oi flores... capitulo tenso... finalmente o Ed vai contar a verdade... espero que gostem... e não se esqueçam das minhas reviews... bjuxx^^
Bella estava sentada num silêncio furioso, enquanto Edward guiava o Jeep pela Shell Road. Não lhe daria a satisfação de saltar de um veículo em movimento, nem de sair correndo quando ele parasse. Simplesmente o esfolaria vivo quando não houvesse mais o perigo de saírem para fora da estrada.
— Não era assim que eu queria — murmurou Edward. — Preciso falar com você. É importante. Mas você escolhe o pior momento possível para a encenação da indiferença feminina.
Ele ignorou o grunhido de advertência de Bella e cavou um buraco ainda mais fundo para si mesmo.
— Não me importo com uma briga. Em circunstâncias razoáveis, acho que uma boa briga serve para desanuviar o ambiente. Mas estas não são circunstâncias razoáveis e sua irritação só contribui para complicar uma situação que já é bastante dolorosa.
— Então a culpa é minha. — Ela respirou fundo, enquanto Edward parava o Jeep, com um solavanco, na frente do chalé. - Vamos, diga, a culpa é minha?
— Não se trata de uma questão de culpa, Bella. Essa é a ...
Ele parou de falar, ocupado demais para se defender. Bella não o atacou com dentes e unhas, com acusações veementes. Agrediu-o com os punhos cerrados, e o primeiro de vários socos passou direto por sua guarda.
— Jesus Cristo!
Edward desejou poder rir dos dois. Desejou poder dominá-la logo, imobilizar aqueles braços surpreendentemente fortes. Mas isso não foi possível.
Sentiu o gosto de sangue na boca e pensou que talvez estivesse com o maxilar fraturado. Mas finalmente conseguiu imobilizá-la no banco, os dois ofegantes.
— Quer parar com isso? Pode exercer o mínimo de controle e parar de tentar transformar meu cérebro... que está em perfeito funcionamento, posso lhe assegurar... numa massa sangrenta?
Edward reforçou a pressão de suas mãos e mudou de posição quando ela tentou levantar o joelho para deixá-lo nocauteado.
— Não quero machucá-la.
— E uma pena, porque eu quero machucá-lo. Quero arrebentá-lo por me tratar dessa maneira.
— Desculpe. — Ele aproximou o rosto dela, ainda tentando recuperar o fôlego. — Desculpe, Bella.
Ela recusou-se a abrandar, recusou-se a reconhecer como seu coração disparou ao perceber um desespero total na voz de Edward.
— Você nem sabe pelo que está pedindo desculpa.
— Por muito mais do que você pode imaginar. — Ele inclinou-se para trás e fitou-a nos olhos. — Por favor, vamos entrar. Tenho coisas para lhe contar... coisas que eu gostaria de nunca ter de dizer. Depois que eu contar tudo, você pode me agredir até me deixar todo machucado. Juro que não levantarei um dedo para impedi-la.
Havia alguma coisa errada, horrivelmente errada. A raiva se converteu em medo. Ela manteve a voz fria, antes que a imaginação pudesse se tornar delirante:
— Estamos combinados. Eu entrarei e você pode dizer o que quiser. E depois tudo acabará entre nós.
Bella empurrou-o e abriu a porta do Jeep, enquanto acrescentava, em voz baixa e vibrante:
— Porque ninguém vai me abandonar desse jeito. Nunca mais. Ele sentiu um aperto no coração. Entrou primeiro no chalé.
Acendeu a luz.
— Eu gostaria que você sentasse.
— Não preciso sentar e não me interessa o que você gostaria. Como pôde ir embora sem me dizer nada? — Mesmo enquanto o contornava, Bella passou os braços em torno de si mesma, num gesto defensivo. — Como foi capaz de sair de minha cama e partir sem qualquer aviso? E passar tanto tempo longe, quando não podia deixar de saber como isso me faria sentir. Mesmo que estivesse cansado de mim, ainda poderia ser gentil.
— Cansado de você? Querido Jesus, Bella, não fiquei um minuto dos últimos oito dias sem pensar em você, sem ter desejado sua presença.
— Acha que sou bastante estúpida ou carente para acreditar nesse tipo de mentira? Se pensasse em mim, não teria virado as costas como se eu não tivesse a menor importância.
— Se não tivesse importância, mais do que qualquer outra coisa em minha vida, eu poderia ter ficado. E não precisaríamos ter esta conversa.
— Você me magoou, me humilhou...
— Eu amo você.
Bella deu um salto brusco para trás, como se estivesse evitando um golpe.
— Espera que eu fique com os joelhos bambos agora? Acha que pode dizer isso e eu correrei para seus braços?
— Não. Eu não a amaria se você não fosse capaz de continuar parada aí e cuspir em mim depois do que eu disse.
Edward adiantou-se, cedendo à necessidade de tocá-la. Apenas um roçar das pontas dos dedos pelos ombros.
— E eu a amo, Isabela. Talvez sempre tenha amado. Talvez aquela menina de sete anos tenha me arruinado para todas as outras mulheres. Não sei. Mas preciso que você acredite em mim. Preciso dizer isso e quero que você acredite em mim, antes de começar a dizer o resto.
