Capítulo 24
Demetri me abraçou e me beijou no cabelo. Eu assustei. Ele fazia questão de ser silencioso até para um vampiro. Bufei com isso, mas fechei os olhos quando suas mãos começaram a desembaraçar os meus cabelos.
- Pronta para ver seu mestre, amor?
[...]
Andamos pelos corredores do castelo de Volterra. Já estava quase amanhecendo e, pela primeira vez, eu não senti o cansaço no meu corpo devido ao horário. Demetri andava ereto ao meu lado, me acompanhando a cada passo que eu dava, parecia uma sombra. Passei pelo corredor da ala que ficava a sala branca, quando vi um casal familiar se aproximar em passos largos. Meu sorriso foi se alargando ao ver a mulher exuberante na minha frente.
Gianna estendeu os braços para mim e me puxou para um abraço apertado.
- Bella! Pensei que nunca mais Demetri deixaria você ver outros vampiros!
Eu olhei sorrindo para Demetri e levantei uma sobrancelha. Ele olhava o teto e coçava a garganta, fingindo não ter escutado. Voltei minha atenção para Gianna.
- Você está linda!
Elogiei a vampira e Felix exibiu um sorriso de orgulho de sua companheira. Ela pegou minha mão com a sua e me puxou de leve.
- Vamos, Aro espera você.
Eu engoli em seco, um pouco nervosa. Não sabia o que Aro queria comigo, Demetri havia me falado que meu mestre ia me treinar. Mas eu não queria isso agora. Eu precisava ainda controlar o meu dom para depois usá-lo e aperfeiçoá-lo, não? Gianna me guiou pelo resto do corredor desnecessariamente, eu sentia o cheiro de lírios vindo da sala, o cheiro de Aro, só que mais forte devido ao olfato poderoso. Parei em frente à porta da sala branca e Felix a abriu. Adentramos o cômodo e eu olhei para a janela para ver a claridade do dia entrar pelo vidro.
- Isabella!
A voz de Aro chegou aos meus ouvidos, clara e limpa. Eu fiz um gesto com a cabeça, inclinando-a um pouco para baixo.
- Mestre.
Ele sorriu ao me ouvir chamá-lo assim e juntou as mãos. Caminhou em direção a Demetri, pegando suas mãos fortes. Os olhos de Aro saíram de foco em um segundo. Demetri olhava para o chão e parecia fazer força para não rir. Eu vinquei a testa.
- Ah! Parece que sua primeira refeição foi excelente! Controle em ordem. Que bom que apreciou sangue de verdade Bella!
Eu dei um sorriso sem graça.
- Espero que continue com essa alimentação. Isso manterá você forte para seus propósitos. Propósitos esses que eu discutirei com você em breve.
Ele olhou para Demetri e esse sorriu torto. Chamou com um olhar o vampiro que estava postado em frente à janela à esquerda, inclinou-se para o ouvido do mesmo e falou baixo, mas alto o suficiente para todos os outros ouvidos poderosos escutarem.
- Providencie uma nova cama e um novo piso para o quarto que era de Bella.
Ah! Mas que merda! Mas que merda imensa! Por que Aro fazia questão de falar isso em voz alta? Ele não podia olhar apenas o que era de seu interesse não? Eu olhei enfezada para o meu mestre e Demetri continuava fazendo força para não rir, mas um começo de sorriso passou pelo seu rosto.
Eu cruzei meus braços inutilmente e me virei de costas, tentando esconder minha cara de vergonha e me distrair com o vento balançando uma árvore. Senti a mão de Aro no meu ombro e me virei para fitar meu mestre.
- Está pronta Bella?
Não estava, mas quem era eu para não querer fazer algo que Aro queria? Eu afirmei com a cabeça e ele fez um gesto para Jane, que estava do outro lado da sala. Ela deu alguns passos em direção a Demetri e o olhou intensamente. Ela queria torturá-lo. Senti um rosnado sair do meu peito automaticamente e Aro me olhou, fazendo um gesto para eu parar de ter reações de raiva. Olhei para Demetri, e ele continuava em pé, ileso. Respirei aliviada e Aro sorriu.
- Parece que o poder de Bella bloqueia boa parte de nós. Vamos Jane?
A vampira pequena estava com o maxilar trancado. Não parecia gostar da idéia de ter seus poderes anulados por alguém. Ela caminhou em direção a um vampiro que estava parado ao lado da porta e seus olhos se semicerraram. O vampiro caiu, contorcendo-se em dor e agonia. Eu olhei para o coitado e meus olhos pararam em Aro, que estava com a testa vincada.
