Capitulo 25

O preço do poder

Através da janela empoeirada, Jack e Isabella apreciavam o terror que aos poucos se instaurava na cidade. A jovem, pálida perante tal horror, permanecia estática, encostada ao umbral. Por segundos, fechou os olhos com força e recordou-se da visão que tivera no Pérola Negra, quando pegara no medalhão. Cenas de destruição e morte ainda lhe pairavam na sua mente atordoada. Cenas que ela fizera questão de esquecer e que agora eram tão reais, tão palpáveis à sua frente. Ela abriu os olhos e estendeu a mão em direcção ao vidro, depositando-a sobre ele.

-Agora tudo faz sentido. – Jack desprendeu a sua atenção dos acontecimentos e fitou-a de soslaio. – O caos, a destruição. A visão do medalhão estava certa.

-Está tudo milimetricamente calculado Darling…

-Se tivesse, seus marujos tinham conseguido nos tirar daqui, porém eles não estão cá. É sinal que algo está milimetricamente errado.

Agastada, ela afastou-se da janela e arrastou-se para a cama, onde se sentou ao bufar pausadamente. Chocalhou a cabeça, cada vez mais angustiada pelo desenrolar da situação em que estava. Jack apenas seguiu-a com o olhar, rebatendo em seus pensamentos a contestação dela. Algo estava errado, esse era o problema. E a solução permanecia nas mãos de quem os condenara a estar ali presos, sem alternativa alguma.

-Sinceramente, Jack, o que fez para esse homem te odiar tanto assim? – Ele descruzou os braços e sorriu sarcasticamente.

-Se o quer saber, muito bem. – Ele aproximou-se lentamente dela, não desfazendo-se da expressão cínica. – Eu trabalhei para Cutler. – Isabella arregalou os olhos, surpresa.

-Co…como assim? – Balbuciou ela após engolir aquela sentença.

-Quando julguei que meu pai estava morto e bem morto, se é que me fiz entender – Ele gesticulou, com desdém. – E após me meter em novas desordens, onde recebi a minha primeira ameaça de forca, resolvi assentar em Londres. Comecei imediatamente uma carreira de primeiro marinheiro para a companhia de comércio das índias orientais, onde recebi vários elogios de Cutler. Tudo ia lindamente, sobretudo quando me tornei capitão do navio que navegava, bem depois e do capitão morrer numa batalha. Sabe como é, a minha agilidade em falar com mulheres, colocou-me em linha para uma promoção oficial. – Isabella mordeu o lábio ao estreitar o olhar bravio sobre Jack.

-Continue, por favor. – A voz assanhada, bem acentuada, fez Jack elevar o canto do lábio, satisfeito com a reacção que provocara nela.

-Cutler denominou-me capitão do Wicked Wench e, como primeira tarefa, quis que eu descobrisse a veracidade de uma lenda que ouvira sobre um tesouro glorioso e infindável. Como suspeitava que uma das suas escravas sabia a localização desse tesouro, ele ordenou-me que levasse os escravos para África e a seduzisse, a modos dela me confidenciasse tal facto. – A jovem bufou pausadamente ao rodar os olhos.

-Claro que essa foi a tarefa mais fácil de você realizar, não é verdade? – Uma centelha de desdém e cinismo trespassou o olhar dela, como flechas envenenadas.

-Apesar dele me prometer uma bela parcela do tesouro, não minha cara, eu não levei a minha avante. Não, porque nada pagaria o facto de ela me ter salvado a vida num ataque que fizeram ao meu navio. Confesso, foi a primeira mulher a ganhar o meu respeito. - Uma onda de orgulho preencheu o peito de Isabella depois dessa avaliação - Foi, nesse instante que resolvi soltá-los em África e rumar para ser abraçado por um destino miserável, antes que ele resolvesse me perseguisse. – Jack, por fim, começou por tirar a batina.

-Estou orgulhosa de você. – Ela ergueu-se para ajudá-lo; deixou a batina deslizar de encontro ao chão sem despregar seus olhos dos negros que a encaravam. – Contudo, o que ocorreu?

-Ao saber que os soltara pela boca do primeiro imediato, Cutler prendeu-me instantaneamente ao alegar que eu desacatara ordens de meus superiores e que cometera crimes no decorrer da minha viagem. Com essa alegação, condenou-me à forca. Como sabe das minhas habilidades na fuga, eu consegui fugir, contudo quando conseguira partir no meu navio, eles alcançaram-no e colocaram fogo nele, comigo lá dentro.

-Maldito seja... – rosnou Isabella ao negar com a cabeça.

-Quando vi a morte prestes a abraçar-me, apareceu Davy Jones. Foi aí que barganhei com o retorno do meu navio, em troca seria capitão deste por treze anos e, depois, Davy poderia vir buscar minha alma. Quando o recuperei, dirigi-me para Tortuga, onde lhe dei uns retoques pessoais ao que seria o meu novo navio, baptizando-o de Pérola Negra, e organizei uma tripulação para voltar à minha antiga vida de pirata.

-Já vi o porquê de você ter ficado com esse seu feitio difícil… - Jack ergueu a sobrancelha, fingindo enfado ao passo que se aninhava para retirar algo do cano da bota. – Nunca ousei supor a hipótese de você ter trabalhado para ele.

-Como vê amor, há coisa a meu respeito que você nem sonha descobrir. – Ele fez uma menção ao objecto que tirara da bota.

-Você é uma verdadeira caixinha de surpresa. – Ela abriu um enorme sorriso ao ver uma pistola imperar nas mãos de Jack.

Num acto repentino, ele aponto a arma para maçaneta e engatilhou-a. Fitou sobre o cabo e disparou sem demora, ouvindo-se, segundos depois, um grunhido uivante percorrer o silêncio daquele corredor. Um sorriso presunçoso ocupou-se dos seus lábios ao mesmo tempo que desengatilhava a pistola e a colocava de volta no seu descanso, fitando uma Isabella cautelosa ao seu lado.

-Algo de errado? – Indagou de sobrolho empinado; viu-a repousar a mão sobre o peito.

-Estou com medo. – Confessou num murmúrio apagado. – Tenho medo que eles te levem da minha vida. Eu… - Um soluço reprimido cortou-lhe a fala. – Eu não te quero perder novamente.

