Disclaimer: Harry Potter não me pertence e tudo que vocês reconhecem pertence a J.K. Rowling.

Chapter Twenty Six – Friendship

- Ele terminou com você?

Ginny só conseguiu assentir. Sua garganta começava a doer por conta de todo o choro. Hermione estava sentada ao seu lado, segurando umas das mãos da garota na sua, uma expressão horrorizada no rosto.

- Ele não pode simplesmente… quer dizer, não foi culpa sua! Você não queria mentir para ele. Nós te obrigamos! Ele tem que entender isso! – disse ela, intensificando o aperto na mão da amiga.

Ginny conteve as lágrimas. Quanto mais conseguiria chorar, afinal?

- Isso não importa para ele. Tudo que importa é que eu menti e agora não pode confiar em mim. Faz sentido. Por que estar com alguém se não pode confiar nessa pessoa? – disse ela com a voz seca e distante.

- Mas, Ginny, não é justo! – acrescentou Ron, olhando pesaroso para a irmã mais nova.

A ruiva deu uma risada estrangulada, que soou mais como um soluço.

- Nada nunca é justo. Olhe para Harry. O que aconteceu a ele não foi justo. Todos em que ele confiou acabaram o machucando.

- Como você ainda pode defendê-lo? Depois que ele te dispensou assim? – foi Damien quem fez a pergunta.

- Eu não o culpo. Se estivesse no lugar dele, provavelmente teria feito o mesmo – sussurrou Ginny tristemente.

Eles ficaram na sala comunal, falando sobre o fim do namoro de Harry e Ginny. Agora parecia muito bobo que ninguém percebera que isso seria inevitável quando ele descobrisse a verdade. Hermione se sentia terrivelmente culpada. Foi ela quem a forçou a mentir para ele e esconder a verdade. Ela era a razão de Harry ter terminado o relacionamento.

- Ginny, eu sinto muito! Eu nunca pensei que as coisas acabariam tão mal. Nunca pensei que ele fosse terminar com você por isso. Eu deveria ter imaginado, vejo isso agora. Por favor, me perdoe! – implorou ela, lágrimas brotando em seus olhos.

- Eu não devia ter te escutado. Eu devia ter seguindo minha própria decisão de contar tudo a ele. Está feito agora, então não tem sentido ficar pensando nos "e se". Agora já foi – disse ela tristemente, contendo as lágrimas frescas que teimavam em cair.

Damien se sentou com a ruiva, tentando pensar em algo para dizer que fosse fazê-la se sentir melhor. Não conseguia pensar em nada. Tudo estava desmoronando. Harry ainda estava em Hogwarts, mas parecia que estava bem distante deles. Estava diante dos olhos deles, mas mantinha distância. O menino se sentiu como se tivesse voltado no tempo, ao ano anterior, quando o conheceram. Mas as coisas eram muito piores que no ano passado. Pelo menos naquela época ele não sabia como era ser próximo e amado por Harry.

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Jatos de diferentes cores voavam pelo ar novamente. Harry observava a cena, como fizera inúmeras vezes antes, enquanto Comensais da Morte e aurores se enfrentavam com vigor. Tivera aquele sonho tantas vezes, que podia dizer o que aconteceria em seguida. Examinou com cuidado as imagens à sua frente, procurando por ela, que geralmente aparecia pouco antes de ele acordar. Sua risada maníaca ressoando pelo ar, a imagem dela removendo a máscara, para que os aurores pudessem ver com quem duelavam. Bella então desapareceria num turbilhão de imagens e cores. Sua risada pararia abruptamente, antes de ela soltar um gemido de dor. Ele sempre acordava logo em seguida.

O rapaz na verdade gostava desse sonho. Preferia bem mais aos pesadelos de Voldemort queimando até morrer. Toda vez que tinha esse sonho, tentava descobrir porque estava testemunhando um acontecimento do qual ele próprio não fazia parte. Como podia ver uma memória que não era dele? Mas nunca tinha chance de pensar nisso quando acordava. Sempre havia uma coisa ou outra acontecendo para distraí-lo.

Harry observou Bella surgir por trás da máscara, rindo, os olhos brilhando de prazer. Ela atacou os aurores com uma espécie de paixão que jamais vira nela antes. A Comensal estava gostando muito do duelo.

O jovem a observou com o coração partido. Sentia muito a falta dela. Notou novamente, como o fazia sempre que tinha esse sonho, que ela parecia diferente. O que era exatamente, não conseguia identificar, mas havia algo nela meticulosamente diferente.

Assistiu com admiração Bella lutar com três aurores e se virar para azarar outros dois homens que se aproximavam. Foi quando as coisas começavam a ficar embaçadas. Harry tentou desesperadamente se concentrar para tentar ver o que acontecia em seguida, mas não importava o quanto se esforçasse, não conseguia controlar as imagens, que corriam para longe dele. Tudo girou ao seu redor, a risada de Bella foi cortada, como se alguém tivesse diminuído o volume. Então, no meio das cores girando e imagens tremidas, ouvia um gemido de dor. Sabia que era dela. O gemido tinha que pertencer a ela. Era a única mulher ali.

- Bella! Bella!

Harry não conseguia se conter. Chamava por ela toda vez, esperando que um dia ela o chamasse de volta.

Um lampejo brilhante de luz branca e Harry se viu encarando o rosto preocupado do pai. O jovem se assustou um pouco com a visão, mas relaxou quase imediatamente. Acordara no dormitório do pai. James obviamente o escutara falando enquanto dormia, e viera ver se estava bem. O rapaz se sentou na cama e olhou para o mais velho com uma expressão de culpa.

