Memória XXIV: Há quanto tempo?

Donos: Sirius Black, James Potter & Remus Lupin

Música: Whitesnake x 3


Para muitos, o pouco é suficiente. Para poucos, o muito ainda é pouco. Para os outros, apenas basta o que se tem a disposição. Que tal termos uma demonstração desses três exemplos?


:: James Potter ::
Whitesnake - Love Ain't No Stranger


Meu quinto ano em Hogwarts pode não ter sido um dos mais alegres da minha vida em alguns aspectos, mas foi onde eu comecei a traçar objetivos, ser persistente e amadurecer. Ainda que a última tenha demorado mais do que eu gostaria.

Ser só mais um cara, alguém com uma vidinha qualquer era algo que não combinava comigo. Eu meio que segui os passos do Sirius nessa loucura toda. Ele, desde o final do terceiro ano, me incentivava a ir atrás de algumas garotas. Ele dizia que eu as tinha na mão, que algumas com quem ele saía pediam para apresentar amigas para mim. Eu estava centrado demais em provocar problemas, desafiar a ordem de Hogwarts. Até o começo daquele ano.

Eu acabei me envolvendo com uma corvinal que, meu Merlin, era perfeita. Sexto ano, um rosto angelical, olhar sedutor e um corpo que, minha nossa! Eu, na primeira semana, pensava que tinha até me apaixonado...

E, mais tarde, descobri algo que me frustrou tremendamente. Assim como Sirius, ela fazia parte de algumas apostas. Eu era apenas uma aposta. Eu fui descartado como qualquer merda. Imperdoável. Uma sensação de vingança surgiu em meu peito. Eu ia fazer o mesmo com todas.

Dia após dia, mais e mais garotas iludidas por mim, ah, como era doce! Era como se eu estivesse revidando naquela corvinal. Durante o quinto ano todo, eu comecei a me tornar um fardo para mim mesmo. Um idiota, se olharmos de um ponto de vista. Eu estava desiludido. O amor não existia.


Um dia qualquer, lá pela metade do ano, eu a vi estudando, sob a minha árvore. Ela repetia algumas coisas e eu sorri. Fixação por repetição, todo mundo já fez. Eu me aproximei e falei de cima do meu pedestal.

- NOM de Herbologia? – perguntei com meu melhor sorriso.

Ela nem se virou, simplesmente fez um "a-hã" e continuou a repetir incansavelmente.

- Que tal deixar esse livro de lado e dar uma volta comigo pelo castelo? – propus com certa presunção. Era óbvio, para mim, que ela iria aceitar. Para ela não parecia tão óbvio assim.

- Por que eu deveria sair com você? – ela rebateu sem tirar os olhos do livro – Aliás, por que qualquer garota sairia com você? – eu quase recuei, surpreso – Você é só mais um imbecil arrogante, Potter. Gosta de contar o número de garotas com quem saiu, mas não se preocupa com elas depois. – ela me olhou por fim – Você é tão patético quanto seu grande amigo Black. –

Eu dei dois passos para trás. "Uau", pensei, "um desafio".

Só não sabia que, em menos de dois meses, ela se tornaria uma obsessão. A minha doce e amarga obsessão. Até porque o amor já não me era estranho.


:: Sirius Black ::
Whitesnake – Bad Boys


Eu sempre fui um galinha, embora eu odeie o termo. A primeira pessoa que jogou isso na minha cara foi uma sonserina do quarto ano. Você simplesmente não se deixa abalar. Primeiro porque você está além daquilo. Segundo, você não acredita que é. Não, eu não posso ser um galinha. Terceiro, porque você, bem no fundo, já sabe e já aceita aquilo como algo bom.

O mesmo sorriso de sempre, o mesmo jeito de andar, de falar, de chamá-las para sair. Nunca soube bem o motivo que me levou a agir desse jeito. Não vou me fazer de coitadinho, botar a culpa em minha criação, em minha família, ou no mundo injusto em que vivemos. Eu ainda assim vivia em um conto trouxa de fadas! Eu era assim porque eu queria ser assim, e talvez essa seja a melhor explicação.