Ela fitou-o nos olhos e agora seus joelhos começaram a tremer.
— Você fala sério.
— O suficiente para pôr meu passado, meu presente e meu futuro em suas mãos.
Ele pegou as mãos de Bella por um momento. Estudou-as, memorizou-as, depois largou-as.
— Voltei para Nova York. Procurei um amigo da família, um médico. Neurologista. Queria que ele me submetesse a alguns exames.
— Exames? — Aturdida, ela empurrou os cabelos para trás. — Que tipo de... ó meu Deus!
Ocorreu-lhe de repente, como um punho acertando seu coração com toda força.
— Você está doente. Um neurologista? O que é? Um tumor! — O sangue nas veias de Bella ficou gelado. — Mas pode fazer um tratamento. Pode...
— Não estou doente, Bella. Não tenho nenhum tumor. Não há nada de errado comigo. Mas eu precisava ter certeza.
— Não há nada de errado? — Ela tornou a se abraçar. — Não compreendo. Você voltou a Nova York para fazer exames no cérebro quando não há nada de errado com você?
— Eu disse que precisava ter certeza. Porque pensei que podia ter blecautes, sonambulismo ou estados de fuga. E que talvez tivesse matado Susan Peters.
Bella arriou, cautelosa, apoiando a mão no encosto da poltrona, para sentar no braço. Não desviou os olhos de Edward.
— Por que pensaria uma coisa tão absurda?
— Porque ela foi estrangulada aqui na ilha. Porque seu corpo foi escondido. Porque o marido, a família e os amigos poderiam passar o resto de suas vidas sem saberem o que acontecera.
— Pare com isso! — Bella não conseguia respirar direito. Tinha de resistir ao impulso de erguer as mãos para tapar os ouvidos. Seu coração disparara, fazendo a cabeça girar, deixando a pele úmida. Conhecia os sinais: era o pânico à espreita para dar o bote. — Não quero ouvir mais nada.
— Também não quero contar mais nada. Mas nenhum dos dois tem opção. — Edward respirou fundo para confrontar não apenas a revelação, mas também Bella. — Meu pai matou sua mãe.
— Isso é uma loucura, Edward. — Ela queria se levantar e sair correndo, mas não era capaz de se mover. — E é cruel.
— É as duas coisas. E também é verdade. Há vinte anos, meu pai tirou a vida de sua mãe.
— Não. Seu pai... o Sr. Carlisle... era gentil, um amigo. Isso é um absurdo. Minha mãe foi embora. — A voz tremia. Bella levantou-se. — Ela simplesmente foi embora.
— Sua mãe nunca deixou Desire. Ele... levou o corpo para o pântano. Sepultou-a no pântano salgado.
— Por que está dizendo isso? Por que está fazendo isso?
— Porque é a verdade. Já a evitei por tempo demais. — Edward forçou-se a dizer o resto, a terminar, enquanto ela fechava os olhos e sacudia a cabeça. — Ele planejou tudo desde o momento em que a viu, assim que chegamos, naquele verão.
— Não! Não! Pare com isso!
— Não posso parar o que já aconteceu. Ele mantinha um diário e... a prova num cofre. Encontrei depois que ele e minha mãe morreram.
— Você encontrou... — As lágrimas vazaram pelas pestanas de Bella, enquanto ela se apertava ainda mais e balançava. — E voltou para cá.
— Voltei para enfrentar, para tentar recordar como fora aquele verão. Como ele era... naquele tempo. E tentar decidir se deveria deixar tudo enterrado ou contar à sua família o que meu pai fizera.
O fluxo familiar de pânico doentio dominara Bella com um estardalhaço em sua cabeça, uma corrida vertiginosa do sangue nas veias.
— Você sabia. Sabia o tempo todo. E voltou para cá. Levou-me para a cama mesmo sabendo. — A náusea deixava-a tonta. Ela cambaleou. — Esteve dentro de mim.
A raiva borbulhou um instante antes de a mão acertar o rosto de Edward.
— E eu o deixei entrar. — Ela deu outro tapa. Ele não se defendia nem se esquivava. — Sabe o que isso me faz sentir?
Edward já sabia que ela o fitaria assim, com raiva e repulsa, até mesmo medo. Ele não tinha opção a não ser aceitar.
— Não fui capaz de enfrentar. Meu pai... ele era meu pai.
— Ele a matou, tirou-a de nós. E durante todos esses anos...
— Bella, eu não sabia até que ele morreu. Venho tentando tomar uma decisão há meses. Sei o que está sofrendo agora...
— Não pode saber. — As palavras saíram incisivas. Queria magoá-lo, queria fazê-lo sofrer. — Não posso ficar aqui. Não posso olhar para você. Não!
Bella recuou, os punhos cerrados, quando ele estendeu as mãos em sua direção.
— Não me toque. Eu seria capaz de matá-lo por já ter posto as mãos em mim. Fique longe de mim e de minha família, seu filho-da-puta !
Quando ela correu, Edward não tentou detê-la. Não podia. Mas acompanhou a fuga errática a distância, mantendo-a à vista. Se nada mais podia fazer, pelo menos garantiria que ela chegasse sã e salva a Santuário.
Mas não foi para lá que Bella correu.
