Biarritz, na costa sudoeste da França, perdera muito do encanto que possuía na passagem do século. O outrora famoso Casino Bellevue está fechado para reparos muito necessários, enquanto o Casino Municipal, na Rue Mazagran, é agora um prédio desmantelado, alojando pequenas lojas e uma escola de dança. As antigas villas nos morros assumiram uma aparência de nobreza maltrapilha.
Mesmo assim, durante a temporada, de julho a setembro, os ricos e titulados da Europa continuam a ir para Biarritz, a fim de desfrutar o jogo, o sol e suas recordações. Os que não possuem residências próprias ficam hospedados no luxuoso Hotel du Palais, na Avenue Impératrice. A antiga residência de verão de Napoleão III está situada num promontório sobre o Oceano Atlântico, num dos mais espectaculares cenários da natureza: um farol num lado, flanqueado por imensos rochedos pontiagudos assomando do mar cinzento como monstros pré-históricos, e a calçada de madeira no outro.
Numa tarde, no final de agosto, a baronesa francesa Marguerite de Chantilly entrou no saguão do Hôtel du Palais.
Era uma mulher elegante, de cabelos louros lustrosos. Usava um Givenchy de seda verde e branco, que delineava um corpo que fazia as mulheres se virarem e olharem com inveja, deixava os homens embasbacados. A baronesa encaminhou-se para a recepção e disse:
- Ma clé, s'il vous plaít.
Tinha um encantador sotaque francês.
- Pois não, baronesa.
O recepcionista entregou a Hermione a chave e diversos recados telefônicos. Quando ela se encaminhou para o elevador, um homem de óculos, aparência amarfanhada, virou-se abruptamente da vitrine que expunha echarpes Hermès e esbarrou nela, derrubando a bolsa de sua mão.
- Oh, minha cara, lamento profundamente! - Ele pegou a bolsa e entregou a Hermione. - Por favor, perdoe-me.
Ele falava com um sotaque da Europa Central. A Baronesa Marguerite de Chantilly deu-lhe um aceno de cabeça arrogante e seguiu em frente.
O ascensorista abriu a porta do elevador e deixou-a no terceiro andar. Hermione escolhera a Suíte 312, tendo aprendido que muitas vezes a seleção das acomodações no hotel era tão importante quanto o próprio hotel. Em Capri, era o Bangalô 522, no Quisisana. Em Majorca, era a Suíte Real do Son Vida, dando para as montanhas e a baía distante. Em Nova York, era a Suíte da Torre 4717, no Hehnsley Palace Hotel. Em Amsterdam, era o Quarto 325, no Amstel, onde o hóspede era embalado ao sono pelo marulhar suave das águas no canal.
A Suíte 312 do Hôtel du Palais oferecia uma vista panorâmica tanto do mar como da cidade. Hermione podia observar, de todas as janelas, as ondas se lançando contra os rochedos eternos, projetando-se do mar como vultos afogados. Directamente abaixo de sua janela ficava uma piscina enorme, em formato de rim, a água de um azul brilhante contrastando com o cinzento do oceano, tendo ao lado um terraço amplo, com guarda-sóis para proteger do sol do verão. As paredes da Suíte eram forradas em damasco azul e branco, os rodapés eram de mármore, os tapetes e cortinas da cor de rosa desbotada. A madeira das portas e janelas era manchada com a suave patina do tempo.
Depois de trancar a porta, Hermione tirou a peruca loura muito justa e massageou o couro cabeludo. A personagem da baronesa era uma de suas melhores. Havia centenas de títulos a escolher em Debrett's Peerage and Baronetage e no Almanach de Gotha, duquesas, princesas, baronesas e condessas às dezenas, de duas dúzias de países. Os livros eram valiosos para Hermione, pois forneciam histórias de família remontando por séculos, com os nomes de pais, mães e filhos, escolas e casas, endereços de residências. Era uma questão simples escolher uma família preeminente e tornar-se uma prima distante – particularmente uma prima distante rica. As pessoas sempre se impressionavam por títulos e dinheiro.
Hermione pensou no estranho que esbarrara nela no saguão do hotel e sorriu.
Às oito horas daquela noite, a Baronesa Marguerite de Chantilly estava sentada no bar do hotel quando o homem com quem colidira no saguão aproximou-se de sua mesa.
- Com licença - disse ele, timidamente - mas quero pedir desculpas outra vez por minha falta de jeito indesculpável esta tarde.
Hermione presenteou-o com um sorriso gracioso.
- Não foi nada. Apenas um acidente.
- É muito gentil. - O homem hesitou. - Eu me sentiria muito melhor se me permitisse lhe oferecer um drinque.
- Oui... se faz questão.
Ele ocupou uma cadeira à frente de Hermione.
- Permita que eu me apresente. Sou o Professor Adolf Zuckerman.
- Marguerite de Chantilly.
Zuckerman fez sinal para o garçon e depois perguntou a Hermione:
- O que gostaria de tomar?
- Champanha. Isto é, se...
Ele levantou a mão, num gesto tranquilizador.
- Tenho condições. E, para dizer a verdade, estou prestes a ter condições de oferecer qualquer coisa no mundo.
- É mesmo? - Hermione sorriu - Isso é ótimo para você.
- Tem toda a razão.
Zuckerman pediu uma garrafa de Bolfinger, depois tornou a virar-se para Hermione.