Sexto ano, eu já estava cansado de sacanear James sobre a paixonite dele pela Evans. Era divertido ver a cara de tonto dele quando encarava a ruiva, observar a falsa prepotência dele quando estava perto dela... Tudo para chamar a atenção. E a idiota não conseguia sequer conversar com ele por mais de dez minutos. Era tão... Prongs.

Eu estava sentado, quebrando a rotina na biblioteca. Era raro eu ficar por ali, mas eu tinha meus motivos. Precisava de um pouco de paz e, sinceramente, que idiota procuraria Sirius Black na biblioteca? Um bom observador, talvez, pudesse presumir isso após verificar todo o Mapa e não me encontrar em lugar nenhum... Não adianta, achariam que o feitiço caducou.

Enfim, eu sempre gostei de observar. Observar pode ser divertido em algumas ocasiões, como assistir a alunos do quinto ano se descabelando pelos NOMs. Ou assistir algumas garotas estudando, entediadas... Pensei em ir a alguma delas, mas eu tenho certo problema com Corvinais, então... Fiquei na minha.

Entediante... O tempo ia se passando e eu ficava cada vez mais cansado de ficar ali. Embora não pudesse sair. A pequena multidão de garotas que corria pelos corredores a minha procura enlouqueceria e, se alguém me visse saindo da biblioteca, iria arruinar minha reputação. Além, é claro, de que eu precisava pensar... Bolar um plano, aliás.

Eu tinha que ajeitar a situação do Prongs. Se eu não o fizesse, mais cedo ou mais tarde ele se renderia àquele mesmo fantasma que tinha sofrido. Pensar, pensar... Ele simplesmente não pode continuar atrás da ruiva. Ou ele a consegue, ou vai ter que se conformar. Mesmo que eu diga isso, ele vai acabar reclamando e fugindo. Alguém tem que fazer a Evans ficar com ele por pelo menos um dia... Quem?

Eu tive um insight assim que olhei para a entrada da biblioteca, onde uma morena capaz de arrasar quase todos os corações de Hogwarts estava. Quem não conheceria Marlene McKinnon?

Ela andou até uma mesa e eu me levantei.

- McKinnon! – chamei, e me arrependi no instante seguinte. Madame Pince me olhou com seu olhar mais aterrador, me fazendo sentar mais uma vez. Ela desviou o olhar depois de praguejar – muito.

A McKinnon revirou os olhos e veio até minha mesa, com seu andar rápido e silencioso.

- O que foi, Black? – ela me perguntou sussurrando.

- Preciso de um favor seu. – falei usando quase todo meu charme disponível – Eu posso retribuir algum dia desses, se você quiser, mas é algo sério e é por isso preciso pedir... – eu me enrolei um pouco e ela arqueou a sobrancelha.

- Fala logo, Black! – sussurrou, mas ainda assim eu pude ver Madame Pince nos encarando sombriamente.

- Por favor, faça a Evans sair uma vez, pelo menos, com James. – eu falei com simplicidade.

Ela ficou estática, me encarando. Eu simplesmente sustentei o olhar.

- Você está louco? – ela perguntou um pouco mais alto e Madame Pince fez a pior cara que você pode imaginar.

- Não... – falei – É completamente plausível, e, assim, ele sairia do pé dela. Por favor... – Pedi com veemência misturando, agora todo meu charme e cara de quem precisa urgentemente de um abraço – e uma casa -.

- Não. – ela falou me encarando – E desfaça essa cara, eu não caio no seu charminho barato. –

Agora eu estava ofendido. Ela se levantou e ameaçou ir embora, mas eu segurei seu braço.

- Façamos uma aposta então. – eu falei com um sorriso enviesado – Dez galeões que você cai no meu charme. – ela esboçou um sorriso parecido com o meu – E mais dez se James conseguir ficar com a Evans antes de saírem de Hogwarts. –

Ela pareceu ponderar, mas eu estava decidido. Agora era a minha reputação em jogo.

- Fechado. – eu a soltei.

