Capítulo 26 – O amor de Harry

Harry estava na biblioteca fazendo uma redação quando Snape apare atras de si.

- Professor Snape.

Levantou-se encarando-o. Snape era grande e poderia colocar medo nos outros alunos daquele recinto, mas no momento Harry sabia que Snape não tinha capacidade de fazer com que ele tivesse medo, pois precisava dele, estava desesperado, seus olhos mostravam isso, assim como suas olheiras e pele pálida além do que já era.

- Preciso saber onde ela está.

- Eu não sei onde é o lugar, mas sei como é o lugar.

- Creio que devamos ter essa conversa em um outro lugar.

Harry viu que Madame Pince o olhava tentando saber o que estava acontecendo.

- Siga-me – Disse Snape.

Os dois foram ate uma sala de aula vazia onde Snape o mandou sentar ficando ele mesmo em pé olhando a chuva cair do lado de fora.

- Quando ela está triste chora não é? – Perguntou Potter sem receber resposta – É como se ela quisesse despejar todas as lágrimas que não saem de seus olhos, um acumulo de tristeza, e quando está feliz o sol brilha.

- Viu tudo isso lendo a mente dela?

- Não, eu já sabia disso antes, sabia tudo sobre ela. Eu sabia que ela era diferente de todos, por isso procurei saber sobre ela, o observei durante esse tempo. Descobri que ela é uma vampira, que não pode sair ao sol, que não dorme, que não come, nem chora, mas que ama sem ter coração para bater. Ela ama fazer caminhada de manha antes do sol nascer. Ela sempre conversa com Hagrid e fica brincando com canino. Ficava muito na biblioteca quando não havia ninguém e gostava de te observar de longe, nas sombras.

Snape ouvia as palavras saírem da boca de Potter com tanta sinceridade que se perguntava se tinha o direito de dizer que ele a amava, pois jamais havia percebido todos os detalhes que Potter descrevia. Vivia sempre preso em seus problemas e no que tinha para fazer que não via verdadeiramente a mulher que ela era.

- O sorriso dela é lindo, mas agora ela os reserva somente para o senhor. Não posso deixar aqueles olhos misteriosos morrerem professor.

- E acha que eu posso senhor Potter?

- Eu não disse isso.

- Pois eu não posso. Exatamente por isso o chamei. Preciso saber onde é o lugar ou como ele é.

- Tudo bem. O lugar que vi era escuro....

- Não, eu preciso ver o lugar para saber se o reconheço, preciso ver tudo que sabe.

- Talvez o senhor não queira ver.

- Potter, o que está escondendo de mim?

- Nada.

- Não minta para mim Potter.

As mãos de Snape já estavam agarradas ao pescoço de Harry que o olhava temerosamente.

- Diga o que sabe.

- Eu vi, vi tudo que aconteceu à ela. Eu fiz o que me disse para não fazer em nossas aulas de oclumência. Eu entrei na cabeça dele.

- Está louco?

- Sim, eu estou, estou louco por ela, por isso entrei na mente dele. Por isso me arrisquei a ver tudo, mesmo sabendo que isso poderia causar um dano enorme, mesmo sabendo que eu poderia ter morrido e Voldemort poderia ter sabido de coisas que somente a Ordem sabe, mas eu fiz Snape e quer saber por que? Porque eu odeio você, porque ela ama você. Porque quando ela voltar ela irá direto para os seus braços e não para os meus e ainda assim eu a amo.

As puras palavras do menino doeram em sua garganta. Mais uma vez fora tomado por aquela dor em seu peito. Uma verdade que assombrava seus sonhos. Sempre haverá um Potter em sua vida. Sempre haverá um Potter para lhe roubar o que é seu.
Mas o que mais lhe dava dor de cabeça, o que mais lhe tirava o sono era pensar se deixaria isso acontecer. Se permitiria que um Potter lhe tirasse aquilo que ama de suas mãos, mesmo sabendo que aquela preciosidade seria mais feliz ao lado dele. Mesmo sabendo que ela sorriria mais, que teria mais felicidade ao lado daquele menino de olhos verdes.
- Tem razão Potter... ela voltará para mim e nada mudará esse fato – Sorriu de canto com os olhos fuzilantes e a mão em sua varinha – Legilimens.