- Aconteceu-me a coisa mais extraordinária. Eu não deveria estar discutindo isso com uma estranha, mas é excitante demais para me manter calado. - Ele inclinou-se para a frente e baixou a voz. - Para ser franco, sou um simples professor... ou era, até recentemente. Ensino história. É bastante agradável, mas não muito emocionante.
Hermione escutava com uma expressão de interesse polido no rosto.
- Ou melhor, não era emocionante até há poucos meses atrás.
- Posso perguntar o que aconteceu há poucos meses, Professor Zuckerman?
- Eu fazia pesquisas sobre a Armada Espanhola, procurando informações que pudessem tornar o assunto mais interessante para meus alunos. Nos arquivos do museu local, encontrei um velho documento que de alguma forma se misturara com outros papéis. Continha detalhes sobre uma expedição secreta que o Príncipe Philip despachou em 1588. Um dos navios, carregado de barras de ouro, supostamente naufragou numa tempestade, desaparecendo sem deixar qualquer vestígio.
Hermione fitou-o com uma expressão pensativa.
- Supostamente naufragou?
- Exatamente. Mas, de acordo com esse documento que descobri, o comandante e a tripulação deliberadamente afundaram o navio numa enseada deserta, planeando voltar depois para recolher o tesouro. Mas foram atacados e mortos por piratas, antes que pudessem voltar. O documento só sobreviveu, porque nenhum dos piratas sabia ler ou escrever E, assim, ignoravam o que tinham em mãos.
A voz do professor tremia agora de excitamento.
- Agora... - Ele, olhou ao redor, certificando-se de que era seguro continuar, baixou ainda mais a voz para acrescentar:
-... eu tenho o documento, com instruções detalhadas sobre a maneira de chegar ao tesouro.
- Uma descoberta afortunada, professor.
Havia um tom de admiração na voz de Hermione.
- O ouro vale provavelmente cinquenta milhões de dólares hoje - disse Zuckerman. -Tudo o que tenho de fazer é tirá-lo lá do fundo.
- O que o está impedindo?
Ele encolheu os ombros, embaraçado.
- Dinheiro. Preciso equipar um navio para trazer o ouro à superfície.
- Entendo... Quanto isso custa?
- Cem mil dólares. Devo confessar que fiz uma tremenda tolice. Peguei vinte mil dólares... as economias de minha vida... e vim para Biarritz jogar no cassino, esperando ganhar o suficiente para...
A voz dele sumiu.
- E perdeu tudo.
O professor assentiu. Hermione percebeu o brilho de lágrimas por trás dos óculos. O champanha chegou, o garçom tirou a rolha, despejou o líquido dourado nos copos.
- Bonne chance - brindou Hermione.
- Obrigado.
Eles tomaram um gole do champanha, num silêncio pensativo.
- Por favor, perdoe-me por entediá-la com a minha história - disse Zuckerman. - Eu não deveria estar expondo os meus problemas a uma linda dama.
- Achei a sua história fascinante, professor. Tem certeza de que o ouro está mesmo lá?
- Sem a menor sombra de dúvida. Tenho as ordens de embarque originais e um mapa desenhado pelo próprio comandante. Conheço a localização exata do tesouro.
Hermione observava-o com uma expressão cada vez mais pensativa.
- Mas precisa de cem mil dólares, não é mesmo?
Zuckerman riu, tristemente.
- Exatamente. Para obter um tesouro que vale cinqüenta milhões de dólares.
Ele tomou outro gole de champanha.
- É possível...
Hermione não acrescentou mais nada.
- O quê?
- Já pensou em arrumar um sócio?
Ele ficou surpreso.
- Um sócio? Não. Planejei fazer tudo sozinho. Mas é claro que agora que perdi meu dinheiro...
Sua voz tornou a sumir.
- E se eu lhe desse os cem mil dólares, Professor Zuckerman?
Ele sacudiu a cabeça.
- Absolutamente não, baronesa. Eu não permitiria. Pode perder seu dinheiro.
- Mas se tem certeza de que o tesouro se encontra lá...
- Quanto a isso, tenho certeza absoluta. Mas mil coisas podem sair erradas. Não há garantias.
- Há poucas garantias na vida. Seu problema é muito interessante. Se eu o ajudasse a resolver, poderia ser lucrativo para nós dois.
- Não. Eu jamais me perdoaria se, por algum acaso remoto, perdesse o seu dinheiro.
- Posso arcar com o prejuízo. E poderia obter um grande lucro com meu investimento, não é?
- Claro que tem esse lado. - Zuckerman ficou em silêncio por um longo tempo, obviamente dilacerado pelas dúvidas. - Se é o que deseja, será uma sociedade meio a meio.
Ela sorriu, satisfeita.
- D'accord. Eu aceito.
O professor apressou-se em acrescentar:
- Descontadas as despesas, é claro.
- Naturalmente. Quando podemos começar?
- Imediatamente. - O professor exibia uma repentina vitalidade. - Já encontrei o barco que quero usar. Possui um equipamento moderno de dragagem e quatro tripulantes. É claro que teremos de dar a eles uma pequena parecela do que encontrarmos.
- Bien sur.
- Devemos começar o mais depressa possível ou poderemos perder o barco.
- Posso ter o dinheiro disponível em cinco dias.
- Maravilhoso! - exclamou Zuckerman. - Isso me dará tempo suficiente para todos os preparativos. Ah, que encontro fortuito para nós dois, não é mesmo?
- Sim, sem dúvida.
- À nossa aventura.
O professor ergueu seu copo. Hermione também ergueu o seu e brindou:
- Que seja tão lucrativa quanto eu pressinto que será.
