- Eu sinto muito, mas acho que deve saber...

As palavras do rapaz chamaram a atenção de Inoue. Ela tentava conter o choro, mas entre soluços passou a fita-lo, atenciosamente.

- ... Mas você não pode mais ficar com o Kurosaki de maneira alguma.

Os olhos azuis do quincy desviaram do rosto que contorceu em dúvida e receio em questionar-lhe.

- O quê? – choramingando, Inoue ergueu o rosto e inclinou-se para frente em sua direção. – Do que está falando, Ishida-kun? – a voz tremulou incerta.

- A Kuchiki-san e o Kurosaki, Inoue-san...

E tomando coragem, segurando as mãozinhas finas da princesa, encarou a imensidão acinzentada dos olhos.

- ... Vão ter um filho!

N.A.: Bom, galera, capítulo saindo do forno! Desculpem o atraso, semana corrida! Além de escrever, tenho que trabalhar e ainda escrevo para um site, daí ficou difícil de postar antes! ^^ Bem, esse capítulo marca o inicio de tensão na fic! Afinal, passamos por muitos capítulos fofinhos e estamos entrando na parte mais complicada desde que idealizei a fic! ^^ Quero agradecer a todos que estão acompanhando, ao meu noivo Jorge André que conduz essa fic comigo idealizando todos os detalhes mais preciosos e em especial aos nakamas que dão a maior força deixando reviews e me dando aquela força para continuar: Dalila, JJDani, Clara, Flávia, Mili, Nanda, Mela, Nathália, Pamilla! *_* E vamos ao capitulo!

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Entre o Amor e a Razão

Capítulo 26: Marcas

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Ainda amanhecia quando Ichigo e Rukia chegaram ao Gobantai.

Não traziam tantas coisas mais do que haviam levado. Apenas a morena trazia consigo uma sacola agora com muitos novelos de lã, presente das irmãs de Ichigo, pelo gosto que ela havia adquirido em crochetar roupas para o futuro filho deles.

Mal cruzaram a porta e admiraram a madeira corrida bem encerada, tudo em seu devido lugar e arrumado de forma impecável.

Rukia logo correu para uma das janelas da sala e abriu as cortinas para que a claridade do amanhecer penetrasse o lugar. Ichigo sorriu ao ver os olhos azuis refletirem tão avidamente aqueles raios de sol que adentravam o esquadrão. Rukia estava... radiante. Não havia outra descrição. Exceto pela roupa da shinigami estar deveras apertada, o que lhe fazia soltar um risinho divertido, mas não demorou em encontrar a sacola que havia sido deixada no sofá próximo a janela.

- Que bom, - ele pausou, examinando o conteúdo da sacola. – a Matsumoto-san não esqueceu. – e segurando pelas alças, ele a estendeu para Rukia. – Pegue, Rukia. São suas.

- Hm? – a morena piscou desentendida quando recebeu o pacote. – Que é isso?

Ainda perguntava quando começou a tirar as vestes negras de shinigami da sacola. Quando as abriu, notou serem bem mais largas que as habituais que vestia.

- Assim seu irmão nem ninguém irá notar logo de cara. – o substituto deu uma piscadela.

- É verdade... – ela sorriu. – Mas não disse que íamos contar assim que chegássemos?

- Sim, mas não quero te ver enquanto isso andando por aí com essa roupa que mal cabe em você! – Ichigo aproveitou e apontou o decote do shihakushou da garota que estava quase exibindo seus seios de tão apertado que estava. – Essas vestes são feitas para serem usadas largas, e não como uma...

- Cala a boca! – Rukia interrompeu, tacando-lhe a sacola na cabeça.

Ichigo resmungou massageando o local.

- Não estou assim porque quero. – disse, emburrada enquanto cruzava os braços. – E de qualquer forma, você me deu roupas suficientes para isso.

- É, mas não são roupas que estão acostumados a ver aqui na Soul Society. – Ichigo explicou. – E de qualquer forma, vai demorar mais alguns meses até que as vista. – ele sorriu carinhoso.

Rukia corou.

Via a ternura com a qual Ichigo falava daquele filho, do que acontecia entre eles, e uma felicidade incomensurável preenchia seu coração. Aquela sensação de perfeição que quando se tem, dá a ideia de que vivemos um sonho. Mas não era um sonho. Era real.

- Vá, troque-se. Logo tem reunião dos fukutaichous, não? Não vá se atrasar... – fingiu implicar com ela.

- Rá! – Rukia riu. – Você me cobrando responsabilidades? Que eu saiba o novato aqui é você, SENHOR-CAPITÃO-KUROSAKI! – zombou, mostrando-lhe a língua.

- Baka! – Ichigo resmungou, lançando-se a cadeira defronte a sua mesa. – Vamos ver, será que a Hinamori-san deixou muita coisa pendente? – e foi abrindo as gavetas do móvel.

'- Kurosaki-kun...'

Os olhos castanhos se arregalaram e a mão que puxava a gaveta pela alça pausou em seu movimento incompleto. Olhou para os lados e procurou aquela que o chamava. A voz era inconfundível, mas não se repetiu. Mas por que sentira a respiração praticamente cessar ao ter a impressão de que ouvira? E por que a ouvira tão... maliciosa?

Foi quando Ichigo levou a mão à cabeça. A lembrança daquele sonho que o atormentara parecia persegue-lo. Inoue naquela posição absurdamente indecente, oferecendo-se a ele. As mãos deslizando pelos seios fartos, aqueles lábios que ela mordiscava na tentativa de seduzi-lo... Aquele sangue.

- Ichigo? Ichigo, fale comigo!

E sentindo o ombro ser sacolejado, Ichigo saiu do pequeno transe que se encontrava.

O rosto estava pálido, parecia ter visto uma assombração e os lábios tremiam assim como os orbes amendoados, inconstantes no nada que logo se focou na bela shinigami.

- Rukia?

- Que aconteceu? Está se sentindo bem? – ela perguntou preocupada.

