27

O recesso de Verão iniciara-se e faltava uma semana e meia para o debute. Relena sentia-se como se nunca antes estivesse tão atarefada. Ficava pouco tempo em casa, passando horas e mais horas ao lado de Athina, o que a agradava e até acalmava, dando-lhe a sensação de que nem tudo estava perdido.

Depois de uma reunião breve com a comissão de debute na quinta-feira, elas foram almoçar. Secretamente, era o momento favorito de ambas. Gostavam de aproveitar para trocar suas confidências e discutir sobre mais aquela festa. Particularmente, estavam satisfeitas com o trabalho desenvolvido, tão bem integradas que conseguiam concordar com praticamente todas as ideias que ofereciam as outras integrantes da organização.

_Este vai ser um belo debute! A sua sugestão de usar lírios cor-de-rosa foi perfeita! –Athina murmurou.

_Lírios são minhas flores preferidas… Foram usadas para a decoração do meu debute… Minha mãe que escolheu, naquela época.

Athina sorriu, sabendo que aquelas eram memórias agridoces para a moça. Mas o olhar longínquo e saudoso da menina a convenceu de que estava bem.

_No meu debute, foi usado rosas… não muito criativo, mas a tradição não precisa necessariamente ser criativa, não é? Tem seu próprio charme… –e ainda se lembrava de Dante entrando com ela na apresentação, todo empertigado e praticamente três manequins abaixo do que vestia hoje. Era engraçado lembrar. –De qualquer modo, você havia comentado sobre um projeto pessoal, não havia?

_Sim. Decidi trabalhar depois do Verão.

_Depois do Verão? Não me diga que irá dar aulas…

_Sim, irei. Já entreguei todas as documentações e está tudo acertado. Serão apenas algumas aulas de literatura para uma ou duas turmas de ensino médio… ainda terei bastante tempo para nossos eventos. –e ia explicando meiga e um tanto timidamente, olhando para o prato e sorrindo pequeno.

_Posso perguntar por que, querida?

_Quero exercer minha profissão e aproveitar mais meu tempo livre. –Relena a encarou, falando pensativamente, como se na verdade criasse aquela explicação no momento.

Athina meneou a cabeça:

_Não haveria outra coisa para você fazer ligada a sua área?

_Para uma inexperiente como eu? Bem, não me importa… já decidi.

_E o que Heero acha disso?

_Ele… não se importa. –o fato era que ele não sabia. Mas certamente não se importava.

Athina assentiu. O que diria à menina em desencorajamento? O que Relena desejava não era repreensível, mas Athina não aprovava por saber que aquela era mais uma forma de fuga da vida vazia levada.

_Akane está com as malas prontas, pelo jeito. Chegará na terça-feira. –e preferiu mudar de assunto ao passo que ainda tirava suas conclusões sobre a escolha de Relena.

_É mesmo, vi no Facebook. Ela está muito ansiosa! Na quarta, vamos juntas comprar o vestido dela para o debute.

_Ela chegará tão em cima da hora que nem conseguirei dar um coquetel de boas-vindas. –Athina lamentou em deixar a volta da filha passar em branco.

_Acho que o debute servirá bem para recebê-la. –Relena lembrou em consolo.

As duas riram. Realmente, sentiam-se uma família. Encontraram apoio uma na outra, contraindo uma amizade verdadeira. Por isso Athina queria agradecer ao marido, já que fora ele quem escolhera Relena para tornar-se sua nora.

Separaram-se então. Relena passeou pela cidade e depois voltou de táxi para casa. Fez companhia a Manon durante uma hora, discutindo a lista de compras da próxima semana e outros assuntos cotidianos. Por fim, voltou para o quarto, leu um pouco e brincou de adicionar algumas poucas linhas a um caderno de pensamentos que decidiu voltar a usar semanas atrás. Sempre gostara de escrever e havia produzido muito durante os anos universitários. A prova disso eram os demais artigos na prateleira sob sua mesa de estudos: cadernos de apontamentos e fichamentos, rascunhos e um romance completo que só precisava de revisão e já datava dois anos e meio.

Também com estes estava o álbum de fotografias do casamento. Ela nunca o havia aberto desde que recebera. Fora um tormento encarar o vestido três dias após a cerimônia, não queria nem imaginar o que seria ver as fotos. Aquela manhã de sua vida lhe fora roubada. Nem conseguia pensar nela, feito as lembranças tivessem sido levadas junto do tempo. Se visse as fotos, as recuperaria decerto, mas não sabia que impacto este resgate lhe traria e preferia o comodismo atual. Por que se ferir em ver-se linda vestida de noiva para um homem que nunca a quis? Tampouco ela o tinha querido… aquilo seria autoflagelo dispensável. Ainda mais depois de tudo que sofreu.

