Olá, amigos que acompanham "O Labirinto". Novamente peço desculpas pela longa ausência. Estou de volta com mais um capítulo e gostaria muito de saber a opinião de vocês. Por isso, por favor, deixem seus comentários.
Gostaria de agradecer à Jill-Bean por sua longa e tocante review sobre o capítulo anterior. Neste capítulo, voltarmos a ter o ponto de vista de Amon, por isso, ainda não sabemos muito bem o quanto as revelações dele impactaram nela. Espero que volte a deixar uma review para este capítulo.
Rita Nogueira, fiquei tocada ao sabKaer que você estava lendo minha história durante uma visita a Viena. Essa cidade espetacular que tive o prazer de visitar por duas vezes é realmente inesquecível e o pano de fundo perfeito para essa trágica fic. Estou aguardando as fotos que fez, inclusive de Cracóvia, que eu não conheço. Por favor, deixe sua review comentando esse novo capítulo.
Guest, desculpe pela demora em atualizar. Espero que tenha valido a pena. Volte, por favor, e deixe um comentário aqui, se possível, se identificando. Adoro agradecer nominalmente quem está acompanhando essa história.
Meilimingzi, obrigada pelo carinho de sempre. Espere que deixe outra review me dizendo o que achou. Você é sempre muito gentil, um beijo.
Kajsa, suas reviews nunca são apenas devaneios. Acho-as completamente pertinentes e sempre me ajudam a dar um norte para a fic, pois elas são repletas de análises acuradas sobre o pensamento desses dois. Minha fic é profundamente psicológica, pois se trata de duas pessoas com formas de pensar muito diferentes sobre uma mesma situação. Amon se cansou de fato. Pode parecer estranho, mas como nada do que ele planejou surtiu efeito, e, talvez por estar cansado ele realmente optou por deixá-la ir, para total espanto de Helen (e nosso também, não?). Espero que retorne aqui para me dizer o que achou, sua opinião é sempre muito importante para mim. Obrigada pelo carinho. Sei que essa fic não é a melhor sobre esse par (eu também sou fã incondicional da fic "Helen", de María, que finalmente resolveu continuá-la). Mas espero sinceramente que o retorno de "Helen" não signifique que você deixará de acompanhar "O labirinto". E se assim for, de toda forma agradeço por ter me acompanhado até aqui. Tentarei dar um final digno a esse par. Um grande abraço.
Ylva, não há o que agradecer. É sempre um prazer ler as suas reviews, fico feliz que esteja apreciando o rumo que a história tomou. Amon é um monstro sim, e completamente consciente de todas as suas maldades, logo, isso significa que não é louco, mas sim um homem mal, muito mal. Porém, seu amor por Helen o torna muito humano. Apesar de sua monstruosidade, é um personagem possível. Continue por aqui, por favor, aprecio muito suas reviews, me dão ânimo para continuar. Me diga o que achou desse capítulo. Adoro a Suécia, espero um dia ter a oportunidade de conhecer essa terra linda. A bela rainha Silvia tem raízes brasileiras, o que muito nos orgulha! Um grande abraço para você!
Melinda, que nome lindo! Obrigada por sua primeira review. Sim, eu procuro expressar o que esses dois sentem, pois há muito mais sob a superfície do que cada um deles consegue perceber. Helen oculta muita coisa de Amon e vice-versa. Ambos fingem um bocado, mas se passássemos pelas mesmas coisas não ocultaríamos nossos sentimentos também? Adorei a análise que fez, fico lisonjeada que tenha gostado e se emocionado. Lembre-se que nem todos são inteiramente bons ou maus, existem muitas camadas entre essas duas coisas. Por favor, retorne aqui e me diga o que achou deste capítulo.
LadyHermioneMalfoy18, que review interessante. São muitas as perguntas que o último capítulo levantou, não é mesmo? Como este novo capítulo é um ponto de vista de Amon, talvez elas não sejam respondidas da forma que você gostaria. Mas, aos poucos, acho que terá as respostas para as suas perguntas. Aprecio muito suas longas reviews, sempre repletas de análises interessantes. Acredito que Helen tenha ficado bastante tocada pelas revelações de Amon, mas, como o passado dele é pesado demais para ser ignorado, ela não vai ceder muito em suas convicções. Não podemos jamais esquecer as monstruosidades cometidas por ele. Por isso, quando abordo o ponto de vista de Helen, a mostro contida e reservada, porque ela não quer admitir a importância que esse homem de caráter tão horrível teve e ainda tem em sua vida. Espero que goste deste capítulo e deixe uma nova review. Um grande abraço.
Dudducia, que bom que deixou outra review. Eu espero em breve começar a traduzir a sua história para o inglês, pois acho que mais pessoas devem ter acesso a ela, pois é excelente! Amon não fez nenhum truque, dessa vez ele está sendo sincero. Volte outra vez e me diga o que achou, cara amiga. Um grande abraço!
Sarah, eu demorei, mas entreguei o capítulo 26, espero que goste. Realmente, Amon foi extremamente sincero e continua sendo, pois está deixando a mulher que ama ir embora. Acompanhe esse capítulo, que ainda não é o último e me diga o que achou, por favor. Um beijo grande e obrigada por estar acompanhando e gostando da história.
Angelika, fazia algum tempo que você não deixava um comentário por aqui, não? Como a história é contada pelo ponto de vista dos dois protagonistas e, em primeira pessoa, fica difícil que eu explore as outras subtramas, como a investigação do paradeiro de Helen por Anna e Sam, porque é preciso sempre que Amon esteja a par de algo, porque por Helen nada saberemos também. De qualquer forma, espero que esteja gostando dos rumos que a história tomou, ainda que não esteja abordando a linha de investigação do sumiço de Helen. Por favor, não deixe de comentar o que achou do capítulo 26, ok? Obrigada!
Bem, segue o capítulo 26. Espero que gostem. Por favor, deixem suas reviews, são muito importantes para mim, pois me ajudam a prosseguir. Se só lerem e não deixarem comentários, não sei ao certo se estão gostando e, como levo muito tempo para conseguir escrever um capítulo, confesso que fico frustrada se não recebo nenhum feedback ou se poucos escrevem. Gostaria de deixar um último abraço a Sourtales, que escreveu inúmeras e interessantes mensagens privadas. Se quiserem me escrever em mensagens privadas, fiquem à vontade também. Um grande abraço, Claire.
Caminho pesadamente e sem vontade até o final do corredor, em direção ao quarto dela. Ao tentar tirar a chave de dentro do bolso da minha calça desajeitadamente a derrubo no chão. O corredor está escuro, não acendi nenhuma luz, então me abaixo e tateio a esmo na penumbra, tentando localizar a chave perdida.
