Capítulo 28

Elle sentou-se no seu lugar colocando a mala em cima da mesa. Quando McGonagall entrou na sala, Elle tirou os livros imitando o gesto dos colegas. Não parava de pensar que se Irina conseguisse que ela ficasse com Malfoy como par, ela tinha que arranjar uma maneira dele confiar em si. No fundo, tinha que se dar a conhecer de uma forma contida.

A aula decorreu normalmente. Os alunos tiravam notas da matéria. Foi só quando faltavam dez minutos para a aula acabar que McGonagall falou sobre o trabalho dos transmorfos.

- Muito bem, eu já tenho os pares para o próximo trabalho. – Elle viu que a professora estava profundamente irritada. Enquanto a professora anunciava os pares, estes olhavam um para o outro, Elle não deixou de reparar, até porque o seu par não fez nada disso.

Quando saiu da sala, Elle só pensava nas palavras da professora McGonagall, que dissera que aquele trabalho era importantíssimo para a nota final de avaliação. Não é que, naquele tempo, o que mais lhe importasse era as notas que tinha, mas ela sempre gostara de ver um brilhante a Transfiguração. Queria saber se isso aconteceria também com aquela professora, apesar de McGonagall não ter grande afecto por si. É claro que Elle sabia que não era preciso afecto, mas mesmo assim tinha receio de não estar à altura.

Naquela tarde, Elle sentou-se na sua cadeira, no seu quarto. Laura não estava lá e ela pensava que agora já não tinha tantas reuniões com o grupo da Sala Escondida e que tinha que praticar mesmo assim. Não era difícil, podia sempre treinar no quarto com Laura. O pior eram os seus amigos. Alguns dividiam o quarto com pessoas com outros ideais, o que tornava bastante perigoso praticarem naquele local. Ainda bem que tinham a Sala Escondida. Assim podiam praticar lá. E muitos iam para outras salas do castelo fazê-lo, porém o mais longe possível das Masmorras.

No fim do jantar, Elle caminhou em direcção às masmorras. Tinha que arranjar alguma coisa para fazer porque senão estaria sempre a pensar no que devia falar com Malfoy ou no grupo e precisava de realmente fazer alguma coisa prática.

- Rouchouse. – A voz de Malfoy fê-la olhar para trás. O monitor da sua equipa estava com a mala cheia de livros, Elle percebeu pelo volume. – Vamos fazer o trabalho? – Elle sorriu. Malfoy não tinha simplesmente "informado" que iam fazer o trabalho, ele tinha perguntado.

- Sim. – Ela respondeu colocando-se a seu lado. – Escolhe onde. – Pediu. Na verdade, ela ainda não conhecia muitos dos cantos da casa. Era de bom grado que o deixava escolher até porque se fosse ela… Bom, ela só conhecia muito bem o caminho por onde passava para a Sala Escondida e o caminho para a sala de encontro com Irina.

- Vamos para aqui. – Ele abriu uma porta e Elle passou por ela enquanto ele esperava. – Já pesquisaste alguma coisa? – Elle sorriu sentando-se e abrindo a mala.

- Na verdade, ainda não fui à biblioteca requisitar algum livro, se é isso que perguntas. – Elle tirou um livro da mala. – Mas, apesar de eu ainda não ter feito isso, tenho a certeza que sei mais sobre transmorfos do que tu. – Malfoy encostou-se à cadeira cruzando os braços.

- Ah sim? – Ele perguntou levemente divertido. – E posso saber porque é que a Mademoiselle sabe mais do que eu sobre esse assunto que eu li em tantos livros?

- Claro que sim. – Elle respondeu tirando o seu material de escrita para fora. – Ao contrário de ti, meu caro Malfoy, eu sou uma pessoa interessada em várias áreas que transmitem conhecimentos úteis à vida de uma feiticeira do meu nível, de boas famílias, de classe, bonita, inteligente e, claro, excelente voadora. Transfiguração é uma dessas áreas.

- Estou curioso, Rouchouse, no meio de tantas qualidades, tens por acaso algum defeito? – Elle olhou-o indignada.

- Achas que eu tenho defeitos? – Ela perguntou com a mão no peito. – O meu único defeito é, talvez, ser modesta demais. – Eles riram com aquela afirmação.

- Tu até me fazes rir, Rouchouse. – Ele disse sincero. – E nestes tempos é difícil tal feito, garanto-te. – Malfoy abriu o livro que Elle havia tirado da sua mala. Todo o livro era dedicado aos transmorfos. – Este trabalho vai exigir muito tempo da nossa parte, mas ela também deu bastante tempo. "Do teu querido amigo e melhor irmão, Leon. Espero que aproveites este presente ao máximo." Ele gosta mesmo de ti, não gosta?

- Eu e o meu irmão somos muito parecidos. – Elle respondeu simplesmente, encolhendo os ombros. – Gostamos muito um do outro.

- Eu sou filho único. Eu não gostaria nada de ter irmãos. Eles são tão chatos. Querem sempre meter-se na vida dos irmãos. – Elle sorriu perante aquela afirmação.

