Nota do Autor: Grato a todos vocês que vêm acompanhando essa estória, e a prestigiando como favorita e enviando comentários. Deixa-me muito feliz receber em meu e-mail esses pequenos lembretes de que algumas pessoas apreciaram esse meu esforço, dando-me ânimo para continuar. Estamos a não mais que três capítulos do final da primeira das duas fases previstas para essa estória. Na minha ingenuidade de escritor de primeira viagem, pensei que esse ponto seria atingido em meio ano, e descubro agora que estarei gastando três vezes mais. Vivendo e aprendendo...
CAPÍTULO 26 – A nova Hogwarts
A viagem de retorno para Hogwarts foi calma. Em uma forma de comemoração, o grupo que fez junto a primeira viagem voltou a se reunir em um mesmo compartimento, com uma única exceção. Pansy, proibida pelo pai de participar da reunião de final de ano, foi admitida naquele restrito grupo como um prêmio de consolação.
Raquel mais uma vez instalou-se no colo de Paul e monopolizou a atenção do garoto, mas aquilo era não só esperado como também outro prêmio de consolação, já que a garotinha havia sido bem comportada e tinha dado a Paul uma considerável liberdade durante as curtas férias.
Dessa vez as crianças evitaram chamar atenção com feitos mágicos impressionantes e luminosos. O clima era de expectativa, e a Fundação estava um pouco apreensiva com o que poderia estar esperando pelas crianças em Hogwarts.
Com toda a agitação causada pelos ataques de Voldemort, a grande reunião de pais para o final de ano, o importante encontro com Saul Croacker e a inauguração de tantas novas escolas ao redor do planeta, vigiar as ações de Dumbledore e Fudge foram atividades que acabaram ficando em segundo plano, e parece que o velho diretor passou um Natal bastante ativo.
A suspeita sobre as atividades de Dumbledore pegou a Fundação de surpresa na forma de duas cartas, uma endereçada a Sirius e outra a Selena, convidando ambos para assumirem posições como professores na escola de magia. Sirius fora convidado para o cargo de professor na nova disciplina introdutória de Economia e Finanças Mágicas, e Selena para um curso avançado de Criação de Feitiços.
A princípio, o pessoal achou que os convites tinham por função colocar Selena e Sirius sob o olhar vigilante do velho mago, amenizar as críticas feitas ao ensino em Hogwarts e tentar criar uma situação que levasse o Menino-que-Sobrevivera a atender a renomada escola de magia, colocando-o também sob a esfera de influência de Dumbledore. Selena polidamente recusou o convite, voltando a usar a desculpa de excesso de atividades no momento, mas Sirius, entre o prazer de voltar a Hogwarts, a chance de passar mais tempo próximo do afilhado e ensinar-lhe alguns segredos sobre o castelo e a arte do trote, e a oportunidade de utilizar o conhecimento que recebera como puro-sangue para instruir nascidos-trouxas nas artimanhas do mundo mágico, acabou aceitando.
Seu argumento principal foi o de julgar que seria importante ter um adulto vigiando o diretor e tirando sua atenção de sobre as crianças ao acenar com a possibilidade de vir a ser convencido a matricular Harry em Hogwarts no próximo ano. Dessa forma, assim que as crianças embarcaram no Expresso, o velho Maroto aparatou próximo aos portões do castelo, para participar do almoço de boas vindas aos novos professores e da reunião marcada para discutir as novidades introduzidas por Dumbledore.
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Na Fundação, várias atividades foram interrompidas para que os adultos acompanhassem, pelos diversos sensores em Sirius e seguindo Dumbledore, os eventos ocorrendo no castelo tão logo ficou clara a extensão das mudanças que o diretor estava introduzindo na escola. No Expresso Hogwarts, as crianças também acompanharam todo o processo através de seus receptores especiais, e não gostaram muito do que descobriram.
Talvez para não prejudicar os alunos mais adiantados, que estavam se preparando para seus importantes exames e provavelmente já haviam planejado em detalhes seus últimos anos em Hogwarts, as mudanças se concentravam nos três primeiros anos, com novas eletivas que poderiam ser escolhidas por alunos ao chegarem ao terceiro ano, e algumas novas disciplinas introdutórias obrigatórias para os alunos dos dois primeiros anos.
Com certeza as novas matérias tomariam bastante do tempo livre das crianças. Elas tinham certeza de que poderiam aprender mais e mais rápido se pudessem usar aquele tempo livremente, mas reconheciam que, comparado ao currículo anterior, estava havendo progresso. O problema estava em outro ponto, logo percebido e denunciado por Xenófilo e o senhor Greengrass.
Dumbledore contratara tanto quanto possível de seus aliados para tê-los próximo a si em Hogwarts: Kingsley Schaklebolt seria o novo professor de Defesa, Sturgis Podmore ensinaria Costumes e Tradições Mágicas aos dois primeiros anos, idem com Molly Weasley em Feitiços para o Lar (exclusivo para as meninas) e Dédalo Diggle com Reparos Domésticos (exclusivo para os meninos). Para substituir Binns em História da Magia Alvo conseguira contratar a renomada autora Bathilda Bagshot, e Horácio Slughorn voltaria a ser o professor de Poções.
O que não ficara claro é se Dumbledore tentara propositadamente envolver o Ministério nas mudanças, ou se Fudge havia resolvido interferir por iniciativa própria. O certo era que a Fundação recebeu com surpresa, e visível desgosto, a contratação de Narcissa Malfoy como professora de Etiqueta e Comportamento Social, e de Dolores Umbridge para Política e Governo Mágico, ambas obrigatórias para os dois primeiros anos.
Completavam as novas disciplinas duas novas eletivas oferecidas a partir do terceiro ano: Saúde e Higiene Mágicas, por madame Pomfrey, e Direito Mágico Civil e Comercial, por Elphias Doge, outro velho amigo de Dumbledore. E todos notaram a ausência de Estudos Trouxas entre as eletivas oferecidas. Ficava claro o tom das mudanças: reforçar a cultura mágica e minimizar a trouxa. E se as novas disciplinas oferecidas já não deixassem isso claro, a reunião após o banquete removeu quaisquer dúvidas que pudessem ter sobrado.
Dumbledore explicou aos professores que estava insatisfeito com a disciplina dos alunos. Para mudar esse quadro, ele pedia a colaboração de todos em aplicar com rigidez as normas da escola, que haviam sofrido 'algumas pequenas alterações' detalhadas em um documento do qual ele entregou cópias a todos os professores. Sirius pegou o seu e o folheou lentamente, permitindo que os sensores em sua gravata transmitissem o conteúdo do documento para a Fundação, enquanto ele mantinha sua atenção nas palavras do diretor.
Enquanto Sirius ia percebendo a intenção de Dumbledore, de colocar os alunos sob rígida disciplina, colocando os professores no papel dos chatos que puniam tudo enquanto ele ficava no papel do vovô bonzinho que relaxava um pouco o rigor das punições aqui e ali, a Fundação comparava o novo livro de regras ao antigo.
Logo as mudanças realizadas nas regras ficavam evidentes: uma cláusula adicionada aos itens proibidos na escola não só erradicava todo e qualquer material de fabricação trouxa, de roupas a MP3 players, e de esferográficas a telescópios e todo tipo de brinquedos, como também poderia ser interpretada de forma que até mesmo o receptor do Pensador Crítico poderia ser confiscado, caso constasse de uma lista de 'artefatos mágicos proibidos' que, consultada, logo provou ser esse o caso, o receptor lá mencionado individualmente, junto com os genéricos 'artefatos contendo magia negra' e 'artefatos para uso exclusivo de adultos'.
Além disso, várias das normas da escola tiveram seu texto remodelado de forma a facilitar a punição dos infratores. Exemplo notório era a regra do toque de recolher. Antes ela permitia apenas a punição dos alunos que fossem encontrados fora dos aposentos de sua casa após o horário; agora ela permitia a punição dos alunos que não fossem encontrados nos aposentos comuns após o toque de recolher. Uma mudança sutil, mas que facilitava a punição ao não mais requerer que o aluno fosse encontrado fora de seus aposentos, apenas que ficasse constatado que ele não estava lá. Várias outras regras haviam sofrido modificações semelhantes, e outras novas foram incluídas para dificultar a vida dos alunos mais novos, chegando ao ponto de praticamente proibi-los de se reunirem fora das aulas, dos aposentos comuns, das refeições e da biblioteca, exceto sob supervisão de um professor.
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Sirius estava cansado dos olhares que recebia dos demais a cada vez que o diretor mencionava palavras como 'disciplina' e 'comportamento'. Claro que ele tinha certa fama por ser um Maroto, mas o que estavam esperando dele? Que ele começasse incêndios ou revoluções estudantis? Claro que ele queria fazer isso, mas ele sabia que não podia! Pelo menos, não poderia ser pego fazendo...
