Frozen e seus personagens não me pertencem.
Capítulo 28
"Senhor Kristoff! Pelo amor de Deus, pare com isso agora mesmo!" Gerda gritou, horrorizada, cobrindo a boca com as mãos e correndo em direção a Princesa Anna, pegando-a pelo braço e implorando para que a moça colocasse um pouco de juízo na cabeça do marido. Petrificada, viu o loiro erguer o punho fechado e desferir um baita de um soco no rosto de Hans; o golpe sendo forte o suficiente para atirar o príncipe exilado para fora do quarto real e derrubá-lo com tudo no chão do corredor. "Princesa, você precisa interferir! Caso contrário, eles vão acabar se matando!" Aflita, olhou para Hans, que estava gemendo de dor e fazia um esforço enorme para se levantar, e murmurou debilmente. "Ou melhor... o senhor Kristoff vai acabar matando o senhor Hans!"
"Acha mesmo?" Anna perguntou, correndo para fora do quarto para acompanhar de perto a briga entre os dois rapazes, seus olhos azuis brilhando de satisfação ao ver o ruivo levar outro soco ao tentar se levantar, o que acabou por pregá-lo mais uma vez no chão. "Isso não seria tão ruim assim. Na verdade, acho que Kristoff estaria fazendo um favor a Arendelle! Ou melhor, ao mundo!"
"Não acredito que pense tal barbaridade!" A Governanta exclamou, seus olhos pretinhos esbugalhados. De repente, viu Hans se levantar e correr feito um touro selvagem para cima de Kristoff, acertando uma cabeçada no queixo do alpinista e derrubando-o no chão como se o loiro fosse um enorme saco de batatas. Ao seu lado, Anna soltou um pequeno grito de pavor e correu para perto do marido.
"Kristoff!"
Quando entrou no quarto de Elsa e se viu cara-a-cara com Hans, Anna teve a impressão de que não mais possuía controle sobre o seu corpo. Suas pernas congelaram, seus braços ficaram estranhamente dormentes, sua boca secou de imediato, seus olhos se arregalaram, sua voz sumiu e os seus pensamentos pararam de fazer o menor dos sentidos.
Até mesmo o seu coração, por um breve e curto segundo, pareceu parar de bater.
Uma letargia ruim a envolveu, dominando cada célula do seu corpo e deixando-a paralisada, sem ação. Em sua mente, perguntas sem respostas rodopiaram loucamente, deixando a Princesa tonta e sem ar, e as lembranças amargas dos acontecimentos de três anos atrás se revolveram em seu íntimo. Por um instante – que foi horrível e assustador – teve a impressão do chão se desfazer sob os seus pés e de despencar num abismo sem fim. Quis gritar, mas não conseguiu. E também quis – e muito – se atirar sobre Hans e socá-lo da mesma forma como fizera anos atrás, mas também não conseguiu. Não conseguiu fazer coisa alguma, apenas permanecer tão imóvel quanto uma estátua, encarando com olhos incrédulos aquele rapaz que, um dia, havia judiado tando do seu coração. No entanto, se a jovem Princesa se viu completamente paralisada, o mesmo não pôde ser dito de Kristoff.
Porque o jovem loiro, na hora em que seguiu Anna para dentro do quarto e se deparou com Hans, sentiu algo que era, ao mesmo tempo, quente e frio percorrer o seu corpo. Foi como um rancor antigo que existia bem no fundo do seu ser, uma força violenta e quase que animalesca que circulou em suas veias e aqueceu o seu sangue.
Ou o fez ferver.
E o rapaz, que era geralmente tão pacato e manso, se viu controlado por uma fúria cega, arrebatadora, que estava dormente até então, mas que irrompeu feito um vulcão em erupção no instante em que viu Hans. E ele nem sequer percebeu quando se afastou de Anna e, com o punho em riste, partiu com tudo para cima do ruivo.