Os copos retiniram. Hermione olhou através do bar e ficou paralisada. Harry Potter se encontrava a uma mesa no canto, observando-a com um sorriso divertido. Tinha em sua companhia uma mulher atraente, carregada de jóias.
Harry acenou com a cabeça para Hermione e ela sorriu, recordando como o vira pela última vez, no lado de fora da propriedade do Conde de Matigny, acompanhado por um enorme cão. "Aquela foi uma vitória minha" pensou Hermione, feliz.
- Com licença, mas é melhor eu me retirar agora – Zuckerman estava dizendo. - Tenho muito o que fazer. Ficarei em contato.
Hermione estendeu a mão, graciosamente, ele beijou-a e partiu.
- Vi que seu amigo a abandonou e não posso imaginar o motivo. Você está absolutamente sensacional como uma loura.
Hermione levantou os olhos. Harry estava de pé ao lado de sua mesa. Ele sentou na cadeira que Adolf Zuckerman desocupara poucos minutos antes.
- Meus parabéns - acrescentou Harry. - O golpe do Conde de Matigny foi muito engenhoso. Impecável.
- Partindo de você, Harry, é um grande elogio.
- Está-me custando muito dinheiro, Mione.
- Acabará se acostumando.
Ele ficou brincando com o copo à sua frente.
- O que o Professor Zuckerman queria?
- Você o conhece?
- Pode-se dizer que sim.
- Ele... ahn... apenas queria tomar um drinque.
- E lhe falou sobre o tesouro afundado?
Hermione tornou-se subitamente cautelosa.
- Como sabe disso?
Harry fitou-a com uma expressão surpresa.
- Não me diga que caiu! É a mais antiga vigarice do mundo.
- Não desta vez.
- Está querendo dizer que acreditou nele?
Hermione disse, rigidamente:
- Não estou em liberdade para discutir o assunto, mas acontece que o professor dispõe de informações confidenciais.
Harry sacudiu a cabeça, incrédulo.
- Ele está tentando passá-la para trás, Mione. Quanto lhe pediu para investir em seu tesouro afundado?
- Não interessa - respondeu Hermione, bruscamente. - É meu dinheiro.
Harry encolheu os ombros.
- Certo. Mas depois não diga que o velho Harry não tentou avisá-la.
- Isso não significa que você está interessado no ouro, pois não?
Ele levantou as mãos, num gesto irônico de desespero.
- Por que está sempre tão desconfiada de mim?
- É muito simples. Não confio em você. Quem era aquela mulher que lhe fazia companhia?
Hermione desejou no mesmo instante poder retirar a pergunta.
- Suzanne? Uma amiga.
- Rica, é claro.
Harry exibiu um sorriso prolongado.
- Para ser franco, acho que ela tem algum dinheiro. Se quiser nos acompanhar no almoço amanhã, o chef de Suzanne, em seu iate de duzentos e cinquenta pés ancorado no porto, faz um...
- Obrigada, mas por nada neste mundo eu poderia atrapalhar o seu almoço. O que está vendendo a ela?
- Isso é pessoal.
- Tenho certeza de que é mesmo.
As palavras saíram mais ásperas do que Hermione tencionara. Ela estudou-o por cima da borda de seu copo. Ele tinha feições firmes, lindos olhos verdes, pestanas compridas e o coração de uma cascavel. Uma cascavel muito inteligente.
- Já pensou alguma vez em se meter num negócio legítimo? - perguntou Hermione. - Provavelmente seria muito bem sucedido.
Harry ficou chocado.
- E renunciar a tudo isto? Você só pode estar gracejando!
- Sempre foi um vigarista?
- Vigarista? Sou um entrepreneur.
- E como se tornou um... um entrepreneur?
- Fugi de casa quando tinha catorze anos e me juntei a um parque de diversões ambulante.
- Aos catorze anos?
Era o primeiro vislumbre que Hermione tinha do que havia por trás do verniz sofisticado e charmoso.
- Foi bom para mim... aprendi a enfrentar as coisas. Quando surgiu essa maravilhosa guerra do Vietnam, ingressei nos Boinas Verdes e fiz um curso de pós-graduação. Creio que a coisa principal que aprendi foi que a guerra era a maior das vigarices. Em comparação com aquilo, você e eu não passamos de amadores. - Ele mudou de assunto abruptamente. - Gosta de pelota?
- Se está vendendo, não, obrigada.
- É um jogo, uma variação do jai alai. Tenho dois ingressos para esta noite, mas Suzanne não poderá ir. Gostaria de ir?
Hermione descobriu-se a dizer que sim.
Eles jantaram num pequeno restaurante na praça municipal, tomando um vinho local e comendo confit de canard d'aile - pato assado em seus próprios sumos, com batatas e alho. Estava delicioso.
- A especialidade da casa - informou Harry a Hermione.
Conversaram sobre política, livros e viagens. Hermione descobriu que Harry era surpreendentemente bem informado.
- Quando se está entregue à própria sorte aos catorze anos - explicou Harry - é preciso aprender as coisas depressa. Primeiro, aprende-se o que motiva a gente, depois o que motiva as outras pessoas. Uma vigarice é igual ao jiu-jitsu. No jiu-jitsu, usa-se a força do oponente para vencer. Numa vigarice, usa-se a sua ganância. Você só faz o primeiro movimento. Ele cuida de todo o resto por você.