Em seus anos de comensal ao lado da figura repugnante, Snape podia dizer que já fora para muitos lugares antes, que já estivera entre lixos e luxos.
Mas poderia jurar, seja por quem for, que jamais estivera naquele lugar. Naquela gruta fechada e claustrofóbica, naquele mofo e lama. Não existia sol, não existia vida, não existia luz e ar.
Só existia os barulhos dos vermes que rastejavam no chão imundo com lodo verde escuro que escorria nas pequenas pedras caídas.
Sabia que era apenas uma lembrança na cabeça de Potter, mas sentiu os arrepios do medo passarem por suas costas.
A luz de sua varinha não iria adiantar nesse momento, ele não podia fazer nada a não ser ouvir os gemidos baixos de algo escondido no fundo daquela escuridão.
Ele poderia tentar gritar, gritar por ela, chamá-la, ouvir sua voz dizendo onde estava, pedindo ajuda, mas ninguém escutaria, ninguém jamais o ouviria.
As lembranças mudaram, mas as paredes continuaram as mesmas, continuaram sujas e nojentas, contudo, desta vez havia um detalhe que diferenciava esse lugar e esse detalhe estava acorrentado e amordaçado.

Ana permanecia presa à parede, seus pulsos machucados sustentavam o peso do corpo. Suas roupas sempre muito bonitas e brilhantes estavam rasgadas e sujas. Seus pés estavam descalços mostrando uma unha arrancada no dedinho esquerdo. Seus cabelos desalinhados caiam em seu rosto belo e pálido, sujo e marcado.
Aproximou-se e tentou tocar no rosto da menina desacordada, mas sua mão passou por seu corpo como em um fantasma, um fantasma que ela estava se tornando.
- Ana – Sussurrou sentindo o peito explodir ao olhar para a barriga dela onde sua blusa estava rasgadas mostrando o ventre perfeito com um volume que seu filho tinha dentro dela.
Virou-se com a varinha em mãos quando ouviu risadas vindas da entrada da gruta.
Homens encapuzados aproximavam-se da menina. Tocaram-na com suas mãos podres e imundas, riram na sua cara, cuspiram em seu rosto.
- Tome cuidado Blend, o Lord não vai gostar de saber que sua filha está toda machucada.
- Ora, nós sempre podemos dizer que ela reagiu de forma difícil e não queria cooperar.
- Ele nos disse que podíamos dar uma lição nela até que ela aprendesse quem é que manda aqui. Ordens do Lord.
- Então vamos ver como ela se sai – Disse o mais alto de cabelos cacheados chegando perto dela – Ei, acorde boneca, nós sabemos que você não dorme e já acabou o horário de pensar na vida.
Imediatamente Ana abriu os olhos vermelhos e profundos e encarou seus possíveis carrascos.
- Diga-me belezinha, já decidiu de que lado ficará?
- Faça uma pergunta melhor Stanley, pergunte se esta piranha quer ter o filho ou não
Ana gritou quando seu ventre foi apertado pelas mãos grandes do comensal.

Bateram, riram, se divertiram ate que seus corpos foram jogados na parede em frente.
Voldemort caminhava lentamente em meio aquele lodo que sujava seus pés descalços.
- Mi...lorde.
- Calado Stanley, eu cuidarei de você mais tarde – Aproximou-se da menina – Oh minha criança, perdoe-me por eles, são animais sem modos – Levantou a mão para encostar em seu rosto, mas ela se afastou – Eu não faria isso minha cara, Sua vida e a de seu filho estão em minhas mãos.
Ele deu risada e afastou os cabelos dela.
- Tão bela. Parece a sua mãe. O mesmo cheiro de cabelo, os mesmos olhos expressivos, pena que eu não consigo lê-los como lia os de sua mãe. Tão tola, tão infantil e criança. Sabe, foi fácil seduzi-la, foi fácil ter dela o que eu queria. Mas ela nunca me contara que estava grávida. Nunca me dissera sobre você, não antes de você nascer, depois disso, quando ela me contou que tivera uma filha minha, uma menina perfeita eu quis saber quem era e onde estava, era meu direito, era meu dever de pai, protegê-la, trazê-la para mim, mas Lyra se negou e então tive que obrigá-la e quando ela não contou eu a matei – Riu olhando para os olhos vermelhos e assustados de Ana – Sim minha querida, eu a matei. Não servia de nada e só iria me atrapalhar. Pensei esse tempo todo que você estivesse morta e sinceramente torci para que estivesse. Mas aqui esta você.