-Não se preocupe, você está na presença do capitão Jack Sparrow. – Um sorriso trespassou os lábios dele ao voltar-se para ela e pousar o dorso na mão sobre o rosto dela.

-Até Jack Sparrow tem as suas fraquezas. – Balbuciou descrente no que proferia. – Me prometa que não vai arranjar mais problemas.

-Prometo mulher. – Selou a sua promessa num ávido beijo, que ela ousou corresponder de igual forma. – Agora vamos.

Ele desenvencilhou-se de rompante, deixando uma Isabella ainda de olhos fechados. Por fim, suspirou e acenou com a cabeça, num acto de confiança. Ao abrir a porta com um pontapé, Jack visualizou o guarda no chão, desvairado em sangue. O seu ego dilatou no peito ao se gabar mentalmente da pontaria que tivera, sobretudo quando acertara em cheio nas costelas do guarda recaído. De mãos elevadas, procurou com o olhar o sinal de uma espada, até que seus olhos trespassarem um brilho de orgulho ao fitá-la. Com um esgar de nojo, Jack empurrou o homem com o pé e saqueou-lhe a espada.

Outro grunhido fez Jack tomar uma pose defensiva a modos de proteger Isabella. Porém, a jovem arregalou os olhos à medida que a sua boca se escancarava. Negou com a cabeça e arrastou Jack para o lado, correndo em direcção ao vulto encostado à parede, de cabeça tombada sobre o ombro.

-James. – Proferiu ao aninhar-se perto dele, erguendo-lhe lentamente a cabeça pelo queixo.

Torceu o nariz ao observar a mancha que consumia o tecido do uniforme do comodoro. Este apenas remexeu-se sem grandes movimentos, abrindo lentamente os olhos.

-Elizabeth. – Murmurou numa voz arrastada, quase apagada.

-Não, é Isabella. – Ela tombou a cabeça contra o seu próprio braço, lastimada. – Lamento, lamento tanto. Pedi que confiasse em mim e estraguei tudo.

-Não lamente. – Lágrimas escorriam pelo rosto pálido do homem. – Só tenho…tenho pena de não ter me desculpado perante Elizabeth.

-Ela está cá.

Passos arrastados foram escutados, detendo-se atrás de Isabella. Jack apenas mantinha o olhar semicerrado sobre o comodoro que, mesmo no leito da morte, não deixara de pensar na mulher que toda a vida amara. Isabella sentiu um asfixio no peito, especialmente por querer ajudá-lo no seu ultimo sopro de vida.

-Eu posso ir procurá-la e…

-Não. – Cortou James, com um sorriso translúcido. – Prefiro que ela se recorde do homem que fui outrora. Diga-lhe… diga-lhe que lamento por tudo e… que nunca…nunca….deixei de a amar. – O ar arrastado pelo nariz do comodoro já não era suficiente para o prender à vida; seus olhos permaneceram abertos de encontro ao infinito.

-Não ouse me fazer sofrer desta maneira. – Rosnou Isabella ao fechar os olhos ao comodoro e erguer-se rudemente, voltando a trilhar o caminho já outrora planeado.

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A cidade ainda continuava em alvoroço permanente, sem sinais de rendição por ambas as partes. Todos os gritos eram abafados pelos urros de batalha travados por aqueles que defendiam-na sem olhar a meios, contra os que insistiam em cumprir metas. Apesar de as casas já permanecerem em ruínas, devoradas pelas chamas insistentes e oscilantes, mulheres tentavam fazer os possíveis para apagar as flamejantes chamas alaranjadas que consumiam os pedaços de um passado traçado em cada casa enquanto Elizabeth e Dalma tratava dos feridos que se mantinham deitados na terra enlameada, provocada pela chuva miudinha que envolvia aquele ambiente funesto.

Will, que contemplava a sua amada soslaio, preocupado, travava uma luta renhida com Jeremy. A cada manejada de espada bem pensada, o ferreiro ia conseguindo desferir golpes certeiros, até que, noutra distracção, Jeremy obteve a hipótese de golpear Will no rosto, com um murro bem projectado, atirando-o para o chão. Will sentiu o gosto amargo preencher a sua boca, contudo só teve tempo de limpar os lábios e rodopiar no chão para não ser pisado.

-Will. – Clamou Gibbs que suava a pique devido ao fumo que os envolvia.

Num gesto vigoroso, ele agarrou a camisa do jovem e o impulsionou para cima, ajudando-o a erguer-se num pulo. Os dois detiveram-se no mesmo local para observarem os guardas do governador que não estavam conseguindo dominar a situação estabelecida.

-Isto não está resultando. – Resmungou de espada em riste para qualquer eventualidade. - E há cada vez mais as vítimas.

-Raios. – Rosnou Will ao dar uma volta completa no mesmo local, observando o caos que estava instaurado. – Nós precisamos resgatar Jack e Isabella. Só eles poderão ter acesso ao coração, neste momento, e livrar-nos deste pesadelo.

Nesse instante, um soar de um tiro de canhão vindo do Holandês Voador preencheu a noite sombria, fazendo Will correr em direcção a Elizabeth e a acobertar com os seus braços protectores.

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Simultaneamente, pela janela da residência do andar de baixo, Jack arregalou completamente os olhos ao ver a projéctil do canhão do Holandês Voador direccionar-se exactamente naquela direcção. Instintivamente, antes mesmo de ouvir o estrondo ensurdecedor dos estragos que aquele disparo iria causar, Jack lançou-se sobre Isabella e protegeu-a com o seu corpo, à medida que tombavam no chão frio. Desorientada, Isabella só se apercebeu do que se passava quando o barulho preencheu a audição de todos e os destroços iam voando em todas as direcções. Apesar de dolorida, apertou Jack contra si e espremeu os olhos com a cabeça recostada no peito do seu capitão. Jack apenas a envolvia com os seus braços, mantendo o queixo depositado no topo da cabeça dela. Sentiu, então, alguns dos escombros caírem sobre as suas costas desprotegidas após tudo se dissolver ao seu redor.

Tentou não grunhir, pensando que tipo de pai seria se não protegesse a sua pequena família. O orgulho era maior do que a dor que sentia sobre o seu corpo, por isso, logo a seguir à poeira assentar, ambos ouviram passos rudes serem marcados pala fúria. Deixaram-se estar sob os escombros, imóveis, enquanto escutavam a voz enraivecida de Cutler a cada passada que lançava contra o chão deformado.

