Olá. Espero que tudo esteja bem com vocês.
Todos com quem converso me repetem a mesma coisa "foi uma semana difícil", "estão sendo momentos difíceis", "não sei o que fazer para me sentir melhor." Acho que uma espécie de onda atingiu a todas nós e estamos tentando sair dela o quanto podemos.
Tudo o que pude sentir nesses dias todos, ouvindo essas histórias de vida que vocês têm me contado, é que realmente estou dentro do grupo certo, um grupo de lutadores, de pessoas de todos os lugares, idades, crenças e níveis sociais que sequer consideram lugar, idade, crença e nível social quando pensam no que as aborrecem, no que as afasta da felicidade. Não, não, nenhuma delas considera tal fato sequer parte do problema que têm e por isso mesmo são muito especiais, e por isso mesmo creio de coração que vão encontrar as soluções para todos os seus problemas e conseqüentemente, como sempre fazem, ajudarem-me a encontrar as minhas.
Obrigada a todas vocês:
GRANDES ESCRITORAS:
Lady-Liebe.- Misao-dono - Myriara/Rodriguinho - Nimrodel Lorellin – Vicky Weasley - Elfa Ju Bloom - Dark Lali - Kika-Sama - Chell1 - Erualmarë Elessar (Perséphone Pendragon) – Kiannah – Soi – Nanda's Menelin – Regina – Kwannon – Lady Eowyn – Giby, a hobbit – Ann-Krol - Lordwitchking – Veleth - Gio
GRANDES AMIGAS:
Syn, the time keeper/Liah Liimatainem - Botori - Leka - Lali-chan - Phoenix Eldar - Naru-sami – Pitybe – Lele –.Pinkna – Karina –Denise/Tenira – Galadriel/Isadora – Estelzinha Tuk – Lene – Alice – Flavinha – Bárbara – Julia
Esse capítulo é dedicado a três escritoras especiais que estiveram, assim como eu, travando uma luta árdua contra o poder que o mundo externo exerce sobre o desejo de criar: A corajosa Lady Éowyn, a fascinante Kiannah e a surpreendente Nimrodel. A luta de vocês, talento em forma de pessoas, sempre foi e sempre me será inspiração.
Desencontrários
Mandei a
palavra
rimar,
ela
não
me obedeceu.
Falou
em
mar,
em
céu,
em
rosa,
em
grego,
em
silêncio,
em
prosa.
Parecia
fora de
si,
a
sílaba
silenciosa.
Mandei a
frase
sonhar,
e
ela se foi num
labirinto.
Fazer
poesia,
eu sinto,
apenas
isso.
Dar
ordens a
um
exército,
para
conquistar
um
império
extinto
Paulo Leminski
26 – LÍDERES (PRIMEIRA PARTE)
& Desafios &
"Entre." Uma voz firme autorizou e Legolas empurrou a porta devagar, colocando apenas meio corpo para dentro, esperando, de certa forma, que a autorização se confirmasse.
Um elfo elegantemente trajado, sentado diante de uma bela mesa de madeira entalhada e de costas para ele, o olhou por sobre o ombro. A primeira reação deste, indisfarçável, incontestável, foi a de visível surpresa e, se o príncipe já não se considerasse, por si mesmo, uma pessoa não muito bem vinda, ele teria descoberto o fato naquele exato momento em que o olhar frio do nobre Erebian encontrou o seu.
Porém, diplomata que era e um dos melhores que serviam ao rei, o lorde elfo logo se recompôs, erguendo-se e forçando na face um sorriso muito pouco convincente.
"Alteza." Ele disse caminhando em direção ao príncipe. "Entre, por favor."
Legolas empalideceu. Esperava uma recepção diferente do pai de Alagos. Desde que o rapaz falecera, ele não tivera oportunidade de conversar com o amigo e conselheiro do rei. Hesitantemente, o arqueiro se deixou levar pelo abraço do lorde elfo e sentou-se onde lhe fora aconselhado. Erebian virou sua grande cadeira almofada e retomou o lugar, olhando agora nos olhos do inesperado visitante.
"Em que posso lhe ser útil, sua alteza?" Indagou cruzando as pernas e apoiando as mãos pacientemente por sobre o colo.
Legolas baixou os olhos por alguns instantes, tomou fôlego e depois voltou a fixá-los no conselheiro à sua frente.
"O nobre Erebian sabe da pena que me foi ditada pelo Rei Thranduil." Ele disse com humildade e Erebian ofereceu um sorriso enigmático.
"Bem o sei, meu bom príncipe. Conversei com ele a respeito, mas confesso-lhe que não fui muito feliz. Na verdade, nesses anos todos em que sirvo a seu pai sempre me questionei sobre o porquê dele insistir em me ter como conselheiro, sendo que pouco, ou quase nada, ouve do que digo ou aconselho-o a fazer".
Legolas sorriu com complacência.
"Nosso rei tem sua forma de trabalhar."
"De fato." Erebian arqueou as sobrancelhas e seu sorriso quase desapareceu. "E, por sempre ser feliz em suas investidas, sejam elas aprovadas ou não por mim, não reservo mágoa do pouco caso com que trata os conselhos que lhe dou."
"Nosso rei preza sua opinião, mestre Erebian." Legolas ofereceu com rapidez.
"Sim." Erebian apressou-se também em concordar. "Sua alteza, eu bem sei, o conhece melhor do que ninguém, por esse motivo essa opinião que me oferece sobre a questão muito me agrada." Ele sorriu então, mergulhando em um silêncio profundo, como se julgasse o assunto encerrado.
Legolas sorriu e balançou levemente a cabeça, parecendo disposto a imergir junto com o mestre elfo, naquele desagradável vácuo que se instaurava.
Erebian respirou fundo, deslizou displicentemente os olhos pela sala que tão bem conhecia, aguardou alguns instantes, encarou a face baixa do rapaz que agora olhava atentamente para os dedos entrelaçados como se ali se escondesse algum misterioso segredo e por fim pigarreou.
"Engano-me então em pensar qu,e o motivo que o trouxe aqui, seria uma possível intenção de pedir-me que intercedesse em seu favor em relação à punição que seu pai, o rei, impôs a sua alteza?"
Legolas imediatamente ergueu o rosto e sacudiu a cabeça.
"Não, nobre Erebian." Ele disse com convicção. "Não questiono e jamais questionarei as decisões de nosso rei. Mas em parte o senhor tem razão na suposição que sua mente sábia lhe ofereceu".
Erebian voltou a arquear as sobrancelhas, esperando então pela resposta daquele enigma que trazia o filho do elfo a quem ele era obrigado a servir, mesmo depois de tudo o que ocorrera, até a sala de estudos de sua casa. Legolas voltou a encher os pulmões, sabendo que aquele silêncio não seria rompido ao menos que ele decidisse fazê-lo. Ele conhecia Erebian e sua milenar paciência, qualidade que o fizera um dos homens de confiança do rei.
"Preciso de fato de seus conselhos, na verdade preciso de seus ensinamentos."
"Ensinamentos, jovem príncipe?"
"Sim, meu senhor."
"E o que alguém como eu lhe pode oferecer, sua alteza?"
Legolas apertou os lábios fechados e os dedos que ainda estavam entrelaçados.
"O senhor sabe que parte de minhas atribuições, durante o tempo em que não posso sair de Mirkwood, é dedicar-me aos treinamentos o máximo de tempo possível".
"Um castigo de pouca valia, penso eu." Erebian ofereceu um sorriso de uma arrogância contundente. "Haja vista que não há arqueiro melhor em toda Mirkwood, eu diria, em toda a Terra-Média."
O rosto do príncipe enrubesceu ligeiramente e voltou a balançar a cabeça.
"Muito me lisonjeia sua opinião, mestre Erebian, por mais discutível que seja a suposta verdade que ela comporta. Mas de fato, o treinamento com o arco não requer de mim todo o tempo que o rei destinou para esse trabalho."
"Para essa pena, para esse castigo." Erebian não se conteve e Legolas voltou a baixar a cabeça. "Peço que me perdoe por despertá-lo de sua ilusão, meu nobre e bom príncipe. Mas seu pai não esperava proporcionar-lhe diversão ou distração quando o proibiu de sair de nossas terras e o incumbiu desse 'trabalho'".
Legolas assentiu em silêncio, piscando algumas vezes os claros olhos como se revivesse o desagradável momento em que tivera, mais uma vez, de enfrentar a ira do rei.
"Na verdade." Continuou o conselheiro. "Levando-se friamente em consideração sua atitude de rebeldia e desobediência, nada restava ao rei senão puni-lo, alteza, fosse o senhor quem fosse."
"Não espero tratamento especial, lorde Erebian." Legolas assumiu em voz baixa.
"Ah, mas o teve, sua alteza." Erebian ergueu um pouco sua voz, chamando a atenção do príncipe. "Porque, com certeza, se outro estivesse em suas vestes e atos o rei não teria sido tão condescendente."
Legolas ergueu os grandes olhos e pressionou o maxilar fechado, convertendo os lábios em uma fina linha de contida indignação e silêncio.
"Pense bem, nobre príncipe. O rei ditou suas ordens de forma clara, sem brechas ou dúvidas. Ele chamou de volta a patrulha, proibiu-os de afastarem-se dentro da zona que fora tomada e o senhor simplesmente ignorou tais instruções e, diante dos olhos de todos, inclusive os dele mesmo, deu as costas e partiu só."
"Thavanian estava perdido." Defendeu-se finalmente Legolas..
"Thavanian é seu guarda-costas e não o contrário, alteza."
"Thavanian é meu amigo."
"A nobreza não tem amigos, Príncipe. A nobreza tem deveres."
"Todos têm amigos e deveres, meu senhor. Desculpe-me por discordar."
Erebian riu-se então, pendendo a cabeça pacientemente para o lado e oferecendo ao príncipe um olhar de uma gentileza forçada, como se estivesse diante de um elfinho, cuja experiência de vida era quase nula.