- Sim... – e pausou, apoiando cotovelos à superfície de madeira. Os olhos voltaram a vagar. – Eu... apenas me lembrei de... um pesadelo que tive.

- Ichigo, por que não me conta sobre? – Rukia indagou preocupada. – Já tem quase cinco dias que acorda no meio da noite com o que diz ser o mesmo sonho...

Ele suspirou, preocupado, mas ao mesmo tempo indigesto ao pensar em falar sobre aquilo que tanto o atormentara. Balançou a cabeça e cerrou os olhos quando apoiou o rosto sobre as mãos.

- Não, Rukia. Eu prefiro tentar... esquecer. – ele concluiu de forma pesada.

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- A fukutaichou Kuchiki Rukia deseja falar com o senhor, Kuchiki-taichou!

O nobre que até então tinha os olhos focados em alguns documentos que estavam em sua mão ergueu os olhos e encarou o oficial que, curvado ao batente da porta, anunciava a chegada de sua irmã.

- Mande-a entrar. – ordenou com demasiado desinteresse.

- Sim, senhor.

E assentindo, o homem se reergueu. Curvando-se para pedir licença, deu-lhe as costas e se retirou.

A porta permaneceu aberta e por ela logo adentrou uma Kuchiki Rukia que de alguma forma parecia diferente aos olhos negros de seu irmão.

As bochechas pareciam mais coradas, o azul daqueles olhos brilhava com mais avidez. Havia algo que envolvia a shinigami, algo que a fazia radiar, uma áurea especial.

Chegou a ficar atônito a encará-la. Majestosa, a garota caminhou algo que em torno de dez passos até chegar à frente da mesa onde seu irmão e capitão do rokubantai estava.

Curvou-se em respeito e Byakuya pôde contemplar com perfeição o momento em que ela se reergueu. O rosto alvo bonito moldado pelos cabelos repicados e mais uma vez aquela sensação de que Rukia se tornara uma mulher tão bela quanto fora sua Hisana lhe deixou um tanto quanto atordoado.

- Bom dia, nii-sama.

Byakuya desviou o olhar de volta aos papéis antes de limpar a garganta.

- Bom dia, Rukia. – e batendo a resma em sua mesa, tornou a encara-la. – Sente-se.

Rukia obedeceu e se pôs a cadeira defronte ao nobre.

- Como foi com seu capitão sua estadia em Karakura? – perguntou indiferente.

- Foi ótima, nii-sama. – Rukia respondeu. – A família do Ichigo, digo, do Kurosaki-taichou é ótima, sempre é muito divertidos.

- E ele? Está melhor?

- Sim. – ela sorriu ao assentir. – Ele está completamente recuperado, afinal, faz uma semana que teve alta do yonbantai.

Ao dizer aquilo, uma dor forte atingira seu peito. Lembrou-se de alguém que ali não estava quando chegou. Alguém que estaria ali para zombar dela, para rir com ela. Alguém que... fazia muita falta.

- E o Renji...? – perguntou hesitante.

- Não há notícias dele. – Byakuya foi frio e direto.

- Entendo...

- A sentença dele sairá provavelmente hoje pelo fim da tarde. Yamamoto-soutaichou apenas está à espera de Kurosaki Ichigo, já que ele tem que depor formalmente sobre o ocorrido. O que relatou enquanto estava debilitado não contou como um depoimento.

- Acha que... irão executá-lo? – e mordeu o lábio inferior Rukia ao concluir.

- Não acho que tanto. – Byakuya respondeu, encarando-a. – Mas talvez seja rebaixado. Eu mesmo não quero mais que Renji me sirva como tenente.

- Nii-sama...

A voz tremulou e aquilo não passou despercebido ao nobre.

- Sei que é seu amigo de infância e que preza sua amizade, mas é inaceitável o que aconteceu. Aliás, entenda isso como uma medida para protegê-la.

- Não guardo rancor dele... – Rukia apertou os joelhos cobertos pelo hakama.

- Eu até hoje só não entendi as razões que o levaram a isso. – e fitou de forma intimidadora a irmã. – Espero que o depoimento de Kurosaki Ichigo esclareça melhor.

- Tomara que... que sim, nii-sama. – respondeu Rukia desconfortável.

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Curvando-se na entrada assim que avistou o velho que se postava a sua enorme cadeira naquele salão amplo com abertura privilegiada da Seireitei, Ichigo adentrou o lugar.

Caminhou até o homem que se apoiava em um cajado no meio das pernas enquanto um oficial do ichibantai trouxe-lhe uma almofada, colocando-a defronte ao jovem que se ajoelhou, sentando-se sobre as pernas.

- Que bom que chegou, Kurosaki Ichigo-taichou.

- Arigatou, Yamamoto-soutaichou.

O velho arqueou uma sobrancelha deixando visível um olhar que definia a surpresa pela nítida maturidade adquirida pelo rapaz naquele pouco tempo em que lhe servia como capitão. Mal passavam três meses desde que assumira o posto.

- Creio não ter tido nenhum problema em sua estadia no Mundo dos Humanos, estou certo? – o velho indagou quando se recostou, soltando uma mão do cajado para pentear a longa barba branca enquanto falava com o ex-substituto.

- Não. – Ichigo ergueu a cabeça, sorrindo. – Foi ótimo o tempo que passei com minha família. Agradeço sinceramente.

Surpreso, o velho se assustava com o decoro e postura que Kurosaki Ichigo assumia. Assim que tornou a se curvar no agradecimento, endireitou as costas eretas. Era um capitão admirável. Ah, se todos fossem assim... O velho ponderou.

- Bem, acho que sabe por que o pedi que viesse aqui tão cedo.

- Sim. – e desviou os olhos castanhos. – Eu presumo que sim.

Yamamoto notava o desconforto nos olhos de Ichigo e aquele retorcer inconsciente dos lábios do jovem. Era nítido que ele não queria falar.

Aproximou-se pela lateral do jovem um dos oficiais que se postou na mesinha próxima ao comandante. Ao se acomodar, retirou a pena que estava imersa no tinteiro sobre a superfície, e preparou-se para escrever o que fosse proferido pelos lábios de Ichigo.

