.::DE VOLTA AO VALE DAS FLORES::.
By DAMA 9
Nota: Os personagens de Saint Seya não me pertencem, apenas Aaliah e Astréia são criações únicas e exclusivas minhas para essa saga.
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Capitulo 28: Caminhos.
.I.
Abriu a loja assim que o ponteiro bateu oito horas da manhã, estava animada para voltar a trabalhar, fora bom passar aquele tempo em casa, mas ainda tinha sua rotina, alias, passara tanto tempo vivendo sozinha, que sentia-se privada de privacidade ao permanecer numa casa com tantas pessoas, por mais que fossem de sua família.
Possivelmente no próximo natal iria visitar os avós, iria levar uma bela bronca por demorar tanto a ir a Baviera, mas tudo seria compensado depois; ela pensou sorrindo, enquanto passava um pano de algodão com álcool sobre as prateleiras de vidro.
-Bom dia, com licença;
Ouviu o sininho da porta tocar e virou-se, vendo um garotinho de cabelos castanhos entrar hesitante na loja.
-Bom dia; Isadora respondeu sorrindo.
-Moça, pediram para lhe entregar isso; ele falou estendendo-lhe uma caixinha.
-Quem? –ela perguntou curiosa.
-Desculpa, mas não posso contar; o garotinho falou com um sorriso infantil. –O moço pediu pra guardar segredo; ele completou num sussurro cúmplice.
-...; Isadora assentiu desconfiada, o que será que era? –ela se perguntou pegando a caixinha, mas quando foi perguntar ao garoto como era o sujeito, ele já havia ido embora.
Soltou o laço branco que a fechava e retirou a tampa. Entreabriu os lábios surpresa ao ver duas rosas envoltas por uma folha de seda, mas era uma rosa azul e outra vermelha, cujos galhos estavam entrelaçados.
Não havia cartão, nem nada. Vasculhou o pacote buscando algum indicio que lhe levasse a identidade daquele que lhe mandara as rosas, mas nada. Quem será então? –ela se perguntou.
Encaminhou-se para o balcão, colocou a caixa sobre o mesmo e observou com mais atenção às rosas, estremeceu quando um estranho pensamento passou por sua mente como um flash. Mesmo que fosse um absurdo, não poderia abandonar ainda todas as possibilidades; Isadora concluiu.
-o-o-o-o-o-
Acordou cedo, não muito disposto, mas não podia ficar ali o dia todo, trancado naquele templo; Afrodite pensou, enquanto se arrumava e seguia para a cozinha tomar café.
Será que Isadora já fora para a floricultura? –ele se perguntou curioso, para em seguida balançar a cabeça nervosamente para os lados, repreendendo-se por isso.
Ela deixara claro que ficaria afastada até tudo se resolver, ficar pensando nela seria apenas se martirizar, mesmo que não conseguisse evitar.
Queria entender o que estava sentindo afinal, já que quando via-se pensando nisso, não conseguia encontrar as respostas certas. Quando começara? Não fazia idéia, já deixara de buscar por essa resposta.
-Parece confuso; ouviu alguém comentar e quase deu um pulo da cadeira quando viu Aishi surgir a sua frente.
-Aishi; ele falou com ar cansado. –Bom dia;
-Bom dia; ela respondeu, enquanto apoiava os braços sobre a beira da mesa. –Quer conversar?
-Vai bancar minha analista, agora? –o cavaleiro perguntou com um fraco sorriso. Quem sabe uma ajuda profissional não fosse a mais indicada para o momento; ele pensou;
-Se você precisar; a amazona respondeu calmamente, vendo-o assentir e tomar a cadeira da frente.
.II.
Passou pelos corredores com ar pensativo, fazia pelo menos três dias que estava tentando conversar com o antigo pupilo, mas sempre um motivo ou outro lhe impedia. Uma vez aquela reunião surpresa em Áries, outra, a repentina viajem para sabe-se lá onde, mas que ele ficou fora dois dias e só voltou domingo à noite; o ariano pensou.
Precisava resolver aquela situação, não poderia deixar as coisas pela metade, ou pior, saber delas por intermédio de outros. Somente ele poderia lhe contar tudo, sem restrições sobre o que acontecera há quase dezoito anos atrás.
