Regina estava em sua cozinha, cortando os legumes religiosamente. Ela ensaiava a conversa vez após vez em sua mente, tentava premeditar a reação de David, tentava silenciar sua própria mente, a sua vontade de chorar por ter que se desfazer de uma relação de tantos anos.
"David, eu me apaixonei pelo Robin." Não, muito direto. Era como socar os dentes dele.
"David, é hora de nós seguirmos caminhos diferentes." Ela balançou a cabeça, negativamente. Pior.
Na verdade, não havia jeito fácil e bonito de dizer a verdade. Não havia um modo mais civilizado de dizer "Ei, me apaixonei pelo seu amigo casado, causei o divórcio dele, transei com ele na casa da Ruby e agora vou me divorciar de você para ficarmos juntos." Al Gore que me desculpe, mas essa sim era uma verdade inconveniente.
Por outro lado, ela não conseguia mais não pensar em Robin. A maneira como seu sangue borbulhava apenas com a possibilidade do toque dele. O jeito que ele a olhava, a voz dele contra a sua pele, seu beijo, seu gosto... Distraída, a faca escorregou macia por uma lasca de pele.
"Puta que pariu!"
Sangue começou a esvair, e Regina levou o dedo aos lábios, involuntariamente. Ela sorriu, e o telefone tocou. Dois passos à direita e ela alcançou o aparelho, segurando-o com a mão ilesa.
"Regina."
"Gina" – A voz de David a fez estremecer. Ela não estava preparada ainda. Isso ia ser mais difícil do que ela imaginava. "Gina, preciso de você agora."
"David, nós precisamos conversar."
"Tudo o que você quiser, mas primeiro, você pode me levar até Kentucky, querida?"
Ela notou um nervosismo atípico na voz dele.
"Dav, o que aconteceu?"
"Meu pai sofreu um acidente e está passando por uma cirurgia. Não tenho condições de dirigir até lá, baby."
"Eu passo aí em cinco minutos, dear."
Regina desligou o telefone e arrancou o avental, pegando as chaves do carro enquanto se dirigia à saída.
Regina estava sentada na borda da cama do hospital, sua mão entre as mãos grandes e calejadas de seu sogro. David estava debruçado sobre ele, os olhos avermelhados pelo choro de desespero e alívio em saber que estava tudo bem.
"Pai, eu já tinha te avisado mil vezes sobre aqueles andaimes. Não é seguro."
"Por favor, David! Eu subo nesses andaimes desde antes de você nascer. Nunca tive problemas."
"Por isso mesmo. São antiguidades. Está tudo velho e solto."
Joseph apertou a mão da nora, que sorriu para ele. Ele a encarou.
"Pensei que você tinha aliviado a chatice desse moleque."
"Eu tento, Joseph. Ele nunca foi fácil."
"Ele tem sorte de ter você."
Regina olhou para David. Ele a olhava de volta, com um sorriso feliz nos lábios, os olhos azuis agradecendo. Ela se odiou intensamente. Ela sorriu timidamente, e apertou os dedos contra a mão do senhor à sua frente.
"Você precisa de alguma coisa? Quer ir lá para casa?"
"Não, crianças. Eu não vou para Maine por causa de uma cirurgiazinha."
"Pai."
"Não me desafie, David."
David levantou as mãos, rendido.
"Tudo bem, chefia."
"Mas eu gostaria de falar com a polícia."
David virou-se para ele, a mudança no semblante materializando-se imediatamente. O sorriso sumiu, e uma cortina de preocupação cobriu sua íris azulada.
"Pai, tem alguma acontecendo?"
"Tem."
"Joseph" – Regina ajeitou-se na cama, incomodada. Adorava Joseph. Lembrava-a da sensação de ter um pai. Ele a acolhera desde que começara a namorar David, tratando-a melhor do que tratava o próprio filho. Ela passou os dedos pelo rosto dele, e bagunçou seu ralo cabelo branco. "Está nos deixando preocupados. Por que quer falar com a polícia?"
"Porque essa queda não foi um acidente. Eu tenho provas de que foi uma sabotagem."
"Mas como? Por quê? Pai, todo mundo te adora por aqui! Quem faria algo assim?"
"Talvez a pessoa não fosse daqui, Dav."
A voz de Regina chamou-lhe a atenção. Era óbvio o que ela estava pensando. Se ninguém ali queria o mal de Joseph, talvez ele não fosse o alvo. Talvez, fosse apenas a isca. A ferramenta para machucar alguém.
Eles se olharam por algum tempo, até a resposta se tornar óbvia.