- Sinto muito, mas precisamos de seu depoimento. Na verdade, devíamos ter realizado esse procedimento assim que retornou de sua luta com o ex-fukutaichou Abarai Renji, mas...

- Ex-fukutaichou? – Ichigo se exaltou, chegando a se reerguer quando ouvira aquilo. – Como assim, soutaichou? Ele não pode ser...

- Por enquanto Abarai Renji não possui nenhum cargo do Gotei. – o velho interrompeu, da mesma maneira que Ichigo. – Peço que contenha seus impulsos, Kurosaki-taichou.

- Me perdoe. – e timidamente, Ichigo retomou sua postura, suspirando com pesar aquilo que ouvira. Renji não era mais tenente? Não... Não aceitaria isso.

- Bem, a partir de agora tudo o que for dito será anotado pelo escrivão. – anunciou.

Ichigo voltou a suspirar. Os punhos sutilmente cerraram com frustração.

- Não lhe cobramos o depoimento assim que havia encerrado a luta pela gravidade do seu estado. Fomos orientados pela Unohana-taichou a não lhe pressionar naquele instante.

Certo, mas agora podiam? Aquilo não agradara Ichigo. Sentia-se usado... Mordiscou o lábio.

- Diga. Onde estava quando recebeu o aviso de que precisava ir ao encontro de Abarai Renji?

A voz rígida do velho fez o corpo de Ichigo tremer dos pés à cabeça. Manteve-se firme.

E lembrou-se exatamente do que aconteceu.

- Estava acertando a transferência da Rukia, digo, da Kuchiki-fukutaichou para o Gobantai, meu esquadrão.

- Então creio que estava junto do antigo capitão da Kuchiki-fukutaichou, certo?

- Sim. – Ichigo pausou. – Ukitake-san estava conosco. Byakuya estava conosco.

- Hmm... – o velho resmungou enquanto cada atitude, cada gesto dele intrigava Ichigo.

Observava o movimento dos dedos na barba comprida enquanto que ele dava tapinhas com a outra no alto da zanpakutou em forma de cajado.

Será que ele descobriria que Renji estava com raiva porque tinha uma relação amorosa com Rukia?

- Se ambos estavam com você e creio que sua antiga tenente, Hinamori Momo e a atual Kuchiki Rukia estavam, por que ninguém os acompanhou?

- Eu disse que iria sozinho. – ele foi direto. – Alguns oficiais do Gobantai me acompanharam, mas quando notamos o cenário... – e retorcendo o rosto ao lembrar-se dos corpos dilacerados ao chão, ele levou uma mão aos lábios, nauseado. – Disse para que procurassem por sobreviventes e auxiliassem.

- Entendo. Cenário? Especifique o cenário.

- O senhor sabe, Yamamoto-soutaichou, o que aconteceu lá.

- Quem está depondo aqui é você, Kurosaki Ichigo. – o velho retrucou, imponente. – Quem deve responder perguntas aqui é você.

Ichigo encarou os olhos do velho e ambos se fitaram. Faíscas cruzaram o âmbar do par do shinigami substituto, mas aquela intimidação o fez desarmar.

- Aquela... chacina que aconteceu. Havia muitos corpos e... num estado muito... – Ichigo pausou, engolindo a seco. – degradante. – concluiu.

- E o que acontecera com aqueles corpos? Um hollow realmente havia atacado aquelas pessoas de Rukongai?

Ichigo bufou. Aquilo estava indo longe demais. Estava sendo coagido a entregar Renji. Yamamoto sabia muito bem que Renji havia assassinado aquelas pessoas. Não precisaria falar, não havia reiatsu de hollow, apenas a de Renji e os cortes feitos por zabimaru eram bem nítidos.

- Não quero responder isso! – Ichigo, atrevido, declarou.

- Não tem como negar uma questão no depoimento.

Ele virou o rosto consternado. O velho deslizava os dedos pelos fios longos da barba, analisando a reação do rapaz.

- Foram dilacerados por um golpe de espada... – Ichigo respondeu, o rosto retorcido naquela frustração.

- Golpe de espada? De quem?

- Como eu posso saber? – Ichigo vociferou, inclinando-se para frente.

- Meça suas palavras com o Yamamoto-soutaichou!

E aquele interromper fez o substituto virar-se para trás e encarar o tenente do ichibantai que estava nitidamente furioso com o atrevimento do adolescente.

- Não posso permitir que me induza a condenar o Renji! – Ichigo explicou exasperado enquanto o punho batia violentamente contra o assoalho.

- Certo. Pode anotar que os golpes de espada que as almas de Rukongai sofreram foram desferidos por Abarai Renji.

- O quê? – Ichigo arregalou os olhos em descrença. – Eu não afirmei isso! – exclamou.

- Pode dizer mentiras em palavras, mas suas atitudes, seus olhos, sua expressão, elas revelam muito além do que a verdade que tenta esconder. – o velho pausou analisando Ichigo. Ele estava mais que atordoado ali. Pressionado e encurralado. – Saiba que se testemunhar em falso, Kurosaki Ichigo, coloca seu cargo de capitão em risco, além de poder ser condenado.

Ichigo queria explodir de raiva. Nunca pensara estar em tal situação.

Era assim? Na Sereitei, tudo era resolvido com condenações?

Mas então pensou em Rukia, em seu filho... Se continuasse a relutar e desafiar o velho, estaria em maus lençóis.

Provavelmente seria destituído de seu cargo e aquilo não seria nada favorável, ainda mais agora que tinha de assumir Rukia e aquela criança.

Se quisesse ser aceito pela família nobre dos Kuchiki, tinha de, no mínimo, ser um capitão do Gotei. E se concepção de uma vida entre um humano e um shinigami fosse outro crime condenável, teria de estar em uma situação bem favorável para sair dessa situação com a noiva e o filho.

Conteve-se, quase que forçosamente. As mãos tremeram apoiadas aos joelhos. O comandante notara aquilo. Estalou a língua, irritado demais para conter aquela reação. Estava indignado.