-Celina, o Mú esta em casa? –Shion perguntou assim que avistou a filha entrando no último templo sozinha já que Kiki assim que amanhecera voltara para o oriente.
-Não pai, mestre Mú saiu cedo para resolver algumas coisas na vila; a amazona respondeu calmamente. –Por quê? –ela indagou curiosa.
-Preciso falar com ele; o ariano falou com ar cansado, mais essa, daqui a pouco teria de agendar uma hora com ele.
-Posso avisá-lo se o senhor quiser? -Celina sugeriu.
-Tudo bem, não se preocupe... Outra hora falo com o Mú; Shion respondeu, precisava ser pessoalmente. –Mas vamos logo, sua mãe já esta nos esperando para o café; ele completou, indicando-lhe para seguir a sua frente.
-...; a jovem assentiu, um pouco intrigada com as expressões do pai. Será que estava acontecendo alguma coisa? –ela se indagou, antes se acompanhá-lo. Enfim, era melhor esperar para ver.
-o-o-o-o-o-o-
O dia mal chegara ao meio e no canto da floricultura, próximo ao poleiro de Donatelo, um vaso estava quase cheio de tantas rosas, vermelhas e azuis. Olhou para o relógio em cima de uma das bancadas de vidro, suspirou pesadamente. Ainda não era nem meio dia.
Nas ultimas duas vezes que o garotinho aparecera, tentara persuadi-lo a lhe contar quem estava enviando as rosas, mas ele sempre dava um jeito de lhe pegar distraída e sair rapidamente. Negando-se a responder.
Não podia negar, estava muito, mas muito curiosa para saber a origem daquelas rosas. A azul e a vermelha, embora se negasse a acreditar na idéia de que intimamente queria que fosse apenas uma pessoa.
-Bom dia; ouviu alguém falou entrando na floricultura.
-Bom dia, Mú. Como vai? –ela o cumprimentou sorrindo.
-Bem e você? –ele perguntou aproximando-se da bancada onde a jovem arrumava alguns arranjos para colocar na vitrine.
-Bem, trabalhando bastante, mas isso faz parte; Isadora brincou. –Mas e você, esta procurando por algo especifico ou esta a passeio? –ela perguntou, fitando-o curiosamente.
-Estou procurando algo especifico; o cavaleiro falou indicando um vaso com rosas cor de champanhe. –Quero um buquê daquelas; ele completou.
-Só um minuto; a jovem falou enxugando as mãos no avental que usava e seguiu até a bancada onde o vaso estava para pegar as flores e fazer o arranjo. –Ali em cima da mesa tem cartões, se quiser ir escrevendo;
-Ah não, não vai ser necessário; Mú falou calmamente. –Você tem gérberas vermelhas também?
-Tenho; Isadora respondeu.
-Gostaria que fizesse um com elas, também; ele explicou.
-Nossa, quantas flores... Garota sortuda essa hein; ela brincou, enquanto começava a separar as flores.
-Uhn! Quase isso; ele falou casualmente.
-Como? –Isadora perguntou, voltando-se para ele curiosa, ainda mais ao ver o cavaleiro inclinar-se, apoiando-se na mesa para escrever em um dos cartões que indicara.
Franziu o cenho, ele não disse que não iria precisar de cartão, ou fora só impressão a sua? –ela se perguntou, para em seguida compreender que ele escrevia o cartão para o segundo buquê, não para as rosas. O que ele estava tramando?
-Logo você vai descobrir; ele falou com um sorriso travesso nos lábios como se houvesse ouvido seus pensamentos.
-o-o-o-o-o-
Faltavam poucos para chegarem à arena, mas pelo menos um número razoável já havia feito aquecimento e preparava-se para começar o treino, mesmo naquele dia tão quente.
-Nossa, havia me esquecido do quanto é quente aqui; Alister comentou, abanando-se freneticamente estava tão acostumado com seu país que a maior parte do ano era frio, ou pelo menos razoavelmente gelado que era um choque todo aquele calor.