- Me solte – Pediu Ana.
- Ora tente sozinha, você não é a mais poderosa de todas? – Riu gostoso chegando perto fazendo-a sentir seu bafo nojento – Você não pode minha cara, pois está fraca.
Seus poderes, sua força não estão lhe sendo útil. Mas sabe, minha filha, só poderei te soltar e cuidar de você, assim como um pai cuida de uma filha resfriada, quando estiver do meu lado.
- Jamais estarei ao seu lado, eu sei das coisas que faz. Jamais irei ficar ao lado de um assassino.
- Quanta hipocrisia. Quem é o pai de sua filha? Um anjo? Um santo? Não. Desculpe desapontá-la, mas Severus Snape é um assassino e ainda assim você foi para cama com ele. Não me venha dizer que não fica do lado de assassinos.
- O que...?
- Ora ora ora, ele não lhe contou, não lhe disse , não lhe contou sua vida, os propósitos dele. Vejo que ele não confia muito em você. Bom menino esse Severus.
Meu servo mais fiel, faz tudo que quero, tudo que mando.
- Severus jamais seria seu servo.
- Ora minha cara, você não sabe da missa a metade, Severus não é o que pensa minha cara.

Voldemort ria dela, se divertia em ver sua confusão, sua tristeza, seu medo. Era alimentado por esses sentimentos obscuros como se fossem seu pão de cada dia ao qual não poderia faltar jamais em sua vida.
- Severus – Suspirou desistindo de lutar com aquelas correntes – Não pode ser.
- Mas é.
A ultima coisa que Snape pôde ver foram os olhos vermelhos de pai e filha se encarando em um silencio mutuo, pois as lembranças mudaram repentinamente e agora Ana estava amarrada em uma cama grande e se contorcia. Seu belo rosto de marfim estava contorcido em dor, sua pele descamava e seus olhos arregalados mal se mexiam.
Voldemort estava parado ao pé da cama ao lado de uma bruxa baixinha de cabelos castanhos soltos pelas costas.
- Foi como eu disse milorde. Ela esta morrendo.
- Tudo isso por causa do maldito bebe?
- Sim milorde.
- Fácil minha cara, muito fácil de resolver. Mate essa criança.
Sua voz era fria, sem um único pingo de piedade. Parecia gelo, um iceberg parado em meio ao mar congelado.

- Sinto dizer que não será fácil desse jeito milorde. Ana e o bebe estão ligados um ao outro. Se um morrer o outro morrerá. Ela esta se alimentando do sangue dele. Se o bebe morrer seja por qualquer outra forma, ela morrerá junto. Mas não posso garantir que se continuar assim o bebe sobreviverá e nem ela.
- Não posso perdê-la. Ela é a pedra, ela é o poder, preciso tê-la viva, sem ela não poderei conquistar tudo que quero, sem ela não venceremos. Preciso dela viva. Faça o que puder fazer para salvá-la, se ela morrer a culpa será sua.
A mulher engoliu em seco imaginando que não seria nada bom desafiar Lord Voldemort e não seria nada bom não conseguir salvá-la. Agora a sua vida também dependia de outra vida.
- Tem uma chance dela se recuperar rápido.
- Qual.
- Dando sangue para ela. Pelo que vi ela jamais tomou sangue de um humano, como não sei qual será a reação dela nem do bebe se tomarem esse tipo de sangue eu recomendaria dar-lhe sangue de animais.
Os dois olharam para Ana com um sorriso no rosto e depois tudo sumiu.