O temporal já se esgotara quando o dia seguinte amanheceu, embora o teto no Salão Principal continuasse ameaçador; pesadas nuvens cinza-chumbo se espiralavam no alto quando Harry, Rony e Hermione examinaram seus novos horários ao café da manhã. A poucas cadeiras de distância, Fred, George e Lino Jordan discutiam métodos mágicos de se tornarem velhos e, com esse truque, participar do Torneio Tribruxo.
"Hoje não é ruim. Lá fora a manhã inteira." Disse Rony, que corria o dedo pela coluna intitulada segunda-feira no seu horário. "Herbologia com a Lufa-Lufa e Trato das Criaturas Mágicas... droga, continuamos com a Sonserina."
"Tentarei não levar esse último comentário para o lado pessoal." Disse Draco, em sua voz arrastada, sentando-se entre o irmão e Harry.
"Para onde você foi logo que Dumbledore nos liberou?" Perguntou Harry ao louro que o olhou por alguns segundos, com uma sobrancelha erguida, quase desafiadoramente, fazendo o moreno corar.
"Obviamente, segui o restante dos sonserinos." Deu de ombros passando a se servir de leite.
"Dois tempos de Adivinhação hoje à tarde." Falou Rony, baixando os olhos, frustrado.
"Você devia ter desistido como eu fiz, não é?" Disse Hermione decidida, passando manteiga na torrada. "Então poderia fazer alguma coisa sensata como Aritmancia."
"Você voltou a comer, pelo que estou vendo." Comentou Rony, observando Hermione acrescentar generosas quantidades de geléia à torrada amanteigada.
"Já resolvi que há maneiras melhores de marcar posição no caso dos direitos dos elfos." Disse Hermione com altivez.
"E pelo visto está com fome." Disse Rony, sorrindo.
Houve um repentino rumorejo acima deles e cem corujas entraram pelas janelas abertas, trazendo o correio da manhã. Instintivamente, Harry olhou para o alto, mas não viu nada branco na mancha compacta de castanhos e cinza. Antes de embarcar no Expresso, falara com Sirius sobre o último sonho que tivera com Voldemort. O animago parecia preocupado, mas disse ao afilhado que não se preocupasse. O Lorde das Trevas reaparecendo em breve ou não, eles estavam melhor preparados para enfrentá-lo.
As corujas circularam sobre as mesas, procurando as pessoas a quem as cartas e pacotes eram endereçados. Uma corujona âmbar desceu até Neville Longbottom e depositou um embrulho em seu colo - o garoto quase sempre se esquecia de guardar na mala alguma coisa.
Foi um longo caminho pela horta enlameada até chegarem à estufa número três, mas ali ele se distraiu com a Professora Sprout que mostrava à turma as plantas mais feias que Harry já vira. De fato, elas se pareciam mais com enormes lesmas gordas e pretas que brotavam verticalmente do solo do que com plantas. Cada uma delas se contorcia ligeiramente e tinha vários inchaços brilhantes no corpo que pareciam cheios de líquido.
"Bubotúberas." Disse Sprout brevemente. "Precisam ser espremidas. Recolhe-se o pus"
"O quê?" Exclamou Simas, expressando sua repugnância.
"Pus, senhor Finnigan;" Respondeu a professora. "E é extremamente precioso, por isso não o desperdice. Recolhe-se o pus, como eu ia dizendo, nessas garrafas. Usem as luvas de couro de dragão, podem acontecer reações engraçadas na pele quando o pus das bubotúberas não está diluído."
Espremer as buborúberas era nojento, mas dava um estranho prazer. Á medida que estouravam cada tumor, saía dele uma grande quantidade de líquido verde-amarelado, que cheirava fortemente a gasolina, como comparou Hermione, mas a maioria não sabia ao que ela se referia. Os alunos o recolheram em garrafas, conforme a professora orientara e, no fim da aula, haviam obtido vários litros.
"Isto vai deixar Madame Pomfrey feliz." Disse a Profa Sprour arrolhando a última garrafa. "Um remédio excelente para as formas mais renitentes de acne, o pus de bubotúberas. Pode fazer os alunos pararem de recorrer a medidas desesperadas para se livrarem das espinhas."
"Como a coitada da Heloisa Midgen." Disse Ana Abbott, aluna da Lufa-Lufa, em voz baixa. "Ela tentou acabar com as dela lançando um feitiço."
"Que menina tola!" Disse a professora, balançando a cabeça.
Uma sineta ressonante sinalizou o fim da aula e a turma se separou; os da Lufa-Lufa subiram a escada de pedra rumo à aula de Transformação e os da Grifinória tomaram outro rumo, descendo o jardim em direção à pequena cabana de madeira de Hagrid, que ficava na orla da Floresta Proibida. Hagrid estava parado à frente da cabana, uma das mãos na coleira do seu enorme cão de caçar javalis, Canino. Havia varios caixotes abertos no chão a seus pés, e Canino choramingava e retesava a coleira, aparentemente tentando investigar o conteúdo dos caixotes mais de perto. Quando os garotos se aproximaram, um estranho som de chocalho chegou aos seus ouvidos pontuando, aparentemente, por pequenas explosões.
"Dia!" Cumprimentou Hagrid, sorrindo para Harry, Rony e Hermione. "Melhor esperar pelos alunos da Sonserina, eles não vão querer perder isso. Explosivins!"
"Como é?" Perguntou Rony.
Hagrid apontou para os caixotes.
Pareciam lagostas sem casca, deformadas, terrivelmente pálidas e de aspecto pegajoso, as pernas saindo dos lugares mais estranhos e sem cabeça visível. Havia uns cem deles em cada caixote, cada um com uns quinze centímetros de comprimento, rastejando uns sobre os outros, batendo às cegas contra as paredes das caixas. Desprendiam um cheiro forte de peixe podre. De vez em quando, soltavam faíscas da cauda e, com um leve pum, se deslocavam alguns centímetros à frente.
"Acabaram de sair da casca." Informou Hagrid orgulhoso. "Por isso vocês vão poder criar os bichinhos pessoalmente! Achei que podíamos fazer uma pesquisa sobre eles!"
"E por que nós íamos querer criar esses bichos?" Perguntou uma voz fria. Os alunos da Sonserina haviam chegado.
Hagrid pareceu embatucar com a pergunta.
"O que é que eles fazem?" Perguntou Pansy. "Para que servem?"
Hagrid abriu a boca, aparentemente fazendo um esforço para responder; houve uma pausa de alguns segundos, depois ele disse com aspereza:
"Isto é na próxima aula. Hoje você só vai alimentar os bichos. Agora vamos ter que experimentar diferentes alimentos. Nunca os criei, não tenho certeza do que gostariam. Tenho ovos de formiga, fígados de sapo e um pedaço de cobra, experimentem um pedacinho de cada."
"Primeiro pus e agora isso." Resmungou Simas.
Nada, exceto a profunda afeição que tinham por Hagrid, poderia ter feito Harry, Rony, Draco e Hermione apanhar mãos cheias de fígados de sapo melados e baixá-las aos caixotes para tentar os explosivins. Harry não conseguiu refrear a suspeita de que aquilo tudo não tinha finalidade alguma, porque os bichos não pareciam ter bocas.
"Ai!" Gritou Dino, passados uns dez minutos. "Ele me pegou!"
Hagrid correu para o garoto, com uma expressão ansiosa no rosto.
"A cauda dele explodiu!" Disse Dino zangado, mostrando a Hagrid uma queimadura na mão.
"Ah, é, isso pode acontecer quando eles disparam." Disse Hagrid, confirmando o que dizia com a cabeça.
"Arre!" Exclamou Lilá. "Arre, Hagrid, que é essa coisinha pontuda neles?"
"Ah, alguns têm espinhos." Disse Hagrid entusiasmado (Lilá retirou depressa a
mão da caixa). "Acho que são os machos. As fêmeas têm uma espécie de sugador na barriga. Acho que talvez seja para sugar sangue."
"Sem a menor dúvida eu entendo por que estamos tentando manter esses bichos vivos." Disse um aluno sonserino sarcasticamente. "Quem não iria querer animalzinhos de estimação que podem queimar, picar e morder, tudo ao mesmo tempo?"
"Só porque eles não são muito bonitos, não significa que não sejam úteis." Retorquiu Hermione. "Sangue de dragão é uma coisa assombrosamente mágica, mas você não iria querer um dragão como bicho de estimação, não é mesmo?"
Draco, Harry e Rony sorriram para Hagrid, que retribuiu com um sorriso furtivo por trás da barba espessa. Nada o teria agradado mais do que um filhote de dragão
"Pelo menos os explosivins são pequenos." Disse Rony, quando voltavam uma hora depois ao castelo para almoçar.
"São agora." Disse Harry pesaroso. "Mas depois que o Hagrid descobrir o que eles comem, imagino que vão atingir um metro e meio de comprimento."
"Isso não vai fazer diferença se descobrirem que eles curam enjôo ou outra coisa qualquer, não é?" Continuou o ruivo.
"Você sabe perfeitamente bem que eu só disse aquilo para calar aquele sonserino." Retrucou Hermione.
"Acho que ele tinha razão." Disse Draco chamando a atenção dos amigos. "O melhor que podíamos fazer era acabar com os bichos antes que eles comecem a nos atacar."
Os garotos se sentaram à mesa da Grifinória, exceto Draco, que rumou para a da Sonserina, e se serviram de costeletas de cordeiro com batatas. Hermione começou a comer tão rápido que Harry e Rony ficaram olhando para ela.
"Hum, essa é a sua nova posição em favor dos direitos dos elfos?" Perguntou Rony. "Em vez de não comer, comer depressa para vomitar?"
"Não." Respondeu Hermione com toda a dignidade que conseguiu reunir tendo a boca cheia de couves-de-bruxelas. "Só quero chegar à biblioteca."
"Quê?" Exclamou Rony incrédulo. "Mione, é o primeiro dia de aulas! Ainda nem passaram dever de casa pra gente!"
Hermione sacudiu os ombros e continuou a devorar a comida como se não comesse há dias. Em seguida se levantou e disse:
"Vejo vocês no jantar!" E saiu apressadissima.
Quando a sineta tocou para anunciar o inicio das aulas da tarde, Harry e Rony se dirigiram à Torre Norte, onde, no alto de uma estreita escada em caracol, uma escada de mão prateada levava a um alçapão no teto e à sala em que morava a Professora Trelawney. O já conhecido perfume doce que saía da lareira veio ao encontro das narinas dos garotos quando eles chegaram ao topo da escada. Como sempre, as cortinas estavam fechadas; e a sala circular, banhada por uma fraca luz avermelhada projetada por várias lâmpadas cobertas por lenços e xales. Harry e Rony caminharam entre as cadeiras e pufes forrados de chintz, já ocupados, e se sentaram a mesma mesinha redonda.
"Bom dia!" Disse a etérea voz da professora às costas de Harry, causando-lhe um sobressalto. "Você está preocupado, meu querido." Disse ela tristemente a Harry. "Minha
Visão Interior transpõe o seu rosto corajoso e chega dentro de sua alma perturbada. E lamento dizer que suas preocupações têm fundamento. Vejo tempos difíceis em seu futuro, ai de você... dificílimos... receio que a coisa que você teme realmente venha a acontecer... e talvez mais cedo do que pensa."
A professora deixou os garotos, com um movimento ondulante, e se sentou na grande cadeira diante da lareira, de frente para a turma e começou a discursar sobre planetas e destinos.
Ao fim da aula, Rony e Harry desceram correndo as escadarias indo em direção ao saguão de entrada quando ouviram Pansy os chamando.
"O que é?" Perguntou o ruivo irritado.
"Seu pai está no jornal, Weasley!" Disse brandindo um exemplar do Profeta Diário, e isso bem alto para que todas as pessoas aglomeradas no saguão pudessem ouvir. "Escuta só isso!"
NOVOS ERROS NO MINISTÉRIO DA MAGIA
Pelo visto os problemas no Ministério da Magia ainda não chegaram ao fim, informa nossa correspondente especial Rira Skeeter. Recentemente censurado por sua incapacidade de controlar multidões durante a Copa Mundial de Quadribol, e ainda devendo à opinião pública uma explicaçáo para o desaparecimento de uma de suas bruxas, ontem o Ministério enfrentou novo constrangimento com as extravagâncias de Arnold Weasley, da Seção de Controle do Mau Uso dos Artefatos dos Trouxas.
"Imagina, nem escreveram direito o nome dele, Weasley, é quase como se ele não existisse, não é?"
Todos no saguão agora prestavam atenção. Parkinson esticou o jornal com um gesto largo e continuou a ler:
Arnold Weasley acusado de possuir um carro voador há dois anos, envolveu-se ontem numa briga com guardiões trouxas da lei (policiais) por causa de latas de lixo extremamente agressivas. O Senhor Weasley parece ter ido socorrer "Olho Tonto" Moody, um ex-auror idoso, que se aposentou do Ministério ao se tornar incapaz de distinguir um aperto de mão de uma tentativa de homicídio. Ao chegar à casa do ex-auror, fortemente guardado o funcionário verificou, sem surpresa, que, mais uma vez, o Senhor Moody dera um alarme falso. Em consequência, o Senhor Weasley foi obrigado a alterar muitas memórias para poder escapar dos policiais, mas se recusou a responder às perguntas do Profeta Diário sobre as razões que o levaram a envolver o Ministério nesse episódio pouco digno e potencialmente embaraçoso.
"E tem uma foto, Weasley!" Acrescentou Zabini, aproximando-se da sonserina, virando o jornal e mostrando-a. "Uma foto de seus pais à porta de casa, se é que se pode chamar isso de casa! Sua mãe bem que podia perder uns quilinhos, não acha?"
Rony tremia de fúria. Todos o encaravam.
"Se manda, Blaise." Disse Harry. "Vamos Rony."
"Ah, é mesmo, vocês ficaram juntos durante o jogo da Copa, não é, Zabini? Então me conta, a mãe dele parece uma barrica ou é efeito da foto?" Caçoou Pansy.