- Tragam um pouco de água para o Kurosaki-taichou. – ele ordenou, imperativo. – Creio que ele precise se acalmar.

E não demorou muito para que a frente do jovem de cabelos laranja que mantinha a cabeça abaixada, uma das oficiais a guarda da sala armasse uma bandeja, transformando-a em uma mesinha. A água foi intocada por Ichigo.

- Prossiga, por favor. – ele sibilou.

- Muito bem... O mais importante que quero saber é qual razão Abarai Renji tinha para lhe atacar. – pausou Yamamoto, fitando os olhos castanhos. – Pelo que sei possui uma amizade admirável com ele.

- Sim... – Ichigo assentiu com melancolia. – Renji é um grande amigo meu.

- Então que razão um amigo teria para desferir um golpe mortal em outro?

Um silêncio irritante se instaurou. O velho permanecia curioso ao tentar obter sua resposta.

- Não sei, soutaichou...

- Não perguntou a ele quando lhe atacou? – insistiu.

- Eu estava ferido como o senhor mesmo sabe! Não tinha como questiona-lo.

- Pelo que sei usou um bakudou... – lembrou. – com maestria, devo dizer, ensinado por Kuchiki Byakuya, para resistir à luta, não?

- Não importa. Não usei esse tempo para questionar. – ele foi firme.

- Entendo... – o velho suspirou. – E por último, quero saber se tem conhecimento de alguma ligação entre o sequestro da Kuchiki-fukutaichou ao que aconteceu entre você e Abarai Renji.

- Não que eu saiba, soutaichou. Cheguei e a Rukia já estava liberta. Renji... – e a consciência pesou. – não fez nada contra a Rukia.

Doeu falar aquilo.

A lembrança de Rukia coagida nos braços de Renji que estava a pouco de conseguir violenta-la lhe perturbara. Mas se assumisse aquilo, aí que o tenente estaria em uma situação mais que delicada.

- Entendo. Acho que é o suficiente.

Ichigo suspirou.

- Acho que posso me retirar, então? – ele perguntou realmente louco para sair dali.

- Sim. Está dispensado. – o velho declarou.

Cumprimentando-o, sem hesitar, Ichigo deu-lhe as costas e seguiu porta a fora. Já estava de saída quando a voz do comandante se propagou, fazendo-o estancar em seu caminho.

- A sentença sairá hoje, às 6 horas da noite.

Ichigo engoliu seco e, apenas assentindo, sem virar para trás, saiu.

Ele caminhava em direção ao juusanbantai, onde teria que resolver alguns assuntos com seu capitão, Hitsugaya Toushirou. E foi nesse caminho que encontrou com a pessoa que menos poderia esperar encontrar. Vindo à direção oposta estava Inoue Orihime.

- Kurosaki-kun! – ela exclamou feliz ao vê-lo.

- I... Inoue? – ele gaguejou. Por que ela estava ali?

Vestindo uma saia amarela estampada com flores salmão, mesma cor da blusa justinha que realçava o formato do belo busto que ela vestia, Inoue cessou seu caminhar quando viu o jovem de cabelos alaranjados.

A surpresa e certo desconforto em vê-la ali deram espaço a um sorriso.

- Que surpresa. – disse Ichigo. – Que faz aqui?

- Ah, eu estava com saudades... – Inoue declarou, juntando as mãos na frente do corpo. – Queria conversar com a Kuchiki-san. Daí pedi para o Urahara-san me deixar vir...

- Urahara-San? Poxa, agora que lembrei! Nem fui visita-lo enquanto estive em Karakura. – Ichigo cruzou os braços. Afinal, era seu padrinho. – Que mancada!

- Não se preocupe. Urahara-san não ficaria chateado por isso... – Inoue agitou as mãos na tentativa de descontrair.

- É verdade. – Ichigo sorriu, coçando a nuca. – Bem, eu tenho uma reunião com o Toushirou agora. Mas a Rukia vai passar o dia no esquadrão. – afirmou sorridente. – Pode ir conversar com ela. Aposto que ela vai gostar.

E guiado pela inocência, Ichigo entregava sua amada nas mãos de seu algoz.

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Ele estava já a meia-hora esperando na esquina aonde havia marcado o encontro. Estava ficando impaciente. Será que ela tinha esquecido?

Apalpou o bolso da calça bege social que vestia, mas lá não encontrou o que procurava. Então, subindo a mão pela blusa social azul de gola pólo e mangas curtas, achou o celular em um dos bolsos.

Abriu o aparelho e quando estava a um passo de digitar o número de quem esperava, passos firmes que corriam se aproximaram, chamando sua atenção. Olhou para o lado e logo se deparou com a bela morena.

- Arisawa-san! – ele exclamou.

- Ishida! Me desculpe, me atrasei de novo! – ela aproveitou para checar a hora no relógio de pulso.

- Tudo bem... – o rapaz sorriu.

E naquele gesto era impossível deixar de notar o belo corpo que era vestido por uma camiseta laranja berrante, um colete jeans por cima e as calças também jeans que iam até um pouco acima dos tornozelos. Sempre esportiva, ela tinha um visual realmente atraente.

- Algum problema? – Tatsuki perguntou ao notar o olhar vago do quincy que pairava sobre seu corpo.

- Na... Não, nada. – ele corou, retomando o foco.

Havia algo mais importante a tratar com a amiga.

Não demorou muito para que caminhassem até uma praça próxima. Vendo que não havia crianças brincando, Arisawa se sentou em um dos bancos do balanço e Ishida, divertido ao vê-la se lançar ao brinquedo e começar a se balançar, se pôs ao banco do lado.

O sol estava a se pôr, dando um belo tom alaranjado ao céu e a atmosfera ao redor.

Ali ficaram um tempo antes de começar a conversa.

- Então, o que aconteceu? – a morena começou.

- Bem... – e cessando um pouco o suave balançar, ele a encarou. – Arisawa-san... Fiz algo muito errado.

A Arisawa parou também e fitou os olhos azuis que vagavam pelo chão de terra batida.