- Sim, é verdade. – Elle abanou a cabeça. – Mas preocupação não é uma coisa má. Eu não consigo imaginar-me sem um irmão. Eu imagino que a tua casa é enorme, certo? – Malfoy concordou com a cabeça. – Nunca sentiste-a muito vazia? Eu lembro-me de ter seis anos, foi o primeiro ano do meu irmão, e sentir a casa muito vazia. A minha mãe dizia até que eu andava mais tristonha.

- Eu acho que nunca senti isso porque me habituei a ser só eu e os meus pais. – Malfoy disse aproximando a sua cadeira da de Elle. – Para mim, sempre foi algo natural ter aquela casa enorme só para mim, sem mais alguém da minha idade com quem fazer as minhas brincadeiras de criança. E acho também que os meus pais sempre tentaram fazer com que eu não me sentisse muito sozinho. Eles brincavam comigo, passeavam comigo. Perto de nossa casa, há um pequeno rio e eles levavam-me para lá. Nadávamos e comíamos na margem. – Elle sorriu imaginando a cena. – Por que razão te estou a contar isto a ti? – Malfoy abanou a cabeça afastando-se de Elle que lhe ia segurar na mão. – Vamos fazer o trabalho ou não?

- Sim. – Elle recompôs-se e colocou o título do trabalho na folha de papiro. Eles começaram então a falar sobre transmorfos e a fazer um apanhado de todos os transmorfos conhecidos. Elle já falava da sua tese e ele tentava então fundamentá-la com mais argumentos para além dos que ela já tinha. – Então, e tu, tens alguma tese?

- Na verdade, ainda estou a pensar nisso. – Malfoy sorriu inocentemente.

- E já estavas tu pronto para me dares uma descascadela por não ter pesquisado para o trabalho. Bonito, muito bonito, Mr. Malfoy! – Elle disse divertida. – Então, ainda não pensaste realmente no trabalho? Está bem. – Ela censurava com a cabeça. – E eu que pensava que, quando começássemos o trabalho, tu já terias metade feito. O quanto estava enganada…

- Tu também não estavas à espera que eu fizesse o trabalho por nós dois, pois não? – Ele perguntou erguendo uma sobrancelha. – Eu não vou fazer isso, Rouchouse, fica já a saber.

- Ai, Malfoy, podias fazer isso por mim. – Elle sentou-se no seu colo. – Eu, ultimamente, ando tão mal-disposta. – Malfoy olhou-a divertido.

- Vê lá, Rouchouse, eu julguei mal, pensei que não ias ter muita sorte aqui, mas… Se te sentares ao colo de todos… - Elle olhou para si mesmo rindo. – Eu tinha cuidado se estivesse no teu lugar. Vê lá que podes ter gerado um filho sem contares. – Elle levantou-se ajeitando-se.

- Por quem me tomas, Malfoy? Pensas que eu sou o quê? – Ela perguntou com a cabeça erguida superiormente. – Eu dou-me ao respeito. Pois fica sabendo que eu sei comportar-me. E eu só espero que a minha fama de namoradeira não me assombre mais nenhuma vez.

- Porquê? Deixaste-te disso? – Ele perguntou curioso.

- Hogwarts não é um terreno fértil para mim. Parece que os rapazes daqui não têm estofo para mim. – Malfoy riu divertido.

- Estofo? – Malfoy levantou-se e encostou-se a ela. – Se calhar tu é que não tens… estofo. – Elle abriu a boca indignada.

- Achas que não? – Elle perguntou pegando na mão dele e levando-a até à sua cintura.

- Diz-me uma coisa, Rouchouse. – Ele pediu apertando a sua cintura. – Até que ponto eras namoradeira? – Malfoy perguntou ao seu ouvido. Elle afastou-se sentando-se na cadeira.

- Já que sabes tanto sobre a minha vida, porque é que não me dizes tu? – Ela falou vendo-o sentar-se. Malfoy olhou-a com uma sobrancelha erguida.

- Achas que eu sei assim tanto ao ponto de saber promenores da tua vida pessoal? – Ele respondeu com outra pergunta. – Estás com medo de responder, com vergonha?

- Por que razão é que teria eu vergonha de uma coisa tão natural como namoros? – Elle ergueu a cabeça.

- Eu só digo isso porque até agora tu ainda não me respondeste. Estás constantemente a fazer-me perguntas. – Ele disse por fim fazendo pensar na conversa.

- Tens razão. – Ela disse abanando a cabeça. – Bom, se queres saber, pergunta a um deles. – Elle começou a escrever com um sorriso triunfante.

- Não é que eu não perceba só de falar contigo. – Malfoy disse-lhe ao ouvido. Ela nem se apercebera que ele se tinha aproximado. – Eu só queria ouvir-te dizê-lo. Achei que seria bastante… - Malfoy contornou a linha do pescoço de Elle, que afastou com a sua mão a dele.