Ainda passaria um tempo com Eurin em Atenas antes de irem para Visby, enquanto isso, não achava nem um pouco ruim participar da rotina com os demais, como nos velhos tempos, mesmo com aquele tempo; ele pensou, passando a mão pela testa, tirando algumas gotas de suor que já começavam a pingar dos fios vermelhos.
-Vai se acostumando, tem dias piores; Aiolia reclamou.
-Ah Leo, você ultimamente esta reclamando de mais; Aldebaran provocou. –Não sei não, daqui a pouco a Marin se cansa e não rola casamento, cuidado hein;
-Hei! –ele falou indignado, para em seguida deixar os orbes correrem pela arena buscando a noiva. –Por falar nisso onde ela está?
-Não sei, mas Eurin disse que iria falar com Filipe quando saímos, as outras não devem demorar a chegar; Alister respondeu.
-Já devem estar chegando; Saga comentou se aproximando.
-Nossa, qual a comemoração? –Aldebaran perguntou olhando para a extremidade oposta da arena.
-O que? –Mascara da Morte perguntou sentando-se em um banco ao lado do Escorpião que também treinava com os demais.
Não demorou para que todos os olhares caíssem sobre as jovens que entravam no Coliseu, cada uma tinha um largo sorriso nos lábios, enquanto falavam algo entre si, mas o que chamou a atenção deles foi uma delicada rosa champanhe na mão de cada uma.
-Será que é aniversario de alguém; Shura comentou, contando nos dedos os dias, para saber quem era o aniversariante do mês.
-Acho que não; Alister falou, vendo que até mesmo Eurin acabava de entrar na arena com uma rosa igual a das outras nas mãos. –Quem vai lá ver o que é? –ele perguntou, porém ao virar-se, notou que estava falando sozinho e os demais já se precipitavam para o outro lado.
.III.
Aproximou-se do santuário a passos calmos e precisos. O dia estava quente, mas nem por isso, iria deixar de fazê-lo pegar fogo até meia noite. Toda aquela rotina pacata dos últimos dias estava se tornando cansativa e maçante e como Laura diria, ninguém trabalha sem motivação. Estava na hora de fazê-los terem um motivo para ficarem realmente com medo da própria sombra se fosse o caso.
Às vezes se perguntava se toda aquela insegurança era devido a tudo que acontecera no passado, a perspectiva de não estar vivo no dia seguinte, o árduo treinamento, ou até mesmo a personalidade e o signo.
Problemas pessoais todos tinham e isso não os torna diferentes de pessoas comuns que em seus dias corriqueiros, passam por desentendimentos, inícios e fins de relacionamentos.
Era uma lógica pura e simples... Insegurança era uma coisa, mas se acomodarem e ficarem inseguros por simplesmente deixarem à relação 'esfriar' era outra; ele pensou, subindo as escadarias do primeiro templo.
-Bom dia, Mú... Nossa, que flores são essas? – Yuuri perguntou, ao descer as escadarias de Touro com Litus.
-Bom dia; o ariano respondeu cordialmente. Havia mandado o buquê de gérberas para o templo antes de sair da floricultura, então agora, só restavam às rosas, que logo iriam para as mãos de suas respectivas 'donas'. –São rosas, alias... Uma delas tem seu nome; ele falou galante, ao retirar uma delicada rosa do arranjo para em seguida estende-la a amazona.
-Pra mim? –a jovem de melenas prateadas perguntou surpresa.
-E esta é sua, Litus; ele completou, dando a garota de orbes violeta uma das muitas que compunham o buquê.
-Obrigada; ela respondeu, levando a delicada flor até o nariz, aspirando com suavidade aquela essência estarrecedora. –Mas... Ahn! Que dia é hoje? –Litus indagou confusa.
-Segunda-feira; Mú respondeu, enquanto Yuuri parecia abismada com a flor que tinha nas mãos.
-Acho que ela quis dizer, que bem... É algum feriado, data comemorativa, aniversário? –Yuuri falou, gesticulando, um tanto quanto nervosa.
-Não que eu saiba; ele respondeu, calmamente. –Por quê?
-Bem... Você sabe; Yuuri balbuciou, indicando a rosa.
-Ah sim! –o ariano falou, vendo-a assentir. –Por acaso preciso que seja um feriado ou aniversario para presentear tão belas damas, com flores? –ele indagou, dando uma piscadinha travessa as garotas.
