************************Cap 26 O primeiro dia do resto de nossas vidas.************************
Praia Eros, Santorini, 04:37pm.
Na abrigada e deslumbrante praia de finos e claros cascalhos abraçados pelas águas límpidas de um azul profundo e vista fantástica da ilha de Santorini, foi erguido um altar caprichosamente ornado por belíssimas e perfumadas rosas brancas.
Saga escolhera pessoalmente aquele lugar. Além de oferecer uma beleza espetacular e formidável, a praia Eros ficava isolava e distante das demais praias mais frequentadas da região, e em baixa temporada era praticamente deserta.
Feita a escolha do local, bastou desembolsar uma boa quantia em dólares para convencer os proprietários do hotel e do bar à beira mar que serviam a região a fecharem um aluguel exclusivo para um evento tão particular quanto sigiloso.
Junto à melodia das ondas que graciosas valsavam tocando os cascalhos da orla, se misturavam as vozes dos poucos convidados que cochichavam entre si, e o barulho do atrito produzido pelo caminhar frenético de Saga sobre as minúsculas pedrinhas de calcário.
Andando de um lado para o outro nervosamente em frente ao altar, já devidamente vestido para a ocasião dentro uma bela calça de linho de cor crua, camisa de botão branca com as mangas dobradas até os cotovelos e um colete, também cru, que ostentava uma linda flor de jasmim presa ao bolso, o grego esfregava uma mão contra a outra, enquanto repetidas vezes olhava ansioso para o hotel-bar que parecia brotar do paredão de calcário claríssimo ao fundo da praia.
— Ela está demorando demais! — ele deu um suspiro pesado de preocupação, estralando nervoso os dedos da mesma mão pela terceira vez, enquanto era observado por Shaka, Mu e Afrodite que estavam de pé ao lado do altar — Será que aconteceu alguma coisa?
— Não aconteceu nada, Saga. — disse o ariano, que trazia Kiki em seu colo preso a um sling branco e vestido em um gracioso e minúsculo macacão azul claro, costurado especialmente para a ocasião por Shaka, pois imitava o recorte de um smoking.
Mu também estava muito elegante. Havia escolhido uma camisa branca, a qual dobrou as mangas até os cotovelos, calça de algodão cáqui, suspensórios e gravata borboleta azul índigo. Na cabeça o lemuriano colocou um chapéu panamá sobre os longos cabelos lavanda que manteve bem presos.
— Um imprevisto, talvez... — repetiu o geminiano, que de repente parou e arregalou os olhos, encarando os amigos — Zeus... Será que ela está passando mal?
— Buda! Quem vai passar mal daqui a pouco é você se não se acalmar. — resmungou Shaka franzindo as sobrancelhas loiras.
— Eu vou até lá. Preciso saber o que está acontecendo. Ela está atrasada. — falou Saga, surpreendendo a todos.
— Alôca! — gritou Afrodite, que assim como a maioria dos homens ali usava também calça de algodão em tom claro, com a barra dobrada até o meio das canelas, camisa branca soltinha e não usava sapatos. O diferencial ficou por conta da gola bordada com paetês, dos tantos anéis e pulseiras de valor inestimável que adornavam suas mãos delicadas e uma exuberante rosa vermelha que ajeitou nos cabelos soltos, atrás da orelha.
— Epa! Pode parar! — interveio o ariano.
— Mas... — quis insistir o geminiano, mas foi interrompido quando Peixes segurou em seu braço.
— Tá maluca, santa? — disse o sueco encarando os olhos de Saga — O noivo não pode ver a noiva pronta antes da cerimônia. Quer vuduzar seu casamento antes mesmo de ele acontecer? Ah, tá boa!
— Não, mas... Eu... — o geminiano tentava se manter calmo, pois como todo grego que se prese era supersticioso e não tentaria contra um velho tabu — E se tiver acontecido alguma coisa com ela, Afrodite?
Percebendo que nada, apenas a chegada de Geisty, tranquilizaria o grego, Mu interveio.