- Desculpa – murmurou, desviando o olhar.

- Pelo quê? – perguntou James, verdadeiramente confuso.

- Por te acordar – disse Harry.

- Não se preocupe. Eu não estava dormindo. Tinha várias dissertações para corrigir e estava ocupado com elas. Eu te ouvi, parecia que estava tendo um pesadelo, então eu... – o auror parou de falar, sem saber o que dizer.

Nas últimas semanas, estava difícil avaliar Harry. James pensara que ele dormir em seus aposentos seria uma bênção. Que poderia tomar conta dele e resolver seus problemas recentes. Mas era difícil pegá-lo. Geralmente saía muito cedo, antes de James acordar, passava o dia nas aulas, as refeições não eram o melhor horário para conversas sérias, e as noites eram tomadas pelas detenções do rapaz, que, felizmente, tinham terminado. O auror ainda não conseguia acreditar que um mês se passara. Ainda não sabia o que o garoto era obrigado a fazer toda noite, mas aquilo o cansava. Perguntara após o primeiro dia o que McGonagall lhe pedira para fazer, mas o filho apenas lançou um de seus olhares em resposta. Voltava das detenções e ia direto para o banheiro. Passava séculos lá e o pai achava que talvez estivesse tomando banho para absorver as dores do dia. Quando aparecia na sala de estar, passava da meia noite e antes que o auror pudesse dizer alguma coisa, Harry ia para a cama, completamente exausto.

Ao menos agora que a detenção acabou, James teria mais tempo para conversar com ele. Sabia o momento terrível que ele estava passando. Ainda não estava falando com Damien, e o mais velho sabia o quanto aquilo afetava os dois. Podiam ter se conhecido apenas no ano anterior, mas tinham se tornado muito próximos e dependentes um do outro, mesmo que o rapaz não admitisse isso.

O auror soubera que ele tinha terminado com Ginny também. Não ia interferir nos assuntos pessoais do filho, mas sabia que Harry sentia falta dela. Um dos raros momentos nos quais o rapaz parecia feliz era quando estava com ela. Era uma pena que tivessem terminado. Mas ele era teimoso demais para admitir alguma coisa. Não admitiria que sentia falta de Damien, ou de Ginny, ou até mesmo de Ron e Hermione.

James percebeu que estivera o encarando enquanto todos esses pensamentos passavam em sua mente. Rapidamente, desviou o olhar já que o adolescente parecia bastante desconfortável.

O auror limpou a garganta.

- Hum, você está bem agora? – perguntou, sem saber o que dizer.

Harry revirou os olhos.

- Sim, estou bem! – respondeu um pouco áspero.

James olhou em volta, buscando algo para falar. Queria conversar sobre tantas coisas, mas não era o momento certo. Queria falar sobre Damien. Precisava que Harry parasse de tratá-lo tão mal.

No outro dia, Damien tentara falar com ele logo após o jantar, e o irmão o desprezara literalmente. Já era constrangedor o bastante os amigos testemunharem algo assim, mas a escola toda estava lá. James teria dito algo ao rapaz lá mesmo, mas não estava no saguão na hora. Soube depois pela Professora McGonagall.

Damien não disse uma palavra a ele ou a Lily sobre o assunto, simplesmente desconsiderou. Mas aquele tipo de comportamento não era aceitável. No entanto, antes que pudesse dizer alguma coisa a Harry, o adolescente se virou para a cama e puxou o cobertor sobre a cabeça, insinuando que queria ficar sozinho.

Vendo que não era o melhor momento para aborrecê-lo, James voltou à sua mesa. O garoto acabara de ter um pesadelo, não era certo conversar com ele agora. Mas ia falar com ele sobre Damien e todas as outras coisas sobre as quais precisavam conversar.

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Hermione e Ron correram depressa para a sala de aula vazia.

- Vai logo, Hermione – sussurrou o ruivo.

- Está bem, calma. Você é tão impaciente – repreendeu ela ao tirar a bolsa dos ombros.

- Sabe que vai se encrencar por isso!

Ela se virou ao som da voz e viu Draco parado à porta, recostado casualmente nela. Ostentava orgulhosamente o sorrisinho que geralmente usava ao encarar os dois grifinórios.

- Vá embora, Malfoy! – disse Hermione, sem disposição para escutar o que o sonserino tinha a dizer.

A garota terminou de tirar as esferas de vidro da bolsa. Era meio dia e os demais almoçavam. Ela e Ron estavam planejando verificar a orbe antes de comer alguma coisa.

O sorriso de Draco se aprofundou ao ver que sua presença aborrecia os dois. Adentrou mais na sala, fechando a porta ao passar.

- Não consegue entender o significado de "vá embora, Malfoy"? – sibilou Ron para ele.

- Acho que pode querer segurar a língua, antes que se encrenque mais – respondeu o loiro, parecendo presunçoso.

O fato de Harry agora preferir ele ao outros era imensamente satisfatório, e Draco aproveitaria toda e qualquer oportunidade para esfregar isso na cara deles. Ron não disse nada, mas olhou feio para ele.

- Por que está aqui? – perguntou Hermione, cansada.

- Bem, já que vocês são uma droga em tentar descobrir as coisas, pensei em dar uma mãozinha – respondeu ele.

Hermione olhou para ele em choque e descrença.

- Eu ouvi bem? Você quer nos ajudar? – indagou ela.