Ela não podia voltar para casa, não suportaria, não podia recuperar o fôlego nem desanuviar a visão. Parte dela queria simplesmente arriar no chão, enroscar-se toda e gritar, até esvaziar a mente e o corpo do sofrimento, Mas estava apavorada com a possibilidade de nunca mais encontrar forças para se levantar.
Por isso, ela continuou a correr, sem pensar no destino, pelas árvores, pela escuridão, com imagens terríveis aflorando em sua cabeça.
A foto da mãe adquirindo vida. Os olhos abrindo-se. Confusão, medo, desespero. A boca abrindo-se para um grito.
A dor apunhalava Bella como uma faca. Ela suportava, chorando, sem parar de correr.
Na areia agora, acompanhada pelos estrondos do mar. A respiração entrando e saindo com dificuldade dos pulmões torturados. Caiu uma vez, sobre as mãos e joelhos, somente para se levantar de novo, cambaleando, e continuar a correr. Sabia apenas que tinha de escapar, fugir da dor, daquela angústia que a dilacerava.
Ouviu alguém gritar seu nome, o som de passos na areia em sua esteira. Quase tropeçou de novo, mas recuperou o equilíbrio e virou-se, pronta para lutar.
— Bella, querida, o que aconteceu? — Apenas de roupão, os cabelos ainda molhados do banho de chuveiro, Rose correu para ela. — Eu estava no deque e vi quando você...
— Não me toque!
— Está bem. — Numa reação instintiva, Rose baixou a voz e tornou-a mais gentil: — Por que não vamos até minha casa? Você se machucou. Está com as mãos sangrando.
— Eu... — Confusa, Bella olhou para os arranhões, o sangue escorrendo nas mãos. — Eu caí.
— Sei disso. Vamos entrar. Limparei os ferimentos.
— Não preciso... estou bem. — Ela não podia sequer sentir as mãos. As pernas começaram a tremer, a cabeça a girar. — Ele matou minha mãe, Rose... a assassinou. Ela morreu.
Cautelosa, Rose adiantou-se, até poder passar o braço pela cintura de Bella, para ampará-la.
— Venha comigo. Vamos para minha casa.
Como Bella cambaleasse, ela quase a carregou pela areia. Ao olhar para trás avistou Edward, parado a poucos metros de distância. Ao luar, seus olhos se encontraram por um instante. Depois, ele virou-se e afastou-se pela escuridão.
— Estou me sentindo tonta... — balbuciou Bella.
A sensação voltara, como pequenas agulhas espetando toda a sua pele, gordura fervendo em seu estômago.
— Não se preocupe. Só precisa deitar um pouco. Apóie-se em mim e logo estaremos em casa.
— Ele a matou. Edward sabia. E me contou. — Era como se ela flutuasse agora, subindo os degraus, entrando no chalé. — Minha mãe morreu.
Sem dizer nada, Rose ajudou Bella a deitar. Estendeu uma colcha para cobri-la. Bella começava agora a tremer do choque.
— Respire devagar — ordenou Rose. — Concentre-se em respirar. Vou buscar uma coisa para ajudá-la, mas volto logo.
— Não preciso de nada. — Uma nova onda de pânico envolveu-a. Ela apertou com toda força a mão de Rose. — Não quero sedativos. Posso agüentar tudo. Tenho de agüentar.
— Claro que pode. — Rose sentou na beira da cama e pegou a mão de Bella para verificar o pulso. — Acha que tem condições de me contar o que aconteceu?
— Tenho de contar a alguém. E não posso dizer à minha família por enquanto. Não posso enfrentar isso agora. Não sei o que fazer. Nem mesmo sei o que sentir.
A pulsação já não era tão acelerada e as pupilas de Bella começavam a voltar ao normal.
— O que Edward lhe disse, Bella?
Ela olhou para o teto, concentrou-se.
— Ele me disse que seu pai assassinou minha mãe.
— Ó Deus! — Horrorizada, Rose levantou a mão de Bella para seu rosto. — Como aconteceu?
Não sei. Não pude escutar mais nada. Não queria escutar. Ele disse que seu pai a matou e que tinha um diário. Edward descobriu e voltou para cá. Fui para a cama com ele. — Lágrimas escorreram dos olhos. — Fui para a cama com o filho do assassino de minha mãe.
Rose sabia que havia necessidade de calma agora. E de uma lógica fria. A palavra errada, o tom errado e Bella poderia ter um colapso em suas mãos.
— Bella, você dormiu com Edward. Gostava dele e ele de você.
— Ele sabia. Voltou para cá sabendo o que o pai fizera.
— E deve ter sido muito difícil para ele.
— Como pode dizer isso? — Furiosa, Bella soergueu-se, apoiada nos cotovelos. — Difícil para ele?
— E corajoso — murmurou Rose. — Bella, que idade ele tinha quando sua mãe morreu?
— Que diferença isso faz?
— Nove ou dez anos, eu imagino. Apenas um menino. Vai culpar esse menino?
— Não. Mas ele não é mais um menino, e seu pai...
— O pai dele. Não ele.
Um soluço escapou, abafado, depois outro.
— Ele a tirou de mim.
— Sei disso e lamento. — Rose abraçou Bella. — Lamento profundamente.