— Eu vou até lá. — disse o ariano — Dois anos fazendo compras para as meninas do bordel e as acudindo em todo tipo de situação fizeram de mim um especialista em chilique feminino... E Dido, você vem comigo. — agora era Mu quem pegava no braço de Afrodite, o fazendo soltar o de Saga — Eu posso entender de chilique, mas se o problema for vestido, maquiagem ou penteado, ai é com você.
Sem dizer mais nada, Áries e Peixes tomaram o caminho até o hotel deixando para trás um noivo com os nervos a flor da pele e convidados curiosos.
Aldebaran, que esperava do lado oposto do altar onde antes estava Afrodite, observava a tudo calado e ansioso. Vez ou outra retirava um lencinho branco de dentro do bolso da calça de linho que usava e enxugava a testa suada, depois arrumava a gola da camisa amarelo claro, ou ajeitava as mangas dobradas, regulava o cinto... Estava aflito também.
Máscara da Morte, Shura e Aiolia seguiram o mesmo padrão de indumentária, com peças leves em cores claras, bem condizentes a um casamento na praia, e esperavam pelo início da cerimônia sentados em um elegante banco de madeira pintado de branco e enfeitado com rosas e laços de cetim que fora posto de frente para o altar.
Enquanto na praia todos aguardavam ansiosos pela chegada da noiva, no hotel Mu e Afrodite subiam até o quarto ocupado por Geisty para se arrumar.
Quando se aproximaram da porta puderam ouvir as vozes alteradas de Shina e Geisty do outro lado, então Mu se apressou em bater na madeira dando três toques. Contudo esses não foram ouvidos dada a balburdia dentro do quarto criada pelas duas italianas que tentavam resolver o impasse bem a seu modo, aos berros.
Lindíssima dentro de um vestido de noiva em corte clássico grego feito em seda branca e organza finíssima na mesma cor, saia plissada, manga esvoaçante e detalhes bordados em cristais nos ombros e também na pala logo abaixo do busto, solto e confortável como sua condição de gestante exigia, Geisty olhava aflita para o espelho preso à parede. Estava sentada em uma banqueta enquanto esperava Shina lhe arrumar os cabelos.
De pé atrás da noiva, Ofiúco tentava, pela sétima vez, prender o coque alto com grampos, mas nada parecia segurar aquela cabeleira negra de fios pesados e escorridos da amiga, e Shina estava à beira de manda-la descer com os cabelos soltos mesmo.
— Ma che cazzo! — excomungou Ofiúco esfregando as palmas das mãos na lateral do vestido corte sereia verde água, na altura dos quadris. O vestido era tão justo que lhe marcava toda a silhueta perfeita.
Ao lado dela Marin segurava uma grinalda de cristais e flores do campo enquanto assistia a tudo aflita. Vestia um vestido de seda rosa chá esvoaçante, saia longa e estampas de flores de cerejeira no barrado. No cabelo preso com um coque baixo usava um arranjo de jasmins igual ao que Shina também tinha nos dela.
Foi Marin quem ouviu os toques na porta que Mu dera pela segunda vez e prontamente correu até lá, abrindo apenas uma fresta.
— Eu sei, estamos atrasadas! — disse a japonesa sorrindo timidamente ao olhar para o rosto do Santo de Áries que trazia Kiki no colo.
— O que é normal para uma noiva. — respondeu o ariano sorrindo — Mas, estamos com um noivo à beira de um ataque de nervos lá em baixo e vim ver se está tudo bem, ou se precisam de ajuda com alguma coisa.
Marin então abriu um pouco mais a fresta e viu Afrodite ali, ao lado de Mu.
— Pela graça de Atena! — disse a Águia, depois escancarou a porta, esticou o braço e pegou no pulso do cavaleiro de Peixes o puxando para dentro — Que bom que vocês dois vieram! Precisamos de ajuda sim, principalmente da sua, Afrodite. Entrem.
Assim que entraram a japonesa fechou a porta enquanto Áries e Peixes se aproximavam das outras duas amazonas de frente para o espelho.
— Pela deusa! Mas o que vocês estão fazendo aqui? — falou Geisty espantada — Eu já estou muito atrasada, né? Caspita!
— Qual é o Equê, Ofiúca? — perguntou o sueco.
— Essa porra de cabelo que não segura os grampos. — resmungou Shina dando um tapinha na cabeça de Geisty.