Tão entretido estava Sirius com seus planos que quase perdeu o momento em que o discurso de Dumbledore chegou a um ponto importante... Ajudou que o velho tenha olhado diretamente para ele naquele momento, como querendo dizer que sabia de seu envolvimento naquele assunto.
"Uma publicação, nem permitida nem sancionada por nosso governo, causou sérios danos à nossa sociedade recentemente, tanto através de pesadas e nem sempre justificadas críticas à nossa sociedade e suas mais nobres e antigas instituições, como pela divulgação ao grande público, sem as devidas censura e explicações para facilitar seu entendimento, de matérias que deveriam ter sido mantidas como segredos de Estado. Os responsáveis por essa publicação escondem-se no anonimato e fazem uso de magia de origem questionável para fazer a panfletagem de suas ideias de forma unilateral e com impunidade, cerceando nosso governo de seu justo papel de censor para garantir a fidedignidade e qualidade dos textos divulgados e o justo direito de resposta das partes ofendidas."
Cofiando sua barba e olhando novamente diretamente para os olhos de Sirius, que rapidamente desviou o olhar ao perceber seu brinco esquentar ao deter um ataque de legilimência do velho mago, Dumbledore voltou a atacar a Fundação.
"Embora ainda não tenhamos as provas necessárias, e garanto que isso é apenas questão de mais um pouco de tempo, investigações realizadas apontam para o envolvimento dos Lovegoods na criação e distribuição dessa nefasta publicação, provavelmente com ajuda de uma família aparentemente trouxa, e ressalto aqui o 'aparentemente', pois tenho sérias dúvidas: os Zurkhofs. Cito esses nomes por dois motivos. O primeiro é que ambas as famílias possuem crianças matriculadas aqui em nosso primeiro ano, exatamente coincidindo com o início das desagradáveis e despropositadas mudanças em nossa escola. O segundo é que temos suspeitas de que uma menina da família Zurkhof, não matriculada conosco, mas que suspeitamos seja, apesar da pouca idade, uma proficiente praticante das Artes Mentais, tenha passado boa parte de seu tempo aqui no castelo, em estreito contato com os demais alunos do primeiro ano. Os propósitos de sua presença aqui nos escapam, mas o simples fato de ela ter circulado entre nós sem permissão nem aviso sugere que podem não ser tão inocentes assim. Se acaso se depararem com ela, detenham-na para interrogatório e avisem-me imediatamente."
"Alvo," protestou Minerva, "não acha que isso é um pouco drástico demais?"
"Minerva, recebi sérias críticas por colocar nossos estudantes em perigo. Não permitirei que uma pessoa estranha e com propósitos desconhecidos, provavelmente conectada a uma organização que está sob investigação do governo, tenha livre circulação no recinto dessa escola!"
Um agudo e irritante "Ah-ham" soou na sala antes que a professora Umbridge, secretária-sênior do Ministro da Magia Cornélio Fudge, se dirigisse a Minerva.
"Professora McGonagall, nosso estimado ministro tem um profundo interesse em saber mais sobre essa difamatória e subversiva organização que tem agido em nosso meio, e se você, ou quaisquer de nossos companheiros aqui, tiver quaisquer informações relevantes para o caso, contamos que cumpram seu dever cível e me procurem para relatar o que souberem. Devo entender que já tenha visto a garota em questão?"
"N-não" gaguejou Minerva, mas logo se recompôs. "Não a vi pessoalmente, mas esteja certa que cumprirei com minhas obrigações se tal acontecer."
"A sociedade mágica britânica está passando um momento de crise" explicou Umbridge, com uma expressão que Minerva ficou em dúvida se seria uma tentativa de sorriso ou uma expressão de dor. "Mas trata-se de uma crise passageira, originada por umas poucas pessoas descontentes com o sucesso de nosso estimado Ministro, e estejam certos de que ele esmagará essa oposição rápida e eficazmente, como tem sido todas as suas ações à frente de nosso governo."
Sirius estava tendo problemas. Teria sido melhor se essa reunião tivesse sido feita antes do almoço. Aquela conversa furada estava revirando seu estômago. Era hipocrisia demais para engolir em uma dose só.
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Na Fundação, os membros adultos estavam surpresos com as medidas tomadas por Dumbledore. Eles esperavam que o Ministro pudesse tentar algo, mas não contavam com que ele conseguisse o apoio do diretor nem que Alvo tentasse ser tão proativo em suas ações. Estavam contando que a busca por Atlântida estivesse tomando a maior parte do tempo dele e de Voldemort.
"Dumbledore parece ter decidido declarar guerra contra nós, e procurado uma aliança com o Ministro para tentar bloquear nossos esforços" resumiu a situação Robert Davis. "Daniel, acha conveniente colocarmos as crianças no modo 'jogo de pôquer'?"
O senhor Greengrass sorriu maliciosamente antes de responder "Sim, pode ser o melhor para o momento. Mas devemos ficar atentos. Se Dumbledore e Fudge ficarem muito tempo sem descobrir nenhuma informação relevante, eles podem optar por endurecer ainda mais o jogo contra as crianças."
"Quanto tempo acha que levaria para extrair todo o grupo de crianças de Hogwarts, se chegar a ser necessário?" perguntou Robert para Selena.
"Se eles estiverem todos juntos, em menos de um minuto poderiam todos vir aqui, mas temos agora membros nos três primeiros anos, e simpatizantes em todos os demais" ponderou Selena. "Devemos nos preparar para que a necessidade possa surgir em um momento em que eles estejam bem dispersos pelo castelo."
"Todos eles estão com no mínimo uma das bijuterias encantadas" confirmou Bete checando o mapa especial que haviam criado com o propósito de manter as crianças sob observação. "Vamos instruí-las para que usem mais de uma, por segurança, e que as escondam o melhor possível. Liz deve retornar para cá no final da viagem, e é melhor que ela não retorne a Hogwarts enquanto permanecer esse estado. O que mais podemos fazer?"
"Paul e Luna estarão sobre estrita vigilância, e temos que manter o segredo da Sala Precisa, mesmo que à custa de deixarmos de utilizar seus recursos exceto em emergências" comentou Xenófilo.
"As visitas deles aqui na Fundação também devem ficar restritas a emergências, infelizmente" disse Helena.
"Vamos ter dificuldades com nossas pequenas" comentou Isabel. "Elas irão reclamar da ausência de visitas."
"Essa situação será certamente passageira" disse Bete. "Do jeito que as coisas estão caminhando, não acredito que leve muito tempo para que vejamos a conclusão dessa estória toda."
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Definida uma estratégia para confrontar as mudanças em curso, os adultos entraram em contato com as crianças e expuseram suas ideias, recebendo em troca algumas sugestões adicionais.
Pouco tempo depois um portal foi aberto, e as crianças enviaram para a Fundação todos os artigos trouxas que tinham consigo bem como os receptores do Pensador Crítico, para que nada corresse o risco de confisco. Liz, a contragosto, despediu-se dos amigos e retornou também para a Fundação. Sem os receptores, sua contínua ligação mental com Paul seria a base de toda comunicação entre as crianças e a sede.
Por sugestão de Luna, Xeno não iria publicar nenhuma notícia sobre as mudanças em Hogwarts no momento. Ele apenas comporia e enviaria um aviso para os pais das crianças, para que eles soubessem que as comunicações estariam suspensas temporariamente, e não ficassem preocupados.
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Ter descoberto os planos de Dumbledore antes da chegada do Expresso a Hogsmeade foi providencial. Tão logo desceram do trem as crianças foram colocadas em filas, e passaram por revista pessoal efetuada por aurores do Ministério. Com certeza, terminada a revista das crianças eles estariam verificando as bagagens antes de despachá-las para Hogwarts. Hermione estava devastada. Ela teve que enviar de volta vinte e dois livros, além de mais da metade de suas roupas e grande quantidade de jogos, equipamentos e outros itens adquiridos no mundo não mágico. E de forma alguma ela era a única descontente com tudo aquilo.
Felizmente Dumbledore evitou sobrecarregar as crianças, cansadas da longa viagem, com muitas novidades durante o jantar. Limitou-se a informar que estariam implementando mudanças que seriam apresentadas na manhã seguinte, e apresentou os novos professores, dizendo ao final que os alunos do primeiro ao terceiro ano estariam dispensados de aulas na manhã seguinte para que fossem informados de seus novos cursos, das novas regras e dos novos horários.