Ron o encarava, evidentemente sem acreditar em uma palavra sequer.

- Apenas nos diga por que está aqui e caia fora! – disse ele a Draco.

O loiro arqueou a sobrancelha para ele, mas o ignorou e se virou para Hermione.

- Não é questão de querer ajudá-los, e sim ter que ajudá-los – disse ele. O sonserino se aproximou e os olhou fixamente. – Vocês sabem mais sobre a situação envolvendo Harry e a Poção Calmante. Quero que me contem tudo que sabem – disse ele, sério.

- Por quê? – perguntou Ron.

- Para que eu possa descobrir quem é, idiota! – disparou Draco, seu aborrecimento se mostrando agora.

- Contamos a Harry tudo que sabíamos, ele não te disse nada? – indagou Hermione.

- Bem, veja, essa é a questão. Ele tende a não lembrar muito das coisas quando está cuspindo fogo. Tudo que contaram a ele provavelmente foi esquecido quando se acalmou – disse Draco, apreciando a forma que a garota se encolheu quando mencionou a raiva do outro.

- Então, ele te enviou? – perguntou Ron.

Draco olhou furioso para ele ao responder.

- Ele não precisa me mandar a lugar algum! Sou amigo dele, não criado! – Num tom mais calmo, continuou: - Ele não sabe que estou aqui. Eu tive que vir já que não se pode esperar que vocês dois, nobres idiotas, descubram esse mistério sozinhos.

Ron se moveu na direção do outro, mas Hermione foi rápida em impedi-lo. A garota olhou para Draco com um olhar calculador. Por fim, falou com ele.

- Tudo bem, vamos contar o que sabemos. Só estou te contado porque sei que está tentando ajudar Harry – disse ela.

Em voz baixa, ela lhe contou tudo sobre como descobriram a Poção Calmante nas cervejas amanteigadas. Disse tudo o mais rápida e silenciosamente possível. O almoço logo acabaria, e não queria que ninguém os pegasse na sala de aula. Quando terminou, Draco olhou para ela, um olhar sério em seu rosto pálido.

- E como estava planejando pegar esse "traidor", então? – perguntou.

Hermione ergueu a pequena esfera de vidro que ela e Ron deveriam estar verificando no momento. Draco encarou a bola de vidro por um momento, parecendo perdido. O loiro encarou a garota e zombou dela.

- Uma bola de cristal? Está planejando olhar numa bola de cristal para ver se consegue identificar a pessoa adulterando as cervejas? Pensei que tinha mais senso do que acreditar em coisas como "o terceiro olho" e adivinhação!

- De fato eu estava esperando ver a pessoa adulterando as bebidas nisso aqui. É um gravador de imagem – explicou ela. Não pôde evitar sorrir na direção de Draco.

- Então, funcionou? – perguntou ele, olhando a esfera, curioso.

- Sim, funcionou, Malfoy. Nós vimos quem é, mas decidimos apenas ficar parados e não fazer nada sobre isso! – vociferou Ron para ele.

- Eu não ficaria surpreso! – retrucou Draco.

- Tudo bem, tudo bem. Não há sentindo em brigar. Malfoy, estivemos verificando a esfera a cada 12 horas, mas, seja quem for, não fez nenhum movimento. Na verdade, estou me perguntando se isso ainda faz sentido. Harry quase nunca fica na sala comunal agora, então não sei se as cervejas vão ser adulteradas de novo ou não – disse ela, tentando se focar no problema em questão.

Ron e Draco pararam de se encarar tempo o bastante para prestarem atenção em Hermione.

- Então a solução é óbvia – disse o loiro, ainda olhando para ela com bastante desagrado.

- O que quer dizer? – indagou Hermione, ignorando a forma que o sonserino a olhava. Draco soltou um suspiro de frustração.

- Pense! Se todo mundo sabe que Harry não fica mais na sala comunal, então o "traidor", como você diz, não teria razão para adulterar as bebida. Tem que tentar outra coisa. Criar uma situação na qual o responsável vá agir e ser pego – explicou ele.

- Que bobagem é essa que você está falando? O que podemos fazer? – questionou Ron.

- Espere! Isso realmente faz sentido – disse Hermione com um olhar pensativo.

- Faz? – indagou Ron, virando-se para ela. Ele não entendera o que Draco dissera.

- Sim, Malfoy está certo. Temos que criar uma situação que faça o traidor sentir que tem que agir. Seja quem for, deve estar ficado frustrado por não poder mais pegar Harry. Está esperando a oportunidade certa, e temos que criá-la. – Ela tinha aquele olhar no rosto, aquele que sugeria que estava tramando algo.

Ron olhou para Draco, e então para Hermione.

- Hum, então, o que vamos fazer agora? – perguntou o ruivo a ela.

Hermione se virou para ele, um sorriso maluco no rosto.

- Vamos enviar a Harry um presente para "animá-lo".

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- Está tudo pronto?

- Sim.

- Você se certificou que Parvati e Lavender te escutassem?

- Sim.

- Tem certeza?

- Pelo amor de Deus, Hermione, sim!

- Tudo bem, não grite, Ronald. Eu só estava me certificando.

- Psiu! Falem baixo, vocês dois! – sussurrou Damien para eles.

O menino olhou de volta para a esfera de vidro na mesa à sua frente. Seus olhos estavam grudados nela, sem querer perder nada.

Os quatro grifinórios estavam na Sala Precisa.