"A minha mãe é uma senhora muito doce, obrigada, Parkinson e Blaise." Disse Draco, friamente, se juntando aos amigos junto de Hermione que, junto de Harry impedia do ruivo partir pra briga física. "E vocês já olharam bem pra mãe de vocês? A senhora Parkinson precisa investigar o bruxo estético dela. E a senhora Blaise, ela tem aquela cara de quem cheira bosta mesmo ou é porque estava na sua presença, Zabini?"
"Não fale mal da minha mãe, Weasley." Sibilou o sonserino.
"Apenas devolvendo o favor." Sorriu de lado, dando as costas.
BANGUE!
Várias pessoas gritaram - Draco sentiu uma coisa branca e quente arranhar o lado do rosto - mergulhou a mão nas vestes para apanhar a varinha, mas antes que chegasse sequer a tocá-la, ouviu um segundo estampido e um berro que ecoou pelo saguão de entrada.
"AH, NÃO VAI NÃO, GAROTO!"
Harry, Rony, Hermione e Draco se viraram. O Professor Moody descia mancando a escadaria de mármore. Tinha a varinha na mão e apontava diretamente para um castor amarronzado, que tremia no piso de lajotas, exatamente no lugar em que Blaise estivera.
Fez-se um silêncio aterrorizado no saguão. Ninguém exceto Moody mexia um só músculo. Ele se virou para olhar Draco - pelo menos, o olho normal estava olhando para o louro; o outro estava apontando para dentro da cabeça.
"Ele o mordeu?" Rosnou o professor. Sua voz era baixa e áspera.
"Não." Respondeu o louro. "Por pouco."
"DEIXE-O!" Berrou Moody.
"Deixe... o quê?" Perguntou Draco confuso.
"Não você, ela!" Vociferou Moody, apontando o polegar por cima do ombro para Pansy, que acabara de congelar em meio a um gesto para recolher o castor. Parecia que o olho giratório de Moody era mágico e enxergava através da nuca do professor. Moody começou a mancar em direção a menina e o castor, que soltou um guincho aterrorizado e fugiu em direção às masmorras.
"Acho que não!" Rugiu Moody, tornando a apontar a varinha para o castor, ele subiu uns três metros no ar, caiu com um baque úmido no chão e quicou de novo para cima.
"Não gosto de gente que ataca um adversário pelas costas", rosnou Moody, enquanto o castor quicava cada vez mais alto, guinchando de dor. "Um ato nojento, covarde, reles..." O animal voava pelo ar, as pernas e a cauda sacudiam descontroladas.
"Nunca... mais... torne... a... fazer... isso." Continuou o professor, destacando cada palavra para o sonserino que batia no piso de pedra e tornava a subir.
"Professor Moody!" Chamou uma voz chocada.
Minerva vinha descendo a escadaria com os braços carregados de livros.
"Olá, Professor McGonagall." Cumprimentou Moody calmamente, fazendo Blaise quicar ainda mais alto.
"Que... que é que o senhor está fazendo?" Perguntou a professora seguindo com o olhar a subida do bicho no ar.
"Ensinando." Respondeu ele.
"Ensinan... Moody, isso é um aluno?!" Gritou a professora, os livros despencando dos seus braços.
"É."
"Não!" Exclamou ela, descendo a escada correndo e puxando a própria varinha; um momento depois, com um estampido, Blaise reapareceu, caído embolado no chão, os cabelos sobre o rosto agora muito vermelho. Ele se levantou, fazendo uma careta.
"Moody, nunca usamos transformação em castigos!" Disse a professora com a voz fraca. "Certamente o Prof. Dumbledore deve ter-lhe dito isso?"
"É, talvez ele tenha mencionado." Respondeu Moody, coçando o queixo displicentemente. "Mas achei que um bom choque..."
"Damos detenções, Moody! Ou falamos com o diretor da casa do faltoso!"
"Vou fazer isso, então." Disse Moody, encarando Blaise com intenso desagrado.
O garoto, cujos olhos ainda lacrimejavam de dor e humilhação, ergueu o rosto maldosamente para Moody e murmurou alguma coisa em que se distinguiam as palavras "meu pai".
"Ah, é?" Disse Moody em voz baixa, aproximando-se alguns passos, a pancada surda de sua perna de pau ecoando pelo saguão. "Bom, conheço seu pai de outras eras, moleque." Resmungou enojado. "Diga a ele que Moody está de olho no filho dele... diga-lhe isso por mim... agora. imagino que o diretor de sua casa seja o Snape, não?"
"É." Respondeu Malfoy cheio de rancor.
"Outro velho amigo." Disse Moody, seu tom de voz propositalmente neutro, o que deixou Harry confuso e curioso. "Estou querendo mesmo conversar com o velho Snape. Vamos, seu..." E segurando o garoto pelo antebraço saiu com ele em direção às masmorras.
"Não falem comigo." Disse Rony indo com os amigos em direção ao Saguão de entrada, cercados por alunos excitados por todos os lados que comentavam o que acabara de acontecer.
"Por que não?" Perguntou Hermione surpresa.
"Porque quero gravar isso na memória para sempre." Disse o ruivo, com uma expressão de enlevo no rosto. "Zabini Blaise, o castor quicante."
Draco, Harry e Hermione riram.
Os dois dias seguintes transcorreram sem grandes incidentes, a não ser que se levasse em conta o sexto caldeirão derretido por Nevilie na aula de Poções. O Professor Snape, que, durante as férias, parecia ter alcançado novos níveis em sua gana de se vingar do garoto, deu-lhe uma detenção, da qual Nevilie voltou com um colapso nervoso, pois teve que destripar uma barrica de iguanas.
"Você sabe por que Snape está nesse mau humor tão grande?" Perguntou Rony a Harry, enquanto observavam Hermione ensinar a Neville um Feitiço de Limpeza para remover as tripas de iguanas presas sob suas unhas.
"Pode ser um mundo de coisas. Desde a volta às aulas em si, ao fato de que Hogwarts será sede do Torneio, o que significa centenas de pessoas a mais no castelo. Talvez até mesmo alguma discussão com meu pai, Remus ou Sirius." Mas havia uma quarta teoria que envolvia os acontecimentos na Copa. Era comum Severus demonstrar irritação no lugar de preocupação.
Os alunos da quarta série da Grifinória estavam tão ansiosos para ter a primeira aula com Moody que, na quinta-feira, chegaram logo depois do almoço e fizeram fila à porta da sala, antes mesmo da sineta tocar. A única pessoa ausente foi Hermione, que chegou no último instante para a aula.
"Estava na"
"Biblioteca." Draco e Harry terminaram a frase da amiga.
"Anda logo senão não vamos arranjar lugares decentes." Disse Rony.
Eles correram para pegar cadeiras bem diante da escrivaninha do professor, apanharam seus exemplares de As forças das trevas: um guia para sua proteção, e esperaram anormalmente quietos. Não tardaram a ouvir os passos sincopados de Moody que vinha pelo corredor e que, ao entrar na sala, parecia mais estranho e amedrontador que nunca. Seu pé de madeira em garra aparecia ligeiramente por baixo das vestes.
"Podem guardar isso." Rosnou ele, apoiando-se na escrivaninha para se sentar. "Esses livros. Não vão precisar deles."
Os alunos tornaram a guardar os livros nas mochilas, Rony tinha um ar excitado.
Moody apanhou a folha de chamada, sacudiu sua longa juba de cabelos grisalhos para afastá-los do rosto contorcido e marcado, e começou a chamar os nomes, seu olho normal percorrendo a lista e o olho mágico girando, fixando-se em cada aluno quando ele respondia.
"Certo, então." Concluiu ele, quando a última pessoa confirmara presença. "Tenho uma carta do Professor Lupin sobre esta turma. Parece que vocês receberam um bom embasamento para enfrentar criaturas das trevas, estudaram bichos-papões, barretes vermelhos, hinkypunks, grindylows, kappas e lobisomens, correto?"
Houve um murmúrio geral de concordância.
"Mas estão atrasados, muito atrasados, em maldições." Disse Moody. "Então, estou aqui para pôr vocês em dia com o que os bruxos podem fazer uns aos outros. Tenho um ano para lhes ensinar a lidar com as forças das trevas."
"Quê, o senhor não vai ficar?" Deixou escapar Rony.
O olho mágico de Moody girou para se fixar em Rony; o garoto ficou extremamente apreensivo, mas, passado um instante, o professor sorriu - a primeira vez que Harry o via fazer isso. O efeito foi entortar mais que nunca o seu rosto muito marcado, mas de qualquer forma foi um alívio saber que ele era capaz de um gesto amigável como sorrir. Rony pareceu profundamente aliviado.
"Você é filho do Arthur Weasley." Disse Moody. "Seu pai me tirou de uma enrascada há alguns dias... é, vou ficar apenas este ano. Um favor especial a Dumbledore. Um ano e depois volto ao sossego da minha aposentadoria."
Ele deu uma risada áspera e então juntou as palmas das mãos nodosas.
"Então... vamos direto ao assunto. Maldições. Elas têm variados graus de força e forma. Agora, segundo o Ministério da Magia, eu devo ensinar a vocês as contramaldições e parar por aí. Não devo lhes mostrar que cara têm as maldições ilegais até vocês chegarem ao sexto ano. Até lá, o Ministério acha que vocês não têm idade para lidar com elas. Mas o Professor Dumbledore tem uma opinião mais favorável dos seus nervos e acha que vocês podem aprendê-las, e eu digo que quanto mais cedo souberem o que vão precisar enfrentar, melhor. Como vão se defender de uma coisa que nunca viram? Um bruxo que pretenda lançar uma maldição ilegal sobre vocês não vai avisar o que pretende. Não vai lançá-la de forma suave e educada bem na sua cara. Vocês precisam estar preparados. Precisam estar alertas e vigilantes. A senhorita deve guardar isso, Srta. Brown, enquanto eu estiver falando."
Lilá levou um susto e corou. Estivera mostrando a Parvati o horóscopo que aprontara por baixo da carteira. Aparentemente o olho mágico de Moody podia ver através da madeira, tão bem quanto pela nuca.
"Então... algum de vocês sabe que maldições são mais severamente punidas pelas leis da magia?"
Vários braços se ergueram hesitantes, inclusive os de Rony, Draco, Harry e Hermione. Moody apontou para Rony, embora seu olho mágico continuasse mirando Lilá.
"Hum." Disse Rony sem muita certeza. "Meu pai me falou de uma chamada Maldição Imperius ou coisa assim?"
"Ah, sim." Disse Moody satisfeito. "Seu pai conheceria essa. Certa vez, deu ao Ministério muito trabalho, essa Maldição Imperius."
Moody se apoiou pesadamente nos pés desiguais, abriu a gaveta da escrivaninha e tirou um frasco de vidro. Três enormes aranhas pretas corriam dentro dele. Harry sentiu Rony se encolher ligeiramente ao seu lado - Rony detestava aranhas. Moody meteu a mão dentro do frasco, apanhou uma aranha e segurou-a na palma da mão, de modo que todos pudessem vê-la. Apontou, então, a varinha para o inseto e murmurou "Imperio!" A aranha saltou da mão de Moody para um fino fio de seda e começou a se balançar para a frente e para trás como se estivesse em um trapézio. Esticou as pernas rígidas e deu uma cambalhota, partindo o fio e aterrissando sobre a mesa, onde começou a plantar bananeiras em círculos. Moody agitou a varinha, e a aranha se ergueu em duas patas traseiras e saiu dançando um inconfundível sapateado. Todos riram - todos exceto Moody.
"Acharam engraçado, é?" Rosnou ele. "Vocês gostariam se eu fizesse isso com vocês?"
As risadas pararam quase instantaneamente.
"Controle total." Disse o professor em voz baixa, quando a aranha se enrolou e começou a rodar sem parar. "Eu poderia fazê-la saltar pela janela, se afogar, se enfiar pela garganta de vocês abaixo..." Rony teve um tremor involuntário. "Há alguns anos, havia muitos bruxos e bruxas controlados pela Maldição Imperius." Disse Moody, e Harry entendeu que ele estava se referindo ao tempo em que Voldemort fora todo-poderoso. "Foi uma trabalheira para o Ministério separar quem estava sendo forçado a agir de quem estava agindo por vontade própria. A Maldição Imperius pode ser neutralizada, e vou-lhes mostrar como, mas é preciso força de caráter real e nem todos a possuem. Por isso é melhor evitar ser amaldiçoado com ela se puderem. VIGILANCIA CONSTANTE!" Vociferou ele, e todos os alunos se assustaram. Moody apanhou a aranha acrobata e atirou-a de volta ao frasco. "Mais alguém conhece mais alguma? Outra maldição ilegal?"
A mão de Hermione voltou a se erguer e, para surpresa de Harry, a de Nevilie também. A única aula em que Neville normalmente voluntaríava informações era a de Herbologia, que era, sem favor algum, a matéria que ele sabia melhor. O garoto pareceu surpreso com a própria ousadia.
"Qual?" Perguntou Moody, seu olho mágico dando um giro completo para se fixar em Neville.
"Tem uma, a Maldição Cruciatus." Disse Neville, numa voz fraca, mas clara. Moody olhou Nevilie com muita atenção, desta vez com os dois olhos.
"O seu nome é Longbottom?" Perguntou ele, o olho mágico girando para verificar a folha de chamada.
Neville confirmou, nervoso, com a cabeça, mas o professor não fez outras perguntas. Tornando a voltar sua atenção à classe, ele meteu a mão no frasco mais uma vez, apanhou outra aranha e colocou-a no tampo da escrivaninha, onde o inseto permaneceu imóvel, aparentemente demasiado assustado para se mexer.
"A Maldição Cruciatus." Começou Moody. "Preciso de uma maior para lhes dar uma ideia." Disse ele, apontando a varinha para a aranha. "Engorgio!"