Hermione sorriu, especulando se Harry tinha alguma idéia do quanto os dois eram parecidos. Ela gostava de sua companhia, mas tinha certeza de que, havendo a oportunidade, Harry não hesitaria em traí-la. Era um homem com quem se tinha de tomar todo cuidado e ela não tencionava facilitar.
A pelota era jogada numa grande arena ao ar livre, do tamanho de um campo de futebol, no alto das colinas de Biarritz. As enormes tabelas verdes de concreto nos dois lados da quadra, com uma área de jogar no centro, quatro fileiras de arquibancadas de pedra nos lados. Os reatores foram acesos ao anoitecer. Quando Harry e Hermione chegaram, as arquibancadas estavam quase lotadas de fãs. As duas equipes entraram em ação.
Membros de cada equipe se revezavam em arremessar a bola no muro de concreto e apanhá-la no rebote em suas cestas, compridas e estreitas, presas nos braços. A pelota era um jogo rápido e perigoso. Quando um dos jogadores errava, a multidão se punha a gritar.
- Eles realmente levam esse jogo muito a sério – comentou Hermione.
- Muito dinheiro é apostado nas partidas. Os bascos formam uma raça de jogadores.
Enquanto os espectadores continuavam a chegar, as arquibancadas foram ficando cada vez mais cheias. Hermione se descobriu comprimida contra Harry. Se ele estava consciente do calor do corpo dela junto ao seu, não deixou transparecer.
O ritmo e ferocidade do jogo pareciam se intensificar à medida que os minutos passavam. Os gritos dos torcedores ressoavam pela noite.
- É mesmo tão perigoso quanto parece? - perguntou Hermione.
- Baronesa, aquela bola viaja pelo ar a uma velocidade superior a cento e cinquenta quilômetros por hora. Se bater em sua cabeça, está morta. Mas é raro um jogador errar.
Harry afagou-lhe a mão distraidamente, os olhos concentrados no jogo. Os jogadores eram extraordinários, movendo-se graciosamente, em perfeito controle. Mas, no meio da partida, inesperadamente, um dos jogadores arremessou a bola contra a tabela num ângulo errado. A bola mortífera avançou para o banco em que Harry e Hermione estavam sentados. Os espectadores tentaram se proteger. Harry agarrou Hermione e empurrou-a para o chão, seu corpo cobrindo o dela. Ouviram a bola passar diretamente por cima de suas cabeças e bater na parede. Hermione ficou deitada no chão, sentindo a dureza do corpo de Harry. O rosto dele estava muito próximo do seu.
Ele segurou-a por um momento, depois levantou-se e ajudou-a a se erguer também. Havia um súbito constrangimento entre os dois.
- Eu... eu acho que já tive emoção suficiente por uma noite - murmurou Hermione. - Gostaria de voltar ao hotel, por favor.
Despediram-se no saguão.
- Gostei muito da noite - disse Hermione a Harry, falando com absoluta sinceridade.
- Mione, pretende mesmo levar adiante a história maluca do tesouro afundado de Zuckerman?
- Claro.
Ele estudou-a, por um longo momento.
- Ainda pensa que estou atrás daquele ouro, não é mesmo?
Hermione fitou-o nos olhos.
- E não está?
A expressão de Harry se endureceu.
- Boa sorte.
- Boa noite, Harry.
Hermione observou-o virar-se e deixar o hotel. Calculou que ele ia ao encontro de Suzanne. "Pobre mulher." Quando ela foi pegar a chave, o recepcionista disse:
- Boa noite, baronesa. Há um recado à sua espera.
Era do Professor Zuckerman.
Adolf Zuckerman tinha um problema. Um problema muito grande. Estava sentado no escritório de Armand Grangier e ficara tão apavorado pelo que estava acontecendo que urinara nas calças. Grangier era o proprietário de um cassino particular ilegal, localizado numa elegante viria, na Rue Frias, 123. Não fazia a menor diferença para Grangier se o Casino Municipal estava fechado ou não, pois o clube da Rue Frias sempre ficava repleto de clientes ricos. Ao contrário dos cassinos supervisionados pelo governo, as apostas ali eram ilimitadas.
Aquele era o lugar em que os grandes apostadores iam jogar roleta, chemin de fer e dados. Os clientes de Grangier incluíam príncipes árabes, a nobreza inglesa, homens de negócios orientais, chefes de Estado africanos. Jovens escassamente vestidas circulavam pela sala, recebendo pedidos para mais champanha e uísque. Arrnand Grangier aprendera há muito tempo que os ricos, mais do que qualquer outra classe, apreciavam obter alguma coisa de graça. Grangier podia se dar ao luxo de oferecer bebidas de graça, pois suas roletas eram viciadas e os jogos de cartas combinados.
O clube geralmente vivia repleto, com finas jovens escoltadas por homens mais velhos e endinheirados. Mais cedo ou mais tarde, as mulheres eram atraídas para Grangier. Ele era uma miniatura de homem, com feições perfeitas, olhos castanhos profundos, uma boca suave e sensual. Tinha 1,60 metros de altura e a combinação de beleza e pequena estatura atraia as mulheres como um íman. Grangier tratava a todos com uma admiração simulada.
- Eu a acho irresistível, chérie, mas infelizmente para nós dois estou loucamente apaixonado por outra mulher.
E era verdade. É claro que a outra mulher mudava de semana para semana, pois em Biarritz havia um suprimento interminável de finas jovens e Armand Grangier concedia a cada uma o seu breve lugar ao sol.
As ligações de Grangier com o submundo e a polícia eram bastante poderosas para que pudesse manter seu cassino.