- Cometi mais um erro com a Inoue-san. – ele concluiu.

Tatsuki mordiscou o lábio, as mãos apertando com firmeza as correntes que a suspendiam.

- Diga. – ela encorajou.

- A Kuchiki-san... e o Kurosaki... tem um segredo e eu contei a ela. – ele suspirou, os ombros caindo para frente. – Eles vão ter um filho!

Os olhos castanhos da morena se arregalaram. Estava em choque. Ichigo teria um filho?

- Ele está louco? – Tatsuki se levantou, irada. – Como vai criar essa...

- Arisawa-san! – Ishida interrompera, encarando-a. – O Kurosaki sabe como cuidar dessa criança. Acredite. Ele pode fazer isso... – o quincy falou, não querendo expor a realidade que agora o amigo vivia na Soul Society. – O nosso problema é... a Inoue-san.

A menina parecia desnorteada. Uma notícia tão inesperada.

Dando um passo para trás, caiu de volta onde estava sentada. Sua queda dera impulso para que o brinquedo voltasse a balança-la.

- Eu a contei sobre isso por que... pensava que só assim ela esqueceria o Kurosaki. E talvez... – os lábios de Ishida se curvaram, demonstrando a frustração ao se lembrar do pedido que fizera ao lhe dar aquela aliança que lhe fora devolvida. – porque eu queria garantir que a Inoue-san ia esquecer ele para... ficar comigo. – ele concluiu tristemente.

- Imagino a reação da Inoue...

- Surpreendentemente não foi como imaginei. – Ishida revelou. – Mas ela não tem mais ido as aulas, como tem notado.

- Ela me ligou avisando que estava passando um tempo na casa dos tios que a mantém aqui. – Arisawa explicou.

- É? – Ishida piscou.

- Não vamos levar pelo lado ruim, Ishida. – os orbes castanhos estremeceram. – A Orihime é uma boa menina... apesar de tudo que fez pela obsessão que tem com Ichigo.

- Tem razão... – Ishida assentiu triste quando se levantou do balanço.

A morena estava tão absorta naquela chuva de informações que não notara quando um pequeno empurrãozinho em suas costas a fizera começar a balançar. Olhou para trás e viu o rapaz. Ele sorriu e correspondendo ao gesto, Arisawa riu.

Ficaram assim por um bom tempo até que Tatsuki lhe pedisse que parasse e o quincy prontamente segurasse as correntes com firmeza para que ela, sendo ajudada com os pés que deslizavam na terra, freando o impulso, voltasse ao lugar de origem.

Olhou por entre as lentes que tentavam ofuscar aquele belo par de olhos azuis. Ele a encarava com intensidade. Então as mãos masculinas desceram pelos elos da corrente e pousaram sobre a sua. A morena corou, mas logo, no intuito de desfazer o enlace, levantou-se.

Recolheu a mão timidamente enquanto o rosto contorcia em uma expressão que misturava frustração, a vontade que tinha de fazer aquilo, com a decepção consigo própria. Não podia se envolver com o namorado de sua melhor amiga.

- Arisawa-san... – Ishida chamou. – Não faça isso com você mesma.

- Não... estou fazendo nada... – ela explicou.

E como se surgisse de forma divina, o suave badalar do sino de um carrinho que um vendedor de sorvetes trazia ao se aproximar chamou a atenção dos dois.

- Vamos tomar um sorvete? – Ishida ofereceu, sorridente.

- T... tá. – Tatsuki assentiu, forçando um sorriso.

Ela logo se pôs a beira do carrinho e escolheu junto de Ishida. Pegara um sorvete de chocolate enquanto que Ishida quis um de morango. Ele pegava dinheiro do bolso quando sentiu o celular vibrar. Adiantou-se em pagar o homem quando abriu o celular e viu quem era. O arregalar de olhos dele assustara Tatsuki.

- Algum problema?

- Nenhum. Me aguarde aqui, sim, Arisawa-san?

A morena assentiu, abocanhando o picolé enquanto o quincy se afastou. Deveria ser algo particular.

- Diga, Urahara-san. – e pausou para ouvir o loiro que falava do outro lado da linha.

- Ishida-san, como está? – a voz cantada perguntava de forma animada.

- Tudo bem. E as coisas por aí? – Ishida permanecia o assunto, mas apreensivo. Se Urahara lhe ligava, algo não estava certo.

- Sim, está tudo ótimo. – pausou. – Ishida-san! Quero saber se está com a Inoue-san ou tem notícias dela. Desde cedo ela me pediu para abrir o senkaimon para que fosse à Soul Society. – o ex-capitão pausou. – Estou preocupado.

–A Inoue-san? – ele não acreditou no que ouviu. – Como assim ela foi para a Soul Society? – assustou-se.

- É, ela disse que era um pedido da Kuchiki-san. – explicou.

- A pedido da Kuchiki-san? – Ishida sentira o peito apertar de forma quase sufocante.

- Sim. Como ela possui um denreishinki achei bem cabível isso ter acontecido... Será que está tudo bem com a Kuchiki-san e com o Kurosaki-san? – perguntou preocupado. – Eles voltaram tem pouco tempo para lá.

- Já encontro você, Urahara-san! Vou para lá! – Ishida anunciou decidido antes de desligar.

- Algum problema? – perguntou Tatsuki ao se aproximar e ver o quincy exasperado. – Pegue. – e lhe deu o sorvete.

- Sim... – e segurando a mão da morena, rejeitou o picolé. – Por favor, fique com o meu também, Arisawa-san. Tenho que ir a um lugar agora... – e enquanto falava, ele viu certa decepção figurar no rosto da menina. – Me desculpe. É muito urgente.

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Rukia se sentia exausta.

Havia terminado os poucos relatórios que Hinamori havia deixado pendentes, mas seu corpo já reclamava. Não tinha a disposição normal para seus afazeres, que eram até maiores quando estava sob subordinação de Ukitake.