"Kristoff! Você está bem?" A Princesa se agachou ao lado dele e o ajudou a se sentar no chão. Quando o loiro não a respondeu, mas apenas gemeu de dor e fez uma careta sofrida, ela virou o rosto na direção de Hans, fuzilando-o com os olhos. "Viu só o que você fez! Você o machucou!"
A poucos passos de distância, o ruivo limpava, com as costas da mão, um filete de sangue que escorria pelo seu queixo, seus olhos verdes estreitos e sua respiração ofegante. "Eu dificilmente tenho culpa nisso! Eu não estava procurando confusão, Anna, e muito menos tinha intenção de começar uma briga. Mas o seu abominável homem das neves de estimação simplesmente resolveu pular em cima de mim como um animal selvagem!"
"Do que foi que você me chamou, seu patife miserável?" A pergunta foi um rosnado, e Kristoff empurrou de leve uma espantada Anna para o lado, procurando afastá-la enquanto ele tentava, com muita dificuldade, se pôr de pé para atacar Hans mais uma vez.
"Olha, me desculpe." Hans respondeu com sinceridade, estreitando a coluna e estendendo as mãos em um gesto de rendição. Não havia malícia nas suas palavras, e a súbita fúria causada pela adrenalina na hora da briga já estava começando a dissipar. "Eu não quero brigar com você. De verdade, não quero. Se vocês apenas me deixas-"
"Ah, não?" O alpinista o interrompeu, rangendo os dentes. "Se não queria mesmo confusão, então não deveria ter vindo até Arendelle! Você não é bem vindo aqui!"
"Não é bem vindo mesmo!" Anna reforçou, aproximando-se mais uma vez do marido e amparando-o. Seus olhos, no entanto, não desgrudavam da forma de Hans. "E o que é que você está fazendo aqui, Hans? Não deveria estar apodrecendo em alguma prisão muito, muito longe daqui?"
O ruivo sentiu a boca secar e lambeu os lábios. Tentou responder, falar alguma coisa, qualquer coisa, mas as palavras lhe faltaram. Suas mãos estavam suadas e geladas, e ele sentia um frio ruim na barriga, na base da coluna, nas pernas, nos braços.
No corpo todo.
Sabia que, em algum momento, precisaria mesmo encarar Anna, mas descobriu que ainda não estava pronto para defrontar-se com as consequências dos erros cometidos no passado.
"Mas o que é que está acontecendo aqui? Que escarcéu todo é esse?"
A voz grave e alta do General, de repente, reverberou pelo corredor, e o alívio que Hans sentiu ao escutá-la foi instantâneo.
E enorme.
Todavia, quando viu a expressão enfurecida estampada no rosto do Duque – que marchava a frente de um grupo de cerca de seis ou sete soldados – sentiu seu alívio se transformar em temor. O General avançava com rapidez pelo corredor, o som de passos fortes e decididos ecoando pelas paredes do castelo. Com sobrancelhas muito franzidas, punho cerrado, mandíbula travada e músculos tensos, parou a poucos passos de onde estavam Hans, Kristoff, Anna e Gerda, avaliando-os com um olhar endurecido. Zangado, cruzou os braços.
"Inacreditável! Vocês estavam brigando?" Ninguém disse uma só palavra, e o Chefe das Armas de Arendelle estreitou os olhos ao fitar os dois rapazes, que murcharam visivelmente à intensidade daquele olhar. "Deveriam se envergonhar! A Rainha está terrivelmente doente, e essa hostilidade entre vocês é tudo o que ela não precisa no momento! Então, façam-me o favor de parar com essa palhaçada e comecem a se comportar feito os adultos que realmente são!"
"Sentimos muito por isso, General." Foi Hans quem tomou a iniciativa e se desculpou por todos, murmurando as palavras, envergonhado. Gerda assentiu meio que sem jeito, concordando com o ruivo, e Anna e Kristoff se entreolharam, sentindo um enorme embaraço.
"E deveriam sentir muito mesmo! Um comportamento como esse é inadmissível!" O Duque de Grimstad bronqueou, continuando a repreender o grupo. De repente, virou-se para Hans e dirigiu a ele suas próximas palavras, e o rapaz, que já estava abatido, murchou mais ainda ao escutá-las. "E você, meu jovem! Eu esperava mais de você!"
A Princesa piscou – uma, duas, três vezes – pensando, a princípio, que não tinha escutado direito o que o militar falara. Quando o viu se aproximar, imaginou que ele fosse render Hans e trancafiá-lo no calabouço do castelo. No entanto, ao notar a forma como o Duque fitava o príncipe das Ilhas do Sul – com um misto de decepção e afeição paternal – arregalou os olhos, descrente e um tanto quanto indignada. "Espere um minuto! Você disse que esperava mais dele? DELE?" Retrucou na hora, dando um passo a frente e chegando mais perto do militar. Com um olhar acusador, apontou para Hans, que permanecia em silêncio e de cabeça baixa, olhos cravados no chão. "Como assim você esperava mais dele? Tudo o que se pode esperar dele é mais maldade e mais traição!"
"E mentiras." Kristoff completou e cruzou os braços, e Anna balançou vigorosamente a cabeça, concordando.
"Sim! E mentiras! Por acaso eu já mencionei as mentiras? Este... sujeito deveria estar preso! E por que é que ele não está preso?" Ela perguntou, olhando fixamente para o General. E, quando ele não se moveu, e muito menos a respondeu, a Princesa quase arrancou os próprios cabelos de tão impaciente que estava. "Vamos! O que está esperando? Prenda-o antes que ele tente fugir, ou roubar a Coroa, ou... ou... ou matar alguém!"
Um tanto quanto aflita pela situação, Gerda se aproximou da Princesa e pousou uma mão sobre o ombro dela. "Princesa Anna, eu acho que você deveria se acalmar e..."
"Não! Eu não acho que eu deveria me acalmar!" Ela deu uma boa olhada ao seu redor, e o misto de pena e tristeza que viu nos rostos de todos que a cercavam a assustou um pouco. Para o seu consolo, Kristoff parecia tão lívido e confuso quanto ela própria. "Eu acho que alguém deveria me explicar o que o meu ex-noivo do mal está fazendo aqui no castelo e por que ninguém está fazendo nada para prendê-lo! Ele é uma ameaça para o reino!"
"Princesa..." Gerda retomou a palavra, tentando soar o mais complacente possível. Aquela era uma situação difícil e muito desconfortável, e por mais que ela sabia que Anna tinha todo o direito do mundo de hostilizar e questionar a presença de Hans em Arendelle, a criada sentia seu peito doer pelo rapaz.
Havia se afeiçoado muito a ele.
"Você não está sendo justa. Durante a sua ausência, muitas coisas aconteceram, e o senhor Hans... ele... ele provou que está mudado."
Anna e Kristoff abriram a boca na mesma hora para retrucar, mas a Pricesa foi mais rápida. "O que quer dizer com isso? Ele está mudado? Por acaso foi isso o que ele disse a vocês?" Ofegante, olhou para Hans e colocou as mãos na cintura. Esperava que o rapaz a encarasse de volta e que tentasse se defender, mas ele continuava parado, com a cabeça baixa e o rosto pálido; abatido e emudecido, come se aceitasse todas as acusações dela. "Por acaso já se esqueceram do que ele fez comigo? Já se esqueceram do que ele fez com Elsa? Ele quase matou a minha irmã! E o que ele estava fazendo no quarto dela? Se você a machucou, Hans, eu juro que..."
"Princesa." O Duque a interrompeu, dando um passo curto para perto da descontrolada moça. "Se não acredita nele, por favor, acredite em mim quando lhe digo que este rapaz não representa mais perigo algum ao reino, muito menos à sua irmã. Se você puder apenas se acalmar e nos ouvir, tenho certeza de que poderemos explicar o q-"
"Pare de dizer que eu devo me acalmar!"