Enquanto Bella chorava em seus braços, Rose refletiu que aquela tempestade era apenas o início.
Levou uma hora antes que Bella pudesse pensar de novo. Ela tomou o chá quente e doce feito por Rose. O pânico doentio se desvanecera num mar de tristeza. Agora, por um momento, o pesar era quase tão tranqüilizante quanto o chá.
— Eu sabia que ela estava morta. Parte de mim sempre soube, desde a ocasião em que aconteceu. Sonhava com ela. Ao ficar mais velha, tratei de reprimir os sonhos. Mas sempre voltavam. Eforam se tornando cada vez mais fortes
— Você a amava. Agora, por mais horríveis que as coisas sejam, sabe que ela nunca a deixou.
— Ainda não consigo encontrar conforto nisso. Queria machucar Edward. No físico, no emocional, causar-lhe dor por todos os meios possíveis. E consegui.
— E acha que isso é uma reação anormal? Dê uma chance a si mesma, Bella.
— Estou tentando. Quase sofri outro colapso. Teria acontecido se você não aparecesse.
— Mas eu apareci. — Rose apertou a mão de Bella. — E você é mais forte do que pensa. Bastante forte para passar por isso.
— Tenho de ser. — Bella tomou mais chá, para depois largar a xícara. — Tenho de voltar para o chalé de Edward.
— Não tem de fazer qualquer outra coisa esta noite além de descansar.
— Não. Nunca perguntei por que, como ou... — Ela fechou os olhos. — Preciso ter as respostas. Não creio que possa viver com isso até ter as respostas. Quero saber de tudo quando for conversar com minha família.
— Pode procurar sua família agora. Irei com você. E melhor fazerem as perguntas juntos.
— Tenho de fazer isso sozinha. Estou no centro de tudo, Rose. A cabeça de Bella latejava de uma maneira terrível. Quando abriu os olhos, estavam brutalmente sombrios no rosto pálido.
— Estou apaixonada pelo homem cujo pai assassinou minha mãe.
Quando Rose a deixou no chalé de Edward, Bella pode ver sua silhueta através da porta de tela. Especulou se qualquer dos dois faria algo mais difícil na vida do que enfrentar o passado e um ao outro.
Edward não disse nada quando ela subiu os degraus. Abriu a porta edeu um passo para o lado, a fim de deixá-la entrar. Pensara que nunca mais tornaria a vê-la. Não tinha certeza do que seria pior, conviver com isso ou vê-la daquele jeito, pálida e abalada.
— Preciso lhe perguntar... preciso saber.
— Direi tudo o que puder.
Bella esfregou as mãos, para que a pequena dor das palmas arranhadas a mantivesse concentrada.
— Eles... tinham algum envolvimento?
— Não. — Edward tinha vontade de se virar, mas forçou-se a fitar a angústia nos olhos de Bella. — Não havia nada assim entre os dois. Até mesmo no diário ele escreveu que sua mãe era devotada à família. Aos filhos, ao marido. Bella...
— Mas ele queria que houvesse. Ele a desejava. — Bella abriu as mãos. — Eles brigaram? Houve um acidente.
Sua respiração saiu trêmula, as palavras soaram como uma súplica:
— Foi um acidente — disse ela.
— Não. — Era pior, pensou Edward, e a cada segundo que passava ficava pior. — Ele conhecia os hábitos de sua mãe. Estudou-os. Ela costumava passear à noite pelo jardim.
— Mamãe... adorava as flores à noite. — O sonho que tivera na noite em que encontraram Susan Peters aflorou na mente de Bella. — Amava as flores brancas em especial. Amava os perfumes e o silêncio. Dizia que era seu tempo sozinha.
— Ele escolheu a noite — continuou Edward. — Pôs uma pílula para dormir no vinho de minha mãe... para que ela não soubesse que ele saíra. Registrou tudo o que fez no diário, passo a passo. Escreveu que esperou Renée na beira da floresta, a oeste da casa. — Matava-o aos poucos contar tudo fitando Bella. — Bateu em sua cabeça para deixá-la inconsciente e levou-a para a floresta. Tinha tudo já preparado, as luzes, o tripé armado. Não foi um acidente. Foi planejado. Foi premeditado. Foi deliberado.
— Mas por quê? — Bella tinha de sentar. As pernas rígidas e frágeis como gravetos, ela cambaleou para uma poltrona. Lembro-me dele. Era gentil comigo. Papai levava-o para pescar. E mamãe fazia torta de pecã de vez em quando porque ele gostava.
Ela deixou escapar um gemido desamparado. Comprimiu os dedos contra os lábios para se controlar.
— Ó Deus, quer que eu acredite que ele a assassinou sem qualquer razão?
— Ele tinha um propósito. — Edward virou-se. Foi até a cozinha para pegar uma garrafa de scotch num armário. — Nunca se poderia chamar aquilo de razão.
Edward derramou o uísque num copo, tomou depressa e soltou um suspiro quando desceu ardendo. Com as palmas no balcão, esperou que o sangue assentasse.
— Eu o amava, Bella. Ele me ensinou a andar de bicicleta, a pegar uma bola baixa no beisebol. Prestava atenção. Sempre que viajava, telefonava não apenas para falar com mamãe, mas com todos os três. E escutava... não apenas a farsa de escutar que alguns adultos pensam que uma criança não é capaz de perceber. Ele se importava.
