"Não posso jogar isso fora
Não posso desejar que isso vá embora
Não posso esperar que isso desapareça
Não posso chorar isso para fora..."
Eu estava tão transtornada que nem me dei ao trabalho de esperar o elevador e subi cinco andares pela escada.
Quando cheguei na porta dele bati (não, acho que soquei é o mais correto) e ele atendeu a porta logo em seguida.
- O que...
- POR QUE FEZ ISSO? – gritei assim que ele abriu a porta o suficiente para que eu pudesse esfregar as fotos na cara dele.
- Seu canalha, desgraçado, maldito, sem vergonha, filho da p...
Eu dizia todos os nomes que vinham na minha cabeça enquanto socava e arranhava cada parte dele que eu podia alcançar, fiquei orgulhosa ao perceber que o meu vocabulário de palavrões era bem grande.
- Bella, pára! – ele dizia enquanto tentava se defender.
Depois de algum tempo ele conseguiu me imobilizar contra a parede, mas eu continuei gritando o mais alto que eu conseguia.
- Bella, cala a boca e me escuta, por favor! Não fui eu!
- Não? Quem foi então? Quem mais sabia sobre o jantar? Quem mais tem acesso às câmeras do seu prédio? Eu não sou burra, Luke eu sei que foi você!
Eu ficava cada vez mais irritada, já estava vendo tudo na cor vermelha. Como ele ousava insinuar que eu não tinha capacidade o suficiente para deduzir que tinha sido ele?
- Eu não estou dizendo que você é burra, Bella! Mas se você parar pra pensar um pouco e concentrar suas forças em outra coisa que não seja me bater você vai se lembrar de com quem está lidando.
- Eu sei com quem estou lidando Luke: com você que é um completo idiota e quer me separar do Edward achando que eu vou ficar com você depois do que fez. Saiba que eu não ficaria com você nem se fosse o último cara no mundo!
- Bella, me escute pelo menos uma vez! Não fui eu quem mandou essas fotos para o Edward, eu sei que você nunca ficaria comigo se eu fizesse isso. Esse tipo de coisa não faz o meu estilo, Bella. Não fui eu. Pense um pouco, tem outra pessoa que quer vocês dois separados e sou capaz de apostar quem é!
Eu abri a boca ao me lembrar da única pessoa além de Luke que seria capaz de uma coisa daquelas: Tanya.
- É – ele concordou ao ver a compreensão em meu rosto – foi o que eu pensei também. Esse é exatamente o tipo de coisa que ela faria. Aposto que ela usou os contatos da Ordem pra conseguir esse material.
Eu o olhei ainda desconfiada.
- E como eu vou saber que vocês não estão juntos nessa? – perguntei.
- Bella, eu acabei de dizer que isso não faz o meu estilo. Se eu quisesse separar você e Edward, o faria de uma forma que você sequer sonharia que havia sido eu, não seria tão óbvio.
Por um lado ele tinha uma certa razão, Luke era mais estratégico e esse golpe das fotos era coisa de amador. Eu tinha que admitir que ele era inteligente e certamente teria sido mais criativo e discreto.
E com certeza Tanya era o tipo de mulher que faria isso. Sim, ela era burra o suficiente para aplicar o velho golpe das fotos.
- Ok! Eu acredito em você, pode me soltar agora.
- Promete que não vai ter outro piti e tentar arrancar minha cabeça de novo?
- Se você não me der motivos pra fazer isso prometo que vou tentar.
Ele soltou meus braços e se afastou.
- Você está péssima! – disse.
- Obrigada e acho que você não está muito melhor que eu. – respondi ao perceber que havia marcas de unhas por todo o rosto e pescoço dele. Estava sangrando em alguns pontos.
Ele se virou e olhou-se num espelho ali perto.
- Tem razão! Parece que fui atacado por um urso enfurecido. – ele disse tentando sorrir, mas fez uma careta de dor.
- É melhor lavar isso pra não infeccionar. – avisei e percebi que já estava começando a sentir remorso. Mas eu não ia pedir desculpas.
- Eu devo ter um kit de primeiros socorros em algum lugar aqui. – falou enquanto abria as gavetas.
- Achei! – disse depois de algum tempo e abriu uma bolsinha branca. Ele tirou algodão e uma garrafa de soro fisiológico. Colocou um pouco de soro num pedaço de algodão e começou a passar no rosto, mas parou logo em seguida.
- Droga, esse negócio tá ardendo muito.
- Ok, me dá logo isso que eu limpo. – falei tirando o algodão da mão dele. – Senta aí no sofá.
Eu sentei ao lado dele e recomecei o processo de limpeza enquanto ele gemia de vez em quando e fazia caretas.
- Não está tão feio assim! – falei tentando fazer ele se sentir um pouco melhor e a mim mesma por ter feito aquilo.
Aquilo despertava uma má lembrança em mim. Eu havia me tornado muito sensível à sangue depois do seqüestro. Eu havia visto muita gente sangrar, pessoas que eu amava e aquilo começou a passar pela minha cabeça.
Um velho pesadelo.
O sangue de Jacob quando ele levara o tiro, eu me lembrava apenas do disparo, mas minha mente era criativa o bastante para que eu pudesse imaginar a quantidade de sangue no peito dele. O sangue de Rosalie depois de ter sido violentada, o de Jasper quando ele foi torturado, o de Edward e Emmett quando brigaram para me salvar de James, a morte de Mike que eu também não presenciara, mas que era vívida o bastante para me assombrar. E depois o sangue de Rosalie novamente, quando ela levou o tiro na fuga.
Jacob, Rosalie, Jasper, Edward, Emmett, Mike e tantos outros com sangue derramado por causa de um único homem. E a pessoa que estava na minha frente agora de alguma forma, também fizera parte disso.