A aranha inchou. Estava agora maior do que uma tarântula. Abandonando todo o fingimento, Rony empurrou a cadeira para trás, o mais longe que pôde da escrivaninha de Moody. O professor tornou a erguer a varinha, apontou-a para a aranha e murmurou:
"Crucius!"
Na mesma hora, as pernas da aranha se dobraram sob o corpo, ela virou de barriga para cima e começou a se contorcer horrivelmente, balançando de um lado para outro. Não emitia som algum, mas Harry teve certeza de que, se tivesse voz, estaria berrando. Moody não afastou a varinha e a aranha começou a estremecer e a se debater violentamente.
"Pare!" Gritou Hermione com a voz aguda.
Harry olhou para a amiga. Ela estava com os olhos postos não na aranha, mas em Neville, e Harry, ao seguir a direção do seu olhar, viu que as mãos do garoto se agarravam à carteira diante dele, os nós dos dedos brancos, seus olhos arregalados e horrorizados. Moody ergueu a varinha. As pernas da aranha se descontrairam, mas ela continuou a se contorcer.
"Reducio." Murmurou Moody, e a aranha encolheu e voltou ao tamanho normal. Ele a repôs no frasco.
"Dor." Explicou Moody em voz baixa. "Não se precisa de anjinhos nem de facas para torturar alguém quando se é capaz de lançar a Maldição Cruciatus. Ela também já foi muito popular."
"Certo. Mais alguém conhece alguma outra?"
Harry olhou para os lados. Pela expressão no rosto dos colegas, ele achou que estavam todos pensando no que aconteceria com a última aranha. Mesmo Hermione não ousara levantar a mão.
"Sim." Disse o moreno tendo total atenção de Moody. "Avada Kedavra." Os colegas o olharam constrangidos. Inclusive Rony e Draco.
O professor o encarou com ambos os olhos e o cenho franzido.
"Harry Potter-Malfoy." Disse fazendo o moreno prender a respiração. "Claro que você já deve ter ouvido falar dessa maldição." Ele enfiou a mão no frasco e, quase como se soubesse o que a esperava, a terceira aranha correu freneticamente pelo fundo do objeto, tentando fugir aos dedos de Moody, mas ele a apanhou e a colocou sobre a escrivaninha. O inseto começou a correr, desvairado, pela superfície de madeira. Moody ergueu a varinha e Harry sentiu um repentino pressentimento.
"Avada Kedavra!" Berrou Moody.
Houve um relâmpago de ofuscante Luz verde e um rumorejo, como se algo vasto e invisível voasse pelo ar - instantaneamente a aranha virou de dorso, sem uma única marca, mas inconfundivelmente morta. Várias alunas abafaram gritinhos; Rony se atirara para trás, quase caindo da cadeira, quando a aranha escorregou em sua direção.
Moody empurrou a aranha morta para fora da mesa.
"Nada bonito." Disse calmamente. "Nada agradável. E não existe contramaldição. Não há como bloqueá-la. Somente uma pessoa no mundo já sobreviveu a ela e está sentada bem aqui na minha frente."
Harry sentiu seu rosto corar quando os (dois) olhos de Moody fitaram os dele. Sentiu que toda a turma também estava olhando para ele. Harry encarou o quadro-negro limpo como se estivesse fascinado por sua superfície, mas na realidade sem sequer vê-lo. Então fora assim que seus pais tinham morrido. Exatamente como aquela aranha. Será que tinham morrido sem desfiguração nem marcas, também? Será que tinham simplesmente visto um relâmpago verde e ouvido o rumorejo da morte que se aproximou célere, antes que a vida fosse varrida de seus corpos?
Harry imaginara a morte dos pais muitas vezes desde que descobrira o que acontecera naquela noite: como Rabicho informara o esconderijo de seus pais a Voldemort, que viera procurá-los em casa. Como o bruxo matara primeiro o pai de Harry. Como Tiago
Potter tentara atrasá-lo, enquanto gritava para a mulher e Remus apanharem Harry e correr. E Votdemort avançara para Lílian, dissera-lhe para se afastar para ele poder matar Harry. Como sua mãe suplicara para que a matasse no lugar do filho, recusara-se a deixar de proteger o filho com o corpo. E então Voldemort a assassinara também, antes de perceber que Lupin havia fugido com o menino.
Harry conhecia esses detalhes porque ouvira a voz dos pais quando enfrentara os dementadores no ano anterior - pois esse era o terrível poder dessas criaturas: forçar suas vítimas a reviverem as piores lembranças de suas vidas e se afogarem, impotentes, no próprio desespero. Harry teve a impressão de que Moody recomeçara a falar de muito longe. Com um enorme esforço, ele se obrigou a voltar ao presente e fixar a atenção no que o professor dizia.
"Avada Kedavra é uma maldição que exige magia poderosa para lançá-la, vocês podem apanhar as varinhas agora, apontá-las para mim, dizer as palavras e duvido que consigam sequer que o meu nariz sangre. Mas isto não importa. Não estou aqui para ensiná-los a lançá-la. Ora, se não há uma contramaldição, por que estou lhes mostrando essa maldição? Porque vocês precisam conhecê-la. Vocês têm que reconhecer o pior. Vocês não querem se colocar em uma situação em que precisem enfrentá-la. VIGILÂNCIA
PERMANENTE!" Berrou ele e a turma inteira tornou a se sobressaltar. "Agora... essas três maldições, Avadra Kedavra, Imperius e Cruciatus, são conhecidas como as Maldições Imperdoáveis. O uso de qualquer uma delas em um semelhante humano é suficiente para ganharem uma pena de prisão perpétua em Azkaban. É isso que vão ter que enfrentar. É isso que preciso lhes ensinar a combater. Vocês precisam estar preparados. Vocês precisam de armas. Mas, acima de tudo, precisam praticar uma vigilância constante, permanente. Apanhem suas penas... copiem o que vou ditar."
Os alunos passaram o resto da aula tomando notas sobre cada uma das Maldições
Imperdoáveis. Ninguém falou até a sineta tocar mas quando Moody os dispensou e eles saíram da sala, explodiram em um falatório irrefreável. A maioria dos alunos discutia as maldições em tom de assombro: "Você viu ela se contorcendo?", e quando ele matou a aranha - assim!" Comentavam a aula, pensou Harry, como se ela tivesse sido um espetáculo fantástico, mas ele não a achara nada divertida - tampouco Hermione.
"Andem logo." Disse ela tensa para Draco, Harry e Rony.
"Não é a biblioteca outra vez, é?" Perguntou Rony.
"Não." Respondeu a garota, secamente, apontando para um corredor lateral. "Neville."
Nevilie estava em pé sozinho, no meio do corredor, de olhos fixos na parede de pedra oposta, com a mesma expressão horrorizada e pasma que fizera quando Moody demonstrara a Maldição Cruciatus.
"Nevilie?" Chamou Hermione de mansinho.
Nevilie virou a cabeça.
"Ah, alô." Disse ele, a voz mais aguda do que habitualmente. "Aula interessante, não foi? Que será que tem para o jantar, estou... estou morto de fome, vocês não?"
"Nevilie, você está bem?" Perguntou Hermione.
"Ah, claro, estou ótimo." Balbuciou o garoto, na mesma voz anormalmente aguda. "Jantar muito interessante... quero dizer, aula... que será que tem para se comer?"
Draco lançou a Harry um olhar assustado.
"Neville, que...?" Começou o louro.
Mas eles ouviram às costas um som seco e metálico estranho e, ao se virarem, viram o Professor Moody vindo em sua direção. Os quatro ficaram em silêncio, observando-o apreensivos, mas quando ele falou, foi com um rosnado bem mais baixo e gentil do que tinham ouvido até então.
"Está tudo bem, filho." Disse ele a Neville. Por que não vem até a minha sala? Vamos. Podemos tomar uma xícara de chá." Moody virou o olho mágico para Harry. "Você está bem, não está, Potter? Ou devo chamá-lo de Malfoy?"
"Estou." Disse Harry, quase em tom de desafio. "E pode me chamar de Potter, se quiser. Respondo por ambos."
O olho azul de Moody estremeceu de leve na órbita ao examinar Harry. Então falou:
"Vocês têm que saber. Parece cruel, talvez, mas vocês têm que saber. Não adianta fingir... bom... venha, Longbortom, tenho uns livros que podem lhe interessar." Neville olhou suplicante para Harry, Draco, Rony e Hermione, mas eles não disseram nada, de modo que o garoto não teve escolha senão se deixar conduzir, uma das mãos nodosas de Moody em seu ombro.
"Que foi que houve?" Perguntou Rony, observando Neville e Moody virarem para outro corredor.
"Não sei." Disse Hermione, parecendo pensativa.
"Mas foi uma aula e tanto, hein?" Disse Rony, quando se dirigiam ao Salão Principal. "Fred e George tinham razão, não é? Ele realmente conhece o assunto, o Moody. Quando ele lançou a Avada Kedavra, o jeito com que aquela aranha simplesmente morreu, apagou na ho" Draco o acertou com o cotovelo bem no meio das costelas o fazendo calar de súbito. Ainda abriu a boca para questionar a atitude do irmão até ver a expressão no rosto de Harry, e não tornou a falar até chegarem ao salão, quando comentou que era melhor eles começarem a preparar as predições da Professora Trelawney àquela noite, porque iam demorar horas naquilo.
Muito mais tarde, de volta ao Salão da Grifinória, após Draco se despedir dos amigos e rumar para as masmorras e Hermione, novamente, se isolar na biblioteca, Rony e Harry encontraram Neville próximo à lareira, com um livro em mãos, parecendo bem menos assustado.
"Você está bem, Neville?" Perguntou Harry.
"Ah, estou. Estou ótimo, obrigado. Lendo o livro que o Professor Moody me emprestou."
Ele mostrou o livro: Plantas mediterrâneas e suas propriedades mágicas. "Parece que a Professora Sprout disse a ele que sou realmente bom em Herbologia." Disse Nevilie. Havia um quê de orgulho em sua voz que Harry raramente ouvira antes. "O professor achou que eu gostaria deste." Repetir para Neville o que a Professora Sprout dissera, pensou Harry, fora uma maneira muito delicada de animar o garoto, porque Neville raramente ouvia alguém dizer que ele era bom em alguma coisa. Além de Sprout, somente Lupin encorajou o garoto.
O resto da noite, os garotos passaram escrevendo as predições que Sibila pedira na aula anterior. Rony desistiu de tentar entender o livro nos primeiros cinco minutos e começou a inventar todo o dever. Harry ainda leu os textos, mas como o ruivo, usou da criatividade. Após algumas horas, o buraco do retrato se abriu e Hermione entrou na sala comunal, trazendo um rolo de pergaminho em uma das mãos e uma caixa, cujo conteúdo fazia barulho, na outra. Bichento arqueou as costas, ronronando.
"Alô." Disse ela. "Acabei!"
"Eu também!" Disse Rony em tom triunfante, largando a pena. Hermione se sentou, deixou as coisas que carregava em uma poltrona vazia e puxou as predições de Rony para ver.
"Não vai ter um mês nada bom, hein?" Disse ela ironicamente, quando Bichento veio se enroscar em seu colo.
"Bom, pelo menos estou prevenido." Bocejou Rony.
"Você parece que vai se afogar duas vezes." Disse a garota.
"Ah, vou, é?" Disse Rony baixando os olhos para suas predições. "É melhor eu trocar uma delas por um acidente com um hipogrifo desembestado."
"Você não acha que está um pouco óbvio que você inventou isso tudo?" Perguntou Hermione.
"Como é que você se atreve!" Exclamou Rony, fingindo-se ofendido. "Estivemos trabalhando como elfos domésticos aqui!"
Hermione ergueu as sobrancelhas.
"É só uma expressão." Acrescentou ele depressa.
Harry pousou a pena, tendo acabado de predizer a própria morte por decapitação.
"Que é que tem nessa caixa?" Perguntou ele, apontando-a.
"Engraçado você perguntar." Respondeu a garota com um olhar feio para Rony. Tirou então a tampa e mostrou o conteúdo aos garotos. Dentro havia uns cinquenta distintivos, de cores diferentes, mas todos com os mesmos dizeres: F.A.L.E.
"Fale?" Estranhou Harry, apanhando um distintivo e examinando-o. "Que significa isso?"
"Não é fale." Protestou Hermione impaciente. "É F-A-L-E. Quer dizer, Fundo de Apoio à Liberação dos Elfos."
"Nunca ouvi falar nisso." Disse Rony.
"Ora, é claro que não ouviu." Disse Hermione energicamente. "Acabei de fundar o movimento."
"Ah, é?" Disse Rony com um ar levemente surpreso. "E quantos membros já tem?"
"Bom, se vocês dois se alistarem, e Draco, quatro."
"E você acha que queremos andar por aí usando distintivos que dizem "fale", é?" Falou Rony.
"F-A-L-E!" Corrigiu-o Hermione irritada. "Eu ia pôr "Fim ao Abuso Ultrajante dos Nossos Irmãos Mágicos" e "Campanha para Mudar sua Condição", mas não dava certo. Então F.A.L.E. é o título do nosso manifesto."
Ela brandiu um rolo de pergaminho para os garotos.
"Andei pesquisando minuciosamente na biblioteca. A escravatura dos elfos já existe há séculos. Custo a acreditar que ninguém tenha feito nada contra ela até agora."
"Hermione, abra bem os ouvidos." Disse Rony em voz alta. "Eles. Gostam. Disso. Gostam de ser escravizados!"
"A curto prazo, os nossos objetivos" Disse Hermione, falando ainda mais alto do que o amigo e agindo como se não tivesse ouvido uma única palavra. "são obter para os elfos um salário mínimo justo e condições de trabalho decentes. A longo prazo, os nossos objetivos incluem mudar a lei que proibe o uso da varinha e tentar admitir um elfo no Departamento para Regulamentação e Controle das Criaturas Mágicas, porque eles são vergonhosamente
sub-representados."