— Ai! É porque são os grampos que têm que segurar o cabelo e não o cabelo que segura os grampos. — esbravejou Geisty — Atena! Vou me casar toda descabelada! A culpa não é do meu cabelo, é sua, que falou que sabia fazer essa merda de penteado.
Com ambas as mãos no rosto, apertando as bochechas, Afrodite olhava para as duas amazonas sem acreditar em como conseguiam perder o controle por causa de um penteado. Geisty era de longe a mais louca. Se normal ela já era insuportavelmente afetada, grávida e prestes a se casar ela era ainda.
— Elas estão nervosas. É a ansiedade do casamento, ansiedade de noiva! — disse Marin tentando acalmar os ânimos — Já falei para Shina se acalmar, porque Geisty além e tudo está gravida, não convém se aborrecer assim, mas as duas não me ouvem.
— Calma, meninas. — pediu Mu em voz alta aproximando-se da amiga — E vocês duas, maneirem a linguagem. O mini pajem ainda não tem idade para ouvir palavrão. — sorriu, acompanhado do filho que dava gritinhos alegres — Estamos aqui para ajudar.
— Oh, Atena! Está tão elegante meu pajenzinho! — disse Geisty virando-se na banqueta para pegar na mãozinha agitada do bebê risonho no colo do ariano, sentindo suas próprias mãos ligeiramente trêmulas, depois ergueu o olhar e divisou, agoniada, o rosto de Mu — Preciso de uma cabeleireira urgente! Não quero me casar descabelada... e o meu buquê... — olhou para o buquê sobre a cômoda — Alguma coisa deu errado com as flores... elas estão murchando. — suspirou.
Realmente o cabelo da noiva estava um desastre, completamente duro e bagunçado, e o buquê não iria resistir até o fim da festança. Enquanto Mu tentava acalmar Geisty, Afrodite respirou fundo e tomou a dianteira daquela situação.
— Desaquenda todo mundo daqui. — chacoalhou as mãos no ar avançando para perto de Geisty.
— O quê? — disse Shina.
— Vai, Ofiúca e Águia nipônica, podem ir lá para a praia. Vocês só estão piorando tudo. Esses quarenta quilos de picumã, sendo que só vinte é de franja, não vão se segurar com grampinho é nunca! Deixa comigo. — disse o sueco.
Serpente, mesmo sem soltar as mãozinhas de Kiki, acompanhou com o olhar o pisciano que já se colocava atrás dela enquanto Shina e Marin se afastavam.
— Detesto admitir, amiga, mas ele tem razão. — disse a italiana de cabelos verdes.
— É claro que tenho razão! — falou o pisciano — Vão indo para o altar que não vou demorar nada aqui.
Marin deixou a grinalda sobre o cômodo e junto de Shina caminhou até a porta. Antes de deixarem o quarto acenaram sorridentes para Serpente, que soltou um suspiro frustrado assim que elas passaram pela porta a fechando.
— Você acha que consegue arrumar essa desgraça aí no meu cabelo, Afrodite? — ela perguntou soltando a mãozinha de Kiki para se endireitar na banqueta.
— Sim senhora! — respondeu o pisciano — Eu dou um jeito nisso fácil... Também posso fazer um buquê Odara* para você, e muito mais bonito que esse buquê matim* aí que te arrumaram. Só que tem um problema.
— Sempre tem um problema. — disse ela, cansada e aflita — Qual seria?
— Eu só posso criar rosas. — disse olhando para o reflexo dela no espelho — O meu Cosmo não cria outro tipo de flor.
A amazona balançou a cabeça em afirmação.
— Faça o que der, Afrodite. Não tenho mais tempo de me dar ao luxo de escolher porra nenhuma mesmo... Só tente, por favor, arrumar essa porcalhada toda aí no meu cabelo. — soltou mais um suspiro aborrecido, sem desfazer o bico que acompanhava a expressão de chateação — E se possível faça rosas sem perfume... ou... com um perfume não tão enjoado, tudo bem? Pode ser? — disse olhando para o reflexo do pisciano no espelho.
Peixes revirou os olhos já ativando seu Cosmo, tomando o cuidado de apenas usá-lo para criar as flores, sem liberar suas toxinas.