Empenhara-se arduamente para subir pela escada do crime, começando como mensageiro no tráfico de tóxicos, até finalmente conquistar seu feudo em Biarritz. Os que se opunham a ele sempre descobriam, tarde demais, como o homenzinho podia ser mortífero.
Agora, Adolf Zuckerman estava sendo interrogado por Armand Grangier.
- Fale-me mais a respeito dessa baronesa com quem você falou sobre o golpe de tesouro afundado.
Pelo tom furioso de sua voz, Zuckerman compreendeu que alguma coisa estava errada, terrivelmente errada. Ele engoliu em seco e disse:
- Ela é viúva. O marido deixou-lhe muito dinheiro. Disse que vai entrar com cem mil dólares. - O som de sua própria voz deu-lhe confiança para continuar: - Depois que recebermos o dinheiro, é claro, diremos a ela que o navio de salvamento sofreu um acidente e precisamos de mais cinquenta mil. E depois haverá outros cem mil... e assim por diante.
Ele percebeu a expressão desdenhosa no rosto de Armand Grangier e balbuciou:
- Qual... qual é o problema, chefe?
- O problema é que acabei de receber um telefonena de um dos meus homens em Paris. Ele falsificou um passaporte para a sua baronesa. Ela se chama Hermione Granger e é americana.
Zuckerman sentiu a boca subitamente ressequida. Passou a língua pelos lábios.
- Ela... ela parecia realmente interessanta, chefe.
- Balle! Conneau! Ela é uma vigarista. Você tentou dar um golpe numa golpista!
- Então... então por que ela aceitou? Por que simplesmente não me repeliu?
A voz de Armand Grangier era gelada:
- Não sei, professor, mas tenciono descobrir. E quando o fizer, mandarei a mulher dar um mergulho na baía. Ninguém pode fazer Armand Grangier de idiota. Agora, pegue o telefone. Diga a ela que um amigo seu propôs entrar com a metade do dinheiro e que eu estou indo falar-lhe. Acha que pode fazer isso?
Zuckerman disse ansiosamente:
- Claro, chefe. Não se preocupe.
- Eu me preocupo - disse Armand Grangier, falando bem devagar. - Eu me preocupo muito com você.
Armand Grangier não gostava de mistérios. O golpe do tesouro afundado vinha dando certo há séculos, mas era necessário que as vítimas fossem crédulas. Não havia a menor possibilidade de uma vigarista cair num golpe assim. Era esse o mistério que perturbava Grangier. Ele tencionava esclarecê-lo; e depois que o fizesse, a mulher seria entregue a Bruno Vicente. Vicente gostava de se divertir com suas vitrinas, antes de liquidá-las.
Armand Grangier saltou da limusine diante do Hotel du Palais, entrou no saguão e aproximou-se de Jules Bergerac, o basco de cabeça branca que trabalhava no hotel desde os 13 anos de idade.
- Qual é o número da Suíte da Baronesa Marguerite de Chantilly?
Havia uma regra rigorosa que vedava aos recepcionistas informarem os números dos quartos dos hóspedes. Mas as regras não se aplicavam a Armand Grangier.
- Suíte 312, Monsieur Grangier.
- Merci.
- E Quarto 311.
Grangier parou.
- Como?
- A baronesa também tem um quarto ao lado de sua Suíte.
- É mesmo? E quem o ocupa?
- Ninguém.
- Ninguém? Tem certeza?
- Oui, monsieur. Ela mantém esse quarto sempre trancado. As criadas foram avisadas para não entrarem ali.
Grangier franziu o rosto, numa expressão de perplexidade.
- Tem uma chave mestra?
- Claro.
Sem a menor hesitação, o recepcionista meteu a mão por baixo do balcão, pegou a chave mestra e entregou-a a Armand Grangier. Jules observou Armand Grangier se encaminhar para o elevador. Nunca se discutia com um homem como Grangier.
Ao chegar à porta da Suíte da baronesa, Armand Grangier encontrou-a entreaberta. Empurrou-a e entrou. A sala de estar se encontrava vazia.
- Olá? Tem alguém aqui?
Uma voz feminina respondeu do outro cómodo:
- Estou no banho. Espere só um momento. Sirva-se de um drinque, por favor.
Grangier vagueou pela suíte. Conhecia tudo ali, pois ao longo dos anos instalara no hotel muitas de suas amigas. Entrou no quarto. Jóias caras estavam negligentemente espalhadas sobre a penteadeira.
- Não vou demorar - gritou a voz feminina do banheiro.
- Não há pressa, baronesa.
"Baronesa mon cul!" pensou ele, furioso. "Qualquer que seja o seu golpe, chérie, vai malograr." Ele foi até a porta que dava para o quarto adjacente. Estava trancada. Grangier tirou a chave mestra do bolso e abriu a porta. O quarto em que entrou tinha um cheiro estranho, bolorento. O recepcionista dissera que ninguém o ocupava. Então por que ela precisava... A atenção de Grangier foi atraída para uma coisa estranhamente deslocada. Um fio elétrico, preto e grosso, preso a uma tomada na parede, estendia-se pelo assoalho e desaparecia num armário. A porta do armário se achava aberta para dar passagem ao fio. Curioso, Grangier adiantou-se e abriu a porta. Uma fileira de notas de cem dólares úmidas, presas por pregadores a um arame, estendia-se de um lado a outro do armário grande. Havia um objeto coberto por um pano numa mesinha de máquina de escrever. Ele levantou o pano, descobrindo uma pequena impressora, com uma nota de cem dólares ainda molhada. Ao lado da impressora havia folhas de papel em branco, do tamanho da nota americana, assim como um cortador de papel. Várias notas de cem dólares, cortadas de maneira errada, estavam espalhadas pelo chão. Uma voz furiosa, por trás de Grangier, perguntou:
- O que faz aqui?