-Esse monstro me paga. – Remoeu com laivos de fúria.

Sem se aperceber da respiração forçada de Isabella, que evitava não tossir devido à poeira que esvoaçava no ar e irritava sua garganta e olhos, Cutler continuou, cada vez mais cego pela raiva que o corroía. Ao chegar ao pátio, ele apercebeu-se que seria um erro avançar mais, não sem antes possuir o poder que tanto almejava. Com ar tresloucado, admirou o coração palpitante numas das suas mãos e o medalhão na outra. Elevou, lentamente, os dois para o céu e bramou em plenos pulmões:

-Aqui estão reunidos, força superior. Por tudo o que é mais sagrado, liberta o poder já há muito trancado e dai-me tudo o que desejei. – De seguida, foi juntando o medalhão e o coração.

Um clarão dourado recheou aquela algoz noite, chamando a atenção de todos aqueles que tinham sido abraçados por ela. Ao se aperceber do resultado daquela junção, que tinha unido os dos objectos num só, Cutler foi aumentando o nível do seu riso enlouquecido.

Davy Jones, que permanecia perto do portão, de olhos praticamente sem vida vidrados no coração, ganhou um novo alento ao voltar-se para trás e bramar:

-Atacar a residência, ele tem o coração. – Ordenou ao voltar a relanceá-lo com o olhar, vendo a nova ameaça que Cutler representava perante todos. – Não vai ser fácil. – Ponderou por escassos segundos.

Barbossa reconheceu o terror firmado no bramado de Davy, do que percebeu que Cutler tinha conseguido cumprir com os seus objectivos. Ele tinha finalmente o poder nas suas mãos.

-Não quero ver nem mais um movimento. – Asseverou Cutler ao ver um batalhão de monstros ir em sua direcção; Davy cessou a marcha ao vê-lo erguer o coração com um sorriso endoidecido. – Sabe qual vai ser o meu primeiro desejo? Ver o mais temível dos monstros se ajoelhar diante de mim. Isso, quero que Davy Jones se ajoelhe.

Um palpitar forte fez um pequeno raio ausentar-se do coração em direcção ao céu. Davy sentiu uma convulsão forte no corpo, como se perdesse o domínio dos seus movimentos. Ainda de dentes cerrados, tentou rebater-se contra essa fraqueza, porém acabou por sentir o abalo dos seus joelhos irem ao reencontro do chão. Davy não ousou erguer os olhos perante a humilhação que Cutler o obrigava a compor.

-Agora, quero que todos se ajoelhem diante mim.

-E aqui começa a extinção dos piratas…- comentou Barbossa vendo-se obrigado a ajoelhar sem rebater.

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Jack sacudia a sua vestimenta enquanto Isabella mantinha-se escondida, encostada à arruinada parte dianteira da residência. Pelo que podia observar, Cutler já tinha conseguido controlar o poder do coração e a sua primeira vítima era Davy. Sentiu uma estranha sensação de amargura; sua alma estava inquieta, especialmente quando contemplava o fim. O fim da sua era. Isabella enterrou a cabeça na palma da mão e abanou-a, completamente desolada. Jack cessou seus movimentos para espiá-la pelo canto do olho. Por fim, compôs-se e pigarreou sem jeito, temendo que ela pudesse estar se sentindo mal.

-Você, hum…está se sentindo bem? – Indagou, constrangido.

-Hum, hum. – Ela elevou o rosto e abriu um fraco sorriso. – Estou somente cansada.

Isabella desencostou-se da parede e fitou a porta com pesar resplandecido nos seus olhos. Tentou absorver um pouco de ar ao respirar fundo, porém o seu coração continuava desconcertado pelo facto de saber que, após atravessar aquela porta, não havia volta a dar ao destino que traçara. As suas escolhas. Rodou vagarosamente a cabeça para um Jack acautelado e a velha frase "tiene cuidado con sus opciones" assomou a sua mente com uma força arrebatadora, destruindo a lufada de esperança que mantinha acesa dentro de si. Era como se uma força superior a fizesse escolher entre a vida do seu filho e a do homem que amava. Como poderia sobreviver a essa escolha?

-Vamos? – Apurou Jack ao vê-la tão longe dali.

Jack fez um trejeito para dar passagem à jovem, que ponderou avançar com os olhos cravados no seu capitão. Algo ardia dentro dela, e não era a centelha de esperança que ela cultivara. Por fim, acenou com a cabeça e retomou a sua caminhada, sendo seguida por Jack. Imediatamente alcançaram a porta entreaberta, balançando com o vento artificial causado pela onda de neblina lá fora. Jack deteve-a no seu decorrer e puxou-a para trás, avaliando a situação caótica lá fora. A primeira coisa que perscrutaram, foi a voz contida de Cutler.

-Sabe o que pretendo, Davy? Matá-lo para poder possuir o seu navio. Seria uma óptima ideia, você não acha? – Seus lábios mantinham-se exprimidos, num esgar de puro prazer por controlar tudo ao seu redor.

-Nem pensar, NUNCA. – Rosnou Davy ao tentar de mover, contudo em vão.

-Aprenda uma coisa, Davy Jones, quem tem o poder é quem pode ditar as regras. E olhe – Ele elevou a mão, numa menção ao objecto que sustentava. – Coincidência das coincidências. Não se preocupe, meu caro, você ainda me será muito útil. – Uma nova torrente de humilhação atingiu Davy, que baixou a cabeça, impotente.

Isabella apertou os punhos e, inconscientemente, deu duas passadas em direcção a Cutler, contudo sentiu um apertão forte no braço ao ser barrada por Jack. Seus olhares encontraram-se naquele curto espaço. A jovem sentiu a respiração ficar pesada diante da possibilidade de ter os lábios de Jack tão perto dos seus.

-Nem ouse dar mais um passo, savvy? Ou serei obrigado a tomar atitudes mais drásticas. – Dissimulado, atreveu-se a elevar o canto do seu lábio. – Agora, você vai ser uma boa moça e vai correr o mais depressa possível para o Pérola. – Afrouxou o aperto e levou a mão de encontro ao cinturão, de onde tirou a bússola. – Agora desapareça daqui, tal e qual como fumaça.

-Eu não vou a lado nenhum sem você. – Rebateu prontamente, determinada.