- Bella, você está bem?
Percebi que Luke estava me sacudindo enquanto eu estava imóvel olhando para o algodão sujo de sangue em minhas mãos.
- Desculpe Luke – minha voz saíra rouca – eu não posso, é muito ...
Eu larguei o algodão e passei as mãos pelos meus olhos como se esse gesto pudesse apagar todas aquelas lembranças de minha mente. Minhas mãos ficaram molhadas, eu estivera chorando este tempo todo.
As lágrimas continuavam vindo incessantemente, meu peito estava apertado demais, dolorido demais, parecia que eu havia reprimido as lágrimas tanto tempo que sentia ser capaz de chorar um rio inteiro.
- Tá tudo bem Bella, vai ficar tudo bem, eu vou cuidar de você. – Luke prometia. Certamente ele achava que eu estava chorando apenas porque brigara com Edward.
Ele me abraçou e eu continuei chorando, cansada demais pra lutar ou tentar afastá-lo de mim.
Eu queria gritar e chorar até que toda aquela dor saísse e fosse embora para sempre. Mas eu sabia que ela não iria embora, ela ficaria ali para sempre como um marco, uma cruz sobre o túmulo da minha felicidade. Da felicidade que havia morrido para mim e que eu jamais sentiria novamente, da felicidade que jamais seria completa porque sempre haveria uma sombra, um eclipse ocultando o seu brilho, impedindo-a de brilhar e aquecer meu coração.
Eu não sei em que momento desse desespero eu adormeci. Sei que acordei com a claridade do sol da manhã batendo na janela do quarto.
Levei algum tempo tentando identificar o lugar que me era estranho. Depois de repassar os acontecimentos da noite anterior, deduzi que eu só podia estar no quarto de Luke.
Eu estava completamente vestida, só estava sem meus tênis.
Levantei e andei até uma porta que eu deduzi que era o banheiro. Depois de me certificar que estava vazio, fui até a pia e me olhei no espelho. Meu rosto estava inchado e meus olhos estavam vermelhos.
Lavei o rosto com bastante água fria. Minha garganta ainda estava seca e dolorida dos soluços.
Voltei para o quarto e peguei meu telefone da cômoda. Não me espantei ao ver cinqüenta chamadas não-atendidas, metade delas da Alice e as outras eram de Ângela, Jess, Rose, mas nenhuma dele. Jane também não havia ligado, devia estar com remorso por ter tido que contar sobre a minha escapada para Edward.
Era melhor eu ir logo para o meu alojamento, mas não tinha coragem de encarar Jane com seus pedidos de desculpas ou ouvir broncas das meninas ou pior, dar de cara com Edward.
Primeiro eu tinha que sair dali e depois pensar no que iria fazer pra consertar as coisas.
Abri a porta do quarto e dei de cara com Luke. Seu rosto estava cheio de bandaids e ainda estava um pouco vermelho.
- Já acordou? Ia bater na porta pra chamá-la.
- Não se preocupe eu já vou. – falei passando por ele e indo para a sala.
- Eu fiz café da manhã, não está com fome? – perguntou indo atrás de mim.
Ao entrar na sala percebi que o sofá estava desarrumado e parei encarando-o.
- Confesso que não foi muito confortável, mas deu pra dar uma cochilada depois que você parou de gritar. – ele respondeu ao perceber meu olhar para o sofá.
Gritar? Eu apenas chorei um pouco, mas não estava gritando. Até onde eu lembrava...
- Desculpe por isso. Eu não devia ter vindo aqui ontem.
- Você não tem que se desculpar Bella. Se alguém tem culpa da sua vida ter virado um inferno sou eu.
- Tem razão. Você tem culpa porque está escondendo aquele canalha do James. – falei.
Ele olhou pra mim e parecia haver tristeza em seu olhar.
- Você nunca vai me perdoar né? Nunca poderá me amar. Não depois de tudo o que fiz.
- Não. Eu nunca vou conseguir amá-lo Luke. Eu sempre vou odiá-lo. A única pessoa que eu odeio mais do que você é James.
- Se pudesse, se houvesse algo que eu pudesse fazer para consertar as coisas Bella, eu faria.
Eu nunca vira Luke tão torturado, ele parecia estar sofrendo muito. Por um lado eu fiquei satisfeita por vê-lo sofrendo um pouco, sentindo uma pequena parcela da dor que eu sentia. Então eu percebi que eu poderia tentar usar o sofrimento dele a meu favor.
- Nada do que você dizer ou fizer vai mudar o que aconteceu Luke. Aquelas famílias foram mutiladas para sempre, meus amigos e eu fomos marcados para sempre. E enquanto James estiver vivo não vamos ter paz nem descansar nossas cabeças no travesseiro à noite. Isso nunca vai acabar.
Ele respirou fundo e abaixou a cabeça.
- Sinto muito Bella, por tudo isso.
- Palavras são apenas palavras Luke. Não adianta você ficar me dizendo que sente muito e ficar acobertando um assassino. È difícil acreditar que você realmente sente muito.
- Você me perdoaria se eu fizesse alguma coisa? Se eu tentasse consertar um pouco dos danos que eu ajudei a causar. Você passaria a me odiar um pouco menos?
Luke me perguntava essas coisas e parecia ser sincero. Parecia realmente desesperado em conseguir minha aprovação.
- Depende do que você vai fazer, talvez eu lhe odeie um pouco menos.
- Então eu sei o que vou fazer. – ele disse enquanto pegava as chaves e saia pela porta.
- Me espere aqui. Eu vou consertar tudo Bella. Eu vou te ajudar.
- O que vai fazer?- perguntei antes que ele sumisse pela porta.
- Eu vou pegar o James!