- Merda!
Praguejando um bocado, tento me lembrar por quê não me dei ao trabalho de acender a porcaria do interruptor. Depois de algum tempo tateando no escuro sinto a chave fria encostar na ponta de um dos meus dedos. Eu a pego, me levanto da posição ridícula que precisei fazer para procurá-la e tento inseri-la na fechadura da porta. Mas, como está um verdadeiro breu, minha mão força a chave tentando acertar o buraco da fechadura, sem sucesso. Estou irritado e bastante impaciente, então tudo parece ficar ainda mais difícil, até mesmo algo tão banal quanto destrancar uma porta. Respiro profundamente e, tentando manter a calma, percebo o quanto a minha mão está trêmula. Com muito esforço, consigo encaixá-la no lugar certo e finalmente destranco a maldita porta!
A luz do quarto está acesa. Meus olhos rapidamente vasculham todo o cômodo, procurando por ela. Logo a vejo em pé, parada próxima ao guarda-roupa. Quando nossos olhos se encontram, ela passa as mãos pelo ventre e pelos quadris, como se estivesse tentando desamassar sua roupa e esboça um sorriso tímido... O mesmo sorriso de quando a vi há tantos anos, parada naquela fila em Plaszóvia.
Por mais que ela tente disfarçar, consigo perceber que está evitando demonstrar a enorme satisfação que eu sei que está sentindo por finalmente isso tudo estar chegando ao fim. Ela até se arrumou com cuidado para a nossa despedida. Está usando um conjunto composto por uma saia justa de tweed cinza que vai até um pouco abaixo dos joelhos, meia calça cor da pele, sapatos pretos baixos, uma delicada blusa branca de gola alta de cashmere e o casaco de tweed combinando com a saia. Ela não usa nenhuma joia que comprei para ela, exceto a sua irritante aliança de casamento! Seu cabelo castanho está preso em um coque casual, o que lhe dá um aspecto nobre e altivo.
Gostaria de não ter reparado no quanto ela está bonita e elegante com a escolha que fez, mas em se tratando dela, isso é praticamente impossível para mim. Também percebo que está maquiada, algo que ressalta ainda mais os seus traços delicados. Vê-la assim, tão bonita, arrumada e bem disposta quase me fez dar meia volta e trancá-la novamente a sete chaves. Era o que eu verdadeiramente gostaria de fazer. Enfim, era o que eu poderia ter feito, se não tivesse dito a ela que a libertaria.
Coincidentemente, eu também me arrumei um pouco. Estou usando um terno preto de corte inglês, camisa branca, sapatos italianos de couro combinando e, por baixo do paletó, um colete de lã cinza claro, porque está um pouco frio lá fora. Parece que mesmo sem termos combinado nada, ambos nos preparamos cuidadosamente para esse momento, para os últimos instantes que passaremos juntos...
Olho diretamente nos olhos dela e tento conversar normalmente, como se estivéssemos prontos para sair e nos dirigir ao aeroporto mais próximo. Só que a vida real não é como nos sonhos, e, como não pretendo voltar atrás, dou início à nossa conversa.
- Boa noite, Helen. – Engulo em seco. - Como prometi, eu vim buscá-la. – Digo, tentando parecer firme em minha decisão.
- Boa noite! Sim, sim, eu sei... – Ela diz, usando um tom de voz aliviado que mal disfarça a ansiedade e também o entusiasmo na voz. - Tentei deixar o quarto arrumado, mas acho que Frau Künzel terá um pouco de trabalho em deixar as coisas em ordem por aqui.
Ela se desculpa, como se de fato tivesse passado um tempo em minha casa como uma hóspede. Não houve acusações, tampouco qualquer menção ao fato de ela ter ficado ao meu lado pelo uso da força. Estávamos encenando um teatro, talvez para tentar tornar tudo isso um pouco menos absurdo... E justamente por estarmos encenando, eu, por um breve instante, quase esqueci que fui seu captor e não seu anfitrião.
Mas, mesmo agindo de uma maneira gentil comigo, é como se eu conseguisse ler a mente dela. Percebo o quanto está agitada e ansiosa. Enquanto fala, ela gesticula mais do que o habitual. Sinto que ela está se esforçando em me agradar, pois sabe que posso mudar de ideia se for provocado ou me sentir ofendido. Mas, sinceramente, ela agora pode falar o que quiser e me atacar como preferir, que isso não irá mudar nada. Eu vou deixá-la ir. Eu estou disposto a cumprir com o que disse. Eu não vou mais mantê-la aqui contra a vontade dela. Todos os meus esforços em agradá-la falharam. Ela venceu. Eu perdi... Quero que ela perceba que, apesar de não parecer, eu tenho alguns princípios e posso ser um homem de palavra!
- Não se preocupe com isso. Esse quarto nunca mais será usado novamente. Não há pressa em arrumá-lo. – Digo, com convicção.
Ela sai de perto do guarda-roupa e se aproxima de mim, cautelosa.
- Frau Künzel me disse que era para eu fazer uma pequena mala. Não entendi essa ordem, porque serei libertada, então não vejo por quê preciso de uma mala...
- Você cumpriu a ordem dela?
- Sim, apenas para não sofrer nenhum tipo de punição. Mas realmente não acho necessário.
- Fui eu que pedi que ela te orientasse quanto a isso. Você será libertada sim, mas não vou deixá-la na porta do hotel em que os seus familiares estão hospedados. Posso estar fazendo a maior besteira da minha vida, mas não sou estúpido a esse ponto. Para onde vai talvez seja necessário que você tenha algumas peças de roupa e itens de higiene consigo.
- Para onde Hans irá me levar? – Ela pergunta.
- Ao convento que eu disse que a levaria, caso você cumprisse com sua parte no nosso acordo. É um local relativamente perto de Viena, mas que não foi visitado pela polícia porque as freiras que lá habitam fizeram votos de reclusão e de silêncio com o mundo exterior. Por quase não interagirem com a vida aqui fora, a polícia provavelmente não considerou a hipótese de que você pudesse parar em um lugar como esse. E, justamente por isso, por essa falta de contato direto com as pessoas, é bem provável que elas não tenham nada além dos hábitos de freira para você usar. E até onde eu sei, acredito que mulheres que não fizeram os votos não podem vestir o hábito. Por isso achei que talvez você fosse precisar de roupas. Conversarei com a madre para que ela deixe que use as roupas que elas tiverem disponíveis por lá para reforçar a ideia de que você conviveu com elas. Mas, por precaução, acho melhor que você tenha uma mala de mão. Ela poderá dar uma explicação qualquer para o fato de você ter algumas opções de vestuário, roupas doadas por fiéis, algo assim. De qualquer forma, a madre desse convento me deve uma série de favores e está a par da sua situação e já a aguarda. Ela vai me ajudar porque o meu dinheiro está bancando boa parte da reforma daquele local.