"E como é que vamos fazer tudo isso?" Perguntou Harry.
"Vamos começar recrutando novos membros." Disse Hermione feliz. "Achei que dois sicles para entrar, o que paga o distintivo, e o produto da venda pode financiar a distribuição de folhetos. Você é o tesoureiro, Rony, tenho lá em cima uma latinha para você fazer a coleta, e você, Harry, o secretário, por isso você talvez queira anotar tudo que estou dizendo agora, para registrar a nossa primeira reunião. Ainda não falei com Draco, mas ele poderia me ajudar a recrutar pessoas."
Houve uma pausa em que Hermione sorriu radiante para os dois, e Harry se dilacerou entre a exasperação com a amiga e a vontade de rir da cara de Rony. O silêncio foi quebrado, não por Rony, que de qualquer maneira parecia estar temporariamente mudo de espanto, mas por umas batidinhas leves na janela. Harry correu os olhos pela sala agora vazia e viu, iluminada pelo luar, uma coruja branquíssima encarapitada no peitoril da janela.
"Edwiges!" Gritou ele, precipitando-se pela sala para abrir a janela do lado oposto. Edwiges entrou, voou pela sala e pousou na mesa em cima das predições de Harry.
"Ela trouxe um pergaminho!" Exclamou Rony, excitado, apontando para um pedaço sujo de pergaminho preso à perna de Edwiges. Harry desamarrou-o depressa e se sentou para ler, depois do que Edwiges voou para o joelho do garoto, piando baixinho.
"Que é que ele diz?" Perguntou Hermione ofegante.
Harry
A notícia sobre sua cicatriz é a última de uma série de acontecimentos estranhos que têm chegado aos nossos ouvidos. Se ela tornar a doer, procure imediatamente Dumbledore ou mesmo Moody. Confie nele. No mais, está tudo bem. Estou viajando hoje à noite para o norte. Logo entrarei em contato com você. Dê minhas lembranças a Draco, Rony e Hermione. Fique de olhos abertos, Harry.
Remus
PS: Pode imaginar quem manda lembranças também.
"Que acontecimentos serão esses?" Perguntou Rony perplexo.
"Ele está viajando para o norte?" Questionou Hermione.
"Eu não deveria ter dito nada para Sirius." Disse o moreno frustrado. "Só deixei os dois mais preocupados ainda. E se contarem pros meus pais e Severus?" Arregalou os olhos horrorizado.
Logo cedo na manhã seguinte, Harry acordou com um plano inteiramente formado na cabeça, como se o seu cérebro adormecido tivesse trabalhado naquilo a noite toda. Ele se levantou e se vestiu à luz fraca do amanhecer, saiu do dormitório sem acordar Rony e desceu para o salão comunal, àquela hora deserto. Ali apanhou um pedaço de pergaminho na mesa em cima da qual ainda se achava o dever de Adivinhação e escreveu a seguinte carta:
Remus
Vai tudo bem por aqui. Vocês não precisam se preocupar mais do que o normal. Dumbledore e Severus estão de olho em mim, imagino. E agora Moody! Imagino que tenha falado aos meus pais sobre a cicatriz. Espero que não, na verdade. De qualquer forma, estou atento a qualquer mudança maior.
Harry
Depois, Harry passou pelo buraco do retrato, subiu as escadas do castelo silencioso (só foi detido brevemente por Pirraça, que tentou virar um enorme vaso em cima dele no meio do corredor do quarto andar) e finalmente chegou ao corujal, que ficava no alto da Torre Oeste. O corujal era uma sala circular revestida de pedra; um tanto fria e varrida por correntes de vento, porque nenhuma das janelas tinha vidro. O chão era coberto de palha, titica de coruja e esqueletos de ratos e arganazes que as corujas regurgitavam. Centenas e mais centenas de corujas de todas as espécies imagináveis estavam aninhadas ali em poleiros que subiam até o alto da torre, quase todas adormecidas, embora aqui e ali um redondo olho cor de âmbar olhasse feio para o garoto.
Harry localizou Edwiges aninhada com Connor, em um dos poleiros mais próximos ao chão, e correu para ela, escorregando um pouco no chão coberto de excremento. Levou um certo tempo para convencê-la a acordar e olhar para ele porque sua coruja não parava de mudar de lugar no poleiro, virando-lhe o rabo. Por fim, foi a insinuação de Harry que ela poderia estar demasiado cansada e que talvez ele pedisse Pichirinho emprestado a Rony que a fez esticar a perna e permitir ao dono amarrar nela a carta.
Ela lhe deu uma mordidinha no dedo, talvez com mais força do que normalmente teria feito, mas, mesmo assim, piou baixinho de uma maneira que o deixou tranquilo. Em seguida abriu as asas e levantou vôo para o céu do amanhecer. Harry observou-a desaparecer de vista com a conhecida sensação de mal-estar no estômago.
Harry fez o que pode para engolir a preocupação nas semanas seguintes. É verdade que não conseguia deixar de olhar para os lados, ansiosamente, toda manhã quando as corujas chegavam trazendo o correio; e tarde da noite antes de dormir, tinha horríveis visões em que Sirius era encurralado pelos dementadores em alguma rua escura de Londres, ou Comensais usando feitiços próprios para imobilizar lobisomens, chegara até mesmo a sonhar com seus pais e Severus sendo capturados. Desejou que ainda tivesse o quadribol para distraí-lo; nada dava tão certo para uma cabeça preocupada quanto um treino xaustivo. Por outro lado, as aulas estavam se tornando cada vez mais difíceis e exigindo que se esforçasse mais do que nunca, principalmente a de Defesa contra as Artes das Trevas.
Para surpresa dos alunos, o Professor Moody anunciara que ia lançar a maldição Imperius sobre cada um deles, a fim de demonstrar o seu poder e verificar se conseguiam resistir aos seus efeitos.
"Mas o senhor disse que é ilegal, professor." Falou Hermione incerta, quando Moody afastou as carteiras com um movimento amplo da varinha, deixando uma clareira no meio da sala. "O senhor disse... que usá-la contra outro ser humano era..."
"Dumbledore quer que vocês aprendam qual éo efeito que ela produz em uma pessoa." Disse Moody, o olho mágico girando para a garota e se fixando nela sem piscar, com uma expressão misteriosa. "Se a senhorita preferir aprender pelo método difícil, quando alguém a lançar contra a senhorita para controlá-la, para mim está bem. A senhorita está dispensada da aula. Pode se retirar."
Ele apontou um dedo nodoso para a porta. Hermione ficou muito vermelha e murmurou alguma coisa no sentido de que a pergunta não significava que ela quisesse sair. Draco, Harry e Rony sorriram um para o outro. Eles sabiam que Hermione preferia beber pus de buborúberas do que perder uma lição daquela importância.
O professor começou a chamar os alunos à frente e a lançar a maldição sobre eles, um de cada vez. Harry observou os colegas fazerem as coisas mais extraordinárias sob a influência da Imperius. Dino deu três voltas pela sala aos saltos, cantando o hino nacional. Lilá Brown imitou um esquilo. Neville executou uma série de acrobacias surpreendentes, que ele certamente não teria conseguido em condições normais. Nenhum deles parecia ser capaz de resistir à maldição, e cada um só voltava ao normal quando Moody a desfazia.
"Potter." Rosnou Moody. "Você é o próximo."
O garoto se adiantou até o meio da sala, no espaço que Moody deixara livre. O professor ergueu a varinha, apontou-a para Harry e disse:
"Imperio."
Foi uma sensação maravilhosa. Harry sentiu que flutuava e todos os pensamentos e preocupações em sua mente desapareceram suavemente, deixando apenas uma felicidade vaga e inexplicável. Ele ficou ali extremamente relaxado, vagamente consciente de que todos o observavam. Então, ouviu a voz de Olho-Tonto Moody ecoar em uma célula distante do seu cérebro vazio:
Salte para cima da carteira... salte para cima da carteira...
Harry dobrou os joelhos obedientemente, preparando-se para saltar.
Salte para cima da carteira...
Mas por quê?
Outra voz despertara no fundo de sua mente. Que coisa boba para alguém fazer, francamente, disse a voz.
Salte para cima da carteira...
Não, acho que não, obrigado, disse a segunda voz, com mais firmeza... não, não quero...
Salte! AGORA!
"NÃO!" De repente, Harry percebeu que a sensação de vazio e os ecos tinham esaparecido de sua mente. Lembrou-se com exatidão do que estava acontecendo.
"Olhem só isso, vocês todos. Potter resistiu!" Disse Moody entre surpresa e admiração. "Vamos experimentar de novo, Potter, e vocês prestem atenção, observem os olhos dele, é onde vocês vão ver, muito bem, Potter, muito bem mesmo! Eles vão ter trabalho para controlar você!"
Todos os alunos do quarto ano haviam notado que decididamente houvera um aumento na quantidade de deveres exigida deles neste trimestre. A Professora Minerva explicou o porquê, quando a turma gemeu parricularmente alto à vista do dever de Transformação que ela passava.
"Vocês agora estão entrando numa fase importantíssima da sua educação em magia!" Disse ela, os olhos faiscando perigosamente por trás dos óculos quadrados. "O exame para obter os Níveis Ordinários de Magia estão se aproximando."
"Mas não vamos fazer exames de nivelamento até a quinta série!" Exclamou Dino indignado.
"Talvez não, senhor Thomas, mas, acredite, vocês precisam de toda a preparação que puderem obter! A Senhorita Granger e o senhor Draco Weasley foram os únicos desta turma que conseguiram transformar um porco-espinho em uma almofadinha de alfinetes razoável. Eu talvez possa lhe lembrar, senhor Thomas, que a sua almofadinha ainda se encolhe de medo quando alguém se aproxima dela com um alfinete!"
Hermione, que tornara a corar, parecia estar fazendo um esforço para não parecer cheia de si demais. Já Draco, sorria de lado de forma pomposa.
Harry e Rony acharam muita graça quando a Professora Trelawney lhes disse que tinham tirado a nota máxima no dever da aula anterior de Adivinhação. Ela leu longos trechos das predições que eles fizeram, comentando a impassível aceitação dos horrores que os aguardavam - mas os garotos não acharam tanta graça quando ela pediu que fizessem outra projeção para dali a dois meses: eles tinham quase esgotado as ideias para catástrofes.
Entrementes, o Professor Binns, mandou-os escrever ensaios semanaís sobre a Revolta dos Duendes no século XVIII. O Professor Snape estava obrigando-os a pesquisar antídotos. A turma levou o dever a sério, porque ele insinuou que talvez envenenasse um deles antes do Natal para ver se o antídoto que encontrassem faria efeito. O Professor Flirwick lhes pedira que lessem mais três livros, em preparação para a aula de Feitiços Convocatórios. E até Hagrid aumentara a carga de trabalho de seus alunos. Os explosivins estavam crescendo em um ritmo excepcional, dado que ninguém ainda descobrira o que comiam. Hagrid estava encantado e, como parte da "pesquisa", sugeriu que fossem à sua cabana em noites alternadas para observar os bichos e tomar notas sobre o seu extraordinário comportamento.
"Eu não vou." Disse Blaise com indiferença, quando o professor fez essa proposta com ar de Papai Noel tirando um brinquedo muito vistoso do saco. "Já vejo o bastante dessas nojeiras durante as aulas, obrigado."
O sorriso desapareceu do rosto de Hagrid.
"Você vai fazer o que mando" Rosnou ele. "ou vou arrancar uma folha do livro do Professor Moody. Ouvi falar que você ficou muito bem de castor, senhor Blaise."
Os alunos da Grifinória deram grandes gargalhadas. O sonserino enrubesceu de raiva mas, pelo visto, a lembrança do castigo de Moody ainda era suficientemente dolorosa para impedi-lo de responder. Draco, Harry, Rony e Hermione voltaram para o castelo no fim da aula, muito animados; ver Hagrid desmoralizar Zabini era particularmente gostoso porque, no ano anterior, o garoto se esforçara o máximo para fazer com que Hagrid fosse despedido.
Quando chegaram ao saguão de entrada, viram-se impedidos de prosseguir pela aglomeração de alunos que havia ali, em torno de um grande aviso afixado ao pé da escadaria de mármore. Rony, o mais alto dos três, ficou nas pontas dos pés para ver por cima das cabeças à sua frente e ler o aviso em voz alta para os outros três.
TORNEIO TRIBRUXO
As delegações de Beauxbatons e Durmstrang chegarão às seis horas, sexta-feira, 30 de outubro. As aulas terminarão uma hora antes...
"Genial!" Exclamou Simas ao lado do ruivo. "É Poções a última aula de sextafeira! Snape não terá tempo de envenenar todos nós!"
...Os alunos deverão guardar as mochilas e livros em seus dormitórios e se reunir na entrada do castelo para receber os nossos hóspedes antes da Festa de Boas- Vindas.
"É daqui a uma semana!" Exclamou Ernesto MacMillan da Lufa-Lufa, saindo da aglomeração, os olhos brilhando. "Será que o Cedrico sabe? Acho que vou avisar a ele."
"Cedrico?" Repetiu Rony sem entender, enquanto Ernesto saía apressado.
"Diggory." Disse Draco. "Ele deve estar inscrito no torneio."
"Aquele idiota, campeão de Hogwarts?" Disse Rony, quando abriam caminho pelo ajuntamento de alunos para chegar à escadaria.
"Ele não é idiota, você simplesmente não gosta dele porque ele derrotou a Grifinória no quadribol." Disse Hermione. "Ouvi falar que é realmente um bom aluno, e é monitor!"
Ela falou isso como se encerrasse a questão.
"Você só gosta dele porque acha ele bonito." Respondeu Rony com desdém.
"Perdão, eu não gosto de pessoas só porque acho elas bonitas!" Retrucou Hermione indignada.
