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FEITICEIROS
Por Kath Klein
Colaboração: Yoruki Hiiragizawa
Revisão: Rô Marques & Yoruki Hiiragizawa
Capítulo 28
A voz de Esperança
Syaoran abriu os olhos e foi obrigado a fechá-los imediatamente por causa da forte claridade. Abriu-os novamente, lentamente, sentindo o corpo ainda dolorido. Fitou o teto branco. Ouvia duas pessoas conversando e alguns outros sons. Estava num hospital. Já conhecia bem aquele lugar. Respirou fundo e se levantou.
'Hei! Rapaz!' Um jovem enfermeiro apareceu logo a sua frente, tentando impedi-lo de se levantar.
Estava sem paciência. Sentia a presença da namorada, mas estava fraca demais. Precisava encontrá-la. 'Eu estou legal.' Ele falou, empurrando o rapaz para que saísse da sua frente.
'Você foi baleado! Quer dizer… Atingido de raspão, ou sei lá o porquê você foi trazido para cá.' O rapaz falou irritado. 'Faça o que achar melhor.'
'Fique calmo, Inoue.' Um senhor se aproximou com um sorriso debochado nos lábios. 'Acho que você ainda não conheceu o senhor Li, não é?'
Syaoran levantou o rosto e reconheceu o enfermeiro Taniguchi. Tinha que ser ele, claro. Não seria realmente uma passagem pelo hospital de Tomoeda se não o encontrasse. Tentou sorrir, mas estava tenso demais por causa de Sakura.
'Pode deixar que eu cuido dele. Tem uma senhora com a pressão alterada na sala ao lado.' Taniguchi falou, indicando a saída.
O rapaz franziu a testa, olhando para o enfermeiro e depois para Li, mas obedeceu ao superior. Taniguchi observou o rapaz saindo da sala e depois voltou-se para Syaoran.
'Em que você está metido, rapaz? Oito meses atrás, eu recebi o seu corpo aqui nesta mesma sala e agora me deparo com o seu nome no atendimento da emergência.' Ele tinha o rosto duro, não estava com ar para brincadeira.
'É complicado.' Syaoran falou simplesmente.
'Isso aqui…' O senhor falou, apontando para os furos da camisa dele. 'São buracos de bala. E olha só! Você não tem nem uma cicatriz nova.' Ele se inclinou, fitando o rosto do rapaz de perto. 'O que você realmente é agora, senhor Li?' Perguntou. 'Por que, eu me lembro muito bem de tê-lo remendado umas três ou quatro vezes.'
Syaoran respirou fundo e deixou o ar sair pela sua boca devagar. Estava pensando no que responderia para o homem. Não dava para mentir e, verdade seja dita, não estava com a menor disposição nem criatividade para inventar uma desculpa.
'Eu morri e depois eu voltei.' Respondeu. 'Não sou mais humano. Acho que é isso.'
O homem arregalou os olhos e tocou na cabeça do rapaz só para ter certeza que não estava vendo um espectro a sua frente. Semicerrou os olhos, fitando-o profundamente. 'Você está de sacanagem comigo, não é?'
Syaoran deu de ombros. Não sabia mais o que falar.
'Você e aquela garota não são normais. Desde que coloquei os olhos em vocês, sabia que estavam metidos em coisa muito, muito, muito perigosa.'
Li franziu a testa. 'Preciso me encontrar com Sakura.' Ele falou. 'Não tenho tempo para explicar mais.'
'Você fica aqui. Vou pegar uma camiseta para você vestir.' Ele ordenou. 'Se ficar andando pelo hospital todo sujo de sangue desta maneira, vai matar um monte de velhinhas do coração. A senhorita Kinomoto está na sala de cirurgia. Ela chegou bem mal.' Falou, afastando-se dele e saindo da sala.
Syaoran caminhou devagar pela sala. Sentia a presença de Sakura bem fraca. Estava preocupado, não sabia direito se o que tinha acontecido antes de perder os sentidos fora verdade ou fruto da sua loucura. Passou a mão no rosto e voltou-se para se ver no reflexo do vidro da janela.
Run away, run away if you can't speak
(Fuja, fuja se você não pode falar)
Turn a page on a world that you don't need
(Vire uma página em um mundo que você não precisa)
Wide awake and you're scared
(Bem acordado e você está com medo)
That you won't come down now
(De que você não irá sair dessa agora)
Tirou a camiseta rasgada e suja de sangue. Passou a mão onde havia sido alvejado e não viu mais nada. No corpo, apenas as cicatrizes antigas ainda marcavam a sua pele. Estava se sentindo confuso. Não sabia direito o que tinha feito, sua cabeça estava uma bagunça.
Foi até a pia e abriu a torneira, molhando as mãos e logo depois o rosto. Lavou-se com sabonete para tirar o sangue seco que ainda estava nelas. Molhou os cabelos e observou a água suja descer pelo ralo.
O que tinha acontecido com ele? Sacudiu a cabeça. Agora não tinha como tentar achar respostas. Precisava saber de Sakura. Ela era o que importava agora. Fechou a torneira e secou as mãos. Ouviu um barulho e virou o rosto, encontrando o enfermeiro Taniguchi, estendendo uma camisa branca para ele. Syaoran agradeceu e vestiu.
'A senhorita Kinomoto ainda está na mesa de operações. Acabei de conferir com um colega. Mas ela está indo bem.' O senhor explicou. 'E nem adianta me olhar desta maneira, porque não tem como você entrar lá.' Falou, já deduzindo o pensamento do rapaz. 'Ela vai ficar bem se você deixar os médicos fazerem o trabalho deles, entendido?' Viu Syaoran concordar com a cabeça. 'Convenci o delegado Amizuki a deixá-lo em paz, por enquanto. Mas ele vai atrás de você, então é melhor ficar esperto, senhor Li.' O homem falava, nervoso, não deixando o rapaz interrompê-lo. 'E, como antes, o senhor tem que arrumar essa confusão que voltou a acontecer na cidade. Esta noite sem fim tem que terminar.'
'Eu vou tentar.' Syaoran respondeu.
Didn't I tell you, you were gonna break down?
(Eu não disse que você entraria em colapso?)
Didn't I warn you, didn't I warn you?
(Eu não avisei, eu não avisei?)
Better take it easy, try to find a way out
(Melhor ir com calma, tente encontrar uma solução)
Better start believing in yourself
(Melhor começar a acreditar em si mesmo)
'Ótimo.' O enfermeiro respondeu, dando um tapinha no ombro dele. 'É bom vê-lo, senhor Li. O hospital ficou muito sem graça sem as suas visitas. A senhorita Kinomoto ainda aparecia algumas vezes por aqui. Aquela mocinha deu muito trabalho enquanto o senhor estava de férias, sabe-se lá onde.'
'Humph.' Syaoran murmurou, esticando as costas e desviando os olhos para um ponto qualquer do chão.
We build it up, we tear it down
(Nós construímos, nós quebramos)
We leave our pieces on the ground
(Deixamos nossos pedaços no chão)
We see no end, we don't know how
(Não vemos um fim, não sabemos como)
We are lost and we're falling
(Estamos perdidos e estamos caindo)
Hold onto me
(Segure-se em mim)
You're all I have, all I have
(Você é tudo o que tenho, tudo o que tenho)
'Hei! Ela vai sair dessa. Não precisa ficar com essa cara.' O enfermeiro falou, sorrindo de leve.
'Ela tem que sair…' Li falou. 'Não tem sentido eu estar de volta se ela não estiver mais aqui.'
'Tenho certeza que não.' Ele respondeu.
Hold onto me
(Segure-se em mim)
You're all I have, all I have
(Você é tudo o que tenho, tudo o que tenho)
Touya entrou no hall principal do hospital de Tomoeda com o coração apertado. Novamente, ali estava ele, entrando naquele lugar por causa de sua irmã. Caminhou em direção ao balcão de informações.
Sabia que a situação tinha se complicado. Yukito se transformara em Yue e havia praticamente surtado, de repente. Simplesmente olhou assustado para Touya, falando que precisava encontrar sua mestra antes de sair voando. Logo em seguida, o dia virou noite e ninguém conseguia entender o porquê. No rádio ouviu que uma confusão havia acontecido na universidade Tomoeda. Falaram em terrorismo e até em bomba.
Franziu a testa, pensando que o mau presságio daquela manhã realmente o estava alertando que alguma coisa aconteceria. Deveria ter ligado para a irmã mais cedo e pedido que ela tomasse cuidado, mas achou que era besteira. Que estava apenas se preocupando por causa do desgosto dela ir morar com o chinês. Tinha sido um idiota.
'Boa noite. Sakura Kinomoto.' Falou com tom de urgência.
A jovem o fitou rapidamente e em seguida já digitava no teclado do computador. Ela arregalou de leve os olhos e o homem percebeu que havia ficado nervosa. Ela levantou o rosto fitando-o.
'O senhor é parente dela?'
'Sou o único irmão dela. Meu nome é Touya Kinomoto.' Falou tirando o documento da carteira e entregando-o.
A jovem o pegou e leu o nome, olhou novamente para a tela do computador e depois o fitou, entregando o documento e mais um crachá. 'Sua irmã está sendo operada agora. De emergência.'
'Operada?!' Ele falou em tom de urgência. Inclinou-se à frente do balcão. 'Como assim? O que diabos aconteceu?'
A jovem engoliu em seco. 'O delegado Amizuki logo falará com o senhor.'
'O Delegado? Onde está Tomoyo Daidouji?' Perguntou, pegando o telefone e ligando para a prima, que fora quem entrou em contato com ele antes, informando que Sakura e Syaoran tinham parado mais uma vez no hospital de Tomoeda.
'Senhor…' A jovem chamou a atenção dele. 'A sala de espera é por ali… O senhor, provavelmente, a encontrará lá.' Falou, apontando a direção que ele deveria seguir, e Touya confirmou com um gesto.
Ele caminhou rumo a conhecida sala de espera em que passara boa parte do último ano. Colocou o celular no bolso, pois dava fora de área. Assim que entrou na sala viu Tomoyo encostada na parede. Estava com os braços cruzados. Viu que a jovem tinha chorado, mas tentava agora se manter calma. Ao lado dela estava Kurogane.
Encontrou algumas vezes com o rapaz quando procurava a prima para saber da irmã. Sakura tinha se mantido afastada dele durante o tempo em que Li esteve morto e Touya fora obrigado a tentar obter notícias da irmã através de Tomoyo que dividia o alojamento estudantil com ela. O namoradinho da prima mostrava-se também bem preocupado com Sakura. Ele caminhou até a jovem e parou em frente a ela. Tomoyo levantou o rosto, encarando-o.
'Como ela está?'
'Ainda não temos notícias. O enfermeiro Taniguchi passou há pouco, dizendo que ela ainda estava sendo operada.' Tomoyo informou ao irmão da amiga.
'O que realmente aconteceu, Tomoyo?'
A jovem balançou a cabeça de leve. 'O maluco do Yanamoto atirou nela.'
'Yanamoto? Aquele rapaz que ficava no pé dela, na faculdade, para namorar?'
'Este mesmo.' Kurogane respondeu.
Touya soltou um longo suspiro, passou a mão no rosto, pensando que, de forma irônica, um humano é que tinha atentado contra a vida da irmã enquanto ele estava tão preocupado com o lance de magia, demônios e tudo mais. 'Prenderam o idiota?'
'Syaoran o matou.' Tomoyo respondeu séria.
Touya arregalou os olhos surpreso. Engoliu em seco. Não sabia muito bem o que pensar. Claro que concordava com o rapaz. Se Li não o matasse, provavelmente, ele mesmo mataria o idiota que atentou contra a vida da sua irmã, mas não pôde deixar de pensar que o cunhado agora era um assassino.
'Onde ele está?' Touya perguntou.
Tomoyo balançou a cabeça de leve. 'Na emergência. Ele também foi baleado, mas não foi atingido de forma fatal como Sakura. Ou sei lá… Acho que ele não morre de novo, não é?' Falou com a voz irritada pela situação. Novamente ela estava ali naquele hospital, tensa, e com medo de perder a prima.
'É… Acho que não.' Touya respondeu.
Suspirou novamente e se afastou do casal. Caminhou até a janela onde observou através do vidro a noite sem lua do lado de fora. Fechou os olhos e rezou em silêncio para que o pai e a mãe ajudassem Sakura a sair dessa. Não suportaria perder a irmãzinha. Jurou que, se a visse novamente sorrindo, nunca mais implicaria com o moleque chinês. Ele só queria que ela estivesse bem.
Sentiu quando alguém parou ao seu lado. Não precisava ver para saber que era Yukito. 'Ela vai sair dessa.' O rapaz falou ajeitando os óculos no rosto.
'Eu espero que sim, Yuki, pois realmente não sei se vou aguentar perder mais uma pessoa importante da minha vida.' Touya falou, sem desviar os olhos da noite.
'Sakura é muito mais forte do que pensamos.'
'Ela… Ela é só uma garota, Yuki. Não é justo. As coisas acontecem…' Suspirou. 'Ela nunca tem paz.'
Yukito concordou. Realmente a vida de Sakura era uma intensa montanha russa de acontecimentos.
'A aura dela está fraca, mas ainda está aqui. Isso é importante.' O rapaz falou, com um leve tremor na voz. 'Há poucas horas ela tinha desaparecido por completo, mas agora ela está se restabelecendo.'
Touya concordou com a cabeça ouvindo a explicação.
Yukito pousou uma mão no ombro dele. 'Ela é mais forte do que você pensa, Touya.'
Touya concordou apenas com um gesto da cabeça, desta vez. Sabia que a irmã era uma mulher forte e determinada, mas, mesmo assim, não tinha como ele não se preocupar. Para ele, Sakura sempre seria sua querida irmãzinha.
'Você sabe o que está acontecendo?' Ele perguntou, fazendo um gesto com a cabeça para o lado de fora.
'A carta Trevas foi acionada ou se libertou sozinha. Falei com Eriol ainda há pouco, ele está voltando para o Japão.' Disse, fazendo Touya franzir a testa. 'Achamos que as cartas estão fora de controle. Não tem como a minha outra metade conseguir controlar a carta.'
'Li consegue.' Touya falou.
Yukito balançou a cabeça de leve. 'As cartas obedecem apenas a um mestre.'
Touya olhou para Yukito. 'Hiiragizawa falou isso?' Yukito confirmou com um gesto. 'Humph…' Ele murmurou. 'Aposto com você que Li consegue controlar as cartas.'
Yukito franziu a testa observando Touya. 'Por que acha isso?'
'Por que este seu amigo Hiiragizawa não sabe de nada.' Falou com sarcasmo. 'Desculpa.' Arrependeu-se. 'Estou nervoso. Preocupado com Sakura.'
'Certo.' Yukito falou com o rosto sério.
Ele falaria mais alguma coisa, mas calou-se com a aproximação da médica. Bateu no ombro de Touya, alertando-o.
'A operação foi um sucesso. Foi realmente um verdadeiro milagre!' A médica falou, sorrindo para o grupo. 'Agora é esperar para ver como ela reagirá ao pós-operatório. Mas estou muito otimista.'
'Você conseguiu pegar tudo?' Kurogane olhou para Meilyn que acabara de entrar no carro com uma mochila.
'Acho que sim.' A jovem respondeu, olhando para a mochila em seu colo. 'Peguei algumas roupas para Xiao Lang e algumas para Sakura. Ela precisa acordar logo, senão ele vai enlouquecer.'
Kurogane concordou com um gesto. Ele ligou o carro e o pôs em movimento a caminho do hospital de Tomoeda.
Meilyn ia calada, olhando pela janela a noite escura e sem lua. As luzes da cidade estavam acesas. Sem querer, pensou que gostaria que Hyo Ling estivesse com ela naquele momento. Suspirou chamando a atenção de Kurogane que a fitou rapidamente, mas voltou sua atenção à rua.
Meilyn não podia negar que sentia saudades do esposo. Não deveria, mas sentia. Precisava esquecê-lo, pois seria o melhor para ela e, principalmente, para ele. Desviou os olhos da rua e olhou para a mochila onde carregava as roupas do primo.
Sorriu de leve. Xiao Lang tinha feito de tudo para esquecer Sakura e não conseguiu. Ele morreu e voltou para estar ao lado da japonesa.
Seria realmente impossível, esquecer um amor? Ela pensou, por anos, que amava o primo. Na verdade, às vezes se perguntava se ainda o amava. O brilho da aliança na sua mão esquerda chamou sua atenção. No fundo, tinha certeza que o amava, mas não era da maneira como imaginava.
Queria que Syaoran fosse feliz, tinha acompanhado-o toda a vida. Franziu a testa, lembrando-se do olhar dele ao fitar o tal Yanamoto e sentiu novamente um calafrio percorrer a espinha. Era como se ele tivesse se transformado em um animal selvagem. Nunca havia visto aquele olhar no rosto do primo, Syaoran sempre fora, de uma forma ou outra, doce. Ele era determinado; havia sofrido um bocado e ela sabia disto, mas nunca tinha visto aquele olhar cruel em seu rosto antes. Alguma coisa muito profunda tinha mudado, ou melhor, quebrado, no primo.
Tomoyo tinha lhe contado tudo o que sabia e suspeitava sobre o que o primo era agora. Respirou fundo e deixou o ar sair pela sua boca de forma devagar, pensando. Fora ela quem tinha preparado o corpo dele quando chegou em Hong Kong.
Fechou os olhos e apertou de leve a mochila que estava sobre suas pernas, lembrando-se, de forma dolorosa, de vestir e arrumar o corpo sem vida do primo. Frio e rígido. Hyo Ling estava ao lado dela, mesmo que fosse proibido. Ele sabia que aquilo estava sendo penoso demais para ela. Sem querer sentiu uma lágrima sair de seus olhos, levou a mão ao rosto para secar. Não queria chorar mais.
'Tudo vai ficar bem.' Ouviu o rapaz ao seu lado falar e concordou com a cabeça. 'Kinomoto é forte. Ela vai sair dessa. Além disso, tanto eu como você sabemos que eles são diferentes.'
'Acho que sim.'
'Vi você em algumas filmagens da princesa.' Ele falou, tentando distraí-la. Não gostava de ver mulheres chorando.
Meilyn sorriu. 'A princesa é a Tomoyo, é?'
Ele sorriu e concordou. 'Ela é minha princesa. Mas ela é durona. Muito difícil.'
'Você deve continuar insistindo. Ela fala muito de você.'
'Ah, isso é bom.'
'Sim. Ela nunca falou tanto de nenhum outro rapaz antes.' A chinesa disse, sorrindo de leve. 'Então ela fez você ver as filmagens de Sakura e Xiao Lang?'
'Sim… Foram tardes inteiras quase.'
Meilyn sorriu, secando o rosto. 'Deve ter sido entediante.'
'Não… Muito pelo contrário. Kinomoto e Li tiveram uma infância bem agitada. Não é à toa que eles se metem em tantas confusões.' Ele falou, girando o volante para dobrar à esquerda. 'Como eu falei, também vi você em algumas filmagens.'
'Sim… Naquela época eu era ainda namorada do Xiao Lang.'
'Namorada?' Ele surpreendeu-se.
Esta era novidade, então o ex-colega de alojamento tinha duas namoradas aos 10 anos de idade. Com aquela cara de tonto e tímido, e ficando vermelho o tempo todo, o garotão tinha uma namorada e estava de olho na outra menina. E depois ainda tinha a cara de pau de falar que ele era o galinha.
'Sim… Nós fomos namorados.' Ela falou, sorrindo de leve. 'Ele era um garoto muito tímido.'
'Pelo jeito as garotas gostam de meninos tímidos.'
Meilyn riu. 'Sim… Mas ele fez questão de terminar com o nosso compromisso antes de se declarar para Sakura. Ele nunca me viu como namorada. Ele me via como uma irmã… E, no fundo, acho que ele estava certo.'
Kurogane desviou os olhos da rota e fitou rapidamente o perfil da jovem chinesa ao lado dele. Era uma mulher muito bonita e tinha sido uma menina muito bonita. Li tinha sorte e bom gosto.
'Tomoyo me falou que você casou com um primo também. Ela queria ir ao seu casamento, mas Kinomoto não estava bem naquela época.'
'Sim… Eu me casei na época em que Xiao Lang estava morto.' Ela falou. 'Estava morto…' Repetiu, ainda inconformada. 'Xiao Lang sempre foi dramático… Não poderia estar viajando ou estudando em outro país… Não. Ele estava morto.'
'Acho que sim…' Kurogane concordou. 'É muito louco se a gente parar para pensar.'
A jovem se voltou para o rapaz. 'Hoje… Quando ele matou aquele homem…' Ela falava devagar. Kurogane apertou o volante de leve. 'Ele o matou a sangue frio. Ele estava transtornado, não parecia ele. Não parecia o Xiao Lang.'
Kurogane suspirou sem tirar os olhos da rua. 'Ele estava com a mulher que ama nos braços, sangrando. A mulher que o fez ir ao inferno para voltar para ela. Acho…' Ele reteve-se por alguns segundos. 'Sinceramente, se alguém tentasse algo contra Tomoyo… Talvez eu fizesse a mesma coisa.'
'Talvez…' Meilyn repetiu.
O sinal fechou e ele parou o carro, virou-se para a jovem, fitando-a. 'Eu, com certeza, mataria qualquer um que fizesse mal a mulher que eu amo.'
Meilyn arregalou os olhos de leve. Ele tinha razão.
Alguns instantes depois ele prosseguiu. 'Li não terá problemas com isso. Ele agiu em legítima defesa.'
'Você é advogado, não é?'
'Ainda não. Apenas me formo no final do ano. Mas, neste caso, ele não terá problemas. O maior problema será a documentação dele. Eu sei que a sua tia já está ajeitando tudo.' Falou, voltando a movimentar o carro, o sinal tinha aberto para eles.
'Você conhece a Tia Yelan?' Meilyn perguntou surpresa.
'Eu falei com ela duas ou três vezes. Ela gosta de agir pelas sombras. É uma mulher bem determinada.'
'Acho que sim.' A chinesa falou dando de ombros. A tia, com certeza, deveria estar uma fera com ela por ter abandonado o clã.
'Você gosta muito do Li, não é?'
Meilyn suspirou. 'Ele é o primo mais próximo que eu tenho. E como ele era bem sozinho, naturalmente, eu gostava de ficar com ele. Hyo Ling já era o mais popular. Sempre era o centro das atenções nas reuniões de família.' Ela falou, sorrindo de leve ao lembrar do esposo. 'Ele e Xiao Lang eram os melhores em tudo. Só que Hyo Ling não é detentor de magia como Xiao Lang.' Ela continuou a falar entusiasmada. 'Ele, mesmo assim, era muito estudioso e sabia tudo sobre magia. Além disso, era excelente aluno. Ele também se formou em direito como você.'
'Mesmo?'
'Sim…' Ela falou orgulhosa. 'Foi um dos melhores alunos da faculdade de Hong Kong. Quando estavam em treinamento pelo clã, apenas Xiao Lang era páreo para ele. Os outros rapazes do clã não conseguiam nem fazê-lo se cansar.'
'Impressionante.'
'Sim… Agora ele é o líder do Clã. É ele quem toma as decisões mais importantes da família. Nossa família é milenar, sabia? Temos tradições de séculos.'
'Realmente, deve ser uma posição muito importante.'
'Uma posição de muito orgulho. Xiao Lang era o mais cotado, mas como ele está morto... Quer dizer, para o clã, ele está morto, então o Hyo Ling foi o escolhido.'
'Ele deve ser um homem muito sábio.'
'Hyo Ling tem um senso de honra muito forte.'
'Um homem cheio de qualidades.'
'Muitas.'
'E por que você não está com ele?' O rapaz finalmente perguntou. 'É seu esposo, não? E, pelo que me falaram, ele é apaixonado por você desde a época em que você era namorada do seu outro primo.'
Meilyn arregalou os olhos de leve. Oras, aquele rapaz a tinha feito listar todas as qualidades do marido para agora dar o golpe fatal. Sentiu um bolo se formar na garganta.
'Eu… Eu… Não posso.' Ela respondeu com a voz falhando. 'É complicado.'
'Complicada é sua amiga Tomoyo.' Ele falou. 'Você já é casada com o cara. Ele é apaixonado por você e, pelo que eu acabei de constatar agora, você também é apaixonada por ele.'
'Eu não sou apaixonada por Hyo Ling.' Ela falou, irritada.
'Não?' Kurogane perguntou em tom de ironia.
'Não.' Repetiu.
'Humph…' O rapaz murmurou. 'Pelo jeito o clã Li tem a teimosia no DNA.'
'Você… É muito petulante, sabia?'
'Eu?' O rapaz falou, rindo. Parecia que agora estava falando com a versão feminina de Syaoran Li.
'Sim… E está me irritando com essa conversa. Assim você não tem como conquistar a Tomoyo.'
Bingo. Exatamente irritadiça como o ex-colega de alojamento. Ele parou numa das vagas perto do hospital e desligou o carro.
'Vamos lá, senhora Li. Antes que, assim como o seu primo, você resolva me ameaçar por eu estar falando a verdade.' Falou antes de abrir a porta do carro para sair.
Meilyn bufou ainda umas duas vezes antes de segui-lo, carregando a mochila, e bater a porta com força, encarando o rapaz irritante. Ele tinha um sorriso irônico no rosto.
'Vamos?' Kurogane falou já caminhando em direção a entrada do hospital, com a chinesa logo atrás, com passos duros.
'Syaoran.' O rapaz ouviu o chamarem. Estava sentado em uma cadeira no corredor do hospital, esperando acomodarem Sakura no quarto para poder entrar e ficar com ela. O rapaz levantou o rosto e fitou Tomoyo. 'Como você está?'
Ele suspirou. 'Estou legal.' Respondeu o mesmo que tinha dito para o enfermeiro.
'Pedi para Meilyn pegar algumas roupas para você e Sakura.' Ela informou.
'Obrigado.'
'Você precisa comer alguma coisa também.'
'Estou sem fome.' Respondeu sem encarar a amiga. Ele sentiu que ela segurou uma de suas mãos e o puxou. Arregalou os olhos surpreso.
'Venha comigo. Vamos comer alguma coisa.' Ordenou, puxando o rapaz.
Ele adoraria dizer que não e gostaria muito de falar uns desaforos para a amiga. Mas fechou os olhos rapidamente e se deixou ser puxado por ela.
'Sakura logo irá acordar e se ela o vir com essa cara, aí sim, que vai ficar triste.' A morena falou com confiança.
Syaoran sorriu de leve, observando as costas de Tomoyo enquanto esta ainda tinha a mão dele bem presa à dela.
Now and then there's a light in the darkness
(De vez em quando há uma luz na escuridão)
Feel around till you find where your heart went
(Sinta a sua volta até encontrar onde seu coração foi)
There's a weight in the air
(Há um peso no ar)
But you can't see why, why
(Mas você não pode ver o porquê, o porquê)
Tomoyo confiava que Sakura ficaria bem. Estava sofrendo, mas tinha uma confiança ímpar de que a amiga sairia desta. Sempre fora assim, desde meninas. Tomoyo não tinha medo de se aventurar junto com Sakura nas confusões e, mesmo depois de quase ter perdido a vida durante aquela loucura toda que o ex-colega de Clow armou, continuava tendo confiança de que Sakura resolveria tudo.
Os dois chegaram à cantina no hospital e a jovem praticamente empurrou Syaoran para sentar em uma das cadeiras. Afastou-se apenas para fazer o pedido no balcão e, em poucos minutos, voltou com uma bandeja. Estendeu uma xícara grande de chocolate quente para ele.
'Não é tão bom quanto o que eu faço, mas é chocolate. Sei que você gosta.' Ela comentou com um pequeno sorriso.
Ele concordou com a cabeça e pegou a xícara das mãos dela. Ficou surpreso em saber que ela tinha conhecimento da sua preferência pela bebida. Tomou em goles pequenos, observando a jovem sentada à sua frente tomar o chá que havia pedido para si mesma.
'Come também estes bolinhos.' Ela falou, empurrando o recipiente com os pãezinhos na direção dele. Li olhou para eles. Não estava com vontade.
'Aquela bola de pelos não está por aí?' Perguntou. Pensou que o bichano guloso poderia tirá-lo daquela situação. Não queria magoar a amiga, recusando a atenção dela.
Tomoyo inclinou o corpo, fitando-o profundamente. 'Não. E pare de usar Kero para escapar. Você faz isso muito bem, mas não cola comigo Syaoran. Come.'
'Humph.' Ele murmurou e pegou um, levando-o a boca a contragosto. 'Kurogane vai ter problemas com você.'
Ela corou levemente e esboçou um sorriso. 'Yuo não é teimoso como você.'
'Ele só é insistente. Pelo menos é mais honesto e menos covarde que Hiiragizawa.' Falou e logo se arrependeu.
Tinha dado com a língua nos dentes. A vida amorosa de Tomoyo não era realmente de sua conta, embora se preocupasse com a amiga.
Tomoyo semicerrou os olhos no amigo. Respirou fundo e pensou que realmente Syaoran a tinha flagrado com Eriol numa situação constrangedora. O amigo, no final, tinha intervindo na hora certa. Ela desviou os olhos dele e fitou a xícara que tinha nas mãos, assim como ele passara a encarar a própria xícara, antes de beber devagar o chocolate.
'Você… Você chegou na hora certa.' Ela falou, sem fitá-lo.
'Não quero que você sofra. Hiiragizawa precisa parar de achar que é Clow e começar a agir como homem.' Disse de forma dura. 'E você também precisa decidir o que quer. Kurogane é gente boa.'
'Ele é uma pessoa maravilhosa.' A morena falou, sorrindo.
'Você também é.' Ele respondeu e a viu corar.
Didn't I tell you you were gonna break down?
(Eu não disse que você entraria em colapso?)
Didn't I want you, everybody wants you
(Não o queria? Todo mundo quer você)
Tell me what you're needing, give into your bleeding
(Diga-me o que você está precisando, divida seu sofrimento)
Never any feeling for yourself
(Nunca guarde para si mesmo)
Ficaram em silêncio, cada um tomando sua bebida, até Meilyn e Kurogane chegarem. O rapaz beijou a testa de Tomoyo com carinho antes de sentar ao lado dela. Meilyn perguntou como Syaoran estava, ao que o rapaz respondeu a mesma coisa que vinha repetindo desde que acordara. Só estaria realmente bem quando pudesse ver Sakura.
'Sakura já está no quarto?' Kurogane perguntou.
'Daqui a pouco vão transferi-la para lá.' Tomoyo respondeu. 'Então poderemos ficar com ela. O senhor Taniguchi está cuidando de tudo. Ele é um homem muito gentil.'
Kurogane acenou que sim com a cabeça. Já tinha percebido que o senhor gostava muito de Sakura. Ele a tinha atendido algumas das vezes em que o rapaz a levara ao hospital com Tomoyo, durante o tempo que Li estava morto. Houve vários momentos em que Sakura realmente estivera esgotada não só psicologicamente, mas fisicamente por estudar tanto sabe-se-lá-o-quê e se alimentar mal, além de dormir pouco devido aos constantes pesadelos. Ele fitou o ex-colega de alojamento que se mantinha em silêncio.
'Sei que está sem cabeça agora, Li, mas vai precisar prestar esclarecimentos para a polícia.' Kurogane falou, fazendo o rapaz encará-lo. 'Conversei com o delegado que estava louco para arrastá-lo para a delegacia.' Ele ouviu o rapaz murmurar alguma coisa, contrariado. 'Além disso, lá fora ainda está escuro e já são oito da manhã.'
Syaoran franziu a testa. 'Ainda?' Kurogane assentiu com a cabeça. 'Droga.' Falou, trincando os dentes.
Ele tinha que fazer alguma coisa. Sabia que aquela escuridão era obra da carta de Sakura, mas imaginou que, com o enfraquecimento da presença da jovem, a carta também enfraqueceria. Trevas estava agindo com autonomia e isso era perigoso.
'Tomoyo.' Ele chamou a morena que o fitou. 'Pode me emprestar o seu celular? Preciso falar com a bola de pelo.'
'O que foi, Xiao Lang?' Meilyn perguntou, vendo a agitação do primo.
'Não é nada. Só vou tirar uma dúvida com ele.' Respondeu, tentando passar tranquilidade.
Tomoyo pegou o celular da bolsa e estendeu para o amigo que agradeceu. O rapaz digitou o número da casa do irmão de Sakura. Touya atendeu o telefone.
'Kinomoto.' Syaoran falou.
'Li! Sakura já está no quarto?' O tom dele era de preocupação. O homem tinha apenas deixado o hospital há uma hora para tomar um banho e comer alguma coisa.
'Não.' Ele respondeu. 'Preciso falar com Kerberus.'
'Ah! Aquela praga…' Touya murmurou. 'Peraí.'
Alguns segundos depois Syaoran ouviu o barulho de alguém mastigando ao telefone e a música de um vídeo game ao fundo. Franziu a testa não gostando.
'O que foi, moleque?'
'Sua mestra está num hospital e você está comendo e jogando vídeo game?' Questionou de forma dura.
'Estou nervoso. Preciso me concentrar em algo ou eu vou enlouquecer de preocupação com Sakura. Além disso, ninguém me deixa ir ao hospital.'
'Quando era para pegar doces você sempre dava um jeito de ir escondido na bolsa dela.'
'Porque Sakura era uma tonta e eu conseguia passá-la para trás. Com estes dois aqui não consigo nem chegar à janela.' Tentou se defender.
Syaoran suspirou e balançou a cabeça de leve. 'A carta Trevas ainda está ativa. Por quê?'
'Não sei! Falamos com Eriol, mas ele também não entende o porquê dela ainda estar liberta com a energia de Sakura tão baixa.'
'Isso porque ela está agindo de forma independente. Alguém tem que lacrá-la novamente. Sakura não pode agora.'
'Nem eu e nem Yue temos este poder sobre as cartas.' O Guardião falou e trincou os dentes. 'Nós tentamos. Gastamos quase todas as nossas energias, mas não conseguimos. Sakura está muito fraca agora, se usarmos mais, colocaremos em risco a nossa própria existência. Mesmo com energias externas não somos completamente independentes da nossa mestra. Se ela está fraca, isso nos enfraquece também.'
We build it up, we tear it down
(Nós construímos, nós quebramos)
We leave our pieces on the ground
(Deixamos nossos pedaços no chão)
We see no end, we don't know how
(Não vemos um fim, não sabemos como)
We are lost and we're falling
(Estamos perdidos e estamos caindo)
Hold onto me
(Segure-se em mim)
You're all I have, all I have
(Você é tudo o que tenho, tudo o que tenho)
Hold onto me
(Segure-se em mim)
You're all I have, all I have
(Você é tudo o que tenho, tudo o que tenho)
Syaoran fechou os olhos e pensou por um momento. Quando ouviu Kero reclamando por alguém ter pego o telefone da mão dele sem pedir.
'Li.' O rapaz ouviu a voz do cunhado. 'Você pode lacrar a carta.'
'Só as controlo com a autorização de Sakura.'
'As cartas o reconhecem também como mestre delas.' Touya continuou. Ele lembrava bem da conversa que teve com Kagami.
'Isso… Isso não é possível.'
'Por que não tenta?' Touya falou. 'Ou você está com medo?'
Didn't I tell you you were gonna break down
(Não te disse que você entraria em colapso?)
Didn't I warn you, didn't I warn you
(Eu não te avisei, eu não te avisei?)
Better take it easy, try to find a way out
(Melhor ir com calma, tente encontrar uma solução)
Better start believing in yourself
(Melhor começar a acreditar em si mesmo)
'Você realmente sabe convencer alguém.'
'Estarei no hospital em 15 minutos. E então você sai para resolver isso.' Ele continuou. 'É bom fazer isso antes de Sakura acordar. Ela ficará nervosa quando souber.'
'Tem razão.'
'Até daqui a pouco.' Touya falou, desligando o telefone.
Syaoran observou o aparelho por algum tempo, pensando no que Touya tinha lhe falado. Como ele poderia afirmar aquilo de forma tão segura? Quando pensava que tinha se surpreendido com o cunhado, logo ele vinha com mais uma surpresa.
Syaoran corria pelas ruas de Tomoeda. Precisava resolver aquele problema com Trevas o quanto antes. Olhou para o céu encoberto pela carta. Entrou, ainda correndo, pelo bosque de Tomoeda, parando no lugar que achou mais deserto. Coçou a cabeça, colocando os pensamentos em ordem. Touya o tinha convencido a tentar resolver isso antes de Sakura acordar.
'Vamos lá…' Ele sussurrou. Fechou os olhos e se concentrou, embaixo de seus pés, a mandala mágica em forma de octógono baguá com o símbolo do Yin-Yang ao centro brilhou de forma esplêndida.
We build it up, we tear it down
(Nós construímos, nós quebramos)
We leave our pieces on the ground
(Deixamos nossos pedaços no chão)
We see no end, we don't know how
(Não vemos um fim, não sei como)
We are lost and we're falling
(Estamos perdidos e estamos caindo)
Franziu a testa, reparando sua mandala com a tonalidade púrpura. Diferente da dourada que era antes. Provavelmente reflexo da sua mudança. Levantou o rosto, fitando os céus e pensando que teria que invocar Luz. Não se sentia bem em usar as cartas sem a autorização de Sakura. Achou melhor não pensar nisso agora. Depois se desculparia com a amada. Respirou fundo novamente e pegou as cartas do bolso da calça jeans. Invocaria apenas Luz, mas, por algum motivo, simplesmente jogou as cartas para o alto e as viu circulando em volta dele. Uma a uma, elas foram tomando suas formas originais ficando em volta dele.
Esperança parou em frente a ele, encarando-o. 'Sua presença nos fortalece.' Ela começou a falar.
'Minha presença não é a da mestra de vocês.' Rebateu.
A carta sorriu de leve. 'Nossa mestra nunca lhe contou o que realmente aconteceu quando ela me transformou em uma carta Sakura?'
Syaoran ergueu uma sobrancelha. 'Do que você está falando?'
'Nunca se perguntou por que você não perdeu o seu sentimento mais importante?'
'O poder de Sakura anulou o seu.' Ele respondeu.
'Humph'. A carta murmurou. Inclinou-se em direção ao rapaz, encarando-o de perto. 'Não tire conclusões precipitadas.'
'Então me explique.'
A carta o encarou por alguns segundos. 'Sakura não só me transformou em carta Sakura, ela uniu a minha transformação com uma outra carta que tinha criado antes.'
'Ela criou uma carta?' Mostrou-se surpreso. A namorada nunca havia comentado isso antes.
Hold onto me
(Segure-se mim)
You're all I have, all I have
(Você é tudo o que tenho, tudo o que tenho)
Hold onto me
(Segure-se mim)
You're all I have, all I have
(Você é tudo o que tenho, tudo o que tenho)
Esperança assentiu. 'As cartas, para nós, são como prisões. Elas limitam nossos poderes. Como se fossem paredes ao nosso redor, impedindo que nós nos libertemos segundo nossa vontade.' Ela deu um longo suspiro, franzindo a testa de leve. 'Clow, inclusive, regrediu muitas de nós neste processo.'
'Hiiragizawa explicou isso sobre as prisões.' Li rebateu. 'Não sobre as regressões.'
Ela riu de forma triste, mesmo que tentasse ser sarcástica. 'Hiiragizawa não tem todas as lembranças de Clow. Ele não lembrava da minha existência até eu ser libertada quando a casa de Clow foi destruída.'
Syaoran semicerrou os olhos na carta. 'O que você está querendo me dizer?'
'Que eu sei exatamente o que você é agora.'
Ele engoliu em seco.
'Antes de vir para este universo, eu também era um. Nós todas éramos.'
'Sim.'
'Eu era o líder. Por isso ela tinha que sacrificar algo para me transformar. Eu exigi "algo" em troca de segui-la como mestra.' Ela falou com o rosto sério. 'Como líder, não admitiria aceitar um mestre sem algo em troca. Você deve saber muito bem como o Mundo das Trevas funciona. Lealdade só se conquista por ser o mais forte, ser temido ou através de acordos. O preço da minha lealdade foi o sentimento mais importante para quem estava disposto a se tornar meu mestre.'
Ele desviou os olhos dela. Lembrava-se do tempo que esteve no mundo das trevas e das conversas que teve com Arthas e Luthor. Os demônios geralmente mantinham-se em grupos, seguindo um mais poderoso. O líder.
'Acho que o tempo que estive lá deu para entender como as coisas funcionavam.' Li falou e franziu a testa, encarando-a. 'Então… Se esta era sua exigência para aceitar a insígnia de Sakura, o que aconteceu?'
'Sakura, quando me transformou, juntou-me à carta que ela mesma criou e sobre a qual não contou para ninguém.'
Can you hold onto me?
(Você pode se segurar em mim?)
'Por que ela faria isso?'
A carta sorriu. 'Porque nem ela mesma sabia o que era.' A jovem apontou para o próprio peito onde a figura de um coração alado estava presente. 'Ela criou esta carta quando descobriu que o amava.'
Syaoran arregalou os olhos, não sabia disto.
'E foi por causa dela que você não perdeu seus sentimentos. Porque, no final, ela deu parte do que sente por você, para mim.'
'Isso… Não é possível.'
'Eu também pensei que não fosse.' Ela falou com sinceridade. 'Mas, agora, justamente por isso, ela lhe deu poder sobre mim. Sobre todas nós.'
Syaoran rodou em torno de si, observando todas as cartas. Sakura, no final, assim como ele, tinha aberto mão das cartas para ele. Voltou a fitar Esperança.
'Então você é quem as comanda?'
'Não mais.' Ela respondeu. 'Sakura e você são nossos mestres. Clow não conseguiu me controlar, por isso me selou. Fez isso para manter o controle das cartas. Se estou aqui agora, e não selada novamente pela nova mestra, é porque agora as coisas mudaram.'
'Mudaram?'
'Sim.' Ela falou sorrindo. 'Sakura nos considera como seres independentes e não apenas nos manipula como Clow. Ela nos vê como amigas. Ela me deu parte do seu coração e foi então que eu, um demônio superior, finalmente senti o que era amor.' Ela desviou os olhos de Li e fitou as outras. 'Foi quando todas nós descobrimos o que é amor.'
Can you hold onto me?
(Você pode se segurar em mim?)
Syaoran sorriu. 'Ela tem este poder.'
'Sim.' A carta concordou. 'Por isso, repito. Sei o que está passando. Mas sei também que o amor dela pode salvá-lo.'
'Obrigado.' Agradeceu. Precisava ouvir isso.
A carta deu um passo para trás saindo do perímetro da mandala dele e se juntando às outras. Elas voltaram todas a serem lâminas mágicas e repousaram na mão dele. Apenas uma permaneceu em sua forma original. Syaoran olhou para a figura da bela mulher. 'Por favor, Luz.'
Ela sorriu para ele e expandiu seu poder, fazendo finalmente a luz inundar a cidade que estava há horas presa na total escuridão. Ele levantou o rosto e fechou os olhos, sentindo finalmente o calor do sol aquecendo-lhe. Quando voltou a abri-los, as duas figuras femininas, Luz e Trevas, estavam à sua frente. Ele fez um gesto, agradecendo, e elas, assim como as outras, voltaram a ser lâminas mágicas.
Ele estendeu a mão, pegando as duas e as fitando com um leve sorriso. Aquelas duas cartas foram as que Sakura transformou com a ajuda de Yue e Kerberus. Ele tentou ajudá-la também, mas sabia que ela conseguiria fazê-lo sozinha.
'Não, ela não conseguiria.' Ouviu a voz de Esperança, assustando-se.
Run away, run away if you can't speak
(Fuja, fuja se você não pode falar)
A mandala finalmente desapareceu de seus pés. Sentia-se cansado, não havia dormido ainda desde que acordara no hospital. Colocou as cartas no bolso e começou a correr de volta ao hospital.
Enquanto passava pela cidade ouviu os comentários de felicidade pelo sol ter retornado. Sentiu-se satisfeito e também mais leve depois da conversa com Esperança.
'Como você soube que ele conseguiria?' Yukito perguntou para Touya que, assim como ele, admirava o sol do lado de fora do hospital.
'Eu gosto dele.' Touya falou sorrindo. 'Sabia que ele seria capaz.'
'O que você está me escondendo?'
'Eu? Nada.' O moreno respondeu, sorrindo de lado. 'Mas, com isso, você pode ver que o todo poderoso mago Clow não sabe de tudo.'
'Está falando isso para mim ou para minha outra metade?'
'Para vocês dois.' Respondeu sério.
Yukito suspirou. Sabia muito bem que Touya não gostava nem um pouco de Eriol. E tinha lá suas razões. Clow tinha bagunçado e muito a vida da irmã, mas o rapaz tinha que entender que ele também fora seu criador. Se não fosse Clow ele não existiria.
Fitou o lado de fora através da janela e observou as pessoas olharem admiradas para o dia com o sol a iluminar tudo de forma esplendorosa. Sorriu de leve. Estava feliz por Syaoran ter conseguido controlar as cartas. Estava surpreso, era verdade, mas feliz pelo problema ter sido resolvido.
Tomoyo se aproximou dos dois. 'Ela já está no quarto. Mas apenas uma pessoa poderá ficar com ela.'
Touya virou-se para a prima. 'Acho que a gente nem precisa decidir quem, né?' Comentou de forma irônica.
Yukito observou o companheiro. 'Realmente… Você, de repente, adora o seu cunhado.'
'Não seja debochado.' Touya retrucou. 'Isso não combina com você, Yuki.'
Tomoyo observou os dois e sorriu. 'Mas ele tem razão. Sakura ficará melhor com ele ao lado dela.'
'Sim.' Touya concordou, sorrindo. 'Ela logo acordará.'
Syaoran entrou correndo pelo hospital e se encaminhou à sala de espera. Parou na porta e fitou o cunhado, que o cumprimentou com um gesto, por ter conseguido resolver o problema com as cartas. Sorriu agradecido por ter confiado nele. Franziu a testa, pensando que deveria perguntar como Touya sabia que ele seria capaz de fazer isso, mas agora tinha uma pergunta mais importante: 'Sakura?'
Tomoyo voltou-se para ele. 'Ela está no quarto 401. Está esperando por você.' Respondeu, sorrindo de leve. 'Cuide dela. Estaremos aqui se precisar.'
'Tenho certeza que sim.' Falou, desaparecendo da vista deles e seguindo em direção ao quarto indicado pela amiga. Parou em frente à porta e sorriu, sentindo a presença da namorada aos poucos ficando mais forte. Abriu a porta e a encontrou deitada na cama. Não gostava de vê-la assim tão indefesa e frágil. Preferia mil vezes vê-la gritando com ele e chamando-o de estúpido arrogante. O que no fundo, ele era mesmo. O enfermeiro Taniguchi estava com ela, preparando alguma medicação. Levantou os olhos, encarando o rapaz e sorriu para ele.
'Vi que resolveu o problema lá fora, Senhor Li.'
Ele concordou com a cabeça e cruzou o quarto, pegou uma cadeira que estava no canto do local e colocou ao lado da cama de Sakura, sentando-se. Pegou a mão da jovem entre as suas, entrelaçando os dedos.
'Agora sou eu quem lhe peço.' Sussurrou perto do ouvido dela. 'Volte para mim, Sakura… Não me deixe.' Sabia que ela o estava ouvindo e sentiu os dedos dela pressionarem sua mão, dando-lhe ainda mais certeza. Sorriu. 'Eu estou lhe esperando.'
Wing Chieng Li observava a pilha de cadernos de anotações e livros de referências que foram usados por Clow e Shyrai para estudar sobre a possibilidade de abrir um portal interdimensional.
'Está tudo aqui?' Smith perguntou, aproximando-se do ancião que concordou com a cabeça.
'Foi muito difícil tirar tudo isso da China e trazer para cá sem chamar atenção de nenhum membro importante do clã.' O ancião falou de forma cansada.
'Acha que a resposta do que precisamos está aí?'
'Possivelmente.'
'Contratei alguns arqueólogos, antropólogos e especialistas em línguas mortas e não usuais para nos ajudar nas traduções.' Ele falou. 'Tenho pressa em achar logo uma solução para nosso problema. Soube o que aconteceu em Tomoeda poucas horas atrás. Syaoran Li despertou como demônio. Já deve ter ideia clara do que é capaz.'
'Como pode saber?'
'Colocando uma escuta na linha de Hiiraguizawa.' Ele respondeu. Não tinha problemas em usar e abusar de métodos escusos para obter as informações necessárias a fim de proteger seu universo. Na arte da guerra, os fins justificavam os meios e ele estava, com certeza, em guerra contra a reencarnação de Clow e seus aliados.
O ancião observou o homem à sua frente. Sabia quando estava lidando com alguém perigoso. 'Qual é seu verdadeiro interesse em Xiao Lang Li e Sakura Kinomoto?' Ele perguntou. 'E não me venha com esse papo de que é para proteger este universo. Nós dois sabemos que isso não é verdade e eu não sou idiota como Charles e Rosas.'
Smith sorriu de lado. 'Considera-se muito esperto, velho?'
'Só não sou idiota.' Repetiu, encarando-o.
'Meus propósitos só dizem respeito a mim.' Falou por fim. 'Agora os seus… Bem… Aquele fedelho deve tê-lo realmente humilhado muito para ficar com tanta raiva dele, não?'
'Enquanto Xiao Lang era apenas um moleque inconsequente e teimoso não era perigoso.' Wing Chieng falou. 'No entanto agora ele, além de ter um alto grau de magia, também é um ser das trevas poderoso. Ele realmente não é um perigo apenas para o Clã e, sim, para todo o universo ao qual nós pertencemos.'
Smith gargalhou. 'Discurso comovente.'
Wing Chieng deu um soco na mesa irritado. 'Não seja debochado e arrogante Smith.'
O homem fechou o rosto e inclinou o corpo em direção ao ancião, a mesa com a montanha de documentos entre eles. 'Então não me venha com esse papo furado.' Falou em tom baixo e arrogante. 'Estamos aqui apenas com um propósito: Syaoran Li é uma pedra em nossos sapatos. Precisamos destruí-lo.'
O ancião concordou com um gesto.
'Ótimo. Concordamos com isso anteriormente e estamos de acordo agora.' Smith continuou. 'Amanhã, sem falta, iniciaremos as pesquisas. Com a equipe enorme que contratei espero encontrar a resposta em poucos dias. Tenho pressa. O Pilar, por pouco, não morreu. Aquela energia não pode ser perdida. Precisamos encontrar um jeito de eliminar Li para, finalmente, chegarmos a Kinomoto e ao poder que ela tem.'
Wing Chieng franziu a testa. 'Então é este o seu interesse, Smith. O poder do Pilar?'
'É poder demais para ficar nas mãos de uma menininha tola e apaixonada. Clow e todos os outros que estão do seu lado, são uns idiotas em achar que ela pode controlar aquela força impressionante. Ela não é digna de possuí-la. Aquele poder tem que estar nas mãos de uma pessoa verdadeiramente preparada.'
'Isto é: uma pessoa como você, não?'
Smith sorriu. 'Exatamente.'
Continua.
Música do Capítulo: Pieces (Pedaços), por Rob Thomas
Trilha sonora de FEITICEIROS no spotify: https(:/) user/22rlnulqqvg674k2ys6fjo35y/playlist/7k4ae3qiQIE2y8l0Mv4Nv4
Notas da Autora:
Capítulo de folga para Sakura! Ela estava com estrelismo e pediu para descansar um pouco.
Este capítulo tem vários detalhes que pensamos em trabalhar sobre as cartas. Acho que já perceberam que elas têm um papel importante na história. Elas são seres independentes, com histórias, sentimentos e personalidades. Estamos gostando muito de trabalhar as cartas como personagens e não apenas instrumentos de luta e batalha. Este é um dos ganchos principais da história.
Touya estava meio sumido mas foi fundamental neste momento de dificuldade para sua irmã e de apoio para o seu cunhado! Ele é cabeça dura, mas tem bom coração.
Ironia do destino ou desta história mesmo, vai saber, Syaoran dando uma dura na Tomoyo. A morena realmente está num quadrilátero amoroso complicado.
Obrigada a todos pelos reviews e mensagens! Sempre é bom receber incentivos!
Beijos a todos que estão acompanhando a história.
Notas da Colaboradora:
Adoro o novo espaço que as as cartas estão ganhando na história. Realmente como seres independentes e com personalidades próprias. Primeiro foi Espelho, agora Esperança… Interessante esse "desenrolar" de eventos, não? Syaoran tem controle sobre as cartas, independentemente da permissão da Sakura. Isso explica como a nova presença dele acabou afetando tanto as Cartas ao ponto de deixá-las mais agitadas.
E parece que o Touya realmente não vai com a cara do Eriol, hã? Embora o que mais tenha surpreendido seja a admissão dele quanto a gostar do Syaoran. Nem sob tortura ele fala isso na cara do cunhado, mas ele ter admitido já é um grande passo.
E o enfermeiro Taniguchi voltou a dar o ar de sua graça! Pena que, com o Syaoran cicatrizando sozinho, as visitas dele ao hospital vão diminuir agora.
Ah, gente! Eu realmente, realmente odeio o Smith. Com todas as minhas forças. Tenho vontade, assim, de fazer ele se envolver num pequeno acidente, mas a Kath não me deixa apagá-lo da face da Terra… Eu acho que ele está manipulando a Kath, de alguma forma.
Até o próximo capítulo. Melhora logo, Sakura!
Notas da Revisora:
Nossa... Quanta coisa... Parece que não, mas tivemos grandes revelações neste capítulo. Adorei saber os detalhes sobre as cartas.
Achei interessante a conversa entre a Meylin e o Kurogane, ele é bem espertinho, enrolou ela legal, por isso a braveza... kkkkkk...
A revelação mais legal de todos os tempos... O Touya adora o Syaoran... kkkkkk... Eu amei muito isso...
Espero que com a volta do Eriol eu possa vê-lo louquinho de amor pela Tomoyo e todo confuso por não querer trair a esposa... Quero ver ele saindo da casinha... kkkk... Vamos endoidecer o Eriol para ele perder a pose... kkkkkkkk
Vilões arquitetando... Sempre é bom. O que seria de uma boa história sem os bons vilões?
Esse foi rápido (digo, minha revisão)... Próximo...
Bjs povo.