- Então essa religiosa conhece a sua verdadeira identidade e você vai comprar o silêncio dela também?
- Sim. Mas, antes que você me acuse de mais alguma coisa, permita-me dizer que eu também conheço a verdadeira identidade dela. Madre Gerta sempre foi religiosa... Mas foi colaboradora do regime, denunciando judeus e entregando nomes de pessoas que escondiam judeus e opositores de Hitler na Áustria para a Gestapo. Para escapar de um julgamento no pós-guerra, procurou a mesma rede de proteção que me ajudou. Eu e mais outros companheiros a auxiliamos a entrar nessa ordem religiosa para que ela pudesse sumir. Os votos de silêncio a mantiveram em sua omissão... – Dou um suspiro, cansado de ter que me justificar e encerro - Não estou comprando o silêncio dela, estou trocando um favor por outro.
Helen está com os olhos arregalados e me olha pasma, como se ainda a surpreendesse o fato de tantas pessoas que colaboraram ou atuaram ativamente durante o III Reich estejam vivendo livremente suas vidas na Áustria, apesar dos caçadores de ex-nazistas que estão proliferando como moscas pelo mundo.
Mas eu sinceramente não dou a mínima para o seu julgamento velado. Quero apenas cumprir com o que disse e levá-la para a liberdade que ela tanto exigiu. Não há mais nada que eu possa fazer quanto a isso e decidi respeitar sua vontade, por mais absurdo que isso possa parecer, inclusive para mim mesmo. Deus ou o diabo sabem que eu não queria desistir, eu não podia desistir, pois coloquei minha própria vida em risco para tê-la ao meu lado.
Ainda não sei por quê eu tomei essa decisão. Tanta coisa aconteceu desde que ela veio para cá que eu realmente não sei em qual momento eu achei por bem recuar. Talvez tenha sido depois daquela noite fatídica! Talvez... Mas agora vou cumprir com o que disse, não vou voltar atrás. Estou nervoso e muito cansado, quero acabar logo com isso. Só eu sei o quanto isso irá me custar.
- Só eu sei...
- Escute, Helen. Não quero mais ficar dando detalhes do que faremos daqui para a frente. Tudo o que posso dizer é que farei com que seja entregue nesse convento sã e salva. E farei com que a madre superiora entre em contato com as autoridades, que por sua vez entrarão em contato com a sua família e você finalmente ficará livre disso tudo. Não é o que você quer? Então, por favor, sem mais perguntas. Me acompanhe, precisamos sair agora, para não chamar atenção.
- "Precisamos"? O que quer dizer com isso? Você vai junto? Acha necessário? Hans não pode fazer isso sozinho? – Helen faz uma pergunta atrás da outra, praticamente em um fôlego só.
- Pode, mas ele não vai. Eu irei junto, quero ter certeza que você será entregue nas mãos de madre Gerta. Agora chega de conversa! Me acompanha?
Ela faz um sinal assertivo com a cabeça. Ao passar à minha frente, quase posso me ver segurando sua mão e pedindo a ela para ficar.
- Fique, Helen, por favor. Fique! – Meu pensamento grita.
Olho para cima, respiro fundo e reúno o que me resta de forças para ir contra a minha verdadeira vontade e cumprir o que eu prometi que faria.
Ela então vira a cabeça em minha direção e fala:
- Você não tem medo que eu o delate para as autoridades do seu país?
Olho para ela e, sem alterar o tom da minha voz, respondo:
- Não.
Chocada com a minha resposta fria e sem emoção, ela se vira totalmente em minha direção.
- Como pode dizer isso? Não tem medo de perder sua liberdade? Todo esse luxo que você roubou? De ser preso outra vez e de enfrentar um novo julgamento por todos os seus crimes?
- Não, eu não tenho! – Digo, com bastante convicção.
- Mas, e se te pegarem novamente? Dessa vez, você não escaparia com vida! Quantas vezes você me disse o quanto custou a você forjar essa vida que leva hoje?! O quanto foi complicado recomeçar... Ou então, quando me disse sobre o quanto queria viver, o quanto foi importante para você permanecer vivo e...
- Sim, eu sei... – A interrompo de maneira não intencional.
Helen me olha com uma expressão de choque e não compreensão que me irrita profundamente. Ela nota que estou me sentindo contrariado, mas isso não a impede de continuar. Ela não parece ter assimilado que, após tudo o que fiz, eu esteja realmente disposto a abrir mão de tê-la ao meu lado. Helen parece não entender que eu desisti. Talvez ela não entenda que, pela primeira vez em minha vida, sinto-me verdadeiramente derrotado.
Ela insiste.
- É tudo o que tem a dizer? "Sim, eu sei"?!
- Vamos nos atrasar, precisamos sair agora... – Digo isso, tocando de leve em seu ombro, como quem dá a entender que precisamos sair dali. Ela não assimila o meu gesto e permanece no mesmo lugar.
- Não. Eu quero uma resposta verdadeira! Não teme que eu o denuncie às autoridades assim que sair das suas garras?
- Não, eu não temo! – Digo, evitando a muito custo levantar a voz para ela.
- Eu não acredito em você! Como pode dizer que não se importa?
- Porque você não estará mais comigo, droga! Que se dane tudo isso então! De que me adianta agora, Helen? Hein? Diga-me, de que me adianta?
Abalado, me afasto um pouco dela e continuo.
- Todo esse dinheiro, esse luxo, todo esse conforto, de repente perderam a importância... Deixaram de fazer sentido! Eu conquistei muito, é verdade. Mas de que me vale se a única coisa que eu quero na vida eu não posso ter? – Digo essas coisas todas olhando diretamente nos olhos dela. Me sinto incomodado com seu ataque, mas não tenho mais ânimo para insistir.
Então continuo.
- Eu jamais pensei que pudesse me sentir tão cansado... Cansado disso tudo! Era isso o que você queria ouvir? Pois então eu vou lhe dizer... Você pode fazer o que quiser depois que eu a libertar. Você será livre novamente! Se for da sua vontade me denunciar, vá em frente! Talvez seja até um favor que você me faz...
