7VERSE : REALIDADE 5

EPILOGO VIDA 5: SOBREVIVENDO AO INFERNO

CAPÍTULO 23

NO INFERNO, ABRACE O CAPETA

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VANCOUVER, CANADÁ

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– APROVADO?

– Aprovadíssimo.

– Isso significa sinal verde para gravarmos o piloto. E então? Quando teremos as verbas liberadas?

– A verba para dar partida ao projeto só sai no início da outra semana. Daqui a uns dez ou doze dias. Mas, não vamos ficar esperando. É hora de arregaçar as mangas. Começamos amanhã mesmo a escolher as locações.

– Eu tinha certeza que aprovariam, Erika. Seu texto é maravilhoso. Parabéns, garota. Minha certeza era tanta que eu já tinha marcado os testes de elenco para o início da semana que vem. Plantei também diversas notas na imprensa para criar um clima de expectativa em torno do seriado. A receptividade tem sido excelente. Recebemos muitos vídeos de candidatos e até currículos em papel, acredite.

– E a questão da semelhança física dos protagonistas? Afinal, vão ser dois irmãos. Pensou a respeito?

– Pensei e cheguei à conclusão de que não é o mais importante. O importante é a química entre eles. Eles precisam seduzir o público. Afinal, o elenco fixo desta primeira temporada será muito reduzido. Na maior parte do tempo, serão só eles em cena. O sucesso do seriado vai depender da relação que os dois protagonistas estabelecerem com o público.

– Alguém promissor?

– Não dá para saber ainda. Vamos aguardar os testes. A maioria dos candidatos é de atores que mal saíram da adolescência buscando seu primeiro papel adulto. Para você ter uma idéia, o nome mais conhecido é o daquele garoto que está no elenco fixo da atual temporada de Metrópolis.

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INFERNO

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Desde que chegou ao Inferno, o corpo espiritual de Adam Winchester vem sofrendo injúrias terríveis e continuadas. Mas, se reconstitui para ser quebrado de novo. Um processo que pode se repetir eternamente. Mas, isso é porque Adam está MORTO e tem consciência disso. O processo é diferente para quem está vivo.

O corpo espiritual de quem caminha vivo no Inferno não passa pelo mesmo processo automático de regeneração integral. Nos mortos, é um processo natural, necessário para garantir a danação eterna. Nos vivos, têm mais a ver com CRENÇA, com também acontecia no Hades. No plano material, não é natural que um braço decepado venha se reconstituir, e, portanto, a crença de que isso acabará acontecendo é muita baixa. E, por não se acreditar, não acontece. Já um corte no pé ou um esfolamento cicatrizam com o tempo. É assim no plano material. A dor passa e um dia descobrimos que o ferimento não deixou marcas ou que restou apenas uma cicatriz. No plano espiritual, se esse tipo de ferimento for esquecido, ele vai desaparecer. De forma mais rápida e completa que no plano material.

O Inferno é muito mais perigoso para quem entra nele VIVO.

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MOMENTO #1

Uma sombra em meio a tantas outras. Mas, completamente diferente delas em natureza. Nathalie Helms tinha seu modo particular de se deslocar pelo Inferno. A sombra que serpenteava entre as dunas não afundava na areia macia. A sombra que se deslocava pelo deserto rochoso não se feria nas bordas afiadas da rocha vulcânica. A sombra que se insinuava através do capim cortante e do bosque espinhoso não tinha sangue para ser derramado.

Ela voltou à forma humana para admirar as árvores retorcidas da floresta infernal e cipós tentaram envolver seu corpo e seu pescoço. Ela simplesmente sorriu e voltou à forma sombria. Os cipós acabaram agarrando a criatura réptil que se preparava para dar o bote na presa enganosamente indefesa.