"Pode discordar o quanto quiser de mim, meu príncipe, pois sua posição assim lhe permite. Mas não preciso lembrá-lo, pelo menos não mais depois de tudo o que se deu, que, diante de seu rei e seu pai, deve ser obediente, porque se não o for será punido com rigor."
Legolas voltou a pressionar os dentes na boca cerrada, sentindo as palavras lhe fugirem por completo. Alagos sempre dizia o quão cruel seu pai costumava ser quando desejava passar-lhe uma lição. Seria essa uma característica peculiar do povo Sindar? Ele começava a julgar que sim ao ouvir mais uma vez ecoarem em sua cabeça as palavras contundentes do rei, totalmente indignado com a atitude que o filho tomara. Legolas fechou os olhos e engoliu seus conflitos, despertando, porém ao sentir uma mão pousar em um de seus joelhos. Quando reergueu as pálpebras Erebian o olhava com brandura.
"Já voltaram a se falar? Há tempos está cumprindo a pena de seu rei. Pelo menos Thranduil voltou a lhe dirigir a palavra?"
Legolas suspirou, balançando a cabeça negativamente e a expressão de Erebian tornou-se indecifrável.
"Thranduil é um pai zeloso, mas primeiro precisa mostrar-se um rei muito poderoso."
"Eu sei disso, senhor." Legolas apenas concordou.
"Eu imagino que saiba." Erebian voltou a sorrir. "Mas, me diga, alteza. O que o traz aqui? A quais conselhos veio o senhor em busca? Estava de fato a me dizer quando eu, de forma bastante descortês, o interrompi para lembrar-lhe de fatos que, com certeza eu, no lugar do príncipe, também gostaria de esquecer."
Legolas voltou a esvaziar os pulmões, sentindo-se estranhamente exaurido pela conversa árdua que levara com o conselheiro do pai. Era chegado o momento de por um fim rápido naquele jogo insensato de palavras e voltar à questão principal que o trouxera àquele lugar, o qual agora ele ansiava em muito abandonar.
"Preciso de seus préstimos como instrutor, lorde Erebian." Disse então, mantendo olhos atentos agora na reação que o elfo a sua frente teria.
"Instrutor?"
"Sim."
"Em que arte, meu príncipe?"
"No domínio da espada Sindar."
E o rosto do lorde elfo congelou-se por alguns instantes para então explodir em uma risada incontida, diante da qual Legolas finalmente mostrou-se ofendido.
"Peço que me perdoe, meu bom e jovem príncipe." O conselheiro buscou desculpar-se, não sendo muito feliz entretanto. "Mas essa idéia é no mínimo bizarra e no máximo absurda."
"Talvez não se importe em me dizer o porquê, nobre Erebian." Indagou o embaraçado príncipe.
"Ah, meu rapaz, meu bom menino da realeza. Digo-lhe que só responderei a essa questão se me for concedido o direito de ser o mais sincero possível, sem maiores represálias."
"Nunca lhe neguei tal direito, meu senhor, nem ao senhor, nem a ninguém." Legolas respondeu com firmeza e Erebian sentiu seu sorriso morrer nos lábios diante daquela comparação.
"Pois então que seja, meu rapaz." Ele disse envolvido em uma súbita seriedade. "Mas devo advertir-lhe de que, o que ouvirá agora não serão as mais agradáveis palavras."
"Não tenho ouvido palavras agradáveis há tempos." Legolas respondeu de queixo erguido, percebendo que enfrentar a ira ou sinceridade sindar lhe era uma sina cruel. Depois de dizer tais palavras, tudo o que fez foi apoiar ambas as mãos nos joelhos e aguardar, parecendo com isso roubar um pouco do prazer que aquela situação proporcionava ao lorde elfo diante dele.
"Pois bem, meu rapaz." Erebian retomou a palavra. "Digo-lhe e digo-lhe de coração. Julga, o senhor, em sua profunda inocência e total inexperiência, que, por ser filho de quem é, a invejável e inquestionável habilidade Sindar do domínio da grande espada corre em suas veias?"
Legolas empalideceu, mas essa foi a única demonstração de fraqueza que demonstrou.
"Jamais recebi treinamento para que tal dúvida me fosse sanada." Ele respondeu prontamente.
"E por que julga que não o recebeu?"
Erebian jogava um jogo claro agora, a sinceridade oferecida em doses maciças e implacáveis, forçando no jovem a sua frente um silêncio desagradável, o silêncio de quem está surpreso e ao mesmo tempo decepcionado.
"O senhor baseia seu julgamento em quê? Se me permite indagar." Legolas finalmente reencontrou as palavras que queriam lhe fugir.
"Ah! Olhe para você, menino?" Erebian exaltou-se enfim. "Tem o porte fraco, franzino das criaturas da floresta, desses primitivos seres que aqui viviam. Encare a realidade, Legolas! O que de seu pai, além do título 'Thranduilion', você carrega, criança tola?"
Os lábios de Legolas se desprenderam diante da surpreendente e inesperada sinceridade do conselheiro.
"Ao contrário do que pensa o senhor, nobre Erebian. Eu prezo a minha ascendência materna Silvestre e não vejo nela nada de primitivo. E, de meu pai, julgo carregar certas qualidades que, para ser sincero, não associo a raça Sindar, associo à pessoa justa do rei. É de uma delas que faço uso no momento. Do ímpeto de buscar aperfeiçoar minhas habilidades de guerreiro."
Erebian ouviu o desabafo do príncipe em silêncio, mas depois voltou a sorrir.
"Ah, com certeza vai me odiar para o resto da existência. Mas tenho que lhe dizer que, em seu caso, isso não é de grande ajuda. Na verdade não é de ajuda nenhuma. Um elfo da floresta, de sangue puro, tem seu forte na mera arte da sobrevivência, no domínio do arco e da flecha e em outras pequenas coisas. Mas eu me daria por satisfeito se fosse o príncipe, pois, pelo menos esse lado positivo dessas criaturas inferiores, parece ter sido reservado a você, rapaz."
Realmente Erebian parecia fingir desconhecer a abrangência de suas palavras e Legolas, finalmente irritado, ergueu-se disposto agora a lembrar o conselheiro.".
"Não admitirei isso, Lorde Erebian." Ele exaltou-se. "Fale o que quiser de mim, mas não menospreze meu povo."
Erebian curvou as sobrancelhas, mas o sorriso irônico que adornava seus lábios não desapareceu.
"Seu povo? Seu povo, Legolas? Esse povo não é de ninguém, nem sequer era um povo quando aqui chegamos. Vamos e venhamos, meu jovem. Tem sorte de algum sangue Sindar o favorecer o suficiente para que ganhe um respeito que esses elfos jamais terão o direito de ter."
"Lorde Erebian, agora se aproveita da liberdade que lhe dei!" Legolas ergueu autoritariamente a voz, assemelhando-se ao pai de forma tão inquestionável que até mesmo o confiante e astuto conselheiro sentiu-se intimidado diante dessa face do príncipe que desconhecia. "Se não consegue fazer bom uso da confiança que lhe reservei serei obrigado a reaver meus critérios." Legolas bufou, caminhando então para a porta. "Sua opinião não mais me interessa."
"Espere!" Erebian erguer-se, desperto tardiamente para o campo perigoso no qual trilhava. Legolas permaneceu onde estava, segurando a maçaneta da porta sem se voltar. "Peço... peço que me desculpe, Legolas. Eu... eu realmente me deixei levar por antigos remorsos eu... Eu lamento..."
"Abraçou-se ao preconceito, Lorde Erebian. Um sentimento que rouba a sabedoria de qualquer um."
"É verdade." O conselheiro concordou, aproximando-se e apoiando uma mão no ombro de Legolas, que estremeceu com o contato inesperado. "Legolas, olhe para mim, menino." Ele pediu, forçando o rapaz a se virar. "Conheço você desde criança, me proporcione o direito de defesa."
Legolas deixou-se levar, amargando o remorso pelas palavras duras que dissera.Por alguns instantes se esquecera do sentimento que semeava tais amarguras, do que acontecera a Alagos. Sim, Erebian tinha motivos para ter se tornado tão avesso a essa mistura de raças que o circundava agora. Ele tinha motivos, embora não fosse favorecido pela razão.Verdade. Como poderia culpar um pai que passara pelo que Erebian havia passado?
"Não há necessidade de defesa alguma, meu senhor." Legolas ergueu uma mão, baixando novamente o rosto."Eu... eu é que peço que me perdoe, nobre conselheiro de meu pai. Apesar de sentir-me deveras consternado com as palavras que ouvi, devo admitir que, me deixar levar pelo injusto poder a mim concedido, também não é uma das atitudes mais sábias e decididamente não condiz com o que acredito..."
Erebian apertou os olhos, lançando ao jovem príncipe um olhar fatal de descrença que Legolas, de rosto baixo, não viu. Ele não podia deixar de se lembrar das palavras de Alagos, da revolta que o filho, um valoroso guerreiro de sangue puro Sindar, cultivava por aquele maldito príncipe mestiço, que apenas não estava morto porque a sorte lhe sorrira de maneira inacreditável, mesmo ele não sendo merecedor de tal regalia. Legolas ergueu finalmente o olhar e Erebian embalsamou suas dúvidas por trás de uma face sem grandes expressões de dor.
"Alagos era meu amigo." Legolas disse com pesar. "Eu lamento o que houve... eu... eu não acredito que aquelas idéias que pregava eram realmente dele. Lamento que tenha havido maldade tamanha para conseguir iludir um ser integro como seu filho, meu senhor."
Erebian engoliu forçosamente a saliva.
"Eu agradeço que ainda guarde a meu filho o título de amigo, Legolas." Ele disse com um falso carinho que pareceu convencer ao ingênuo rapaz. "E se realmente deseja que lhe ensine um pouco das técnicas Sindar com a espada eu me sinto honrado em fazê-lo."