O grupo surpreendeu-se ao ver a família Malfoy em peso no jantar. Narcissa como nova professora, Draco tentando recuperar a liderança do grupo de Nott, contando suas experiências na Itália ao lado de sua noiva que, a julgar pela expressão, preferia estar bem longe dali, e Lúcio, na mesa principal, dando o apoio do Conselho Diretor às reformas de Dumbledore. As meninas já estavam planejando como sondar a nova estudante de Hogwarts, que teria que compartilhar dormitório com elas. Dafne, Pansy e Susana, três representantes de famílias tradicionais, fariam a abordagem inicial.
As crianças do grupo fizeram bem o papel de jogadores de pôquer, como sugerira Robert. Todas ficaram impassíveis, tentando não demonstrar nenhuma emoção em suas feições, e limitando a conversa a ocasionais sussurros. Tiveram que evitar os olhos uns dos outros, ou correriam o risco de cair na gargalhada. Também tiveram que evitar olhar muito para o pessoal na mesa principal pelo mesmo motivo: era claro que os adultos ali em Hogwarts estavam esperando que elas se comportassem de forma bem diferente, tamanho o espanto que revelavam em suas feições em verem a maioria das crianças tão indiferentes a tudo.
É claro que houve exceções. O grito de "QUÊ? MAIS AULAS?!" do mais jovem Weasley até era esperado, mas ele foi logo silenciado por um olhar severo de sua mãe. Depois de uma lenta e silenciosa caminhada ao fim do banquete, as crianças logo estavam deitadas, fisicamente cansadas mas mentalmente ansiosas por se reunirem no astral e discutirem a 'nova Hogwarts'.
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O grupo que se reuniu com a nova aluna, Beatrice Berenice Bórgia, foi o último a chegar, mas trouxeram a garota com elas, já convertida e juramentada como membro do grupo. Melhor ainda, até o final da noite, com orientação e ajuda da nova integrante, o grupo ganhou mais dezesseis membros na Itália e dois na Suíça, entre amigos e parentes da menina na mesma faixa etária. E Dafne e Susana não perderam tempo em instruir a nova amiga sobre como utilizar os costumes britânicos e as novas regras escolares de decoro, decência e boa conduta para que ela pudesse se distanciar do grupo exclusivamente masculino que seu noivo estava frequentando.
Liz havia se juntado a eles também, trazendo com ela as ideias e considerações dos adultos da Fundação. Havia dúvidas se essas mudanças todas eram simplesmente uma jogada para melhorar a imagem da escola, e consequentemente de seu diretor, ou se a estranha parceria que se iniciava entre Dumbledore, Fudge e Lúcio Malfoy poderia ter outros fins, mais abrangentes e potencialmente desagradáveis.
De qualquer modo, a forma como as mudanças estavam sendo decididas e implementadas apenas agravava o descontentamento das crianças com a maioria dos adultos. Novamente tudo estava sendo resolvido pela 'cúpula do poder', sem nenhuma consulta àqueles que seriam os mais afetados por todo o esquema, as crianças. Os pretensos líderes não percebiam, ou não queriam reconhecer, que qualquer reforma, por mais bem intencionada que fosse, pecava como ditatorial e arbitrária se não contasse com a participação de todos os afetados em seu processo de criação.
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O café da manhã foi outro exercício em utilizar a cara de jogador de pôquer. Algumas pobres e inocentes frutas sofreram ao servirem de válvula de escape para a frustração e raiva que vários deles sentiram com as novas regras disciplinares que a mulher do Ministério ia revelando com indisfarçável sadismo durante a sobremesa. Que o diga o pedaço de melão que Hermione garfou com tanta força que uma parte dele voou contra a janela lateral do Grande Salão, uns bons quatro metros de distância da menina.
Draco não gostou nem um pouco de ver sua noiva desprezar sua companhia para ficar entre Pansy e Dafne. Assim que Umbridge terminou a longa exposição das novas regras, dirigiu-se ao pai e os dois vieram juntos para perto da menina, mas foram seguidos pela secretária-sênior, ansiosa por começar a exercer seus novos poderes. Beatrice explicou a situação e, para desgosto dos dois Malfoys, a intrometida mulher logo elogiava a menina estrangeira por seus esforços em obedecer às novas regras e agir com decoro, calando qualquer chance de protestos de pai e filho.
Logo os alunos foram liberados pelo resto da manhã de posse dos novos horários, e retornaram em silêncio para a Sala Comum, em uma fila dupla bem ordenada, pelo menos para aqueles pertencentes ao grupo. Ainda estavam usando a tática de manter a expressão de jogador de pôquer, e isso ajudou quando descobriram que foram seguidos pelo diretor e madame Umbridge, que ficaram a um canto da sala observando tudo.
Sob tamanha pressão, as crianças ocuparam as mesas de estudo e começaram a estudar ou ler para passar o tempo. Madame Umbridge logo estava circulando ao redor deles, e ela não perdeu tempo em atacar Paul assim que viu o que o menino estava escrevendo em um pergaminho.
"Essa cobrinha aí, menino, o que é?" perguntou ela cruzando os braços e olhando para o garoto com um típico sorriso 'te peguei'.
"É uma letra 'S' estilizada, indicando uma soma de elementos, senhora" respondeu o menino o mais polidamente possível.
"E não é por acaso um símbolo trouxa? Não me lembro de ter visto esse símbolo em nenhum livro mágico."
Paul pensou um pouco antes de responder com uma pergunta: "O alfabeto que utilizamos no mundo mágico também é de origem trouxa, não é? Existe algum alfabeto exclusivamente mágico que devemos utilizar?"
Foi a vez de Umbridge parar para pensar um momento. Ela não gostou do rumo que o garoto deu à conversa. Morag, que estava sentada à frente de Paul, aproveitou a deixa para desarmar a venenosa mulher.
"Existe sim, Paul, são chamadas de runas. Mas somente no terceiro ano podemos iniciar o estudo delas. Até lá acho que teremos que continuar utilizando os símbolos trouxas, não é, senhora?"
Umbridge até pensou na possibilidade de exigir seus deveres de casa escritos em runa, só para complicar ao máximo a vida daquelas crianças impertinentes, mas lembrou-se a tempo de que ela mesma teria imensa dificuldade em ler e corrigir os trabalhos. Juntando suas forças, ela deu às crianças um sorriso mais amarelo que gema de ovo e, com um "É claro" que era claramente sombrio, afastou-se apressadamente. O sorriso com que Paul agradeceu a intervenção de Morag foi imensamente mais genuíno e melhor recebido.
Logo os dois adultos deixavam as crianças em paz, e Luna aproveitou para subir a seu dormitório de onde, via portal, ela logo chegava à Fundação para uma importante missão.
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Até seu feliz encontro com os Zurkhofs, Luna tinha passado uma infância quase solitária. A exceção era Gina Weasley, uma garota ruivinha que morava a uns quinhentos metros dela, e com quem podia brincar eventualmente. O 'eventualmente' só não era 'frequentemente' por dois motivos: Molly Weasley, a mãe de Gina, embora tolerasse os pais de Luna e os tratasse amigavelmente, os considerava um pouco excêntricos demais para deixar sua filha visitar a casa de Luna com frequência; por outro lado, Luna visitar Gina significava as duas terem que ficar sob a vigilância constante de Molly ou sofrerem com as pirraças dos gêmeos e as críticas rudes e mordazes de Ronald a tudo que faziam ou diziam.
Após conhecer os Zurkhofs, Luna passou a morar com eles e praticamente não mais viu sua antiga amiga. Ela até tinha conversado com sua mãe, logo no início do relacionamento deles com os Zurkhofs, sobre tentar envolver Gina em tudo aquilo, mas a mãe de Gina era por demais ligada a Dumbledore e por demais protetiva de sua prole, causando sérios problemas de segurança a considerar.
O fato é que Luna se sentia em débito para com sua primeira amiga, e iria fazer o possível para que Gina em breve fosse parte daquele maravilhoso grupo.
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"Paul? Tem um momento?" perguntou um nervoso Neville Longbottom àquele que havia se tornado a influência mais importante em sua vida.
"Claro, Neville" respondeu Paul, olhando para o amigo com um sorriso. "Sempre! Em que posso ajuda-lo? Sua varinha nova está funcionando bem?"
As crianças haviam notado uma estranha contradição com o garoto. Neville era um dos que melhor se saiam na mágica sem varinhas, mas era um dos piores ao usar a varinha. Não demorou muito para que descobrissem a razão: Neville estava usando a varinha de seu pai, ao invés de uma adequada para ele. Paul e Liz providenciaram uma nova para ele como presente de Natal, depois que Amélia e Selena conseguiram convencer a severa madame Longbottom, avó do garoto, a deixa-lo passar a maior parte das férias de fim de ano na Fundação. Ela mesma visitara a Fundação com frequência no período, para amenizar suas preocupações sobre as amizades que o neto vinha cultivando, e se surpreendeu favoravelmente com tudo que vira.