— Ah, você também não quer um sapato sem sola e um vestido sem saia? —disse irônico — Porque é a mesma coisa que pedir rosas sem cheiro de... rosas! O máximo que posso fazer para Vossa Alteza são rosas com um perfume bem suave, mas que ainda irão cheirar à rosas. Mas, não se preocupe, só pessoas com um olfato aguçado e refinado podem sentir, o que não é o teu caso.
Ao lado, Mu não pode evitar rir daqueles dois. Era cômica a relação entre eles, e enquanto os analisava atento acariciava os cabelinhos ruivos de Kiki preso ao sling, ao mesmo tempo em que, surpreso e admirado, via a facilidade com que Afrodite fazia o penteado de Geisty.
Criando minúsculos galhos que ao seu comando se trançavam entre as madeixas negras da amazona fazendo o que os grampos não deram conta de fazer, Peixes prendia as mechas conforme as ia trançando e modelando, até criar um penteado digno de uma noiva amazona de Atena. Arrematou prendendo a grinalda com a mesma facilidade.
— Pronto, Sucu... Geisty! Está linda, colega! — disse sorrindo e dando uma piscadinha para ela no reflexo do espelho. — É só não virar monstra de repente que vai ficar parecendo uma rainha até o fim da festa!
— Nossa! Tão... rápido? — ela se espantou contemplando seu reflexo no espelho, virando de lado, observando todos os ângulos daquele penteado deslumbrante, até que finalmente um sorriso de alegria e alívio se desenhou no em seu rosto — Eu nem acredito! Ficou lindo, lindo!
Olhou meio de soslaio para Afrodite através do espelho e pensou que se estava disposta a mudar seu convívio com o sueco deveria começar a agir desde já, então se levantou, virou de frente para ele e olhou em seus olhos aquamarines risonhos.
— Obrigada pela ajuda, Afrodite. — disse ela.
Peixes nunca tinha reparado no quão lindos eram os olhos daquela amazona. De um azul profundo que remetia à densa massa oceânica que abraçava a costa grega, com nuances violetas de uma intensidade irracional. Eram selvagens, sim, mas lá no fundo, bem lá no fundo daquelas íris tão raras, ele também pode notar uma doçura tímida, acuada. Talvez fosse isso que cativara Saga. A dualidade extraordinária daquela mulher.
— Não há de que. — deu de ombros — Mas, ainda falta uma coisa.
— O buquê. — disse ela.
— Um buquê digno, né meu bem. — esticou os braços para frente em paralelo, entrelaçou os dedos os estralando algumas vezes e novamente utilizando seu Cosmo criou um exuberante buquê de rosas em tons de lilás, violeta e carmim. Passou a mão na fita de cetim branco que sustentava o buque anterior e fez um laço unindo os caules das rosas — Pronto. Agora com a graça de Dadá vá logo, ou vai ter que velar teu noivo em fez de jurar fidelidade, amor eterno na saúde e na doença e aquela charufinácea* toda de casamento.
— Ficou lindíssimo, obrigada! — ela agradeceu pegando o buque na mão, encantada com tamanha beleza, mas tinha pressa, muita pressa — Bem, agora vocês dois vão indo na frente. Avisem todos para se posicionarem que eu já vou descer. — disse empolgada passando a mão pela saia do vestido para ajeita-la.
— Vai indo, Dido, eu já vou. — Áries piscou para o sueco que logo entendeu a mensagem de que deveria deixa-los a sós e assim o fez.
Quando Afrodite deixou o quarto e Mu se viu sozinho com a amazona, olhou para ela com serenidade no olhar enquanto a via ansiosa arrumar o vestido.
— E então, estou bem? — Geisty lhe perguntou sorridente.
— Você está maravilhosa! — ele lhe respondeu sorrindo, depois com alguns passos aproximou-se dela até parar poucos centímetros de tocá-la, e apenas ficou a observa-la.
— Que foi Mu? — ela perguntou curiosa.
O lemuriano não respondeu de imediato. Ao em vez disso, com imenso carinho inclinou-se para frente e beijou ternamente a testa da noiva.