"Fala sério, nobre Erebian?" Legolas encheu o peito. "Poderia me ensinar?"
"Sim, menino." Erebian aproximou-se e envolveu o jovem príncipe em um abraço que trouxe estranhos arrepios ao rapaz. "Farei o possível e o impossível para que algo de seus ancestrais puros e fortes seja despertado dentro de você."
Aquelas decididamente não eram as palavras que Legolas desejava ouvir, embora a idéia o favorecesse de alguma forma. Enfrentar o preconceito sempre fora um de seus maiores desafios e às vezes esse desafio se tornava muito amargo e sua utilidade passava inevitavelmente a ser questionada.
"Eu agradeço seus préstimos, sábio conselheiro." Legolas forçou-se a dizer.
"Não há porquê, sua alteza. Acertarei tudo e logo lhe comunicarei sobre meus horários e outros detalhes."
Legolas assentiu com a cabeça, aproximando-se novamente da porta com o desejo enorme de sair dali o quanto antes. Estaria de fato agindo com sabedoria? Ou buscava, como sempre, mais aflições para a sua vida? Bem. Isso ele inevitavelmente iria descobrir.
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Sentavam-se silenciosamente diante da mesa. Dias haviam se passado nos quais as poucas refeições que compartilhavam eram assim, mergulhadas na mais completa ausência de palavras. Thranduil comia as pressas, como sempre fazia, parando por alguns instantes para olhar sorrateiramente o filho, que hoje estava se portando de forma muito suspeita. O rei deixou os talheres no prato e apoiou ambos os cotovelos por sobre a mesa, unido as palmas e entrelaçando os dedos. Legolas ergueu imediatamente o olhar, mas aliviou-se ao perceber que o pai não o encarava, parecia perdido em algum problema que decerto não repartiria com ele. Desde que a pena lhe fora imposta o rei não mais lhe dirigira a palavra. Aquilo era previsto, parte do castigo severo que Thranduil aplicava ao filho sempre envolvia essa difícil ausência de contato, de palavras, de qualquer sinal de afeto.
Nildiele aproximou-se da mesa com um sorriso.
"Deseja mais alguma coisa, majestade?" Ela indagou.
"Não, agradeço-lhe." Thranduil respondeu com formalidade, bebendo depois o último gole de vinho e apoiando o guardanapo sobre a mesa depois de tê-lo usado. "Seus préstimos sempre estão além do satisfatório, minha amiga."
A boa elfa sorriu, voltando-se para o prato ainda cheio do jovem príncipe.
"Sua alteza parece não compartilhar da opinião do rei, majestade."
Legolas ergueu o rosto sobressaltado. Depois olhou automaticamente para o pai, que ainda não retribuía os olhares recebidos, então se voltou para o prato e só então percebeu do que a boa elfa estava falando.
"Lamento, minha senhora." Ele disse apertando com a mão esquerda o guardanapo que estava sobre a mesa. "A comida está saborosa como sempre, mas acho que o dia de hoje não foi desgastante o suficiente para que eu sentisse o desejo de recompor minhas energias."
Nildiele sacudiu levemente a cabeça, mantendo seu olhar claro no rapaz.
"Não é o que me parece, meu senhor. Muito pelo contrário. Parece-me muito cansado. Andou excedendo-se no campo de treinamento?"
Legolas empalideceu ao ver que o comentário bem colocado de Nildiele surtiu o efeito que a elfa parecia desejar. Agora a atenção do rei estava nele, depois de semanas de ausência. Thranduil franziu as sobrancelhas e seus olhos esverdeados percorreram a imagem toda do filho.
"Estou bem, minha senhora." Assegurou o arqueiro.
"Posso pedir que Faernestal lhe visite essa noite, meu príncipe." A elfa insistiu e Legolas começou a sentir o desespero tomar-lhe a razão. Tudo o que precisava depois do dia que tivera era um novo conflito com o pai. Se Nildiele agia com boa intenção ela não fazia idéia do quão mal interpretada aquela boa intenção estava sendo naquele momento.
"Creio que não há necessidade de incomodar seu esposo com uma indisposição qualquer." Ele disse, engolindo em seco ao receber outro olhar questionador do pai. "Se me permitem, gostaria de me retirar." Ele ergueu-se então, unindo nervosamente as mãos em sua continência forçada e olhando diretamente para o rei. Ao contrário das outras vezes nas quais esperava sempre a saída do pai para abandonar a mesa, a situação o obrigava a pedir autorização do mesmo para fazê-lo precocemente.
Thranduil ainda olhou o filho da cabeça aos pés, parando alguns instantes para analisar o braço que o rapaz mantinha estranhamente apoiado na região do estômago. Depois ele apenas assentiu com a cabeça e Legolas saiu tão rapidamente daquela sala que as dúvidas que o rei criava dentro de si só se agravaram.
Nildiele baixou os olhos e demonstrou sua insatisfação balançando a cabeça, enquanto ocupava-se em juntar a louça.
"Gostaria de mais uma taça de vinho, majestade?" Ela ofereceu, depois de um suspiro indisfarçável de preocupação.
Thranduil manteve-se sentado onde estava, limitando-se a se encostar à cadeira almofadada e apoiar ambas as mãos nos braços da mesma.
"Por favor." Ele assentiu e Nildiele encheu novamente a taça. "Encha essa também. "Ele instruiu empurrando a que o filho deixara intocada. "Beba comigo e aproveite para me deixar a par do que parece desejar me fazer saber."
Nildiele ergueu o olhar surpresa.
"Agradeço majestade, mas..." Ela tentou recusar.
"Não estou a espera de agradecimentos. Estou impacientemente aguardando por informações as quais com certeza não me agradarão."
Nildiele ficou estagnada segurando a garrafa nas mãos, até que o tom do rei a fez perceber que estava realmente abusando de sua sorte.
"Diga, elfa!" Thranduil ordenou, erguendo a voz. Quando a cozinheira encontrou coragem para encará-lo ele fez um gesto para que se sentasse no lugar que o príncipe deixara vago. Ela se sentiu compelida a obedecer, como todos naquele reino sentiam e sempre sentiriam.
"Lamento tê-lo enraivecido, majestade." Desculpou-se a elfa, juntando pacientemente as mãos por sobre o colo.
"Não é tua atitude que me enraivece, Nildiele. É a verdade que me oculta, mesmo querendo propagá-la."
A elfa suspirou profundamente então e apanhou a taça de vinho, bebendo um pequeno gole. Thranduil fez o mesmo, batendo o recipiente ao colocá-lo de volta na mesa.
"Diga."
"Legolas está treinando."
"Diga-me algo que não sei." Impacientou-se o rei.
"Está treinando exaustivamente, todos os dias."
Thranduil franziu impacientes lábios e a elfa sacudiu nervosamente a cabeça.
"Ele... está aprendendo uma nova tática de guerra." A elfa informou insegura e apertou os lábios ao ver as sobrancelhas do rei se curvarem em um súbito interesse.
"Tática de guerra?" Ele repetiu.
"Sim." Ela respondeu, baixando nervosamente a cabeça e o rei estalou os lábios, apoiando agora ambas as mãos por sobre a mesa.
"Preciso esperar que as estrelas se apaguem até que você me informe mais sobre essa história, Nildiele?" Ele bufou. Por que por Mandos as pessoas eram tão complicadas?
A elfa baixou ainda mais a cabeça, unindo agora nervosamente as mãos.
"A espada Sindar." Ela disse em um repente e Thranduil julgou ter ouvido mal.
"O que disse?"
"A espada Sindar, meu rei."
"O que tem a espada Sindar, elfa?"
Nildiele ergueu o rosto e seus olhos claros se encontraram novamente com os do rei, que agora ganhavam um tom escurecido e assustador. Elbereth, naqueles momentos ela entendia bem porque o doce Legolas temia tanto despertar a ira daquele elfo poderoso.
"Nildiele." Thranduil bufou. "Eu juro por todos os Valar que se me fizer repetir uma pergunta qualquer..."
"Legolas está treinando... aprendendo a dominar a espada." Nildiele apressou-se em responder, cortando o final daquela sentença para o seu próprio bem. "Está aprendendo a dominar a espada Sindar."
Thranduil perdeu a cor, franziu novamente as sobrancelhas e por fim riu um riso nervoso.
"Legolas está fazendo o quê?"
"Está aprendendo a dominar a espada Sindar." A elfa repetiu receosa. "Pelo menos está tentando..."
"O que quer dizer?"
"Quero dizer que... Tudo o que o pobre rapaz consegue é sempre voltar ferido. Faernestal já se habituou a visitar o quarto do príncipe todos os dias desde que esse tolo treinamento começou. Não houve um dia em que o rapaz voltou inteiro."
Thranduil franziu a testa.
"Como assim? Não deve ferir-se se está apenas treinando." O rei alegou.
"É o que penso, meu senhor." Nildiele concordou, retomando seu tom calmo peculiar. "Mas parece que o instrutor do príncipe não se importa com esse detalhe." Ela ofereceu cautelosamente, sentindo que pisava em terreno deveras perigoso agora.
E pisava de fato.
"Quem o está instruindo?"
"Lorde Erebian, majestade."
Thranduil silenciou-se então e Nildiele pôde ver as órbitas esverdeadas do elfo louro dançarem perigosamente naqueles grandes globos. O rei estava pensando, unindo astutamente as informações que tinha e isso nem sempre era bom sinal.
"Então tem se ferido." Disse depois de um longo silêncio.
"Tem sim, majestade. Nem sempre são graves, normalmente cortes não muito profundos ou contusões... Nada que o afaste do treinamento do dia seguinte..."
Thranduil voltou a encarar a elfa e Nildiele sentiu o sangue gelar nas veias com aquele olhar que recebeu. O sagaz rei realmente não precisava de muita informação para saber em que solo estava pisando.
"Onde se dão tais 'treinamentos'?"