Era um tiro de aviso para um deles.
O telefone estava gritando histericamente quando Ruby conseguiu alcança-lo.
"Alô?"
"Gina?"
"Aqui é a Ruby. Regina não está. Quem é?"
"Oi, Ruby. É o Robin."
Gina? Eles tinham essa intimidade.
"Quer deixar algum recado, Robin? A Regina e o David foram pra Kentucky mas voltam hoje, pelo que disseram."
"Eles foram juntos?"
Era palpável a dor na voz dele, e Ruby começou a ligar os pontos.
"Foram."
"Bem, eu... Ligo depois. Ou amanhã. Não precise falar nada para ela."
Ruby sabia que na verdade ele não queria que David ficasse sabendo.
"Tem certeza?"
"Tenho. Obrigada, Ruby. Você está bem?"
"Ótima. Regina é como uma mãe para mim. Ela é maravilhosa."
"Sim, ela é..." A dor na voz dele a incomodava. "Preciso desligar. Um beijo."
Ruby colocou o telefone sobre o gancho. Voltou-se para o sofá, mas não estava mais interessada na televisão. Ela tinha muitas dúvidas em sua cabeça, e Regina teria que responder a todas elas. Não era mais uma opção. Era uma exigência.
Regina estava sob o chuveiro, a água quente lhe caindo sobre os cabelos, descendo pelo seu corpo. Ela não estava se movendo. Havia uma tempestade acontecendo dentro da sua cabeça. Ela não sabia mais como lidar com todas as situações sem que colocasse algo a perder. Ela sentiu uma brisa gelada logo atrás dela, e observou David entrando no box, completamente nu.
Ela não estava no melhor humor para ele agora.
"David, o que está fazendo?"
Ele massageou os ombros dela.
"Não vou bancar o espertinho hoje, Gina. Só quero cuidar de você."
Graças a Deus ela estava de costas para ele, então sua expressão de tristeza passara despercebida. Ele a abraçou, a água quente banhando os dois. Ela podia sentir a ereção dele contra a sua bunda, mas ignorou. Ele depositou um beijo delicado logo abaixo seu maxilar.
"Obrigado por ficar do meu lado hoje."
"Dav..." A voz dela era um sussurro. Ela queria dizer muitas coisas, que ele só ia se machucar por amá-la, que era isso o que ela fazia com todos: os machucava.
Ele passou os braços ao redor da cintura dela, apertando-a contra si. Sua nuca caiu sobre os ombros dela. Regina respirou fundo, e então deu meia volta, ficando de frente para ele.
"David, você está chorando?"
"Não." Mentiu ele.
"Está sim, dear. Você não mente bem."
Ela o abraçou, seu braço direito na linha acima do cóccix dele, e a outra mão delicadamente tocou-lhe o rosto.
"Você é o homem mais másculo e destemido que eu já conheci. O que está havendo?"
"Eu..."
David a pegou pelo rosto. Suas duas mãos segurando as laterais do rosto dela, fixando o olhar que eles trocavam. Regina o encarava, ansiosa.
"Eu me dei conta de que eu não tenho nada, Regina. Eu só tenho você. Você é parte do meu passado, do meu presente e do meu futuro. Você é a cola que mantêm as relações da minha família unida. Meus pais mal conversavam um com o outro antes de você entrar nas nossas vidas e hoje eles são melhores amigos. Eu não era ninguém sem você. E continuo não sendo. É quase certo que a Emma vai roubar a delegacia de mim. Eu posso lidar com isso. Mas não posso lidar se não tiver você do meu lado. Não posso lidar com meu pai sofrendo atentados sem você. Eu preciso da sua sabedoria. Da sua voz me corrigindo, brigando comigo, e me mostrando como ser alguém melhor. Eu te amo, Gina. Eu..." Ele sugou a boca dela e a beijou, apaixonadamente. Ela suspirou. "Eu... te amo."
Regina analisou a fisionomia dele. Seus olhos límpidos e sinceros, os lábios macios, os ossos perfeitos do maxilar. O cabelo loiro, liso e macio. Sua maneira intensa de encará-la. E ela percebeu que não sabia mais o que sentir. Não podia ignorar o que sentia por Robin – era forte demais para ser subestimado. Mas também não conseguia negar a profundidade da sua relação com David. Seu coração parecia pesar quinhentas bigornas naquele momento. A água escorria quente entre eles, assim como a integridade e a convicção dela.
Ela entrelaçou os dedos entre os fios loiros molhados e impulsionou-se na ponta dos dedos, roubando-lhe um beijo.