Não espero sua resposta, tampouco sua reação. Me aproximo, pego em seu braço e a puxo para fora do quarto. Ela para por um instante para só então recomeçar a andar, cautelosamente. Vamos caminhando pelo corredor escuro, em silêncio. O som das solas dos nossos sapatos contra o piso de madeira maciça repleto de tapetes é o único som perceptível na casa. De repente Helen para e diz, olhando para trás.
- A mala... Minha mala de mão, Herr Kommandant. A mala ficou no quarto.
Eu a seguro pelo braço, para obrigá-la a continuar me acompanhando e chamo pela minha governanta.
- Frau Künzel... Frau Künzel. – Grito do alto das escadas. Imediatamente, vejo a velha figura alcançar a escadaria.
- Pegue a mala de mão que Helen deixou no quarto e traga para o carro.
- Pois não, senhor! – Diz ela, solícita como sempre.
Cruzamos com Frau Künzel no meio da escadaria. Ela para, olha para Helen de cima abaixo e pergunta.
- O senhor irá junto com Hans para levá-la?
- Eu vou com os dois sim! Quero ter certeza que ela vai para o convento.
- Não confia mais em seu motorista, senhor?
- Cale a boca, Elza! Faça o que eu mandei! Depressa!
- Sim, Herr Prauchner. – A velha nem retrucou como sempre faz quando eu a chamo pelo seu nome verdadeiro. Frau Künzel conhece o meu temperamento muito bem e sabe o quanto nesses momentos é melhor não me provocar.
Alcançamos o final das escadas e então a encaminho para o hall de entrada da mansão.
- Por aqui. – Direciono-a até a porta da frente. Ela para e fica novamente de frente para mim.
- O que foi agora? – Pergunto impaciente.
- Vamos sair pela porta da frente?
- Por onde quer sair? Pela chaminé? É claro que vamos sair pela frente.
- Não teme que me vejam com você aqui?
Suspiro irritado e, com o tom mais sarcástico possível, respondo.
- Ora, por favor, Fräulein Hirsch. Ou melhor, Frau Horowitz. Quer, por gentileza, me explicar como devo proceder sem arriscar a minha pele para levá-la daqui? Pelo jeito, a senhora é mais versada em fugas incógnitas do que eu, que escapei de uma prisão na Polônia, cruzei todo o continente e fugi para a América do Sul sem nunca sequer terem desconfiado que eu não morri! – Retomo o fôlego e continuo. - Fique tranquila! Eu não tenho vizinhos próximos. Porém, se tem uma ideia melhor, por favor, compartilhe-a comigo, ficarei feliz em seguir suas instruções quanto a isso. – Digo, ríspido.
- Não precisamos de ironia e sarcasmo agora, Herr Kommandant. Eu só quero entender por que está se expondo tanto...
Completamente transtornado, perco o controle e a agarro pelos ombros. O movimento foi brusco, mas não violento. Foi apenas a forma que encontrei para que ela se calasse.
- Chega, Helen! Eu sou dono dos meus atos e o dono desta casa! E enquanto você estiver sob meu poder, é melhor que se cale. Eu já planejei como você será devolvida e vai dar tudo certo. Não é preciso se preocupar. Não há ninguém aqui nesta casa que possa nos ver e nos denunciar. Só você poderá fazer isso. Mas apenas quando estiver livre. Então, se for possível, tente não ficar tão ansiosa. Você terá a oportunidade de me entregar, mas não será agora. Espere mais algumas horas e poderá fazer o que quiser. Vamos!
Solto seus ombros, pego meu chapéu na chapeleira que fica ao lado da porta e a puxo pela mão. Helen não treme, não parece sequer estar assustada com o meu rompante, o que me deixa um pouco intrigado, pois ela sempre teve pavor dos meus acessos de fúria.
Abro a porta da frente da mansão e vejo Hans parado na entrada, com uma droga de um carro simples, cujo modelo nem sei ao certo qual é. Mas percebo que não é um dos carros de luxo da minha frota. Não consigo disfarçar o meu desagrado e desconto nesse idiota o que me passa pela cabeça.
- O que é isso, Hans? Que merda de carro é esse?
- O adquiri para evitar levantar suspeitas, senhor. Por ser um modelo popular, não chama tanta atenção.
Olhando o automóvel com desdém, continuo.
- Pelo menos é confortável?
- Sim, senhor, é um modelo simples, mas é confortável sim.
- Merda, Hans, só espero que essa porcaria de carro nos leve ao nosso destino. Vamos!
Abro a porta para Helen. Antes de entrar no carro, vejo que ela olha para o céu e respira profundamente, como se estivesse saboreando a liberdade tão próxima. Em seguida, ela entra, dou a volta pelo lado de fora do carro e abro a outra porta. Quando estou entrando, Hans vem logo atrás e me toca no braço.
- Não há necessidade do senhor ir. Não precisa se expor! Garanto que a deixarei sã e salva no convento.
- Hans, até você? Eu já ouvi isso de todos nessa casa. Por que querem me dar ordens agora? Acaso não sou o senhor dessa propriedade? Não me obrigue a demiti-lo! Eu já decidi que irei junto e não há nada que possa me impedir de fazer isso!
- Sim, senhor! – Hans me responde, baixando a cabeça, evitando um novo e desnecessário confronto, pois no fundo ele, assim como Frau Künzel, sabe o quão teimoso eu posso ser.
- Era só o que me faltava agora, receber ordens dos meus empregados e da minha "hóspede".
Entro no carro. Helen está sentada com as mãos pousadas em cima dos joelhos. Noto o quanto está ansiosa apenas pelo modo como contrai os dedos e morde o lábio inferior... Nesse instante, Hans dá a partida. Helen vira o pescoço em direção à janela e observa atentamente o lado de fora da minha mansão. Ela então se vira em minha direção. Em seu olhar, a preocupação é visível. Estranhamente, não percebo alívio em sua expressão.
- Está tudo bem, Helen?
- Eu não sei. – Ela diz.
- O que foi? Esqueceu alguma coisa?
- Não. Não há nada meu aqui para ser esquecido...
- Então fique tranquila. Está tudo bem. Logo o seu pesadelo terá fim.
- Eu sei. – Diz ela, de modo enigmático.
O carro desce a colina da mansão e para em frente ao portão que se abre lentamente para sairmos. Como não tenho vizinhos próximos, não estou preocupado que nos vejam. E também sei que tudo dará certo, pois Hans conhece vários caminhos alternativos que nos levarão em segurança até o convento.