"No campo central, meu senhor." A elfa informou, apertando os lábios. "Bem aqui, dentro da caverna."
"A que momento?"
"Pela manhã. Quando os poucos raios de sol escapam pelas frestas escuras."
Thranduil voltou a silenciar-se. Aquela era exatamente a hora em que estava em seus aposentos descansando. O rei apreciava o silêncio da noite como momento propício para reflexão e normalmente usava as manhãs frescas para recuperar sua energia.
"Sagaz..." Thranduil pensou em Erebian e nas difíceis lições que o conselheiro gostava de aplicar nos ensinamentos que oferecia ao filho Alagos. O que estaria tramando naquele momento elfo tão sábio, cujas próprias atitudes eram friamente analisadas antes de se efetivarem? Que lição estaria querendo passar ao príncipe?
"Deveras." Nildiele deixou espaçar com um suspiro forçado de reprovação e Thranduil voltou a olhá-la. Dessa vez a elfa não se intimidou, enfrentando o olhar do rei que já tinha informações suficientes para saber como agir. "Vai fazer com que isso pare, não vai, majestade?"
"E por que deveria?"
"Porque não é dessa forma que as coisas se dão, meu rei." A boa elfa exaltou-se. "Treinamentos desse nível são feitos com espadas de madeira e..."
"Elfinhos usam espadas de madeira!" Thranduil corrigiu a cozinheira com veemência.
"Mas Legolas não domina a arte, o que faz dele nada mais do que um elfinho mesmo..."
"Ora não diga tolices." O rei ergueu-se então, caminhando agora pelo local. Nildiele apertou novamente os lábios. Conhecedora daquela forte personalidade como era, a elfa sabia que, quando Thranduil começava a circular como um animal enjaulado, era porque estava se sentindo como tal.
"Ele desconhece a técnica, meu senhor..." Ela ainda quis argumentar. "Não pode ser castigado de tal forma em um treinamento e..."
"Ele tem o que merece." Thranduil explodiu em um argumento pouco convincente até para ele mesmo. "Teve a mesma oportunidade dos demais Sindar quando pequeno e preferiu optar pelo arco e flecha ao invés de dedicar-se a arte de seus ancestrais."
Nildiele ergueu-se também.
"Peço seu perdão, meu sábio rei. Mas não é só o povo Sindar que compõe a ancestralidade do príncipe. Ao usar o arco e flecha ele também prova seu valor e demonstra respeito pela herança que ganhou do valoroso povo da floresta."
Thranduil voltou-se surpreso para a amiga e seu maxilar se comprimiu tanto que Nildiele achou que ele fosse partir um dos dentes.
"Ouvi certa vez tal argumento." Ele finalmente falou, esvaziando o peito de forma ruidosa. "Mas foi de Elvéwen. A rainha tinha motivos para defender tal teoria, pois o sangue silvestre era a seiva que fazia seu ser. Mas você é uma Sindar, Nildiele. Uma Sindar."
"Eu sou uma elfa, meu senhor. Apenas isso." A cozinheira respondeu, baixando a cabeça e nunca uma resposta tão simples tocou ao rei de forma tão profunda. Nildiele então balançou a cabeça, percebendo que não era sensato para alguém em sua posição levar uma discussão daquelas com o rei. Ela voltou a reunir os talheres e outros utensílios que estavam sobre a mesa.
Thranduil encheu o peito de ar, tentando substituir a amargura que uma lembrança lhe trouxera com algo maior. O problema era que não havia, nem nunca haveria, pensamento maior do que ela, nunca haveria nada melhor a se pensar, fossem recordações boas ou não, do que Elvéwen. Ele voltou a encarar a ocupada elfa que agora se apressava em terminar seu serviço, parecendo disposta a sair dali o quanto antes.
"Sabe que não posso protegê-lo dessa forma que deseja que o faça." Ele disse então.
"Eu sei, meu senhor." A elfa respondeu, sem desviar o olhar do que fazia.
"Olhe para mim, Nildiele." O rei pediu e a elfa obedeceu, erguendo claros olhos cheios de dúvida e preocupação. "Você, que como Faernestal me conhece desde quando eu também era um príncipe confuso, diga-me. O que pensa do seu rei?".
"Penso que é o elfo mais justo que conheço." Ela respondeu sem hesitar e Thranduil ergueu o queixo, passando a olhá-la com um ar indecifrável.
"Pois então continue confiando em meu senso de justiça." Ele disse, endireitando ainda mais os ombros largos e Nildiele assentiu em silêncio. Quando o rei caminhou em direção a porta ela o acompanhou com os olhos, apertando o pano de pratos que tinha nas mãos, porém, antes de sair, Thranduil voltou-se uma última vez e a elfa empalideceu. Como ele conseguia saber que um assunto não estava de fato encerrado?
"Senhor?" Ela questionou tolamente e Thranduil franziu os olhos, analisando o rosto pálido da elfa como quem decifra um intricado enigma.
"O que mais a incomoda, Nildiele?" Ele indagou.
A elfa engoliu em seco.
"Se meu rei for até um desses 'treinos'." Ela disse em voz baixa. "Vai descobrir o que é... Principalmente se ninguém souber que o senhor está lá."
Thranduil ergueu novamente o queixo, mas seu olhar se perdeu por alguns instantes. Traçava agora novas linhas em seu mapa de guerra. Ele então se curvou devagar em uma rápida despedida e se retirou, levando as interrogações da fiel Nildiele com ele.
&&&
O som das espadas se chocando ecoava pelos pontos escuros daquela caverna sombria. Thranduil aproximou-se sorrateiramente, posicionando-se atrás de uma saliência rochosa. De onde estava, a imagem do que acontecia pintava claramente o quadro da verdade, cuja busca do significado lhe levara a noite e a manhã de descanso. Em meio a uma roda de elfos, Legolas e o conselheiro Erebian se batiam em um conflito que em nada se assemelhava a um treinamento de soldados. Thranduil arriscou-se mais uns passos, camuflando-se em uma saliência mais próxima que favorecia ainda mais sua visão.
"Elfos silvestres! Arcos e flechas, meu príncipe mestiço. Arcos e flechas!" A voz de Erebian surgiu provocativamente e Thranduil apertou os olhos, analisando o grupo que se amontoava ao redor daquele pequeno espetáculo. Eram todos elfos Sindar, antigos companheiros de seu pai e seus também, um grupo que se tornara minoria e parecia divertir-se em ver o filho do rei na situação em que estava.
Legolas, por sua vez, parecia ignorar a provocação do conselheiro ou os risos contidos a sua volta, girando habilmente o corpo pelo pequeno círculo e defendendo-se de cada golpe com destreza. Thranduil franziu os olhos, encarando a figura do filho perdida no meio daquele grupo nada amistoso. Legolas tinha os cabelos presos em um rabo de cavalo, apenas as tranças laterais estavam soltas e acompanhavam o movimento de sua cabeça criando uma espécie de áurea ao redor do rosto do rapaz. Ele mantinha olhos atentos nos do conselheiro, não se importando com as ameaças que ouvia, com as mudanças de rumo que os golpes precisos de Erebian tomavam, não olhava para a espada do adversário, permanecia sim, corajosamente preso no olhar deste.
"Guerreiro..." Thranduil sorriu para si mesmo, julgando a improbabilidade daquele pensamento que lhe ocorria, mas satisfazendo-se mesmo assim em considerar tal hipótese por mais absurda que lhe parecesse. Erebian, depois dele, era o melhor espadachim do reino da floresta. "Por Mandos, menino. Você pode vencer."
E o corpo do rapaz girou mais uma vez, e suas costas se desviaram habilmente de mais um golpe que, se feliz fosse, encerraria aquela luta não apenas por pouco tempo, a encerraria definitivamente. Thranduil voltou a franzir os olhos. Iluvatar, aquela não era a luta que Nildiele lhe relatara. Aquele era um conflito de morte.
"Se pedir piedade, elfinho mestiço da floresta." A voz de Erebian novamente soou seu tom provocante. "Posso deixar que viva e corra para os braços protetores de seu pai Sindar."
Outro riso soou por todos os cantos daquela roda e Thranduil percebeu o rosto de Legolas enrubescer levemente, mas mesmo assim o rapaz nada disse, erguendo sempre a espada diante de si para receber com convicção outro pesado golpe do adversário.
Thranduil apertou o maxilar, procurando uma desculpa plausível para aquele jogo cruel. Decerto e certeiramente Erebian provocava o príncipe porque isso faz parte de qualquer treinamento. O bom combatente deve saber enfrentar a ironia e o sarcasmo do inimigo. Mas algo naquela cena parecia estar um tanto além da mera provocação. Erebian parecia esforçar-se em provar uma teoria. Uma teoria cruel.
"Desista, elfinho verde." Ele continuou. "Já não se feriu demais?" Ele indagou brandindo a espada com mais violência e rapidez. "Já não lhe disse em nossos outros encontros sobre o quanto me incomoda sujar minha espada com seu sangue híbrido?"
Legolas desviou os olhos por alguns instantes ao ouvir outros risos agora mais altos e Erebian aproveitou e desceu a arma lateralmente arrancando um pedaço da túnica de Legolas e abrindo larga ferida no ombro do rapaz. O arqueiro não pode conter o grito de dor, mas mesmo assim conseguiu gingar o corpo e escapar do próximo golpe, despertando um olhar de indignação em Erebian e um sorriso no rosto de Thranduil.
"Realmente a sorte te favorece, elfo sem identidade." Erebian disse em um indisfarçável tom de revolta, que criou um clima desagradável naquela roda de elfos, cujos olhares agora começaram a se cruzar interrogativamente, diante de uma estranha possibilidade que não lhes ocorrera. A de que a lição de Erebian estivesse passando um pouco dos limites da racionalidade.
"Deixe terminar agora, amigo Erebian." Uma voz gritou do centro da roda. "Deixe o rapaz, ele já provou que tem valor."