Não conseguira ainda recuperar o peso normal. Ainda comia sem fome e sorria sem vontade. Nos fins de semana, dificilmente almoçava, a não ser que precisasse passar o dia fora. Gostava de ficar entocada no quarto, dormindo, recuperando sua energia em déficit, obrigando-se somente a jantar. Não pensava quando ia se recuperar.

Saiu à noite mais uma ou duas vezes para ir ao Prodige com as amigas, mas enjoou fácil da superficialidade daquela diversão. Era interessante ver Heero descontente com o fato, mas ao mesmo tempo era sem sentido. Não combinava com ela ir para a balada todo fim de semana, descompromissada. Nunca fora daquele jeito, não conseguiria se forçar a assumir um comportamento que não se encaixava nela. Faltava muito para habituar ao ritmo das nova-iorquinas, mesmo o de Akane, porque nunca tivera costume de frequentar a noite da mesma maneira e intensidade que as garotas.

_Mas você não gosta de dançar? –Lori lhe indagou ao receber a explicação de Relena sobre porque não iria mais ao Prodige por hora. Pelo menos, até o regresso de Akane.

Relena fora ao ateliê da amiga para levar-lhe alguns documentos do comitê.

_É claro que sim, mas acabo sobrando… você fica com o Random, as meninas também arranjam seus pares…

Lori franziu a testa, conclusiva:

_Sei… não tem graça sem seu marido.

_Não é isso… –Relena disse em reflexo. –Digo, é isso, ou algo parecido. –e não conseguia se expressar.

Lori debruçou-se no balcão e olhou a amiga por cima das armações dos óculos que usava para costurar. Não conseguiu captar o que Relena quis dizer ou escolheu não entender:

_Olha, pode dizer para mim que o Heero não te deixa mais ir… não vou pensar mal de você.

_Não, Lori, sou eu quem não quer mais ir. O Heero não se importa se eu saio.

_Ah é? –soou incrédula.

_Não, não faz a menor diferença para ele. –Relena acabou deixando vazar alguma coisa negativa sobre aquele fato, que Lori percebeu, mas não deu relevância.

_Bem, desde que você esteja na cama dele, ele deixa você fazer o que quiser… –e não deixou de soar maliciosa.

_Lori! –Relena não sabia o que a fizera exclamar tão alto.

_Me conta: ele é demais, não é? –e notando certo constrangimento, decidiu provocá-la um pouco.

_Do que você está falando? –Relena fez-se austera, tentando olhar outra direção.

_Oras, você sabe do que estou falando. –e tudo na voz dela deixava muito claro qual o assunto em questão.

_Ah, eu não vou falar disso com você. –dispensou, agressiva e ofendida.

_Não? Que chato… –Lori fez um bico e tirou os óculos. Divertia-se com Relena. Como podia ela ser tão diferente?

Relena deu graças no momento em que Akane chegou, pois então não precisava mais aturar a companhia esquisita de Lori, que estava sempre fazendo uma ou outra observação indiscreta e maliciosa, extremamente sem propósito no conceito de Relena.

As cunhadas finalmente se encontraram depois do almoço, contudo, era como se tivessem se visto ontem. Mantiveram um contato estreito demais a distância que tramou fortemente suas afinidades, mesmo que as personalidades delas fossem tão díspares.

_Demorei, mas cheguei! –Akane anunciou, caminhando exibida pela calçada, risonha, e depois abraçou Relena. –Me diz, como você está? –e depois a olhou com um calor superior ao do Sol da estação. –Está magrinha… a Manon não está cozinhando o que você gosta?

Relena começou a rir, já que toda vez que tentava dizer algo Akane impedia com sua efusividade. Respirou fundo e acabou dizendo:

_Estou bem… está tudo como sempre. –não sabia mais o que incluir e não gostava de como suas falas eram sempre vagas e um pouco negativas. Akane assentiu, agarrando-se a alça da bolsa.

_Fique muito triste de ter perdido o baile de Primavera deste ano. Foi melhor do que o anterior… Amei as fotos que você postou no seu Facebook.

Relena sorriu em resposta, pensativa sobre o que colocara lá. Havia conseguido a maioria com o fotógrafo da revista. Já sabia como usar suas influências.

_Já escolheu o vestido que vai usar?

_Busquei um antigo lá em casa… vocês não conhecem, então não tem problema. E claro, eu não vou ser madrinha das debutantes… –e provocou, julgando Akane metida.

_Ah, mas ano que vem vai ser! –e Akane provocou de volta, empurrando-a de leve.

_Eu? Difícil… Além de que haverá garotas para debutarem ano que vem?

_Oh, sempre tem. –e Akane riu, maldosa talvez.

A conversa fluía fácil entre elas.