- Interessante...
Jane parou de fitar o vampiro e olhou para seu mestre. Todos tinham escutado a divagação em voz alta de Aro. Eu descruzei os braços e fiquei ereta em um instante. Prendi a respiração.
- Parece que Bella protege apenas o que lhe é importante. O que faz sentido proteger. Não ela, mas seu subconsciente.
Olhei para Demetri e ele estava com as sobrancelhas quase unidas.
- Não consigo sentir o teor da mente da guarda principal.
- Excelente! – Aro juntou as mãos novamente. – Bella, pode tentar expandir sua proteção?
Eu sinceramente não sabia como fazer isso. Eu nem tinha consciência do poder que eu tinha. Como conseguiria controlá-lo? Jane caminhou em direção ao vampiro novamente e ele me olhou com súplica. Eu rapidamente fiquei com pena da criatura e senti algo saindo de mim, e indo em direção ao vampiro. Eu não sabia o que era, parecia um tipo de energia. Pequena, mas estava lá. Entendi o que eu conseguia fazer. Jane trancou novamente o maxilar e o vampiro continuava me encarando, quase sorrindo.
- Excelente!
A voz de Aro reverberou pela sala. Jane caminhou em direção ao seu mestre e ficou ao seu lado.
- Creio que agora que entendeu o mecanismo, poderá desfazer o escudo também, não?
Eu vinquei a testa e tentei desfazer o feito. A energia trasbordava do meu corpo e flutuava pela sala. Eu senti ela se direcionando para Aro, Marcus, Caius, Demetri, Jane, Felix, Gianna e o vampiro desconhecido. Mas eu nunca gostei muito de Alec. Ele sempre me olhava com desprezo e nunca acreditou que eu poderia me tornar uma vampira digna de ser Volturi, por que eu sentia a energia em torno dele? Pensei na energia saindo do seu corpo e flutuando em direção ao meu, como se meu corpo pudesse sugar novamente a energia que não era usada. Eu olhei para Alec e Jane percebeu a vítima que eu havia escolhido. Ela torturaria o próprio irmão?
Mas parece que Jane não se preocupava muito com parentescos. Aro havia treinado-a bem. O corpo duro do vampiro com cara de anjo caiu no chão, fazendo um barulho grande de algo quebrando e eu vi os olhos de Alec saírem de foco. Em um instante ele estava no chão, no outro me olhava com raiva.
- Desculpe Alec.
A voz de Jane saiu um pouco engraçada. Parecia que tinha acabado de fazer uma brincadeira de mau gosto com o irmão mais novo, não implantado dor no seu cérebro.
- Parece que nossa Bella conseguiu o esperado.
Aro caminhou em direção a mim e pegou a minha mão.
- Agora, quero que você treine o seu outro dom, Bella. O seu escudo particular poderá ser muito útil se você conseguir controlá-lo. Está preparada?
Assenti com a cabeça. Eu não tinha nem idéia de como faria isso, de como controlaria meu outro dom. Sentir a energia fora fácil, porque eu sabia o mecanismo de um escudo: proteção. Mas implantar algo na mente de uma pessoa era bem diferente. Olhei para Demetri e ele sorriu me encorajando. Voltei meus olhos para Aro.
- Tente imaginar que um vampiro dessa sala lhe fez algo ruim.
Eu engoli em seco e corri meus olhos pela sala. Ninguém ali teria algum potencial para despertar minha ira. Eu fiz um barulho estranho de impaciência com a boca. Aro viu a minha decepção e olhou para os dois vampiros perto da janela. Altos e fortes. Fortes até demais. Eles caminharam em direção a Demetri e ele olhou para mim. Eu sabia que Demetri daria conta das criaturas, mas algo despertou dentro de mim. Uma chama. Raiva. Vontade de fazê-los recuarem. Olhei em direção aos dois e eles caíram em um segundo, chorando de agonia. Não era dor, era tristeza extrema. Eu gostei de fazê-los sofrer. Quem eles pensavam que eram para avançar em meu Demetri assim?
Aro colocava a mão no queixo e sua cabeça estava pousada para o lado, como se pensasse. Lembrou-me um cachorro curioso.
- Parece que a falta de segurança de Demetri desperta sua ira, Bella.