-Não, de maneira alguma; as duas falaram ao mesmo tempo.
-Tenham um bom dia; Mú falou sorrindo, ao passar por elas, rumo ao templo seguinte.
Observaram-no sumir entre as escadarias, ainda surpresas com o que acontecera. Ele simplesmente lhes dera uma rosa. Parecia algo banal, mas não era... E até o fim do dia, os demais iriam saber disso. Ah se iam.
-O mundo deveria ser povoado por mais arianos; Litus comentou, vendo a jovem de melenas prateadas assentir.
-É, deveria...;
-o-o-o-o-o-
Parecia uma peça do destino, pura ironia se fosse considerar tudo, mas o fato é que todas agora encontravam-se na arena com suas respectivas rosas. Por mais que a situação houvesse sido inusitada, não era fácil ignorar a importância daquele gesto.
Mesmo que na concepção de outros, o ariano houvesse literalmente soltado sobre o santuário, as sete pragas do Egito. Porque bem... Era assim que muitos viam aquilo, ou pelo menos, jamais admitiriam que não foram capazes de tomar a mesma iniciativa antes; ela pensou, observando a delicada flor.
Pelo menos em uma coisa, não tinha do que reclamar do marido, Alister sempre fora um pisciano completo, fiel ao signo, às vezes fiel de mais, mas era carinhoso e atencioso, com uma lábia terrivelmente cruel para extinguir as brigas quando as mesmas ameaçavam se inflamar.
Mas depois de tudo que haviam vivido, todo aquele tempo separados e o que acontecera antes, ele não mudara tanto, ainda lembrava-se das visitas feitas ao Coroa do Sol, as noites de estrelas que apenas ficavam deitados sobre a grama, vendo o tempo passar e sentindo a presença um do outro. Sim, não podia reclamar...
Nenhum dos dois eram perfeitos, tinham suas falhas e como qualquer casal que tentava ser 'aparentemente' normal, buscavam contornar de maneira pacifica essas falhas.
Entretanto, mesmo não conseguindo evitar pensar que seu marido era realmente perfeito e que as Deusas do Destino estavam de muito bom humor quando cruzaram seus caminhos, sentia agora no ambiente uma nuvem negra ameaçando cobrir tudo.
É, conseguia entender o que o ariano pretendia, só esperava que aquele bando de cavaleiros enfurecidos, compreendesse também; ela pensou vendo-os se aproximarem.
-Ai que fofo; Litus falou, enquanto as demais apenas riam alheias a tempestade que se aproximava.
-Que garota de sorte essa Mia; Eurin comentou tentando de alguma forma chamar a atenção delas com olhares de soslaio para os que se aproximavam. Apenas Marin pareceu compreender de imediato o aviso.
-Realmente, mas não que eu também não seja, já que o Gui também é fofo; Yuuri falou casualmente. –Mas ele não é muito dado a essas coisas;
-Realmente, quando ele apareceu, eu até fiquei pensando se era algum aniversário, feriado ou data comemorativa; Shina comentou, mesmo que quisesse negar não podia dizer que aquilo não a surpreendera também.
-Quem diria; Marin murmurou com ar pensativo.
-Bom dia meninas; Milo falou aproximando-se sorrindo, antes de ter o colarinho da camisa, segurando por Shura que o obrigou a reduzir a marcha.
-Bom dia; elas falaram.
-Ahn! Então, que dia é hoje? –Guilherme perguntou a queima roupa aproximando-se da namorada.
-Segunda-feira amor; Yuuri respondeu, enquanto levava a rosa até o nariz, aspirando o suave perfume.
-Que é segunda, nós sabemos, mas o que esta acontecendo hoje? –Shura perguntou.
-Nada, só as coisas de rotina; Litus respondeu, vendo que até Saga tinha uma expressão estranha.
-Ahn! Então porque isso? –Aiolia perguntou indicando as rosas.
-Ah! As rosas; elas falaram em uníssono.
-É; eles responderam impaciente.
-Ganhos do Mú; as garotas responderam juntas.
-Como assim do Mú? –Aldebaran perguntou curioso.
-Ai alem de gatinho é super fofo; Yuuri falou de maneira quase infantil.