"Oh, sim, tem sido tão mais fácil fazer os exercícios agora! Muito obrigado pelo presente! Ajudou-me muitíssimo" respondeu o garoto, visivelmente feliz. "Mas eu gostaria de perguntar algo, se não for atrapalhar você."
"De modo algum, Neville. O que é?" perguntou Paul, curioso.
"É sobre as meninas..." começou o garoto timidamente.
"Já?" perguntou Paul, meio jocoso. "Está se apaixonando por alguma?"
"N-Não!" respondeu Neville gaguejando e corando muito. "É que... bem... eu não sei explicar direito, mas as meninas no nosso grupo... elas são diferentes das outras... E os outros meninos, os que não estão no nosso grupo, eles dizem que isso é errado, não que eu acredite neles, mas é tão difícil Nott e Weasley concordarem com algo..."
"Oh, eu acho que entendi" comentou Paul, deixando Neville notavelmente mais relaxado por não precisar se explicar melhor. O jovem herdeiro dos Longbottoms estava sofrendo um mal comum à idade, desenvolvendo ideias e conceitos que ainda não tinha habilidade para expressar de forma clara. Pena que a maioria dos adultos, ao se depararem com crianças passando pelo mesmo problema, raramente tinham paciência e disposição em ajudar, antes preferindo criticar e ridicularizar.
"Eu acho que o comportamento delas aqui no nosso grupo é o normal..." explicou Paul. "Aqui entre nós, nós não censuramos elas por serem tão ou mais espertas do que nós, nem as tratamos como inferiores por qualquer motivo ou diferença que possa existir. Você estava conosco quando Dafne e Susana explicaram a situação da mulher no mundo mágico, não estava?"
"Eh... sim, eu estava" respondeu Neville. "Mas então, não é culpa delas mesmas se elas estão em tal situação? Como foi que elas deixaram os homens assumir todo poder e responsabilidade e não fizeram nada para impedir? Mesmo vendo como as meninas do nosso grupo vivem com mais liberdade, as outras mais velhas não estão fazendo nada! Por que isso?"
"Eu não sei muito bem como esse tipo de situação se desenvolveu..." confessou Paul. "Acho que está muito ligado ao fato de os homens serem normalmente mais fortes fisicamente, e em geral serem os únicos a carregar armas, mas há tantos exemplos de mulheres que tiveram sucesso como guerreiras, de Boadicéia a Joana d'Arc, que não sei até que ponto isso é válido. Também há uma influência religiosa. As religiões em geral refletem certo machismo, as monoteístas normalmente representam Deus como um homem velho, um ancião. E na judaico-cristã, a mulher é vista como uma criação posterior, a partir da costela de Adão, e isso daria a ela certa inferioridade, e somando que ela é retratada como responsável pela expulsão do casal do Paraíso, por ter se deixado enganar e iludir, bem, a imagem que fica não é das melhores, e parece ter instalado nelas certo sentimento de culpa que eu acho injustificado..."
"Mas o mundo mágico não dá muita importância às religiões trouxas..." argumentou Neville.
"No entanto, eles só se separaram por volta do ano 900. Até essa época muito estrago já havia sido feito, e as mulheres já estavam nessa triste situação..." comentou Paul. "E, temos que admitir, não é uma situação fácil de ser revertida. Por um lado, ninguém que adquiriu poder e privilégios costuma abrir mão deles facilmente. Por outro lado, ir contra costumes e tradições é sempre problemático. Muitas das garotas mais velhas, como você mencionou, não só não estão seguindo os exemplos das nossas amigas, como as criticam duramente por estarem indo contra o que delas se espera. No fundo, elas estão lutando contra seus próprios interesses ao agirem assim, perpetuando essa discriminação, e o pior é que o fazem sem perceber, ou percebendo mas temendo as repercussões e invejando o sucesso alheio. Essa é uma condição terrível, a inveja. Ela leva as pessoas a quererem o fracasso de outras apenas para não se sentirem inferiorizadas por não obterem os mesmos sucessos elas mesmas."
"Então você aceita plenamente a igualdade das mulheres?" perguntou Neville.
"Oh, não, de modo algum!" respondeu Paul, para espanto do amigo.
"Quê?! Mas..."
"Calma, Neville. Deixe-me explicar" pediu Paul, esperando um momento até que o pobre Neville se refizesse da surpresa e sinalizasse para Paul prosseguir. "O que eu quero dizer é que, por um lado, sou plenamente a favor que todas as pessoas, independente de gênero, raça ou qualquer outra diferença superficial, devem ter os mesmos direitos. E nisso sou abrangente o bastante para incluir os duendes, os élfos, os centauros e quaisquer outras espécies inteligentes que existam. Mas, por outro lado, acho importante não enfatizar por demais essa ideia de 'igualdade', porque diferenças existem e elas podem ser importantes em dadas situações. Por exemplo, até que a ciência venha com alguma novidade, mulheres engravidam e homens não. A gravidez se torna então um fator que precisa ser levado em conta, e não seria justo esperar de uma futura mãe que ela mantenha o mesmo nível de trabalho por todo esse período. O corpo dela estará passando por mudanças radicais, e ela estará em uma situação muito diferente da que estava antes de engravidar, ou da situação que o futuro pai atravessa no mesmo período, entende?"
"Acho que sim" respondeu Neville, se esforçando por compreender. "Quaisquer dois seres inteligentes serão diferentes em alguns aspectos e similares em outros. Tanto as diferenças quantos as similaridades devem ser compreendidas e aceitas, sem que elas se tornem motivos para avaliar e julgar o outro, seja como superior ou inferior. Temos que aceitar que é possível ser diferente sem necessariamente aceitar que isso indique que um é melhor ou pior, é isso?"
"Em certo sentido, sim" concordou Paul, mas continuou. "No entanto, acho que vai além. A diferença não é apenas algo que devemos aceitar, mas desejar. As diferenças trazem opções, trazem ideias diferentes, perspectivas diferentes... No fundo, acho que o progresso seria muito mais lento, se chegasse realmente a ocorrer, caso fossemos todos iguais. Não acha que, como grupo, avançamos muito mais do que poderíamos individualmente? E não acha também que as vantagens que obtemos como grupo vem exatamente da diversidade, das diferenças entre nós, seus membros?"
"Cada um complementando o outro, ajudando o outro onde ele está mais fraco, não é?" ponderou Neville. "Sim, eu concordo. Apenas não tinha feito todas essas ligações..."
"Às vezes temos lá nossas dificuldades, e fica difícil conseguir consenso em algumas questões, mas mesmo isso acaba sendo benéfico" argumentou Paul. "As discussões que surgem nos levam a examinar certos tópicos com muito maior profundidade, o que nos enriquece muito. Mesmo que, ao final, não cheguemos a um acordo, cada um de nós terá refletido muito mais, visto o assunto sobre diferentes perspectivas e ganhado uma compreensão muito mais séria e realista do que se simplesmente houvesse aceitado a primeira ideia que o agradou e deixado as coisas dessa forma."
"Entendo..." começou Neville, mas parou quando um portal se abriu e Luna passou por ele. "Ei, Luna. Pelo sorriso, sua missão foi um sucesso?"
"Oh, sim, foi bem mais fácil do que eu esperava" disse a menina para Neville. "Eu havia subestimado o quanto Gina é independente e aventureira. Foi só ressaltar um pouco essas mesmas qualidades em nossos esforços e a chance de uma pequena rebeldia contra sua superprotetiva mãe para que ela ficasse entusiasmada com a ideia. Mas nosso amigo Paul aqui vai ter algum trabalho..."
"Eu?" perguntou o garoto, surpreso. "Por que eu?"
"Oh, não Paul exatamente..." comentou Luna. "É mais um problema para o Menino-Que-Sobreviveu. Lembram-se de Susana no início? Gina está absolutamente apaixonada pelo Menino-Que-Sobreviveu. Raquel vai ter outra competidora."
"Mas ela nunca me viu! Como pode estar apaixonada por mim?" perguntou Paul ainda perplexo.
"Não por você como Paul, esse ela nem sabe que existe" explicou Luna. "Mas Harry Potter, o Menino-Que-Sobreviveu, tem sido a estória preferida dela desde que ela começou a falar. E com todas as matérias que você tem assinado em O Pensador Crítico, ela acha que o conhece e o adora por tudo o que ela imagina que você seja."
"Oh, não! Estou frito!" assustou-se Paul, fazendo seus dois amigos rirem de sua situação. "O que vou fazer?"