— Desde que nos conhecemos, na infância, eu a tive com muita consideração, como uma irmã mesmo, já que também foi treinada por Shion, a quem eu considero como um pai.
— Mu! — Geisty murmurou emocionada, pois não esperava por aquelas palavras.
— Hoje acho que você é a pessoa mais próxima de um parente que eu possuo. Foi por isso que não achei necessário que fosse madrinha de Kiki, pois ocupa um posto maior, o de tia dele. Então, como seu irmão de criação, seria com imensa felicidade que gostaria de ter a honra de conduzi-la até o altar, se me permitir é claro.
A amazona não pode conter o imenso sorriso que se formou em seu rosto devido às palavras ditas pelo lemuriano. Piscou seguidas vezes abanando o rosto de sobrancelhas perfeitamente delineadas na tentativa de conter as lágrimas que insistiam em escapar de seus olhos.
— Mu, vai me fazer borrar a maquiagem! — disse sorridente — Mas é claro que sim, seu bobo!... Puxa, você me pegou de surpresa!... Você foi meu primeiro amigo, e é uma honra para mim ser considerada sua irmã e tia desse bebê fofo. — as palavras se engasgavam na garganta da jovem.
Emocionado com a reação da amazona o ariano retirou rapidamente do bolso da calça um lencinho de algodão e o entregou à amiga, que de pronto conteve a lágrima fujona.
— Não vai borrar a maquiagem antes da hora. — ele brincou.
— Obrigada, Mu, por tudo! — ela sorriu olhando nos olhos do ariano — E saiba que você, Shaka e Kiki também representam uma família para mim... Eu sou muito grata pelo apoio que você dá a mim e ao Saga.
Sorrindo alegre a amazona abriu os braços e abraçou os dois lemurianos, dando um beijo estalado na bochecha de Mu e outro nos cabelinhos de Kiki.
— Eu não poderia estar mais feliz nesse dia! — ela disse ao se afastar para com a mão que tinha livre pegar na mão do Santo de Áries — Então vamos, meu irmão. Leve-me até o altar para que eu jure diante dos deuses o meu amor ao homem da minha vida. — disse dando um sorriso de pura felicidade.
Na praia, em frente ao altar Saga apertava as mãos aflito. A espera pela noiva já estava o consumindo.
Agoniado, tombou o corpo para o lado e perguntou baixinho para Afrodite.
— Você tem certeza de que ela já estava mesmo vindo?
— Pelos cachos hidratados de Dadá! Já não te disse que sim, santa? — respondeu Afrodite revirando os olhos.
— Minha Nossa Senhora da Divina Providência! Cadê essa noiva que nunca vem? — exclamou Aldebaran, curioso pela demora — E cadê o Mu?... Ô Marin, cadê eles dois? Vocês duas voltaram já faz um tempinho, heim!
— Eles já estão vindo. Sossega. — disse calmamente a japonesa com um sorriso leve no rosto.
E Águia estava certa.
Logo os músicos contratados para animar a singela comemoração iniciaram a marcha nupcial, fazendo o coração de Saga disparar no peito quando há poucos metros dali pode ver os dois descendo as escadas, enquanto o véu da noiva tremulava discreto com a brisa. Imediatamente o olhar do cavaleiro de Gêmeos foi capturado pela presença dela, a sua amazona, a mulher que sempre amou e que nunca lhe parecera tão linda como naquele momento.
O sol, que já começava a se esconder no horizonte, tingia toda a orla da praia com seus tons corais, banhando Geisty com um brilho dourado que refletido pelo vestido e o véu branco reluzia ainda mais intenso, lhe dando um ar divino. A suave brisa vespertina fazia dançar no ar o véu e ela caminhava parecendo flutuar sobre o caminho de pétalas de rosas azuis, brancas e lilases que jaziam sobre a areia.
Saga se surpreendeu ao ver Mu a conduzindo de braços dados, e seu coração se regozijou em festa. Finalmente parecia que as mágoas e erros do passado não tinham mais forças para afasta-lo dos amigos.
Mas o Santo de Gêmeos só tinha olhos para Geisty.
Sem ao menos piscar ele corria os olhos pela figura deslumbrante a caminhar pela areia. Cada vez mais perto.