Mas aquele argumento criou em efeito inverso no lorde elfo, que franziu as sobrancelhas, encarando Legolas com um olhar que derrubaria a mais alta das montanhas. O rapaz sequer teve tempo de temer o que viria a lhe acontecer, pois os golpes que caíram sobre ele a partir de então passaram a requerer toda a pouca habilidade que aqueles dias de treinamento haviam lhe proporcionado. Erebian bufava agora, desacreditando mais e mais em seus olhos a cada escapada brilhante que o príncipe fazia de seus golpes mortais.
"O que acha, sangue impuro?" Ele gritou então. "Acha que pode apenas defender-se em um combate? Acha que isso faz de você poderoso? Vejo que tem a mesma sorte daquela que te colocou nesse mundo, mas, como ela, você verá que a sorte não sorri para sempre para aqueles que não a merecem."
E então, sem muito esforço e praticamente de forma acidental, Erebian descobriu o ponto fraco do pacato príncipe. O rosto de Legolas ganhou um assustador tom rubro e ele avançou por sobre o conselheiro cegamente. Erebian riu de forma cruel, recebendo os golpes brutais do príncipe com eficácia, resguardando-se em posição defensiva e deixando que o tempo levasse o rapaz a exaustão. Foram golpes e mais golpes, violentos, precisos, ruidosos até que o experiente espadachim percebeu que o jovem adversário estava exaurido de suas forças, o peito arfante do rapaz parecia preste a explodir. Erebian alargou seu sorriso, avançando alguns passos e passando a deflagrar certeiros golpes, aos quais o enfraquecido e exausto príncipe tentou ao máximo conter. Mas o conselheiro era um espadachim habilidoso e tinha uma intenção.
Foi um momento simples e rápido. Legolas ainda pôde ver o adversário reposicionar a espada em um ângulo inédito para ele até então e descê-la rompendo o ar frio e abrindo um corte na lateral de seu rosto e um rasgo enorme na túnica que usava, levando também a espada do jovem príncipe ao chão, junto com seu dono. Quando Legolas caiu em si, estava em seus joelhos, com o amargo sabor da derrota em sua boca e a brilhante espada do conselheiro por sobre a veia pulsante de seu pescoço.
"A incompetência dos silvícolas. Foi tudo o que herdou, príncipe tolo. Tem sorte de ser filho de quem é." As palavras de Erebian soaram frias como nunca e um silêncio desagradável se fez, um silêncio de reprovação ao qual Erebian pareceu não dar ouvidos. Ele apertou o cabo da espada até seus dedos perderem a cor e seu olhar se tornou cruel.
"Não pretende apenas humilhar e ferir meu filho, Erebian?" Uma voz forte surgiu e sons de surpresa e medo a acompanharam. "Deseja vê-lo perecer por sua espada, deseja sujá-la mais com esse sangue híbrido?"
O conselheiro se voltou e ficou completamente mudo ao ver a figura daquele que se fizera seu inimigo, mesmo ainda ignorando tal fato, aproximar-se com a rapidez de quem não quer realmente perder tempo com palavras. Erebian desprendeu os lábios para argumentar, mas não teve tempo, tudo o que pôde fazer foi erguer novamente a espada e defender-se dos golpes brutais e rápidos do rei de Mirkwood.
"Diga, Erebian! Diga novamente o que disse de sua rainha!" Thranduil ordenou, enquanto os dois elfos giravam em um espaço muito maior do que aquela roda havia proporcionado. Os elfos à volta agora se encostavam às paredes próximas, procurando ao máximo desviar-se dos golpes dos hábeis combatentes.
"Não tinha a intenção de ofender a meu rei." Erebian defendeu-se, apertando os olhos a cada golpe recebido. "Apenas provocava o príncipe para que ele aprendesse como uma batalha cruel realmente se dá."
"Nada pode ensinar a meu filho, Erebian." Thranduil disse, entre os dentes cerrados. "Só se ensina aquilo do qual se tem conhecimento. Mas não se preocupe. Depois que tivermos terminado eu deixarei finalmente algo em você que poderá ensinar a seus pupilos."
E as espadas se chocaram novamente e Erebian foi obrigado a fazer um doloroso giro de corpo para escapar do golpe mortal que o rei lhe reservara. Mas isso não o salvara da ira de Thranduil, cujos olhos brilhavam assustadoramente. Ele caminhou muitos passos, obrigando o adversário a recuar sempre até encostar-se em uma das paredes frias. Erebian ergueu sua espada mais algumas vezes, seus olhos brilhantes ainda estavam fixos em seu adversário, mas a certeza da amarga derrota já formava uma sombra sobre sua alma.
Foi rápido até para quem presenciou tal cena. Thranduil arqueou o corpo e o reergueu em um impulso, ricocheteando a espada no ar e descendo-a em seguida diante dos olhares surpresos de todos os presentes, e diante do olhar descrente e apavorado do oponente que sentiu seu queixo cair, ao ver sua poderosa espada cortada pela arma do rei de Mirkwood. Os pedaços brilharam na caverna escura e o som do metal atingindo a pedra fria ditou por si só o ponto final daquele conflito. Thranduil era de fato inacreditavelmente poderoso e agora tinha a sua própria arma dolorosamente apoiada no pescoço de seu adversário caído.
E apreciava. Apreciava e saboreava aquela vitória como jamais apreciara outra em toda a sua existência.
"Diga, Erebian. Vai perecer agora diante dos seus ou pedirá desculpas a meu filho e seu príncipe?"
Erebian procurou retomar o ar que lhe faltava, arfando terrivelmente, ainda entontecido pela brutalidade do golpe que recebera, de seu rosto deslizava um fio de sangue por um largo corte. Thranduil sentiu então alguma condolência por ele, mas não o suficiente para isentá-lo de cumprir suas ordens.
"Não deixe seu rei esperando por uma resposta sua!" Ele ainda gritou e sua voz poderosa pareceu sacudir aquele atordoado elfo que agora estava em seus joelhos.
O conselheiro baixou os olhos, disfarçando o rosto com uma máscara de humildade que ao rei não consolou ou convenceu, mas satisfez para o momento.
"Diga, elfo. Ou diga como quer ser encaminhado para o Hall dos que esperam. Talvez lá consiga pedir perdão em especial a sua rainha."
"Peço... peço que me perdoe, meu rei." A voz de Erebian soou fraca, enquanto ele olhava ainda descrente para os pedaços do que fora sua espada.
"Não a mim." Thranduil disse em voz forte.
"Peço... peço que meu príncipe me perdoe e compreenda que não lhe quero mal." Ele disse, olhando para Legolas que também estava em seus joelhos, mas não correspondia ao olhar dirigido a ele. "Tudo o que fiz foi para despertar-lhe algum brio, para ensinar-lhe técnicas negras usadas em batalha."
Thranduil esvaziou o peito então e afastou finalmente a espada do pescoço do conselheiro, oferecendo-lhe uma das mãos, a qual o elfo relutantemente aceitou, posicionando-se em pé, a poucos centímetros do rei. A passos deles Legolas também já se reerguera um tanto cambaleante e cobria o ferimento do peito com uma das mãos, não conseguindo, porém fazer o mesmo com o grande corte em seu rosto, do qual corria um veio de sangue rubro.
Thranduil voltou-se para ele e o rapaz baixou os olhos envergonhado.
"Venha cá, elfo tolo." Ele acenou para o filho, que primeiro estremeceu, depois atendeu ao chamado, parecendo arrastar-se por aquele lugar úmido. Quando estava próximo Thranduil o puxou por um dos braços, olhou por alguns instantes os ferimentos do rapaz, tentando engolir a ira que queria renascer em seu peito e por fim voltou-se para Erebian.
"Diga-me, elfo cujo senso de justiça não compreendo." Ele disse entre os dentes. "Agora que vê o sangue que conseguiu tirar do príncipe. Diga-me, diga-me elfo estúpido. É de fato diferente deste seu que eu fiz derramar?"
Erebian baixou forçadamente a cabeça e Legolas desprendeu os lábios, surpreso por ver o pai combatendo uma idéia na qual ele mesmo há pouco tempo acreditava..
"Não, meu sábio rei." O derrotado oponente disse em uma voz que não parecia sua. "Lamento se me excedi nas duras palavras que tão displicentemente escolhi. Não tinha a intenção de ofender nem a sua majestade, nem a sua alteza." Ele disse voltando-se para Legolas, que continuou a não retribuir o olhar recebido, limitando-se a manter o rosto baixo. "Eu lamento... Sabe como é difícil tirar seu filho dos prumos." Ele tentou sorrir então. "Estou tentando fazê-lo há dias e como já disse acho que me excedi... Mas tinha a melhor das intenções, garanto-lhe."
Thranduil assentiu com a cabeça e soltou o ar dos pulmões. Seu olhar, porém, não negava que a desculpa dada, apesar de respaldada em uma possibilidade provável, não o convencera em hipótese alguma. Ele então ergueu uma das mãos e fez um gesto que o grupo a volta deles entendeu bem, movendo-se rapidamente e deixando o local. Em seguida olhou mais uma vez para Erebian e repetiu o gesto ao qual o conselheiro também atendeu prontamente, depois de uma forçada e longa reverência.
Restaram naquela caverna fria apenas pai e filho.
E um doloroso silêncio.
"Sinto muito... sinto muito, senhor." Legolas desculpou-se então, ao perceber que o pai continuava a percorrer um olhar inconformado na triste figura que tinha diante dele. "Agi tolamente, deixei-me... deixei-me levar..."
"Se de fato sente as palavras que me diz." Thranduil disse erguendo o queixo. "Então aprendeu uma valorosa lição, e Erebian, mesmo sem ter esse objetivo, me fez um favor."
