com a falta de afeto nas palavras do namorado. Deu um sorriso e balançou a cabeça. Sesshoumaru era Sesshoumaru: ele se importava apenas com ela ao modo dele.
Sorriu, e voltou a cuidar do almoço.
Deitada na cama, Rin aproveitava o momento de descanso pela parte da tarde que o pai tinha agora direito para estudar. Deitada de bruços, com o livro aberto na cama e o pensamento longe, em Tokyo, mais precisamente, ela pretendia estudar o conteúdo da prova da próxima semana até o cérebro cansar.
No entanto, com um pontapé na porta, o primo estilista favorito entrou no quarto com sete sacolas divididas em mãos.
-Jakotsu! – ela berrou assustada. E se ela estivesse sem roupa, sem nada? Ou conversando com Sesshoumaru? – BATA NA PORTA ANTES, que droga!
-Rin, você precisa levar este. – o primo Jakotsu ignorou o desaforo dela e jogou um vestido em cima da cama, tirando outro de uma das sacolas de papelão – E este aqui também. Ah, e isto também, e também mais este, e este... este...
Jogou uma jaqueta por cima do vestido, depois tirou uma calça jeans justíssima e jogou também na cama, depois uma blusa, outra blusa, duas saias...
Rin apenas observava tudo muito pasma, como sempre quando aquela cena se repetia.
O primo levou quase quinze minutos para tirar tudo das sacolas e perceber a expressão abobalhada da garota.
-O que foi? – ele perguntou preocupado – É muito?
-Muito? É demais! – ela se exasperou, ficando de joelhos na cama – Como vou levar tudo isso?
-Na mala, oras. – ele falou com um desdém de ombros.
-Isso não dá numa mala só!
-Leve as duas então. – ele continuou indiferente.
Rin deu um suspiro e caiu na cama. Jakotsu estranhou aquela reação. Geralmente arrancava risadas amarelas dela, mas sempre aceitava tudo que levava para que provasse. Ele adorava aquelas reações.
Sentou-se ao lado dela na cama.
-A semana foi ruim?
Rin fez beicinho e moveu a cabeça confirmando.
-Papai ainda se recuperando.. Minha prova na semana que vem... – e Sesshoumaru anda escondendo que precisa sair para um evento e não me conta..., adicionou mentalmente – queria pensar em coisas boas, mas não consigo me concentrar em nada além de papai.
O primo tirou o cabelo dos ombros dela e jogou para trás.
-Quer relaxar um pouco?
-Eu não tenho tempo pra...
Antes de completar, o primo a deitou na cama, por cima de todas as roupas, e deitou-se ao lado dela. Uniu as mãos dela no meio da barriga e repetiu o gesto.
-Vamos lá. Agora feche os olhos. – falou ele, fazendo o mesmo – Agora respire lentamente.
Os dois ficaram na cama juntos, deitados lado a lado, amarrotando as roupas, respirando lentamente.
-Imagine um lugar onde gostaria de estar agora.
Rin imaginou estar em qualquer lugar de Tokyo ao lado de Sesshoumaru.
Sesshoumaru era tranquilidade.
Sesshoumaru era o centro dela.
Sesshoumaru segurando a mão dela, Sesshoumaru na estação, Sesshoumaru dizendo para que ela voltasse logo. Sesshoumaru telefonando todos os dias.
Sesshoumaru.
Sesshoumaru.
Sesshoumaru...
-Eu queria estar em Tokyo. – falou de repente – Eu não esperava mais sentir essas coisas... Saudade dessa cidade enorme, cheia de gente insensível... Mas ele é tão bomcomigo... E eu me sinto tão bem ao lado dele... Esta semana ao telefone ficamos conversando quase duas horas... e ele me consolando... Dizendo que papai vai melhorar...
Uma lágrima escorreu pelo canto do olho esquerdo, misturando-se ao cabelo.
-Mas não tenho mais previsão de quando eu vou poder voltar de vez, sem precisar me preocupar com papai. E eu sinto falta de tê-lo perto de mim, de sair com ele, estudar no nosso jardim... De estar com ele na capital. De não ter Sesshoumaru comigo quando estou aqui.
