Capítulo 25

— Não é o que você tá pensando! — Gina conseguiu pegar uma toalha próxima e cobrir seu corpo nu. Mas era difícil pensar no objetivo de fazer isso, já que os dois homens tinham ficado de boca aberta por ela. Devia haver alguma coisa eticamente errada, ou pelo menos religiosamente errada, com dois irmãos lançando olhares provocantes para as partes íntimas de uma mulher no banheiro.

— Ah. — Rony cruzou os braços. — Você não quer saber o que estou pensando agora. Como você pôde? — Ele jogou Harry contra a parede.

— Como eu pude? — rosnou Harry. — Que pergunta idiota é essa, quando você passou o fim de semana todo transando com qualquer coisa que usasse saia?

— Uma vez! — gritou Rony.

— Você devia estar fingindo que tá noivo!

— Isso não importa mais! — Rony o empurrou contra a parede de novo, o braço apertando o queixo do irmão por baixo. Obviamente, Harry estava deixando isso acontecer, já que Rony era mais novo e evidentemente menos forte que Harry.

— Por que diabos não importa? — A voz de Harry estava tensa.

— A vovó não disse! Ela só queria Gina de volta! Além do mais, ela sabe que não estamos noivos, ok? Eu destruí minha reputação. Aparentemente, sair com strippers é ruim pra imagem da empresa. De qualquer maneira, foi ideia do conselho. Todos saem ganhando! Eu precisava salvar minha reputação, por isso fingi estar noivo. Você acha que eu quero me casar?

Gina ficou imóvel, em choque. Sabia que o casamento não era real, mas, por algum motivo, as palavras dele machucaram, como se ele estivesse terminando com ela de novo. E o pior é que ela estava assistindo à conversa toda quase nua.

— Qual era o objetivo de trazer a Gina para cá, se não era de verdade? E por que a vovó fingiu que teve um derrame? — Harry deu um empurrão em Rony, fazendo-o cair no chão com um barulho.

— Como eu posso saber? Eu estava sendo o neto comportado! — Rony apontou para si mesmo e deu um olhar de desprezo.

— Hum, meninos? — Gina levantou a mão.

— Agora não! — gritaram os dois ao mesmo tempo.

— Meninos.

Eles a ignoraram e continuaram a brigar sobre o fato de a vovó estar ou não doente, se Rony estava mentindo e por que era tão importante subornar Gina para levá-la até Portland. No geral, eram os piores cinco minutos da vida dela.

E então...

Lily, James e a vovó entraram correndo no quarto.

Que maravilha.

Gina rezou para cair um raio.

Não teve essa sorte.

— O que significa tudo isso? — James rosnou e depois ficou roxo quando viu Gina enrolada na toalha.

— Ela estava nua! — Rony apontou para Gina.

Harry revirou os olhos.

— No banho, onde as pessoas costumam ficar nuas.

Rony deu um olhar de desprezo.

— E você estava encarando a Gina porque acha a anatomia humana fascinante?

Harry foi em direção à garganta de Rony, mas James separou os dois.

— Parem! Não sei o que deixou vocês dois tão irritados, mas vocês são adultos. Sentem e discutam o assunto. Não comecem a dar socos, especialmente quando Gina está em pé ali usando apenas uma toalha.

Os olhos de Harry e de Rony voaram até ela. Gina queria morrer de vergonha.

— Vou, hum... Estarei no meu, ou no dele... — Ela apontou para Harry e balançou a cabeça. — ... no quarto de hóspedes.

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Harry estava tremendo de raiva. Não ajudava nada o fato de que, todas as vezes que fechava os olhos para se acalmar, ele via imagens mentais de Gina sem roupas, em pé, no banheiro dele.

Rony resmungava ao lado dele.

— Vocês dois — disse James, apontando. — Falem. Agora.

— Ao mesmo tempo? — debochou Rony.

— Engraçadinho — murmurou Harry.

A vovó estava em pé atrás do pai, com os braços cruzados. Um sorrisinho se formou em seus lábios.

— Eu assumo a partir daqui, James — instruiu ela.

O pai levantou as mãos no ar e saiu, puxando a mãe deles.

— Escutem! — soltou a vovó, fazendo os dois homens pularem. — Eu precisava que Gina viesse aqui, e isso é assunto meu e só meu. Disse ao Ron para suborná-la, se fosse necessário. Obviamente, ele usou meu derrame como desculpa, além do dinheiro. Por mim, está ótimo, já que eu planejo deixar uma herança para essa menina. Mas estou honestamente desapontada de Rony ter criado um noivado falso para se salvar perante o conselho. Seja homem, filho.

Harry abriu a boca para falar.