Rony fingiu que pigarreava alto, um som que estranhamente lembrava "Lockhart!". A afixação do aviso no saguão de entrada teve um efeito sensível nos moradores do castelo. Durante a semana seguinte, parecia haver um assunto nas conversas, onde quer que Harry fosse: o Torneio Tribruxo. Os boatos voavam de um aluno para outro como um germe excepcionalmente contagioso: quem ia tentar ser o campeão de Hogwarts, que é que o torneio exigia, e em que os alunos de Beauxbarons e Durmstrang se diferenciavam deles.
Harry notou, também, que o castelo estava sofrendo uma faxina mais do que rigorosa. Vários retratos encardidos tinham sido escovados para descontentamento dos retratados, que se sentavam encolhidos nas molduras, resmungando sombriamente e fazendo caretas ao apalpar os rostos vermelhos. As armaduras de repente brilhavam e mexiam sem ranger e, Filch estava agindo com tanta agressividade com os alunos que se esquecessem de limpar os sapatos que aterrorizou duas garotas do primeiro ano levando-as à histeria.
Outros funcionários também pareciam estranhamente tensos.
Em uma noite anormal, após terminar uma longa redação para a aula de Feitiços, Harry, coberto pela Capa da Invisibilidade, praticamente atravessou o castelo até o gabinete de Severus. Havia recebido uma carta de sua mãe com apenas uma data, um horário e local. Já imaginava o que seria e passou a semana preparando-se psicologicamente.
"Sua mãe o aguarda." Disse o professor logo que fechou a porta atrás do moreno.
"Não fiquei acordada dias e noites por você para ouvir através de Remus sobre sua cicatriz!" Acusou Narcisa, da lareira. Apenas sua cabeça aparecia. "E você ainda consulta à Sirius sobre o significado dos sonhos?!"
"Sinto muito." Disse rapidamente. "Eu não queria preocupar a senhora ou meu pai. E eu disse à Sirius sobre a cicatriz. Não a Remus." Defendeu-se.
"Obviamente que ele diria ao Lupin. Não importa. Eu deveria ter sido informada disso logo que ocorreu. Estou totalmente desgostosa, Harry! E preocupada, claro!"
"Não se exalte, Narcisa." Pediu Severus de algum lugar atrás de Harry. "O garoto está bem." Completou. A matriarca suspirou pesadamente.
"Quero que me conte sobre essas coisas, Harry. Não pode esconder de mim algo tão importante."
"Sinto muito." Repetiu culpadamente.
"Muito bem. Conte-me tudo." E sem pensar, o garoto contou o sonho que tivera, falou sobre as aulas, o acúmulo de deveres que os professores estavam passando ("Eu deveria diminuir sua nota", murmurou Severus fazendo Narcisa e Harry sorrirem divertidos) e sobre o Torneio.
"E Lucius?"
Por um milésimo de segundo, o sorriso dela tremeu, mas antes que Harry pudesse perguntar qualquer coisa, a resposta veio.
"Ele precisa ir, Narcisa." Lembrou Severus sentado à sua mesa, corrigindo alguns trabalhos do sexto ano.
"Muito trabalho. Ainda nas investigações do que ocorreu na Copa." Respondeu, por fim, forçando um sorriso. "Preciso ir, querido. Mande lembranças aos seus amigos." Harry sabia que as lembranças eram principalmente à Draco. "Severus, cuidado com minha criança." Sibilou.
"Quarto ano e ainda vivo." Grunhiu.
"Até mais, querido. Pedirei a um dos elfos para enviar-lhe alguns biscoitos e cachecóis."
"Senhor Longbottom, tenha a bondade de não revelar que você não consegue sequer lançar um simples Feitiço de Troca diante de alguém de Durmstrang!" Vociferou Minerva ao fim de uma aula particularmente difícil, em que Neville acidentalmente transplantara as próprias orelhas para um cacto.
Quando eles desceram para o café na manhã do dia 30 de outubro, descobriram que o Salão Principal fora ornamentado durante a noite. Grandes bandeiras de seda pendiam das paredes, cada uma representando uma casa de Hogwarts. Por trás da mesa dos professores, a maior bandeira de todas tinha o brasão de Hogwarts: leão, águia, texugo e serpente unidos em torno de uma grande letra "H".
Harry buscou por Draco na mesa sonserina e quando seus olhares se encontraram, o louro pareceu mais relaxado e acenou brevemente ao moreno que acenou de volta. Harry então voltou sua atenção a Rony e Hermione, e foi quando viram Fred e George à mesa da Grifinória. Mais uma vez, e muito anormalmente, os dois estavam sentados à parte dos demais e conversavam em voz baixa. Rony se encaminhou para os dois.
"É chato, sim." Dizia George sombriamente a Fred. "Mas se ele não quer falar conosco pessoalmente, temos que lhe mandar uma carta. Ou enfiá-la na mão dele, ele não pode ficar nos evitando pra sempre."
"Quem é que está evitando vocês?" Perguntou Rony, sentando-se ao lado deles.
"Gostaria que fosse você." Disse Fred, mostrando-se irritado com a interrupção.
"Quem é que é chato?" Perguntou Rony a George.
"Ter um babaca metido feito você como irmão." Disse George.
"Vocês já tiveram alguma idéia para o Torneio Tribruxo?" Perguntou Harry. "Continuaram pensando como vão tentar se inscrever?"
"Perguntei a McGonagall como é que os campeões são escolhidos mas ela não quis dizer." Respondeu Jorge com amargura. "Só me disse para calar a boca e continuar transformando o meu racun."
"Fico imaginando quais vão ser as tarefas." Disse Rony pensativo. "Sabe, aposto que poderíamos dar conta, Harry e eu já fizemos coisas perigosas antes."
"Não na frente de uma banca de juizes, isso vocês não fizeram." Disse Fred. " McGonagall disse que os campeões recebem pontos pela perfeição com que executam as tarefas."
"Quem são os juizes?" Perguntou Harry.
"Os diretores das escolas participantes sempre fazem parte da banca." Disse Hermione e todos a olharam surpresos. Ela notou que todos a olhavam e disse, com o seu costumeiro ar de impaciência quando via que ninguém mais lera os mesmos livros que ela. "Está tudo em Hogwarts: uma história. Embora, é claro, esse livro não seja cem por cento confiável. Uma história revista de Hogwarts seria um título mais preciso. Ou, então, Uma história seletiva e muito parcial de Hogwarts, que aborda brevemente os aspectos mais desfavoráveis da escola."
"Do que é que você está falando?" Perguntou Rony, embora Harry soubesse o que vinha pela frente.
"Elfos domésticos!" Disse Hermione em voz alta, comprovando que Harry acertara. "Nem uma vez, em mais de mil páginas, Hogwarts: uma história menciona que somos todos coniventes na opressão de centenas de escravos!"
Harry sacudiu a cabeça e se concentrou nos ovos mexidos. A falta de entusiasmo dele, Draco e de Rony não conseguiu refrear a decisão de Hermione de obter justiça para os elfos domésticos. Era verdade que eles tinham pago os dois sicles pelo distintivo do F.A.L.E., mas só o tinham feito para fazê-la calar-se. Os sicles, no entanto, tinham sido gastos em vão; se produziram algum efeito foi o de tornar Hermione ainda mais vociferante. A garota andava atormentando os três desde então, primeiro para usarem o distintivo, depois para persuadirem outros a fazer o mesmo, e ela também passara a caminhar pela sala comunal da Grifinória todas as noites, encostando os colegas na parede e sacudindo a latinha de coleta debaixo do nariz deles.
"Vocês têm consciência de que os seus lençóis são trocados, as lareiras, acesas, as salas de aula limpas e a comida preparada por um grupo de criaturas mágicas que não recebem salário e são escravizadas?" Ela não parava de lembrar a todos com veemência.
Alguns colegas, como Neville, tinham pago só para Hermione parar de fazer cara feia para eles. Alguns pareceram ligeiramente interessados no que a garota tinha a dizer, mas relutavam a assumir um papel mais ativo no movimento. Muitos encaravam a coisa toda como piada.
Rony agora contemplou o teto, que banhava a todos com um sol de outono e Fred fingiu-se extremamente interessado no bacon que havia em seu prato (os gêmeos tinham se recusado a comprar um distintivo do F.A.L.E.). George, no entanto, chegou para mais perto de Hermione.
"Escuta aqui, Mione, você já foi à cozinha?"
"Não, claro que não." Respondeu a garota secamente. "Nem posso imaginar que os alunos devam"
"Bom, nós já fomos." Disse George, indicando Fred. "Várias vezes para afanar comida. E encontramos os elfos e eles estão felizes. Acham que têm o melhor emprego do mundo."
"E porque eles não têm instrução e sofrem lavagem cerebral!" Começou Hermione acaloradamente, mas suas palavras seguintes foram abafadas pelo ruído de asas que vinha do alto anunciando a chegada das corujas com o correio.
Harry ergueu os olhos e, na mesma hora, avistou Edwiges que voava em sua direção. Hermione parou de falar abruptamente; Draco, atento do outro lado do salão, Hermione e Rony observaram a coruja, ansiosos, enquanto a ave batia as asas rapidamente para descer e pousar no ombro do moreno, depois fechou-as e estendeu a perna, cansada. Harry desamarrou a resposta de Remus e ofereceu a Edwiges suas aparas de bacon, que ela comeu, grata. Então, verificando que os gêmeos estavam absortos em novas discussões sobre o Torneio Tribruxo. Harry leu a carta, silenciosamente, sorrindo ao perceber tratar-se da letra do seu padrinho. Ao terminar, passou o papel para Rony e Hermione.
Sinto informar que seus pais já sabem. Deve imaginar a ira deles. Por sorte, Remus quem deu a notícia. Ele sabe acalmar as pessoas ao mesmo tempo em que informa as notícias mais chocantes. Ele quem disse a Prongs que Lily estava grávida. Não se preocupe conosco, Harry. Estamos bem, mas trate de evitar problemas. Mantenha-nos informados sobre tudo que acontece em Hogwarts. E sugiro não contatar seu pai nos próximos dias.
Harry enrolou a carta e guardou-a dentro das vestes, se perguntando se estaria se sentindo mais ou menos preocupado do que antes. Ao menos já havia contatado Narcisa.
"Obrigado, Edwiges." Disse, acariciando-a. Ela piou sonolenta, meteu o bico rapidamente no cálice de suco de laranja do garoto, depois tornou a levantar vôo, visivelmente desesperada para tirar um longo sono no corujal.
Havia uma sensação de agradável expectativa no ar aquele dia. Ninguém prestou muita atenção às aulas, pois estavam bem mais interessados na chegada das comitivas de Beauxbatons e Durmsrrang à noite; até Poções foi mais tolerável do que de costume, porque durou meia hora a menos. Quando a sineta tocou mais cedo, Harry, Rony e Hermione subiram depressa para a Torre da Grifinória, largaram as mochilas e os livros, conforme as instruções que tinham recebido, vestiram as capas e desceram correndo para o saguão de entrada. Os diretores das Casas estavam organizando os alunos em filas.
"Senhor Weasley, endireite o chapéu." Disse Minerva secamente a Rony. "Senhorita Patil,tire essa coisa ridícula dos cabelos." Parvati fez cara feia e retirou o enorme enfeite de borboleta da ponta da trança. "Sigam-me, por favor." Mandou.
Eles desceram os degraus da entrada e se enfileiraram diante do castelo. Fazia um fim de tarde frio e límpido; o crepúsculo vinha chegando devagarinho, uma lua pálida e transparente já brilhava sobre a Floresta Proibida. Harry, postado entre Rony e Hermione na quarta fileira da frente para trás, viu Dênis Creevey decididamente trêmulo de expectativa entre os colegas da primeira série. Olhou para a fila da Sonserina; Severus parecia uma estátua, quase não sendo possível perceber que respirava, totalmente atento a qualquer aproximação de umas das delegações. Percorreu os estudantes e viu Draco o fitando de volta, parecendo divertido e, ao mesmo tempo, entediado.
E então Dumbledore falou em voz alta da última fileira, onde aguardava com os outros professores:
"Aha! A não ser que eu muito me engane, a delegação de Beauxbatons está chegando!"
Alguma coisa grande, muito maior do que uma vassoura - ou, na verdade, cem vassouras -, voava em alta velocidade pelo céu azul-escuro em direção ao castelo, e se tornava cada vez maior.
"É um dragão!" Gritou esganiçada uma aluna da primeira série, perdendo completamente a cabeça.
"Deixa de ser burra... é uma casa voadora!" Disse Dênis.
O palpite de Dênis estava mais próximo. Quando a sombra gigantesca e escura sobrevoou as copas das árvores da Floresta Proibida, e as luzes que brilhavam nas janelas do castelo a iluminaram, eles viram uma enorme carruagem azul clara do tamanho de um casarão, que voava para eles, puxada por doze cavalos alados, todos baios, cada um parecendo um elefante de tão grande.
As três primeiras fileiras de alunos recuaram quando a carruagem foi baixando para pousar a uma velocidade fantástica - então, com um baque estrondoso que fez Neville saltar para trás e pisar no pé de um aluno da quinta série -, os cascos dos cavalos, maiores que pratos, bateram no chão. Um segundo mais tarde, a carruagem também pousou, balançando sobre as imensas rodas, enquanto os cavalos dourados agitavam as cabeçorras e reviravam
os grandes olhos cor de fogo.
Harry só teve tempo de ver que a porta da carruagem tinha um brasão (duas varinhas cruzadas, e de cada uma saíam três estrelas) antes que ela se abrisse. Um garoto de vestes azul-claras saltou da carruagem, curvado para a frente, mexeu por um momento em alguma coisa que havia no chão da carruagem e abriu uma escadinha de ouro. Em seguida, recuou respeitosamente. Então Harry viu um sapato preto e lustroso sair de dentro da carruagem - um sapato do tamanho de um trenó de criança - acompanhado, quase imediatamente, pela maior mulher que ele já vira na vida. O tamanho da carruagem e dos cavalos ficou imediatamente explicado. Algumas pessoas exclamaram.