Edward tornou a se virar para ela, os olhos eloqüentes.
— Ele levava flores para mamãe sem qualquer motivo. Eu deitava na cama à noite e escutava os dois rindo juntos. Éramos felizes e ele era o centro de tudo. Agora, tenho de enfrentar o fato de que não havia centro e que ele era capaz de fazer coisas monstruosas.
— Eu me sinto retalhada... em carne viva. — A cabeça de Bella parecia flutuar em algum ponto acima dos ombros. — Depois de tantos anos.
Ela fechou os olhos e apertou-os com força por um momento.
— Suas vidas continuaram mesmo assim?
— Ele era o único que sabia e sempre foi muito cuidadoso. Nossas vidas continuaram. Até que a dele terminou e fui examinar seus pertences pessoais. Encontrei o diário e as fotos.
— As fotos... — A sensação de flutuação terminou com um solavanco. — As fotos de minha mãe. Depois que ela morreu.
Edward tinha de contar tudo, por mais que o pensamento o deixasse desesperado.
— "O momento decisivo", como ele chamou.
— Ó meu Deus! — Preleções ouvidas, preleções dadas, afloraram na mente de Bella. Captar o momento decisivo, antecipar quando a dinâmica de uma situação alcançará o auge, sabendo quando clicar para preservar a imagem mais poderosa. — Era um estudo, uma tarefa.
— Era o seu propósito. Manipular, causar, controlar e captar a morte. — A náusea se agitou, violenta. Ele tomou mais uísque, na tentativa de reprimi-la. — Isso não era tudo. Não podia ser. Havia alguma coisa deformada dentro dele. Algo que nunca vimos. Algo que ninguém jamais viu, nem desconfiou. Ele tinha amigos, uma carreira bem-sucedida. Gostava de assistir a jogos pela televisão e lia romances de mistério. Gostava de churrasco. Queria ter netos.
Tudo o dilacerava, cada palavra, cada recordação.
— Não há defesa. Não há absolvição. Bella deu um passo à frente.
— Ele tirou fotos dela. Do rosto. Olhos. Corpo. Nus. Preparava as poses com todo cuidado. A cabeça inclinada para o ombro esquerdo, o braço direito estendido pela cintura.
— Como você...
— Eu vi. —Bella fechou os olhos e recuou. O alívio era frio, dolorosamente frio. Uma camada de gelo sobre a dor ardente. — Não sou louca. Nunca fui louca. Não eram alucinações. Tudo era real.
— Do que está falando?
Impaciente, ela pegou um cigarro do maço no bolso de trás da calça. Mas, quando riscou o fósforo, ficou apenas olhando para a chama.
— Minha mão está firme. Absolutamente firme. Não vou ter um colapso agora. Posso enfrentar tudo. Nunca mais terei um colapso.
Preocupado com a possibilidade de tê-la levado longe demais, Edward adiantou-se.
— Isabela...
— Não estou louca. — Ela levantou a cabeça abruptamente. Com toda calma, encostou a chama na ponta do cigarro. — Nunca mais vou perder o controle e desabar. O pior é apenas a próxima coisa para a qual você tem de arrumar espaço e conviver.
Ela soprou a fumaça, observando-a até que desapareceu.
— Alguém me mandou uma foto de minha mãe. Uma das fotos tiradas por seu pai.
Edward sentiu o sangue gelar.
— Isso é impossível.
— Eu vi. Tive nas minhas mãos. Foi o que me levou ao colapso, a coisa para a qual não pude encontrar espaço. Na ocasião.
— Disse que alguém estava mandando fotos de você.
— Isso mesmo. Estava no meio delas, no último pacote que recebi em Charlotte. E depois, quando consegui me recuperar um pouco, não pude mais encontrar a foto. Pensei que fora uma alucinação. Mas era real. Existia. Aconteceu.
— Sou o único que poderia mandar uma foto assim para você. E não mandei.
— Onde estão as fotos? Os negativos?
— Desapareceram.
— Como assim?
— James queria destruir tudo, as fotos e o diário. Não concordei. Queria tempo para decidir o que fazer. Discutimos. Seu argumento era de que já haviam se passado vinte anos. De que adiantaria revelar tudo agora? Poderia nos destruir. Ficou furioso por eu sequer considerar a possibilidade de procurar a polícia ou sua família. Na manhã seguinte descobri que ele havia partido. Levara as fotos e o diário. Eu não sabia onde encontrá-lo. Fui informado mais tarde de que ele havia morrido afogado. Tenho de presumir que ele não foi capaz de conviver com a verdade. Que destruiu tudo e depois se matou.
— As fotos não foram destruídas. — A mente de Bella estava lúcida e fria. — Existem, assim como as fotos que foram tiradas de mim. Pareço com minha mãe. Não é preciso um grande salto para transferir uma obsessão por ela para uma obsessão por mim.
— Acha que não pensei nisso, que não fiquei apavorado? Quando encontramos Susan Peters e compreendi como ela havia morrido, pensei... Mas sou o único que restou, Bella. Enterrei meu pai.
— Mas enterrou seu irmão?