-Não me faça arrastar-te até lá e te prender novamente, pois seria uma perda de tempo ante o problema que temos. – Mesmo perante aquela ameaça, Isabella sentiu necessidade de se contrapor, mesmo que Jack a encarasse com seu semblante sisudo. - Agora será tudo como eu quero, e não pense em discutir uma ordem minha, savvy? – Cada vez mais derrotada, afirmou com a cabeça e baixou-a. – Não quero que vocês corram risco. – Aquela sentença fê-la erguer os olhos e sorrir.

-O que está pensando fazer? – A sua voz extinta reencontrou-se.

-Enfrentá-lo. – Os olhos de Jack recaíram sobre o cenário, já os de Isabella alargaram tenebrosamente.

-Você prometeu…

-Palavra de pirata, darling.

Mordeu o lábio e abanou com a cabeça, envolvendo inesperadamente o pescoço de Jack com seus trémulos braços. Sentiu o desespero consumi-la impetuosamente, como se cada partícula do seu corpo ardesse diante a possibilidade de o deixar à mercê de Cutler. De imediato, Jack enlaçou a cintura da mulher e, sem demora, afundou os seus lábios nos dela num urgente e sôfrego beijo. Isabella gemeu contra os lábios dele, sobretudo quando um soluço lhe percorreu a garganta à medida que ele a distanciava de si, beijando-lhe, por fim, a testa. Ela apenas fechou os olhos e deixou as lágrimas acariciarem o rosto pálido.

-Eu te amo – sussurrou, rouca, ao vê-lo virar costas e mover-se tropegamente em direcção a Cutler. – E não te vou perder outra vez. – Amarrou a bússola na faixa e limpou as lágrimas com o dorso da mão. – Lamento, mas não irei acatar suas ordens.

Jack avançava descontraidamente em direcção a Cutler que permanecia com suas costas voltadas para o capitão. Todavia, o movimento fez com que Cutler voltasse sua atenção para a sua retaguarda, alargando um sorriso alargado ao ver Jack. Este cessou passos e estendeu os braços para o lado.

-Nunca houve cativeiro que me detivesse por muito tempo, você já devia saber disso.

-E o seu factor surpresa nunca foi o melhor. – Asseverou ao acolher o coração mais contra si. – Apesar de me ter surpreendido uma única vez, quando confiei verdadeiramente em si. – Jack rodopiou os olhos. – Porque tinha de colocar tudo a perder? Nós poderíamos ter sido uma grande dupla, donos do mundo e dos oceanos. – Novamente um laivo de raiva focou-se na sua voz contida.

-Prefiro ser dono da minha própria liberdade. – Exibiu a sua fileira de dentes de ouro, desdenhoso.

-A sua sorte é eu ser muito generoso, caro Sparrow, por isso, reflecti sobre o seu destino e acho que posso perdoá-lo…

-Se…

-Se resgatar aquele tesouro magnifico ao voltar a trabalhar para mim. – Jack manteve-se em silêncio perante tal proposta e, segundos depois, soltou uma gargalhada gutural para fúria de Cutler.

-Antes preferia cortar os pulsos e atirar-me imediatamente ao mar desvairado em sangue. – Cutler apertou o punho com tanta força que chegava a tremer.

-Então você escolheu um rumo onde não haverá volta a dar…

-E pensa matar-me como? Atirando com o coração à cabeça. – Jack gesticulou as mãos à medida que tentava aproximar-se um pouco mais de Cutler, que recuava, duvidoso.

-Tenho duas hipóteses mais plausíveis. – Cutler realçou apenas dois dedos. - A primeira, sim, é usar o coração, mas não de uma maneira tão leviana; a segunda é te matar da forma mais tradicional que sempre sonhei te matar. Contudo, você merece sofrer primeiro. – Do coração, um feixe de luz saiu disparado em direcção a Jack, que foi arremessado sobre o ar.

Jack acabou por recair no chão, num baque estrondoso, perto da sua tripulação. Uma espécie de cordas transparentes envolveram o seu corpo, apertando-o de forma asfixiante. Ainda que se debatesse para se soltar, não conseguia lutar contra tamanha força sobrenatural. Tentou alcançar a espada, mas cada movimento que fazia, as cordas ameaçavam sufocar-lhe a garganta, fazendo-o rugir silenciosamente. Já a escassos metros, a tripulação do Pérola contorcia-se igualmente para se soltar das cordas imaginárias que os prendiam. John lutava com verdadeira vivacidade, principalmente quando via Jack contorcer-se como um animal ferido, em vias de morrer a qualquer momento.

-Ele vai acabar por morrer. – Rosnou John num bramado sufocado.

-Já tentei várias vezes sair daqui, mas parece que estou colado á terra. – Retrucou Gibbs, revoltado.

-A Isabella? – Elizabeth apercebeu-se da ausência dele, incapaz de observar o espectáculo privado de Cutler. – Ela deveria estar com Jack.

-Talvez tenha ocorrido alguma coisa com ela…- Supôs Anna que mantinha uma respiração desregulada ao mesmo tempo que, de sua testa, pequenas gotículas escorregavam.

-Tudo se resume àquele maldito coração. – Barbossa cruzou os braços, murmurando para si mesmo. – E por causa dele, nossa arte está em vias de extinção. – Apesar de sua pose altiva, todos notaram numa nota de desconsolo na voz do capitão. – Houve uma época em que qualquer pirata era livre de tomar o seu próprio rumo, mas agora, esses tempos estão perto de chegar ao fim. – E entre dentes, concluiu: - Jack só está sendo o primeiro a conhecer esse triste fecho.

-Tia Dalma, por amor de Deus, o que vai acontecer?

-Vocês se lembram da profecia que vos proferi antes de esta aventura começar? – Todos anuíram, cada um carregando diferentes expressões no seu semblante. – Lembram-se desta sentença: "Agora para o recuperarem terão de pôr uma vida em risco, uma vida pura, uma vida do passado…" Pois bem, essa hora chegou.

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De mãos assentadas sobre a cabeça, Isabella observava o espectáculo ridículo expostos a seus olhos desesperados. Cada contorcer de Jack era como uma facada bem assentada no seu coração. A sua respiração rápida e descontrolada parecia asfixiá-la sobre a pressão exercida contra os seus pulmões. A angústia não a deixava raciocinar decentemente, ainda que sua mente ordenasse às suas pernas trémulas para se moverem em auxílio de Jack.