Ela podia se deslocar numa velocidade dez vezes maior que o grupo de resgate e logo os alcançaria. Mas, não pretendia confrontá-los de imediato. Juntos, eram perigosos. À exceção do arcanjo, ela conhecia muito bem todos eles. Tivera a todos como hóspedes no palácio de seu pai na Cólquida. Seu pai, o rei Eetes, oferecera diversos banquetes para os guerreiros que vieram do mar. Como era costume na época, o rei ofereceu aos estrangeiros jovens mulheres na esperança que os filhos gerados herdassem a coragem dos pais. Mesmo aqueles que depois seduziriam e levariam para a cama guardas do palácio deixaram descendentes cólquidos. Μηδεια deixaria o reino oito meses depois para nunca mais voltar, mas sua informante no palácio a manteve a par de tudo que aconteceu na corte nas décadas seguintes. Foi assim que ela soube que o filho de Palemon se revelara um pequeno gênio desde muito criança. E que o filho de Autólico, aos dezessete anos, tornara-se o principal conselheiro do rei que sucedeu seu pai.

Seu pai pretendia trair e matar os estrangeiros depois que estes gerassem novos guerreiros para o reino da Cólquida. Ao invés disso, recebera a traição da filha e perdera o herdeiro do reino, o príncipe Absirto. Μηδεια traíra a própria família e recebera a traição do homem que amava. Mas, ainda hoje, ela era incapaz de enxergar a justiça oculta destes fatos.

Por outro lado, o mesmo Jasão que a traíra, sempre fora leal a seus homens e estes se mostraram leais a ele mesmo agora, milênios depois de sua morte. Continuaram leais mesmo sabendo que esse Jasão era apenas uma cópia criada por magia a partir do coração do verdadeiro príncipe tessálio. Tanta lealdade não combinava com uma história recheada de traições.

Ela faria Jasão trair os companheiros e o faria sofrer a traição deles. O faria testemunhar a morte de cada um de seus comandados. Faria que o último pensamento de cada um deles fosse amaldiçoando Jasão. Sem descendentes, sem amores e sem amigos, a ele só lhe restaria ELA. Seria ELA ou NADA.

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MOMENTO #2

O fogo infernal avançava rapidamente na direção do grupo. Não havia fuga possível. O fogo logo os envolveria. Ignorando os apelos dos companheiros, Zetes desvanece e cria uma barreira de ar em movimento circular ao redor do grupo. Então acontece. O ar é composto de nitrogênio e oxigênio. O fogo é uma reação química que consome oxigênio e libera energia e calor. O fogo infernal, ao fazer contato com a barreira de ar, consome todo o oxigênio da forma etérea de Zetes. Como numa reação em cadeia, toda a massa de ar em movimento inflama-se a um só tempo. O resultado foi um flash de luz e fogo acompanhado de uma explosão abafada.

A ameaça fora afastada a um custo muito alto. Os argonautas voltam os olhos para Idmon que balança a cabeça no inequívoco sinal de negação. Zetes se fora.

Jasão dá um grito pondo para fora todo seu inconformismo. Ainda escoava em seus ouvidos a risada alegre de Zetes quando eles se reencontraram no cais de Venice Beach depois de tantos milênios. Ele arrastara Zetes para a morte. Mais uma morte sobre seus ombros. Quantas mais viriam?

Idmon vai em direção de Jasão, coloca as duas mãos sobre seus ombros e, olhos nos olhos, fala suavemente a seu antigo comandante. Ninguém estranha, já que o Idmon de agora não era mais o Idmon da expedição da Argo. Apesar de rejuvenescido e da aparência exótica que exibia, ainda carregava 4000 anos de experiência e sabedoria que só a velhice trás.

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MOMENTO #3

Eles avançavam com dificuldade pela estreita trilha que margeava o desfiladeiro íngreme. A profundidade do despenhadeiro era impossível de se avaliar já que a escuridão cobria tudo ao redor, mas parecia ser grande. Os sons vindos do fundo do desfiladeiro pareciam vir de muito longe. Isso era tudo que sabiam. Isso e que não estavam sozinhos ali. Os sons e a escuridão despertavam medos ancestrais a que nem os deuses estavam imunes.

As esferas de fogo invocadas pela magia de Idmon serviam tanto para iluminar o caminho quanto para manter as criaturas afastadas. Eles podiam ver movimentos furtivos na fronteira entre a luz e a total escuridão. Para sorte deles, as criaturas evitavam a luz. Eram muitas e de espécies diferentes. Havia criaturas voadoras que pareciam grandes morcegos com poderosas garras. Criaturas pequenas e grandes semelhantes a lagartos que caminhavam agarradas às paredes verticais do despenhadeiro. E havia criaturas imensas perambulando no fundo do desfiladeiro.

