A viagem
Edward Cullen
Gargalhei ao ouvir o ronco sonoro do meu pai ao meu lado. E imediatamente lembrei da minha mãe e do fato de que ela é espetacular em esconder que usa protetor de ouvido a noite pra dormir ao lado dele.
Como ela consegue esconder esse fato do meu pobre pai que sofre de um problema nasal é um grande mistério...
Estávamos num aviãozinho minúsculo que fazia tanto barulho que me fazia começar a crer que quando eu saísse deste meu ouvido passaria longas horas sob zunidos.
Fizemos uma escala em Milão, outra no Egito e dali eu peguei um jatinho pra Ruanda. E de Ruanda pegamos esse pedaço de metal que chamaram de avião. Não pudemos voar de jatinho até lá porque nosso pouso não foi autorizado. Teríamos que pegar um avião da área e aí começava a confusão.
Eu não estava com relógio nem celular, portanto não fazia idéia das horas. Mas o sol nascendo na linha do horizonte era espetacular. O céu estava coberto por rosa, laranja, azul, roxo, amarelo e azul, uma verdadeira imensidão de cores... Fascinante.
Suspirei e encostei minha cabeça na poltrona dura daquele avião medonho e fechei os olhos tentando relaxar já que sabia que não conseguiria dormir.
Imediatamente minha mente me levou pra ela, pra minha Bella, e pro olhar perdido que ela tinha no aeroporto. Se não fosse meu pai sussurrando no meu ouvido que realmente precisaria da minha ajuda eu não teria embarcado. Eu ficaria em casa, com ela. Só ela.
Não tirei minhas mãos dela até que fosse extremamente necessário.
Doeu partir sem ela, demais. Mas era necessário.
Não é porque eu agora tenho alguém em minha vida que devo abandonar tudo o que construí ao longo desta. Se meu pai era capaz eu também deveria ser.
Meu estômago rodou congelando quando eu reparei que estaria chegando no nosso destino em alguma horas.
Nunca achei que fosse servir de mediador pra alguma discussão não oficial onde não envolveria membros de organizações internacionais entre a ONG do meu pai e um grupo de soldados rebeldes que eram contra o atual governo de Burundi.
Nunca em minha vida achei que pra seguir minha carreira de médico deveria agir na área da política, e ao contrário do que contei pra Bella esse tempo todo, estava com muito medo.
Eles não hesitam em matar e torturar. Meu pai já viu casos e casos de pessoas que chegaram fugidas no campo de refugiados implorando por socorro médico e também cansou de ver os rebeldes retirando-as de perto de lá e matando a sangue frio.
E era agonizante saber que simplesmente não existia nada que pudéssemos fazer; uma vez fora dos campos de refugiados eles passavam a estar sob as ordens do governo e não mais às normas internacionais.
E por mais revoltante que seja nós não tínhamos poder pra sobrepor a soberania de tal governo.
Eu estava com um medo dos infernos porque eu sabia do que aqueles caras eram capazes de fazer. Se não fomos permitidos de entrar no território deles com o nosso avião imagine tentar uma negociação pacífica pra que eles permitissem a entrada de tropas humanitárias com ajuda de refugiados. Claro que esse seria nosso segundo assunto a discutir.
O primeiro seria apelar pra que eles permitam a estadia das ONGs já existentes no território. Somavam sete junto com a do meu pai. E depois iríamos pra Bujumbura, a maior província de Burundi, onde efetivamente ficava o campo de refugiados e os componentes da ONG do meu pai.
Eu estava agoniado por não saber se sequer conseguiria voltar dessa viagem e com um medo da porra que eles descobrissem que Bella estava na minha vida e tentassem usá-la contra mim. Ou melhor, a favor deles.
O problema com Burundi vem desde a unificação africana no século 19, o país ficava sob a tutela da Alemanha e desde já percebia-se um conflito étnico entre hutus – maioria da população – e os tutsis – que eram a elite desta. Depois da primeira guerra mundial Burundi foi unificado à Ruanda e ambos passaram a ficar sob a tutela da Bélgica, mas poucos anos depois passou pras mãos das Nações Unidas.