O cenário da cidade era devastador, quase que era irrefreável parar aquelas pessoas que fugiam com um pânico incontrolável, gritando e chorando de desespero, não sabendo se daqui a poucos segundos estariam mortas com uma espada trespassada por qualquer parte do corpo. De facto, a cidade tinha agora a terrível visão de um verdadeiro inferno que insistentemente ardia em chamas, devorando metade das casas. Aquele fogo não parecia extinguir nem com a força da chuva que estava cada vez mais forte.

Seus olhos voaram em direcção aos tripulantes do Pérola, igualmente impotentes perante a situação terrível que se depunha à sua frente. Todavia, os seus semblantes alteraram-se diante de uma possibilidade que Isabella não ponderara. Urros e movimentos bruscos eram traçados por cada um, em vão. Isabella voltou novamente a sua atenção para Cutler, e então seu coração sofreu um baque seco contra as paredes de seu peito. Com um sorriso triunfante, Cutler envolvia a mão sobre a coronha da arma, tirando-a lentamente do coldre.

-Não. – Balbuciou num fio de voz, horrorizada.

Inconsciente, a jovem levou a mão à faixa, porém recordou-se que os guardas haviam lhe retirado as armas. Consumida pela fúria que a desnorteava, olhou ao seu redor, em busca de algo para atacar Cutler, não achando nada. Desesperada, fechou os olhos e tentou controlar a respiração, finalmente encontrando na sua mente a resposta que tanto pedira. Cada vez mais possuída pelos nervos que a consumiam, Isabella fez um meneio de cabeça e avançou lentamente, decidida a atacar Cutler com suas próprias mãos. Por entre a confusão instaurada no jardim, ela aninhou-se sobre a vegetação assolada, movendo-se em direcção ao seu alvo.

Jack sentiu o aperto cada vez mais afrouxar, acabando por desaparecer. A sua mente quase apagada começou a ganhar um novo assomo de consciência. Muito lentamente, e com a ajuda dos braços apoiados na terra, Jack ergueu o tronco, voltando sua atenção para Cutler; sorriu, mordaz ao vê-lo apontar-lhe uma arma.

-É agora que vai dar o golpe de misericórdia? – Indagou à medida que se erguia completamente do chão enquanto sacudia sua camisa empoeirada.

-O que sente, quando vê a sua vida depender de um simples clique no gatilho? – Cutler acariciou a arma, aluado. – Não sente medo? Não pensa implorar pela sua vida?

-E dar-lhe esse gostinho? – Ele gesticulou, desdenhoso. – Mate, eu sou o Capitão Jack Sparrow, savvy? – Empinou a sobrancelha.

-Até mesmo o Capitão Jack Sparrow tem os seus temores, e ser um mero mortal é um deles.

Jack arregalou completamente os olhos quando visualizou uma sombra atrás de Cutler. Aquela sombra negra que deixara há poucos minutos, ao pedir-lhe para se colocar em segurança. Devia ter calculado que ela não arrecataria seu pedido.

-Eu sabia, você é um cobarde como todos os outros.

-Engana-se, ele não é cobarde como você, seu verme.

Cutler voltou-se vagarosamente para trás, deparando-se com Isabella que lhe deu um murro bem assente no rosto. Ao se desequilibrar, deixou o coração cair, ainda que tenha sido aparado por Isabella. Novos urros de esperança foi escutado perante o povo.

-Esta foi pelo estalo que me deu lá dentro. – A aproveitando a distracção de Cutler, Isabella voltou a sua atenção para Jack, que abanava a cabeça de lábios crispados. – Tome. – Ela atirou o coração com o máximo das suas forças, vendo-o cair nas mãos de Jack.

Naquele momento, Jack murmurou algo para o coração, o que fez com que os feitiços lançados perdessem a legitimidade. Um arfar uníssono foi escutado quando todos sentiram que estavam mais leves, e que seus movimentos eram agora governados por si mesmos.

-Constância. - Sussurrou Davy ainda absorto. – Não pode ser.

Isabella permanecia imóvel com um esgar de aversão estampada no rosto ao mesmo tempo que observava Cutler a endireitar-se, cada vez mais enfurecido.

-Sua rameira, como pôde? – De mãos trémulas, Cutler apontou-lhe a arma; os olhos exaltados de Isabella recaíram contra a pistola. – Eu ofereci-lhe uma vida de luxo, uma vida para o seu filho e é assim que me agradece?

-Mais tarde ou mais cedo você iria acabar por me matar, sobretudo quando descobrisse que eu era uma pirata, tal e qual como pude comprovar quando me trancou naquele quarto. – rosnou numa raiva contida, sem desviar o olhar.

-Não é verdade, e sabe porquê? Porque me apaixonei por você, sua imbecil. – Cutler fez um movimento brusco com a arma, assustando discretamente Isabella. – Eu só tomei tal decisão por descobrir que você era amante do Sparrow…

-Amante não, mulher sim. – Assentou soletrando as letras. – Ele é o único homem que amo e pai do meu filho, você nunca teria hipóteses de ocupar o meu coração.

-Pois muito bem, então terei imenso prazer de matar o seu príncipe pirata. – A arma saiu de sua mira, indo em direcção a um Jack concentrado que avançava em passos lentos. Deteve-se ao ver a arma apontada sobre si.

-Do que estão à espera? Ao ataque. – Bramou Will ao esbracejar de espada em riste.

Quando se apercebeu que um novo confronto iria estourar ao seu redor, Isabella soltou um urro enraivecido e avançou sobre um distraído Cutler. Este apenas teve tempo de direccionar a arma contra a jovem, que a aparou entre suas mãos, medindo forças com o homem que a tentava matar naquele preciso momento.

"O meu filho não." Rosnou interiormente ao se apoderar da coronha.

Sem saber o que fazer, Jack avançou grosseiramente, num passo acelerado, por entre a maré de pessoas que lutavam para se manter com vida. Desajeitadamente, após levar um encontrão de alguém que tentava fugir, Jack deixou o coração cair. A raiva cegava-o de tal maneira que não conseguiu voltar para trás para o apanhar, pelo contrário, sua mão apoderou-se do espigão da espada e continuou sua jornada. A sua preocupação ia aumentando gradualmente, sobretudo quando a confusão o impedia de manter um contacto visual sobre o desenrolar da situação entre Isabella e Cutler

Mas o que raios tinha passado na cabeça daquela mulher? Não podia unicamente acatar, pelo menos uma única vez na sua vida, uma ordem dele? Jack abanou a cabeça. Ela estava metida num belo sarilho, e isso englobava pôr o filho de ambos em risco. A muito custo, Jack ia conseguindo penetrar pela barreira criada, debatendo-se bruscamente para captar a imagem de Isabella.