Ele a fitou aturdido. Balançou a cabeça, lentamente.
— James morreu.
— Como sabe? Porque os relatos dizem que ele tomou um porre e caiu de um barco? E se não caiu, Edward? Ele tinha as fotos, os negativos, o diário.
— Mas ele morreu afogado. Estava de porre, deprimido, desesperado, segundo as outras pessoas no iate. Não perceberam que ele havia desaparecido até a metade da manhã seguinte. E ele deixou todas as suas roupas e equipamentos no iate.
Como Bella nada dissesse, ele virou-se e começou a andar de um lado para outro.
— Tenho de aceitar o que meu pai fez, o que ele era. Agora, você quer que eu acredite que meu irmão está vivo e é capaz de fazer tudo isso. De espreitá-la e pressioná-la até que sofresse um colapso. De seguir você até aqui e... — Enquanto o resto aflorava, Edward virou-se. — De matar Susan Peters.
— Minha mãe não foi estrangulada, Edward?
— Foi sim. Cristo!
Bella advertiu a si mesma que tinha de permanecer fria. Deu o passo seguinte:
— Susan Peters foi estuprada.
Edward compreendeu que era uma pergunta. Fechou os olhos.
— Foi.
— Se não foi o marido...
— A polícia não encontrou qualquer evidência para deter o marido. Verifiquei antes de voltar, Isabela. — Doía em seu coração ter de acrescentar: — A polícia vai agora investigar mais a fundo o desaparecimento de Jessica.
— Jessica? — Com a compreensão, veio o horror. O frio que a protegera antes começou a se desvanecer. — Oh, não! Jess não!
Edward não podia tocá-la, não podia oferecer nada. Saiu para a varanda, deixando-a sozinha. Pôs as mãos na grade e inclinou se para fora, desesperado por ar fresco. Empertigou-se quando a porta de tela rangeu.
— Qual era o propósito de seu pai, Edward? O que conseguiria com as fotos se nunca poderia mostrá-las a ninguém?
— Perfeição. Controle. Não apenas observar e preservar, mas também ser parte da imagem. Criá-la. A mulher perfeita, o crime perfeito, a imagem perfeita. Ele achava que sua mãe era linda, inteligente, graciosa. Era digna do que ele fez.
Ele observou os vagalumes iluminarem a escuridão, em piscadelas rápidas e atraentes.
— Eu deveria ter-lhe contado tudo assim que cheguei aqui. Disse a mim mesmo que queria... que precisava de tempo para tentar compreender. Justifiquei manter o segredo com a alegação de que todos vocês haviam aceitado uma mentira e que a verdade era pior. E continuei calado porque queria você. Era mais fácil racionalizar. Você ficaria magoada, com um ferimento profundo. Podia esperar até que você confiasse em mim. Podia esperar até que estivesse apaixonada por mim.
Os dedos flexionaram e soltaram a grade, enquanto Bella se mantinha em silêncio.
— As racionalizações são em geral egocêntricas. As minhas eram. Depois de Susan Peters, no entanto, eu não podia mais ignorar a verdade ou seu direito de conhecê-la. Não há nada que eu possa fazer para mudar, para expiar o que ele fez. Não há nada que eu possa dizer capaz de curar os danos que ele causou a você e sua família.
— Não, não há mesmo nada que você possa fazer, nada que possa dizer. Ele matou minha mãe e nos deixou pensando que ela nos abandonara. Esse ato egoísta prejudicou nossas vidas, abriu um abismo na família que jamais conseguimos superar. E deve tê-la machucado.
A voz de Bella tremia tanto que ela teve de morder o lábio com força para conseguir firmá-la:
— Ela deve ter ficado apavorada e confusa. Nada fizera para merecer aquilo, nada que não fosse ser quem era.
Bella respirou fundo, sentindo a maresia.
— Eu queria culpá-lo por isso, Edward, porque você está aqui. Porque teve sua mãe durante todos esses anos. Porque me tocou e me fez sentir o que nunca sentira antes. Eu precisava culpá-lo por isso. E foi o que fiz.
— Era o que eu esperava.
— Não precisava ter contado. Poderia manter enterrado, esquecido. Eu nunca saberia.
— Eu saberia e todos os dias com você seriam uma traição. — Ele virou-se para Bella. — Eu gostaria de poder conviver com isso, de poupá-la e me salvar. Mas não pude.
— E o que fazer agora? —Bella ergueu o rosto para o céu, enquanto ia ao fundo de seu coração. — Devo fazê-lo pagar pelo que não pode ser pago, puni-lo por uma coisa que foi feita a nós dois quando éramos crianças?
— Por que não deveria? — A amargura apertava a garganta de Edward quando ele olhou para as árvores, por onde o rio corria num silêncio secreto. — Como você pode olhar para mim sem vê-lo, sem pensar no que ele fez? Sem me odiar por isso?
Fora exatamente o que ela fizera, pensou Bella. Olhara para ele, vira o pai e odiara. Ele aceitara os golpes verbais e físicos sem dizer uma única palavra em sua defesa.
Corajoso, Rose o chamara. E ela tinha razão.
E ele também saíra abalado, refletiu Bella. E perguntou-se por que demorara tanto para compreender que o mal causado a ela eqüivalia ao mal causado a Edward.