— Não — rosnou ela. — Cuido de você mais tarde, Harry, mas agora meu desprezo é pelo seu irmãozinho. — Ele tentou não parecer feliz quando os olhos da vovó viraram, furiosos, na direção de Rony. — Como você pôde? Eu te pedi para fazer uma tarefa simples, e você está por aí levantando saias!

Harry pigarreou.

— Em defesa dele, algumas das garotas usavam calças.

Rony lançou um olhar furioso.

A vovó continuou com o sermão.

— Rony, acho que posso dizer que você bagunçou tudo, especialmente com Gina. Quero que você arrume suas malas e passe a noite no condomínio no centro da cidade. Você não vai embora até segunda, e isso vai me dar tempo para controlar os danos com seus pais. Além do mais, pelo que parece, os jornais têm fotografias suficientes de vocês dois para ficarem satisfeitos por você se acalmar na vida.

Harry não conseguia compreender. Ele ainda não entendia por que eles precisavam fingir que estavam noivos. Se a avó não estava morrendo, as únicas pessoas enganadas eram seus pais e Gina. Bem, eles e o resto da Twittosfera que seguia religiosamente os posts de Rony.

Vovó Nadine disse mais algumas palavras selecionadas Rony e o mandou sair.

Rony obedeceu, parecendo um cachorrinho com o rabo entre as pernas.

— E você! — A vovó o cutucou no peito. — Eu estava contando com você!

— Contando comigo?

— Sim, seu bobão! Eu te dei todas as oportunidades, e você estava indo tão bem na outra noite! — A vovó subiu na cama ao lado dele. — Sabe como é difícil fingir um derrame quando você está vendendo saúde? Se eu tiver que ficar deitada mais uma vez...

— Como? — Ela estava louca?

— Você a ama há muito tempo, meu menino. — As mãos dele começaram a tremer no colo, enquanto a vovó lhe dava tapinhas nas costas. — Eu sei que crescer foi difícil para você, e essa garota atraiu seu interesse desde aquela época. Eu só pensei que, bem... Achei que trazê-la para cá com seu irmão te deixaria com ciúme suficiente para finalmente fazer alguma coisa a respeito.

— Bem, você acertou a parte do ciúme. Você tem sorte de eu não ter matado o Rony na outra noite, quando dei um soco nele.

A vovó sacudiu a cabeça, e de repente Harry a achou muito frágil.

— O que você não está me contando, vovó?

Uma pequena lágrima escorreu pelo rosto dela, mas ela a afastou com a mão enrugada.

— Não desisti de Rony, não pense isso nem por um segundo, mas você, você é diferente. — Ela levantou o olhar, com os olhos vidrados. — Você me lembra muito o seu avô, Harry. Você precisa de uma mulher forte, uma boa mulher ao seu lado. Acho que Gina é essa mulher. Eu sempre achei isso e agora tenho certeza. Faça um favor a si mesmo e fale com ela.

Harry riu com amargura.

— E digo o quê, exatamente? Que estou apaixonado por ela desde que me lembro? Imploro pra ela não amar o meu irmão, mas sim a mim? Pra ela ficar comigo?

— É um bom começo — disse a avó. — Além do mais, tem uma coisa que nenhum de vocês garotos sabe.

— Ah, é?

— Gina era como uma neta para mim. Mantive contato com ela sempre que pude ao longo dos anos, embora eu admita que ando preguiçosa para escrever. Essas mãos velhas não funcionam tão bem quanto antes. — Ela recostou a cabeça no ombro dele. — Quando os pais dela morreram... Ah, Harry, foi uma grande tragédia. Ela se tornou uma fração da garota que eu conhecia. Achei que, se deixasse ela se curar e lidar com a situação sozinha, ela acabaria voltando. Eu a conhecia bem o suficiente para saber que, se eu a mimasse, ela se afastaria. Não ajudava muito o fato de Rony ter mentido para todos nós sobre o quanto eles realmente eram próximos nos últimos quatro anos.

O sangue de Harry ficou gelado.

— Imaginei. Quero dizer, ela deu a entender mais cedo.

— Ah, querido, Rony e Gina não se falavam há anos. Ele a acompanhava, mas os dois nunca se encontravam. Desde a morte dos pais, ela não passava de uma amiga de infância, uma conhecida. Eu costumava mandar recortes de jornais dos negócios dos pais dela, mas não sei se ela realmente lia ou olhava. Era como se ela tivesse morrido junto com eles.

— Isso explica muita coisa. — De repente, ele ficou louco de preocupação. Que diabos realmente tinha acontecido entre esses dois? Não podia ter sido apenas a morte dos pais dela. Não. Tinha mais alguma coisa, uma tensão oculta.