Fomos percorrendo o trajeto em silêncio. Apesar de estarmos calados, sinto que Helen quer me dizer algo, mas não sabe como começar. Tampouco eu quero começar mais uma interminável discussão, por isso evito falar, pois não quero que nossos últimos momentos juntos sejam um reflexo triste de toda essa tragédia.
Estamos há algum tempo dentro do carro, quando Hans resolve pegar uma estrada alternativa.
- Hans, por que está pegando esse caminho? Essa estrada não é pavimentada!
- Justamente por isso, senhor. Estou evitando pegar caminhos com muita circulação de carros. Pode haver fiscalização policial e é melhor evitarmos. Não podemos nos esquecer que a moça é procurada.
- Certo. – É tudo o que consigo dizer.
O carro começa a sacolejar furiosamente. A estrada está em péssimas condições, principalmente porque choveu muito nos últimos dias, o que fez com que buracos enormes encontrassem os pneus e o carro trepidasse nervosamente na pista. Helen está tentando se segurar como pode, mas olho para ela e tenho a impressão que estamos dentro de um liquidificador.
- Merda, Hans, saia dessa pista e pegue um caminho melhor! – Grito com o meu motorista.
- Desculpe, senhor, farei isso. Não sabia que a estrada estava tão ruim. Vou pegar aquela bifurcação que irá nos conduzir pela estrada principal novamente. De lá poderemos pegar outro atalho em melhores condições.
- Faça isso! – Digo em tom de ordem.
Andamos pelo caminho esburacado mais um pouco, até que Hans pega a bifurcação e nos dirigimos para a estrada principal. Com o canto do olho, observo que Helen fica novamente tensa. Então ela rompe o nosso silêncio.
- Acho que devíamos ter continuado pela estrada ruim... Essa é a estrada principal, certo? Não é perigoso?
- Helen, já disse que isso pouco importa agora. Não vai demorar e logo estaremos no convento.
Seguimos por aproximadamente meia hora sem problemas. A chuva que começou a cair de forma vagarosa foi ganhando força e traçando caminhos furiosos nas janelas do carro. Estou absorto em meus próprios pensamentos, quando, de repente, Hans dá o alerta.
- Oh, não! Não é possível!
- O que foi, Hans?
- O senhor pode até não acreditar, mas há uma barreira policial logo à frente...
- Não dá para pegarmos um retorno?
- Há dez minutos passamos por um. Desse ponto em diante teremos que cruzar a barreira, caso contrário, levantaremos suspeitas.
- Certo. – Digo isso tentando disfarçar a minha preocupação.
Olho para Helen, que está olhando para frente com uma expressão assustada. Eu também estou tenso, mas evito demonstrar. Não quero que ela ou até mesmo Hans percebam que estou com medo. Estamos perigosamente nos aproximando da barreira, vejo que o policial está fazendo sinal para pararmos o carro. Enquanto Hans diminui a velocidade e se encaminha para o acostamento, olho para Helen e digo.
- É a primeira oportunidade que terá para me entregar desde que eu a capturei. Se quer acabar logo com isso, poderá fazê-lo agora. – Digo, me preparando para o pior.
Mais uma vez sou surpreendido por essa mulher. Parecendo ignorar o que eu havia acabado de dizer, Helen rapidamente solta os cabelos, que lhe caem divinamente sobre o rosto. Ela se aproxima de mim, enrosca seu braço no meu, coloca a cabeça no meu ombro e finge estar adormecida. Seus cabelos caem em cascata sobre o seu rosto, ocultando-o do policial que acaba de se aproximar do carro e pede que baixemos o vidro.
Hans baixa o vidro do passageiro da frente, que é onde o policial está. É um homem baixinho e gordo, cuja figura parece uma grotesca caricatura. Ele olha para Hans e para mim, que estou no banco logo atrás do motorista. Helen ressona levemente, como se não tivesse percebido que o carro havia parado. Quase não é possível ver o seu rosto, apenas sua silhueta, pois está escuro no interior do automóvel. O policial começa a falar.
- Boa noite. Documentos, por favor.
Hans imediatamente entrega sua licença para o policial.
- O senhor e a senhora também precisam entregar os documentos.
- O que está acontecendo, policial? – Pergunto, com genuína preocupação, porém, disfarçando o tom de voz para parecer o mais casual possível.
- Temos ordens de inspecionar todos os veículos que estão circulando pelas saídas de Viena! – Diz o policial, com um tom de voz levemente agudo, que fere os meus ouvidos.
- Ah, sim, claro. – Entrego meus documentos para ele, que o examina atentamente.
- Senhor Anton Klaus Prauchner... Certo! A senhora ao seu lado também precisa entregar os documentos.
- É mesmo necessário, oficial? Ela está dormindo... Não quero acordá-la. – Digo.
- Não há necessidade em acordá-la, senhor. Basta que pegue o documento dela na bolsa.
- Eu não posso mexer na bolsa dela sem permissão...
- Então a acorde! – Diz o policial, já sem paciência.
- Não... Não é preciso. Eu...
- O que está acontecendo aqui? - Outro policial, alto e mais jovem, se aproxima.
- Esse homem não quer acordar essa senhora para que ela pegue sua identidade na bolsa. – Diz o policial gordo.
O segundo policial, que tem um ar mais esperto, fala.
- Desculpe, senhor, ordens são ordens. Estamos fazendo uma inspeção de rotina, mas também temos ordens para solicitar a documentação de todos os passageiros dos veículos.
- Estão procurando algo ou alguém em especial? – Pergunto, evitando demonstrar meu nervosismo.
- Não. Até outro dia ainda procurávamos pela esposa de um maestro americano que sumiu há alguns meses, não sei se o senhor ficou sabendo.
- Sim, eu soube sim. Alguma novidade nesse caso?
- Não, a mulher permanece desaparecida. A polícia continua investigando, mas tudo indica que ela esteja morta.
- Que tragédia! – Digo, ainda tentando ganhar tempo, pois Helen não está portando nenhum documento. Nem o real, tampouco documentos falsificados. Me sinto um verdadeiro idiota por não ter me prevenido quanto a isso.
Helen então finge acordar, afasta um pouco os cabelos do rosto, dá um bocejo e fala, com a voz ainda sonolenta.
- Amor, por que paramos?
Pasmo, olho para ela, que olha para mim com a mais inocente expressão. Levo alguns segundos para entender que ela está encenando e que preciso tomar meu lugar em cena também.
- E-estamos em uma barreira policial, querida. – Digo, tentando disfarçar o meu medo.
Ela olha rapidamente para os policiais e enterra o rosto no meu peito. Os policiais se entreolham intrigados.