— Você não me dá muito crédito por inteligência ou compaixão. É evidente que tem uma opinião desfavorável a meu respeito.
Edward não sabia que ainda lhe restava força para se surpreender. Fitou-a com uma expressão de incredulidade.
— Não consigo entendê-la.
— Nem poderia, se pensa que eu seria capaz, depois de ter tempo para aceitar e lamentar, continuar a culpá-lo, a considerá-lo responsável.
— Ele era meu pai.
— E se estivesse vivo, eu o mataria pessoalmente pelo que fez com mamãe, com todos nós. Com você. Haverei de odiá-lo pelo resto de minha vida. Nunca o perdoarei. Você pode abrir espaço para viver com isso, Edward, ou prefere ir embora? Eu lhe direi o que vou fazer. — Bella apressou-se em acrescentar, antes que ele pudesse falar a voz rápida e veemente: — Não vou me deixar enganar. Não permitirei que a chance da verdadeira felicidade me seja roubada. Mas, se você for embora, aprenderei a odiá-lo. Posso fazer isso, se for necessário. E ninguém jamais o odiará mais do que eu.
Bella entrou no chalé, batendo a porta.
Ele continuou parado onde estava por um momento, absorvendo o choque, a gratidão. Também entrou no chalé e perguntou, a voz contida:
— Isabela, você quer que eu fique?
— Não foi isso que acabei de dizer? — Ela pegou outro cigarro, mas em seguida jogou-o longe, num gesto furioso. — Por que tenho de perder de novo? Por que tenho de ficar sozinha outra vez? Como pode vir para cá, fazer com que eu me apaixone por você e depois sair de minha vida porque acha que isso é melhor para mim? Porque acha que é a coisa honrada a fazer? Que se dane a sua honra, Edward, se ela me privar do que preciso. Já fui enganada antes, perdi o que precisava desesperadamente e não pude fazer nada para evitar. Só que agora não estou mais impotente.
Ela vibrava de fúria, os olhos faiscando, o rosto corado. Edward nunca vira qualquer coisa ou pessoa mais magnífica.
— Entre todas as coisas que imaginei que você me diria esta noite, Bella, isso não foi uma delas. Havia me preparado para perdê-la. Não me preparei para mantê-la.
— Não sou uma abotoadura que você pode perder com facilidade, Edward.
A risada saiu como uma surpresa, dando a impressão de que a garganta enferrujara.
— Não consigo decidir o que devo dizer. Só posso pensar que a amo.
— Pode ser suficiente, se você me abraçar enquanto diz. Edward continuou a fitá-la nos olhos ao se adiantar. Os braços foram hesitantes a princípio, mas depois ele apertou-a com força, comprimiu o rosto contra seus cabelos.
— Eu a amo. — As emoções o dominaram ao aspirar a fragrância da mulher em seus braços, ao sentir o gosto daquela pele em seus lábios. — Eu a amo, Isabela... amo tudo em você.
— Então faremos com que isso seja suficiente. Não vamos deixar que nos tirem. — A voz era baixa e decidida. — Não permitiremos.
Ele se manteve imóvel, com suas esperanças, enquanto ela dormia.
A mulher ao seu lado, a mulher que amava, corria perigo... e era abominável para ele sequer mencionar a fonte desse perigo. Teria de protegê-la, com sua própria vida se fosse necessário. Mataria para mantê-la sã e salva, qualquer que fosse o custo.
E torcia para que o que tinham juntos sobrevivesse.
Não havia como evitar. Haviam roubado um momento só para eles. Mas o que os atormentava, os acontecimentos atuais e de vinte anos atrás, teria de ser confrontado.
— Edward, preciso contar à minha família. — No escuro, ela pegou a mão dele. — Preciso encontrar o momento certo e a maneira certa. Quero que deixe isso comigo.
— Tem de me deixar estar presente, Bella. Deve fazer à sua maneira, mas não sozinha.
— Está bem. Mas há outras coisas que Também precisam ser feitas.
— Você precisa de proteção.
— Não tente dar uma de cavaleiro no cavalo branco para cima de mim, Edward. Acho isso irritante.
O comentário indolente terminou com um ofego quando ele a puxou.
— Nada pode acontecer com você. — Os olhos de Edward brilhavam perigosamente no escuro. — Não importa o que for necessário, darei um jeito de providenciar.
— É melhor você começar a se acalmar, Edward. Não quero que nada aconteça com qualquer dos dois. Portanto, temos de começar a pensar... e começar a agir.
— Haverá algumas normas, Bella. A primeira é que você não pode ir sozinha a qualquer lugar. Não pode descer de sua varanda sozinha até que tudo esteja acabado.
— Não sou minha mãe, não sou Jessica, não sou Susan Peters. Não sou indefesa, estúpida ou ingênua. Não serei caçada para a diversão de alguém. -
Porque uma demonstração de força só serviria para ferir o orgulho de Bella, ele fez um esforço para se manter calmo.
— Se for necessário, eu a tirarei da ilha da mesma maneira que a trouxe para cá esta noite. Eu a levarei para algum lugar seguro e a trancarei. Mas tudo o que você precisa fazer para evitar esse lamentável evento éprometer que não irá a qualquer lugar sozinha.