— No testamento, eles me nomearam guardiã de Gina.

— Como é? O quê? — Harry tinha certeza de que não estava ouvindo corretamente a avó.

A vovó deu um risinho.

— Sou guardiã legal dela. Naturalmente, agora ela é adulta, então não importa muito. Eles fizeram o testamento quando ela ainda era bem pequena. Mas Gina é tão minha quando era deles. Eu sempre cuidei dela, sempre quis o que era melhor para ela. E, na minha cabeça, o melhor para ela era fazer parte da nossa família.

— Mas não através do Rony, né? — Harry cutucou a avó.

— Céus, não. — Ela deu um risinho. — Gina sabia que alguma coisa estava acontecendo, que eu não estava doente de verdade. Falei para ela usar esse tempo para se encontrar, e acho que ela estava começando a fazer isso.

— Até eu estragar as coisas várias vezes? — perguntou Harry.

— Eu não diria que você estragou as coisas, mas você fez uma bagunça. Você é tão instável perto dela. Mas vou te falar uma coisa: te dou exatamente 24 horas sozinho com a garota para acertar tudo.

Harry riu e esticou a mão até o pescoço para esfregar um ponto dolorido.

— Tá, e como você vai fazer isso?

Ela se levantou completamente e ajeitou o casaco justo no corpo.

— Sou a vovó. Posso fazer qualquer coisa que eu quiser.

A mulher estava certa.

— Seja feliz, Harry. — Ela beijou o nariz dele e foi em direção à porta. — Seus pais e eu vamos sumir daqui a uma hora. Ouvi dizer que a cabana em Seaside é adorável nesta época do ano. Posso até ficar com pena do seu irmão e deixar ele ir junto, em vez de apodrecer naquele condomínio maldito no centro da cidade.

Harry se deitou na cama e encarou o teto.

Que velhinha manipuladora, essa sua avó. E pensar que ela foi aos extremos só porque queria que ele fosse feliz, bem, ele e Gina.

Não tinha certeza de quanto tempo ficou encarando o ventilador de teto, mas demorou um pouco para ele conseguir pular da cama, tomar um banho e ficar pronto para encarar o dia.

Harry saiu correndo pelo corredor. A casa estava estranhamente quieta. Temeu que Gina de algum jeito tivesse fugido, deixando-o sozinho na casa.

Bateu na porta dela.

Nenhuma resposta.

Bateu de novo e depois a abriu.

As malas ainda estavam no quarto, mas ela não estava lá. Seu perfume, no entanto, exalava das paredes, enchendo o nariz dele com seu aroma. Ótimo, agora ele ficaria desconfortável na busca.

— Gina? — chamou ele enquanto descia as escadas. Foi até a sala de estar, a cozinha... Onde ela estava?

A porta para o quintal estava aberta. Ele saiu e a chamou de novo.

— Estou aqui! — respondeu ela e acenou da casa da árvore.

Claro. Se ele tivesse pensado racionalmente, teria percebido que o primeiro lugar onde procurar devia ter sido a casa da árvore.

Sempre que voltava de um dia ruim na escola, ela corria para a casa deles, largava a mochila no balcão da cozinha, pegava um biscoito no pote e subia na casa da árvore.

Às vezes ela demorava horas para aparecer.

Mas, quando aparecia, Gina sempre estava feliz, como se o dia na escola não importasse mais.

Ele suspirou e subiu lentamente pela escada, até chegar à casa da árvore.

Gina estava sentada no canto, com os braços envolvendo os joelhos.

— Desculpe. — Ela mordeu o lábio e suspirou. — Eu só precisava pensar, por isso vim pra cá.

— Bem, somos dois, então. Você pegou biscoitos na cozinha também?

Ela estendeu a mão para o lado e pegou um saquinho com três biscoitos de chocolate.

— Claro.

Ele pegou um e sorriu.

— Gi.

Ela olhou para cima.

— Eu tinha um discurso muito bom pra você. Quero dizer, era fantástico, algo que levaria você às lágrimas...

— Sem dúvida — concordou ela, dando uma mordida no biscoito.

— Mas, sentado aqui, olhando pra você, tudo que eu realmente quero é te beijar e fazer essa tristeza ir embora. Sei que o que aconteceu mais cedo foi estranho, mas espero que você não tenha se magoado. O que Rony disse foi...

Gina riu.

— O que Rony disse foi exatamente o que eu esperava. Sei que ele não quer se casar. E nós dois sabemos que eu não sou doida o suficiente pra querer me casar com ele também.

Harry expirou de alívio.

— Mas... — Gina sacudiu a cabeça.