Luna aproximou-se mais dele e colocou uma mão sobre seu ombro, inclinando-se um pouco para olhar o menino nos olhos.
"Você não precisa fazer nada, Paul. Não vai ser assim tão ruim. Apenas tenha um pouco de paciência, como com Susana" disse ela, ainda curiosa com a intensidade da reação dele. "Dê um pouco de tempo para ela e ela vai acabar se encaixando bem no grupo."
"Espero que você esteja certa" respondeu Paul demonstrando que alguma dúvida ainda restava.
"Não estou sempre?" perguntou Luna, afastando-se enquanto ria da situação.
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"Talvez você agora acredite quando eu falo que as garotas são mais espertas do que nós, Neville?" perguntou Paul a seu amigo.
"Sem dúvida" respondeu ele. "Garotas são um mistério. Nunca sei quando estão falando a sério ou quando estão tirando sarro de nós."
"Provavelmente porque elas estão fazendo ambos a maior parte do tempo" concordou Paul. "Nunca consegui ganhar uma batalha verbal contra Liz ou Luna, e agora com Hermione, Dafne, Tracy, Morag, Padma... Aff! A maior parte do tempo me sinto como um garotinho querendo participar da conversa dos adultos sem entender bem o que está acontecendo..."
"Eu sei. Sinto-me assim também a maior parte do tempo" confessou Neville.
Os dois ficaram um momento em silêncio. Paul podia perceber que havia algo mais que Neville queria discutir, então esperou pacientemente até que seu amigo arranjasse seus pensamentos e se expressasse. Não precisou esperar muito.
"É interessante esse assunto do sexo, não é" disse Neville finalmente. "De um ponto biológico, quero dizer. Não parece muito efetivo, não acha?"
"O que exatamente você tem em mente, Neville?" perguntou Paul, incerto.
"É um duplo custo em termos reprodutivos. Lembra-se da ideia de Dawkins sobre o gene egoísta naquele livro que Luna me emprestou? Se o propósito dos genes é garantir sua própria reprodução e sobrevivência, e nada mais, seria muito mais vantajoso que cada organismo fizesse uma cópia de si mesmo, sem se envolver com outros."
Paul refletiu um pouco antes de responder: "Acho que entendo o que você quer dizer. Usando sexo para reprodução, apenas metade de meus genes passará para meus filhos, quando eu poderia passar todos eles se simplesmente me dividisse ao meio, ou gerasse um bebê sozinho. É isso?"
"Sim, é isso que quero dizer. E mais: se cada indivíduo se reproduz sozinho ao invés de precisar da ajuda de outro, você acaba podendo gerar o dobro de descendentes" respondeu Neville. "Eu me lembro do que lemos sobre vantagens de trocar genes para melhorar as chances de sobrevivência, mas será que é uma vantagem tão grande assim que compense o esforço desse duplo custo em reproduzir os genes?"
Paul pensou por alguns momentos antes de responder: "Nesse caso, o melhor é imaginar uma situação específica. Primeiro, vamos considerar uma espécie sexuada e outra assexuada, e que inicialmente teremos uma distribuição da eficiência dos indivíduos de cada espécie ao redor de uma média. Por simplicidade, vamos dizer que a distribuição é uma curva simétrica em torno de 50% de eficiência, a quantidade de indivíduos em cada percentil subindo entre 0 e 50%, depois decaindo de 50 a 100%."
"Aquela curva em sino que vimos em estatística, não é? Uma gaussiana" comentou Neville.
"Exatamente" confirmou Paul, antes de continuar. "No caso da reprodução assexuada, cada indivíduo criando uma cópia de si mesmo, a tendência seria de que a próxima geração saia muito similar à atual, não é?"
"Sim," respondeu Neville, mas logo perguntou "Mas não seria o mesmo no caso da espécie sexuada?"
"Talvez na nossa espécie, que é monogâmica, mas na maioria das espécies acho que os machos competem entre si, e apenas os melhores se reproduzem" comentou Paul.
"Oh, sim, eu me lembro de ter lido sobre isso" disse Neville. "Zangões disputando para fertilizar a nova abelha-rainha, e morsas e veados lutando entre si, e tudo mais."
"Então pense o que aconteceria se apenas os machos com 80% ou mais de eficiência gerassem descendentes" sugeriu Paul.
"Nesse caso, teríamos uma eficiência média de 50% nas fêmeas e 90%... Não, seria menor que 90% porque a curva é descendente, mas digamos 86% de eficiência média para os machos..."
"Sim, você está indo bem..." comentou Paul. "Vê então que a eficiência média da geração seguinte pularia de 50% para uns 68%, usando uma média simples da eficiência dos pais..."
"Puxa vida!" surpreendeu-se Neville. "E isso em apenas uma geração!"
Paul sorriu de felicidade pelo sucesso do amigo em compreender aquele raciocínio, e em quão fora do normal seu grupo era. Mero meio ano atrás seria inconcebível encontrar algo semelhante em uma criança mágica.
"Ei!" exclamou Neville. "Isso então significa que nós, humanos, não estamos nos beneficiando nem um pouco dessa vantagem competitiva, não é?"
"Não, não estamos" comentou Paul antes de sorrir maliciosamente e completar: "Quer tentar convencer Weasley, Crabbe e Goyle a se deixarem castrar pelo bem da espécie?"
Paul divertiu-se com a expressão mista de espanto e medo de Neville.
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Enquanto isso, Luna foi até Parvati e Lavanda, curiosa pelo semblante sério das duas, que conversavam em murmúrios a um canto da sala.
"Ei, garotas, tudo bem?" disse ela ao se aproximar.
"Oh, sim. É apenas que andamos pensando..." começou a responder Lavanda, mas foi cortada pela recém-chegada.
"Puxa! E doeu muito?"
"Engraçadinha muito hoje?" disse Lavanda, cruzando os braços e tentando mostrar indignação.
"Não, desculpe. Apenas não consegui evitar" respondeu Luna contemporizando. "Mas fiquei curiosa. Por que essa seriedade toda, e por que essa forma de vestir?" disse ela apontando para Lavanda. De fato, as duas estavam vestidas em admirável simplicidade, sem maquiagem ou a profusão de bijuterias que costumavam usar.
Lavanda desinflou a pose, e respondeu com certa tristeza: "Andamos perdendo tanto tempo com toda essa coisa de moda!"
"E é tudo bobagem!" concluiu Parvati, igualmente decepcionada por suas ações anteriores.
Luna jogou-se deitada sobre uma poltrona perto do sofá onde as duas estavam sentadas antes de pedir: "Oh, não façam suspense. Contem-me tudo!"
"Nós andamos aplicando aquele exercício de tentar ver um assunto sob uma nova perspectiva..." começou Lavanda.
"E, imagine só, escolhemos a moda como tema..." acrescentou Parvati.
"E os resultados foram terríveis!" retomou Lavanda, mas aparentemente ficou em dúvida sobre o que acabara de dizer. "Quero dizer, fizemos tudo direitinho, e os resultados foram fantásticos, só que terríveis, entende?"
Luna parecia não ter entendido então Parvati elaborou um pouco mais: "O método deu ótimos resultados, e nos ajudou a entender a moda muito melhor do que antes. Apenas não gostamos muito das conclusões a que chegamos..."
"Por que concluímos que moda, no fundo, é uma tremenda bobagem..." interveio Lavanda. "Para começar, se damos atenção à moda, acabamos desperdiçando um monte de artigos que ainda estão em bom estado..."
"Roupas, joias e acessórios podem durar muito tempo, e serem utilizados muitas e muitas vezes..." explicou Parvati. "Só que se você se deixa influenciar pela moda, vai deixar de usá-los só porque outras pessoas estão dizendo para que você não os use mais!"
"É terrível! É uma manipulação comercial!" disse Lavanda. "Eles criam em nós essa compulsão a estar sempre em dia com a moda para nos fazer comprar mais e mais artigos, coisas de que não precisamos e muitas vezes nem mesmo gostamos, mas que acabamos comprando apenas para não nos sentir de fora."
"E tem todo esse apego ao ego envolvido!" acrescentou Parvati. "Sabe do que estou falando? Esse comportamento de querer se sentir melhor do que os outros só por estar melhor informada ou por possuir o último lançamento. Sinto-me tão mal por ter agido assim!"
"Eu também!" confessou Lavanda. "E o pior é que eu nem percebia o que estava fazendo! Não reconhecia meus motivos pelo que eles eram: tentativas ingênuas de conseguir um lugar entre os demais, de tentar obter alguma notoriedade passageira. Eu estava me preocupando com aparências, ao invés de dar importância à minha essência. Era como estar tentando viver a vida de uma personagem, não a minha própria vida!"