O plano de Hermione era perfeito. Bem, mais ou menos. Ela arrumara uma enorme cesta cheia de doces, bebidas, flores e todos os tipos de coisas, para colocar no armário da sala comunal. Ron estava falando em voz alta com Damien no café da manhã que ele e Hermione estavam preparando uma oferta de paz para Harry, para fazer as pazes com ele por conta da recente discussão.

O ruivo disse que levaria uma cesta cheia de guloseimas para Harry amanhã, que deixaria na sala comunal para que Ginny, Hermione e Damien pudessem acrescentar suas ofertas de paz. Certificou-se que Parvati e Lavender, as duas fofoqueiras da Grifinória, escutassem. Era certo as duas distribuírem a notícia para a Casa inteira. Se o traidor fosse mesmo um grifinório, então ele ou ela não perderia essa oportunidade de adulterar a comida ou a bebida do rapaz. Bom, era o que Hermione esperava, afinal.

Os quarto ficaram olhando a esfera de vidro que mostrava a sala comunal. A setimanista lançara feitiços complicados em uma das orbes, para que mostrasse o que a outra estava gravando. Dessa forma, poderiam capturar o traidor assim que se relevasse.

Hermione observava a orbe, nervosa. Tinha que funcionar. Era uma excelente oportunidade para o traidor adulterar a bebida de Harry. Tinha certeza que ia funcionar.

Algumas horas se passaram, e a esfera mostrava a sala comunal se esvaziando lentamente, enquanto os alunos iam para a cama. Damien olhava a orbe, uma expressão de raiva em seu rosto. Prometera-se que faria o responsável por isso pagar caro. O irmão estava longe de todos eles por conta dessa pessoa. Ele tinha passado por tanta coisa, a dependência, a dolorosa abstinência, a culpa indevida, tudo isso era culpa dela, da pessoa que estava trabalhando com o Príncipe Negro, o traidor da Grifinória!

Logo passou da meia noite, e ninguém se aproximara do armário. Hermione suspirou frustrada. Por que a pessoa não estava agindo? Era uma oportunidade de ouro para eles! Qual era o problema?

Ron suspirou e se levantou. Tinha que esticar as pernas, estava sentado há muito tempo. Ginny, Damien e Hermione ficaram onde estavam. Cada um rezando silenciosamente para aquilo funcionar. Tinham que descobrir a identidade do traidor. Era a única maneira de Harry perdoá-los, se entregassem o traidor a ele.

- Quanto tempo vocês acham que devemos esperar? – perguntou o ruivo.

- Eu não vou sair até pegarmos ele – disse Damien com um grunhido.

- Devemos esperar. A sala comunal acabou de ficar vazia. Essa é a chance para adulterar as bebidas – apontou Ginny.

Ron tornou a se sentar. Esperaram e esperaram, mas ninguém apareceu. Já eram três da manhã. O ruivo adormecera, e sua irmã parecia estar cochilando também. Ela estava tentando manter os olhos abertos, mas eles se fechavam sozinhos. Hermione e Damien foram os únicos que conseguiram lutar contra o sono, e estavam completamente acordados.

- Ele tem que aparecer. Simplesmente tem que aparecer – sussurrou a setimanista.

Damien assentiu em concordância.

- Damy, você acha… se realmente pegarmos essa pessoa e entregarmos a Harry, acha que ele vai nos perdoar? – indagou ela.

Damien pensou por um instante.

- Eu não sei mesmo, Hermione. Ele está muito bravo com a gente. Acho que vai levar um bom tempo até ficar de bem novamente.

O rosto da garota se entristeceu. Ela colocou os braços em torno dos joelhos, abraçando-os com força.

- Eu sinto falta dele – disse suavemente. Damien olhou para ela e viu as lágrimas não derramadas em seus olhos. – Eu sinto mesmo. Nunca tinha percebido o quanto ele é importante para mim até agora. Se eu soubesse que minha tolice resultaria nisso, nunca teria mentido para ele.

O menino desviou o olhar. Era difícil não culpá-la pelo que aconteceu com Harry, mas, ao mesmo tempo, sentia pena dela.

- Não foi tudo culpa sua. Foi culpa nossa – disse ele suavemente.

- É só que… eu queria que tivesse entendido que eu nunca quis que ele se machucasse. Odeio que ele tenha terminado com Ginny. Sinto que é tudo culpa minha! E a forma que ele tem agido com você, parte meu coração – continuou ela, lançando um olhar de desculpas ao garoto.

- Não se preocupe com isso, Hermione.

Foi tudo que Damien conseguiu dizer. Sim, Harry estava sendo terrível com ele e isso machucava, mas não era culpa dela.

- Não consigo evitar, eu só… – a garota parou de falar.

Damien ergueu os olhos e a viu olhando para a esfera à sua frente. Seus olhos estavam arregalados de surpresa e a boca aberta.

O menino sentiu o coração saltar ao se virar depressa para a orbe sobre a mesa. Viu uma figura vestida de pijamas vasculhando o armário e tirando a cesta. A figura olhou em volta da sala comunal, como que verificando se estava mesmo sozinha.

- Ron! Ginny! Acordem! – sussurrou Hermione, os olhos ainda grudados na esfera.

Ron e Ginny se acordaram num instante e, vendo a expressão dos outros dois, focaram-se na esfera de vidro diante deles. Todos viram quando a figura tirou a garrafa de firewhiskey da cesta colorida e a abriu. Tateou as vestes e tirou um pequeno frasco, acrescentando cuidadosamente algumas gotas na garrafa.