Grangier virou-se. Hermione Granger, os cabelos molhados do banho e envolta numa toalha, entrara no quarto. Armand Grangier disse, suavemente:
- Dinheiro falso! Você ia nos pagar com dinheiro falso!
Ele observou a reação da mulher. Negativa, indignação e depois desafio.
- Está bem - admitiu Hermione. - Mas não faria a menor diferença. Ninguém pode distinguir estas notas das verdadeiras.
- Isso é demais!
Seria um prazer destruir aquela mulher.
- Estas notas são tão boas quanto ouro.
- É mesmo?
Havia desdém na voz de Grangier. Ele pegou uma das notas úmidas e examinou-a. Olhou um lado, depois o outro, examinou mais atentamente. Era uma falsificação excelente.
- Quem fez as matrizes?
- Que importância isso tem? Posso ter os cem mil dólares prontos até sexta-feira.
Grangier fitou-a, aturdido. E quando compreendeu o que ela estava pensando, não pôde conter uma risada.
- Essa não! Você é mesmo estúpida. Não existe nenhum navio.
Hermione mostrou-se desconcertada.
- Como assim? Não existe nenhum navio? Mas o Professor Zuckerman me garantiu...
- E acreditou nele? Mas que pena, baronesa. - Ele tornou a estudar a nota em sua mão. - Levarei isto.
Hermione encolheu os ombros.
- Pode levar quantas quiser. É apenas papel.
Grangier pegou um punhado das notas úmidas de cem dólares.
- Como pode saber que uma das criadas não entrará aqui?
- Eu pago para elas ficarem longe. E tranco o armário quando saio.
"Ela é fria" pensou Armand Grangier. "Mas isso não será suficiente para mantê-la viva."
- Não deixe o hotel - ordenou ele. - Tenho um amigo que quero que você conheça.
Armand Grangier tencionava entregar a mulher a Bruno Vicente imediatamente, mas algum instinto o conteve. Tornou a examinar uma das notas. Já manipulara muito dinheiro falsificado, mas nada tão bom quanto aquele. Quem quer que fizera as matrizes era um gênio. O papel parecia autêntico, as unhas eram perfeitas e limpas. As cores permaneciam definidas, mesmo com a nota úmida. A imagem de Benjamin Franklin era perfeita. A mulher estava certa. Era difícil dizer a diferença entre o que ele tinha na mão e a coisa verdadeira. Grangier especulou se seria possível passá-la como dinheiro genuíno. Era uma ideia tentadora.
Ele decidiu manter Bruno Vicente à espera por mais algum tempo. Na manhã seguinte, bem cedo, Armand Grangier mandou chamar Adolf Zuckerman e entregou-lhe uma das notas de cem dólares.
- Vá ao banco e troque isto por francos.
- Certo, chefe.
Grangier observou-o deixar apressadamente o escritório. Aquela era a punição de Zuckerman por sua estupidez. Se ele fosse preso, nunca diria de onde saíra a nota falsa... não se quisesse viver. Mas se ele conseguisse passar a nota sem problemas... "Vamos esperar para ver o que acontece" pensou Grangier.
Zuckerman voltou ao escritório 15 minutos depois. Contou um bolo de francos franceses, no valor de cem dólares.
- Mais alguma coisa, chefe?
Grangier ficou olhando para os francos.
- Teve algum problema?
- Problema? Não. Por quê?
- Quero que volte ao mesmo banco e diga o seguinte...
Adolf Zuckerman entrou no saguão do Banque de France e aproximou-se da mesa do gerente. Desta vez, Zuckerman, tinha consciência do perigo que corria, mas preferia enfrentá-lo a ficar exposto à ira de Grangier.
- O que deseja? - perguntou o gerente.
Zuckerman fez um esforço para disfarçar seu nervosismo.
- O problema é que me meti num jogo de pôquer ontem à noite, com alguns americanos que conheci num bar.
Ele parou de falar. O gerente do banco acenou com a cabeça vigorosamente.
- E perdeu todo o seu dinheiro, está precisando agora de um pequeno empréstimo?
- Não é isso. Para dizer a verdade, eu ganhei. O problema é que os homens não pareciam muito honestos. - Zuckerman tirou do bolso duas notas de cem dólares - Pagaram-me com este dinheiro e receio... receio que talvez seja falso.
Zuckerman prendeu a respiração, enquanto o gerente se inclinava para a frente e pegava as notas com suas mãos rechonchudas. Examinou-as meticulosamente, primeiro uma, depois a outra, suspendeu-as contra a luz. Finalmente, ele olhou para Zuckerman e sorriu.
- Teve sorte, monsieur. Estas notas são genuínas.
Zuckerman permitiu-se deixar o ar escapar dos pulmões. "Graças a Deus! Tudo daria certo."
- Não há qualquer problema, chefe. Ele disse que as notas são genuínas.
Era quase bom demais para ser verdade. Armand Grangier pôs-se a pensar, um plano já parcialmente formulado em sua mente.
- Vá buscar a baronesa.
Hermione estava sentada no escritório de Armand Grangier, fitando-o através da mesa.
- Nós vamos ser sócios - informou-a Grangier.