Levantou-se da mesa e caminhou até o sofá aonde havia deixado os novelos de lã, agulhas e algumas roupinhas que já havia bordado que trouxera de Karakura.

Pegando um novelo cor-de-rosa, retorceu o rosto. Será que devia fazer roupinhas para menina? Bem, por que não tentar, afinal, não sabiam mesmo o sexo do bebê e Ichigo havia comprado um vestidinho... Será que ele tinha intuição masculina?

- Bem, eu não sei se você é menino ou menina, - Rukia sorriu. – mas vou fazer um vestido. – ela anunciou fitando a barriga com ternura. – Não reclame. Se for menino, ficará para uma irmãzinha sua. Seu pai já disse.

Rukia riu de si própria. Quando havia se tornado tão doce assim? Era aquele instinto novo que surgia dentro dela ou o efeito da doçura de Ichigo que havia a contagiado? Acariciou o ventre de forma carinhosa, já volumosa o suficiente para que pudesse senti-lo dentro dela. Ainda faltariam no mínimo 6 meses para que o tivesse embalado em seus braços, mas o amor que nutria por aquela criança já era especial demais.

Mas naquele momento em que seu instinto materno falava mais alto, uma surpresa.

Assustou-se quando sentiu uma reiatsu sorrateira tão conhecida tão próxima.

Virou-se para trás, mas antes que o fizesse, uma mão agarrou-lhe os cabelos negros, puxando-os. A morena gritou com o susto e gemeu quando olhou por cima do ombro.

Não. Aquela expressão insana não combinava no rosto tão belo da princesa. Os olhos acinzentados arregalados, as olheiras sob o par de orbes.

- Quem te deu a permissão... – e investindo mais firmeza no aperto, Inoue sussurrou. – para ter um filho com o meu Kurosaki-kun?

- Qu... quê? – Rukia balbuciou em choque.

Sem soltar os cabelos negros da morena, Inoue a puxou para fora do sofá, fazendo a sacola com as roupinhas cair e despejar todo seu conteúdo no chão. Lãs e miúdas roupinhas de bebês que enojaram Orihime enquanto a princesa que caminhava puxando Rukia consigo.

- Olha só, está até tricotando roupinhas para esse... esse...

- Inoue, do que... do que está falando? – Rukia temia aquele olhar sinistro da amiga. O que acontecia? – Eu... não sei do que..

- Acha que não sei que está grávida do Kurosaki-kun? – vociferou.

E quando perguntou aquilo, Inoue puxou mais ainda os cabelos da pequena, colando seu rosto no dela.

Os olhos azuis de Rukia tremiam freneticamente, inconstantes, assim como suas pernas e lábios. Não havia como negar a verdade.

Quando viu os olhos acinzentados de Orihime fitarem seu ventre, ela deixou de tentar se soltar do aperto da outra mão de Inoue que segurava seus cabelos e dominada pelo temor de ter seu bebê como alvo, o cobriu na tentativa de protegê-lo.

Inoue a observava com asco. Algo que nunca Rukia havia visto.

Em seu belíssimo rosto havia uma expressão que expunha o quanto a repugnava, a repelia. Fazia com que Inoue tivesse arrepios.

Ela mordeu o lábio inferior, desviando os olhos, receosa quando viu a menina abrir um riso.

- Está muito enganada se acha que vai ter esse filho nojento!

E sem mais delongas, a arremessou longe, pelos próprios cabelos, fazendo-a se chocar com a parede. O baque havia sido tão forte que derrubou a zanpakutou embainhada que estava apoiada nela.

Rukia se contorceu ao cair no chão. Sentiu as costas doerem, cerrando os olhos com força. Mas não teve muito tempo de se recompor, pois o pé de Inoue lhe acertou com força na boca do estômago, encurralando-a na parede. A morena ficou sem ar, mas com o que pôde encobriu o ventre com os braços.

- I... no... – Rukia tentou falar no meio dos engasgos no qual tentava recuperar a respiração.

- Bobinha... – Inoue riu ao ver o esforço da morena. – Eu já disse que não vai ter esse filho do Kurosaki-kun! – ela disse com seriedade. – Nem que eu tenha que arranca-lo de dentro de você. – bradou entre os dentes.

O medo corroía Rukia. Aquela vida dentro de si estava em perigo e finalmente tomara noção de que Inoue realmente estava ali para acabar com seu filho. Era tudo tão... surreal.

Lembrou-se da Inoue sorridente e feliz. Aquela menina doce que um dia conhecera. Aquela que se culpava porque não rezava para seu irmão. Aquela que era apaixonada por Ichigo. Aquela que fora salva-la na Soul Society. Aquela menina... incrível que ela era. Inoue Orihime era digna de inveja. Era linda, bonita, inteligente, a melhor aluna da classe, um poço de doçura... Não era aquela que estava na sua frente.

Aquela... era um monstro.

Argumentar era a última saída se quisesse sair viva... com seu filho.

- Inoue... você... esse bebê... não tem nada a ver... com o que tem contra mim! – Rukia, de joelhos, tentava se levantar, mas a dor que a acometia era mais forte para derruba-la. – Tenha piedade, por favor!

- Piedade? – gargalhou Inoue. – Kuchiki-san, você teve piedade quando tirou o Kurosaki-kun de mim? – e desferiu um novo chute no ventre da amiga, que atingira com tudo o braço da morena. – Teve?

Rukia gritou, sentindo o osso do antebraço esquerdo ser fraturado. Lágrimas brotaram de seus olhos, confusos e assustados.

Inoue ria ao vê-la daquela forma. Deu-lhe as costas e caminhou até próximo ao sofá, recolhendo com nojo, segurando pela ponta dos dedos cada roupinha crochetada por Rukia.

- Acho que isso não será mais necessário! – anunciou Orihime ao começar a esgarçar a pecinha azul que tinha em mãos, arrebentando a lã trabalhada.

Fez aquilo de uma a uma enquanto Rukia tentava se recompor. A morena só tinha algo em mente: fugir. Por mais que seu coração se partisse ao ver o que fizera com tanto amor e carinho ser destruído por tanto... ódio. Tinha que sair dali. Encontrar Ichigo. Encontrar alguém.