Ele não gostou do tom de voz dela.

— ... Mas não sei. Voltou a doer de novo, por algum motivo. Não é uma bobagem?

Ele sabia que provavelmente não teria outra oportunidade, então perguntou:

— O que aconteceu entre vocês dois?

A expressão dela congelou, e a respiração ameaçou parar.

— Ele, hum... — Ela afastou o cabelo do rosto, nervosa, e mordeu o lábio. — Nós... tivemos... — Uma lágrima escorreu pelo seu rosto.

Preocupado, Harry agarrou os pulsos dela e a puxou para o colo, embalando-a.

— O quê? Me conta. — Ele alisou os braços dela com as mãos.

— Nós dormimos juntos.

O coração dele parou. Raiva e frustração, além de ciúme, percorreram seu corpo com tanta força que ele não tinha certeza se queria dar um tiro no irmão ou culpar a si mesmo, apesar de não ser culpa dele. Ainda se sentia responsável por Gina. Sempre tinha se sentido.

— Na faculdade? — Ficou grato por ter conseguido perguntar sem gritar.

Ela fez que sim com a cabeça, nos braços dele.

— Foi horrível.

Graças a Deus.

— Ainda éramos muito jovens, e foi um erro idiota, e nós dois nos sentimos mal e estúpidos. Foi tão confuso! Na manhã seguinte, tudo que eu queria era ligar pro meu melhor amigo, mas ele não era mais meu melhor amigo. Eu não sabia o que ele era. E, no dia seguinte, seus pais me ligaram pra avisar que minha mãe e meu pai tinham sofrido um acidente. Eu não podia contar a ninguém. Fiquei com tanta vergonha. — Ela começou a chorar baixinho nos braços dele, enquanto ele beijava seu cabelo e a embalava.

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Gina não tinha certeza de por que estava cuspindo seus segredos mais profundos para Harry, mas parecia ser a hora de deixar tudo sair. Estava cansada de manter tudo dentro de si, cansada de tentar ser forte quando realmente se sentia tão assustada e fraca na maior parte do tempo.

— Tentei ligar pra ele, mas ele não atendia. Finalmente, alguém atendeu. Era uma garota.

Harry xingou entre os dentes.

— Nada era como antes. Ele me abraçou e disse que sentia muito pelos meus pais, e só isso. Nós nunca conversamos sobre o assunto. Nunca retomamos o que se perdeu. Acabamos nos afastando lentamente, como se não tivéssemos provocado esse buraco na nossa amizade da vida toda. Ele era o único laço que eu tinha com a sua família, por isso, quando ele me afastou, eu me senti... eu me senti órfã.

Ela começou a soluçar mais alto no peito dele. Ele sussurrou um incentivo no ouvido dela.

— Eu teria morrido naquele ano, se não fosse a vovó.

— O que quer dizer com "se não fosse a vovó"?

Gina sorriu apesar das lágrimas.

— Lembra daquele verão em que ela disse que ia viajar pelos Estados Unidos?

Ele deu um risinho.

— Ah, sim, eu recebia um cartão-postal a cada duas semanas.

— Bem, esses cartões-postais foram comprados numa livraria, e a vovó passou o verão todo comigo.

— O quê?

— Foi isso. — Gina secou outras lágrimas e sorriu. — Ela me salvou, disse que sempre estaria ao meu lado e que cuidaria de mim. Foi por isso que eu achei tão estranho ela parar de me escrever no mês passado. Logo depois, Rony veio com a longa história de que ela estava doente e morrendo e... bem, eu tinha que vir mesmo que isso significasse que eu estava manipulando todo mundo.

— Entendo. — Harry usou o polegar para secar uma lágrima perdida na bochecha dela. A respiração de Gina ficou difícil. Os olhos dela se voltaram para os lábios dele, depois de novo para seu olhar.

— Gi... — Ele baixou os lábios devagar, apesar de seu corpo estar se movendo a cem quilômetros por hora por dentro. — Vou te beijar agora.

— Tudo bem.


N/A: Desculpa pela demora gente, desculpa mesmo. Os dois capítulos iam ser postados quinta, só que eu fiquei com uma dor na coluna terrível e, como sou MUITO inteligente, tomei um relaxante muscular que meus ais tomaram quando ficaram doentes de dengue, resultado? Hibernei em um sono profundo que só passou no sábado kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk (e no sábado minha prima veio dormir aqui)

Enfim, estou postando um agora e mais tarde postarei o próximo, que é meio grandinho. Tentarei terminar de revisar o mais rápido possível. Espero que gostem desse capítulo e finalmente vovó Nadine entrou em ação pra colocar ordem na bagunça kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk