A HERANÇA DO CÁRCERE - OS FILHOS DO INQUISIDOR
XXVIII
Naquela noite, Timóteo dormira em um dos quartos de hóspedes da casa. Assim que acordara, fora até a sala de estar e tomara o desjejum. Ninguém ainda havia saído de seus aposentos de dormir, dado que ele de fato acordava bastante cedo - e Violante, a qual nos tempos de Expedito vivo também acordava bastante cedo, desde que o homem lhe morrera dormia quase a maior parte do dia; quando estava acordada, apenas ficava a abraçar o travesseiro que era dele e a mirar os livros de atas da inquisição sem ler, apenas para ver a letra dele; ou ainda, tentar em vão rezar por sua alma. Tentava respeitar o luto ao vestir preto, mas na maior parte do tempo somente usava camisola e sequer lembrava de pentear os cabelos.
Logo, Timóteo ouviu passos na escada a qual levava ao andar de cima; era Teodora, a qual descia para tomar o desjejum, acompanhada por Julinho já afoito por lhe fazer perguntas.
- Mamããããe, cadê vovô?
- Vovô não vem mais, Juju; eu já lhe disse!
- Mas po que não vem, mamãe?
- Ele foi embora.
- Pa onde?
- Pro céu.
- Mas po que vovô foi po céu, mamãe?
- Porque chegou a hora dele, meu filho.
No meio daquilo, ela sequer percebera que o irmão estava na sala; e soltou um "ah!" de surpresa ao constatar que havia um homem lá; não estava acostumada com ele em casa, por um instante também, como Violante na noite anterior, imaginara ver a um fantasma de Expedito mais jovem.
- Timóteo! És tu!
- Sim, sou eu.
- Que fazes acá? Não tens a paróquia para olhar?
- Pois tenho; o problema é que agora não há ninguém para cuidar de nossa mãe.
- Tem eu - disse ela, enquanto sentava à mesa e uma das criadas a servia.
- Tu tens a teu marido e a teu filho; eu sou livre desses compromissos.
- Entendo! Mas e a paróquia?
- Eu a coloquei ao encargo de outro padre. E talvez isto se dê de forma permanente...
- Permanente? Como assim?
- Sim. Veja, devo falar baixo; mas-
Enquanto ele falava, Julinho chamava a atenção da mãe para mais alguma coisa; mas ela mandou o filho para junto de Mariana, para que pudesse falar em paz com Timóteo. O sacerdote continuou:
- Veja. Falaram comigo, e me disseram que posso ser empossado como o novo inquisidor-mor.
- Sério? Mas não teme ser morto também?
- Não. Não posso contar tudo agora, mas não serei morto. O novo governo não quer torturas, nem punir aos hereges de forma tão abrupta; eu, que nunca fui a favor das torturas, agora estou disposto a seguir este ditame.
- Entendo! Mas... e nossa mãe?
- Ela é algo que me preocupa. Não sai da cama?
- Não; somente quando a tarde começa a cair, que é quando Expedito costumava voltar para casa. Aí então se levanta, pega os livros e chora em cima deles, para de noite se deitar outra vez.
- Se continuar desse jeito, morre!
- Pois sim; mas eu não consigo ter pena dela. Me desculpe, Timóteo, mas não consigo.
O jovem padre até entendia a irmã; porém, ele tinha mais ligação com Violante do que ela. Queria ajudar a mãe, agora que a mesma estava livre de Expedito; mas como?
Teodora continuou:
- Timóteo, agora que Expedito morreu... eu e Pedro poderíamos sair de casa afinal de contas?
- Bem, apenas te peço para que espere o período em que acabará o luto. Uns seis meses, mais ou menos,
- Tudo isso? Eu já esperei demais!
- Eu sei; mas agora com a morte dele, ficará mais fácil de fazer o que deseja.
- É verdade. Mas ainda tem... ela. Nossa mãe certamente tentará ainda seguir os passos de Expedito, mesmo com ele morto.
- Pensa que ela o fará?
- Tenho quase certeza.
- Sério?
- Sim. Ela agora está fraca, está a se recuperar; porém, não é algo do qual ela se desfará tão facilmente.
- Compreendo. Bem, mas penso enfim em enviá-la a um convento após o luto. Não que queira me livrar dela, mas como inquisidor-mor, viverei nesta casa; e ela precisa de atenção de outras mulheres, eu não poderei cuidar dela enquanto exercer ao cargo.
Enquanto ainda falava, Timóteo sentiu uma presença atrás de si; olhou para trás e era Violante a vestir a camisola, os cabelos revoltos, os olhos feros. Parecia mais uma fúria do que uma mulher. Estava ainda abatida, porém com ódio nos olhos.
- Que estão a falar de mim?!
- Minha mãe, sente-se para comer-
Timóteo sequer pôde terminar de falar, porém logo em seguida teve um tapa a varar sua face.
- Que é isso?!
- É o que tu mereces! Filho ingrato! Então cuidamos de ti, damos estudo, cargo na paróquia - para então querer se livrar assim de mim e da memória de teu pai!
- Mas eu não quero-
- Eu ouvi tudo! Falavam de Teodora sair desta casa e de eu ser enviada a um convento! Pois saibam que estou velha, enlutada, mas não estou morta! Enquanto eu viver, a lei de Expedito imperará e será seguida à risca nesta casa!