Por um instante sorriu ao se aperceber que a sua tripulação e a tripulação do Holandês Voador tinham unido forças para avançarem contra os guardas de Cutler, que criavam uma defesa firme em volta do governador. Este permanecia com seus olhos safira cravados em Isabella. A jovem sentia pequenas gotículas a escorregar sobre a testa, cada vez mais exausta devido ao esforço daquela batalha para se manter viva.

-Isso não vai dar certo Cutler, admita, você perdeu. – Provocou de dentes arreganhados, de forma a enfraquecer o seu inimigo.

-Perder? – Uma gargalhada gutural e forçada foi escutada. – Não sou eu que estou arriscando minha vida por um maldito pirata. Ele já te disse que te amava? – Isabella sentiu o veneno daquelas palavras. – Você tem realmente a certeza que ele está lutando por você? Ou pelo coração?

-Pode não me amar quanto eu o amo, mas uma coisa eu sei. Ambos lutamos para não deixar que você acabe com o nosso sonho: o de seu livre nos mares que tanto nos pertencem…

Ela emudeceu ao sentir a arma inclinar-se para cima. Para sua angústia e repulsa, a aproximação de ambos foi inevitável. Os seus rostos ficaram a milímetros de distância, de tal maneira que Isabella recuou um pouco a cabeça para trás. Cutler aprofundou suas safiras nos olhos da jovem ofegante. Por fim, tomou a ousadia de a beijar. Um beijo que a surpreendeu, ainda que chocalhasse a cabeça para o afastar. Com um enorme sorriso, ele afastou-se, porém, seu sorriso desfez-se quando ela lhe cuspiu sobre o rosto.

-Esse foi o seu último acto pirata, cadela.

Num novo assomo de fúria, Cutler conseguiu manobrar a pistola para que esta voltasse a ficar entre eles. Isabella, pelo contrário, sentia-se cada vez mais esgotada, perdida.

"Tiene cuidado con sus opciones" Tarde demais.

Lágrimas escorregavam pela sua face rubra à medida que sentia a pistola dirigir-se cada vez mais para si. Isabella fechou os olhos para não ver o rosto de satisfação quando ele puxasse o gatilho e lhe desse o tiro de misericórdia.

"Lamento não ter sido forte o suficiente, Jack."

Cada vez mais perto, Jack desferia um golpe certeiro num dos guardas que se atrevera a atravessar no seu caminho. Todavia, quando se desenvencilhara dele, um limitado som ágil e brusco soou no ar. Jack empurrou o guarda para o chão a tempo de ver Isabella levar a mão esquerda sobre o peito.

Isabella sentiu o fôlego ser-lhe saqueado naquele momento; o ar parecia estar irrespirável. Seus olhos abriram-se de rompante, porém a visão estava toldada pelas lágrimas que se acumulavam. Não me vou entregar à escuridão. Chocalhou a cabeça, trémula. Tentou mover-se, mas seus movimentos pareciam ser travados por alguma força invisível. Apesar de tossir, expelindo um pouco de sangue amargo, Isabella levou a outra mão ao seu ventre. Desculpa. Suas pernas cederam, por fim. A jovem tombou os joelhos no chão, acabando por deixar-se levar de encontro até este.

-ISABELLA! – Berrou Jack ao arregalar os olhos.

Todo o seu autocontrolo desvaneceu-se como fumaça, quando viu Cutler rir-se feito um louco perante o corpo tombado de Isabella. Suas pernas ganharam um novo alento, correndo desalmadamente para pôr termos àquela loucura que o corroía por dentro. Ao encurtar finalmente a distância que os separava, Jack aninhou-se sobre o corpo inconsciente. Porém, imediatamente foi impedido de a tocar pela lâmina fria da espada de Cutler. O olhar de ambos, repleto de ódio e impetuosidade, cruzou-se naquele ambiente sombrio que os cobria, tal como o manto de gotículas que tentava arrefecer a atmosfera caótica.

Ainda inexpressivo, Davy Jones permanecia imóvel, apenas remexendo os seus imensos tentáculos. A sua infanta estava morta. Arriscara novamente a sua vida para salvar o homem que amara. Parecia destino daquela pobre alma. Contudo, desta vez, não era por Davy que ela tomara o tiro. Era por Jack Sparrow.

-Maldito seja o amor. – Remoeu, ao cerrar os punhos com tal força que os fez tremer. – Maldita seja sua alma enamorada e suas promessas quebradas.

Seu olhar recaiu sobre o ambiente tenso que cingia os dois homens e, por breves instantes, apercebeu-se que nenhum dos dois tinha o coração. Davy fechou os olhos e num cantarolar suave envolto num tom de tenor, deixou sua voz ausentar-se das suas cordas vocais, num chamado. Vagarosamente, o coração elevou-se do chão e voou em direcção à mão estendida de Davy, repousando suavemente sobre esta. Davy sorriu ao ver que ele ainda batia, embora sentisse que ele compartilhava da mesma dor da sua alma magoada.

-Acabou, meu querido, nossa maldição será eterna. – Afagou o coração e guardou-o debaixo dos tentáculos. – Só nos resta partir. TRIPULAÇÃO. – Voltou costas para o cenário doloroso. – Vamos embora, já. – Começou a caminhar sem esperar pelos seus marujos.

-E a sua amada? – Indagou o marujo mais próximo.

-Entregou-se a um destino sem retorno, isso é o que acontece aos jovens enamorados. – Sobre o ombro, ele voltou a mirar unicamente Isabella. – Ela já não é a minha infanta.

-E o Capitão Jack Sparrow? Viemos aqui com o objectivo de o apanhar...

-A divida dele acabou de ser saudada, agora só o tempo se encarregará dele ou, quem sabe, o próprio Cutler. – Aumentou então o tom, num rosnado: - Estão à espera do quê? Vamos embora.