Quando o país ficou independente a Bélgica teve que retirar suas tropas e a partir daí começou uma guerra civil sem precedentes de tutsis conta hutus. Os dois grupos étnicos revezam-se no governo desde então e sob constantes genocídios, golpes de Estado e violência. Por isso criaram-se os campos de refugiados, pra proteger os que não querem ser envolvidos pela guerra, ou que querem fugir dela.
O atual presidente de Burundi, Pierre Nkurunziza, é um hutu, e assim como ocorreu no Genocídio de Ruanda, milhares e milhares de pessoas são mortas por mãos tutsis ao longo dos anos.
Eu não estou aqui pra condenar hutus, mas sim dizer que eles não passam de vítimas da Europa uma vez que durante a partilha da África esses grupos étnicos tão distintos foram obrigados a coexistir num mesmo território hora respeitando normas na sua etnia e hora respeitando a da inimiga.
Eu não vou pra lá pra julgar nem hutus nem tutsis, vou tentar arrumar uma maneira de fazer com que os hutus aceitem ajuda internacional e deixar claro que se essa ajuda não vier por bem ela virá por mal porque a ONU já começou negociações na casa a respeito desse caso.
Os países do primeiro mundo, por mais que não se importem com os de terceiro, não querem mais uma repetição do que aconteceu na década de 1990 em Ruanda. Ou na de 1940 com os judeus.
Pra ser sincero eu nem fazia idéia do que esperar porque eles aceitaram ter uma reunião informal com a comissão eleita pelos membros das ONGs, meu pai, eu, um homem pouco mais velho que meu pai e duas mulheres. Então se eles aceitaram essa reunião algo de bom nós podemos tirar: possivelmente eles estão abertos ao diálogo; e é exatamente nisso que eu vou me prender pra conquistar os objetivos do meu pai e os que costumavam ser meus.
Um dia eu pretendo voltar a ter essa garra de lutar pelo mundo, mas agora toda a minha gana foi transferida pra um objetivo único: fazer Bella a minha mulher e mãe dos meus filhos.
Ouvi meu pai engasgar com o próprio ronco ao meu lado e o olhei, rindo baixo.
- Quer uma água?
- To bem... to bem... – disse sonolento. – Não dormiu?
- Nem um pouco. Como você conseguiu?
- Anos de prática. – ele disse gargalhando. – Você vai chegar lá... – falou dando tapinhas em minhas costas e quando viu que eu não ri nem concordou me olhou preocupado – O que foi?
- Uhn?
- O que aconteceu? Você tá sério.
- Só cansado... – desconversei olhando pela janela do avião.
- Edward... – ele disse colocando a mão no meu ombro – Você sabe que pode confiar em mim, não sabe?
- Sei... – bufei.
- Então. O que houve?
- Nada pai.
- Fala pra mim Edward, eu posso te ajudar.
- Pai... – reclamei.
- Você não quer ir, é isso? – ele perguntou dando um afago reconfortante no meu ombro.
E eu ri por lembrar que se tivesse sido minha mãe ela já teria conseguindo a resposta há muito mais tempo. Meu pai e essa insistência dele não o levavam a lugar algum, mas ele estava certo de uma coisa: eu podia confiar nele.
- Só agoniado.
- Com o que? – perguntou.
- Tudo... – bufei e corri meus dedos pelo meu cabelo. – Por ter deixado Bella sozinha quando ela precisava de mim, por estar me metendo num assunto que deveria ser resolvido por presidentes ou diplomatas, por estar colocando não só a minha, mas a vida da Bella e da nossa família em risco. Eu to preocupado demais pai.
- Edward. Você acha que se houvesse possibilidade de dar algo errado eu te chamaria?
- Não, mas- -
- Sem 'mas'. Não vai acontecer nada demais e Bella não está sozinha. Esme me garantiu que olharia por ela.
- É mesmo?
- É...
Sorri satisfeito e um pouco mais aliviado e o encarei.
- Não há possibilidade alguma deles fazerem mal a nossa família certo? - perguntei só pra garantir.