Eu olhei para Demetri e ele caminhou na minha direção, colocando o braço quente em volta da minha cintura.
- Creio que quando olhava Henrique e Willian fixamente, algo passou pela sua cabeça, não?
Eu vasculhei meu cérebro à procura de algo que teria visto, mas eu só lembrava uma.
- Raiva?
Aro sorriu, mas balançou a cabeça negativamente.
- Não. Tente de novo, sim?
Os vampiros me olharam com medo, eu só havia visto olhares assim em vampiros que fitavam Jane. Eu me concentrei o máximo, decepcionar Aro não estava na minha lista de coisas para fazer no primeiro dia de vampira. Eu senti uma chama sair da minha cabeça, como se estivesse partindo do meu cérebro, concentrei-me em depositar essa chama no cérebro do vampiro de nome Willian. Ele caiu. Ele caiu e gritou. Ele caiu, gritou e chorou.
E então eu vi. Um homem muito parecido com Willian, olhos castanhos e cabelo mais curto saindo com uma mulher e passando a noite em um motel barato. Eu vi uma mulher mais velha gritando com ele; o homem, que era Willian humano, estava no chão e gritava algo como se estivesse pedindo perdão, lágrimas saíam dos olhos dele. A mulher arrancou uma aliança que eu reconheci ser de casamento e bateu a porta com força, carregando consigo uma mala. Eu vi Willian morrendo de sede, os olhos dessa vez vermelhos vivos, matando tudo o que via pela frente e drenando cada corpo que tinha sangue. Mulheres, homens, crianças, idosos. Eu vi Willian, novamente humano, em cima de um caixão, seu corpo se sacudia devido aos soluços. Eu vi Willian matando um vampiro, que gritava de dor. Eu vi Willian em muitas situações ruins.
E eu quase entrei no sonho de tortura dele. Mas eu não queria mais sentir essa dor, eu não queria mais sentir coisas tristes. Juntei minhas forças para sair do meu próprio pensamento e meus olhos entraram em foco em um minuto, fazendo com que a sala clareasse e eu visse Aro com olhos fixos em mim.
- Seus olhos...
Eu automaticamente levei minhas mãos às pálpebras, fechando-as fortemente e as abrindo, como se quisesse tirar um cisco.
- Negros. Mais negros do que vampiros com meses de fome...
O vampiro Willian se levantava, tremendo. Eu quase pedi desculpas. Mas ele saiu da sala branca correndo. Senti uma mão pousar no meu ombro e a olhei, reconhecendo-a imediatamente. A mão forte era inconfundível. O cheiro de canela estava presente. Aro olhou para mim.
- Bella, você conseguiu ver?
Eu assenti para meu mestre e ele suspirou de alívio.
- Excelente! Sabe o que acaba de acontecer?
Eu tinha uma idéia da resposta, mas eu acho que preferia escutar da boca de Aro o que eu havia feito.
- Você acaba de entrar na mente de uma pessoa, Bella, não sabe o quanto isso significa. A mente é algo muito incomum, e de difícil acesso. É um dom fora do normal. Nos Volturi, apenas eu, Demetri e Jane temos contato com algo parecido. Eu principalmente. Mas o nível que você alcançou, é muito alto, e muito profundo ao mesmo tempo. Mas você só teve acesso às imagens porque fez com que elas viessem à tona. Demetri poderá lhe dizer como ficou seus olhos.
Eu olhei para meu vampiro e ele abriu a boca, fazendo um cheiro de canela chegar ao meu nariz.
- Sua pupila se dilatou muito. Seus olhos estavam completamente negros Bella, parecia alguém possuído.
Eu tremi com a fala de Demetri e ele sorriu para mim, parecendo gostar da minha aparência. Demetri adorava tudo isso. Sua tendência para o mau era algo preocupante. Mas eu não liguei muito.
Aro caminhou em direção ao trono, sentando-se e falando algo baixo demais até para meus ouvidos, para Marcus e Caius. Eles sorriram e acenaram para mim.
- Creio que daqui algumas horas teremos visitas que você gostará de rever, Bella.
Meu corpo se enrijeceu e minha mente se inundou com a imagem de Edward, mas Aro pareceu ver minha repugnância e prontamente consertou o mal entendido.
- Acho que os vampiros que testaram seu poder outro dia, gostarão de ser testados agora, não?
Lembrei-me dos franceses. Um havia me hipnotizado, e eu quase tinha me matado, se não fosse pelo ataque de raiva de Demetri. Senti uma vibração sair do meu peito e Aro sorriu.