Harry só vira, até então, uma pessoa tão grande quanto essa mulher: Hagrid; ele duvidou que houvesse dois centímetros de diferença na altura dos dois. Mas, por alguma razão - talvez simplesmente porque estava habituado a Hagrid -, esta mulher (agora ao pé da escada, que olhava para as pessoas que a esperavam de olhos arregalados) parecia ainda mais anormalmente grande.
Ao entrar no círculo de luz projetado pelo saguão de entrada, ela revelou um rosto bonito de pele morena, grandes olhos negros que pareciam líquidos e um nariz um tanto bicudo. Seus cabelos estavam puxados para trás e presos em um coque na nuca. Vestia-se da cabeça aos pés de cetim negro, e brilhavam numerosas opalas em seu pescoço e nos dedos grossos. Dumbledore começou a aplaudir; os estudantes, acompanhando a deixa, prorromperam em palmas, muitos deles nas pontas dos pés, para poder ver melhor a mulher.
O rosto dela se descontraiu em um gracioso sorriso e ela se dirigiu a Dumbledore, estendendo a mão faiscante de anéis. O diretor, embora alto, mal precisou se curvar para beijar-lhe a mão.
"Minha cara, Madame Maxime." Disse. "Bem-vinda a Hogwarts."
"Dumbly-dorr." Disse Madame Maxime, com uma voz grave. "Esperro encontrrá-lo de boa saúde."
"Excelente, obrigado."
"Meus alunos." Disse Madame Maxime, acenando descuidadamente uma de suas enormes mãos para trás.
Harry, cuja atenção estivera focalizada inteiramente em Madame Maxime, reparou, então, que uns doze garotos e garotas - todos, pelo físico, no fim da adolescência - haviam descido da carruagem e agora estavam parados atrás de Madame Maxime. Eles tremiam de frio, o que não surpreendia, pois suas vestes eram feitas de finissima seda e nenhum deles usava capa. Alguns tinham enrolado echarpes e xales na cabeça. Pelo que Harry pôde ver de seus rostos (estavam à enorme sombra de sua diretora), eles olhavam para o castelo, com uma expressão apreensiva.
"Karrkarroff já chegou?" Perguntou Madame Maxime.
"Deve estar aqui a qualquer momento." Disse Dumbledore. "Gostaria de esperar aqui para recebê-lo ou prefere entrar para se aquecer um pouco?"
"Me aquecerr, acho. Mas os cavalos..."
"O nosso professor de Trato das Criaturas Mágicas ficará encantado de cuidar deles." Disse Dumbledore.
"Meus corrcéis ecsigem... hum... um trratadorr forrte." Disse Madame Maxime, com uma expressão de dúvida quanto à capacidade de um professor de Trato das Criaturas Mágicas em Hogwarts para dar conta da tarefa.
"Posso lhe assegurar que Hagrid poderá cuidar da tarefa." Disse o diretor, sorrindo.
"Ótimo." Disse Madame Maxime, fazendo uma ligeira reverência. "Por favorrr inforrrme a esse Agrid que os cavalos só bebem uísque de um malte."
"Farei isso." Respondeu Dumbledore, retribuindo a reverência.
"Venham." Disse Madame Maxime imperiosamente aos seus alunos e o pessoal de Hogwarts se afastou para deixá-los subir os degraus de pedra.
Eles continuaram parados, agora tremendo um pouco de frio, à espera da delegação de Durmstrang. A maioria das pessoas contemplava o céu, esperançosa. Durante alguns minutos, o silêncio só foi interrompido pelos cavalões de Madame Maxime que resfolegavam e pateavam. Mas então...
"Vocês estão ouvindo alguma coisa?" Perguntou Rony de repente.
Harry prestou atenção; um barulho alto e estranho chegava até eles através da escuridão; um ronco abafado mesclado a um ruído de sucção, como se um imenso aspirador de pó estivesse se deslocando pelo leito de um rio...
"O lago!" Berrou Lino apontando. "Olhem para o lago!"
De sua posição, no alto dos gramados, de onde descortinavam a propriedade, eles tinham uma visão desimpedida da superficie escura e lisa da água – exceto que ela repentinamente deixara de ser lisa. Ocorria alguma perturbação no fundo do lago; grandes bolhas se formavam no centro, e suas ondas agora quebravam nas margens de terra - e então, bem no meio do lago, apareceu um rodamoinho, como se alguém tivesse retirado uma tampa gigantesca do seu leito. Algo que parecia um pau comprido e preto começou a emergir
lentamente do rodamoinho, e então Harry avistou o velame.
"É um mastro!" Disse Hermione.
Lenta e imponentemente o navio saiu das águas, refulgindo ao luar. Tinha uma estranha aparência esquelética, como se tivesse ressuscitado de um naufrágio, e as luzes fracas e enevoadas que brilhavam nas escotilhas lembravam olhos fantasmagóricos. Finalmente, com uma grande espalhação de água, o navio emergiu inteiramente, balançando nas águas turbulentas, e começou a deslizar para a margem.
Alguns momentos depois, ouviram a âncora ser atirada na água rasa e o baque surdo de um pranchão ao ser baixado sobre a margem. Havia gente desembarcando, os garotos viram silhuetas passarem pelas luzes das escotilhas. Os recém-chegados pareciam ter físicos semelhantes aos de Crabbe e Goyle, mas então, quando subiram as encostas dos jardins e chegaram mais próximos à luz que saía do saguão de entrada, Harry viu que aquela aparência maciça se devia às capas de peles de fios longos e despenteados que estavam usando. Mas o homem que os conduzia ao castelo usava peles de um outro tipo; sedosas e prateadas como os seus cabelos.
"Dumbledore!" Cumprimentou ele cordialmente, ainda subindo a encosta. "Como vai, meu caro, como vai?"
"Otimamente, obrigado, Professor Karkaroff."
O homem tinha uma voz ao mesmo tempo engraçada e untuosa; quando ele entrou no círculo de luz das portas do castelo, os garotos viram que era alto e magro como Dumbledore, mas seus cabelos brancos eram curtos, e a barbicha (que terminava em um cachinho) não escondia inteiramente o seu queixo fraco. Quando alcançou Dumbledore, apertou-lhe a mão com as suas duas.
"Minha velha e querida Hogwarts!" Exclamou, erguendo os olhos para o castelo e sorrindo; seus dentes eram um tanto amarelados, e Harry reparou que seu sorriso não abrangia os olhos, que permaneciam frios e astutos. "Como é bom estar aqui, como é bom... Vítor, venha, venha para o calor... você não se importa, Dumbledore? Vítor está com um ligeiro resfriado." Karkaroff fez sinal para um de seus estudantes avançar. Quando o rapaz passou, Harry viu de relance um nariz grande e curvo e sobrancelhas escuras e espessas. Não precisava do soco que Rony lhe deu no braço, nem do cochicho na orelha para reconhecer aquele perfil.
"Harry, é o Krum!"
Quando eles atravessaram o saguão com os demais alunos de Hogwarts, a caminho do Salão Principal, Harry viu um aluno do sexto ano pulando nas pontas dos pés para conseguir ver melhor a nuca de Krum. Várias garotas do sexto ano apalpavam freneticamente os bolsos enquanto andavam:
"Ah, não acredito, não trouxe uma única pena comigo. Você acha que ele assinaria o meu chapéu com batom?"
"Francamente!" Exclamou Hermione com ar de superioridade, ao passarem pelas garotas, agora disputando o batom.
"Vou pedir um autógrafo a ele se puder." Disse Rony. "Você tem uma pena, Harry?"
"Não, deixei todas lá em cima na mochila." Respondeu Harry.
Os garotos se dirigiram à mesa da Grifinória e se sentaram. Rony tomou o cuidado de se sentar de frente para a porta, porque Krum e seus colegas de Durmstrang ainda estavam parados ali, aparentemente sem saber onde se sentar. Os alunos de Beauxbaons tinham escolhido lugares à mesa da Corvinal. Corriam os olhos pelo Salão Principal com uma expressão triste no rosto. Três deles ainda seguravam as echarpes e xales que cobriam a cabeça.
"Não está fazendo tanto frio assim." Comentou Hermione que os observava, irritada. "Por que não trouxeram as capas?"
"Aqui! Venham se sentar aqui!" Sibilou Rony. "Aqui! Mione chega para lá, abre um espaço... Tarde demais." Disse Rony com amargura.
Vítor Krum e os colegas de Durmstrang tinham se acomodado à mesa da Sonserina. Harry viu que Blaise, Pansy, Crabbe e Goyle pareciam muito cheios de si com o garoto observava, Zabini se curvou para falar com Krum.
"É, vai fundo, puxa o saco dele." Disse Rony com desdém. "Mas, aposto como o Krum está percebendo o jogo dele... aposto como tem gente adulando ele o tempo todo... onde é que você acha que eles vão dormir? Poderíamos oferecer um lugar no nosso dormitório, Harry... eu não me importaria de ceder a minha cama, e poderia dormir em uma cama de armar."
Hermione deu uma risadinha desdenhosa.
"Eles parecem bem mais felizes que o pessoal da Beauxbarons." Disse Harry.
Os alunos de Durmsrrang estavam despindo os pesados casacos de peles e olhand para o teto escuro e estrelado com expressões de interesse; uns dois seguravam os pratos e taças de ouro e examinavam-nos, aparentemente impressionados.
Na mesa dos funcionários, Filch, o zelador, acrescentava cadeiras. Estava usando a velha casaca mofada em homenagem à ocasião. Harry ficou surpreso de ver que ele acrescentara duas cadeiras de cada lado de Dumbledore.
"Mas só tem mais duas pessoas." Disse Harry. Por que Filch está colocando mais quatro cadeiras? Quem mais vem?"
Depois que todos os estudantes tinham entrado no salão e sentado às mesas das Casas, vieram os professores, que se dirigiram à mesa principal e se sentaram. Os últimos da fila foram Dumbledore, Karkaroff e Madame Maxime. Quando a diretora apareceu, os alunos de Beauxbatons se levantaram imediatamente. Alguns alunos de Hogwarts riram. A delegação de Beauxbatons não pareceu se constranger nem um pouco e não tornou a se sentar até que Madame Maxime estivesse acomodada do lado esquerdo de Dumbledore. Este, porém, continuou em pé e o Salão Principal ficou silencioso.
"Boa-noite, senhoras e senhores, fantasmas e, muito especialmente, hóspedes." Disse Dumbledore sorrindo para os alunos estrangeiros. "Tenho o prazer de dar as boas-vindas a todos. Espero e confio que sua estada aqui seja confortável e prazerosa."
De alguma forma o Salão Principal parecia muito mais cheio do que de costume, ainda que só houvesse umas vinte pessoas a mais ali; talvez porque os uniformes de cores diferentes se destacassem tão claramente contra o preto das vestes de Hogwarts. Agora que tinham despido as peles, os alunos de Durmstrang deixavam ver que usavam vestes de um intenso vermelho-sangue.
Vinte minutos depois do início do banquete, Hagrid entrou discretamente pela porta atrás da mesa dos funcionários. Deslizou para sua cadeira na ponta da mesa e acenou para Harry, Rony e Hermione com a mão coberta de ataduras.
"Os explosivins estão passando bem, Hagrid?" Perguntou Harry.
"Otimamente." Respondeu ele animado.
"É, aposto que estão." Disse Rony em voz baixa logo que o meio gigante se afastou. "Parece que finalmente encontraram a comida que gostam, não? Os dedos de Hagrid."
Naquele instante, ouviram uma voz:
"Com licença, vocês von querrer a boujilabaisse?" Era uma garota de Beauxbatons. Finalmente retirara o xale. Uma longa cascata de cabelos louro-prateados caía quase até sua cintura. Tinha grandes olhos azul-profundos e dentes muito brancos e iguais. Rony ficou púrpura. Olhou para a garota, abriu a boca para responder, mas não saiu nada a não ser um fraco gargarejo.
"Pode levar." Respondeu Harry, empurrando a terrina para a garota.
"Vocês já se serrvirram?"
"Já." Disse Rony sem fôlego. "Estava excelente."
A garota apanhou a terrina e levou-a cuidadosamente até a mesa da Corvinal. Rony continuou com os olhos grudados nela como se nunca tivesse visto uma garota na vida. Harry começou a rir. O som das risadas pareceu sacudir Rony daquele transe.
"É uma veela." Explicou Harry divertido com a cara de bobo do ruivo.
"Não quero nem imaginar como será até o final do Torneio." Disse Hermione pesarosa. "Oh. Os outros dois convidados chegaram." Apontou para a mesa dos funcionários.
As duas cadeiras que estavam vazias acabavam de ser ocupadas. Ludo Bagman sentou-se agora do outro lado do Professor Karkaroff enquanto o Senhor Crouch ficou ao lado de Madame Maxime.
Quando o segundo prato chegou, os garotos repararam que havia diversos pudins desconhecidos, também. Rony examinou um tipo esquisito de manjar branco mais atentamente, depois deslocou-o com cuidado alguns centímetros para a direita, de modo a deixá-lo bem visível para os convidados à mesa da Corvinal. Mas a garota que lembrava uma veela parecia ter comido o suficiente e não veio até a mesa apanhá-lo.
Depois que os pratos de ouro foram limpos, Dumbledore se levantou mais uma vez. Neste momento, uma agradável tensão pareceu invadir o salão. Harry sentiu um tremor de excitação só de imaginar o que viria a seguir. A algumas cadeiras de distância, Fred e Jorge se curvaram para a frente, observando Dumbledore com grande concentração.
"Chegou o momento." Disse Dumbledore, sorrindo para o mar de rostos erguidos. "O Torneio Tribruxo vai começar. Eu gostaria de dizer algumas palavras de explicação antes de mandar trazer o escrínio. Primeiramente gostaria de apresentar àqueles que ainda não os conhecem o Senhor Barrolomeu Crouch, Chefe do Departamento de Cooperação Internacional em Magia - houve vagos e educados aplausos -, e o Senhor Ludo Bagman, Chefe do Departamento de Jogos e Esportes Mágicos."