Na loja, Akane era freguesa mais que preferencial e tratada melhor que a proprietária, embora não ficasse nem um pouco arrogante por isso. Era amiga das atendentes e várias vezes as encontrara em baladas pela cidade.

_Vamos pensar: é Verão, as debutantes vão usar só tons pastéis, isso se a Lori não bagunçou a cabecinha delas…

Relena riu e interferiu:

_Eu me certifiquei disso, a Lori manteve a tradição em seus conselhos.

_Ok. Então, você acha que posso destoar um pouco?

_Depende de como você define um pouco. –Relena respondeu, meneando a cabeça.

_Por que não usa grená, Ane? É uma cor que fica bem para quem é ruiva e foge do comum. –a atendente sugeriu.

Akane tinha a face de quem toma uma decisão vital para a política mundial. Concentrava-se tanto na análise das opções quanto seu pai antes de proferir a sentença.

_Que cor é seu vestido, Lena? –buscou inspiração.

_Amarelo topázio.

_Que diferente! –e voltava a deliberar. Ia ser uma longa tarde. Akane só sairia satisfeita depois de encontrar o vestido perfeito. Ele teria de existir.

Relena tomou uma decisão de último momento:

_Manon, prepare jantar para três hoje, por favor. Akane irá comer conosco. –e telefonou.

_Sério? –Akane ficou deliciada com a surpresa.

Relena riu e seguiu falando com Manon sobre onde estavam e o que fazia, tranquilamente.

Akane selecionou para provar um vestido azul celeste, um rosa framboesa e outro verde limão. Só que ao experimentar o cor de rosa, viu todas as dúvidas dissiparem. Não quis nem saber o preço, já adicionou o traje a sua coleção.

_Eu bem usaria um vestido antigo, só que a ocasião desta vez é extra especial. –e as duas caminhavam pelas avenidas enquanto Akane comia um cachorro quente. –Já tenho roupas de festa demais. –mas o fato é que parecia despreocupada com o fato.

Relena ria e meneava a cabeça, divertida.

_Quero conhecer o apartamento logo. Vamos para lá? –e de repente, Akane deixou claro, limpando uma manchinha de mostarda do canto da boca.

_Nunca foi lá? –Relena sentia-se lidando com um filhote de Labrador.

_Ah não, nunca precisei.

Quando Akane deixou seus pacotinhos de compra na poltrona da ampla sala de estar, lançou um olhar admirado a seu redor. Manon veio cumprimentá-las com um sorriso ansioso. Havia visto Akane dez anos antes e estava curiosa em revê-la. As duas se cumprimentaram amigavelmente e conversaram um pouco sobre coisas que Relena nem imaginava que existiam. A rede de contatos de Akane era ampla, de fato.

_Preciso te contar, Lena: conheci uma garota demais esse ano! Ela vem para cá fazer um curso de Verão. Ela não é americana… –e enquanto contava de sua nova amiga, ia excursionando pelo apartamento, intercalando elogios com seu relato. Até o aposento de Manon visitou. Não fez nenhum comentário sobre os quartos separados, o que deixou Relena inicialmente surpresa, mas não incomodada.

Quando Heero chegou, exausto, olhando a correspondência e afrouxando a gravata, foi atingido pelo ruído das risadas. Não podia ver da onde se originavam, mas não errava em reconhecê-las como pertencentes à Relena e Akane, uma dupla que ele duvidava se formar para o bem.

Não demorou nem meia hora para Manon anunciar o jantar. Heero preferia ter tido mais tempo para descansar. As garotas se acomodavam na sala de jantar no momento preciso que ele entrou. Carregavam consigo um ar de alacridade que agredia Heero. Por que é que estavam alegres?

_Boa noite, Heero… Quanto tempo, não é mesmo? Lembra-se de mim? Eu sou sua irmã, Akane Yuy. –e a menina se pronunciou, olhando-o provocativa, debruçando-se na mesa ao lado esquerdo dele.

Heero não fez conta. Lançou um fito desdenhoso e cheio de desaprovação:

_E este cabelo? Por acaso não existe nenhum cabelereiro na Califórnia? –reclamou, tirando os olhos dela. O cabelo dela chegara aos quadris, ele nunca o tinha visto tão comprido.

_Ah, você percebeu! Quem diria! –e observou, traquina. –Achei mesmo que você nem tinha me enxergado…

Ele meneou a cabeça, sem mais nenhuma expressão.

_Tudo o que mais gosto está em Nova York! –e ela comentou aleatoriamente, tal qual fosse muito interessante. –Não conversei com papai ainda, mas já mandei todos os papéis; então, Heero, posso ser sua assistente este Verão?

_Não. –prontamente devolveu.

_Você tem suas contas e até mesmo a própria equipe!

_A resposta continua sendo não.

_É papai quem vai resolver isso.

_Por que você não fica na sua, promovendo suas festinhas? Não preciso de você.