- Ah, Deus! – exclamou Hermione quando a figura se virou para colocar a garrafa e a cesta de volta no armário. Quando se mexeu, seu rosto pôde ser visto claramente e os quatro soltaram exclamações de surpresa.

- Dennis! – sussurrou Ginny.

Não havia como confundir. O grifinório de cabelos acinzentados colocava depressa a cesta de volta no armário, lançado olhares nervosos para os lados.

Ron e Damien dispararam pela porta, correndo pelos corredores. Não parecia lhes ocorrer que eram três horas da manhã, e que o som de seus passos poderia acordar o castelo inteiro. Tudo que importava era chegar à sala comunal e dar uma surra em Dennis.

O quartanista sentiu o coração bater dolorosamente rápido enquanto corria para a sala comunal. Dennis? Era Dennis Creevey! Quem estava prejudicando seu irmão era a mesma pessoa que beijava o chão onde ele andava. Por que o menino faria isso? Por que se viraria contra Harry?

Damien não estava muito ciente dos outros três correndo ao seu lado. Gritou a senha para o retrato da Mulher Gorda e se lançou para dentro do cômodo. Avistou Dennis pulando de susto e olhando para os quatro grifinórios reunidos na sala.

Damien não sabia exatamente como aconteceu, mas, no instante seguinte, Dennis estava no chão, enrolando em uma bola, enquanto ele e Ron socavam cada centímetro dele que conseguiam alcançar. Não tinha noção das palavras que gritava, mas lhe disseram depois que chamara o garoto de todos os nomes existentes. Hermione e Ginny afastaram os dois do quartanista, e a setimanista teve que ficar literalmente na frente do menino para impedir que os outros o estrangulassem.

Ginny lançou um feitiço de privacidade ao redor da sala, para que ninguém descesse e os visse. Dennis se levantou, tremendo. Estava com o lábio cortado e um hematoma já se formava em suas bochechas e olho. Ele os encarava com uma mistura de medo e confusão.

- Que diabos? Qual é o problema de vocês? – gritou ele, encarando os dois garotos.

- Você está nos perguntando qual é o problema?! Seu pequeno... – Ron fez menção de ir na direção dele, a varinha apontada para o garoto.

- Ron, pare! Damien, não, fique onde está! – gritou Hermione, afastando os dois rapazes de um trêmulo Dennis.

Ela se virou e agarrou o menino, arrastando-o para a cadeira próxima.

- Sente-se! – Ela o empurrou na cadeira grosseiramente.

- O que está acontecendo? Por que diabos me atacaram daquele jeito? – questionou Dennis, tocando o rosto delicadamente com os dedos. – Ficaram malucos?

Hermione ficou ao lado dos outros três, a raiva fervendo furiosamente ao ouvir a falsa inocência do garoto.

- Você sabe muito bem porque te atacamos! – disse furiosa.

Dennis estava em choque, nunca ouvira a garota falar com tamanho veneno. Não achava que ela fosse capaz disso. Levantou os olhos e viu quatro varinhas apontadas para ele.

- Que… por que vocês estão agindo assim? O que eu fiz? – indagou, encarando os quatro e suas varinhas sem acreditar. Deixara a sua na mesa de cabeceira.

Damien tentava se impedir de azará-lo, estava tão bravo que sua mão tremia. Hermione baixou a varinha e caminhou até o menino, puxando a esfera de vidro que apanhara da Sala Precisa e batendo nela com a varinha. A garota ficou com a orbe na mão enquanto todos assistiam às imagens que mostravam Dennis adulterando a garrafa de firewhiskey há poucos instantes.

Um silêncio completo se espalhou pela sala. Ninguém falou até Hermione ter baixado o dispositivo, encarando o garoto sentando na cadeira à sua frente o tempo inteiro. Dennis parecia estar a um passo de desmaiar. Seu rosto ficara pálido, os olhos ligeiramente esbugalhados. O quartanista olhava boquiaberto para Hermione, olhando para ela e então para a esfera.

- Como... como vocês... eu não entendo – murmurou o menino mais para si.

- Podemos azará-lo agora? – perguntou Ginny, sua varinha atirando pequenas faíscas. Era evidente que a ruiva estava tendo dificuldades em se impedir de machucá-lo.

Hermione olhou furiosamente para Dennis, que, em resposta, olhou assustado para ela.

- Por que, Dennis? Por que fez isso? – indagou.

O quartanista estava em prantos agora, contorcendo os dedos nervosamente e buscando a varinha no ar.

- Eu... eu, não é... eu não... eu... – Ele não conseguia pronunciar uma simples frase. Sua respiração estava acelerada e o rosto terrivelmente pálido. Parecia que ia surtar.

- Por que estamos perdendo tempo? Vamos levá-lo a Harry e deixar que ele faça o interrogatório! – gritou Damien.

Dennis soltou um grito e olhou para Hermione imediatamente com um olhar de súplica.

- Por favor, eu... eu nunca quis...

- Cala a boca, Dennis! – disse Ron agarrando-o pelo colarinho e o puxando para cima. – Pode gaguejar o quanto quiser na frente de Harry! – Ele começou a arrastá-lo para a porta.

- Espere, Ron! – gritou Hermione. O ruivo parou de andar e olhou para ela.

- Por quê? – questionou ele.

- Eu quero saber os motivos dele. – Ela se virou para o menino, que olhava para os quatro ao seu redor. – Por que fez isso, Dennis? Por que traiu Harry dessa forma? Por que adulterou as bebidas dele?