Apenas se deu conta de que era a primeira vez que falava sobre o namorado a alguém da família e abriu os olhos, virando o rosto para encarar o primo, que com certeza estava encarando-a.
Mas Jakotsu estava ainda de olhos fechando, respirando profundamente e até roncando. Com suavidade, pelo menos.
Fechou os olhos de novo e deu um suspiro cansado. Aquilo pelo menos ajudou um pouco. Ela sabia o que queria.
Estar com Sesshoumaru.
A hora do almoço demorou a chegar. Rin havia preparado o almoço, cuidado do pai e arrumado a cozinha. Depois foi para o quarto e esperou sentado na cama o telefone tocar.
Às quatorze horas nada aconteceu.
Quatorze e cinco: nada.
Quatorze e dez – mais silêncio.
Quatorze e quinze finalmente tocou o telefone.
Ansiosa, ela atendeu logo no primeiro toque, sem ver o visor. Nem precisava, ela já sabia quem era.
-Sess?
-Desculpe a demora. – ele falou logo – Desculpe mesmo.
-Tudo bem... – ela sorriu consigo mesma, sentindo o rosto ficar aquecido – Senti sua falta ontem.
Sesshoumaru ficou em silêncio.
-Desculpe não ter ligado ontem, também.
Os dois ficaram num silêncio constrangedor.
-E por que não ligou? – ela perguntou num tom suave, calmo.
-Meu avô levou a família toda a um jantar social. – ele resmungou – Fui coagido. Ele me ameaçou tirar parte da minha herança.
Rin não aguentou e gargalhou. Mais engraçado que ouvir o tão falado avô do namorado ameaçando o neto era ouvir Sesshoumaru usar uma palavra tão comum quanto "arrastar". Se fosse com outra pessoa, ele usaria "ser levado a força".
-E para quê era o evento? – ela quis saber, apenas por saber. Provavelmente a família dele participava desses jantares e festas sociais desde que tinham nome na sociedade.
Uma parte da família de Rin ainda fazia parte da vida política da província, mas o pai dela, em particular, se aposentou e preferia ter uma vida mais calma e afastada dos eventos políticos e sociais.
-Um anúncio de noivado de uma família amiga de uma outra família amiga que coincidentemente conhece outra família amiga nossa.
-Você me perdeu no segundo "amiga". – ela riu suavemente – Inuyasha e Kagome foram?
-Sim. – ele respondeu um tanto depressa demais.
-E você fez o quê enquanto estava lá?
-Fiquei... sozinho.
-Podia ter me ligado, então. – ela concluiu – Ou mandado mensagens.
Ficaram em silêncio e o mesmo sentimento que a dominou pela manhã voltou a incomodá-la.
-Você estava com alguém? – ela perguntou baixinho.
-Não, Rin. – ele respondeu ligeiramente exaltado – Eu só estava com minha família e Higurashi.
Muito exaltadinho pro meu gosto.
-Então por que parece que você está escondendo alguma coisa?
-Eu... – ele deu um suspiro pesado – A família de Sara também estava lá.
-Oh. – foi a única coisa que ela falou.
Os dois ficaram em silêncio. Num ainda mais constrangedor.
-Os pais dela são pessoas ainda mais difíceis de lidar que a filha. – Sesshoumaru deu um suspiro pesado antes de continuar – Ficaram falando com meu avô sobre nossas famílias se "unirem" na minha frente, como se eu nem estivesse lá na mesa.
A voz dele estava controlada. Demais controlada. Mas Rin sabia mais. Sabia que ele muito provavelmente estava fervendo por dentro. Sesshoumaru podia ser de uma família tradicional e respeitar muitas das tradições que ligavam os antepassados japoneses, mas para algumas coisas havia um limite.
-Você quis discutir com o seu avô na frente de todo mundo, não foi?
-Só quando voltamos pra casa. – ele deu outro suspiro cansado – Desculpe, mas não tive humor pra conversar com você depois de tudo.