_Quer saber? Tomara que você pise numa pecinha de Lego. –ela declarou tão seria e arbitrária que era difícil de não dar importância ao desejo dela.

Heero a encarou completamente ultrajado e Relena fez o que pode para disfarçar o riso com o guardanapo.

A irritação em Akane perdurou somente mais cinco minutos, pois logo ela estava falando do debute e de quão ansiosa estava. Tinha trazido as baterias completamente recarregadas da costa oeste, decidida a esgotá-las naquela temporada.

Heero exauria-se a escutando, sentindo-se tão oprimido feito ela nunca acabasse de falar.

_Não sabe ficar quieta por um maldito minuto?

_Olhe os seus modos! –primeiro, ela atentou. –E não fale comigo. Não gosto mais de você! –e rebateu, pentelha. –Estou profundamente magoada com o jeito que você trata sua irmã depois de seis meses sem vê-la.

_Toda vez é a mesma conversinha…

_Se você não muda, eu também não. Agora dá licença que estou conversando com minha amiga, entendeu? –e agia propositalmente com imaturidade, derivando prazer malvado em irritar Heero, que caía nas armadilhazinhas dela mais facilmente do que deveria.

Relena nunca havia visto os dois interagir de fato. Cada vez mais se espantava com a naturalidade da cunhada. E quase não conseguia disfarçar a risada. Akane era tão sossegada, levava a temperamentalidade de Heero sem a menor dificuldade. Ao mesmo tempo, notava em Heero uma espontaneidade e uma vivacidade nova e repentina. Tratava Akane de outra forma, talvez como igual. Será que Relena podia tomar aquilo como algum sinal de humanidade nele? Ela observava e decidia…

Akane passou mais vinte minutos no apartamento depois do jantar. Elogiou Manon pela refeição, buscou seus pacotes de compra e partiu, não eram nem nove horas ainda. Relena despediu-se dela, cerrou a porta e enfim recordou-se que o silêncio morava lá. Ele era um bom inquilino, apesar de intrometer-se às vezes nos momentos errados, fazendo questão de ser notado.

Heero estava na sala de estar quando Akane saiu e a observou combinar ainda horários com Relena, avisando que entraria na internet mais tarde para conversarem. Ele não respondeu às despedidas que ela lhe lançou, embora as tenha ouvido. E por fim notou que o silêncio sentava ao seu lado quando Relena voltou-se para o interior da sala e encostou-se à porta.

Como negariam a presença um do outro se nunca antes estiveram tão consciente dela? Olharam-se certeiramente, embora assim que se tocaram, os olhos se desviaram.

_Você vai ao debute, não é? –Relena decidiu precisar saber.

_Para quê?

_Para…

_Marcar presença é estúpido.

Relena assentiu. Sim, claro que era… e ela ter perguntado a ele também fora estúpido. Foi para o quarto com ideia de estudar. Começara a revisar suas anotações da faculdade, preparando-se para dar as aulas que conseguira. Estava resolvida a fazer um bom trabalho, principalmente porque este seria seu primeiro e exigir bastante de si a fazia sentir-se real.

O que Relena queria com ele agora? Heero ficou pensando nisso enquanto olhava a tela da TV, sem nenhum interesse real no que assistia. Por que iria se enfiar naquele maldito clube de campo ridículo? E para assistir uma porção de menininhas serem apresentadas! Ele já sabia seus nomes… Qual podia ser o interesse dele? Tolice! Mais uma tolice daquela sociedade leviana.

A sociedade dos três estados se reuniria naquela ocasião para celebrar um ritual que para Heero jamais teria serventia. Pode ser que ele esteja certo nesta opinião.

_Eu não vou! Espero que vocês também não, hein! –Wu Fei anunciou no almoço do dia seguinte.

_Eu tenho que ir… Afinal, a Ane vai ser a madrinha. –Duo explicou, lembrando Wu Fei, apesar de não fazer o menor caso da permissão do amigo.

_Grande merda. –o chinês rebateu.

Heero estava neutro.

_Wu Fei, por favor… –Quatre tentou controlar o nível da conversa. –Minha priminha vai debutar e vou entrar com ela… –e por fim contou baixinho, indisposto a alimentar a ira de Wu Fei.

_O quê? –mas mesmo que Quatre não produzisse som, Wu Fei saberia do que ele falava e se revoltaria.

_O que restava a Quatre? Dizer não à menina? –Trowa acabou decidindo interceder.

Wu Fei sacudiu a cabeça em plena inconformidade.

_Toda minha família irá. –Quatre adicionou, tentando fazer Wu Fei compreendê-lo.

_Patético! –porém ele não seria convencido de nenhum motivo. –E você? Não vai falar nada? –voltou-se para Heero.

_Não enche.

Wu Fei desaprovou a resposta:

_Então quer dizer que você vai?

