Retorno

Quando li em voz alta a localização da montanha, Artemis já sabia o que fazer. A bela ave levantou voo e tocou delicadamente os meus ombros, como fizera da outra vez. Em alguns instantes, eu estava no local indicado, com Sirius à minha frente. Um sorriso iluminava o seu semblante cansado e envelhecido, e a mim, ele parecia tão lindo quanto antes. Sirius já não usava as vestes de Azkaban, mas aquelas que eu guardara, imaculadamente, durante doze anos.

— Dei uma passada em casa antes de vir pra cá — ele disse, lendo a minha mente — ao menos para tomar um banho e pegar uma roupa. Fiz o trajeto como cachorro, você sabe.

Mas eu não queria nenhuma explicação, nada. Absolutamente nada. Eu queria tê-lo em meus braços novamente, poder beijá-lo, e ter certeza de que eu não estivera apenas sonhando. No entanto, eu estava imerso em um transe completo, observando, após tanto tempo, o rosto que mais amava. Apenas despertei quando ele se ergueu e andou em minha direção, os braços estendidos. Eu o abracei, e o seu abraço era exatamente igual. Sirius ainda tinha o mesmo cheiro inebriante, a mistura perfeita dos aromas mais divinos. Ao beijar-me, percebi que o gosto de seus lábios também não havia mudado, nem as sensações que aquele gesto me causava. Senti novamente a mistura paradoxal entre o frio de minha pele arrepiada com o calor que dela emanava. Era como se Sirius nunca houvesse partido.

— Deixe-me olhar para você — ele disse tomando o meu rosto em suas mãos e observando-o minuciosamente — continua o mesmo, não é? A mesma cara de criança, não pense que este cavanhaque pode disfarçar. E ficou lindo de cabelos curtos, parece quando eu o conheci.

Eu sorri. Era tão magnífico ter Sirius por perto, uma vez que eu quase o perdera!

— Senti tanta falta desses olhos cor de âmbar. — suas mãos ainda seguravam o meu rosto, e eu sentia a respiração ficar fraca — Esses olhos tão doces e peculiares.

Beijou-me novamente, e eu senti que poderia ficar para sempre naquela entrega. Mas necessitávamos ser práticos, afinal, eu precisava entender toda aquela história confusa e distorcida. Sentamo-nos sob uma grande figueira, eu entre as pernas de Sirius, que me abraçava pelo peito, e nos preparamos para voltar ao desagradável passado.

— Eu quero saber tudo, Sirius — eu disse decidido — desde o momento em que você saiu de casa às pressas.

— Ah, aquele maldito dia! — a dor se acentuava em sua voz, e eu não insistiria que ele contasse, se não precisasse tanto entender — Mas preciso começar de um pouco antes, Remmy.

— Claro — concordei — como achar melhor.

— Bom, até onde você e a toda a população bruxa sabiam, eu era o fiel do segredo de James e Lily, que guardava a exatidão do lugar onde eles estavam escondidos. O fato é que, pouco antes de executarmos o feitiço Fidelius, eu achei melhor colocarmos Peter como fiel do segredo, simplesmente porque ninguém desconfiaria de um garoto tão fraco e insignificante. E foi esse o meu erro, o meu engano que me tornou, em partes, responsável pela morte de meus melhores amigos.

O semblante de Sirius se enevoou ainda mais, e eu beijei as suas mãos, encorajando-o a prosseguir.

— Embora já houvesse suspeitado dele uma vez, eu não imaginava que Peter realmente fosse capaz, Remmy, não mesmo. James fez-me prometer que não contaria a ninguém sobre a troca, nem mesmo a você. Ele sabia que havia alguém passando informações para o outro lado, e desconfiava de todos, exceto de mim e do idiota do Peter. Quem poderia imaginar? Eu até fiquei preocupado com ele, tanto que naquela noite, eu havia saído de casa rapidamente, enquanto você dormia, para dar uma olhada na casa de Peter, averiguar se estava tudo bem. Foi tão breve, que usei a sua varinha para aparatar, porque nem mesmo tive paciência de procurar a minha própria. Lembra que eu procurava por minha varinha feito um louco? — assenti, e Sirius continuou — Pois então, eu não sabia se precisaria lutar, e nesse caso, só a minha varinha me serviria bem. O fato é que ao chegar à casa de Peter, não o encontrei por lá, e imaginei que algo tivesse acontecido. A minha primeira preocupação, evidentemente, foi James e sua família, e então, voltei para casa, peguei a minha varinha, como já disse, e saí apressado em minha moto, deixando-te sem informações, para não colocar-te em perigo.