Hermione começou a se levantar.
- Não preciso de um sócio e...
- Sente-se.
Ela fitou Grangier nos olhos e sentou-se.
- Biarritz é minha cidade. Tente passar uma só dessas notas e será presa tão depressa que nem saberá o que lhe aconteceu. Comprenez vous? Coisas terríveis acontecem com as mulheres bonitas em nossas prisões. Não poderá fazer qualquer coisa por aqui sem a minha permissão.
Ela estudou-o.
- Então o que estou comprando de você é proteção?
- Errado. O que está comprando de mim é a sua vida.
Hermione acreditou.
- E agora me diga onde arrumou suas matrizes.
Hermione hesitou e Grangier gostou de vê-la se contorcer e acabar por se render. Ela disse, relutante:
- Comprei de um americano que vive na Suíça. Ele foi gravador da Casa da Moeda dos Estados Unidos por vinte e cinco anos. Quando o aposentaram, houve algum problema técnico e nunca lhe pagaram a pensão. Ele sentiu-se trapaceado e resolveu se vingar. Tirou dos Estados Unidos algumas chapas de notas de cem dólares que deveriam ter sido destruídas, usou os seus contatos para obter o papel com que o Departamento de Tesouro imprime seu dinheiro.
"Isso explica tudo" pensou Grangier, triunfante. "É por isso que as notas parecem tão boas." Seu excitamento era cada vez maior.
- Quanto dinheiro a impressora pode produzir em um dia?
- Somente uma nota por hora. Cada lado do papel tem de ser processado e...
Grangier interrompeu-a:
- Não há uma impressora maior?
- Há, sim. Ele tem uma que produz cinquenta notas a cada oito horas, mas só venderia por meio milhão de dólares.
- Compre-a - ordenou Grangier.
- Acontece que não tenho quinhentos mil dólares.
- Mas eu tenho. Quando poderá ter uma impressora maior?
Hermione respondeu, relutante:
- Acho que imediatamente. Mas eu não...
Grangier pegou o telefone e disse:
- Louis, quero quinhentos mil dólares em francos franceses. Tire o que temos no cofre e pegue o resto com os bancos. Traga ao meu escritório. Vite!
Hermione levantou-se, bastante nervosa.
- É melhor eu ir e...
- Você não vai a lugar nenhum.
- Mas eu preciso...
- Fique sentada ai e mantenha-se calada. Estou pensando.
Ele tinha associados nos negócios que esperariam ser incluídos numa operação como aquela. "Mas o que eles não sabem não lhes fará mal" decidiu Grangier. Compraria a impressora maior para si mesmo e substituiria o dinheiro que tomara emprestado da conta do cassino nos bancos pelos dólares que imprimiria.
Depois disso, mandaria Bruno Vicente cuidar da mulher. Ela não gostava de sócios.
Armand Grangier também não.
O dinheiro chegou duas horas depois, numa sacola grande.
Grangier disse a Hermione:
- Você sairá do Palais. Tenho uma casa nas colinas que é muito particular. Ficará lá até iniciarmos a operação. – Ele empurrou o telefone na direção de Hermione. - Agora, ligue para o seu amigo na Suíça e diga a ele que vamos comprar a impressora grande.
- Tenho o telefone dele no hotel. Ligarei de lá. Dê-me o endereço de sua casa. Avisarei a ele para enviar a impressora para lá e...
- Não! - gritou Grangier, rispidamente. - Não quero deixar qualquer pista. Mandarei buscá-la no aeroporto. Conversaremos a esse respeito esta noite, durante o jantar. Eu a verei às oito horas.
Era uma dispensa. Hermione levantou-se. Grangier acenou com a cabeça para a sacola que continha o dinheiro.
- Tome cuidado com o dinheiro. Eu não gostaria que nada acontecesse com o dinheiro... nem com você.
- Nada acontecerá.
Ele sorriu sugestivamente.
- Sei disso. O Professor Zuckerman a acompanhará de volta ao hotel.
Os dois seguiram em silêncio na limusine, a sacola com o dinheiro entre eles, cada um absorto em seus pensamentos.
Zuckerman não sabia direito o que estava acontecendo, mas tinha a impressão de que seria ótimo para ele. A mulher era a chave de tudo. Grangier lhe ordenara que ficasse de olho nela e era o que Zuckerman tencionava fazer.
Armand Grangier ficou eufórico naquela noite. Àquela altura, a compra da impressora grande já deveria estar acertada. A mulher Granger dissera que imprimiria cinco mil dólares por dia. Mas Grangier tinha um plano melhor. Tencionava operá-la em turnos, 24 horas por dia. Isso daria 15 mil dólares por dia, mais de cem mil dólares por semana, um milhão a cada dez semanas. E isso era apenas o começo. Descobriria quem era o gravador naquela noite e faria um acordo com ele para obter mais máquinas. Não havia limite para a fortuna que a operação lhe traria.
Eram precisamente oito horas quando a limusine de Grangier parou diante da entrada do Hôtel du Palais. Grangier saltou.
Ao entrar no saguão, notou com satisfação que Zuckerman se achava sentado perto da entrada, observando atentamente as portas. Grangier encaminhou-se para a recepção.
- Jules, avise à Baronesa de Chantilly que eu estou aqui. Mande-a descer para o saguão.
O recepcionista ficou surpreso.
- Mas a baronesa já deixou o hotel, Sr. Grangier.
- Está enganado. Ligue para ela.
Jules Bergerac sentiu-se consternado. Não era saudável contestar Armand Grangier.