_É você quem está dizendo. –Heero retrucou amargo.

_E por que não iria? Seus pais irão, Akane irá bem como Relena. –Quatre enumerou, mansamente.

_Quatre, você não entende mesmo, né? –Duo provocou, risonho como o gato de Cheshire.

_Hã? –Quatre realmente seguia com sua ingenuidade intocada.

Trowa soltou um riso ronronado, meneando a cabeça suavemente.

Manon mandou o smoking do patrão para a lavanderia mesmo sem a patroa pedir.

Porque Relena não contava com ele mais. Outra vez. Percebia que estava sempre presa àquele ciclo inútil, falhando em sair do lugar. Por que às vezes achava que ele agiria diferente? Enganava-se cada vez que esperava algo dele. e ria de sua aptidão em se frustrar.

Heero achou que o traje e o convite pacientemente esperando-o sobre a cama na noite de sexta-feira tinham o dedo de Relena, mas não pôde insistir mais nesta tese após o comportamento dela no jantar. Ela não falou nada a respeito. Não falou nada. Só olhava para ele inexpressiva. Contudo, aquele olhar era suficiente para exasperá-lo. Ele tentava não dar crédito para aquela reação, entretanto, por qualquer razão desprezível e inexplicável, era mais forte que ele.

_Qual o problema agora, Relena? –rugiu, perdendo o controle.

Ela levou um pequeno sobressalto:

_O quê? –replicou incomodada, interrompendo sua atividade e soltando os talheres. –Não foi nada… que implicância. –e soou aborrecida, olhando outra direção e estalando os lábios.

_Você é quem está com implicância. –ele acusou.

_Eu não vou arranjar briga com você. –deixou claro, querendo promover uma mudança de hábito, embora tivesse faltado tato para tanto.

_Não quero arranjar briga, droga. –ele sentiu-se insultado.

_Não?

_Já disse que não!

_Ok.

Será que sabiam o quanto soavam como crianças?

_Então o que quer? –Relena decidiu recomeçar a conversa com outra pergunta. Atacava-o com pequenas estocadas.

_Eu, nada, mas você quer que eu vá ao debute.

_Não, não quero. –e pausou profundamente, olhando-o fixamente só por mais um segundo, voltando por fim a comer. –Faça como preferir, Heero. Para mim, não influi em nada. Você sabe que não influi.

O que Heero tinha para contrapor? Não entendia como ela pensava. Entretanto, sabia que ela estava diferente, não despercebera que mudara. Só não queria aceitar, não estava pronto para reconhecer.

_Você só está se repetindo. –ela concluiu, dedicando a ele um desdém que ele nunca experimentara.

O resultado daquela conversa não era imprevisível: Heero não foi ao debute. Não se sentou à mesa da família Yuy a lado da esposa. Não assistiu Akane apresentar as debutantes. Não testemunhou sua mãe receber o décimo-quinto broche de fita da líder das debutantes, nem Akane e Relena receberem seu primeiro broche – este era uma homenagem às organizadoras e servia como lembrancinha.

Dante não tinha decidido como encararia a ausência do filho, embora estivesse certo de que não usaria prazer para isso. Heero não prestigiar a ocasião promovia uma péssima imagem social dele mesmo. Só que ele não tinha o menor interesse em fazer contatos ou apoiar a família. Assim, agia com descuido e Dante não podia aceitar. Ficou todo o evento tentando acalmar-se e descobrir o que fazer com o filho, porém, Duo presente em sua mesa como acompanhante de Akane o incomodava também e fazia dividir atenção entre aceitar o rapaz como genro em potencial e conformar-se um pouco com o mau comportamento do filho.

Sylvia notou Relena desacompanhada e até procurou disfarçadamente Heero no salão somente como o olhar, entretanto, estava ocupada demais com familiares que chegaram da Europa, a saber, a filha da senhora Catalonia que era prima da mãe de Sylvia, e, por sua vez, o sobrinho da senhora Catalonia. Dorothy Catalonia e Decker Evangeline vieram assistir ao debute da amada priminha Antique Vessalius. A rede de parentesco era intricada e longa, e mesmo que a consanguinidade fosse distante, era hábito que todos fossem considerados família.

Não que eles tivessem muita convivência, ainda mais depois de Dorothy e Decker terem passado os últimos quatro anos em Bruxelas.

Já por vinte minutos estiveram conversando durante o coquetel de encerramento e Kyria paparicava a jovem debutante quando Dorothy apontou com a taça de espumante uma pessoa à distância:

_É aquela a senhorita Darlian? –e pediu confirmação. Decker acompanhou o olhar de Dorothy.

_Senhorita Darlian? –Sylvia não reconheceu o nome, mas antes de virar-se para ver de quem se tratava, Kyria explicou:

_A Relena, amor.