Tentei abrir a boca para objetar, mas fechei-a novamente, vendo que, àquela altura, nenhum argumento funcionaria mais.

— O que encontrei foi terrível — ele prosseguiu, e seus olhos lembravam um túmulo — James e Lily jogados ao chão, e o pequeno Harry chorando no berço, com uma cicatriz muito viva na testa, a cicatriz que ele tem até hoje. Convoquei Dumbledore, que mandou Hagrid imediatamente, e entreguei a ele o menino, com alguma relutância. Não insisti pela guarda de Harry, porque eu sabia que a partir dos próximos segundos, a minha vida seria imprevisível. Feito isso, eu corri no encalço de Peter, segui o caminho que ele provavelmente teria feito, e o encontrei. Então, o desgraçado lançou feitiços terríveis, matando tantos trouxas quanto alcançasse, e gritando: "Como você pôde, Sirius? Lily e James!", para me incriminar. Em meio a toda aquela confusão, eu o encurralei e indaguei o porquê de sua traição, ao que ele me disse que fizera tudo aquilo porque James não soube nunca enxergá-lo. Lembro-me ainda de sua frase: "Se quiserem continuar esse amor, que seja no inferno." Nessa hora, eu tentei acertá-lo com um soco, e o infeliz cortou o dedinho e se transformou em rato, para que pudesse ficar evidente que eu o reduzira a um dedo mínimo. E então eu fui sentenciado. É claro que com uma investigação decente, eu não teria passado tanto tempo em Azkaban, mas sabe como era o Ministro... Louco pra prender alguém e mostrar sua falsa eficiência. Enfim, não é nada fácil a vida em Azkaban. O que me salvava, era poder me transformar em cachorro de vez em quando, evitando que os dementadores sugassem demais a minha alma. Eles têm muito mais dificuldade com os sentimentos animais. Mas é claro que, acima de tudo, o que manteve a minha mente sã enquanto estive lá, foi o pensamento em você. Eu evitava pensar em nossos melhores momentos, uma vez que dementadores se alimentam de nossos sentimentos felizes, mas lembrava sempre de seus olhos, unicamente. E essa lembrança me salvou a sanidade no tempo em que estive em Azkaban. E por fim, um dia, ao me transformar em cachorro, percebi que estava suficientemente magro para passar pelas grades. Enganei aqueles abutres imbecis e escapei, estimulado por uma reportagem que vi em certo jornal, onde continha uma foto dos Weasley e o rato de estimação do garoto. Reconheci-o imediatamente, e aquilo instigou o meu desejo de me ver livre, para me vingar. Eu fiquei doze anos encarcerado, Remmy, por um crime que não cometi. E novamente estou na mira dos dementadores, mas dessa vez, estou livre. E nada paga a liberdade, meu amor, nada. Eu sei que um dia toda a verdade virá à tona, e nós poderemos refazer as nossas vidas.

— Com certeza — eu disse emocionado, obrigando a minha voz a sair — talvez até antes... Você não pode ficar em casa, Sirius? Escondido...

— Seria muito arriscado para nós dois. Eu viverei errante por algum tempo, mas a Ordem dará um jeito de me colocar em segurança, sem que eu tenha de continuar fugindo.

— Isso não é justo — as palavras saíam amargas como fel, cheias de ódio e indignação — você é inocente, Sirius!

— Mas não tenho como provar isso. Por enquanto, basta-me que você acredite. Durante todo esse tempo, a minha maior preocupação foi ter o seu ódio, a sua decepção.

— Eu sempre me achei um louco por acreditar em você, mas nunca consegui duvidar completamente, mesmo com todas as evidências.

— Não sabe como fico feliz ao ouvir isso...

— Mas, Sirius — eu disse inconformado — Peter, como pode? Ele amava James, não amava?

— Ao que ele disse, foi esse o motivo.

— Mas quando amamos, o ódio não tem lugar, sejam quais forem as circunstâncias.

— O "amor" de Peter era realmente obsessivo. Ele não pôde suportar a ideia de perder James para Lily.

Sirius riu baixo, com desdém. Eu cariciava as suas mãos, tentando compreender como poderia condenar à morte a pessoa que amava. Por mil vezes, eu morreria no lugar de Sirius.

— Você não tirou a aliança — ele disse erguendo a minha mão esquerda e observando-a com satisfação — durante todos esses anos.