- Ótimo! Volte daqui algumas horas! Creio que faremos uma proposta irrecusável para meus amigos Pierre e Louis.
Ele falou para mim sorrindo, mas seus olhos passaram pelo guarda que estava ao meu lado e eu vi algo diferente. Preocupação?
- Vamos caçar.
A voz de Demetri chegou aos meus ouvidos e eu senti minha garganta queimar. Eu estava tão entretida com o meu treino que não vi a sede aumentar de pouco em pouco. Estava há menos de doze horas sem beber e a garganta já ardia em protesto. Saímos da sala e Demetri andava tenso. Eu não entendi aquilo. Mas algo me falava que era devido ao olhar significante que Aro havia lhe dado. Ele sabia de alguma coisa? Eu ia perguntar, mas pensei em deixar isso para depois.
Os corredores estavam vazios. Demetri pegou dois mantos que estavam dependurados na recepção e eu olhei para a escrivaninha à esquerda. O lugar de Gianna estava vazio. Colocariam outra humana para ser recepcionista? Ele jogou um manto para mim e eu rapidamente o coloquei. Ele já estava vestido. Subimos as escadas de pedra em um segundo e logo estávamos de frente para a porta.
- Não deixe um pedaço de pele aparecer.
Eu assenti e dei um passo à frente, mas Demetri continuou no mesmo lugar.
- Isabella?
Eu olhei para Demetri.
- Tente se controlar, por favor.
Sua voz saiu estrangulada. Parecia estar com medo do meu autocontrole ser pequeno. Gesticulei com a cabeça e a porta se abriu, revelando um sol forte, e humanos. Muitos humanos. O cheiro de sangue diversificado chegou ao meu nariz e eu salivei, fazendo veneno acumular na minha boca. Eu foquei em um cheiro delicioso que estava perto da torre do relógio. Era um homem, na casa dos trinta anos.
Dei dois passos rápidos à frente e senti uma mão forte me segurar pelo cabelo. Forte demais. Virei-me rosnando, pronta para atacar o ser que havia me impedido, e Demetri me segurava com um olhar de raiva. Relaxei em um instante com seus olhos negros me fitando. Parecia que ele era o único que poderia puxar o meu cabelo e não morrer.
- CONTROLE-SE.
Eu engoli o veneno e mostrei os dentes.
- Me tire daqui.
Sua mão envolveu a minha, e ele me puxou rapidamente para uma ponte que estava à esquerda. Quem via a cena, acharia que éramos namorados procurando um lugar com privacidade o suficiente para uns amassos. Um rio passava por baixo. Eu fechava os olhos e engolia o veneno que quase transbordava da minha boca, comecei a tremer. Demetri acelerou o passo e passou por entre várias árvores. Ele tirou a capa e sua pele cintilou ao sol, fazendo-o parecer um diamante. Eu nunca havia visto Demetri assim. Ele conseguiu ficar mais encantador, seus cabelos ficaram mais claros devido aos raios de sol.
Eu julguei ser um local seguro para tirar a minha e ele assentiu com a cabeça. Removi o pano de cima de mim e contemplei meu braço brilhando, era lindo.
Um aroma chegou ao meu nariz, fazendo minha boca salivar. Demetri cheirou o ar.
- São dois, vamos?
Eu assenti e ele correu na direção norte. Eu corri atrás dele, pensando pela primeira vez que eu não tinha cogitado a possibilidade de caçar animais. Mas o cheiro era muito bom, eu queria experimentar mais daquilo, eu precisava experimentar mais daquilo. Minha boca se encheu de veneno com a expectativa e eu corri mais rápido, passando por Demetri e chegando à origem do cheiro.
Dois homens conversavam alegremente, apoiados em bicicletas. Demetri saltou facilmente por cima de um, quebrando seu pescoço e afundando os dentes no corpo mole da vítima. O outro homem me olhou e tentou fugir, mas instintivamente eu pulei em cima do cardápio e o joguei para a grama. Ele me olhou com olhos assustados e cheios de lágrimas.
Teria coragem de tirar outra vida inocente? Eu quase o soltei, com pena. Quase. Fechei os olhos para não olhar o terror que eu causava e afundei minhas presas no pescoço do pobre. Seu grito chegou aos meus ouvidos e o gosto de sangue escorreu pela minha garganta fazendo meu peito tremer de satisfação. Delicioso.