Luna estava estupefata. Ela nunca dera importância à moda, e achara estranho que aquelas duas se importassem tanto com aquilo, mas respeitara a escolha delas e nunca fizera nenhuma crítica. Achava que, com o tempo, elas viriam a reconsiderar o assunto, mas não esperava que essa reconsideração chegasse tão cedo, nem fosse tão radical.
"O pior nós encontramos quando começamos a analisar os artigos que vinham sendo anunciado como tendências para a próxima estação" disse Parvati. "Tentamos analisar os itens em termos racionais, usando critérios de beleza, conforto e praticidade. Alguns itens até tinham algo em termos de beleza, mas mesmo aí vários outros deixavam a desejar. Agora, quanto a conforto e praticidade, por Merlin, que absurdo!"
"Saltos stiletto!" interrompeu Lavanda. "São terríveis! É um perigo tentar andar com algo assim nos pés! Desconfortáveis, machucam você se você os usar por muito tempo, difícil de andar com graça sem imenso treino, e totalmente impossível de se divertir com eles! São totalmente inadequados para correr, pular, dançar..."
"Se a moda fosse algo bom e racional, deveria haver contínuo progresso não só para obter mais beleza, mas também mais conforto e praticidade, só que não há" comentou Parvati. "Muitos dos itens que analisamos, artigos apresentados como o topo da moda pareciam ter uma única intenção: chocar, ou seja, chamar a atenção."
"É tudo tão egocêntrico!" concluiu Lavanda, exibindo toda sua decepção com o assunto.
As três ficaram em silêncio por alguns instantes, contemplando o que havia sido dito. Sem nada para dizer, Luna nada disse, apenas levantou-se e abraçou as duas meninas antes de partir.
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Os primeiros dias sob as novas regras foram bastante tensos. As novas aulas e a carga extra de estudos e deveres de casa que elas trouxeram deixaram as crianças com pouco tempo livre, que elas passavam da forma mais comportada e irrepreensível possível.
É claro que isso não as agradou nem um pouco. Primeiro, as aulas adicionais não eram lá muito interessantes. Segundo, as crianças tiveram que parar seus projetos especiais, e deixar de usar a sala precisa, por segurança. Terceiro, elas estavam sendo vigiadas constantemente, e tinham que manter sua expressão "jogador de pôquer" ligada continuamente, o que era cansativo. Para compensar todo esse estresse, elas estavam passando o máximo de tempo possível nas viagens noturnas, indo dormir às sete da noite, logo depois de jantarem, acordando apenas às sete da manhã para irem direto ao desjejum.
Dumbledore tentou colocar Umbridge no lugar de Chefe de Casa dos primeiro-anistas, com a desculpa de que Dolores tinha mais tempo livre que Sétima, mas a professora de Aritmância não aceitou a troca, argumentando que Umbridge ainda não tinha a experiência necessária, como professora e membro do quadro de funcionários de Hogwarts, para exercer bem a tarefa, e que as crianças já estavam acostumadas com ela e a mudança seria prejudicial para elas. Alvo até tentou insistir, mas o apoio de Filio, Pomona e Minerva, entre outros, selou a questão.
O velho diretor teve que ceder, mas logo achou uma alternativa. Com a desculpa de visitar seu filho, Molly Weasley tornou-se uma presença constante nos aposentos dos alunos do primeiro ano. Se fosse apenas pela espionagem, a situação não teria ficado tão tensa, mas Molly insistia em elogiar seu preguiçoso filho e querer inclui-lo nas atividades do grupo da Fundação, o que deixou tanto Rony quanto as crianças do grupo bastante irritadas.
Com tanto tempo que as crianças do grupo passaram no astral ajudando os novos alunos da Fundação em outros países, as novas escolas logo se tornaram um sucesso, acalmando Bete e Remo, que estavam bastante preocupados com as novas turmas.
No entanto, esse tempo todo escondidos em seus quartos logo foi relatado ao diretor, e madame Pomfrey logo checava cada uma das crianças para descobrir porque estavam dormindo tanto. Aproveitando a oportunidade, todas reclamaram como puderam da proibição de artigos trouxas, da excessiva disciplina, da falta de lazer e tudo o mais que achavam precisar de mudanças. Dumbledore, cansado de ouvir as reclamações da enfermeira, cancelou as checagens médicas, argumentando que era "apenas uma fase de adaptação às mudanças que logo passaria".
Luna e Paul, como previsto, estavam recebendo uma atenção excessiva do diretor e dos novos professores. Nada muito direto; era mais como se esses adultos estivessem à espreita, esperando o momento certo para atacar. Por segurança, eles estavam sempre cercados por outras crianças do grupo e evitavam ao máximo chamar ainda mais atenção sobre si mesmos.
Vendo que as crianças não tomaram nenhuma medida drástica contra as mudanças, e que a situação portanto progredia bem mais lentamente do que ele esperara, Alvo aproveitou a relativa calma e sua recente aliança com o Ministro para tentar ganhar acesso aos registros do Departamento de Mistérios sobre Atlântida, ainda convencido de que Voldemort estava em busca dos lendários segredos dessa civilização desaparecida.
Saul Croacker estava a par das suspeitas e atividades de Dumbledore, e resolveu não interferir muito. Apena um pouquinho, para ganhar tempo, se divertir e não criar suspeitas, já que era praxe ele sempre dificultar o caminho do velho mago.
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Cornélio Fudge não tinha muitos motivos para aceitar uma aliança com Dumbledore. O velho mago não era o tipo de pessoa que um político experiente e ambicioso poderia querer como aliado. Ele estava acostumado demais a estar no topo, e a ser obedecido sem contrariedade, que sua tendência natural seria a de tomar a liderança de qualquer empreitada em que se envolvesse, tratando os demais como subalternos. Essa era uma situação que Fudge jamais aceitaria.
O problema é que o Ministro não tinha nenhum outro aliado de peso a quem procurar. O Menino-Que-Sobrevivera era o ponto chave de toda essa crise, mas o pirralho não só havia recusado todas as suas tentativas de aproximação, como havia publicamente humilhado Fudge no Beco Diagonal. O Wizengamot se encontrava mais dividido do que nunca, e apenas os nomes de Dumbledore e Malfoy tinham alguma importância especial ali, e ainda assim não era tanta quanto no passado. Os inomináveis, que no inicio pareciam estar a seu lado e até o alertaram para a importância do pequeno Potter, estavam envolvidos demais em alguma outra atividade que se recusavam a contar ao Ministro, o que o deixava bastante preocupado. Fudge estava se sentindo abandonado, deixado de lado como uma peça sem importância no meio da maior crise da sociedade mágica britânica em pelo menos uma década, e ele simplesmente não aceitaria tal situação.
Se Dumbledore e Malfoy eram os aliados que ele tinha em mãos, então Fudge faria uso deles como pudesse. Quando Dumbledore o procurou para pedir seu apoio às mudanças que queria efetuar em Hogwarts, Fudge viu sua chance de interferir e se posicionar melhor para tirar proveito dos próximos acontecimentos. Fora fácil convencer Lúcio da importância de participar. Seu maior aliado político estava querendo uma chance de voltar à Ilha com honra, e não como o covarde que se mostrara ao levar a família para longe à primeira ameaça de perigo, e Fudge negociara para que ele tivesse tal chance. Lúcio ainda controlava o Conselho de Diretores de Hogwarts, e seu apoio seria fundamental na implantação das novas medidas na escola. Sua esposa seria uma aliada perfeita dentro do corpo docente da escola, junto com outra pessoa de sua escolha.
Agora que as mudanças estavam implantadas, era o momento de colocar em ação a segunda parte de seu plano. Primeiro, usar o Profeta Diário para passar à frente de Dumbledore como o líder que implementou as mudanças em Hogwarts. Segundo, ganhar a opinião pública para cobrar do Menino-Que-Sobrevivera sua presença na estimada escola mágica, já que ele deixaria claro que as mudanças solicitadas pelo garoto foram atendidas. Terceiro, e aqui ele ainda tinha algumas dúvidas, revelar o papel do garoto como o profetizado exterminador de Voldemort, forçando o público a pressionar o garoto a cumprir seu destino, sob a tutela do zeloso Ministro da Magia.
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Dumbledore voltou do Ministério da Magia com um sorriso nos lábios. Deixe que Cornélio jogue seus pequenos joguinhos políticos à vontade. O Ministro estava se achando esperto por uma pequena vitória, tomar para si a fama de ser o causador das mudanças em Hogwarts. O pobre, como a maioria dos políticos, não tinha uma visão de longo prazo nem de longo alcance sobre os acontecimentos. Ele pulara para agarrar a chance de uma pequena vitória imediata, sem se dar conta de como essa pequena vitória poderia se tornar a causa de sua derrota mais à frente.