— É óbvio que não — respondi imediatamente — e vejo que você também não tirou a sua.

— Eu jamais me desfaria de uma lembrança sua, mesmo tendo de carregá-la na boca, quando transformado.

Eu teria, de bom grado, ficado naquela montanha com Sirius, vivendo como um nômade, pelo tempo que precisasse, mas ele insistiu que eu voltasse para casa e tratasse de cuidar de mim, que em breve estaríamos juntos novamente, e não haveria o que pudesse nos separar.

Com efeito, dentro de alguns meses Sirius voltou à mansão Black, àquela altura habitada somente por pelo elfo doméstico Kreacher e o retrato de sua mãe. Sirius deu a casa como nova sede da Ordem da Fênix, grande o bastante para abrigar todos os membros, antigos e novos. No tempo em que eu me desligara da Ordem, Nymphadora Tonks, prima de Sirius em segundo grau, foi incorporada ao grupo. No ano em questão, Harry Potter, Hermione Granger e todos os Weasley também passaram a ser parte integrante da Ordem, embora fossem muito jovens. O próprio Snape trabalhava conosco, e eu tentava ao máximo acreditar em Dumbledore e não desconfiar que ele seria um novo Peter.

Nesse tempo, senti novamente a minha vida em plena realização. Eu tinha Sirius a meu lado todos os dias, e evitava ao máximo deixar o Largo Grimmauld, uma vez que o Ministério ainda o buscava, e ele tinha de ficar escondido. Eu passeava com ele pela mansão, a olhar os quadros e retratos que ele tanto amaldiçoava, em especial, o de sua falecida mãe. Um dia entramos no quarto onde havia a enorme tapeçaria com a árvore genealógica da família Black. Sirius, com desdém, chamou-me para vê-la.

— Olha que corja! — ele disse, fazendo um gesto teatral de demonstração — Poucos aí se salvam, Remmy.

— Onde está o seu nome? — indaguei, sem ter certeza de que deveria tê-lo feito.

— Bem aqui — ele disse apontando para uma queimadura redonda na tapeçaria, ao lado do nome de Regulus Black — carbonizado, é claro. Dizem que mamãe chorou ao queimar o meu nome, quando saí de casa para morar com você, mas não sei se acredito nisso.

As ramagens da árvore genealógica dos Black uniam os nomes dos bruxos puros-sangues mais importantes. Aquelas ligações pareciam enojar Sirius.

— Andrômeda e o meu tio Alfardo são os únicos dessa árvore que se salvam. E Regulus, é claro, que não era ruim como todos os outros, mas apenas um idiota. Uma marionete manipulada pela mui distinta Sra. Walburga Black. Queria ver a cara dela quando o filho favorito morreu, tendo sido ela mesma a culpada. Regulus não era assim, Remmy. É claro que nunca foi muito afetuoso, mas era um menino sensível, suscetível, que teve de carregar todo o peso de garantir o futuro da tradicional família Black em suas costas. E, no entanto, o que sobrou dos Black, fora as minhas malditas priminhas casadas? Eu, a escória da família. Não é irônico? E eu acho isso ótimo para a memória de minha mãe. Tomara que esteja vendo isso do inferno!

Eu não sabia o que dizer, então simplesmente baixei a cabeça.

— Desculpe-me, Remmy — Sirius disse tomando novo fôlego — acho que me excedi. É que você teve uma família tão maravilhosa, que não pode imaginar o que é esse meu rancor.

— Todos estão mortos — eu suspirei, desabafando o que me atormentava permanentemente.

— Todos. — concordou Sirius — Eu não sinto falta da família, mas em compensação, a saudade de James e Lily me corrói o tempo inteiro. Sobramos nós dois, Remus, e eu fico feliz que a parte que ficou, foi a única sem a qual eu definitivamente não poderia viver.

— Promete que não vai me deixar?

— Nunca mais.

O que vivemos naquele ano, foi o suficiente para que pudesse ser eterno, embora eu desejasse a eternidade em si. Sirius e eu voltamos a ser os dois garotos de Hogwarts, deslumbrados com cada descoberta. Entretanto, nos preocupava a ascensão de Voldemort no ano anterior, e os riscos a que toda a população bruxa estava exposta, em especial Harry. Mas havia em nós uma paz indestrutível, que poderia nos livrar de qualquer inferno.

Obs: Acho que as explicações ficaram um tanto confusas. Como eu disse, essa parte ainda me é intrigante. Fiz o melhor que pude, e acho que dá pra entender alguma coisa, haha.