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Legolas encolheu-se na cama fria. Já era madrugada e ele estava há uma semana naquele quarto, proibido de sair. Novo castigo imposto pelo pai depois do conflito com Erebian. Estava cansado daquilo, sentindo o peso do que fizera, o significado de tudo o que se escondia por trás das cortinas daquele desentendimento. Ele engoliu a saliva e afundou a cabeça na montanha de travesseiros, procurando evitar que o choro o tomasse novamente. Mas era muito difícil. Sentia-se cansado, sentia-se vencido. Não suportava mais ser quem era, saber o que o julgavam ser, envergonhar repetidas vezes o pai. Ele não se suportava mais e começava a entender porque os castigos do rei sempre envolviam um grande silêncio. Talvez até mesmo o pai estivesse cansado dele.
Mas um toque compassado na porta se deu.
"Príncipe Legolas?" A voz conhecida surgiu.
"Thavanian!" Ele ergueu-se com um sorriso. "Entre, mellon-nin."
A porta moveu-se devagar então e o rosto sorridente do amigo e guarda-costas surgiu atrás dela, mas o elfo manteve apenas a metade do corpo para dentro.
"Está de pé!" Legolas saudou-o com a mão no peito. "Fico feliz."
"Graças a você, Las." O jovem elfo disse em um tom baixo então, procurando fazer com que ninguém o visse demonstrando tal nível de amizade para com o filho do rei.
"Entre, Thavanian." Legolas acenou.
"Não posso. Estou como guarda do corredor." Ele disse. "E o rei me proibiu de ficar 'de conversas' com você, mellon-nin."
Legolas sacudiu a cabeça com um sorriso triste. Colocar um elfo como Thavanian na guarda do corredor era um dos piores castigos, ele bem o sabia, e sabia também que o pai o fazia propositalmente porque, mais uma vez, embora valoroso, o bom elfo havia falhado em seu papel de guarda costas.
"Acho que dessa vez não saio mais do palácio." Thavanian disse com um sorriso triste.
"Eu duvido." Legolas procurou animá-lo. "Elfos como você não podem ser dispensados em um momento como o que estamos. Não se preocupe. Conhece o rei, só nos está deixando de molho como fazia quando éramos pequenos."
"Sim e você encobria minhas travessuras e levava os castigos que eram meus."
"Não é verdade." Legolas objetou disfarçando o riso. "Eu sempre participava de suas travessuras, merecia o castigo."
"Participava porque era um elfinho a quem qualquer um enganava." Thavanian riu ao ver o amigo corar, fingindo indignação. "Mesmo porque não sabia mentir, por mais que eu e Alagos tentássemos lhe ensinar."Ele completou, arrependendo-se imediatamente por levantar o nome do amigo morto e por ver que tal lembrança entristecera o príncipe de forma indisfarçável. "Perdoe-me, Las... eu não queria..."
"Está tudo bem." Legolas garantiu cruzando as pernas sobre o colchão e Thavanian suspirou.
"A propósito. Seu pai pediu que o chamasse."
"A mim?" Ele reergueu os olhos arregalados. "Chamou por mim?"
"Sim. Disse que não se demorasse a atendê-lo... Sabe como é... aquelas ameaças que faz de que virá aqui pegá-lo pelas orelhas se o fizer esperar etc etc..."
Legolas franziu a testa intrigado, sabendo bem que aquela parte da história era pura invenção do amigo para fazê-lo sorrir e afastar a preocupação que tão inesperado chamado despertara.
"Onde ele está?" Indagou então jogando os pés para fora da cama e calçando os sapatos. "No escritório ou em seus aposentos?"
"Em nenhum dos dois. Ele pediu que o encontrasse no campo central."
"No campo central? A essa hora? O que ele faz lá?"
"Pare de me fazer perguntas que sabe que não sei responder."Thavanian se queixou, vendo o rapaz jogar o manto nas costas e correr preocupado pelo corredor, sem sequer fazer mais nenhum comentário.
Em poucos instantes estava lá, o peito arfando pelo esforço de descer todas as escadas rapidamente e correr até o local. Ali, entretanto o rei caminhava calmamente em círculos. Legolas parou atrás de uma rocha para olhar para ele antes de se aproximar, para tentar perceber se estava zangado, enquanto procurava se lembrar se de fato o pai tinha motivos para isso. Thranduil continuava seu andar compassado, vestindo seu robe verde folha, os cabelos presos nas tranças de guerra que ele nunca abandonara, as mãos entrelaçadas nas costas.
"Sabe que sou um líder de guerra, capitão."Ele disse de repente. "Não pense que poderá ficar aí sem que eu o saiba."
Legolas suspirou resignado, saindo de seu esconderijo e posicionando-se no centro do campo de pedra.
"Thavanian disse que sua majestade gostaria de me ver."
Thranduil voltou-se, olhando o rapaz por sobre o queixo erguido.
"Sua majestade não quer vê-lo." Ele disse e Legolas contorceu o rosto, tomado pela dúvida.
"Mas... Mas Thavanian..." Ele disse, voltando a olhar confuso para o palácio. "Ele não... ele me disse... ele não ia brincar com algo desse gênero..."
"Ele lhe disse que o rei queria vê-lo? Pois se disse vou mandá-lo para as masmorras, pois não foi o recado que lhe passei. Se aquele elfo tolo não sabe sequer ser um garoto de recados, realmente não sei mais onde encaixá-lo."
Legolas franziu o cenho indignado.
"Ele me disse que o senhor queria me ver."
"E quero."
"Então porque condena o bom soldado?" Legolas aborreceu-se. "Pois me passou o recado correto."
"Eu não disse que o rei chamava por você."
Legolas pendeu a cabeça ainda confuso, mas depois de alguns instantes percebeu o que era para ser percebido e lembrou-se que de fato o amigo havia lhe passado o recado correto.
"Ele me disse que meu pai queria me ver." Legolas corrigiu-se, muito sério.
"Melhor." Thranduil voltou a caminhar em círculos. "Deve aprender a prestar mais atenção ao que ouve, capitão, pode colocar as pessoas em grande confusão se não o fizer. Pode colocar-se em grande confusão também, se não o fizer. Deve aprender a prestar atenção e a acatar ordens."
Legolas baixou o rosto, compreendendo as insinuações do pai.
"Vejo que me chamou como pai." Legolas disse com tristeza. "Mas mesmo assim quer ter comigo uma conversa de guerreiros."
Thranduil conteve o sorriso que aquela afirmação inteligente lhe despertara. Apesar de não apreciar ser contrariado, gostava de ver o filho demonstrar personalidade.
"Em parte está com a verdade. Chamo-te como pai, mas quero que tenhamos uma conversa de guerreiros. De um guerreiro e seu pai."
O príncipe voltou a mostrar-se confuso. Iluvatar, pior do que ter o pai zangado era tê-lo disposto a dar-lhe terríveis lições de qualquer tipo. Seus jogos de palavras eram tão profundos que sempre exigiam um tempo desgastante para serem decifrados.
"E o que quer me dizer, Adar-nin?" Ele disse enchendo o peito de ar.
Thranduil não respondeu, caminhando então alguns passos e aproximando-se de uma das grandes pedras para pegar um estranho objeto envolto em um fino tecido esverdeado. "Venha cá."
"E o que era, Las?" Elrohir indagou, vendo que o amigo rompera sua narrativa de forma estranha e inesperada. "O que o rei queria te mostrar?"
Legolas sacudiu a cabeça, enquanto ele e o gêmeo caminhavam por entre os muitos cabides de roupas dispostos ordenadamente na grande loja.
"A espada de meu avô."
Elrohir parou onde estava, olhando o amigo louro por trás de um amontoado de jaquetas de todas as cores. Legolas continuou caminhando pensativo em seu doloroso andar e por fim parou, notando que não era mais acompanhado.
"Não entendo." Elrohir franziu o cenho. "Ele queria lhe dar a espada de seu avô?"
"Jamais daria a grande espada de Oropher a alguém." Legolas disse com o olhar perdido. "Nem mesmo a mim."
"Então o que queria?" Elrohir voltou a aproximar-se. "Por que lhe mostrou a arma? Por que o chamou?"
Legolas fechou os olhos por alguns instantes.
"Pegue" Thranduil estendeu-lhe a bela espada. "Segure e sinta seu peso. É uma das mais pesadas armas que já segurei desde que posso me chamar um guerreiro. E esse peso não é só material. Ele simboliza a responsabilidade de uma liderança. Segure-a e nunca se esqueça que seus atos como líder não repercutem apenas sobre você mesmo. Eles favorecem ou prejudicam milhares."
"Las." Elrohir despertou-o, apoiando a mão no ombro do príncipe. "Está tudo bem?"
Legolas sobressaltou-se, mas logo sorriu, assentindo com a cabeça.
"Ele me ensinou a lutar."
"Ele? Ele mesmo?" Indagou Elrohir descrente.
"Todas as manhãs, todos os dias, durante duas longas estações."
"Então foi ele quem te ensinou aquelas técnicas que uma vez nos mostrou?" Elrohir indagou e os olhos do príncipe voltaram a perder seu foco.
"Sim... Como você bem sabe, me foram muito úteis depois."
"Nunca nos contou que havia sido ele." O gêmeo franziu os lábios, insatisfeito. "Por que, Las?"
"Não sei... passamos tantas manhãs naquele treinamento sem palavras, apenas gestos e dores, que acho que julgava sequer ter acontecido." Legolas baixou a cabeça.
"Sei pai foi um instrutor eficiente."
"Parecia prever o que nos esperava..."
"Como assim?"
"Ele me fez... me fez treinar vendado..." Legolas lembrou. "durante várias e várias luas..."
Elrohir engoliu em seco, depois se voltou para o irmão gêmeo que se aproximava.
"Treinavam com a espada de seu avô?" Elladan indagou agora, afastando um pouco o assunto indesejado e Legolas acenou negativamente e sorriu encabulado.
"Eu treinava com uma espada de madeira."
Os gêmeos se entreolharam então, Elladan deu as costas por alguns instantes escondendo disfarçadamente o rosto, mas Elrohir explodiu em uma risada musical que despertou a atenção de toda a loja.