O movimento de Idmon foi rápido e ninguém viu acontecer. A rocha partiu-se sob os pés de Jasão e ele caiu na escuridão para desespero dos companheiros. A queda coincidiu com um forte vento que subiu do fundo do despenhadeiro e lançou uma nuvem de areia sobre todos, obrigando-os a protegerem o rosto. O vento também fez as chamas das esferas de fogo ondularem loucamente, diminuindo a área iluminada e tornando as criaturas mais atrevidas.

Os sons vindos do fundo do despenhadeiro se acentuaram. Aparentemente, as criaturas estavam disputando algo de forma selvagem. A imagem de Jasão sendo destroçado pelos monstros passou pela mente de todos e eles temeram por eles próprios, por sua missão e pelo destino do mundo. A recente morte de Zetes abalara profundamente a moral do grupo.

Longos minutos depois, um grito de socorro reacende as esperanças. Eles descobrem, surpresos, que Jasão conseguira firmar-se numa saliência do paredão rochoso cerca de dez metros abaixo e estava tendo sucesso em se defender com a espada das coisas répteis. Idmon invocou mais esferas de fogo e a luz afastou para longe as criaturas que rodeavam Jasão.

Muito depois, quando o grupo finalmente saiu do desfiladeiro e eles se viram temporariamente a salvo, Jasão foi cercado pelos companheiros, que comemoravam sua salvação com abraços e velhos gritos de guerra. Estavam felizes demais para estranhar o demorado abraço entre Jasão e Idmon e as palavras sussurradas entre eles.

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MOMENTO #4

O grupo de resgate não estava tendo um minuto de descanso. Agora não era mais apenas com o meio ambiente que precisavam se preocupar. Parecia que alguém tinha mandado todos os demônios do Inferno atrás deles. A única certeza que tinham é que as coisas só iriam piorar.

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O aviso de Idmon não chegou a tempo de todos se porem a salvo. Do nada, uma chuva de flechas vindas de todas as direções se precipitou sobre eles num dos raros momentos em que estavam espalhados. Estavam em campo aberto. Não havia onde se abrigar ou para onde fugir. Não havia nem mesmo um inimigo visível. As flechas pareciam simplesmente cair do Céu.

A presciência era algo tão natural para Idmon que permitia que ele se esquivasse das flechas como se fosse por pura sorte. Como se um cego, sem mudar o passo ou a direção, atravessasse um intenso fogo cruzado e chegasse ileso do outro lado.

Para Gabriel, valera o intensivo treinamento das tropas de choque celestiais. Ele não precisava ver as flechas que vinham em sua direção para interceptá-las com a espada. Ele sentia o sutil deslocamento de ar, escutava o quase inaudível assobio da flecha em movimento e agia por puro reflexo.

Autólico era invulnerável. Sabia que flechas não representavam uma verdadeira ameaça para ele. Mas, também sabia que não era assim para os outros. Assim que escutou o aviso de Idmon, Autólico correu em direção à Jasão, derrubou-o no chão e cobriu-o com seu corpo. Quase que imediatamente, as flechas caíram sobre eles. Palemon chegou logo depois se juntou a eles, aumentando a proteção do comandante. Embora incapaz de criar novos construtos, Palemon descobrira que continuava podendo mudar a forma do exoesqueleto que, cada vez mais, se parecia com uma armadura. Ele se concentra e um elmo recobre uma cabeça, inclusive a face. A crença de Palemon na resistência de seu exoesqueleto tornava sua armadura vermelho e dourada intransponível.

Já Eufemo estava afastado dos companheiros e não teve como se defender. A primeira leva de flechas o derrubou e, caído, ele teve o corpo transpassado por inúmeras outras. Estavam todos muito ocupados salvando a si próprios e ele ficou onde caiu, esquecido. Visto à distância, parecia morto. A concentração de Idmon enfraqueceu e a esfera de fogo que flutuava próximo a ele se apagou. As criaturas que os seguiam, mantidas à distância pela luz, avançaram.

Foi muito rápido. Eles foram alertados pelos sons emitidos pelas criaturas em disputa selvagem por algo que eles ainda não sabiam o que era. Mas, que não demorou para que intuíssem. Os sons que vinham da escuridão não lhes permitiam alimentar qualquer esperança.