Sylvia relanceou Relena que conversava e ria com Akane e Astuce.

_Agora ela é a jovem senhora Yuy.

_Senhora Yuy! –Decker mostrou uma surpresa quase ofendida deixando Kyria um pouco desconfiado. Sylvia não fez menção de ter estranhado, bebendo um gole comprido de seu drinque antes de sorrir para Antique.

_As senhoras e a senhorita Yuy são muito amáveis. –e a menina comentou, brilhante.

_É claro que são. –Dorothy sorriu dúbia e aveludada para a priminha, aprovando-a e assentindo.

_Vocês conhecem Relena?

_Ela é irmã de Zechs, certo? Eu o conheço de vista… trocamos algumas palavras em um jogo de golfe anos atrás… ele é um grande amigo do primo Treize. –Decker foi explanando autoritariamente, apesar de sempre olhar Dorothy como apoio. Ela seguia assentindo.

Sylvia imitou-a, mantendo um silêncio emburrado e entediado. Ela achava que seus sentimentos eram secretos.

_Quem pensaria que ela seria uma Yuy um dia? –Dorothy expressou sua surpresa deliciada.

Kyria não entendia nada aqueles parentes da namorada, que pareciam tão teatrais e ardilosos, embora tenha gostado da pequena Antique. Pelo menos ela parecia sincera.

_Queria cumprimentá-la… você não, Decker? –Dorothy foi dizendo com sua fluída voz envolvente e adulta.

_Com certeza. –ele foi prontamente positivo.

_Não pode nos apresentar, Sylvia? –e Dorothy sugeriu, seu fito astuto banhando Sylvia com sútil demanda.

Sylvia olhou Relena novamente, resistindo à ideia surgida.

_Peçam a minha mãe ou à sua, Dorothy…

_E por quê? Relena te desagrada em algum sentido? –Dorothy alfinetou com a delicadeza de uma serpente.

_Sim, por que, prima? –Antique insistiu, confundida. Sylvia a olhou ferida, embora mantivesse seu silêncio.

_Não acredito que Dorothy voltou da Bélgica! –Akane murmurou sem disfarçar seu descontentamento.

Astuce fez caretas meigas, compartilhando a sensação com a amiga ao passo que Relena moveu-se para olhar a pessoa referida. Dorothy, com seus olhos rasos de bola de gude, olhava para ela então, mexendo no longo e lisíssimo cabelo platinado.

_E quem é o cara com elas? –Astuce interrogou após perceber a presença de um rapaz alto e atlético e dourado de compleição. –Ele é bem bonito, né?

As três ficaram assistindo o rapaz falar e agitar os cabelos castanhos avelã ao mesmo tempo em que espargia seu olhar altaneiro pelos presentes no coquetel. Elas o analisaram até que ele lançou um olhar afiado para elas. Era um fito verde, mas de longe elas quase não podiam perceber.

Deixaram de olhá-lo:

_Nem vieram nos cumprimentar. –Astuce observou, procurando Dolf pelo salão, e repentinamente lembrou-se uma história e começou a contá-la.

Relena concentrara-se no relato emocionante de Astuce sobre sua viagem para Sicília, porém paralelamente sentia a insistência com que o rapaz desconhecido a olhava. Era um tipo de olhar cujo efeito ela mal se lembrava. Era um olhar, não de admiração, mas de interesse. Ele era tão constante no fito que mais de uma vez Relena teve de desviar a vista para ele.

Logo, o coquetel terminou.

Todas as debutantes hospedaram-se na pousada do haras. Com isso em mente, Akane reuniu o comitê de organização do debute e as amigas para realizar um trote. Inicialmente, seria algo cruel com as meninas, tirando-as as da cama aos berros logo que tivessem pegado no sono, conduzindo-as pelos campos de pólo e pastagens no escuro, sem qualquer explicação. Entretanto, a caminhada as direcionava para uma festa surpresa que redimiria Akane de sua maldade de madrinha.

Relena não era de toda a favor, mas participaria de qualquer forma, decidida a não perder nada. E aquela sem dúvida foi a maior bagunça que elas aprontaram. Até a senhora Sissi Van der Ven, presidente do clube, tomou parte, puxando as meninas da cama e tocando uma buzina estridente. Já Athina e Nine estavam aguardando na tenda da festa as jovenzinhas aterrorizadas, que se acreditavam sequestradas, para revelar-lhes que tudo fora uma brincadeira e acalmá-las. A princípio, as jovens ficaram confusas e revoltadas, porém foram seduzidas pelos presentes de sua madrinha e pelo ambiente oferecido, vivendo a melhor festa de pijamas de suas vidas. Akane comprara para cada uma das doze debutantes um kit de maquilagem da Victoria's Secret, equipando-as para deslumbrar as noites de baile que passariam a frequentar.