- Eles teriam que me matar primeiro. – disse tão seguro de si que eu me permiti acreditar.
- Valeu pai.
- Nada, filho. – disse retirando sua mão do meu ombro. – Me fala então como você tá com ela?
- Ela se mudou lá pra casa. – falei sorrindo satisfeito.
- Oh. Não é rápido demais? – ele perguntou assustado e eu sorri maliciosamente.
- Talvez, mas eu segui os passos do meu pai. – pisquei e ele gargalhou.
Porque meus pais não tinham sido um exemplo de demora pro relacionamento deles se transformar em casamento. Ok que pouco mais de um mês era record, mas ainda assim. Meu pai e minha mãe casaram-se menos de 6 meses depois que tinham se conhecido no hospital.
- Ok, você venceu essa.
Então entramos numa conversa boba já que há muitos dias não passava um tempo considerável com ele.
Meu pai me disse que assim que o avião aterrisasse em Bujumbura algumas pessoas da comissão das ONGs de lá estariam nos esperando. Chegaríamos a tarde e seríamos guiados pra uma casa onde nos hospedaríamos pela noite e na manhã seguinte rumaríamos pro centro de Bujumbura onde encontraríamos representantes dos rebeldes e estes nos guiariam pro local onde conversaríamos com o líder deles pra começar as negociações.
O líder dos tutsis, que só quis se identificar sob o pseudônimo de Paul Kagame, o cabeça da Frente Patriótica Ruandesa que defendeu os tutsis no genocídio de Ruanda, fez questão de conversar, mas que mantivéssemos sigilo de sua identidade que só seria exposta no momento das apresentações.
As poucas notas que a mídia liberava sobre o conflito de Burundi afirmavam que os tutsis não tinham liderança e que estavam vivendo sob um regime anárquico, fazendo planos pra acabar como governo hutu sem estratégia funcional alguma. O que eu já notei ser mentira. Os tutsis estavam tão organizados que nem diriam a localização da "sede" deles, iríamos escoltados por soldados rebeldes que servem o seu líder. Que atende pelo nome de um líder tutsi passado.
Quando o avião pousou, depois de longas horas de torturas auditivas por ter que ouvir meu pai roncando, e eu notei o quão montanhosa e verde era aquela região. Quase uma cidade interiorana.
Eu já estava com um calor infernal e suando como nunca suei antes. Também, quem sai de um clima de neve e caí num seco e extremamente quente. Uns 20 graus, eu chutaria. Joguei meus cabelos suados pra trás e abri os primeiros botões da minha blusa pra, em seguida, dobrar as mangas da mesma até meu cotovelo.
- Tem internet ou sinal telefônico aqui? – perguntei pra mulher que estava me acompanhando.
Ela era negra, cabelo baixinho, raspado acho. Seus lábios eram volumosos e suas curvas notáveis. Nativa daqui, acho.
- Sim - ela falou num inglês carregado de sotaque francês.
- Parlez-vous français? – perguntei, no meu melhor francês que sabia estar carregado de inglês, se ela falava francês. Ela sorriu envergonhada e concordou com a cabeça.
- Oui! C'est ma langue – ela falou animada que era seu idioma. – Mas tive que aprender inglês pra me virar por aqui. Ou é o francês, que nem todos os turistas conhecem, ou são os dialetos nacionais. Que são muitos e muito difíceis.
- Comprendre. – respondi em francês que havia entendido. – Mas prefiro usar o inglês que você compreende perfeitamente porque meu francês é porco. – falei rindo e ela me acompanhou.
- Oui, oui! Sobre o telefone. Nós temos um em casa, mas linhas de celular só as nativas. Internet é mais complicado de achar por aqui, mas não é impossível. Na nossa rua tem uma amiga que possui um computador com internet. Posso te levar a ela mais tarde.
- Certo, obrigada. Qual é o seu nome?
- Amelie, senhor Cullen.
- Somente Edward, Amelie. E é um prazer conhece-la. – disse e notei que ela abaixou a cabeça. Ri baixinho imaginando que fosse de vergonha.