-Como é? –Mascara da Morte perguntou com os orbes perigosamente estreitos.
-Isso mesmo, ele é muito fofo, hoje nem é aniversario da gente e mesmo assim ele fez questão de dar uma rosa a cada uma; Litus falou com um sorriso de orelha a orelha, ignorando o fato do namorado estar mais vermelho que os cabelos de Marin e o que isso realmente significava.
-Oras! Quem ele pensa que é? –Shura resmungou indignado, vendo que até mesmo Shina parecia ter gostado do pequeno mimo.
-É impressão a minha ou o filme de vocês ta queimado? –Milo comentou, indo sentar-se ao lado da amazona, achando tudo realmente muito divertido.
Como nenhum deles se habilitou em negar, não foi difícil constatar a resposta...
-Bonita rosa; o Escorpião comentou casualmente para a amazona.
-Realmente; Shina concordou. –O Mú tem muito bom gosto;
-Eu vou matar aquele carneiro; Mascara da Morte falou com um olhar assassino.
-Vai nada; Yuuri rebateu com o mesmo olhar.
-Claro que vou, quem ele acha que é pra sair por ai flertando com a minha mulher? –o canceriano vociferou.
-Como é? –ela falou arqueando a sobrancelha e estava prestes a se levantar, quando a mãe de Marin pousou sobre seu ombro, fazendo-a voltar a acomodar-se no banco.
-Calma pessoal; Marin falou, interferindo. –Foi apenas uma gentileza, não a mal algum nisso;
-Concordo com a Marin; Aiolia falou serio. Se fosse outra pessoa certamente estaria rugido enfurecido com a possibilidade de algum franguinho por ai, estar tentando chamar a atenção de sua noiva, mas não havia mais motivos para isso e confiava no amigo. Mú jamais faria alguma coisa que certamente, causaria muito arrependimento depois e alem do mais, todo o santuário sabia que ele gostava de Mia, ou se alguns ainda não sabiam, tiveram uma boa amostra na ultima reunião. –Mú nunca desrespeitou nenhuma das garotas e não vejo mal algum nisso;
-Mas...; Saga começou.
-Se você não confia no próprio taco, não é ele que você tem de culpar; Aldebaran o cortou, com um olhar sério. É, aquele ariano era só quietinho, mas quando queria virar o santuário de ponta cabeça, não poupava esforços, seria divertido ver até onde aqueles caras iriam depois dessa; ele pensou, quase rindo.
Muitos ali ficaram emburrados, mas as garotas nem ao menos prestaram atenção. Se aquela seria uma boa retaliação para aqueles que andavam com a consciência pesada ultimamente, certamente havia funcionado tal qual um pavio recém aceso, cuja chama iria detonar um barril de pólvoras. O efeito seria devastador e instantâneo.
-E ai, vai fazer alguma coisa hoje à noite? –Milo perguntou casualmente ignorando o caos que se instalara a poucos passos de si.
-Não, por quê? –Shina respondeu, voltando-se para ele.
-Não quer jantar comigo na Toca hoje? –ele perguntou.
-Tudo bem; ela respondeu calmamente. –As oito?
-...; o cavaleiro assentiu, tendo a leve impressão de que ouvira um rosnado. Olhou para os lados, como não viu nada aparentemente anormal, retomou a conversa com a amazona.
.IV.
Terminou de fechar as malas e guardar os últimos pertences, suspirou pesadamente, um mês. Será que iria agüentar? –ele se perguntou, enquanto arrastava a bagagem para o corredor.
-Já estou pronta; Aaliah avisou, encontrando com ele.
-E eu já terminei aqui; Shaka respondeu. –Vou levar as suas para o carro e depois volto buscar o resto;
-...; ela assentiu, acompanhando-o até a escada. –Onde está Astréia?
-Ela disse que nos encontraria no aeroporto; ele respondeu, começando a descer.
-Enquanto você leva, vou pegar algumas coisas que deixei na cozinha, já nos encontramos;
-...; o cavaleiro assentiu.