Alvo sabia que as mudanças não agradavam às crianças, e que tampouco agradariam de todo ao pequeno Potter. Ele sabia disso porque as planejara assim. Sua intenção não era ganhar o apoio do Menino-Que-Sobrevivera, e sim forçar a Fundação a revelar suas reais intenções e a jogar mais abertamente, contando com um erro ou fraqueza deles para conquista-los ou anulá-los.
Cornélio, tomando para si a fama de perpetrador das mudanças, também assumira a responsabilidade sobre elas. Quando a Fundação contra-atacasse, e Dumbledore estava certo de que era apenas uma questão de tempo para que eles o fizessem, seria o Ministro quem se queimaria, enquanto Alvo poderia, como ele gostava de fazer, sair do episódio cheirando a flores, intocado pelas possíveis repercussões.
Não apenas isso, mas o diretor de Hogwarts ainda obtivera alguns favores como 'pagamento' por sua conivência com a manobra de Fudge. Dumbledore forçara o Ministro a dar seu aval para as pesquisas que o velho mago queria fazer na biblioteca do Departamento de Mistérios, tanto sobre Voldemort quanto sobre Atlântida, e reconhecera que Narcissa e Dolores, como funcionárias de Hogwarts, deveriam reportar ao diretor sobre suas ações e obedecer a suas diretrizes, praticamente anulando os benefícios que Cornélio pensara adquirir ao nomear as duas para seus cargos.
Deixemos então que o pobre Cornélio usufrua seu momento de glória, pensou ele. Em breve sua chama se apagará e a luz a conduzir a nação será outra, aquela nas mãos do líder natural do mundo mágico, Alvo Dumbledore.
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As crianças da Fundação ficaram, no geral, positivamente surpreendidas com as novas aulas. Schaklebolt, Pomfrey, Slughorn e Bagshot se mostraram admiráveis professores, tanto dotados de grande conhecimento como de grande capacidade de transmitir esse conhecimento. Sirius estava cumprindo bem seu papel, embora o assunto não fosse de muito interesse para a maioria das crianças. O mesmo podia ser dito de Elphias Doge e suas aulas de Direito, com o agravante de que o professor era um grande amigo e admirador de Dumbledore e sempre elogiava demais o diretor, ao ponto de irritar as crianças com seus excessos.
A situação com as outras matérias estava um pouco pior. Podmore e a senhora Malfoy conheciam bem suas disciplinas, Costumes e Tradições para o primeiro, Etiqueta e Comportamento para a segunda, mas simplesmente descreviam os tópicos sem explicar suas origens ou, pior, seu valor. Simplesmente pediam que tradições e regras fossem respeitadas, sem dar nenhuma razão válida além de 'por que é assim que fazemos'. Nada pior para um professor do que pedir para que crianças curiosas, inteligentes e independentes aceitem imposições sem um bom motivo. Como as crianças ainda estavam 'jogando pôquer' até aviso em contrário, elas faziam o possível para evitar rir ou causar discórdia, mas cada dia ficava mais difícil.
A pior de todas era madame Umbridge e sua 'Propaganda Eleitoral Gratuita', como as crianças começaram a chamar suas aulas, já que só o que ela fazia era enaltecer o Ministro e pregar obediência e respeito a ele. As aulas dessa mulher eram tão ruins que os dois outros pequenos grupos dissidentes, de Weasley e Malfoy, acabaram se revoltando antes das crianças da Fundação, isso apenas porque elas se apoiavam mutuamente e logo começaram a dar vazão a seus desapontamentos em uma série de artigos em O Pensador Crítico.
Por fim, as aulas de Molly Weasley e Dédalo Diggle eram apenas uma perda de tempo. As crianças do grupo já eram capazes de fazer, sem varinha, o que aqueles dois tinham para ensinar e, apesar dos dois serem grandes defensores do diretor e excessivamente severos com a disciplina dos alunos e o zelo por decoro e propriedade, não chegavam a incomodar muito.
Enquanto isso, as crianças iam levando tudo em ritmo de espera, fazendo apostas sobre quem tomaria a iniciativa primeiro e faria algo estúpido para tentar forçar uma reação delas. Umbridge, Sirius e Dumbledore eram de longe os mais cotados, com a senhora Weasley bem mais distante na quarta posição. A professora Umbridge não era nada paciente ou sutil, daí sua expressiva votação, mas como Sirius também não era lá muito paciente e Alvo vinha incomodando muito o Maroto com sua persistência em obter informação sobre a Fundação e o pequeno Potter, e ficando cada vez mais irritado com a negativa de Sirius em colaborar, as crianças ficavam preocupadas com quanto tempo levaria até terem que apartar uma briga séria entre os dois.
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Estava levando muito tempo, mas Dumbledore estava aos poucos se convencendo de que o Departamento de Mistérios não tinha nenhuma informação adicional sobre a lendária Atlântida. Mas mesmo esse resultado negativo não convenceu o velho diretor de que a estória toda não passava de lenda, nem que Voldemort poderia ter desistido devido igual falta de resultados. O mago da longa barba branca era bastante paciente, e não passou por sua cabeça o quão mais imediatista era seu oponente.
Voldemort já estava propenso a desistir logo depois dos primeiros fracassos em conseguir mais notícias sobre o mítico reino. Quando descobriu que Dumbledore estava tão próximo em sua perseguição, o Senhor das Trevas abandonou a região imediatamente e saiu em busca de outros objetivos.
A primeira ação de Voldemort foi cuidar de sua aparência. Não que as melhoras obtidas fossem significativas, mas era essencial que ele não aparentasse fraqueza, ou seria difícil conseguir e manter sequazes sob controle. Uma parada na antiga Pérsia e outra na China garantiram que a maior parte de suas queimaduras sumisse, e que sua aparência ficasse próxima da usual.
O passo seguinte era o de encontrar uma arma que lhe desse tanto poder quanto o de seus inimigos. A explosão de que escapara por pouco com vida o assustara e o convencera de que seus inimigos haviam encontrado uma poderosa arma para auxiliá-los. Ele precisaria de uma arma igual ou superior para vencê-los, e a questão agora era descobrir qual seria essa arma e onde estaria.
Voldemort não precisou de muito tempo para confirmar o que já sabia. Esse assunto o interessara no passado, e ele fizera extensas pesquisas antes de iniciar seu primeiro reinado de terror. A história falava de cinco focos excepcionais de magia, dois dos quais haviam sido destruídos há tempos: o Macuahuitl do imperador asteca Montezuma e a espada de jade do imperador chinês Huangdi.
De dois outros não se ouvira falar por muitos séculos, e Voldemort achava que eram tão míticos, e inexistentes, quanto a própria Atlântida: o cetro do faraó egípcio Quéops II e o cajado de Merlin.
Mas do último deles, a varinha do destino, havia muitos relatos, e sua história podia ser traçada até um período recente. Era essa a arma que Voldemort queria e tentaria obter para exercer sua supremacia sobre todo o mundo mágico.
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O Pensador Crítico logo iniciou a tarefa de informar ao povo mágico os detalhes sobre as mudanças de Hogwarts. O primeiro tópico tratado foi a extinção da disciplina de estudos trouxas, argumentando o quão pouco o mundo mágico compreendia dessa população tão maior, o quanto erravam quando queriam passar desapercebidos por um deles, e o quão rápido eles vinham mudando e progredindo, conseguindo, através de ciência e tecnologia, realizar feitos que a maioria dos magos teria dificuldade em realizar com magia.
Mas isso foi apenas o começo. À medida que as aulas foram progredindo, quatro disciplinas receberam atenção especial. Por um lado, Tradições e Etiqueta tiveram revelados na publicação os fatos que omitiram em classe: as origens triviais, e geralmente espúrias, se não totalmente irracionais e elitistas, daquilo que a sociedade mágica mais valorizava em suas tradições e comportamento. Por outro lado, e muito mais importante, as críticas às disciplinas de Política e Direito mágicos começaram a revelar quantos privilégios e direitos extras eram reservados aos puros de sangue, e as muitas e inexplicáveis diferenças entre a forma como eles e os magos e bruxas menos favorecidos eram tratados. Para reforçar esses pontos, constantes comparações eram efetuadas com as sociedades mágicas de outros países, onde as diferenças eram sensivelmente menores e a população era tratada com mais igualdade e justiça. Não demorou para que a sociedade mágica britânica percebesse o quanto vinha sendo explorada pela elite que se instalara no poder, e iniciasse a protestar contra a situação.
