QUINZE
A TOCA DO LEÃO
No capítulo anterior...
O Sr. Cole colocou uma das mãos no ombro de Edward. Bella estava louca para saber o que eles estavam falando, e se Edward seria punido. Ela queria ir até ele, mas Ang a impediu.
– Tudo isso por causa de uma jóia. Qual foi o presente, afinal?
O Sr. Cole foi embora e Edward ficou sozinho, parado debaixo da luz de um poste, olhando para o alto, para a chuva.
– Eu não sei – respondeu Bella, saindo da janela. – O que quer que seja, não quero. Especialmente não depois disso. – Ela voltou até a mesa do computador e tirou a caixa do bolso.
– Se você não quer, eu quero – disse Ang. Ela abriu a caixa, e depois olhou para Bella, confusa.
O objeto dourado que viram não era uma joia. Havia apenas duas coisas dentro da caixa: outra das palhetas pretas de guitarra de Jacob, e um pedaço de papel dourado.
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Me encontre amanhã depois da aula. Estarei esperando nos portões.
– J.
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Havia muito tempo desde que Bella dera uma boa olhada no espelho. Ela nunca se incomodara com sua aparência – seus olhos castanho-chocolate, dentes certinhos, cílios grossos; e a abundante cascata de cabelos castanho-avermelhados. Isso era antes. Entes do verão passado.
Depois que sua mãe cortara todo o seu cabelo, Bella começou a evitar espelhos. Não era só por causa do cabelo curto; Bella achava que não gostava mais de quem era, então não queria ver nenhuma evidencia disso. Ela começou a olhar para as mãos enquanto estava no banheiro. Mantinha a cabeça reta quando passava por janelas coloridas e evitava os estojos de pó compacto com espelhos.
Mas, vinte minutos antes de supostamente ter que encontrar Jacob, Bella ficou na frente do espelho do banheiro feminino do Augustine, vazio. Ela achava que estava bonitinha. Seu cabelo finalmente estava crescendo, e o peso começava a alagar algumas ondas. Ela verificou seus dentes, então endireitou os ombros e encarou o espelho como se estivesse olhando Jacob nos olhos. Precisava dizer algo a ele, algo importante, e ela queria ter certeza de que conseguiria fazer uma expressão que exigisse que ele a levasse a sério.
Jacob não tinha ido à aula hoje, assim como Edward, então Bella presumiu que o Sr. Cole havia colocado os dois em algum tipo de castigo, ou estavam curando suas feridas. Mas Bella não tinha dúvidas de que Jacob estaria esperando por ela hoje.
Ela não queria vê-lo. Nem um pouco. Pensar em seus punhos socando Edward fazia seu estômago se revirar. Mas eles terem brigado era culpa dela em primeiro lugar. Bella dera esperança a Jacob – e se tinha feito isso por estar confusa ou lisonjeada ou ligeiramente interessada não importava mais. O que importava era que ela precisava ser direta com ele hoje: não havia nada entre eles.
Respirou profundamente, ajeitou a camisa até os quadris e abriu a porta do banheiro.
Aproximando-se dos portões, ela não conseguia vê-lo, mas, no entanto, era difícil ver qualquer coisa além das construções no estacionamento. Bella não voltara à entrada da escola desde que começara as reformas, e ficou surpresa em ver como era complicado andar pelo estacionamento esburacado agora. Bella desviou de buracos abertos e tentou se esconder dos operários, abanando os vapores do asfalto que nunca pareciam diminuir.
Não havia sinal de Jacob. Por um segundo, ela se sentiu boba, quase como se tivesse caído em algum tipo de pegadinha. Os altos portões de metal estavam cobertos de poeira vermelha. Bella olhou através deles para o denso bosque de antigos olmos do outro lado da rua. Ela estalou os dedos, lembrando-se da vez em que Edward lhe dissera que odiava quando fazia isso. Mas ele não estava ali para vê-la estalando os dedos; ninguém estava. Então Bella notou um pedaço de papel dobrado com seu nome escrito. Estava espetado da magnólia grossa de troncos acinzentados ao lado do posto com o telefone quebrado.
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Estou salvando você da Noite Social. Enquanto o resto dos alunos está organizando uma reencenação da Guerra Civil – triste, mas verdadeiro –, você e eu vamos aprontar na cidade. Um sedã preto com uma placa dourada vai levá-la até mim. Achei que nós dois podíamos tomar um pouco de ar puro.
– J.
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Bella tossiu. Ar puro era uma coisa, mas sedã preto apanhando-a no campus? Para levá-la até ele, como se ele fosse algum tipo de xeque que podia simplesmente arranjar mulheres quando tivesse vontade? Onde estava Jacob, afinal?
Nada disso fazia parte de seu plano. Bella tinha concordado em encontrar Jacob só para dizer a ele que estava sendo indiscreto demais e que ela realmente não conseguia se ver envolvida com ele. Porque – apesar de não ter dito a ele – toda vez que seu punho atingia a Edward na noite anterior, alguma coisa dentro dela recuava e começava a ferver. Claramente, ela precisava cortar essa relação com Jacob pela raiz. Estava com o colar de ouro com a serpente em seu bolso. Era hora de devolvê-lo.
Exceto que agora ela se sentia idiota por achar que Jacob só queria conversar. É claro que tinha algum truque escondido na manga. Ele era esse tipo de cara.
O som de pneus acelerando fez Bella virar a cabeça. Um sedã preto parou na frente dos portões. O vidro fumê do lado do motorista desceu e uma mão cabeluda saiu e tirou do gancho o telefone da cabine que ficava do lado de fora dos portões. Depois de um momento, o telefone foi recolocado no gancho com um estrondo e o motorista simplesmente tocou a buzina.
Finalmente, as grandes e ruidosas grades de metal se abriram e o carro entrou, parando na frente dela. As portas se destrancaram. Ela ia mesmo entrar naquele carro e ir sabe-se-lá-aonde para encontrá-lo?
Da última vez que estivera parada naqueles portões tinha sido para se despedir de seus pais. Sentindo saudades antes mesmo de eles terem partido, ela acenara daquele lugar, ao lado da cabine do telefone quebrado – e lembrou-se, havia notado uma das câmaras de segurança mais modernas. Do tipo com detector de movimento, dando zoom em cada passo seu. Jacob não poderia ter escolhido lugar pior para o carro apanhá-la.
Subitamente, ela teve visões de uma solitária num porão qualquer. Paredes de cimento molhadas e baratas subindo por suas pernas. Sem luz. Os rumores ainda estavam se espalhando pelo campus sobre aquele casal, Lauren e Tyler, que não tinham mais sido vistos desde que saíram escondidos. Jacob achava que Bella queria tanto vê-lo a ponto de arriscar simplesmente sair da escola bem na frente dos vermelhos?
O carro ainda estava zumbindo na estrada na frente dela. Depois de um momento, o motorista – um homem usando óculos de sol, pescoço grosso e cabelo ralo – estendeu a mão. Nela havia um pequeno envelope branco. Bella hesitou um segundo antes de se aproximar para pegá-lo de seus dedos.
Era de Jacob. Um cartão pesado cor de marfim com seu nome impresso com dourado decadente no canto inferior esquerdo.
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Devia ter dito antes: o vermelho foi coberto com fita isolante. Veja você mesma. Cuidei de tudo, como vou cuidar de você. Vejo-a em breve, espero.
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Fita? Ele estava dizendo...? Bella ousou olhar para o vermelho. Era verdade. A fita isolante preta circulava perfeitamente a câmera cobrindo sua lente. Bella não sabia como essas coisas funcionavam, mas, estranhamente, ficou aliviada que Jacob tivesse pensado em cuidar daquilo. Ela não conseguia imaginar Edward planejando nada assim.
Tanto Callie quanto seus pais estavam esperando por telefonemas aquela noite. Bella tinha lido a carta de dez paginas de Callie três vezes, e decorara todos os detalhes engraçados das viagens de fim de semana de sua amiga até Nantucket, mas ainda não saberia como ia responder nenhuma das perguntas de Callie sobre sua vida na Sword & Cross. Se ela se virasse e voltasse lá para dentro para pegar o telefone, não sabia como começaria a atualizar Callie ou seus pais sobre os acontecimentos estranhos e sombrios dos últimos dias. Era mais fácil não contar nada para eles, pelo menos não até que ela tivesse encerrado as coisas de um jeito ou de outro.
Ela escorregou no couro bege e macio do banco de trás do sedã e apertou o cinto. O motorista mudou a marcha sem uma palavra.
– Para onde estamos indo? – ela perguntou.
– Par um lugarzinho perto do rio. O Sr. Black gosta das cores de lá. Apenas sente-se e relaxe, querida. Vai ver.
Sr. Black? Quem era esse cara? Bella nunca gostava quando a mandavam relaxar, especialmente quando parecia um aviso para não perguntar mais nada. No entanto, cruzou os braços, olhou pela janela, e tentou esquecer o tom do motorista quando ele a chamou de "querida".
Pelas janelas escuras, as árvores lá fora e a rua pavimentada pareciam marrons. Na curva cuja pista a oeste levava até Thunderbolt, o sedã preto virou para leste. Estavam seguindo o rio em direção à costa. De vez em quando, quando seu caminho e o do rio convergiam, Bella podia ver a água marrom e repugnante se agitando ao lado deles. Vinte minutos depois, o carro diminuiu até parar na frente de um bar decadente à beira do rio.
Era feito de madeira cinzenta e apodrecida, e uma placa encharcada na porta da frente dizia STYX em letras chanfradas pintadas à mão em vermelho. Um cordão de bandeirinhas de plástico anunciando uma marca de cerveja tinha sido pregado à viga de madeira embaixo do teto de zinco, uma tentativa medíocre de alegrar o lugar. Bella examinou as imagens impressas nos triângulos de plástico – palmeiras e garotas bronzeadas em biquínis com garrafas de cerveja encostadas em seus lábios sorridentes – e se perguntou quando teria sido a última vez que uma garota de verdade tinha colocado os pés ali.