Estava realmente curioso, logo pela manhã a mãe dissera que tinha algumas coisas para resolver, mas os encontraria no aeroporto. Mentalmente agradeceu por isso, precisavam daquele tempo juntos. Não era como se fossem ficar uma eternidade sem se ver, mas não era nada fácil lidar com aquilo; ele pensou, dando um pesado suspiro, antes de passar pela porta, rumo ao carro estacionado logo à frente.
-o-o-o-o-o-o-
Sentou-se na beira do lago, vendo as águas cristalinas brilharem com os raios solares. O dia começara bem e apesar de querer manter-se longe da agitação da arena, gostava mesmo da vida que tinha ali.
Suspirou, recostando-se no tronco de uma árvore atrás de si, vendo alguns peixinhos agitaram-se nas águas, enquanto o vento soprava as folhas. Não pode deixar de serrar os orbes e perder-se nas lembranças da noite anterior.
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Estavam a um bom tempo conversando, quando os pupilos disseram que pretendiam ir até o bar conversar com algum conhecido, não fez objeção alguma, pelo contrario, por um segundo viu-se tentado a dizer-lhes que não tivessem pressa.
Com extrema sutiliza, voltou-se para a jovem de melenas negras, vendo-a um tanto quanto nervosa. Um fino sorriso formou-se em seus lábios.
-Dança comigo? –ele indagou, estendendo-lhe a mão, num gesto lento e demorado que ela acompanhou com os olhos, como se para ter certeza de que aquilo realmente estava acontecendo.
Mia assentiu. Colocando a mão sobre a dele, sentiu o momento que a mesma fechou-se sobre a sua e o cavaleiro puxou-lhe para cima de maneira tão suave, fazendo-a se sentir como se tivesse o peso de uma pluma.
Caminharam por entre as mesas até a pista de dança, nessa hora, como para contrariar todos os tabus contra o destino que tinha, uma música lenta e suave começou a tocar.
Envolveu-a pela cintura, aconchegando-a entre seus braços, enquanto algumas pessoas na pista, afastavam-se dando-lhes espaço.
-Então? –o ariano começou, chamando-lhe a atenção.
-Uhn?
-Qual foi à chantagem do mestre? –Mú perguntou casualmente.
-Ahn! Bem...; Mia balbuciou, desviando o olhar.
-Espero que ele não tenha apelado, seria algo terrivelmente desagradável; o ariano falou, com os orbes estreitos.
-Não, não; Mia apressou-se em dizer. –Ele só, bem... Na verdade, eu acabei me oferecendo para ficar com a Celina e o Kiki; ela explicou, abaixando os olhos, corada.
-Como? –Mú indagou, surpreso.
-É que eles estavam tão animados conversando e o mestre já estava rosnando, então, decidi ficar por perto, antes que ele saísse mandando alguém pra outra dimensão; ela explicou nervosamente.
-Uhn! Interessante; ele sussurrou.
Estremeceu e hesitante deixou os braços contornarem o pescoço do cavaleiro, enquanto o mesmo apoiava o queixo sobre seu ombro, roçando-lhe a face. Serrou os orbes, diante daquela tenra sensação de estar sendo transportada a um mundo paralelo, onde mais nada importava.
-Obrigado por ter ficado com Celina, não duvido que o mestre tivesse realmente feito isso, sendo o Kiki meu pupilo ou não; Mú falou, enquanto uma de suas mãos corria de maneira lenta e demorada pelas costas da jovem, impedindo-a de se afastar um centímetro sequer.
-Não por isso; ela respondeu, dando um baixo suspiro. –Mas me diz, é alguma coisa com o signo?
-Uhn?
-Esse negócio de ser tão possessivo; Mia explicou, enquanto aquela suave melodia parecia envolvê-los ainda mais.
-Não sei; o cavaleiro respondeu com sinceridade. –Mas quando descobrir, você será a primeira a quem vou contar; ele completou, envolvendo-a em um abraço possessivo, que a surpreendeu, principalmente pelo fato de ver-se correspondendo com igual intensidade. Como se quisesse que o mundo acabasse, mas jamais se afastaria dele.
Fechou os olhos, apoiando a cabeça sobre o peito dele, os corpos roçando-se com suavidade, o calor emanado por ambos envolvia-os de tal forma que sentiam o tempo correr de maneira lenta. Como se mais nada importasse...