Ela se apoiava pelas paredes, cambaleando, quando Inoue percebera o movimento.

Largou a pecinha dessa vez branca que tinha em mãos ao chão e se voltou a ela.

Rukia notou que havia sido descoberta e assistiu no rosto de Inoue aquele riso repleto de malícia surgiu novamente. O sorriso de Inoue que jamais a morena imaginaria existir. Era... outro ser.

Apoiou-se a parede e como última saída em seu desespero, ergueu a palma da mão na direção da garota que se assustou e conjurou.

- Bakudou no 61, Rikkujoukourou!

Logo seis feixes de luz apareceram em volta de Inoue. Rukia suspirou com alivio, mas antes que a imobilizassem, Inoue tinha uma carta na manga.

- Santen kesshun. – ela murmurou.

As três fadas logo formaram o escudo alaranjado que a protegeu do bakudou da shinigami que ficou em choque. O que sobrara do kidou se desfez e Orihime seguiu seu caminho sem mais problemas.

Chegou até Rukia que mordia os lábios com força, avermelhando os lábios.

- Inoue... o Ichigo... Pense no Ichigo! – ela ainda tentava argumentar, ignorando a dor que sentia. – Ele não vai ficar feliz em saber que fez mal a mim, digo, ao filho dele também... Inoue, você está querendo o fim de uma criança que é filho de...

E a fala de Rukia foi interrompida pela gargalhada da outra. Orihime ou o que sobrara de sua sanidade e caráter, chegou a abraçar a si mesma, tentando conter o riso, mas era impossível. Então quando cessou, encarou a morena.

- Acha que o Kurosaki-kun realmente quer isso que carrega com você?

Rukia piscou, atônita.

- Ele é jovem, bonito e tem uma vida toda pela frente... – prosseguiu. – Acha que ele vai ficar nesse mundo idiota que ele não pertence? Você nem ao nosso mundo pertence. Nem humana é... – ela riu maliciosa quando os olhos acinzentados se chocaram com os marejados azuis. – Essa criança não é humana nem shinigami! É uma aberração!

O sangue da morena ferveu. Agora Inoue estava indo longe demais. Tentou se reerguer novamente, mas ela ainda não havia terminado.

- O Kurosaki-kun precisa de uma H-U-M-A-N-A! – sibilou, gritando aos quatro ventos. – Ao menos se fosse bonita... Você já se viu no espelho, Kuchiki-san? Acha realmente que ele se interessa por você?

Rukia tinha os lábios entreabertos. Estava chocada com o que ouvira.

- E acredite, estou lhe poupando. Daqui a alguns meses você vai estar tão gorda que ele nem vai querer saber de você. E sabe para onde ele vai? – e abraçou a si mesma, enlevando os seios fartos. – Para mim.

Sua amiga achava isso dela? Era esse tipo de sentimento que ela possuía?

Não. Não podia ser verdade. Algo acontecia com Inoue. Mas antes que se preocupasse com a razão que a levava a tal loucura, Inoue se aproximava com aquele olhar repleto de maldade.

Não tinha saída. Tinha que se defender. Mas as pernas já fraquejavam muito e a dor no ventre era intensa. Acabou caindo de volta ao chão, o corpo esparramado pelo assoalho.

Os passos de Orihime se aproximando eram como o prelúdio de que perderia seu filho. Não deixaria. Tinha que se defender. E foi quando ergueu os olhos e viu a espada embainhada caída ao chão, próximo a ela.

Estendeu o braço, esticando os dedos para que alcançasse a zanpakutou. Conseguiu com o último esforço segurá-la pelo cabo. Mas o brilho de esperança que cruzou o azul dos olhos de Rukia se desfez quando o pé de Inoue esmagou seu pulso, fazendo-a gritar com a dor e consequentemente soltar a espada.

- Vai tentar me matar? Com sua zanpakutou? – riu Inoue. – Que idiota. – e chutou a espada para longe do alcance da shinigami.

Rukia se contorceu, levando a mão ferida ao peito enquanto encobria o ventre com a outra.

Inoue caminhou até onde a espada estava e, sem pestanejar, Rukia voltou a tentar se reerguer. A princesa, enquanto isso, admirava a arma embainhada por alguns instantes.

Apoiou-se a parede com as duas mãos. A vista já estava embaçada e dificultava sua saída dali. Apenas ouviu o barulho da lâmina desembainhando da espada. Não conseguiu se virar para trás a tempo.

Inoue estava com a sua zanpakutou em mãos, a lâmina brilhante sedenta pelo sangue de sua dona. Mas ela era pesada demais, a princesa não tinha habilidade em segura-la e sem querer, acabou fazendo-a escapar de suas mãos.

Por sorte, Inoue não se machucou, mas a lâmina afiada, no retomar de suas mãos, acabou por cortar um pequeno retalho da saia. Ela estalou a língua, irritada.

Sem conseguir enxergar com nitidez, Rukia ainda tentou virar de frente, mas a lâmina firme como um cutelo foi fincada nas suas costas. Perfurando a pele e sendo travada pelo corte mal feito.

A morena virou-se para trás, descrente no que via e sentia. Não sentia dor.

- Droga! – Inoue resmungou ao ver que errara, não sabia manejar a espada.

- I... Ino...ue? – os olhos azuis de Rukia misturavam descrença e decepção.

A lâmina de sua própria espada fincada na vertical em sua pele foi retirada de forma desajeitada por uma Inoue inexperiente e irritada pelo erro. Rukia soltou um sofrido grunhido ao sentir a lâmina sair do contato com a pele.

Tombando para frente, Rukia se apoiou, arfando. Mas não teve tempo. Um corte na diagonal, desta vez sendo certeiro, de baixo para cima, cruzou as costas da morena, rasgando o shihakushou e o shitagi branco e abrindo um enorme vão rubro nas costas de Rukia. Tamanho desajeito da ação de Inoue fez o sangue espirrar, tingindo o rosto bonito de sua algoz e a parede que servia antes de apoio a shinigami que soltou um grito agudo ao receber o golpe.