Era difícil lembrar-se um fim de semana mais divertido que aquele, tanto que Relena chegou ao apartamento sorrindo sozinha. Mesmo que faltasse uma hora para o jantar, não tinha qualquer fome. Havia tantos bolinhos recheados e macarons deliciosos na festa surpresa que se sentia ainda bem alimentada. Pensava se ela fosse uma das debutantes daquele ano. Tinha certeza que as jovenzinhas aproveitaram o máximo e que Akane elevara àquela ocasião à insuperável. A próxima madrinha teria trabalho em fazer melhor.

Heero não estava e Relena nem notou. Ficou contando a Manon detalhes do evento e comendo um sanduíche leve. Manon divertia-se muito com a parte do trote, compadecida do pânico e revolta das debutantes, mas certa de que estes foram compensados. Depois, Relena foi desfazer a mala, banhar-se e dormir, porque estava esgotada.

Na terça-feira, Heero viu as fotos do evento no Facebook da irmã e durante o almoço ouviu um ou outro comentário de Duo e Quatre.

_E vocês, o que fizeram? –Duo estava curioso para saber.

_Fomos ao bar do Prodige no sábado e jogar pôquer na minha casa no domingo. –Trowa revelou.

_Perderam. As meninas estavam todas umas gatinhas! –Duo maliciosamente apontou. –Todas!

Quatre balançou a cabeça com desaprovação.

_Dorothy Catalonia veio para o Verão. Trouxe Decker Evangeline. –e achou por bem informar.

_O quê? –Wu Fei rosnou. –Aquele almofadinha? Afe!

Heero franziu as sobrancelhas.

_Pensei que nunca mais teríamos o desprazer de vê-lo. –Trowa frisou.

_Tomara que voltem pra Bélgica logo! –Duo expressou.

_Dorothy irá, mas Decker veio para trabalhar em Nova Jersey, na firma de uns tios. –Quatre continuou com seu relatório.

_Está informado, hein, Quatre? –Duo brincou.

_Ilya conversou a senhora Catalonia… –justificou, sorridente.

_O quê? Elas estão tentando juntar você e a Dorothy de novo? –Wu Fei aporrinhou.

Quatre fingiu não ter escutado:

_Souberam do trote?

_Akane me contou tudo! –Duo respondeu logo. –Deve ter sido irado… pena que era proibida a entrada de caras… –e fez bico. De repente, sentiu um toque em seus ombros, levando-o olhar para trás:

_Olha só quem chegou… –e ouviu uma voz felina dizer. Deparou-se com Akane encostando-se a ele com um sorriso tentador.

_Hey, estávamos falando de você!

_Eu sei, vocês sempre estão. –ela falou, marota.

_Se enxerga, menina. –Wu Fei reclamou.

_Wu Fei! Como você passou todo este tempo? Senti tanto a sua falta!

Ele careteou e olhou para outra direção, sem conseguir suportá-la. Então notou que estavam sendo abordados, porque Relena e outra garota estavam paradas atrás de Akane, conversando qualquer coisa.

_Boa tarde, meninas! Vão juntar-se a nós? –Quatre era um natural cavalheiro.

Relena sorriu para ele e depois olhou Heero, desmanchando seu sorriso imediatamente para dar lugar a uma expressão vazia. A outra garota atendeu o celular e começou a falar baixinho antes que o maître visse.

_Não, não se preocupem, nossa mesa já estava reservada. –e Relena explicou, amena. Heero prestava atenção nela, arredio e enfadado.

Trowa também sorriu para as moças e brincou com a ponta da trança de Akane que de repente pendeu para seu lado. Ele gostava tanto de cabelos ruivos…

_Daqui a pouco não vai mais dar para saber quem é quem. –observou referindo-se ao comprimento dos cabelos dela, ousado e pilhérico, apesar de seu humor sempre soar muito mais sofisticado e dúbio do que o de Duo.

Akane riu, prestando atenção na própria trança francesa que parecia sem fim.

_Um de vocês vai ter de cortar toda essa cabeleira. –e Trowa apresentou, fazendo-se muito sério, continuando a brincar com a trança da menina feito um gatinho.

Os dois falaram juntos:

_Ele.

_Ela.

Quatre riu, assentindo. A risada contagiou outros por um minuto mais.

_Gente, esta é a Jade Wong. –e Akane transferiu o foco de si para a sua simpática amiga que lidava atrapalhadamente com o celular e a bolsa. –Ela veio para um curso de Verão…

_Ah, muito prazer, gente… –Jade atirou a frase distraidamente, finalmente jogando o celular no interior de sua Birkin, rindo de si mesma. Era tão pequenininha que de pronto até parecia uma criança. Colocou atrás da orelha um pouco dos cabelos que vieram para seu rosto, embora fosse misterioso como eles paravam, já que eram cortados num Chanel assimétrico, bem mais curto justo do lado que ela ajeitara. E enfim viu os rapazes que compunham a mesa. Seus olhos eram bastante pequenos, mas brilhantes e focados. –Você é o Wu Fei. –e pronunciou, tal qual tivesse feito um grande achado.