Como havia esperado por aquele momento. Mal podia acreditar que agora ele se concretizava.
Sentia o coração dar saltos dentro do peito. Aquele mesmo coração que outrora fora tão castigado, pelo irmão, pelo antigo Grande Mestre, pelas mazelas da dura vida de cavaleiro, e por si mesmo, por seu lado mais obscuro. No entanto, agora esse mesmo coração era só alegria, amor e esperança, e todos esses sentimentos vieram à tona enquanto olhava para Geisty caminhando na areia, até extravasarem através de seus olhos em lágrimas que não teve a menor pretensão de conter.
Pensou em caminhar até ela, mas suas pernas não o responderam. Ficou ali, estático, com os olhos marejados e um sorriso pleno de felicidade.
Quando Geisty chegou ao altar devolveu a Saga o mesmo olhar emocionado, apaixonado, lhe sorrindo plena de felicidade. Mu então estendeu a mão para cumprimentar o geminiano, e depois do aperto formal pegou na mão da noiva e a entregou ao noivo.
— Cuide bem dela, Saga, ou vai ter que se acertar é comigo. — disse o ariano, sorrindo com a brincadeira, depois se retirou se posicionando ao lado do altar onde agora tinha a missão de tentar acalmar Kiki, já que, envolvido pela energia positiva da cerimônia, só faltava pular para fora do sling, tamanha sua agitação.
O noivo mal respondeu ao ato do ariano. Por instantes Saga parecia ter perdido parte de sua capacidade perceptiva e toda sua atenção agora era voltada para a sua amada, parada bem a sua frente.
— Deuses... você está tão linda, amazona! — o grego sussurrou analisando cada pequeno detalhe daquela bela figura que lhe sorria, querendo registrar na memória aquela imagem para sempre para poder sentir a mesma emoção quando se recordasse daquele momento. Sentia o sorriso de Geisty passar felicidade, e esse sentimento lhe abraçava como se fosse parte de si próprio. Através do brilho do olhar dela via refletido o seu próprio sorriso, leve, verdadeiro, pleno, como talvez nunca antes.
— Você também está lindo, cavaleiro. — disse Geisty, que se recordava de ter visto Saga tão feliz assim apenas quando soube que seria pai. Ele lhe sorria com os olhos, com a alma. Estava, de fato, incrivelmente bonito naquele traje despretensioso de noivo, mas sua beleza ia muito além de porte físico. Ele tinha a beleza que só as pessoas que são verdadeiramente felizes são capazes de transmitir.
Emocionada ela o fitava dos pés à cabeça, cuidadosamente, também intencionando guardar na lembrança cada detalhe da imagem do homem a quem escolheu para passar a vida a seu lado. Não foi uma escolha fácil, simples, como nada em sua vida era desde o início, mas optou por ouvir a ele e a seu próprio coração. A vida tinha feito de tudo para separá-los, mas, mesmo assim ali estavam eles.
Com delicadeza, Saga segurou em ambas as mãos de Geisty e as beijou ternamente, em seguida trocaram um olhar cúmplice e profundo antes de Gêmeos se inclinar para beijar a testa da amazona em sinal de cuidado e respeito e os dois então se posicionarem de frente para o altar, lado a lado.
De olhos abertos, sorriso singelo no rosto, vestido em uma elegante túnica grega típica dos sacerdotes cerimonialistas toda branca com bordados em dourado, Shaka observava o casal à sua frente verdadeiramente feliz de estar fazendo parte daquele momento.
— Neste dia especial, eu os recebo nesse altar, Saga e Geisty, para juntos celebrarmos o amor através dos sagrados votos do casamento. — disse o Santo de Virgem ao dar início à celebração.
Sobre o altar forrado por uma elegante toalha branca de rendas, Shaka agora acendia duas velas, as quais estavam dispostas lado a lado sobre pequenos castiçais dourados. Também ali, sobre um tabuleiro forrado com amêndoas, haviam duas coroas, uma feita com louros, como as que os antigos heróis gregos usavam, e outra com flores do campo e jasmins. Uma fita branca de cetim as unia com um laço.