— Você tem uma imagem exagerada de sua própria capacidade.
— Não neste caso. — Edward pegou o queixo de Bella. — Olhe para mim, Bella. Você é tudo para mim. Aceitarei qualquer outra coisa, enfrentarei qualquer outra coisa, mas não posso perdê-la. Não de novo.
Ela estremeceu uma vez, não de raiva ou medo, mas de um fluxo rápido e intenso de emoção.
— Ninguém jamais me amou tanto. Não consigo me acostumar.
— Tente... e prometa.
— Não irei a qualquer lugar sozinha. —Bella deixou escapar um suspiro. — Esse negócio de relacionamento não passa de um labirinto de concessões ecompromissos. Provavelmente foi por isso que consegui evitar durante todo esse tempo.
Ela ficou de cócoras e acrescentou:
— Não vamos ficar de braços cruzados e deixar as coisas acontecerem. Não sou a única mulher nesta ilha. — Bella estremeceu de novo. — Nem a única filha de Renée.
— Não, não ficaremos de braços cruzados, esperando. Darei alguns telefonemas. Talvez obtenha informações sobre o desaparecimento de James que posso ter perdido antes. Não fui meticuloso. Não era um momento fácil e talvez não tenha percebido muitas coisas.
— E os amigos de James? Sua situação financeira?
— Não sei muita coisa a respeito. Não fomos tão ligados nos últimos anos quanto éramos antes. — Edward levantou-se para abrir as janelas e deixar entrar um pouco de ar fresco. — Fomos para lugares diferentes e nos tornamos pessoas diferentes.
— Que tipo de pessoa ele se tornou?
— Ele era... acho que se poderia dizer que era alguém focado no presente. Estava interessado no agora... aproveitar o presente, extrair tudo o que pudesse. Não se preocupava com o depois, com as conseqüências ou o pagamento. Ele nunca prejudicou ninguém, a não ser a si mesmo.
Era de importância vital que Bella compreendesse isso. Também era importante, refletiu Edward, que ele próprio, inclusive, compreendesse.
— James apenas preferia o caminho mais fácil, e se o caminho mais fácil tivesse um atalho, melhor ainda. Ele tinha muito charme e talento. Papai sempre dizia que se James empenhasse tanto esforço no trabalho quanto empenhava na diversão, seria um dos maiores fotógrafos do mundo. James dizia que papai era muito crítico de seu trabalho, nunca se mostrava satisfeito, sentia inveja porque ele tinha toda uma vida e carreira pela frente.
Edward fez uma pausa. Repetiu as palavras mentalmente. E sofreu com a implicação. Seria competição? Uma necessidade distorcida de o filho superar o pai? Sua cabeça começou a latejar de novo, as têmporas dando a impressão de que iam explodir.
— Darei os telefonemas — disse ele, incisivo. — Se conseguirmos eliminar essa possibilidade, poderemos nos concentrar em outras. James pode ter ficado de porre e mostrado as fotos a um amigo ou colega.
— É possível. — Bella não queria entrar nessa área por enquanto. — O responsável, quem quer que seja, tem um bom conhecimento de fotografia e bastante habilidade. É inconsistente, indolente de vez em quando, mas é hábil.
Edward limitou-se a acenar com a cabeça. Ela acabara de descrever o irmão com perfeição.
— Ele teria de cuidar pessoalmente da revelação — continuou ela, aliviada por poder se concentrar em coisas práticas. — O que significa acesso a um laboratório. Deve ter um em Charlotte. E, quando veio para cá, deve ter arrumado outro. O pacote de fotos foi despachado de Savannah.
— Pode-se alugar tempo num laboratório.
— Ele pode ter feito isso. Ou alugado um apartamento, uma casa e trazido seu próprio equipamento. Ou comprado tudo. Não teria mais controle se estivesse em seu próprio laboratório, com seu próprio equipamento? — Os olhos de Bella se encontraram com os de Edward. — É o propulsor de tudo isso. O controle. Ele poderia ir e voltar à vontade entre o continente e a ilha. Estaria no controle.
Controlar o movimento, manipular o ânimo, o tema, o resultado. Esse é o verdadeiro poder da arte. As palavras de seu pai, recordou Edward, escritas no diário.
— Tem razão, é uma questão de controle. Portanto, verificamos as lojas de equipamentos fotográficos, descobrimos se alguém encomendou o necessário para aparelhar um laboratório e mandou que entregassem em Savannah. Não será fácil nem rápido.
— Não, mas já é um começo. — Era bom pensar, ter uma tarefa concreta. — É provável que ele esteja sozinho. Precisa da liberdade para ir e vir conforme lhe aprouver. Tirou fotos minhas por toda a ilha. Portanto, deve circular livremente. Podemos ficar atentos a um homem sozinho, com uma câmera, embora também seja possível que ele se apresente como um inofensivo observador de aves.
— Se for James, poderei reconhecê-lo.
— Poderia mesmo, Edward? E se ele não quisesse ser reconhecido? Ele saberia que você está aqui. E saberia que tenho me encontrado com você. A filha de Renée Swan com o filho de Carlisle Cullen. Há pessoas que poderiam considerar isso como o círculo completo. E, se for o caso, não creio que você esteja mais seguro do que eu.