- Anton, você prometeu que seria cuidadoso e não iria me expor...
Atônito por ela estar colaborando com a minha farsa, continuo com nosso pequeno teatro.
- Mas, querida, como eu ia adivinhar que seríamos parados na autoestrada?
- Documentos, senhora, por favor! – O guarda nos interrompe.
- Sabe o que é, senhores... É que essa moça não... Não é minha esposa!
- Sim, e qual é o problema? – Pergunta o policial alto e com ar esperto.
- É que eu gostaria muito de preservar a identidade e a reputação dela, por favor! – Falo isso enquanto Helen continua com o rosto enterrado em meu peito, ocultando-se dos policiais.
Os agentes parecem esperar que eu diga diretamente o que quero realmente dizer.
- A senhora não quer se expor porque é casada... Mas não comigo. Fui claro?
- Aaaah, sim... Sim. – De repente, foi como se uma cumplicidade imediata se formasse entre nós e aquela dupla de policiais. O policial gordo olha com uma expressão cúmplice para o colega, que imediatamente muda sua expressão séria e também lança um olhar compreensivo para mim. Como se, de repente, a história de nosso adultério fosse o que eles precisavam para ter assunto em uma noite fria, chuvosa e extremamente tediosa. Era como se os dois quisessem tomar parte naquilo, como cúmplices de um casal de amantes que buscava um pouco de privacidade, longe dos olhos da sociedade de Viena. Um enredo novelesco, certamente, mas que, por mais estranho que possa parecer, ganhou a simpatia dos policiais.
- Perfeitamente, senhor. Já consultamos a habilitação do seu motorista e a sua, proprietário do veículo.
- Está tudo em ordem com a nossa documentação? – Insisti, para que não percebessem que o que eu mais desejava no momento era sair dali.
- Sim, claro, está tudo certo sim. – Disse o policial gordo.
- Podemos fazer mais alguma coisa para facilitar o trabalho de vocês? – Perguntei, tentando parecer cortês.
- Não, senhor, podem seguir viagem.
- Ótimo. A moça e eu podemos contar com a discrição de vocês?
- Mas é claro, senhor. Fique tranquilo quanto a isso.
- Certamente que sim. Muito obrigado, oficiais. – Disse, mostrando simpatia pela cumplicidade dos dois. Helen continuava oculta em meus braços.
Hans já estava subindo os vidros quando o policial disse.
- Sugiro que tomem um caminho alternativo se não quiserem mais ser importunados. Há barreiras policiais por toda a região, porque estamos procurando ladrões que assaltaram a sede do Viena Bank... Se permanecerem na estrada principal, provavelmente encontrarão mais três barreiras. Sei que a chuva está forte agora, mas sugiro que peguem alguma estrada vicinal. Há diversas opções aqui perto. Só cuidem para evitar atoleiros.
Fico surpreso com a extrema boa vontade que a polícia austríaca tem para os casais adúlteros e agradeço a sugestão.
- Obrigado, rapazes. Veremos como vamos proceder. Muito obrigado!
Hans fecha os vidros e dá a partida no carro sem demonstrar que queremos escapar logo dali. Olho pelo vidro traseiro e vejo que os policiais já estavam conversando com outro motorista. Porém, mal retomamos nossa rota, digo a Hans que quero voltar para um atalho qualquer. Prefiro chacoalhar em uma estrada ruim, do que ter que bancar o amiguinho dessa polícia despreparada que atua em meu país. Que vergonha! Nos tempos do Anchluss, isso jamais teria acontecido. Se eu fosse um policial faria com que todos saíssem do carro apenas por terem desrespeitado minha ordem de apresentarem seus documentos.
Enquanto penso essas coisas, sinto Helen se afastar de mim. Olho para ela, e digo.
- Por quê desperdiçou sua chance de me entregar?
- Por que os austríacos são tão compreensivos com o adultério? – Ela não só não me responde, como faz uma nova pergunta.
- Eu não sei dizer. Acredito que o austríaco preze muito a própria privacidade e a individualidade alheias. Se o assunto não diz respeito a alguém, é melhor não se envolver... Agora, me responda: por quê não me entregou?
Hans faz uma curva exagerada e entra em uma nova bifurcação.
- Esse caminho é mais longo, senhor. Vai atrasar um pouco mais a nossa chegada ao convento, mas é seguro e pouco frequentado.
Novamente sacolejando dentro do carro, olho com uma expressão séria para Hans, porque sei que a viagem, além de mais longa, será penosa, pois a estrada está esburacada e cheia de barro, devido à chuva.
Ao meu lado, Helen passa os dedos pelos cabelos ondulados e diz:
- Por mais que eu ache que você mereça, não quero te entregar a ninguém.
- E por quê não?
- Porque você finalmente foi generoso ao abrir mão do que deseja e me libertar. Apesar de eu continuar te achando desprezível, esse seu gesto me fez acreditar em você.
- Acreditar em mim? – Pergunto, sem entender.
- Sim. Acreditar no seu amor por mim.
Helen mal termina de falar e somos sacudidos de um lado a outro do carro. Aparentemente, acabamos de passar por um buraco semelhante a uma cratera lunar. Enquanto ouvíamos as desculpas de Hans por algo que ia além de suas habilidades como motorista, um último movimento brusco fez com que ela perdesse o equilíbrio e se aproximasse involuntariamente de mim. Sua mão esquerda levemente encosta em minha mão direita. O simples toque de nossas mãos provocou um arrepio de prazer que percorreu toda a minha espinha. Um roçar de dedos, nada mais. Foi o suficiente para me deixar emocionado. Talvez eu tenha ficado assim por finalmente ouvir que meu amor era, senão correspondido, pelo menos compreendido...
O carro sacoleja furiosamente na estrada. Helen e eu continuamos com as mãos encostadas uma na outra. Não estávamos nos olhando, tampouco conversando. Apesar de querer que ela continuasse falando sobre sua aceitação do meu amor, não insisti. A corda já estava retesada demais. Não valia a pena rompê-la apenas para receber uma pequena massagem no meu orgulho destroçado por tanta rejeição. Isso me deu a sensação de que pelo menos nos afastaríamos com uma percepção diferente um do outro...
Meu devaneio acabou quando percebi que acabáramos de atolar nosso carro em uma imensa poça de lama. Helen, que também parecia estar distraída, retirou bruscamente sua mão de perto da minha, talvez por receio que Hans pudesse nos ver. Ouço-a dizer:
- O que foi isso?
- Hans, atolamos? – Pergunto ao meu motorista.