- Mas minha mãe-
- Cale-se! Pode ser homem, mas ainda é meu filho! Agora quem manda acá sou eu!
E logo pôs-se a tomar o desjejum. Estava ainda fraca, ainda a pensar em Expedito, mas disfarçava a fraqueza; desde moça aprendera a ser forte mesmo na adversidade, e era o que ela faria. Em seguida, pediu para que Mariana a penteasse, a vestisse toda de negro, e ela o fez, colocando um crucifixo no pescoço logo em seguida. Depois, paramentou-se com a mantilha, tomou o terço e falou a Teodora que a acompanhasse à igreja.
- Vamos. Timóteo, tu irás conosco. Não posso sair sem homem às ruas, e Pedro tem lá seus afazeres na corte.
- Mas não pode rezar acá?
- Meu filho, a morte de um mártir da envergadura de Expedito merece novenas inteiras na igreja, e não num oratório como este! Vamos.
Sem opção, todos foram à igreja, vestindo preto de luto; Violante rezava contrita, como se travasse a uma enorme batalha espiritual ao fazê-lo. Era quase como se cada reza sua fosse levada diretamente a Expedito nos céus. Atônitos, Teodora e Timóteo se retiraram da presença da mãe e fingiram estar a rezar, um pouco longe dela. Julinho brincava com Mariana fora da igreja, então Teodora disse a ele:
- Meu irmão, viu como ela agiu? Não aceitará ser enviada assim ao convento!
- Pois não tem querer; é mulher, tem idade, a casa não lhe pertence. Mulher sozinha não tem querer; quem manda é o homem mais próximo. Ainda estamos de luto, portanto não falarei muita cousa; se ela somente exigir vir à igreja rezar novenas para ele, bem; mas se começar a se mexer, cá eu terei de me mexer também, por mais que seja minha mãe.
- Sei. Mas que fará?
- Acalme-se; ainda está tudo muito no começo. Ainda decidirei eu, mas não posso deixar que ela vingue a morte de nosso pai.
- Por que?
- Prometi aos que vão me ajudar a ser inquisidor-mor; não pode haver represálias, ou eles se voltarão contra todos nós! Qualquer cousa, pergunte de noite a teu marido, quando estiver a sós com ele no quarto! Ele sabe de algumas cousas nesse aspecto também! Nós, que somos homens, fomos informados; nossa mãe é impetuosa, quererá se vingar, e isso pode significar a morte para todos nós! E ela nunca mediu esforços quanto a vinganças, mesmo que isto significasse a sua própria desgraça!
- Eu sei, é isso que me assusta nela!
- Temos de vigiá-la; deixemo-la mandar na casa enquanto isso, porém se ela começar com muita coisa - terei de agir!
Teodora então silenciou, e também em silêncio foi que todos voltaram para casa, com Julinho a brincar inocente com Mariana e Violante com o olhar contrito, teso, as rugas em torno dos olhos despontando como se ela tivesse ódio do mundo e de estar sozinha novamente.
Em casa outra vez, Violante tomou a ceia, mas comeu pouco. Após a ceia, não querendo ficar com a mãe em casa, Teodora subiu para seus aposentos com Julinho. Em breve Pedro chegou, tomou a refeição também e logo subiu para ficar com a família; como sempre, todos estavam a evitar a personalidade desagradável de Violante.
E ela, mais uma vez, desabou; tomou as atas dos processos inquisitoriais e passou a chorar, ressentida; beijava cada página como se quisesse sentir a presença deles nela. Timóteo enfim tomou coragem para falar:
- Minha mãe, em breve estes livros terão de ser levados embora.
- Por que?
- Porque eu fui indicado como o novo inquisidor-mor do reino e precisarei prestar contas dos antigos processos.
O semblante choroso dela pareceu se abrir num tênue sorriso.
- Teu pai ficará com certeza tão feliz no Céu! Ah, ele queria tanto te ver inquisidor, e tu não o desejavas! Agora, talvez com a morte dele, queiras cumprir com o legado que ele te deixou...
"Pelo contrário", pensava ele, mas sem nada dizer. "Pelo contrário, é justamente para acabar com o legado dele que assumo ao cargo para geri-lo de forma totalmente diversa da dele!"
Após mais um tempo daquela forma, quando o sacerdote pensou que a mãe já ia apagar ao candeeiro e ir dormir, ela o confrontou:
- Meu filho, como és filho dele e como já recebeste a proposta de ser inquisidor em seu lugar... diga-me, por acaso sabe quem o matou?
Timóteo fora pego de surpresa por aquela pergunta, e portanto demorara a responder o que quer que fosse; o olhar inquisitorial de Violante o perscrutou, e ela então refez a pergunta, como se ela própria fosse de fato uma extensão de Expedito:
- Quem o matou, meu filho?
To be continued
OoOoOoOoOoOoO
E agora? A Lacraia levantou, vai querer vingar o Morcego e o Timóteo terá de contê-la! Como fará isso?
Ai gente, esse clima de eleição tá me matando. No dia em que escrevo é 26 de outubro, enquanto a repressão ameaça o Brasil, na fic eles se livraram da mesma! Gente, não tinha momento mais propício pra escrever sobre isso... nada é por acaso! Afinal de contas, seria tão bom se fosse só ficção! Mas enfim, paciência, vamos ver no que vai dar!
Abraços a todos que lerem!