O quartanista olhou para ela, lágrimas caindo por seu rosto. Ele sacudiu a cabeça, tentando formular palavras para responder.

- Quem é? – perguntou Damien, chamando a atenção de todos.

- Quê? – indagou Dennis, a pergunta saindo com um soluço.

- O Príncipe Negro! Aquele para quem você está trabalhando. Aquele que te deu a poção! Quem é! – perguntou Damien, a raiva o impedindo de falar corretamente.

A expressão de Dennis mudou. Ele parecia confuso, assustado até. O menino olhou de Damien para Hermione.

- Eu... eu não sei do que vocês estão falando? – gaguejou ele.

- Pare de tentar protegê-lo! – sibilou Ron.

Dennis sacudiu a cabeça.

- Eu não sei mesmo do que estão falando.

- Foi ele que te deu? – perguntou Hermione, chamando a atenção do menino choroso. – A Poção Calmante? Foi o Príncipe Negro que te deu ou você mesmo que inventou isso?

- P-poção Calmante? Do que vocês estão falando? – perguntou ele, as mãos tremendo.

Damien já escutara o bastante e disparou na direção de Dennis, tirando bruscamente o frasco do bolso do menino. A garrafa estava sem rótulo. Pegou seu livro negro e despejou o conteúdo na página, que desapareceu imediatamente na tigela, e os ingredientes apareceram na página oposta. Damien tirou os olhos do livro, a Poção Calmante escrita em letras nítidas e escuras.

- É Poção Calmante! Você estava misturando isso nas bebidas de Harry! – disse ele.

Dennis sacudiu a cabeça e fez menção de pegar o frasco de volta, Damien o deixou fora de alcance.

- Não, vocês entenderam tudo errado. Eu não estava sedando Harry! Eu juro! – gritou ele.

- Pare de mentir! Nós vimos com nossos próprios olhos! – gritou Damien de volta.

- Não, não, vocês entenderam tudo errado! – argumentou Dennis desesperadamente.

- Então, você não tem adulterado as cervejas amanteigadas? – perguntou Ron ironicamente.

- Não, quer dizer, sim, mas...

- Mas, o quê? – sibilou Damien para ele.

- Mas não é Poção Calmante! – exclamou Dennis.

- É mesmo? Então, o que é? – indagou Hermione em tom de incredulidade.

- É Poção da Amizade! – choramingou Dennis.

Os quatro o encararam em evidente descrença. Por fim, Hermione falou.

- É o quê? – perguntou ela.

- Poção da Amizade! É Poção da Amizade, eu juro! – disse Dennis, olhando para os quatro, esperando que acreditassem nele.

- Não existe isso de Poção da Amizade! – vociferou Ginny.

- Existe sim! – argumentou Dennis. Ele se virou para a outra garota. – Hermione, você tem que acreditar em mim, por favor!

- Explique o que está acontecendo agora mesmo! – ordenou a setimanista, parecendo um pouco confusa.

- Hermione, não dê ouvidos a ele. É claro que vai inventar coisas agora. Vamos entregá-lo à Professora McGonagall – disse Ron, ainda apontando a varinha para o menino, que agora tremia da cabeça aos pés.

A garota parecia dividida entre o arrastar para Harry e a Professora McGonagall ou dar a ele a chance de falar. Finalmente, ela se virou para o menino e limpou a garganta.

- Você tem dois minutos, Dennis, e nem sequer pense em mentir para a gente! –advertiu.

O garoto olhou para a varinha que ela apontava para ele e balançou a cabeça, indicando que não ia mentir. Respirou fundo e começou a explicar.

- É verdade que tenho adulterado as bebidas dele. Mas não o estive sedando! Não sei da onde tiraram isso. Estive usando algumas gotas de Poção da Amizade. Funciona de forma semelhante à Poção do Amor, mas ao invés de fazer quem bebe se apaixonar, faz com que queiram ser seu amigo – explicou com a voz trêmula.

- E onde conseguiu essa Poção da "Amizade"? – indagou Hermione.

- Eu vi um panfleto que veio com o Profeta Diário próximo ao início do último trimestre. Era um anúncio. Alguém tinha deixado em cima da mesa da Grifinória.

Hermione trocou um olhar com os outros três. Ela se lembrava desse dia. Tinha chegado todo tipo de panfleto, anunciando todo tipo de poção e coisas úteis. Na verdade, foi Ginny que os deixou na mesa. A garota viu a amiga ostentar uma expressão de culpa.

- Eu nem o vi a princípio – disse Dennis. – Eu estava muito chateado. Foi no dia que Harry tinha gritado comigo só porque pedi ajuda. Sei que o tinha irritado. Eu nunca quis isso, mas, de alguma forma, consegui irritá-lo. Vi o panfleto junto com os outros, e pensei que, talvez, se eu usasse a poção, ele seria mais legal comigo. Tudo que eu sempre quis foi que ele fosse mais legal comigo, se não meu amigo – disse com uma voz triste.

Damien estava escutando o garoto e tentando se lembrar dos panfletos. Tinha certeza que não havia nenhum anúncio de poção da amizade. Mas havia tantos que era possível ele não ter percebido.

- Onde comprou a poção? – perguntou Hermione, a voz calma e cheia de medo.

- Eu tive que pedir. O panfleto dizia para mandar uma carta, pedindo a poção e descrevendo em quem você queria usar. Eu dei o máximo de informações sobre Harry que pude. A Poção da Amizade tem que ser preparada de forma diferenciada para cada indivíduo, sabe. Recebi meu estoque e um esquema especificando com exatidão quando dar a Harry.