- Já chega, Malfoy. Agora que já brincámos, vamos fazer o trabalho que, como tu disseste, exige muito tempo. – Malfoy sentou-se na cadeira sorrindo. – E eu quero ter brilhante a Transfiguração.

- Está bem. – Ele disse escrevendo sobre um dos transmorfos que ele ficara de falar. Elle começou a fazer o mesmo. Duas horas se passaram enquanto eles escreviam a sua parte do trabalho. – Eu só espero que tanto trabalho valha para alguma coisa. – Malfoy reclamou de repente assustando-a. – Desculpa, não queria assustar-te.

- Não, não foi nada. – Ela riu-se de si própria. – Eu tenho esta coisa… Quando eu estou a escrever ou a ler sobre Transfiguração durante algum tempo, fico bastante absorta nisso e é como se me desligasse de tudo à minha volta, percebes? Não há mais ninguém, só eu e aquilo. Depois, claro, quando as pessoas me chamam ao mundo real, eu… Bom, tenho algumas destas reacções, como tu viste. – Malfoy encostou-se à cadeira olhando-a atentamente. – O que foi?

- Nada. – Ele respondeu. – É que só que quando eu penso que não há mais nada para saber sobre ti, eu descubro mais alguma coisa. É curioso. – Elle arrumou as coisas. – Já vais? – Malfoy também arrumou as dele.

- Então, queres dizer que tu não sabes muito sobre mim? – Ela sentou-se na mesa de frente para ele.

- Não. – Ele respondeu olhando-a. – Eu sei muito sobre ti, mas não sei muito da tua personalidade. É diferente. Nós podemos pensar que é sabendo alguns actos de uma pessoa que a conhecemos. Mas nós só conhecemos uma pessoa verdadeiramente quando sabemos por que razão agiu da maneira que agiu. Uma pessoa aos teus olhos pode parecer muito simpática, disposta a ajudar os outros, mas na sua cabeça, pode fazer isso de forma interessada, para lhe retribuirem. E, no entanto, uma pessoa pode parecer distante das pessoas, sem querer ajudar e, na sua cabeça, ter a ideia de que ajuda mais se a pessoa resolver os seus problemas por si, aprendendo com a vida. O que importa é o que vai aqui… - Ele disse tocando com o indicador na cabeça de Elle. – e não o que fazemos.

- E é sempre assim? – Elle perguntou. – Devemos sempre tentar conhecer uma pessoa antes de a julgar pelos seus actos? Devemos fazê-lo mesmo que essa pessoa tenha afectado a condição humana de uma pessoa que amamos?

- Há alguns actos que falam por si, Rouchouse, não vou dizer o contrário. – Malfoy falou olhando para a janela da sala. – Há actos que sabemos que são próprios de uma pessoa. E, no fundo, é pelos actos que as pessoas são julgadas, tanto diariamente, como nos tribunais. Mas, quem sabe realmente quem é aquela pessoa que parece tão distante? – Ele olhou-a mais uma vez. – Tu pareces-me uma pessoa a mim, mas um dia poderei vir a surpreender-me. Tudo muda, Rouchouse, e as pessoas não são excepção. Nós temos o direito de mudar. Aliás, o ser humano tem a capacidade de se superar, de aprender com a experiência, de aprender com os outros. A mudança é algo irreprimível.

- À medida que crescemos, mudamos. – Elle concordou acenando com a cabeça. – E eu posso mudar. E tu podes mudar. – Elle olhou para a sua saia. – Bom, eu só espero que, se mudarmos, seja para melhor. – Malfoy riu com a sua afirmação.

- Quem sabe como seremos daqui a alguns anos? – Ele perguntou levantando-se e erguendo a cabeça de Elle. – Tu em França, eu em Inglaterra. Ou ao contrário, nunca se sabe. Eu só sei uma coisa. – Elle olhou-o nos olhos. – Onde quer que eu esteja, não vou esquecer a francesa namoradeira que adorava Transfiguração e que teve o dom de me fazer revelar o que eu pensava sobre personalidades. – Ela sorriu ao que ele acompanhou.

- Eu também não me vou esquecer de ti, Malfoy. – Elle riu quando o viu surpreendido. – Queres saber porquê? – Ela perguntou, ao que ele acenou positivamente com a cabeça. – Porque és o primeiro rapaz que olha descaradamente para o meu decote. – Eles riram.

- Eu não acredito nisso. – Ele disse encostando-se a ela. – Tenho a certeza que não sou o primeiro.

- Tentaram sempre disfarçar. – Ela afirmou. – Mas na verdade nunca me vou esquecer de ti porque tu fizeste com que eu pensasse bastante nas coisas.

- É, eu tenho esse dom. – Ele disse segurando-a pela cintura. – Mas também tenho o dom de fazer com que vocês não pensem em mais nada. – Malfoy afastou o cabelo de Elle olhando-a nos olhos. O nó do seu dedo percorreu o decote da francesa. Ela pegou na mão dele.

- Eu tenho que ir, Malfoy. – Elle pegou na mala. – Depois combinamos uma hora para continuar o trabalho. – Ela disse antes de fechar a porta.