Continuamos conversando sobre o lugar e ela me explicou várias coisas sobre a cultura do país, desde alimentos à músicas. Amelie era uma mulher interessante de se conversar e pela primeira vez desde que larguei Bella em NY me senti seguro de mim.
Jantamos cedo – ou almoçamos tarde – naquele dia e começamos a bolar estratégias de abordagem do líder tutsi. Estudamos seu histórico – na verdade foi mais o do seu grupo rebelde – e passamos a prever seus movimentos.
Partindo do pressuposto que o presidente de Burundi começou negociações pacíficas com o objetivo de trazer a paz ao seu territórios nos permitimos acreditar que eles estariam mais abertos aos nossos pedidos.
Com os planos de manter a cabeça no lugar pro diálogo com os tutsis, nós decidimos dar a noite por encerrada. Fui até Amelie e pedi pra ela me levar ao telefone.
Precisava ouvir a voz da minha Bella e saber se ela estava bem.
Nunca entendi as reclamações do meu pai quando viajávamos em congressos de medicina sobre como ele sentia falta da minha mãe. Por deus, o máximo de tempo que ficamos em um foi por apenas vinte dias e ele praticamente se estrangulava por causa da 'eternidade' que estavam distantes. Definitivamente uma loucura, nunca o compreendi.
Até Bella, até agora.
A falta da Bella era absolutamente insuportável, era como se meu peito estivesse com um buraco constante. Eu me sentia... vazio. E temia que esse vazio só voltasse a ficas cheio quando ela estivesse comigo... E segura. Comigo. Nos meus braços. Segura. Pra sempre e comigo.
O fuso-horário era de sete horas, e eu temia que ela ainda estivesse trabalhando porque se aqui eram oito horas da noite, lá deveria ser uma da tarde, mas nada me impediria de tentar. O máximo que aconteceria é a minha ligação cair na caixa postal...
Não deu outra. O celular chamou algumas vezes e caiu na caixa de mensagem. Eu deixei o meu recado pra ela, mas mesmo assim não fiquei tranquilo. O sono só chegou a mim quando meu pai veio me avisar que falou com minha mãe e ela disse estar com Bella em casa.
Felizmente meu amor não estaria sozinha.
Então eu dormi... E acordei esgotado, cheio de sono e coceira porque lá fazia um calor infernal e tinha muito, mas muito mosquito. Me dirigi até a sala do andar debaixo onde faziam-se refeições e notei que quase todos os "hóspedes" estavam lá. Mya, Rach, Amelie, meu pai e Tony estavam na mesa e todos tomando café da manhã.
- Bom dia, sunshine! – meu pai falou assim que me viu e eu corei de vergonha quando ele me chamou de "raio de sol" na frente de todos.
Vingança se come pelas beiradas, Carlisle! - minha parte perversa da mente pensou.
- Papaaai! – falei correndo e sentei ao seu lado enchendo seu rosto de beijos.
- Ok ok. Já deu, Edward!! – ele reclamou me afastando dele.
- Nãao! Vem cá pro seu bebê! – falei enquanto o puxava pra um abraço.
- Edward Cullen!
- Esqueceu o Anthony, papi!
- Edward! – ele rosnou e eu gargalhei alto.
- Você me chama de sunshine e acha que vai sair fácil dessa, hu? – falei e então ele gargalhou me empurrando pra longe do seu corpo.
Eu o acompanhei e os outros em seguida fizeram o mesmo.
-Amelie, você acha que pode me levar no computador da sua amiga enquanto a gente não vai?
- Claro! Estão pretendendo sair que horas?
- Bom, a gente marcou as 9 com eles, então suponho que umas oito?! – meu pai respondeu com um tom questionador.
- Certo. – Amelie respondeu – daqui até a cidade são cerca de meia-hora. É bom vocês chegarem antecipadamente porque mostra interesse não arrogância.
- Ah! Eu tinha pensado em contratempos, não em humildade... mas isso vai servir!
Então depois disso fomos ao computador. Eu demorei 20 minutos pra conseguir mandar o e-mail. A porra de um e-mail custou vinte minutos do meu dia. Nunca vi uma internet tão lenta. A 'barrinha' azul que ficava na parte de baixo da tela – mostrando o carregamento da página – parecia estar estagnada. Eu quase desisti, mas era pra minha Bella que estava mandando o recado dizendo que estava bem e que entraria em contato com ela todos os dias.
Depois que voltei pra nossa casa tinha mais um homem. Era bem baixo, loiro e tinha a pele bronzeada. Atendia pelo nome Jack e era amigo de Tony. Foi ele quem nos levou, em seu jipe, até a cidade onde encontraríamos os rebeldes.
O percurso durou pouco mais de vinte minutos, segundo meu relógio de pulso que ainda estava ajustado para o horário dos Estados Unidos. O lugar era mesmo uma roça. As estradas eram de terra, mesmo existindo prédios ao entorno, tinham matas junto à casas e a situação era realmente precária. Muitas crianças brincavam na rua... descalças, e por diversas vezes tivemos que desviar de animais na pista.
Chegamos pouco antes das oito e meia da manhã e tivemos que esperar pouco. Felizmente os 'rebeldes' eram pontuais e às nove batiam no vidro do jipe convocando-nos pra acompanha-los.
Eles exigiram nos vendar, mas meu pai, Jack e Tony se negaram. E um clima tenso começou a surgir. Sugeri que dois de nós ficássemos sem venda nos olhos e assim sucedeu. Eu e Jack não utilizamos vendas e eu observei, sob olhares atentos, que a cada metro o carro entrava mais e mais num matagal. Parece que esses homens viviam numa caverna, ou algo assim. Lutei bastante pra não rir da ironia.
- Nós precisemes nos esconderr. – um deles comentou ao meu lado.
Ele era muito alto, muito grande e muito negro. Sua voz era baixa e falou num inglês extremamente precário carregado de sotaque francês. Mas eu fico feliz que tenha falado em inglês, isso mostra humildade por ele ter preferido falar no meu idioma do que ter me feito falar no dele.
- Acho que posso entender o porquê. – comentei casualmente e ele gargalhou alto. Depois falou algo num idioma bizarro, que eu já podia dizer ser o nativo, e mais dois deles riram. Eu me arrisquei a dar um sorriso de lado e o negão ao meu lado deu tapinhas em minhas costas.
- Vicê tem sense de humorrr, Niky vei goster de vicê!
- Quem?
- Nicolas Buyoya! – ele respondeu num tom pouco ultrajado. Eu continuei olhando-o sem entender até que ouvir meu pai bufar.
- É o líder deles, Edward. Eu já tinha te falado isso!
- Achei que ele atendia por Paul Kagame.
- Non non! Ele só use o apelide parra assuster! – o tutsi comentou e eu assenti com a cabeça.
O assunto morreu depois daí e o homem, que atendia pelo nome Pierre, avisou que estávamos chegando e permitiu que meus colegas retirassem as vendas.
Estávamos andando numa trilha por uns 20 minutos. Já tínhamos subido uma ladeira enorme e atravessado um riacho. Eu estava preocupado com as mulheres do grupo, mas elas garantiram estar bem. Mas isso não me impedia de ajudá-las sempre que achava necessário. Pouco mais a frente eu notei um acampamento com tendas e barracas verde musgo. Marchamos direto pra uma que ficava bem no canto, exatamente como as outras, e entramos. Pierre falou que era ali que Nicolas estaria nos esperando.
Meu estômago estava se revirando e minhas mãos suando, mas eu tinha que manter a postura que estava seguro de mim.
~*~
Bella Swan
Aos poucos meus sentindo foram voltando e eu podia ouvir um murmúrio baixo. Abri meus olhos e eles imediatamente arderam e meu peito se encheu de agonia.
Droga de sonho.
Droga de memória.
Eu não sabia o que era pior, acordar agoniada por causa de um sonho ou simplesmente não conseguir lembrar dele.
Aos poucos minha visão foi se ajustando e eu notei que o quarto estava escuro, apesar dos raios de luz que passavam pelas brechas da cortina branca, e eu o reconhecia vagamente, bem vagamente mesmo. Talvez o cheiro me fosse familiar.
Levantei meu tronco, me apoiando pelos cotovelos, e comecei a observar melhor aquele quarto, da melhor maneira que eu pudesse fazê-lo.
E então a realidade chegou violenta como uma tempestade e eu ofeguei me jogando de volta na cama.
Eu conhecia aquele lugar. Definitivamente conhecia aquele quarto.
As lembranças do dia que Edward e eu nos tocamos intimamente pela primeira vez invadiram minha cabeça de uma maneira tão avassaladora que eu tive que fechar os olhos e respirar fundo pra acalmar meus batimentos cardíacos.
Isso é algum tipo de brincadeira? Não faz sentido eu estar no quarto do Edward da casa dos seus pais sabendo que ele está do outro lado do oceano.
Deus como eu já estava com saudades!
Discretamente virei meu rosto até enterrá-lo no travesseiro pra sentir um pouco do cheiro dele.
Nada, não senti o cheiro do Edward, apenas de amaciante!
Ok, eu fiquei extremamente decepcionada, mas não podia ficar revoltada porque eu sabia que ele não morava mais aqui. E de mais a mais, eu tenho a chave do apartamento do Edward e posso sentir o cheiro dos seus travesseiros o tempo inteiro. E das blusas, perfume, cueca... Ok... creepy Bella, creepy!
Minha cabeça estava a mil e eu comecei a me sentir mal. O que era estranho, extremamente esquisito porque há dias eu não me sentia mais enjoada. Corri pro banheiro e me livrei dos resíduos que estavam me fazendo mal e depois que comecei a me sentir pouco melhor lavei meu rosto.
Lentamente saí do quarto e esperei ouvir algum barulho. Ouvi vozes vindas do andar de baixo e decidi descer pra acompanhá-los.
Sem notar me percebi sorrindo com a risada grossa e escandalosa do Emmett. Assim que entrei na sala de televisão, que era de onde vinham as risadas, vi Rosalie deitada no sofá com os pés no colo da Esme, Jasper na poltrona com o apoio de pés e Emmett com a sua irmã nas suas costas... Rodando.
Alice estava aterrorizada. Nunca vi alguém segurar tão forte no pescoço de outra pessoa como ela segurava no de Emmett. Não consegui evitar a risada de surgir, Jasper me olhou e sorriu e Esme aparentemente já me olhava. Emmett, Alice e Rosalie pareceram não notar minha chegada.
Devolvi o sorriso a eles e me encaminhei pro sofá sentando-me no seu braço.
- Emmett Cullen! Ponha sua irmã no chão agora. – Esme comandou naquele tom "mãe" e ele imediatamente obedeceu. Manteve suas mãos na cintura da Alice por algum tempo até que seu equilíbrio estivesse de volta.
Depois que ela tinha se estabilizado eles se olharam e caíram na gargalhada. Jasper levantou os olhos do livro e ao ver sua "namorada" sorrindo repetiu o gesto. Eu me vi enciumada, e eu sei que era errado eu invejar o relacionamento dos meus amigos, mas deus, como eu sentia falta do Edward!
- Dormiu bem, querida? – Esme perguntou acariciando minhas costas.
Olhei pra baixo, e a vi sentada na mesma posição. Eu estava ao seu lado no sofá. Sorri pra ela e assenti com a cabeça.
- Muito bem, obrigada.
- Você deve estar faminta não é? – ela perguntou e como se fosse um gatilho meu estômago deu sinal de vida, colocando um sorriso em seu rosto.
- Acho que sim. – murmurei baixando a cabeça.
- Sem vergonha, querida. Você está grávida e dormiu a manhã inteira. Natural você estar com fome. Venha comigo que vou te fazer algo pra comer.
Eu novamente concordei com a cabeça, mas fiquei completamente envergonhada por ela saber que eu estava grávida E com seu filho.
Jasper me puxou pro seu colo e acariciou meus cabelos enquanto me ninava de uma maneira completamente desconfortável.
- Você tá bem mesmo, baby? Você ficou caidinha quando chegamos aqui.
- Eu to... – comentei sussurrando e sentindo meu rosto esquentar. – só saudade, acho. Isso é normal?
Ele gargalhou alto e deu um beijo na minha têmpora.
- Totalmente... – comentou com um olhar perdido enquanto encarava Alice, que agora estava pendurada nas costas do Emmett tentando derruba-lo.
Sorri pra ele e dei um beijo rápido em seu rosto e então segui Esme – que me esperava na porta da sala – até a cozinha.
- Ele é uma coisa né? – ela disse com um sorriso sincero e eu acompanhei seu olhar que estava fixado em Jasper.
- Ele é... – respondi sorrindo. – Uma das melhores pessoas que eu tenho na minha vida!
- Acho que a Alice pensa parecido com você, querida.
- Eu estou tão feliz que eles estão juntos, Esme. Mesmo. Jasper precisava de alguém como Alice, ou melhor, Da Alice há tanto tempo...
- O mesmo aqui, querida...
- Eu fico feliz que ele tenha vocês, sabia? Antigamente ele só tinha a nós. Os pais dele faleceram logo que ele se mudou pra NY do Texas e ele sempre foi tão sozinho.
Esme abraçou minha cintura e continuou me guiando pra cozinha.
- Eu fico feliz de ter você. – ela sussurrou e meus olhos encheram-se de água porque eu simplesmente fiquei tão feliz em ouvir aquilo.
- O mesmo aqui, querida... – murmurei com a voz embargada fazendo-a gargalhar.
- E então, como está esse bebê?
- Ah! - falei com um sorriso enorme no rosto - crescendo!
- Você está com quando tempo, querida?
- Hum... pouco mais de 14 semanas!
- Parabéns, meu amor! - ela exclamou jogando os braços em volta do meu pescoço e me abraçando forte, mas de uma maneira totalmente calorosa. - Você já está no segundo trimestre! Isso é tão bom! Parabéns, querida!
- Obrigada. - respondi gargalhando.
E então nós entramos num papo de maternidade por vários minutos enquanto ela fazia panquecas pra eu comer e eu espremia umas laranjas pra bebermos. Esme me contou sobre as traquinagens que seus filhos faziam e como ela ficou feliz em saber que estivera grávida de Emmett já que era inesperado e a possibilidade dela conseguir engravidar depois de um aborto era menor. E então ela me contou que sofrera dois abortos antes de conhecer Carlisle. E depois passou mais meia hora contando sobre a primeira vez que ela e seu marido se encontraram e como ele cuidou dela naquela cama de hospital e como ele furtivamente conseguiu acesso ao telefone dela pela sua ficha hospitalar e como seis meses depois eles já estavam felizes.
- A história de vocês é tão bonita, Esme... – falei suspirando e ela riu baixinho.
- É. Edward herdou muito desse cavalheirismo do meu marido.
- Eu sei...
- Como foi com vocês, Bella?
E então eu contei pra ela como eu o conheci depois de uma briga com Jacob – e sentindo que ela merecia saber, me estendi um pouco falando sobre Jake e a nossa história de vida - na pista de gelo e que fomos pro estúdio de fotografia e conversamos até o dia amanhecer, em como nos encontramos coincidentemente várias vezes, e como ele me apoiou na história da gravidez e disse que ficaria comigo se eu o quisesse independentemente se eu estivesse grávida ou mutilada, o que deixou Esme com lágrimas nos olhos, depois falei da minha viagem e dos morangos e das flores que ele mandou pra me cortejar, em como ele invadiu meu apartamento pra me obrigar a conversar com ele depois do dia do Cielo, contei cada detalhe e passei horas contando do nosso dia de ontem. Do café da manhã no Central Park, da ópera, do casamento, do anel de compromisso de compromisso e então mostrei o anel pra ela o que fez as lágrimas efetivamente escorrerem pelo seu rosto.
E quando notei Alice estava ao nosso lado confortando-nos porque estávamos morrendo de saudade do Edward.
N.a.: Twilight não me pertence!
Me desculpem pela demora, mas me mudei semana passada pra perto da faculdade e to sem internet por lá! Vou tentar postar mais um amanhã pra repor o que faltou durante a semana...
Review'em'!^^
;)