Dolores perdeu a compostura logo ao primeiro ataque à sua (falta de) didática e extrema propaganda pró-governo. Ela queria descontar em alguém, e Paul Zurkhof, um nascido trouxa assinalado pelo próprio diretor como um dos líderes do movimento subversivo na escola, foi agraciado com a primeira detenção, por 'desrespeito ao governo mágico e à insigne pessoa do Ministro'. Não que o garoto tivesse aberto a boca uma única vez em toda a aula. Apenas que Umbridge queria uma vítima, e ele fora o escolhido.
O que a professora não contara era encontrar, ao entrar na sala de aula após o jantar para aplicar a 'justa punição' ao seu aluno mal comportado, não apenas o garoto, mas quase a totalidade do primeiro ano, sentada ao redor do menino, pacientemente esperando por ela.
"O que significa isso? Porque estão todos aqui?" perguntou ela aos alunos, já irritada com a situação.
"A senhora disse ser seu dever punir a todos que desrespeitassem o governo. Como eu penso que a maior parte dos membros do governo só pensa em si mesmo e nunca no bem coletivo, estou aqui" respondeu uma menina ruivinha na primeira fila.
"De minha parte, eu acho que a maioria dos membros do governo só ocupa seus cargos por herança ou troca de favores com outros poderosos, e que um teste de capacitação mínima colocaria a maior parte deles na rua" disse outra menina, um pouco à esquerda.
E assim prosseguiu por vários minutos, cada um fazendo uma crítica mais mordaz contra o governo, justificando sua presença na sala. Ah, Umbridge bem gostaria de punir com severidade todos aqueles pirralhos atrevidos, mas ela não teria sobrevivido no governo por tanto tempo se não fosse capaz de perceber uma armadilha como aquela. A primeira a responder havia sido a sobrinha de madame Bones, chefe do DELM! Era claro que eles haviam virado a situação contra ela, e ela deveria ser cautelosa para não dar motivos a quaisquer represálias.
Que pena! Não seria possível fazer aquele pirralho sofrer, seria perigoso demais. Dolores deixou que a série de ofensas continuasse enquanto decidia o que fazer. Não havia opção, ela teria que ser branda; muito mais branda do que desejava ser.
"BASTA!" gritou ela ao se decidir. "Vocês todos escreverão linhas! Muitas linhas!"
No quadro negro, após um gesto de sua varinha, apareceu a frase: 'Serei reprovada(o) se não compreender os benefícios que o governo traz à sociedade mágica'.
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Paul estava começando a ficar preocupado. O cerco sobre ele estava começando a se fechar, e ele não estava gostando nem um pouco da situação. Ele não estava com medo, já que tinha muitas vantagens a seu favor. Seu conhecimento e capacidade em magia eram muito avançados, e totalmente desconhecidos do diretor e seus aliados. As demais crianças também haviam progredido muito, e eram poderosos aliados em caso de uma emergência. Seu constante contato mental com Liz era do conhecimento de Dumbledore, mas Paul tinha certeza de que o velho mago não estava levando esse ponto em consideração, ou não via tudo o que ele significava: que todos os adultos da Fundação estavam a par de tudo o que acontecia com ele.
Ainda assim, a situação não era nada agradável. Paul sempre fora um garoto de ação, embora seu contato frequente com Liz e Luna tivesse ensinado a ele as vantagens de ser paciente e de pensar antes de agir. Mas ainda assim era difícil suportar ver a pressão aumentando sem nada fazer.
A detenção com Umbridge havia sido o auge, mas não o início de seus problemas. Revendo agora a situação toda, ela começara com Molly Weasley tentando fazer de seu filho Rony o melhor amigo de Paul, sequer levando em consideração que o ruivinho tinha uma verdadeira aversão por Zurkhof e seus estudiosos amigos, que perdiam tempo com livros ao invés de aproveitarem os prazeres da vida. Entre Molly e Dumbledore ele estava tendo que responder questões sobre sua família duas ou três vezes ao dia, e era claro que nenhum deles acreditava quando Paul dizia que sua mãe e irmã estavam visitando algum país estrangeiro e não voltariam tão cedo. Em uma dessas ocasiões Paul chegou a sentir seu medalhão anti-legilimência esquentar, mas Liz garantiu que o velho não conseguira entrar em seus pensamentos e que ela reagiria com determinação se ele insistisse.
Dolores e Narcissa usavam uma tática diferente. Elas tratavam todos os nascidos trouxas com um desdém fenomenal, tentando incitá-los a se revoltarem de alguma forma. Até agora eles tinham tido sucesso em evitar uma confrontação, mas era comum que um ou mais deles precisasse de algum suporte dos outros ao término de cada aula com uma dessas mulheres, tamanho o estresse de engolir toda aquela balela racista e elitista sem argumentar contra.
Sirius e Sétima estavam sendo fantásticos em blindar as crianças o quanto podiam das ações invasivas dos demais. Os gêmeos Weasley também vinham fazendo um excelente trabalho de apoio, interferindo com as aproximações de Molly, irritando Rony ao ponto deste querer distância das crianças do grupo e fazendo com que Percy passasse mais tempo na enfermaria ou no chuveiro do que tentando espionar o grupo. O prefeito Weasley estava sendo alvo de tantas troças que poucos arriscavam ficar próximo a ele, com medo de serem envolvidos nas estranhas situações que ele enfrentava diariamente.
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O Ministro da Magia começava a perceber a posição delicada em que se colocara. Os artigos em O Pensador Crítico estavam criticando e ridicularizando as mudanças efetuadas em Hogwarts, e muitos dos artigos vinham assinados por Harry Potter, declarando que, apesar de algumas mudanças para melhor, ele tinha dificuldades em considerar o conjunto de mudanças como progresso, e que não via motivos para sujeitar-se a um ambiente tão hostil ao comportamento infantil quanto o implementado em Hogwarts.
Se aquelas poucas críticas já haviam sido suficientes para anular o pequeno aumento de popularidade que o Ministro havia conseguido ao anunciar as reformas, as críticas detalhadas e corrosivas que O Pensador Crítico vinha fazendo às leis e à política do mundo mágico estavam sendo arrasadoras. Aproveitando a chance que as disciplinas de Politica e Direito mágicos abrira, aquela publicação vinha delatando cada pequena vantagem concedida aos puros de sangue como uma afronta e uma injustiça contra o resto da comunidade mágica, e o descontentamento da população era bem visível. A popularidade de Cornélio Fudge estava caindo constantemente, e já era a mais baixa que um Ministro da Magia enfrentara neste século. E, para piorar tudo e colocar um toque de humilhação pessoal na situação, o episódio de sua caçada infrutífera ao Menino-Que-Sobrevivera pelo Beco Diagonal era citado quase toda vez que seu nome era mencionado.
Seu apoio entre os membros do Wizengamot também declinava dia a dia. Aquele órgão legislativo tinha agido com cautela e lentidão por anos a fio para assegurar seus privilégios, que agora estavam sob ameaça devido à aberta e detalhada discussão promovida pela publicação, que vinha expondo à população todos os detalhes das manobras utilizadas e as reais consequências e beneficiários das leis aprovadas.
Fudge estava ficando aterrorizado com a situação, e convocou os quatro novos professores mais perseguidos por O Pensador Crítico para uma reunião em seu gabinete naquele final de semana. Algo teria que ser feito, ou em breve ele correria o risco de não mais ouvir o aplauso de seus seguidores e correligionários, abafados que seriam pelas vaias da cada vez mais insatisfeita população. Ovos e tomates podres não combinavam com seu novo e impecável terno italiano.
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Enquanto isso, a Fundação estava lidando com um problema muito diferente, um problema de origem não mágica.
Eles haviam se apaixonado pelo local onde construíram a Fundação, e haviam cuidado muito bem do local desde que decidiram utilizá-lo como sede. Reformaram e remodelaram as velhas instalações, preservando ao máximo suas características originais, ao mesmo tempo em que expandiram as construções respeitando e preservando as características da região e suas riquezas naturais. Mas agora todo aquele trabalho estava sendo ameaçado pela possibilidade de um grande depósito de dejetos industriais ser construído ali perto. Eles precisavam encontrar alguma forma de evitar que aquilo acontecesse, e rápido.
No entanto, para provar que uma situação difícil sempre pode ficar pior, mal eles iniciaram uma reunião para discutir o problema quando alarmes começaram a soar por todo o prédio. Xeno partiu alucinado para a 'sala dos mapas', como eles se acostumaram a chamar o centro de controle dos sensores que espalharam por toda Ilha e vinham espalhando por vários outros locais do planeta, voltando pouco depois com a confirmação:
"É ele! Voldemort está de volta à Inglaterra!"