Enquanto proferia as bênçãos iniciais, as repetindo três vezes como mandava a tradição grega, Shaka entregou uma vela para Saga e outra para Geisty, lhes pedindo para que as segurassem até o final da cerimônia. Em seguida, retirou a fita branca que unia as duas coroas e repetindo os dizeres sagrados as colocou na cabeça dos noivos, a de louros na de Gêmeos e a flores do campo e jasmins na de Serpente.
— Saga, Geisty, essas coroas simbolizam a união eterna de vocês, a que nada, nem ninguém, será capaz de separar. — disse o Santo de Virgem, e todos estavam atentos em suas palavras — Vocês agora devem trocá-las três vezes, enquanto nós que aqui estamos rogaremos à Atena que os abençoe com uma vida repleta de felicidade, harmonia, paz e prosperidade.
Assim os noivos fizeram, trocando as coroas e repetindo os ditos do ritual, sempre sorridentes, emocionados e sem tirar os olhos um do outro.
Shaka então encheu uma taça com vinho tinto e serviu um gole ao cavaleiro e outro à amazona.
— O vinho simboliza a verdade que sustentará sua relação. Que não haja segredos entre vocês. — disse o indiano, depois retornou a taça à mesa, deu a volta no altar e se colocou no meio dos noivos.
Segurando cada um pelo braço os conduziu em torno do altar até completarem três voltas, então retornou à posição original para encerrar a cerimônia.
— Saga, Geisty, amar é saber observar o outro para descobrir o que o faz feliz, e então fazê-lo feliz. Observem-se um ao outro. Amar é proteger, é respeitar... Os seres humanos temem a violência e a morte na mesma proporção que amam a vida. Projetem a si mesmos em todas as criaturas viventes, e então jamais poderão ferir a ninguém, pois que mal vocês seriam capazes de fazer a si mesmos? Amem-se, a vocês em primeiro lugar, e então estarão prontos para amar todas as coisas... Amem um ao outro com lealdade e simplicidade, então seu lar será tão bonito quanto um jardim florido... Que as bênçãos de Atena caiam sobre vocês, seu lar e seus filhos. — disse sorrindo para eles, depois apanhou de cima do altar o tabuleiro com amêndoas e o entregou à Geisty — Você deve entregar as sementes para as mulheres solteiras, assim será abençoada com proteção e fertilidade. Em seguida os padrinhos devem entregar as alianças.
Com o tabuleiro em mãos Geisty foi até Shina, que sorridente estendeu as duas mãos unidas em concha para receber a amêndoa. Em seguida foi a vez de Marin, que após ser presenteada fez uma reverência típica de sua educação japonesa.
Enquanto Geisty distribuía as amêndoas, discretamente Mu foi até o carrinho de bebê onde estavam as coisas de Kiki e com cuidado prendeu no pulso do filho um laço de cetim preso às duas alianças que tinha forjado. Retirou o sling o deixando dentro do carrinho e voltou apressado para a cerimônia, agora carregando o filho livre em seus braços.
O ariano então segurou o pequeno lemuriano pelo corpinho o estendendo à frente, exibindo o bebê ao conduzi-lo até o altar, que alegre exibia a gengiva com seu sorriso banguela enquanto fazia sons engraçadinhos balançando as perninhas e mãozinhas no ar, adorando o som do tintilar das alianças que seu remelexo causava.
Shaka então recolheu o tabuleiro com amêndoas, estendeu os braços e segurou na mão dos noivos, fez uma prece, recolheu as velas que eles seguravam as colocando de volta nos castiçais sobre altar ao lado do tabuleiro.
Os noivos agora tinham a difícil missão de desatar a fita das mãos do bebezinho agitado para pegar as alianças. Era bem verdade que os dedos trêmulos de ambos devido ao nervosismo não ajudavam na tarefa, mas a ansiedade em trocarem as alianças e carregarem consigo o símbolo dos votos que fariam era muito mais forte.
Quando finalmente conseguiram, cada um pegou na mão a aliança que ofereceria ao outro e, como imaginaram, elas eram de uma beleza extraordinária, verdadeiras obras de arte feitas pelas mãos habilidosas de um mestre ferreiro muviano. Não se assemelhavam às tradicionais alianças matrimoniais, dado o cuidado de Mu em preservar o disfarce do casal. Eram como anéis de ouro com entalhes minuciosos que somente o ourives e os noivos conheciam o significado.