A chuva miudinha abrangia o céu já raiado com centelhas resplandecentes do sol, que começava a despontar na linha longínqua do horizonte. Naquele panorama absorvente, Davy deixou escapar um suspiro frustrado, movendo-se sem mais nada proferir. Os tripulantes do Pérola, sem desconfiarem que Davy tinha o coração em sua posse, viam a retirada dos monstros do Holandês Voador, sem contestarem, ainda que Tia Dalma mantivesse seu cenho franzido de desconfiança para tal debandada. Barbossa apercebeu-se de tal quando ambos entreolharam-se, contudo não quis alarmar os restantes companheiros sobre suas desconfianças.

Enquanto isso, Cutler e Jack permaneciam frente a frente de espadas em riste, esperando que um dos dois tivesse a iniciativa de avançar. Cansado daquele impasse, Cutler foi o primeiro a atacar, lançando-se raivosamente sobre Jack, que o travou ao desviar a sua espada. Num gesto hábil, Jack atacou num golpe de esquerda para a direita, mas Cutler bloqueou-o com alguma dificuldade.

-Temos de impedir. – Anna Maria apontou para o cenário que se delineava diante dos seus olhos; Will concordou, contudo, Tia Dalma estendeu-lhes o braço para os travar.

-Nem pensem. Aquilo é algo que ambos precisam resolver.

-Ele matou-a. – Proferiu Will pausadamente entre dentes.

-Não se preocupem, Isabella será o ponto crucial para Jack dar a volta ao resultado. – Por fim fitou-os, vendo-os contidos – Somos mais úteis aqui, a tratar dos feridos. – Elizabeth acenou com a cabeça em forma de concordância.

Todos os pares de olhos, relutantes, voltaram a fincar-se no desenrolar do duelo que se desenvolvia.

Jack fazia um belo jogo de passos para atacar o seu inimigo, que cada vez dava mais sinais de fraqueza. Num movimento ágil, Jack trespassou a espada diante o rosto de Cutler. Este sentiu o suou a escorregar-lhe pela testa à medida que se debatia contra a fúria daquele homem tresloucado. Num lapso, as duas espadas entrelaçaram-se no ar, como se debatessem apenas a força.

-Acho que estamos quites, Jack. – A voz exausta de Cutler ecoou na mente encolerizada. – Você me roubou o sonho de ter o grande tesouro da minha vida, agora eu lhe tirei o seu…Como se sente?

Cutler arregalou os olhos ao solver furiosamente o ar. Deixou a sua espada deslizar das mãos como uma pena se tratasse. Jack apenas espremeu os olhos, cada vez mais confuso com o que se passava. Todavia, essa confusão se dissolveu ao ver alguém de joelhos, atrás de Cutler. Um sorriso manhoso preencheu-lhe o rosto, sobretudo quando viu Isabella colocar a mão no ombro de Cutler para se erguer e retirar o punhal que havia cravado nas costas do governador.

-Será que um acto de covardia é valorizado quando se tenta salvar as pessoas que amamos? – Indagou a jovem, num tom franco e arrastado.

Jack avaliou o estado débil da jovem. Seu rosto ensanguentado contrastava com a palidez das faces, anteriormente rosadas. Mesmo assim, Isabella não deixou de expressar um sorriso, como se pretendesse descansar Jack sobre o seu estado frágil.

-Como sempre estragando o meu momento. – Murmurou ao ver um rastilho de esperança se incendiar dentro de si.

-Acaba logo com ele Jack. – Balbuciou ela, com um sorriso franco.

Jack desviou o seu olhar para Cutler. O governador apenas permanecia estático, com seus olhos esbugalhados de terror. Era como ter o demónio diante de si, pronto a levá-lo numa viagem sem retorno às profundezas que ele nunca desejara conhecer.

-Ao tentar me enfrentar, você se esqueceu de uma coisa muito importante. – Elevou o canto do lábio ao puxar a espada atrás. – Eu sou o capitão Jack Sparrow – De seguida perfurou a barriga de Cutler sem piedade. - savvy? – soprou no ouvido dele.

Cutler resfolgou o seu último fôlego e, após Jack retirar-lhe a espada impetuosamente, caiu no chão continuando com seus olhos esgazeados impostos em Jack.

-Acabou – Murmurou ela ao rodopiar os olhos e voltar a desfalecer.

Jack largou a espada e tomou-a nos braços antes mesmo de ela alcançar o chão. A jovem abriu uma fenda por entre os olhos para visualizá-lo. Queria lutar contra a escuridão que a abraçava lentamente, somente para poder revê-lo mais uma vez; somente para voltar a sentir os seus lábios contra os dele, pelo menos uma última vez. Isabella sorriu e levou a mão debilitada de encontro ao rosto do capitão. Este aparou a mão dela na sua, com o semblante carregado.

-Porque raios não me obedeceu, pelo menos uma única vez? – Tirou uma mecha de cabelo em frente ao rosto suado enquanto observava a ferida entre o ombro esquerdo e o peito. – Olhe onde sua teimosia a levou.

-Eu não queria te ver morrer nas mãos daquele homem, mas temo ter posto a vida do nosso filho em risco. – Novas lágrimas brotavam nos seus olhos. – Um preço injusto a ser cobrado. Jack, está tanto… frio, Jack.

De dentes arreganhados, Jack tirou o casaco cuidadosamente para não a contundir ainda mais. Antes de tapá-la, visualizou a camisa negra dela ser cada vez mais consumida pelo vermelho vivo. Não vou deixar Cutler levar a melhor, cogitou para si ao envolver-lhe o peito com o seu casaco. De seguida tentou pressionar a ferida, fitando tudo ao seu redor como se procurasse ajuda. Porém, seus olhos voltaram a recair sobre as safiras quase apagadas de Isabella.

-Nem pense em ir atrás de Cutler, hum. – Pressionava a ferida com mais força a modos de estancar o sangue. – Você não me vai deixar. – Ela apenas sorriu, e num sopro de ar, murmurou:

-Repita isso mais uma vez.

-Não me deixe, não agora. – Ela alargou um sorriso inconsciente.

Sem pensar mais em nada, Jack envolveu-a com os seus braços e pegou-a ao colo, sentindo o corpo de Isabella leve que nem uma pluma de almofada. A jovem gemeu entre dentes, já com seus olhos fechados.