A palavra humor era engraçada mesmo quando utilizada por alguém como Sesshoumaru.
-Meu avô me deixou de castigo. – finalmente ele falou.
Rin ofegou e depois começou a rir.
-Quantos anos ele pensa que você tem? Doze?
-Rin, ele é meu guardião legal até eu ter acesso à minha herança. E ele é o chefe da família e meu avô. – ele enfatizou o problema – Se ele quisesse, podia me expulsar de casa e eu não ia poder fazer nada.
Rin pressionou os lábios.
-Mas ele não vai fazer isso, né?
-Não. – ele respondeu imediatamente – Mas acha que faltei com respeito e cortou dois meses do dinheiro que recebo desde a morte dos meus pais.
-Oh... – ela franziu a testa – E você vai ter como se virar nesse período?
-Eu tenho algumas economias, se é isso que está perguntando. – ele respondeu logo – Posso usar até voltar a receber normalmente. – houve um suspiro mais cansado ainda no outro lado da linha – Podemos mudar de assunto, por favor?
-Err... Sim... – ela queria continuar conversando porque aqueles pequenos fatos sobre a família de Sesshoumaru a deixavam curiosa. Ela sabia pouquíssimo a respeito deles – Meu pai está cada dia mais agitado. Ele não gosta de ficar preso à cama e sem fazer nada.
-Ele parece ser bem ativo.
-Sim. – ela concordou com um sorriso – Hoje pensei que talvez eu não precise mesmo ficar mais uma semana. Talvez possa voltar logo pra Tokyo.
-Verdade? – ele perguntou num tom meio esperançoso – O que falta para confirmar?
-Falta meu irmão ajustar o horário de trabalho dele. Aí mamãe não vai se sobrecarregar cuidando sozinha de papai.
-E quando você vai saber?
-Hakudoushi volta à noite, então... Vamos conversar e decidir algumas coisas. – ela deu um sorriso, e quis muito que ele visse como o rosto dela estava no momento – Eu ligo pra você assim que tiver uma resposta.
Houve um silêncio mais confortável na linha. Rin sorria, e imaginava que Sesshoumaru não fazia o mesmo. Ela sorria por ele, de qualquer forma.
-E você não perderá tantas aulas assim, afinal de contas.
-Sim. – o sorriso ficou maior – Mas vou precisar da sua ajuda pra estudar.
-O prazer será todo meu. – ele disse.
Provavelmente ele deve se sentir sozinho sem ninguém para conversar, pensou Rin. Além de namorada, ela era a única amiga que ele tinha. Mesmo o irmão não era tão próximo dele.
-Rin. – ele voltou a falar – Preciso desligar agora. Meu avô marcou uma "reunião" de família. Provavelmente pra anunciar que cortou minha mesada.
Oh.
-Ok. – ela disse, sentindo-se um pouco insegura – Eu ligo mais tarde.
Houve mais um suspiro pesado na linha.
-Às vezes eu penso que teria sido melhor eu ter ido com você. Assim ficava um pouco longe daqui. – ele confessou.
-Sess... – ela começou, hesitante – Eu sei que não quer falar sobre isso, mas... Posso perguntar uma coisa sobre o seu avô?
Alguns segundos se silêncio.
-O quê? – ele perguntou.
-O que o seu avô acha... disso?
-"Disso"? – ele repetiu sem entender.
-De os pais de Sara acharem que as famílias deveriam se unir por casamento. – ela explicou.
Houve silêncio.
-Ele não gosta da ideia, certo? – ela questionou – Isso é tão antiquado... Ainda mais se for com uma pessoa como ela.
Mais silêncio.
-Sess?
Rin o ouviu limpar a garganta no outro lado da linha.
-É claro que meu avô apoia, Rin. – ele respondeu num tom calmo – Foi ele que há anos sugeriu isso pela primeira vez.
Novamente, segundos de silêncio.
-Sesshoumaru? – a voz dela o chamou.
-Sim?
-Limpe sua agenda pra me pegar amanhã de manhã na estação. Estou voltando pra Tokyo pra bater um papo com seu avô.