Damien sentiu o sangue congelar. Teve que repetir o que o menino acabara de dizer em sua mente. Ele recebera um esquema, um esquema que lhe dizia quando adulterar as bebidas! Olhou indignado para o garoto à sua frente. Seus olhos encontraram os de Hermione, que estavam em pânico, e os dois souberam imediatamente o que acontecera.

Dennis não era o traidor. Ele estava sendo usado pelo Príncipe Negro.

- Eu me senti mal em adulterar a bebida dele depois que fiz a primeira vez, não queria fazer de novo. Mas dizia claramente que quando eu começasse, não podia parar. Podia ser perigoso parar entre as doses, então... então eu continuei. Eu nunca quis prejudicá-lo. Eu juro – concluiu o menino, emocionado.

- Você recebeu um esquema? – sussurrou Hermione. Ela parecia não ter ouvido o resto da conversa. – Me mostre! – exigiu.

Dennis vasculhou o bolso e tirou um pergaminho. A garota rapidamente o pegou. Damien se aproximara dela, e examinava o pergaminho também. Parecia uma carta oficial, elaborada com todo tipo de datas e símbolos. O garoto notou o nome e data de nascimento do irmão na parte superior. Havia um quadro elaborado no meio, com datas listadas ao lado do número de doses a serem ministradas.

Hermione examinou as datas. A primeira delas era, de fato, da noite do Baile de Natal. A última era dali a uma semana. Ergueu os olhos para Dennis, a raiva percorrendo-a. Como podia ser tão estúpido?

- Como pôde fazer isso? – questionou ela, segurando o calendário. – Você não estranhou que as noites em que adulterava as bebidas eram as que o Príncipe Negro realizava os ataques? Isso não pareceu suspeito para você? – gritou, perdendo a calma.

Dennis olhou para ela em silêncio, era evidente que aquele pensamento jamais passara em sua mente. O menino olhou para ela, e em seguida para os outros.

- Eu… eu notei, mas houve outros dias que não tiveram nada a ver com os ataques. Nunca achei que fosse mais que uma coincidência – respondeu ele.

Damien lembrou que Harry lhes dissera que havia algumas noites em que não conseguia se lembrar de nada e temia ter havido um ataque, mas tudo estava normal.

- Não consigo acreditar que você daria a Harry uma poção desconhecida! E se alguém tivesse te dado veneno?! Sabe que existem várias pessoas dispostas a matá-lo! – gritou Ginny com ele.

- Eu nunca daria a Harry uma poção desconhecida. Quando recebi passei o dia inteiro testando e fazendo todo tipo de exame. Eu não dei a ele até estar certo de que era seguro – argumentou Dennis, olhando horrorizado para a ruiva.

- Quando você recebeu? – perguntou Ron de repente.

- No dia que Harry teve que ajudar no Clube de Duelos. Todos saíram para vê-lo no clube e fiquei só no dormitório. Realizei todos os tipos de testes, mas não achei nada que fosse prejudicial – respondeu Dennis.

- Você não viu "Poção Calmante" listada nos ingredientes? – perguntou Ginny.

- Não, eu juro. Eu nunca daria nada prejudicial a ele. Eu nem sonharia em fazer algo assim! – disse Dennis.

Damien acreditava nele. Conhecia o menino há quatro anos. Sabia se estava mentindo ou não. Mas não queria dizer que não estivesse zangado com ele. Ele era a razão de tudo que aconteceu a Harry. Querendo ou não, prejudicou seu irmão.

- Você pode não ter tido a intenção de prejudicá-lo, mas prejudicou. Esteve dando a ele doses prejudiciais de Poção Calmante. Por sua causa, Harry está dependente de poções para dormir! Por sua causa, Harry está passando por dolorosas crises de abstinências, tem estado doente e tossindo sangue por sua causa! Tem brigado com meu pai, minha mãe, e com todo mundo por conta disso, por sua causa! O Ministério acha que ele está por trás desses ataques, Harry achava que estava por trás desses ataques, por sua causa e por sua estupidez! – gritou Damien, incapaz de se conter.

Dennis parecia horrorizado. Lágrimas escorriam por seu rosto e, a cada acusação, sacudia a cabeça, um silencioso "não" lhe escapando. Não conseguia acreditar que era culpado por tudo isso.

- Eu nunca quis prejudicar Harry. Eu jamais o machucaria! Jamais!

Damien se afastou de Dennis para não se lançar sobre ele. Estava muito zangado para fazer outra coisa. Hermione se adiantou.

- Tem que vir conosco – disse ela ao menino. Sua voz era gentil, mas estava claro que não ia ser simpática com ele.

Dennis não se opôs. Caminhou com eles, fungando as lágrimas miseravelmente. Hermione, Ginny, Ron e Damien caminharam pelos corredores desertos, levando o garoto consigo. Chegaram aos aposentos da Professora McGonagall e bateram à porta. Aquilo não podia esperar até amanhã.

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Os quatro adolescentes não voltaram para dormir. Estavam sentados no escritório de McGonagall. A Professora arrastara um choroso Dennis ao diretor assim que toda a história foi contada. Ela levou consigo o cronograma da Poção da "Amizade", a esfera de vidro e o que restava no frasco da poção.

Estavam todos sentados em silêncio. O impacto total do que acontecera ainda não os atingira. Estavam tão certo que quando pegassem o traidor iam se sentir melhor. Mas não se sentiam melhor. Na verdade, sentiam-se pior.