Ela saiu da biblioteca, me deixando ali. Continuei sentado e apoiei minha cabeça em minhas mãos, olhando para a mesa. Agora eram dois planos. Eu tinha um casal para formar e uma garota para enfeitiçar...

Nada que Sirius Black não consiga resolver. Nada que eu, mais um Grifinório malvado – ou engenhoso, tudo depende de como você quer ver -, não consiga pensar.


:: Remus Lupin ::
Whitesnake – Is This Love


Às vezes eu sou uma pessoa insuportável. Às vezes nem eu mesmo consigo me suportar, de tão insuportável que eu fico. E isso é... Insuportável. Eu sou um lobisomem. Mas não é isso que me torna insuportável, segundo meus amigos. Para eles, o que me torna insuportável é eu me preocupar demais em ser um lobisomem. Mas não é para se preocupar? Caramba, todo mês eu me transformo em uma criatura que só pensa em matar! Para mim, isso é insuportável.

- E se eu transformar alguém... Nisso? – perguntei para James, que me encarou e balançou a cabeça negativamente.

- E se eu transformar alguém nisso? – imitou Sirius, debochado. Eu bufei.

- Isso é sério! – exclamei, irritado.

- Isso é sério! – imitou James, ainda mais debochado, depois me empurrando, fazendo com que eu caísse de lado na grama – Relaxa, Moony. Não vai acontecer nada.

Estávamos todos sentados debaixo da árvore, perto do Lago Negro, discutindo a importância de eu ser um lobisomem. Quinto ano, senhores.

- Nós já sabemos de seu segredo há muito tempo, não é só porque viramos... – Peter olhou para os lados e eu ri da expressão dele de assustado por estar comentando em voz alta – Aquilo, que vai mudar alguma coisa na nossa amizade. – falou com um sorriso no rosto.

- O Wormtail tá certo, Moony. – falou Padfoot com um sorriso gigantesco em seu rosto – E... Talvez devamos comemorar por isso. – eu sorri. Tudo era prático para o Sirius. – Vamos deixar o Moony pensando. Dizem por aí que ele não gosta de infringir regras e, até onde eu sei, comprar Firewhisky não é algo que as regras permitam... –

Ele se levantou e os outros dois o seguiram, mandando apenas um "até mais" e um "nos procure no dormitório". Eu apenas me encostei ao tronco da árvore e fechei os olhos, aproveitando a sombra fresca naquele dia de calor.

Eu nunca acreditei em amor a primeira vista. Algo impossível na minha humilde opinião. Para mim, isso só acontecia nos romances que lia esporadicamente. Amor a primeira vista baseia-se simplesmente na aparência de uma pessoa. E isso é... Superficial de mais, talvez.

- Oi? – ouvi uma voz me chamar e eu abri um dos olhos. Olhando para mim estava a criatura mais linda que eu vi na vida. – Você tem horas? – ela perguntou com um sorriso nervoso.

Eu engoli em seco. Céus, como eu sou patético! Merlin, mande um raio sobre minha cabeça! Olhei rapidamente para o relógio.

- São três e meia. – falei com o olhar voltando para ela.

Ela me deu um sorriso ameno e agradeceu, desaparecendo com a mesma velocidade com que apareceu. Eu acompanhei-a com o olhar, correndo de volta para as amigas que riam incontrolavelmente... Ela tinha os cabelos castanho-claros, olhos cor de mel, um sorriso que eu não esqueceria tão cedo... Oh, droga.

Olhei para cima e vi a copa da árvore se agitando com uma brisa. Tão singular quanto aquela brisa, tão igual quanto as folhas daquela árvores... Era amor? O que eu estava sentido?

- Toda uma teoria sobre amor a primeira vista jogada no lixo... – resmunguei, me levantando e andando na direção do castelo. Por quê? Precisava saber o nome dela, não é óbvio?


N/A: Momento Whitesnake, da minha vida. Para mim, são as três músicas que mais combinaram com essas três curtas memórias. Quem gostou já sabe o que fazer. Quem não... Também, eu espero. Sem muitas idéias... Pensando, pensando... Preciso pensar.