"Por todos os anjos, Einarr." Estel reclamou alguns passos adiante. "Já não estamos chamando atenção o suficiente? Você ainda precisa de mais?"
O gêmeo mais novo apoiou as mãos nos quadris e baixou a cabeça, balançando-a sem parar em sua indignação mais do que visível. Legolas, que enrubescera terrivelmente com a demonstração exagerada do gêmeo, agora fazia o possível para camuflar-se no meio de alguns paletós.
"Presumo que seu pai também usava a espada de madeira." Indagou ironicamente o gêmeo, após recompor-se.
Legolas estalou os lábios.
"Não." Ele mentiu com ironia. "Ele usava a grande espada Sindar e destruía as minhas em um único golpe." Disse então, sacudindo a cabeça. "É claro que usava."
"Merda... e eu não estava lá para desenhar essa cena..." Ria-se muito mais agora o gêmeo. "E não havia máquinas fotográficas... nem câmeras... nem nada que registrasse momento tão inédito e..."
"Pare com isso, Elrohir." Legolas mostrou-se finalmente irritado. "Se você tivesse a oportunidade de travar uma luta contra meu pai, fosse ela com espadas de metal puro ou madeira, você não estaria aí achando que perdera a cena cômica da era."
"Ah, claro..." O gêmeo fingiu concordar, disfarçando propositalmente seu tom. "Espadas de madeira são armas mortais e..."
"Cale a boca Einarr." Estel aproximou-se indignado. "Não o provoque."
"Ele sabe defender-se sozinho, humano bobo."
"Elfo bobo." Estel retribuiu imediatamente e os dois quase esqueceriam-se de onde estavam se a figura austera de Elrond não surgisse no momento exato.
"Por tudo o que tem importância nessa terra, crianças." Elrond disse com suas sobrancelhas arcadas em um v profundo. "Estão chamando mais atenção para si mesmos do que se estivessem sob as estrelas."
E os dois filhos camuflaram seus rostos em uma máscara perfeita de obediência e concordância, que caiu em poucos segundos, desvendando mais um grande ataque de riso, que foi acompanhado por Elladan.
Elrond sacudiu a cabeça e resgatou do meio dos filhos o enrubescido príncipe, que sentiu um grande alívio em poder afastar-se um pouco do bem humorado Elrohir.
Celebrian então se aproximou, segurando algumas peças de roupas.
"Achou algo que a agradou, nana?" Indagou Elladan, olhando intrigado para as camisas que a mãe carregava. Com certeza ela não intentava comprá-las para o pai.
A elfa olhou para as peças coloridas que segurava e abanou a cabeça negativamente.
"Não, querido. Nada. Se não tivesse outras opções preferiria fazer as camisas de seu pai ao vê-lo usando estas" Ela respondeu sorrindo. "Ele fica muito bem nas roupas que faço para ele, não acham?"
Os três filhos sorriram e concordaram. De fato a mãe tinha uma grande habilidade, embora há muitos anos não costurasse mais.
"Mas nana." Elrohir voltou a olhar para as peças que a mãe trazia nos braços. "Não pretende levar nenhuma dessas?".
A elfa acenou negativamente e os três filhos olharam-se confusos.
"Então porque está segurando essas roupas todas?" O gêmeo insistiu e a loura elfa lançou-lhe um olhar travesso.
"Estou chamando a atenção. A minha maneira." Ela riu baixinho e os rapazes trocaram olhares de interrogação.
"Como assim?" Estel encarregou-se dessa vez da indagação.
Celebrian ergueu disfarçadamente uma camisa que trazia nos braços, fingindo olhar para ela com admiração.
"Estou atraindo a atenção daquela vendedora ali." Ela olhou sorrateiramente e os filhos fizeram o mesmo. Há poucos passos uma jovem loura de fato acompanhava os movimentos da elfa como qualquer vendedor da loja tinha o hábito de fazer. "É a única vendedora mulher desse estabelecimento, sabia? Provavelmente está encarregada em atender as mulheres que se atrevem a entrar em uma loja masculina."
Elrohir franziu tanto o rosto que sua dúvida pareceu fazer parte de sua aparência definitiva.
"Nana, deixe de rodeios!" Ele irritou-se. "Por que quer chamar a atenção dela?"
A elfa voltou a olhar sorrateiramente para a bela jovem.
"Para que tenha olhos para mim e não para o pai de vocês como estava tendo há poucos minutos." Celebrian riu um pouco mais um pouco, enquanto agarrava displicentemente uma nova camisa e a juntava ao monte que carregava, voltando a circular distraída pela loja, sempre acompanhada pelo olhar da jovem loura.
& Planos &
Estel olhou-se mais uma vez no espelho depois de aparar a barba. Era a primeira vez que a deixara crescer por completo e não apenas um cavanhaque ou uma barba rala. Virou o rosto novamente para a esquerda, para a direita, franziu as sobrancelhas, torceu os lábios tentando perceber se estava de fato diferente ou se seus inimigos ainda o reconheceriam sem muito esforço. Suspirou. Não. Com certeza não o reconheceriam pois nem ele mesmo estava se reconhecendo ultimamente. Algo dentro dele parecia diverso, como um fruto que subitamente amadurece. Ele suspirou mais uma vez, abrindo a porta do pequeno armário para guardar os apetrechos que usara e sobressaltando-se por, ao fechá-la, encontrar o reflexo da figura do pai atrás dele.
"Ada" Ele disse, tentando tolamente se recompor, jamais se habituaria com aqueles movimentos élficos quase imperceptíveis.
"Estel". Elrond respondeu com um leve sorriso. "O que há em seu rosto que lhe pede tanta atenção assim?" Indagou, mesmo conhecendo inteiramente a resposta àquela questão.
Estel deu uma volta completa, apoiando-se na pia do banheiro ao olhar para o pai.
"Estou diferente, ada?" Indagou, erguendo levemente o queixo e enchendo o peito como quem teme pelo que vai ouvir. Ele conhecia o pai o suficiente para saber que era exatamente quando indagava as questões mais simples que recebia do lorde elfo as mais complicadas respostas.
Mas nem tudo é como sempre foi.
"Está." Elrond apenas respondeu e os olhos de Estel se apertaram naquele mar de dúvidas. Por tudo o que era sagrado. O guerrilheiro pensou. Seu pai realmente sabia surpreender a todo o instante. Como, mesmo usando de uma simples palavra como resposta, ele ainda conseguia complicar tanto as coisas?
"Estou?"
"Está." Elrond repetiu e sorriu agora, segurando o filho e o puxando para fora do banheiro. Estel seguiu-o um tanto confuso e Elrond envolveu-o com um de seus braços enquanto caminhavam até a sala, onde Legolas assistia ao noticiário com as pernas cruzadas por sobre o sofá. Estel ainda ficou em pé mais alguns instantes, esperando que o pai lhe dissesse mais alguma coisa, mas Elrond apenas se afastou dele e foi ficar diante da janela aberta, apoiando-se despretensiosamente por sobre o parapeito. O guerrilheiro sacudiu a cabeça então e sentou-se ao lado do amigo louro.
"Novidades, Azrael?" Ele indagou ao ouvir a vinheta do encerramento do jornal.
Legolas aproximou os joelhos do peito e enlaçou-os com os braços, apoiando o queixo sobre eles. Estel o ficou observando com um sorriso.
"Ou você é muito magro ou muito flexível." Ele comentou e Legolas sorriu também. "Diga-me as novidades, meu ouvinte mor."
O arqueiro ficou olhando a televisão por mais alguns instantes, o pequeno sorriso congelado na face, mas a mente muito, muito distante.
"O chanceler vai fazer um comício amanhã." Ele informou depois da pequena pausa. "Naquele monumento que você me mostrou quando fomos a loja de roupas, lembra-se?"
"Aham." O guerrilheiro respondeu distraído, olhando para o comercial de uma agência de viagens que mostrava uma pequena casa em uma praia distante. "Quando me livrar de toda essa política ainda vou viver em um lugar assim." Ele sorriu com olhos sonhadores. "Eu e Nika."
Legolas seguiu o olhar do amigo a tempo de ver a cena antes que desse espaço para o próximo comercial. Ele suspirou em seu silêncio e sorriu consigo mesmo, guardando no peito o desejo que tinha de que o bom Aragorn conseguisse finalmente ter a paz que não tivera como rei de Gondor. Sim. Aqueles eram outros tempos e Legolas enfim percebia grandes e valorosas diferenças, entre elas a que Estel não estava condenado a um posto de liderança para toda a sua vida.
Sim. Aquela era uma das vantagens de um sistema como aquele.
"Espera aí!" A voz do amigo humano arrancou o elfo de seus devaneios. "Já é amanhã?" Ele indagou olhando para o relógio de pulso.
"O quê?"
"O comício que você mencionou, Azrael. Já é amanhã?"
"Sim." O arqueiro respondeu, voltando a soltar as pernas e apoiando ambos os pés descalços no chão. "Por que, Aragorn?"
"Esqueci-me completamente." Estel ergueu-se então, puxando o celular e digitando alguns números. Legolas inquietou-se, mas permaneceu em silêncio, uma coisa aprendera bem na Terra-Média Renovada: ter o olhar de alguém que está com um celular no ouvido nem sempre quer dizer que você tem a atenção dessa pessoa.
Elrond aproximou-se então, tomando ele agora o lugar deixado vago pelo filho. Legolas sorriu para o mestre e o Elrond retribuiu, apoiando um braço nas costas do arqueiro que rapidamente se aproximou, encostando sua cabeça no ombro do curador. O lorde elfo suspirou aliviado, conhecedor como ele só de que aquela atitude era sempre uma mostra de que tudo estava bem com o príncipe.