Houve uma rodada mais ruidosa de aplausos para Bagman do que para Crouch, talvez por sua fama de batedor ou simplesmente porque ele parecia muito mais simpático. Ele agradeceu com um aceno jovial. Bartolomeu Crouch não sorriu nem acenou quando seu nome foi anunciado.
"O escrínio, então, por favor, Senhor Filch." Filch, que andara rondando despercebido um extremo do salão, se aproximou então de Dumbledore, trazendo uma arca de madeira, incrustada de pedras preciosas. Tinha uma aparência extremamente antiga. Um murmúrio de interesse se elevou das mesas dos alunos; Dênis chegou a subir na cadeira para ver direito mas, por ser tão miúdo, sua cabeça mal ultrapassou a dos outros. "As instruções para as tarefas que os campeões deverão enfrentar este ano já foram examinadas pelos Senhores Crouch e Bagman." Disse Dumbledore, enquanto Filch depositava a arca cuidadosamente na mesa à frente do diretor. "E eles tomaram as providências necessárias para cada desafio. Haverá três tarefas, espaçadas durante o ano letivo, que servirão para testar os campeões de diferentes maneiras. Sua perícia em magia, sua coragem, seus poderes de dedução e, aturalmente, sua capacidade de enfrentar o perigo." A esta última palavra, o salão ergulhou num silêncio tão absoluto que ninguém parecia estar respirando.
"Como todos sabem, três campeões competem no torneio ." Continuou Dumbledore calmamente. "Um de cada escola. Eles receberão notas por seu desempenho em cada uma das tarefas do torneio e aquele que tiver obtido o maior resultado no final da terceira tarefa ganhará a Taça Tribruxo. Os campeões serão escolhidos por um juiz imparcial, o Cálice de Fogo." Dumbledore puxou então sua varinha e deu três pancadas leves na tampa do scrínio.
A tampa se abriu lentamente com um rangido. O bruxo enfiou a mão nele e tirou um grande cálice de madeira toscamente talhado. Teria sido considerado totalmente comum se não estivesse cheio até a borda com chamas branco-azuladas, que davam a impressão de dançar.
Dumbledore fechou op escrínio e pousou cuidadosamente o cálice sobre a tampa, onde seria visível a todos no salão.
"Quem quiser se candidatar a campeão deve escrever seu nome e escola claramente em um pedaço de pergaminho e depositá-lo no cálice." Disse Dumbledore. "Os candidatos terão vinte e quatro horas para apresentar seus nomes. Amanhã à noite, Festa das Brúxas, o cálice devolverá o nome dos três que ele julgou mais dignos de representar suas escolas. O cálice será colocado no saguão de entrada hoje à noite, onde estará perfeitamente acessível a todos que queiram competir."
"Para garantir que nenhum aluno menor de idade ceda à tentação", continuou Dumbledore, "traçarei uma linha etária em volta do Cálice de Fogo depois que ele for colocado no saguão. Ninguém com menos de dezessete anos conseguirá atravessar a linha. E, finalmente, gostaria de incutir nos que querem competir, que ninguém deve se inscrever neste torneio levianamente. Uma vez escolhido pelo Cálice de Fogo, o campeão ficará obrigado a prosseguir até o final do torneio. Colocar o nome no cálice é um ato contratual mágico. Não pode haver mudança de idéia, uma vez que a pessoa se torne campeã. Portanto, procurem se certificar de que estão preparados de corpo e alma para competir, antes de depositar seu nome no cálice. Agora, acho que já está na hora de irmos nos deitar. Boa-noite a todos."
"Uma linha etária!" Exclamou Fred, os olhos brilhando, enquanto atravessavam o salão rumo às portas que se abriam para o saguão de entrada.
"Bom, isso deve ser contornável com uma Poção para Envelhecer, não? E depois que o nome estiver no cálice, a gente vai ficar rindo, ele não vai saber dizer se você tem ou não dezessete anos!" Continuou George.
"Mas eu acho que ninguém abaixo de dezessete anos terá a menor chance." Disse Hermione. "Ainda não aprendemos o suficiente."
"Fale por você." Disse George rispidamente. "Você vai tentar entrar, não vai, Harry?"
Harry pensou brevemente na insistência de Dumbledore de que nenhum menor de dezessete anos submetesse o nome, mas então a maravilhosa visão de si mesmo ganhando a Taça Tribruxo invadiu mais uma vez sua mente. Ele pensou no quanto Dumbledore ficaria zangado se algum menor de dezessete anos descobrisse uma maneira de atravessar a linha etária.
Você teria problemas bem maiores com Lucius, uma vozinha na sua cabeça disse, uma vozinha muito parecida com a de Remus.
"Onde está ele?" Perguntou Rony, que não estava ouvindo uma só palavra dessa conversa, e examinava a aglomeração de alunos para ver que fim levara Krum. - Dumbledore não disse onde o pessoal de Durmstrang vai dormir, disse?
Mas sua pergunta foi respondida quase instantaneamente; os garotos estavam passando pela mesa da Sonserina naquele momento, para se juntarem a Draco, e Karkaroff se apressava em chegar aos seus alunos.
"Voltamos ao navio, então." Foi ele dizendo. "Vítor, como é que você está se sentindo? Comeu o suficiente? Devo mandar buscar um pouco de quentão na cozinha?"
Harry viu Krum sacudir negativamente a cabeça e tornar a vestir as peles.
"Professor, eu gostaria de beber um pouco de vinho." Disse outro garoto de
Durmstrang esperançoso.
"Eu não ofereci a você, Poliakoff." Retorquiu Karkaroff, seu caloroso ar paternal desaparecendo instantaneamente. "Vejo que derramou comida nas vestes outra vez, moleque porcalhão." Karkaroff lhe deu as costas e conduziu os alunos para fora, chegando à porta no mesmo momento que Draco, Harry, Rony e Hermione.
Harry parou para deixá-lo passar primeiro.
"Obrigado." Disse Karkaroff, olhando distraído para o garoto.
E então o bruxo estacou. Tornou a virar a cabeça para Harry e encarou-o como se não pudesse acreditar no que via. Atrás do diretor, os alunos de Durmstrang pararam também. Os olhos de Karkaroff percorreram lentamente o rosto de Harry e se detiveram na cicatriz. Os alunos de Durmstrang miraram Harry cheios de curiosidade, também. Pelo canto do olho, o garoto viu que alguns faziam cara de terem finalmente entendido. O garoto que sujara as vestes de comida cutucou uma colega ao seu lado e apontou abertamente para a testa de Harry.
"É, é o Harry Potter, sim." Disse alguém com um rosnado às costas deles.
O Professor Karkaroff virou-se completamente. Olho-Tonto Moody se achava parado ali, apoiado pesadamente na bengala, o olho mágico encarando sem piscar o diretor de Durmsrrang. A cor se esvaiu do rosto de Karkaroff enquanto Harry observava a cena. Uma expressão terrível, em que se misturavam a fúria e o medo, perpassou o rosto do homem.
"Você!" Exclamou ele, encarando Moody como se duvidasse de que realmente o via.
"Eu." Disse Moody sério. "E a não ser que tenha alguma coisa a dizer a Potter, Karkatoff, você talvez queira continuar andando. Está bloqueando a porta." Era verdade; metade dos estudantes no salão aguardava atrás deles, espiando por cima dos ombros uns dos outros para ver o que o que estava causando o engarrafamento.
Quando Remus aparatou na Muy Antiga Casa Black, esperava encontrar um marido saudoso e um hipogrifo dorminhoco (para um bicho daquele tamanho e acostumado a liberdade, ficar preso em casa a maior parte do tempo não parecia lhe fazer a menor diferença) o esperando. Até pensou com carinho nos gritos ensurdecedores da matriarca Black.
Mas definitivamente, não esperava encontrar Lucius resumido a uma bola de arranhões, ferimentos abertos e sangue. Muito sangue no saguão de entrada. E Sirius ao lado do louro, conjurando encantamentos de cura a torto e à direita.
"Finalmente você chegou!" Exclamou o moreno entre o alívio e o desespero. "Vou me arrepender disso, mas acho que devemos chamar Snape!"
E assim, no meio da noite, um muito a contra gosto Severus foi chamado as pressas para apenas salvar a vida de seu melhor amigo. Trabalhou rápida e silenciosamente. Quando teve certeza de que poderia se ausentar do quarto em que o louro estava (um de hóspedes no segundo andar, entre muitos outros) sem que este viesse a morrer ou perder um órgão, desceu até a cozinha onde lobisomem e animago aguardavam ansiosamente.
"Então?" Perguntou Sirius logo que ouviu os passos do Mestre aproximando-se.
"Está dormindo. Perdeu muito sangue, mas, com sorte, vai sobreviver." Suspirou cansado. "O que houve?" Inquiriu olhando diretamente para Remus que, com um balançar com a cabeça, apontou para o marido. "Black?"
"Não me olhe assim. Já estava daquele jeito quando chegou. Só fiz ajuda-lo a entrar." Resmungou levemente irritado, não perdendo a troca de olhares entre Snape e Lupin. "Odeio quando fazem isso. O que foi?"
"Lucius voltou ao Círculo." Disse Remus sombriamente.
Como o dia seguinte era sábado, normalmente a maioria dos estudantes teria tomado o café da manhã mais tarde. Harry, Rony, Draco e Hermione, porém, não foram os únicos a se levantarem muito mais cedo do que costumavam nos fins de semana. Quando desceram para o saguão, viram umas vinte pessoas andando por ali, alguns comendo torrada, todos examinando o Cálice de Fogo. A peça fora colocada no centro do saguão sobre o banquinho que era usado para o Chapéu Seletor. Uma fina linha dourada fora traçada no chão, formando um círculo de uns três metros de raio.
"Alguém já depositou o nome?" Perguntou Rony, ansioso, a uma aluna do terceiro ano.
"Todo o pessoal da Durmstrang." Respondeu ela. "Mas ainda não vi ninguém de Hogwarts."
"Aposto como tem gente que depositou ontem à noite depois que fomos todos dormir." Disse Harry. "Eu teria feito isso se fosse eles. Não iria querer ninguém me olhando. E se o cálice cuspisse o meu nome de volta na hora?"
Alguém riu às costas de Harry. Ao se virar, ele viu Fred, George e Lino correndo escada abaixo, os três parecendo excitadíssimos.
"Resolvido." Disse Fred num cochicho vitorioso. "Acabamos de tomá-la."
"Quê?" Exclamou Rony.
"A Poção para Envelhecer, cabeça-de-bagre." Disse Fred.
"Uma gota cada um." Acrescentou Jorge, esfregando as mãos de alegria. "Só precisamos envelhecer alguns meses."
"Vamos dividir os mil galeões entre os três se um de nós vencer." Disse Lino, com um largo sorriso.
"Não tenho muita certeza de que isso vai dar certo." Disse Hermione em tom de aviso. "Tenho certeza de que Dumbledore terá pensado"
"Deixe-os." Cortou Draco surpreendendo a todos. "Se eles não conseguirem quebrar os feitiços para depositar um simples papel em um cálice, é porque não são dignos de concorrerem ao Torneio." E sorriu maliciosamente, coisa que mais assustou do que divertiu os demais.
"Pronto?" Perguntou Fred aos outros dois, tremendo de excitação (e sendo bem sincero, um pouco de medo de Draco). "Vamos então, eu vou primeiro."
Harry observou, fascinado, quando Fred tirou do bolso um pedaço de pergaminho com as palavras "Fred Weasley - Hogwarts". O garoto foi direto à linha e parou ali, balançando-se nas pontas dos pés como um mergulhador se preparando para um salto de quinze metros. Depois, acompanhado pelo olhar de todos que estavam no saguão, ele respirou fundo e atravessou a linha.
Por uma fração de segundo, Harry achou que a coisa dera certo. George certamente pensara o mesmo, porque soltou um berro de triunfo e correu atrás de Fred -, mas no momento seguinte, ouviram um chiado forte e os gêmeos foram arremessados para fora do círculo dourado, como bolas de golfe. Eles aterrissaram dolorosamente, a dez metros de distância no frio chão de pedra e, para piorar a situação, ouviram um forte estalo e brotaram nos dois longas barbas brancas e idênticas. O saguão de entrada ecoou de risadas. Até Fred e Jorge se riram depois de se levantarem e dar uma boa olhada nas barbas um do outro.
"Eu avisei a vocês." Disse uma voz grave e risonha, ao que todos se viraram e deram com Dumbledore saindo do Salão Principal. Ele examinou Fred e George, com os olhos cintilando. "Sugiro que os dois procurem Madame Pomfrey. Ela já está cuidando da senhorita Fawcett da Corvinal e do senhor Summers da Lufa-Lufa, que também resolveram envelhecer um pouquinho. Embora eu deva dizer que as barbas deles não são tão bonitas quanto as suas." Fred e George seguiram para a ala hospitalar acompanhados por Lino, que rolava de rir, e Harry, Draco, Rony e Hermione, também às gargalhadas, foram tomar o café da manhã.
A decoração no Salão Principal estava mudada essa manhã. Como era o Dia das Bruxas, uma nuvem de morcegos vivos esvoaçava pelo teto encantado, enquanto centenas de abóboras esculpidas riam-se em cada canto. Harry, à frente, foi até Dino e Simas, que discutiam quais alunos de Hogwarts com dezessete anos ou mais estariam se inscrevendo.
"Escutem!" Disse Hermione de repente.
As pessoas estavam aplaudindo no saguão de entrada. Todos se viraram nas cadeiras e viram Angelina Johnson entrando no salão, sorrindo meio encabulada. Uma garota alta, que jogava como artilheira no time de quadribol da Grifinória, Angelina se aproximou dos colegas, sentou-se e disse:
"Bom, está feito! Depositei o meu nome!"
"Você está brincando!" Disse Rony, parecendo impressionado.