- Desculpe, senhor Prauchner, eu tentei evitar, mas o que pensei que seria apenas uma poça é um verdadeiro lamaçal.
- Oh, meu Deus! E agora? – Helen coloca uma mão no peito e outra na janela, enquanto examina o lado de fora. – Como vamos sair daqui? Está chovendo muito lá fora! – Ela diz, com ar assustado.
- Sinto dizer, mas acho que teremos que colocar nossos pés na lama lá fora, minha querida! Hans, acha que conseguimos empurrar o carro para fora do lamaçal?
- Acho pouco provável senhor. Afundamos com as quatro rodas na lama. Talvez tenhamos que andar até irmos para a estrada principal e tentar uma carona...
- Está maluco, homem? Já não basta o que passamos com a polícia? Não, teremos que dar um jeito de tirar o carro daqui. Vamos sair. Helen, fique aqui dentro, não quero que apanhe chuva. Vamos ver o que é possível fazer. Saia apenas se eu mandar, tudo bem?
- Certo. – Sei que ela está cooperando porque tudo o que mais almeja é ver-se livre de mim. Fico um pouco irritado com isso, mas tento não me incomodar. Agora temos realmente um problema. Estou quase arrependido por ter desistido dos meus planos.
Abro a porta do carro e afundo meus pés no lamaçal. Hans já está do lado de fora e observa, desanimado.
- Se fosse um Mercedez sairíamos rápido desse caos. – Observo, não perdendo a oportunidade em alfinetar a escolha automobilística que Hans havia feito.
- Acha que conseguimos empurrar, senhor?
Dou uma risada sarcástica.
- Oh, não. Eu não vou empurrar nada. E mesmo que o fizesse, só iríamos nos sujar ainda mais. Isso é trabalho para um trator. E dos grandes, com força o suficiente para nos puxar daqui. – Digo, com convicção.
De repente, Hans fala.
- Há uma luz ali! – Hans aponta para luzes vindas de uma casa cuja estrada para a entrada da casa era razoavelmente próxima de onde estávamos. – Posso caminhar até lá e solicitar ajuda!
- Não será muito arriscado? – Digo.
- Pode ser, senhor, mas é a única opção que temos...
Receoso, olho para as luzes da casa e, em seguida, para Helen, que continua dentro do carro com ar apreensivo. Faço um gesto para que ela abra um pouco a janela. A água da chuva escorre profusamente pelo meu chapéu.
- Helen, está chovendo muito e Hans e eu não vamos conseguir desatolar esse carro nessas condições.
- E o que vamos fazer? – Ela pergunta.
- Vamos andar até aquela casa. – Aponto em direção às luzes. – Talvez tenham um trator e possam nos ajudar.
Helen fecha o vidro do carro, abre a porta e sai.
- Vamos, então!
- Não gostaria que você pegasse chuva, mas não posso deixá-la sozinha aqui. Será rápido. A casa fica logo ali!
Hans, Helen e eu nos pomos em marcha. A casa está próxima, porém, a lama da estrada, os buracos e a chuva que castiga violentamente nossos rostos e corpos dificultam nossos passos e avançamos lentamente. Helen aceitou minha ajuda e veio de mãos dadas comigo, para que pudesse andar mais rápido. Ela escorregou algumas vezes, e acabou caindo. Eu a recolhi e consegui fazer com que enganchasse um braço em minhas costas para que andasse mais rápido.
Acredito que andamos mais ou menos por quinze minutos sob a tempestade, até que alcançamos a casa.
Toco a campainha. Enquanto aguardamos, olho para o meu relógio de pulso e vejo que passa das dez da noite. Escuto passos arrastados se aproximarem da porta, que se abre para surgir à nossa frente a figura de um homem idoso e robusto, de pijamas e roupão.
- Pois não?
- Boa noite, senhor. Desculpe incomodá-lo a essa hora, mas nosso carro acabou de atolar na estrada e...
Ouço a voz de uma senhora idosa se aproximando.
- Johann, o que está acontecendo?
- Esses três estão dizendo que o carro deles atolou ali na estrada.
A velha também tinha o mesmo ar desconfiado do marido, porém, ao ver Helen molhada dos pés à cabeça ao meu lado, diz ao velho.
- Johann, abra. A esposa dele está ensopada!
Um pouco à contragosto, o velho abre a porta. Entramos, aliviados, enquanto ouvimos a velha.
- Entrem, entrem. Que bom que conseguiram chegar até aqui. Deus me livre passar a noite dentro do carro debaixo de uma tempestade como essa! – diz a mulher, enquanto se persigna.
- Obrigada! – Ouço Helen dizer.
- Venham, venham. Vocês precisam tirar essas roupas molhadas. Acho que vão precisar de um banho, estão bastante sujos. Temos apenas um banheiro, a moça pode ir primeiro. Os senhores podem ir tirando esses sapatos imundos e as meias molhadas. Como se chama, querida?
Helen olha para a velha e responde.
- Lena.
- Que nome adorável, Lena! Venha, venha, é por aqui.
Helen sobe as escadas acompanhada pela velha, sem nem olhar para mim. Agora, assim como eu e Hans, ela também estava forjando uma nova identidade para não levantar suspeitas.
Logo a velha desce e pergunta se queremos tomar uma sopa. Eu não estou com fome, Hans também não, mas ela insiste muito e acabamos aceitando. O velho não parece muito simpático diante da nossa invasão ao seu sossego, mas sua mulher parece estar tão feliz em conversar com outras pessoas que ele não protesta. Devem ser um casal bastante solitário...
Alguns minutos depois, enquanto termino meu prato de sopa, Helen aparece na cozinha, usando um roupão largo, semelhante ao que a senhora Ritter (esse é o seu sobrenome) está usando. Me lembro da mala de mão de Helen, tão zelosamente preparada e que na confusão ficou esquecida no carro, que não consigo evitar um meio sorriso.
- Se o senhor já terminou de comer, deveria subir e aproveitar para tomar um banho também. Suas calças estão completamente molhadas e sujas de lama– A velha senhora diz, apontando para Hans.
- Quer ir primeiro, senhor? – Hans me pergunta.
- Não, vá em frente! Eu vou depois. – Digo.
Frau Ritter oferece sopa a Helen, que também aceita para não fazer desfeita. Mais conformado com a nossa presença, Johann Ritter senta-se na mesa e nos acompanha na refeição.
- Eu não sei como a estrada estará amanhã, mas tenho um trator e podemos tentar rebocar o carro. Só que se continuar a chover assim, vocês não vão conseguir ir muito longe, pois daqui para frente a estrada só tende a piorar. – O velho fala, e em seguida sorve um gole de sopa.