"Ami?" A voz de Estel soou, enquanto aproximava-se um pouco da porta da cozinha em busca de um sinal melhor. "Não. Eu não troquei a droga do aparelho ainda, Ami." Estel sorriu, balançando a cabeça. "Como vão as coisas? Sim... Sim... Sim..." Ele repetia agora, girando o corpo em pequenos círculos, quase sem sair do lugar. "Estou bem, Ami. Obrigado. Sim... Sim deu tudo certo... Ami, eu queria saber como ficou resolvida a questão que discutimos há duas semanas... É... isso mesmo... Você conseguiu falar com o Grande Tigre? Conseguiu? Bem... o que ele respondeu? Ele disse o quê? Fale mais alto... ELE DISSE QUE SIM? NÃO ACREDITO!" Estel voltou-se com um sorriso para o pai e o amigo que o olhavam intrigados. "Não. Quero dizer, sim, claro que vou. Você vai estar lá? Está certo. Sim sim, ele vai comigo, eu havia prometido. Pode deixar, tomarei os cuidados e farei tudo como você me instruiu. Está bem... está bem... está bem..." Estel repetiu com um ar de fingida intolerância e piscou para Legolas que lhe sorriu. "Certo, Ami, pode deixar... Certo, vai sair tudo como você acertou... sempre sai, não sai? Um abraço."
E com isso Estel desligou o celular, mas permaneceu onde estava, apoiando ambas as mãos na cintura e baixando a cabeça. Parecia subitamente preocupado.
"Quem é o Grande Tigre, Estel?" Elrond indagou, erguendo-se e caminhando em direção ao filho humano.
"É o Chanceler Branimir, ada." Estel respondeu sem se voltar. "O candidato à presidência."
Legolas empalideceu.
"Por que estavam falando sobre ele, Aragorn?" Ele apressou-se em perguntar e a ênfase que lhe escapou foi tão significativa que Elrond voltou-se no mesmo instante para encará-lo.
"Porque ele finalmente vai me receber, Azrael." Estel revelou entusiasmado, passando pelo pai e sentando-se ao lado do amigo. "Espero saber o que dizer a ele."
Legolas empalideceu ainda mais.
"Vai ver o Chanceler? Vai encontrar com ele?"
"Vamos." Estel ofereceu um sorriso carinhoso ao elfo, mas ainda havia a sombra da insegurança perturbando o rosto do guerrilheiro. Aquele de fato era um encontro importante para muita gente. "Não esqueci a promessa que te fiz."
Elrond franziu o cenho.
"Que promessa é essa da qual não tenho conhecimento." Indagou o curador, voltando a se aproximar e puxando uma cadeira para sentar-se diante dos rapazes.
"Amanhã vou a uma reunião com o chanceler e Azrael vai comigo, ada. Eu havia prometido a ele."
Elrond uniu ainda mais as sobrancelhas e se voltou para o elfo louro, cuja pele mudava novamente de cor. Legolas procurou imediatamente recompor-se. Aquela era uma oportunidade pela qual esperava há semanas, não podia deixar tudo a perder.
"Estou apenas curioso, mestre." Afirmou o príncipe, fingindo inocência. "Vejo-o todos os dias no jornal. É um grande líder e pode ser uma ajuda importante para Aragorn"
"Isso mesmo, ada." Estel tomou o rumo da conversa mais uma vez. "Pode imaginar se ele realmente se eleger? Ouvi de sua própria boca que julga a união algo a ser pensado... Seria como se o destino estivesse sendo retraçado e eu tivesse novamente um caminho de esperança a seguir."
Elrond uniu as palmas, olhando novamente para o caçula. Há tempos não o via tão animado e esperançoso. Os freqüentes atentados, as inúmeras mortes, haviam dilacerado as esperanças do bom Eleazar de tal forma que Elrond chegou a pensar que o jovem desistiria. Era mesmo muito bom vê-lo voltar a ter aquele brilho nos olhos que o caracterizava. Um brilho de pura fé.
"E vai levar Legolas com você a um lugar desses? Acha prudente, criança?"
"Não se preocupe, ada." Estel pediu. "Eu estou acostumado, minha rota agora é traçada todos os dias com segurança e o número de aliados que ocupa lugares estratégicos pelos quais preciso necessariamente passar cresceu. Ami fez um bom trabalho no que tange a minha segurança desde que deixou Nova Cillian para se refugiar aqui. Eu confio integralmente nele."
Elrond encostou-se na cadeira, analisando ainda o que havia de errado com aquela história que não o estava agradando, mas não conseguindo encontrar. Não podia simplesmente aprisionar os filhos em casa apenas porque um temor o estava incomodando.
"Vão apenas a praça do monumento?" Indagou.
"Ah." Estel estalou os lábios. "Nunca saímos só nós dois, quero levá-lo a alguns lugares antes." O guerrilheiro informou apoiando a mão no ombro do elfo que ofereceu-lhe um sorriso tímido. "Depois, no final da tarde, dou uma passada por lá. Um homem como Branimir não vai querer perder muito tempo com um qualquer como eu."
"Em que lugares pretende levá-lo, Estel?" Elrond perguntou.
"Ao nosso clube de tiro, o particular, e a outros lugares que freqüento se der tempo."
"Vai apresentar Legolas para seus amigos?"
Estel apertou os lábios e não respondeu. Elrond torceu levemente o pescoço e apoiou a palma na própria nuca massageando-a com um ar de total insatisfação.
"Ajude-me a compreender, Estel." Ele disse. "Sempre temeu por nós, nunca nos apresentou a ninguém, nem mesmo aos amigos feridos que trazia para o meu consultório. E agora pretende apresentar Legolas a seu grupo de guerrilha?"
Legolas respirou aliviado com o rumo que agora a conversa levava, ele pouco se interessava aonde mais Estel iria levá-lo, tudo no que pensava era na oportunidade de chegar perto o bastante daquele diplomata a ponto de descobrir se havia verdade ou ilusão nas idéias que criara nos últimos tempos. Aliás. Aquela mudança no foco do problema só o favorecia, fazendo com que o mestre voltasse sua atenção para outras pessoas que não fossem o chanceler.
"Na verdade, ada..." Estel ficou estranhamente constrangido e só então o arqueiro se inquietou. "Meus... meus amigos querem conhecê-lo."
"A mim?" O elfo louro indagou surpreso e Elrond franziu ainda mais o cenho.
"E por que razão?" Indagou o curador.
O guerrilheiro torceu os lábios incomodado, depois enfrentou o olhar confuso do amigo louro.
"Bem..." Ele tentou explicar-se.
"Bem?" Elrond demonstrou impaciência.
"É que... a... a... fama dele o precede, ada. Todos os meus amigos querem vê-lo."
Um silêncio no mínimo desagradável se fez e o constrangido Estel teve que enfrentar os rostos confusos e intrigados de dois elfos agora.
"É que Legolas..." Ele tentou explicar-se. "Ele... ele... Meus amigos querem conhecer a pessoa que salvou minha vida mais de uma vez... que enfrentou Drago e não pereceu e... Bem... Legolas tem... Ele tem uma fama..."
Elrond cruzou os braços.
"Uma fama..."
"É... é sim, ada."
O curador então fixou seus olhos acinzentados no filho com mais atenção do que Estel gostaria.
"Por que nome o chama quando indagam sobre ele, ion-nin?" Indagou e Estel perdeu levemente a cor.
"De... Azrael... eu o chamo de Azrael."
"Iluvatar, menino." Elrond voltou a se desencostar da cadeira e apoiou as mãos por sobre os joelhos. "Não deve criar esse tipo de ilusão, Estel. Já não basta a ilusão que carregam a seu respeito?"
"Não criei..." O guerrilheiro defendeu-se, franzindo o cenho. "É que... é que eu não sei como... a história do hospital vazou e... todos ficaram sabendo como ele escapou dos capangas de Drago."
"Ficaram sabendo? Como?"
"Bem... nós... temos alguns informantes, gente que serve a Drago, mas não participa do movimento. Então ficamos sabendo de uma história que fez alguns de nós rirmos muito, mas que intrigou a outros."
"Qual história?"
"A do... a do ser que é baleado e cai de uma altura incrível, mas... mas não morre... e que depois de poucos dias já é capaz de erguer-se de uma cama e..."
"E?"
"E assustar dois homens armados até o mais completo desespero." Estel riu nervoso e balançou a cabeça esfregando a própria testa com as pontas dos dedos. "Eles... os capangas... Kamil e Ales... pelo que soube os pobres homens mal conseguiam contar uma história coerente para Kakius e Drago... Eles ficavam repetindo que Azrael... que... que Legolas era um ser de luz... Que ele era..."
Elrond baixou a cabeça.
"Um anjo." Ele mesmo completou, sacudindo-a levemente.
"É." Estel arqueou as sobrancelhas e ergueu levemente os ombros. "Acham que ele é um anjo... Todos acham..."
"Mas você não pode deixar que cultivem esse pensamento, Estel." Elrond recriminou o filho. "Você sabe que isso não é verdade."
"Eu sei, ada... Por isso mesmo quero que ele vá até lá, quero que meu grupo o conheça, que veja que ele é apenas uma pessoa..." Estel voltou-se para Legolas, que observava atentamente a conversa sem entender muito bem, os olhos azuis deslizavam de um falante a outro, estampando uma visível busca por algum esclarecimento. Estel engoliu em seco diante daquele rosto alvo, daqueles olhos de um azul inacreditável, daqueles cabelos cor de pura luz, daquela inocência que despertava um sentimento que o guerrilheiro não conseguia traduzir.
"Apenas?" Elrond o despertou. "Legolas é apenas o que?"
"Apenas..." Estel forçou as palavras garganta a fora como hóspedes indesejadas e perdeu completamente a cor. "Apenas uma pessoa normal como... como nós..."
Elrond quase riu. Jamais ouvira uma mentira dos lábios do caçula. Ele era incapaz de dizer qualquer inverdade, por mais que fosse lucrar com ela.
"Bem, ion-nin." Disse o pai com condescendência. "Espero que consiga a façanha de convencer seus amigos de algo no qual nem você mesmo acredita."