A súbita explosão dela assustou todos, principalmente Kristoff. O rapaz nunca tinha visto Anna daquele jeito, tão furiosa e fora de si; com as mãos trêmulas, o rosto vermelho e suado, e os olhos enormes e cheios de lágrimas. Por um instante, achou que ela fosse passar mal e, temeroso pela condição dela, esqueceu toda a raiva que sentia em relação a Hans e se aproximou da esposa, extremamente preocupado. "Anna, o General está certo." Murmurou ao lado dela, falando com suavidade. "Você precisa se acalmar."
"Não acredito! Até você, Kristoff?"
"Anna, por favor." Pediu, com cuidado e ternura. Devagar, pegou as mãos dela entre as suas, apertando-as de leve. "Eu estou tão confuso quanto você, e também quero entender o que está acontecendo aqui, mas acho que não conseguiremos as respostas se não escutarmos o que eles têm a nos dizer." Falou, seus olhos indo rapidamente de Gerda para o General, e do General para Hans. Encarou o ruivo por um instante até que, com um suspiro cansado, desviou o olhar e voltou a fitar a esposa, sussurrando bem baixinho para que só ela o escutasse. "Além disso, lembra-se do que a senhora Thea nos disse sobre abusar muito das emoções? Essa agitação toda não fará bem nem a você e nem ao..."
"Oh!" Anna demorou pouquíssimos segundos para entender as implicações da fala dele e, quando o fez, fechou os olhos, mordiscou o lábio inferior e assentiu bem devagar. Sentiu quase que imediatamente a fúria se dissipar, e uma exaustão sem precedentes surgiu em seu lugar, deixando-a tão fraca que precisou se apoiar no marido para permanecer de pé. "Você está certo... me desculpe. Mas é que nada disso faz sentido. De todas as coisas que imaginava, eu... eu nunca... Eu não queria encontrá-lo aqui."
"Eu sei. E eu também não." O loiro a abraçou e beijou-lhe o topo da cabeça. Ainda mantendo-a em seus braços, encarou Hans sob as pestanas, seu cenho muito franzido. "Mas, se me lembro bem, o General disse que poderia nos explicar o que está acontecendo, não é mesmo, General? E eu espero que esta seja mesmo uma ótima explicação."
Mas o Duque de Grimstad nem teve tempo de abrir a boca porque, naquele instante, o mensageiro que fora enviado a Elvaram no dia anterior apareceu correndo pelo corredor do castelo, esbaforido e ofegante. O homem estancou quando, finalmente, avistou o General que o enviara em missão, bradando a plenos pulmões.
"O médico!"
Exausto – provavelmente por ter viajado de Arendelle até Elvaram, e de Elvaram até Arendelle sem parar para descansar – o rapaz apoiou uma mão na parede e inspirou e expirou com força para retomar o fôlego, dizendo alto e bom som.
"Como ordenado, senhor General, o médico de Elvaram está aqui!" E fez uma mesura espalhafatosa e desengonçada para apresentar ao grupo – que, agora, estava emudecido e assistia com espanto o desenrolar da cena – o desconhecido senhor que surgia por trás dele.
O tal do médico era um sujeito alto, comprido e velho; com uma barba e um bigode brancos muito bem aparados, óculos redondos sobre um nariz aristocrático, olhos pequenos e observadores e um cabelo ralo, escondido sob um chapéu bowler. Trajava uma comprida casaca aberta que deixava a mostra um colete amarronzado cheio do botões dourados, e segurava em uma das mãos uma maleta de couro. O doutor caminhou até o grupo e estudou cada um dos presentes, seus olhinhos se estreitando um pouco mais ao observar os rostos ensanguentados de Hans e Kristoff, a feição pálida e muito abatida de Anna, e os olhos esbugalhados de Gerda. Antes de falar, pigarreou e arqueou uma sobrancelha, sentindo-se um tanto quanto confuso.
"Então... qual de vocês eu devo atender primeiro?"