A parte interna da aliança que Geisty entregaria a Saga tinha sido forjada com raspas do metal presente na armadura de Serpente, por isso possuía um tom arroxeado. A parte de fora era dourada com desenhos de folhas de louro.
Saga segurava uma aliança cuja base seguia as de uma peça tradicional, forjada com raspas do ouro da armadura de Gêmeos e banhada em ouro branco. Encrustados nela havia pequenos diamantes que perfilavam-se pelas laterais até se unirem no centro formando um gracioso chuveirinho.
Emocionada a amazona olhou para o lemuriano e apenas gesticulou com os lábios sorridentes um obrigada.
— Ao trocarem as alianças vocês estarão oficializando o matrimônio. — disse Shaka dando seguimento à cerimônia — Saga, tome Geisty por sua mulher e lhe faça a promessa de amá-la, ser-lhe leal e protegê-la até que o fim de sua vida nesta Terra. E Geisty, o mesmo deve fazer você. Ao colocar a aliança no dedo de Saga o tome por seu marido com a promessa de amá-lo, ser-lhe leal e protege-lo até que esteja completa a sua missão nesse mundo. — soltou a mão de ambos para que pudessem trocar as alianças.
Sem desviar os olhos jades da amada, Saga pegou em sua mão e lentamente deslizou o anel em seu dedo anelar. Seu coração dava saltos dentro do peito.
— Geisty, eu prometo ama-la, ser-lhe leal e protege-la até o dia em que esteja completa a minha missão neste mundo. — jurou com voz firme e emocionada.
O mesmo fez a amazona, que com seus orbes violetas fixos ao rosto do amado empurrou o anel em seu dedo anelar robusto enquanto proferia as juras.
— Saga, eu prometo ama-lo, ser-lhe leal e protege-lo até o dia em que esteja completa a minha missão neste mundo. — disse com a voz embargada de emoção.
Ao fim, Shaka novamente tomou a mão de ambos e disse o que todos esperavam ouvir.
— Em nome da nossa deusa maior, e com os meus mais sinceros desejos de felicidade, perante as leis divinas e sob as bênçãos dos deuses eu os declaro marido e mulher. Estão casados, e Gêmeos... — fez uma pausa dramática, soltou as mãos dos noivos e depois sorriu —... Pode beijar a noiva... Ah! Mas antes... — outra pausa, agora para colocar sobre o altar um prato branco de porcelana que havia deixado sobre uma prateleira logo abaixo —... Deve entregar esse prato à sua esposa e juntos devem quebra-lo atirando ao chão para dar início à comemoração!... Anda! O que está esperando? Beije sua mulher, Gêmeos! — sorriu para eles enfim.
Shaka adorava casamentos, não podia negar, e mesmo que negasse o brilho em seus olhos o denunciaria. Além do mais, a alegria de Saga e a emoção de Geisty eram tamanhas e tão contagiantes que ninguém ali conseguia se manter indiferente.
Finalmente casados os dois eram só sorrisos. Saga então deu um passo à frente, segurou o rosto delicado de Geisty com ambas as mãos e capturou os lábios carmins com os seus num beijo apaixonado, terno e delicado, sem nenhuma pressa para terminar, já que julgava serem merecedores de curtir aquele momento em sua total plenitude.
Geisty retribuía com a mesma paixão e entrega, deslizando as mãos em torno do pescoço do cavaleiro, entre as sedosas madeixas azuis, até a nuca onde fez uma carícia.
O beijo redentor dos noivos foi comemorado com muitas palmas, assovios, gritos exaltados dos amigos e uma perfumada chuva de pétalas de rosas improvisada por Afrodite, que de longe era o mais eufórico.
Quando o fôlego dos recém-casados começou a lhes faltar eles apartaram o beijo, sorridentes, e de mãos dadas quebraram o prato o jogando com força contra o chão para dar início à festa.
Dicionário Afroditesco
Matim – mixuruca, sem graça, pobre, pequeno, chinfrim.
Odara – diz-se de algo incrível, maravilhoso, estupendo, luxuoso, majestoso.