"Então você já fez dezessete?" Perguntou Harry.
"Claro que sim. Você está vendo alguma barba?" Respondeu Rony.
"Fiz anos na semana passada." Disse Angelina.
"Fico feliz que alguém da Grifinória esteja concorrendo;" Comentou Hermione. "Espero sinceramente que você seja escolhida, Angelina!"
"Obrigada, Hermione." Agradeceu Angelina, sorrindo para ela.
"Olha só, Ronald." Disse Draco de repente. "É a sua amiga."
Os alunos de Beauxbatons entravam no castelo, vindo dos jardins, entre eles a garota veela. O pessoal aglomerado à volta do cálice se afastou para deixá-los passar, observando-os ansiosos. Madame Maxime entrou atrás dos alunos e organizou-os em fila. Um a um eles atravessaram a linha etária e depositaram seus pedaços de pergaminho nas chamas branco-azuladas. A cada nome inscrito o fogo se avermelhava e faiscava por um breve instante.
"Vamos. Ainda precisamos ir ver os explosivins." Lembrou Hermione.
Ao se aproximarem da cabana de Hagrid na orla da Floresta Proibida, o mistério do dormitório dos alunos de Beauxbatons se esclareceu. A enorme carruagem azul-clara em que haviam chegado fora estacionada a menos de duzentos metros da porta da cabana de Hagrid, e eles estavam embarcando nela. Os cavalos elefânticos que puxavam a carruagem pastavam agora em um picadeiro improvisado montado a um lado. Harry bateu na porta de Hagrid e os latidos retumbantes de Canino responderam imediatamente.
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"Até que enfim!" Saudou-os Hagrid, quando abriu a porta e viu quem batia. Achei que vocês tinham esquecido onde eu morava!"
"Estivemos realmente ocupados, Hag" Hermione começou a dizer, mas parou de chofre, encarando Hagrid, aparentemente sem saber o que dizer.
Hagrid estava usando seu melhor (e horroroso) terno de tecido marrom peludo, com uma gravata amarela e laranja. Mas isto não era o pior; ele evidentemente tentara domesticar os cabelos, usando uma grande quantidade de um produto que parecia graxa para eixo de rodas. Estavam agora alisados em dois molhos - talvez ele tivesse tentado fazer um rabo-de-cavalo como o de Gui, mas descobrira que tinha cabelo demais. O penteado realmente não combinava nadinha com Hagrid. Por um instante, Hermione mirou-o de olhos arregalados, depois, obviamente decidindo não fazer comentários disse:
"Hum, onde estão os explosivins?"
"Lá fora no canteiro de abóboras." Respondeu Hagrid alegre. "Estão ficando uns bichões, quase um metro de comprimento agora. O único problema é que começaram a se matar uns aos outros."
"Ah, não, sério?" Exclamou Hermione, lançando um olhar de censura a Rony, que olhava sem disfarçar o penteado esquisito de Hagrid, e acabara de abrir a boca para dizer alguma coisa.
"É." Disse Hagrid com tristeza. "Mas tudo bem, eles agora estão em caixas separadas. Ainda sobraram uns vinte."
"Isso é que foi sorte." Murmurou Draco, mas Hagrid não ouviu e nem percebeu a ironia.
A cabana de Hagrid tinha um único cômodo, e a um canto havia uma cama gigantesca coberta com uma colcha de retalhos. Uma mesa igualmente enorme com cadeiras ficava diante da lareira, sob uma quantidade de presuntos curados, e aves mortas que pendiam do teto. Os garotos se sentaram à mesa enquanto Hagrid preparava o chá e logo se deixaram absorver por mais uma discussão sobre o Torneio Tribruxo. Hagrid parecia tão excitado com o assunto quanto eles.
"Aguardem." Disse ele, sorrindo. Aguardem só. Vocês vão ver uma coisa que nunca viram antes. A primeira tarefa... ah, mas eu não posso contar."
"Vamos, Hagrid!" Insistiu Rony, mas ele apenas sacudiu a cabeça, rindo.
"Não quero estragar a surpresa. Mas vai ser espetacular, isso eu posso dizer. Os campeões vão ter tarefas escolhidas sob medida. Nunca pensei que ia viver para ver organizarem novamente um Torneio Tribruxo!"
Os garotos acabaram almoçando com Hagrid, embora não comessem muito - ele disse que preparara um picadínho de carne, mas quando Hermione encontrou uma garra no dela, os quatro perderam um pouco o apetite. Mas se divertiram tentando fazer Hagrid contar as tarefas que haveria no torneio, especulando quais dos inscritos seriam provavelmente escolhidos para campeões, e imaginando se Fred e George já teriam perdido as barbas.
Uma chuva leve começara a cair lá pelo meio da tarde; foi muito gostoso sentarem ao pé da lareira e escutar as gotas de chuva tamborilando de leve na janela, vendo Hagrid cerzir suas meias enquanto discutia com Hermione sobre os elfos domésticos - porque ele se recusou terminantemente a entrar para o F.A.L.E. quando a garota lhe mostrou os distintivos.
"Seria fazer a eles uma maldade, Hermione." Disse sério enquanto trabalhava com uma enorme agulha de osso enfiada com uma linha de cerzir amarela. "Faz parte da natureza deles cuidar dos seres humanos, é disso que eles gostam, entende? Você os faria infelizes se tirasse o trabalho deles e os insultaria se tentasse lhes pagar um salário."
"Mas Harry libertou o Dobby e ele foi à lua de tanta felicidade." Disse Hermione. "E ouvimos dizer que ele está exigindo salário agora!"
"Tudo bem, tem aberrações em toda espécie da natureza. Não estou dizendo que não haja elfo esquisito que aceite a liberdade, mas você jamais convenceria a maioria deles a concordar com isso, não, nada feito, Hermione."
Hermione pareceu ficar realmente contrariada e guardou a caixa de distintivos no bolso da capa. Lá pelas cinco horas começou a escurecer, e Draco, Rony, Harry e Hermione decidiram que já era hora de voltar ao castelo para a festa do Dia das Bruxas - e, o que era mais importante, para o anúncio de quem seriam os campeões das escolas.
"Vou com vocês." Disse Hagrid, deixando o cerzido de lado. "Me dêem um segundo."
Ele se levantou, foi até a cômoda ao lado da cama e começou a procurar alguma coisa nas gavetas. Os garotos não prestaram muita atenção, até que um fedor realmente horrível chegou às suas narinas.
"Hagrid, que é isso?" Perguntou Draco tossindo e se esforçando para não deixar lágrimas rolarem por seus olhos já cheios d'água.
"Eh?" Hagrid virou-se com um enorme frasco na mão. "Você não gostou?"
"Isso é loção de barba?" Perguntou Hermione, com um tom de voz levemente chocado.
"Hum... eau-de-Cologne." Murmurou Hagrid. Ele ficou vermelho. "Talvez seja um pouco demais. Vou tirar, esperem aí."
Ele saiu desajeitado da cabana e os garotos o viram lavar-se vigorosamente no barril de água do lado da janela.
"Olhem lá." Disse Rony de repente, apontando para fora da janela.
Hagrid acabara de se aprumar e se virara. Se ficara vermelho antes, não era nada comparável ao que estava acontecendo agora. Levantando-se muito cautelosamente, para que Hagrid não os visse, Harry, Rony, Hermione e Draco espiaram pela janela e viram que
Madame Maxime e os alunos de Beauxbatons tinham acabado de sair da carruagem, obviamente para irem à festa também. Os garotos não conseguiam ouvir, mas Hagrid estava falando com a diretora com os olhos embaçados e uma expressão de arrebatamento, que Harry só notara nele uma única vez - quando admirava o filhote de dragão Norberto.
Sem lançar sequer um olhar à cabana, Hagrid foi subindo pelo gramado com Madame Maxime, e os alunos de Beauxbatons seguiam em sua cola, quase correndo para acompanhar os passos enormes dos dois. Os quatro saíram da cabana sozinhos e fecharam a porta ao passar. Estava surpreendentemente escuro do lado de fora. Puxando as capas para mais junto do corpo, eles subiram pelos gramados da propriedade.
"Ah, são eles." Sussurrou Hermione.
A delegação de Durmsrrang seguia do lago para o castelo. Vitor Krum caminhava ao lado de Karkaroff e os outros os acompanhavam em pequenos grupos. Rony observou Krum excitado, mas o jogador nem olhou para os lados ao alcançar as portas do castelo um pouco à frente de Hermione, Draco, Rony e Harry, andando sempre reto.
Quando os quatro amigos entraram, o salão iluminado por velas estava quase cheio. O Cálice de Fogo fora mudado de lugar; agora se encontrava diante da cadeira vazia de Dumbledore, à mesa dos professores. Fred e George - novamente de cara lisa - pareciam ter aceitado o desapontamento muito bem.
"Espero que seja Angelina." Disse Fred, quando Harry, Rony e Hermione se sentaram.
"Eu também!" Disse Hermione sem fôlego.
A festa das bruxas pareceu durar muito mais do que habitualmente. Talvez porque fosse o segundo banquete em dois dias, Harry não pareceu interessado na comida preparada com extravagância tanto quanto das outras vezes. Como todas as pessoas no salão, a julgar pelas constantes espichadas de pescoços, as expressões impacientes nos rostos, o desassossego de todos que se levantavam para ver se Dumbledore já acabara de comer, Harry simplesmente queria que os pratos fossem retirados e os nomes dos campeões anunciados.
Depois de muito tempo, os pratos voltaram ao estado de limpeza inicial; houve um aumento acentuado no volume dos ruídos no salão, que caiu quase instantaneamente quando Dumbledore se ergueu. A cada lado dele, o Prof. Karkaroff e Madame Maxime pareciam tão tensos e ansiosos quanto os demais. Ludo Bagman sorria e piscava para vários alunos. O senhor Crouch, porém, parecia bastante desinteressado, quase entediado.
"O Cálice de Fogo está quase pronto para decidir." Disse Dumbledore. "Estimo que só precise de mais um minuto. Agora, quando os nomes dos campeões forem chamados, eu pediria que eles viessem até este lado do salão, passassem diante da mesa dos professores e entrassem na câmara ao lado" Ele indicou a porta atrás da mesa. "onde receberão as primeiras instruções."
Ele puxou, então, a varinha e fez um gesto amplo; na mesma hora todas as velas, exceto as que estavam dentro das abóboras recortadas, se apagaram, mergulhando o salão na penumbra. O Cálice de Fogo agora brilhava com mais intensidade do que qualquer outra coisa ali, a brancura azulada das chamas que faiscavam vivamente quase fazia os olhos doerem. Todos observavam à espera, alguns consultavam os relógios a todo momento.
As chamas dentro do Cálice de repente tornaram a se avermelhar. Começaram a soltar faíscas. No momento seguinte, uma língua de fogo se ergueu no ar, e expeliu um pedaço de pergaminho chamuscado - o salão inteiro prendeu a respiração.
Dumbledore apanhou o pergaminho e segurou-o à distância do braço, de modo a poder lê-lo à luz das chamas, que voltaram a ficar branco-azuladas.
"O campeão de Durmstrang." Leu ele em alto e bom som. "Vítor Krum."
"Bravo, Vítor!" Disse Karkaroff com a voz tão retumbante que todos puderam ouvi-lo apesar dos aplausos. "Eu sabia que você era capaz!"
Os aplausos e comentários morreram. Agora todas as atenções tornaram a se concentrar no Cálice de Fogo, que, segundos depois, tornou a se avermelhar. Um segundo pedaço de pergaminho voou de dentro dele, lançado pelas chamas.
"O campeão de Beauxbarons, Fleur Delacour!"
"É, ela, Rony!" Gritou Harry, quando a garota que parecia uma veela levantou-se graciosamente, sacudiu a cascata de cabelos louro-prateados para trás e caminhou impetuosamente entre as mesas da Corvinal e da Lufa-Lufa.
Quando Fleur Delacour também desapareceu na câmara vizinha, todos tornaram a fazer silêncio, mas desta vez foi um silêncio tão pesado de excitação que quase dava para sentir seu gosto. O campeão de Hogwarts é o próximo. E o Cálice de Fogo ficou mais uma vez vermelho; jorraram faíscas dele; a língua de fogo ergueu-se muito alto no ar e de sua ponta Dumbledore tirou o terceiro pedaço de pergaminho.
"O campeão de Hogwarts" Anunciou ele. " Cedrico Diggory!"
"Não!" Exclamou Rony em voz alta, mas ninguém o ouviu exceto Harry; a zoeira na mesa vizinha era grande demais. Cada um dos alunos da Lufa-Lufa ficou de pé, gritando e sapateando, quando Cedrico passou por eles, um enorme sorriso no rosto, e se encaminhou para a câmara atrás da mesa dos professores. Na verdade, os aplausos para Cedrico foram tão longos que passou algum tempo até que Dumbledore pudesse se fazer ouvir novamente.
"Excelente!" Exclamou Dumbledore feliz, quando finalmente o tumulto serenou. "Muito bem, agora temos os nossos três campeões. Estou certo de que posso contar com todos, inclusive com os demais alunos de Beauxbatons e Durmsrrang, para oferecer aos nossos campeões todo o apoio que puderem. torcendo pelos seus campeões, vocês contribuirão de maneira muito real."
Mas Dumbledore parou inesperadamente de falar, e tornou-se óbvio para todos o que o distraira.
O fogo no cálice acabara de se avermelhar outra vez. Expeliu faiscas. Uma longa chama elevou-se subitamente no ar e ergueu mais um pedaço de pergaminho. Com um gesto aparentemente automático, Dumbledore estendeu a mão e apanhou o pergaminho. Ergueu-o e seus olhos se arregalaram para o nome que viu escrito. Houve uma longa pausa, durante a qual o bruxo mirou o pergaminho em suas mãos e todos no salão fixaram o olhar em Dumbledore. Ele pigarreou e leu:
"Harry Potter!"