- É muita gentileza sua. – Agradeço.
- O que fazem por aqui?
- Um policial havia sugerido que pegássemos uma estrada vicinal, porque haviam muitas barreiras na estrada e que atrasariam demais a nossa viagem.
- Estamos indo para Linz. – Helen disse.
- Ah, sim, de fato, para irem a Linz é mais fácil vir por esse caminho. Mas vocês deram azar, porque essa região está enfrentando um verdadeiro dilúvio nesses últimos dias. – Frau Ritter explica. – Soube até que houve queda de barreiras não muito longe daqui.
- É verdade! – Diz o velho, largando a colher no prato com estardalhaço. – Amanhã, será melhor que eu faça uma inspeção com o trator depois que desatolar vocês, para evitar que percam tempo se seguirem em frente. – Ele diz.
Hans retorna do banho vestindo um dos pijamas do velho Johann, que ficam muito grandes para ele. Segurando o riso, pergunto para a velha.
- A senhora pode me indicar onde fica o banheiro, Frau Ritter? – pergunto a ela.
- É claro, Sr. Prauchner. Me acompanhe.
Subo com a velha senhora as escadas de madeira. Helen permanece na cozinha, tomando sopa.
- Aqui tem sabonete e uma toalha.
- Muito obrigado. Não há de quê. Sabe, quando o vi, me lembrei do meu filho. Era alto e bonito como o senhor...
- Era?
- Sim. Infelizmente o perdemos na guerra. - Ela lança um olhar carinhoso para mim. - Essa maldita guerra que levou tanta gente embora!
- Eu sinto muito! Obrigado por toda essa gentileza. Não queríamos de maneira alguma incomodá-los. Mas, não tivemos muita escolha...
- Tudo bem. Não há de quê. Vou preparar um quarto para o senhor e sua esposa. Ainda bem que temos esse quarto vago, mas sinto dizer que o amigo de vocês terá que se contentar com o sofá da sala...
- Eu fico muito grato por sua generosidade.
- A moça é mesmo sua esposa, não?
- Se não fosse, a senhora nos hospedaria mesmo assim? - Sorrio para a velha senhora.
- Oh, é claro. Isso não é da minha conta!
- Fique tranquila. Ela é minha esposa, sim. E o outro rapaz é o meu motorista.
- Nossa, então o senhor deve ser muito rico, Eu não conheço ninguém que tenha motorista. –Ela diz, sorrindo, enquanto fecha a porta do banheiro.
Depois de entrar no chuveiro encosto a cabeça na parede do banheiro e deixo os jatos de água do chuveiro me acertarem com força por alguns minutos. Estou tentando entender o que aconteceu nessa noite. Eu havia planejado cada passo da libertação dela, mas não previ nada disso! Estou pasmo comigo mesmo por não ter sequer pensado na possibilidade disso tudo acontecer. Termino o meu banho, desejoso que o tempo amanhã colabore e possamos ir embora ao nascer do sol. Eu não queria levar Helen ao convento em plena luz do dia, mas, enfim, já que nada do que eu planejei deu certo, não adianta mais tentar antecipar os acontecimentos.
- Um problema de cada vez. – Penso em voz alta, enquanto termino de me enxugar e visto um dos ridículos pijamas de Johann Ritter.
Desço as escadas e vejo que Hans já se acomodou no confortável sofá da sala. A luz da cozinha está apagada e não há nenhum sinal de Helen ou do velho casal por perto.
- Onde ela está? – Pergunto, baixinho a Hans.
- Já está no quarto.
- E os Ritter?
- Se recolheram também.
- Você viu qual é o quarto?
- A velha disse que é o que fica ao final do corredor, senhor.
- Certo. Vou subir então.
- Fique tranquilo, senhor. Os Ritter são boa gente. Amanhã acordaremos cedo e iremos embora e...
Enquanto Hans está falando, a sala se ilumina por um raio próximo e ouvimos um estrondo violento de trovão.
- Se a chuva der um trégua. Boa noite, Hans. Obrigado por tudo!
- Sabe que pode contar comigo. Boa noite, Senhor Prauchner.
Subo as escadas lentamente, pois Hans acaba de apagar a luz do abajur. E, numa coincidência com o que aconteceu horas antes, me vejo novamente caminhando por um corredor escuro, indo até o final do corredor. Me oriento pelo pequeno facho de luz que sai debaixo da porta do quarto.
Abro a porta e encontro Helen na cama, sentada embaixo das cobertas. Me aproximo, constrangido.
- Desculpe, Helen. Não era para ter sido assim.
- Shhhh! Fale baixo. Enquanto estivermos aqui sou Lena. Me chame de Lena! – Ela diz.
- Lena. Por que disse que era esse o seu nome?
- Porque seria mais fácil atender se me chamasse assim do que outro nome qualquer. Estou acostumada com ele. Apague a luz, por favor.
Apago a luz do quarto e me sento numa cadeira próximo à cama. Ao escutar o ranger do peso do meu corpo se acomodando ao velho móvel, Helen fala baixinho.
- O que está fazendo?
- Me preparando para dormir. – Digo.
- Acho que depois de tudo o que passamos, você pode se deitar ao meu lado. – Ela diz.
- Você tem certeza?
- Sim. Eu confio em você.
Enquanto me enfio rapidamente embaixo das cobertas, um pouco envergonhado, mas ao mesmo tempo muito agradecido pelo gesto dela, não consigo evitar de me sentir comovido. Eu evito falar qualquer coisa, não acho que seja necessário. Tantas vezes Helen me surpreendeu hoje: ao dizer que acreditava no meu amor, ao não me delatar para a polícia austríaca e, finalmente, por permitir que eu durma novamente ao seu lado.
Eu sei que não mereço nada do que ela fez por mim hoje, por isso, me deito agradecido. Não sei ao certo se não despertamos suspeitas nos policiais da barreira ou até mesmo nos Ritter, que nos acolheram sem grandes explicações. Não importa. Pela última vez vou dormir um sonho bom. Pode ser que amanhã isso tudo se transforme em um pesadelo. Ou então, se ninguém desconfiar de nada e tudo correr bem, após deixar Helen no convento tudo se transformará apenas em solidão.
Tudo o que eu sei é que ao lado dela não há tempestade, atoleiro, preocupação ou solidão que me tirem o sono. Ao lado dela eu encontro paz. A minha última noite de paz.
- Boa noite, Anton!
- Boa noite, Lena!