Ele não disse nada, embora a encarasse com algo que até poderia ser taxado desconfiança. Ela soltou um risinho meigo e travesso que praticamente criou arrepios nele. Não era boa coisa, não podia ser. Se era amiga daquela abusada da Akane, só podia ser mau elemento.

E graças à comoção que aquele encontro criou, ninguém parou para notar como Heero e Relena se encaravam. Possivelmente nem seria digno de nota e até era melhor assim. Porque era tão difícil explicar como se tratavam. Não podiam simplesmente fingir que não enxergavam o outro ali, ou simplesmente agir como se não se conhecessem. Já haviam passado daquele estágio há muito tempo. Estavam mais para uma situação esquisita na qual se viam sozinhos e próximos, mas impedidos de se escutar ou se tocar. A barreira eram eles mesmos quem construíam, alicerçava-se no sorriso sem graça de Relena e no olhar predador de Heero. Um oferecia ao outro as facetas mais cruas de suas personalidades, decididos a não se envolverem.

Relena suspirou e se pôs distante, parando de olhar Heero, subitamente percebendo-se sensível demais ao mal-estar que o desprezo dele causava. Como era fácil se desmoronar diante dele! Não precisava muito – só uma pequena situação social constrangedora: ela ignorada totalmente perante os amigos dele. Queria de repente poder usar a força que a cingia quando ficavam sós. A dificuldade era que tal força era exceção em Relena que, por essência, era um unicórnio. Só podia mesmo lutar por sua vida e desconhecia a natureza do mal.

_Vamos para nossa mesa… estamos incomodando os demais clientes. –e acabou dizendo em manso ar de pedido, preocupada com a agitação que causavam.

_Até mais! –Akane despediu-se, obedecendo sem pensar. Beijou Duo no rosto de raspão.

Jade sorriu, sorriu para Wu Fei especialmente, e então acompanhou as amigas.

Elas chegavam para o almoço, mas eles tinham de partir de volta ao trabalho.

_Cê viu, Wu Fei? Viu o que eu vi? –Duo reiniciou sua infinita provocação.

_Não tenho o mesmo ponto de vista limitado que você. –treplicou.

Trowa riu vulpino e aproveitou a oportunidade para incomodar um pouco o amigo ranzinza:

_O que será que Ane disse a seu respeito?

_Você nem falou com a Relena. –Quatre dirigiu-se a Heero, cortando a bagunça dos demais.

Heero deu de ombros, virando a cara, rejeitando qualquer sentido oculto na frase ouvida. Não tinha o que comentar. Estranho seria se tivesse falado com ela.

Quatre mostrava uma tristeza estranhamente sincera:

_Você não está tentando de verdade.

_Tentando o quê? –empertigou-se e com isso encerrou a picuinha boba dos outros três rapazes, que ficaram interessados no desenvolvimento daquele duelo.

Quatre precisava ser muito sensível para atingir Heero no ponto certo.

_Tirar o melhor da situação e não torná-la um suplício.

_A situação é um suplício. –Heero objetou, arrogante.

_É mesmo. Só que você pode mudar isso. –Quatre deixou claro.

Heero não conseguiu fazer muito mais que estalar os lábios em descrença e deixar a mesa.

Quatre respirou fundo enquanto meditava no que dissera, decidindo se tinha tido extremo demais. Às vezes custava em compreender o juiz. De qualquer modo, não era mais tempo de ficar buscando explicações na motivação de Dante, mas de apoiá-lo de modo a fazer com que essa resultasse para o bem. Todavia, ainda estava em aberto o modo de convencer Heero a cooperar com esse resultado positivo. Ele não enxergava vantagem em mudar do suplício para o suportável.


Boa noite, leitores!

Mais um capítulo, conforme o prometido.

Ufa! Lutei contra meu block bravamente. Ainda não venci, mas tenho certeza que estou perto de completar a vitória!

Capítulo 27 cheio de pontas soltas, né? O que vocês acham que vai acontecer?

Puxa, a Dorothy apareceu! Ela é um personagem demais de se trabalhar. Estava com uma saudade dela... pena que não vai permanecer muito tempo.

Não vou me demorar no meu blablabla porque está muuuuuito tarde, mas já sabem que eu respondo as reviews, então não se refreiem em mandar brasa lá na caixinha, certo?

Obrigada a todos os leitores amados que me acompanham.

Obrigada especial para a moon86, minha leitora internacional que me honra com sua presença ;D.
X.O.X.O.

24.10.2011