- Eu mesmo fiz o registro de saída.
Impossível!
- Quando?
- Pouco depois que ela voltou ao hotel. Pediu-me para levar a conta à sua Suíte, a fim de poder pagar em dinheiro...
A mente de Armand Grangier estava em disparada vertiginosa.
- Em dinheiro? Francos franceses?
- Isso mesmo, monsieur.
Grangier perguntou, freneticamente:
- Ela levou alguma coisa de sua Suíte? Qualquer bagagem ou caixas?
- Não. Ela disse que mandaria buscar a bagagem mais tarde.
Então ela levara o seu dinheiro e fora para a Suíça, a fim de comprar pessoalmente a impressora maior!
- Leve-me para a sua Suíte. Depressa!
- Oui, Monsieur Grangier.
Jules Bergerac pegou uma chave na parede por trás e seguiu apressadamente para o elevador, junto com Armand Grangier. Ao passar por Zuckerman, Grangier sibilou:
- Por que está sentado aí, seu idiota? Ela já foi embora.
Zuckerman fitou-o sem compreender.
- Ela não pode ter ido embora. Não desceu para o saguão. Fiquei atento a ela.
- Atento a ela! - imitou-o Grangier, brutalmente. - Mas por acaso esteve atento a uma enfermeira, uma velhinha de cabeça branca ou uma criada saindo pela porta de serviço?
Zuckerman ficou aturdido.
- Por que eu deveria fazer isso?
- Volte ao cassino - disse Grangier asperamente - Cuidarei de você mais tarde.
A Suíte parecia exatamente como quando Grangier ali fora anteriormente. A porta de ligação com o quarto adjacente se achava aberta. Grangier entrou, foi apressadamente até o armário, abriu a porta. A impressora ainda estava ali, graças a Deus! A mulher Granger tinha tanta pressa em partir que a deixara. Isso fora um erro. "E não é o seu único erro" pensou Grangier. Ela o trapaceara em 500 mil dólares e ele a faria pagar com uma vingança. Deixaria a polícia ajudá-lo a descobrir a mulher e a mandaria para a cadeia, onde seus homens poderiam alcançá-la. Eles a obrigariam a revelar quem era o gravador e depois a calariam para sempre.
Armand Grangier discou o número da chefatura de polícia e pediu para falar com o Inspector Dumont. Disse tudo o que queria durante três minutos, ansiosamente, depois arrematou:
- Ficarei esperando aqui.
Quinze minutos depois o Inspector, que era seu amigo, chegou à Suíte, acompanhado por um homem de corpo andrógino e uma das caras mais feias que Grangier já vira. A testa parecia prestes a explodir do rosto, os olhos castanhos, quase escondidos por trás dos óculos de lentes grossas, possuíam a expressão penetrante de um fanático.
- Este é Monsieur Daniel Cooper - disse o Inspector Dumont. - Monsieur Grangier. O Sr. Cooper também está interessado na mulher a respeito de quem me telefonou.
Cooper falou:
- Mencionou ao Inspector Dumont que ela está envolvida numa operação de falsificação.
- Exactament. A mulher está a caminho da Suíça neste momento. Poderão pegá-la na fronteira. E tenho bem aqui todas as provas necessárias.
Ele levou-os ao armário. Daniel Cooper e o Inspector Dumont deram uma olhada no interior.
- Lá está a impressora usada para fazer o dinheiro.
Daniel Cooper examinou a máquina cuidadosamente.
- Ela imprimiu o dinheiro nisto?
- Foi o que acabei de falar - disse Grangier bruscamente. Ele tirou uma nota do bolso. - Olhem para isto. É uma das notas falsas de cem dólares que ela me deu.
Cooper foi até a janela e examinou a nota contra a luz.
- Esta nota é genuína.
- É que ela usou as chapas roubadas que comprou de um gravador que trabalhou para a Casa da Moeda americana, em Filadélfia. E imprimiu as notas nesta impressora.
Cooper disse rudemente:
- Esta é uma impressora comum. Você é muito estúpido. A única coisa que se pode imprimir nesta máquina é papel timbrado.
- Papel timbrado?
Grangier tinha a sensação de que o quarto começava a rodar.
- Acreditou realmente na fábula de uma máquina que transforma papel em notas de cem dólares genuínas?
- Estou lhe dizendo que vi com meus próprios olhos...
Grangier parou de falar abruptamente. O que vira? Algumas notas molhadas de cem dólares penduradas para secar, papel em branco e um cortador de papel. Ele começou a perceber a enormidade do golpe de que fora vítima. Não havia qualquer operação de falsificação, não havia gravador esperando na Suíça. Hermione Granger jamais caíra na história do tesouro afundado. A desgraçada usara o seu próprio golpe como uma isca para arrancar-lhe meio milhão de dólares. Se a notícia do golpe se espalhasse...
Os dois homens observavam-no.
- Deseja apresentar acusação de alguma espécie, Armand? - perguntou o Inspector Dumont.
"Como poderia? O que diria? Que fora enganado ao tentar financiar uma operação de falsificação? E o que fariam seus associados com ele quando soubessem que lhes roubara meio milhão de dólares e perdera tudo?" Ele foi dominado por um temor súbito.
- Não. Eu... eu não desejo apresentar qualquer acusação.
Havia pânico em sua voz. "África" pensou Armand Grangier. "Eles nunca me encontrarão na África."
Daniel Cooper estava pensando: Na próxima vez. Eu a apegarei na próxima vez.