A luz fez as criaturas dispersarem. Mas, por mais que vasculhassem, não encontraram nada. Nenhum sinal de Eufemo ou de restos dele. Ou mesmo de suas roupas.

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MOMENTO #5

A baixa seguinte foi Palemon. Até então nenhuma das inúmeras investidas de criaturas infernais tivera sucesso em atravessar seu exoesqueleto transformado em armadura e atingi-lo. Isso fortalecia sua crença de que armadura o protegeria de tudo. Ele sentia-se protegido.

Então, o solo estremece. Algo grande, muito grande, vinha na direção deles. O barulho era ensurdecedor. A escuridão, no entanto, não permitia que identificassem claramente de que direção estava vindo.

Quando o monstro finalmente irrompeu na área iluminada pelas esferas de fogo como um trem desgovernado, eles descobriram que a única ação possível era sair do caminho da criatura. Eles não estavam preparados para enfrentar uma criatura tão grande.

O monstro parecia a mistura de um triceratops com um gliptodonte, com recursos de ataque e defesa, e investiu com uma fúria e uma ferocidade que pegou a todos de surpresa. Foi tudo muito rápido. Eles ouviram o estrondo do galope da criatura se aproximando rápido e, então, viram Palemon sendo atropelado e arrastado pelo monstro para longe de seus campos de visão. Correram atrás, mas os sons apavorantes vinham de um ponto cada vez mais distante. E, então, o silêncio.

Tudo que sabem é que Palemon não retornou.

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MOMENTO #6

Os diabretes vieram aos milhares, de todas as direções. Criaturinhas humanoides de cerca de meio metro de altura, pele lisa de um negro intenso, garras afiadas, dentes pontudos e esporão na ponta do rabo. Sua aproximação lembrava o mar avançando ou a maré subindo. Irrefreável.

Idmon primeiro criou barreiras concêntricas de fogo ao redor do grupo e lançou grandes esferas incandescentes contra a massa de inimigos ainda distantes, mas isso não os deteve nem intimidou. Era como se as barreiras não existissem. Afinal, eram diabretes e o fogo era seu elemento. Então, inspirando-se em Zetes, Idmon tentou pará-los com uma barreira de ar em movimento circular. Mas, a barreira criada por Idmon não se comparava às criadas pelo garoto-vento como Idmon desdenhosamente o tratava em vida. Não era forte o bastante para detê-los. As criaturas formavam uma massa compacta e os que vinham atrás empurravam os da frente, forçando-os a avançar por mais intensa que fosse a força do vento.

Idmon passou então a atacá-los com pedras que arrancava com sua magia do chão rochoso. As pedras projetadas a grande velocidade derrubavam muitos, mas eles continuavam vindo. Mais e mais deles. Não demorou e já estavam em cima deles. Idmon conjura então, como último recurso, um domo em torno de si próprio. Ele precisaria de toda a sua concentração para manter o domo íntegro.

Jasão e Gabriel não tiveram alternativa senão partir para o combate corpo a corpo. As espadas de Jasão e Gabriel eram rápidas e os atacantes tombavam às centenas, mas seu número não diminuía. Parecia até que os diabretes estavam se lançando deliberadamente na frente das espadas. O grupo estava na defensiva e eles se viam forçados a recuar. Os diabretes estavam fazendo que se afastassem uns dos outros, isolando-os e levando-os à exaustão. Gabriel podia manter o ritmo inalterado por muito tempo ainda, mas Jasão já estava no seu limite.

Então, sem aviso, os diabretes batem em retirada. Debandam. Desapareceram completamente de suas vistas. Os remanescentes do grupo, ao se reagruparam, dão por falta de Autólico. Ele podia ser agora invulnerável, mas sabe-se lá o que os monstrinhos fariam com ele. Queriam ir em seu socorro, mas não sabiam nem por onde começar a procurar.

Agora eram apenas Jasão, Idmon e Gabriel.

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Fora do campo de visão deles, a sombra reassumiu o aspecto de mulher e sorriu.

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ESCLARECIMENTOS:

1) Erika Kripke. Afinal, há diferenças em cada realidade.

2) Como disse antes, o rosto de Palemon é o de Robert Downey Jr. e ele agora veste uma armadura em tudo semelhante à do Homem de Ferro.


01.02.2015