Dois punks mais velhos estavam fumando sentados num banco de frente para a água. Moicanos cansados caiam sobre suas testas enrugadas e as jaquetas de couro estavam feias e sujas como se as tivessem desde que ser punk era novidade. As expressões vazias em seus rostos bronzeados e indolentes fazia a cena toda parecer ainda mais desoladora.
O pântano margeava a avenida de duas pistas e tinha começado a inundar o asfalto; a rua simplesmente parecia dar lugar à grama pantanosa e à lama. Bella nunca tinha vindo tão longe nos pântanos do rio.
Enquanto estava ali sentada, incerta do que fazer depois que saísse do carro, ou mesmo se fazer isso seria uma boa ideia, a porta da frente do Styx se abriu abruptamente e Jacob saiu andando calmamente. Ele se apoiou de maneira despreocupada contra a porta de tela, uma perna cruzada sobre a outra. Ela sabia que ele não podia vê-la pelas janelas escuras do carro, mas Jacob levantou a mão como se pudesse e a chamou até ele.
– Seja o que Deus quiser – murmurou Bella antes de agradecer o motorista. Abriu a porta e foi recebida por uma rajada de vento salgado enquanto subia os degraus para a varanda de madeira do bar.
O cabelo repicado de Jacob estava emoldurando seu rosto, e os olhos pretos pareciam tranquilos. Uma manga de sua camiseta preta estava levantada sobre o ombro, e Bella podia ver o contorno benfeito de seu bíceps. Ela tocou com os dedos a corrente de ouro em seu bolso. Lembre-se de por que está aqui.
O rosto de Jacob não mostrava indícios da briga na noite anterior, o que a fez pensar imediatamente se o de Edward mostrava.
Jacob deu a ela um olhar inquisitivo, umedecendo o lábio inferior.
– Só estava calculando quantos drinques de consolação precisaria tomar se você me desse um bolo hoje – disse, abrindo os braços para um abraço. Bella aceitou. Era muito difícil dizer não a Jacob, mesmo quando ela não tinha completa certeza do que ele estava pedindo.
– Eu não daria um bolo em você – disse Bella, sentindo-se imediatamente culpada, sabendo que suas palavras eram mera formalidade, não românticas como Jacob teria preferido. Ela só estava lá porque precisava dizer que não queria se envolver com ele. – Então, que lugar é esse? E desde quando você tem serviço de motorista?
– Fique comigo, garota – brincou ele, parecendo interpretar as perguntas como elogios, como se ela gostasse de ser levada para bares que tinham cheiro de ralo de pia.
Ela era péssima nesse tipo de coisa. Callie sempre dizia que Bella era incapaz de honestidade brutal e era por isso que se enfiava em tantas situações chatas com caras a quem simplesmente devia ter dito não. Bella estava tremendo. Ela precisava tirar isso do peito. Enfiou a mão no bolso e tirou o pingente.
– Jacob.
– Ah, que bom, você trouxe. – Ele pegou o colar de suas mãos e a virou de costas. – Deixe-me ajudar a colocá-lo.
– Não, espere...
– Pronto – anunciou Jacob. – Combina muito com você. Dê uma olhada. – Ele a levou pelo piso de madeira que rangia até a janela do bar, onde um número de bandas tinha grudado panfletos de shows. THE OLD BABIES. DRIPPING WITH HATE. HOUSE CRACKERS. Bella teria preferido ficar examinando qualquer um deles a olhar para seu reflexo. – Viu?
Ela não podia exatamente ver os eu rosto no painel de vidro sujo, mas o pingente de ouro brilhava sobre a sua pele quente. Bella apertou-o. Era mesmo lindo, e tão diferente, com a pequena serpente esculpida a mão subindo pelo meio. Não era algo que você pudesse achar nos mercados de calçada, onde os moradores locais vendiam artesanato supervalorizado para os turistas, suvenires do estado da Geórgia fabricados nas Filipinas. Atrás de seu reflexo na janela, o céu tinha uma cor exuberante alaranjada, interrompido por pequenos riscos de nuvens cor-de-rosa.
– Sobre a noite passada... – Jacob começou a dizer. Ela podia ver vagamente seus lábios rosados se movendo no vidro por trás de seu ombro.
– Queria falar com você sobre a noite passada também – disse Bella, parada ao seu lado. Ela podia ver as pontas da tatuagem de sol atrás do pescoço dele.
– Vamos entrar – disse ele, guiando-a de volta para a porta de tela presa pela metade. – Podemos conversar lá.
O que será que vai dar essa conversa com o Jake? Só posso dizer que o momento mais aguardado está chegando finalmente.
Aleluia!
O que acharam do cap?
Muito obrigada pelas !
Beijinhos