Ao se colocar de pé, agora que amanhecera e a chuva tinha cedido um pouco, Jack podia ver os estragos que aquela pequena batalha tinha causado. Metade da cidade que outrora tivera sua terra pintada de um verde verdejante e um castanho arenoso, tinha agora o seu pavimento manchado com tons avermelhados, difíceis de demover. Seus olhos finalmente incidiram sobre algo que ele determinantemente procurara. Um cavalo desnorteado vagueava sem rumo, perto da residência, o que o fez apressar-se por esse trilho marcado pelo odor da morte.

Ao chegar perto do cavalo, este relinchou e empinou-se. Com alguma dificuldade, Jack conseguiu agarrar-se os arreios e tentou sossegar o bicho inquieto, com sucesso. Ao dominá-lo, depositou cuidadosamente Isabella na garupa e acabou por saltar, dando uma instigada aos arreios para o cavalo se mover numa velocidade quase inalcançável de encontro ao Pérola Negra.

O cavalo passou velozmente por alguns dos tripulantes do Pérola, que apenas o viram passar silenciosamente, sem lhes dirigir um olhar. Mantinha a sua concentração perante as possibilidades que possuía e qual a hipótese que tinha para manter Isabella viva. Dalma fez um aceno para Anna Maria, e ambas apressaram-se a seguir o cavalo inatingível de Jack.

-Tenho um enorme pesar por tudo o que Jack está passando. – Murmurou Elizabeth ao ir de encontro ao seu amado, que ser elevava do chão após observar um jovem perecido no chão. – Aliás, por toda esta situação. Port Royal ficou novamente irreconhecível. – Ela mordeu o lábio e baixou sua expressão sentida.

-Teremos a mesma força para reconstrui-la, minha querida. – Elizabeth apercebeu-se do tom frustrado de Will; elevou seus olhos sobre as feições decepcionadas do seu amado.

-O que se passa Will? – Ela levou a mão ao rosto dele; este apenas tomou o seu braço e puxou-a ao seu encontro.

-Fracassei novamente, Elizabeth. – Cercou os braços na cintura da jovem, derrotado. – Tive uma boa oportunidade de soltar o meu pai e não consegui.

-Nós ainda possuímos o coração, temos um ponto a nosso favor. – Um sorriso iluminou o rosto dela, fazendo-o corresponder-lhe francamente.

-Você não sabe o quão orgulhoso estou de você. – Beijou-lhe a testa num suave beijo. – Sabia que eu te amo?

-É sempre bom ouvir novamente. – A mão dele afagou o cabelo dele, com seus olhos mergulhados na profundidade intensa dos dela.

-Eu te amo

-Eu também William Turner. – Por fim, ele afundou os seus lábios nos dela.

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Após abandonar o cavalo, Jack apressou-se a adentrar no Pérola Negra, avançando para os seus aposentos. Lá, ele depositou o corpo imóvel da jovem sobre a cama desfeita. Isabella voltou a gemer de dor quando se acomodou no estrado confortável e frio. Jack retirou o casaco de cima dela e rasgou-lhe o colete e a camisa negra, vendo realmente o estado em que aquela bala se encontrava filtrada. Os seus olhos cerraram-se sobre o ferimento enquanto massajava os dedos. Já havia se curado muitas vezes de ferimentos, e já visualizara muitos dos tratamentos que outros aplicavam em feridos, contudo era ela que estava ali depositava. Isabella. Não um marujo qualquer ao qual a vida não contava muito para piratas como eles.

Ainda desnorteado, acabou por arregaçar as suas mangas a modos de começar a tratá-la

-Diabos carreguem aquele maldito. – Resmoneou, sisudo. – Você é forte, vai aguentar. – Fitou de esgueira o ventre dela. – E você, sendo meu filho, vai mostrar de que sangue é feito um Sparrow.

A porta do seu aposento foi aberta de rompante, marcando bem a silhueta de Dalma. Jack não se moveu um milímetro de perto de Isabella, mesmo quando Dalma lhe colocou a mão sobre o ombro.

-Vá buscar uma tesoura, água quente, panos, uma agulha, uma pinça e uma garrafa de rum. – Jack tentou absorver a quantidade de instruções que recebera naquele curto espaço de tempo. – Vai logo homem, o tempo corre contra ela e ainda podemos salvá-los. Chame Anna Maria e não volte a entra até que eu o chame…

-Diabos Dalma porquê que…

-Eu não preciso de ninguém me atrapalhando. – Rosnou ela, ao se aninhar perto da jovem e, num esbracejar, ordenou: - Agora vá.

-Está certo. – Jack saiu apressadamente dos seus aposentos.

Bom acho que exagerei um pouquinho, mas é que me deixei entusiasmar e acabei por fazer um capítulo bem grandinho. Agora com Davy fugindo e novamente na posse do coração, o que será que se vai passar com a tripulação do Pérola Negra?

Fini Felton: Mana é assim mesmo que eu gosto de ver. O Bando das loucas lol, agora temos de inventar uma música ou um lema. Bom, o cabrão só fez um estragozito, mas pagou com a vida, como praticamente adivinhas-te lool. Adoro-te mana.

Kadzinha: Não vi falta de criatividade, aliás adorei a sua review. Está bem original.Faz me lembrar aquelas mensagens que recebo no e-mail rsrsrs. Espero que tenha gostado deste capítulo.

Jane: Obrigada na mesma pela sua review, eu quando disse que não tinha jeito, estava a falar sério, mas se tu gostaste do encontro, fico feliz.

Likha Sparrow: Lamechas rsrsrs! Quanto à batalha, não está nada de especial, foi no que deu para fazer. Espero que tenha gostado deste capítulo também.

Gabriela Black: Claro que ele se safa, ele safasse sempre, é a sorte dele. Infelizmente aqui teve chuva, mas eu adoro chuva e das longas horas a apreciá-la. Também acho que engordei, só pelo chocolate que comi, minha nossa. Quanto ao trailer, adorei, já vi milhões vezes e rio-me sempre que vejo…você também já decorou as falar? Estou a ver que não sou a única ihihih. Quanto ao capítulo, não saiu uma grande batalha, mas saiu algo parecido rsrs

Até ao próximo capitulo e faltam para aí 3 ou 4 capítulos para acabar a fic (já sinto toda a gente suspirando de alivio rsrsrs)

Beijocas e fiquem bem

Taty Black