O corpo miúdo despencou no chão. Os olhos fracamente abertos ainda enxergavam Inoue sorrir.

Rukia estendeu fracamente o braço, tentando se reerguer, mas era impossível. As costas ardiam, a dor no ventre a maltratava e nenhum esforço que fizesse seria capaz de tira-la das mãos de Inoue.

- I... Ichi...

E sem antes completar o nome de seu amado e protetor, os olhos azuis perderam o brilho, ganhando um tom opaco e a morena os cerrou. Rukia naufragou no escuro infinito da inconsciência.

- Hmpf... – Inoue riu. – Ainda tentando chamar o Kurosaki-kun? – agachou-se. – Ele não vai vir te ver, Kuchiki-san! – e acariciou de forma lasciva com a ponta dos dedos o rosto desacordado da morena. – Não vim matar você. E mesmo que viva, essa marca horrível vai ficar nas suas costas e o Kurosaki-kun não vai mais te querer!

E os olhos acinzentados fitaram o pequeno brilhante na mão de Rukia. A joia, banhada em rubro, reluzia mesmo que fracamente.

"- Faz muito tempo que conheci a Rukia... E pouco a pouco fui descobrindo o tempo que desperdicei negando que a amava. Estamos juntos há muito tempo, mas a pouco eu descobri que ela realmente é a mulher da minha vida! – exclamou. – Eu armei tudo isso com o Urahara-san hoje, Rukia para... – e se ajoelhou, tirando do bolso da calça uma pequena caixa. – perguntar se você quer se casar comigo? – questionou ele ao abrir a caixinha e lhe exibir o belo par de alianças."

Aquela frase de Ichigo, aquela cena, aquele par de alianças que se mostrava dentro da caixinha que ele oferecia com tanto amor e paixão nos olhos castanhos... Aquela cena era exibida na íntegra, perfeitamente, por sua mente, ou melhor, seu coração. Havia sido gravada para sempre.

Com raiva, puxou a mão de Rukia com força, mas sem esforço, por ela não ter como reagir, arrancou de seu dedo anelar a aliança.

Voltou a se levantar e ficou a admirar a joia que ainda estava embebida pelo liquido viscoso vermelho. Foi quando a levou aos lábios e a língua deslizou pelo aro dourado, lambendo o sangue derramado de Rukia. Foi quando curiosa, Inoue observou o interior dela, havia algo gravado.

"I. R. The rain stopped" - "I. R. A chuva parou".

Lágrimas amargas brotaram dos olhos de Inoue. Voltou a fitar Rukia e a aliança, mas não era aquilo que via. Era apenas vermelho. Aquele vermelho que tingia suas mãos, o assoalho, o corpo de Rukia. Tremeu.

Tremia tanto que a aliança escapou de suas mãos e caiu no assoalho, emitindo um ruído agudo do metal se chocando com a madeira e logo se perdendo no mar de sangue que Rukia esvaia.

Inoue caiu de joelhos, esparramando-se no chão.

Chocou-se ao ver o que tinha a sua frente.

O que tinha feito?

As mãos tremulavam sobre os lábios.

Rukia estava... morta?

Como tinha sido capaz?

- Kuchiki-san... – ela estendeu a mão trêmula em choque, tentando alcançar o corpo da amiga.

Desesperou-se. Chorou. Sentia-se suja, imunda.

As mãos e o rosto estavam banhados com o sangue de Rukia. E como sentira prazer em tira-lo dela.

Não era assim. Nunca fora assim.

Má.

Nojenta.

Cruel.

Levando as mãos a cabeça, Inoue gritou. Consumida pelo desespero, abraçou a si mesma, mas seu lamento fora interrompido quando ouviu passos se aproximarem e uma reiatsu conhecida. Em um ímpeto, recolheu a joia do chão e saiu correndo pela porta que dava para o jardim de inverno.

- Rukia!

Ichigo gritava ao adentrar o local.

Estava se sentindo estranho desde que encontrara Orihime mais cedo. Um mau pressentimento não lhe deixara prestar atenção em nada enquanto estava com Hitsugaya, deixando-o tão furioso que o dispensara antes do combinado.

E a sensação da reiatsu de Rukia diminuir havia lhe desesperado ainda mais.

Pensou em ser uma cisma sua, mas estava o dia todo em trabalho burocrático e não havia tido nenhum alerta de emergência. Não teria como ela não estar bem. Será que havia passado mal?

Os passos que corriam freneticamente pelo assoalho de madeira do jardim externo finalmente chegaram até a origem daquela enfraquecida reiatsu. Cruzando o batente, estancou. Levou uma mão aos lábios trêmulos, ofegante não só pela corrida enlouquecida até o gobantai, mas pela cena que presenciara.

A espada largada ao chão, banhada em sangue assim como o assoalho e parte da parede. A bainha da espada mais a frente e em seguida aquela cena que lhe chocara.

Uma piscina rubra servia de leito para o corpo caído da amada. Vermelho tingia seu rosto e membros, pintava suas roupas e o assoalho. A espada que lhe pertencia também estava maculada com a cor vívida.

Os lábios entreabertos e os olhos cerrados confirmavam que ela não estava consciente, mas instintivamente, um braço da pequena cobria seu ventre, parecendo tentar protege-lo.

Aquela imagem fez o chão de Ichigo ruir. Caiu no vazio, inconstante, vacilando em dar o primeiro passo quando estendera o braço na tentativa de chegar ao corpo da shinigami.

Ela estava viva. Não estava?

Mesmo com sua reiatsu por um fio?

E seu filho também, não?

Ele tremia de tal forma que sua visão ficou turva, cedendo ao nervosismo.

Seu mundo havia desabado. Aquela que lhe protegia da chuva estava caída.

O azul daquele céu havia se perdido em uma escuridão cinzenta em que com trovões anunciavam uma forte tempestade. E a chuva que pensara ter cessado, ainda podia voltar a cair.

- Rukia!

Continua...