Dennis Creevey, quem teria imaginado. Mas era isso que estava errado. Dennis não era o verdadeiro traidor. Ele foi enganado pelo Príncipe Negro para sedar Harry.

- Eu realmente nunca pensei muito sobre o Príncipe Negro – disse Ron, quebrando o silêncio. – Apenas presumi que fosse algum impostor que quisesse assumir o controle. Nunca imaginei que fosse um plano cuidadosamente pensado para chegar até Harry.

Damien estremeceu com o pensamento.

- Eu sei – disse Hermione, baixinho. – Eu tinha certeza que quem estava drogando Harry estava sob o comando do Príncipe Negro. Nunca imaginei que fosse tão complicado.

- Sabe o que isso significa, certo? – indagou Ginny.

- Voltamos à estaca zero – respondeu Damien. – Não temos ideia de quem está tentando prejudicá-lo e não estamos nada perto de descobrir quem é o Príncipe Negro.

- Mas uma coisa é certa, alguém em Hogwarts está de conluio com o Príncipe Negro. Alguém teve que plantar aquele panfleto da falsa "Poção da Amizade" na escola. Sinto que não foi o acaso que chamou a atenção de Dennis para aquele anúncio em especial. Se ele mesmo não pegasse, o panfleto chegaria até ele. Alguém está ajudando o Príncipe Negro! – disse Hermione preocupada.

O silêncio se estendeu pelo que pareceram horas. Cada um perdido em seus próprios pensamentos sobre quem poderia ser o "ajudante" do Príncipe Negro.

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O ar estava quente, mas o garoto magricela apertou mais a capa em torno do corpo. Esperou pacientemente ele chegar. Olhou curioso ao seu redor. Não fazia ideia de onde estava. Como sempre, fora trazido por chave do portal. Assim que o jovem de dezessete anos estendeu a mão para examinar um retrato em particular, uma voz familiar o impediu.

- Não toque em nada! – sibilou.

Nott se virou assustado, mas relaxou quando o viu parado à porta. O garoto não sabia como, mas parecia que as sombras seguiam a figura parada à sua frente. Nunca teve chance de vê-lo propriamente. Não que pudesse, afinal, já que o homem sempre tinha o rosto coberto por uma máscara prateada.

O jovem sentiu o desconfortável formigamento de medo na espinha. Odiava aquela máscara horrível. O homem de cabelos negros entrou na sala. Os penetrantes olhos por trás da máscara fixos no sonserino magricela.

- E então? – indagou calmamente.

- O plano está funcionando – disse Nott com um sorriso. – Ele está completamente sozinho agora. Por alguma razão desconhecida, teve uma briga com o irmão e com os amigos. Fica longe e nem sequer fala com eles. Ouvi dizer que até terminou com a namorada.

O garoto não sabia se era um truque da luz ou o quê, mas algo mudou nos olhos do Príncipe Negro. Aquilo lhe deu arrepio, mas continuou, independentemente.

- O relacionamento com os pais ainda está difícil, principalmente com o pai. Tiveram um monte de brigas e ele já deixou o castelo antes por conta disso. Em resumo, Harry está bastante sozinho – finalizou.

- Perfeito – respondeu o homem com a voz profunda e cheia de ódio. – Ele sabe sobre a poção? – indagou.

- Acho que não. O idiota que eu te falei, Creevey, está se certificando que Harry receba as doses em dia. Eu te disse que funcionaria – respondeu Nott, orgulhoso de si por perceber o idiota adorador e a forma que Harry o tratava. Creevey era perfeito para o trabalho.

- Então, ninguém desconfia de você? – perguntou o Príncipe Negro.

- Não, já que eu praticamente ajo como se ainda estivesse com medo dele. Desde que o provoquei a me atacar, todo mundo acha que estou morrendo de medo dele.

- E não está? – perguntou o Príncipe, o divertimento claro em sua voz. Nott fechou a cara.

- Foi por conta dele que perdi meu pai. Meu pai foi morto por causa de Harry Potter! Não me importa quão poderoso ele seja, eu quero destruí-lo!

O homem não respondeu. Ele se dirigiu à janela, observando a manhã se aproximar.

Nott olhou para o homem com atenção. Ele trajava roupas escuras, o cabelo era escuro e tão rebelde quanto o de Potter. Não conseguia distinguir nada de seu rosto, já que sempre estava por trás da máscara prateada.

- Posso te perguntar uma coisa? – indagou Nott.

O homem apenas assentiu.

- Você poderia ter dado qualquer poção a ele. Quer dizer, não teria sido melhor dar um pouco de veneno ao invés de Poção Calmante? – O garoto não conseguia enxergar como a poção para dormir estava fazendo algum estrago.

O homem se virou para encará-lo.

- A capacidade e habilidade de Harry sobre poções não deve ser subestimada. Ele conseguiria detectar a presença de veneno imediatamente. A Poção Calmante é a única que não pode ser detectada quando misturada a uma substância. Seria preciso um dispositivo muito poderoso para detectá-la – explicou.

Nott olhou atentamente para ele.

- Você quer matar Harry, não quer? – indagou o garoto. Imediatamente desejou não ter perguntado.

O homem se virou e olhou furioso para ele, sua raiva fazendo o menino se arrepiar.

- É claro que quero! – sibilou.

O homem se virou para encarar a janela de novo. Seus olhos brilhando à luz do sol, um ódio intenso os preenchendo ao falar:

- Mas quero destruí-lo primeiro!