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Abriu os olhos novamente, dando um baixo suspiro. Aquela noite fora simplesmente surreal, que lhe custava acreditar que tudo acontecera mesmo.
Quase deu um pulo ao ver a seu lado, bem próximo a sua mão um delicado buquê de gérberas. Olhou para os lados, tentando saber se não estava sozinha ali, mas nem ao elevar o cosmo notou outra presença. Estranho, como ela aparecera ali? –Mia se perguntou, tomando o buquê entre as mãos.
Olhou atentamente, encontrando um cartãozinho escrito seu nome. Abriu-o com cuidado, vendo o que o bilhete ali dizia e no momento seguinte sentiu a face incendiar-se.
Obrigado pela noite maravilhosa... Espero podermos repetir a dose numa próxima vez.
Ass: Mú.
Segurou firmemente o buquê entre os braços assim que terminou de ler, soltou a respiração, mal notando que havia a prendido quando batera o olho primeiro na assinatura.
Ainda se lembrava do que acontecera após aquela ultima dança...
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Deixaram a Toca do Baco já era bem tarde, ainda ficaram um tempo mais na pista e depois voltaram a mesa encontrando Celina e Kiki lhes esperando para voltarem. Decidiram voltar a pé e não, com telesinese.
-Kiki!
-Sim, mestre; o cavaleiro respondeu prontamente.
-Acompanhe Celina até em casa, eu vou levar a Mia; o ariano falou, assim que chegaram à entrada do santuário.
-Mú, não precisa se incomodar; ela falou mais nervosa do que desejava parecer.
-Não é incomodo algum; ele falou taxativamente.
-Então, boa noite Mia; Celina falou, entendendo a deixa para se despedir e antes que kiki pudesse fazer algum comentário indiscreto, já estava arrastando o ruivo para o santuário.
-Boa noite; ela respondeu, enquanto os dois arianos se afastavam. –Mú não precisava, minha casa é aqui perto;
-Não é uma questão de precisar, por necessidade; o cavaleiro falou, enquanto começavam a andar. –E sim, de eu querer lhe acompanhar... Ou há algum problema quanto a isso? –ele indagou, lançando-lhe um olhar de soslaio.
-Não, claro que não... Só não quero incomodar; Mia falou a primeira coisa que veio em mente.
-Como já disse, não é incomodo algum... E olhe, já chegamos; ele avisou.
-Uhn?
Ele apenas apontou uma das casas, bem próxima à entrada do santuário.
Mal havia notado o caminho percorrido, estava tão entretida prestando atenção nele, que poderiam andar mais alguns quilômetros e não ia fazer a menor diferença.
-Ahn! Então, obrigada; ela falou, com um sorriso hesitante, enquanto parava na soleira da porta.
-Não por isso; ele falou, aproximando-se.
Teve um ímpeto de recuar, mas não conseguiu mover um pé. Seus olhos buscaram os dele, encontrando um brilho intenso tomando conta das íris verdes.
-Boa noite; Mú sussurrou, abaixando a cabeça até a altura de seus olhos.
Estremeceu ao sentir a respiração quente chocando-se contra sua face, o cheiro de vinho ainda estava impregnado em ambos os lábios, mas como seria prova-lo, dos dele? –ela se indagou, surpresa com tal pensamento.
Tocou-lhe a face delicadamente, antes de dar-lhe um beijo, casto e despretensioso no canto dos lábios, antes de se afastar sutilmente.
-Até amanhã;
-Até; ela murmurou, vendo-o acenar e se afastar.
Encostou-se na porta, tentando não fraquejar e cair. Por essa definitivamente no esperava.
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Olhou as flores novamente, sem conseguir conter o sorriso de contentamento. Ele definitivamente era surpreendente e mal podia esperar para descobrir quais outras facetas pertenciam aquele cavaleiro.
.V.
Ah mais aquele ariano lhe colocava em cada situação; ele pensou, enquanto subia os templos mais do que irritado.
Depois do pequeno episódio com as garotas e que o grupo se dispersou, foi falar com Yuuri, mas a mesma não pareceu muito inclinada a lhe ouvir. Mas o que ela queria também, que ele ficasse quieto, enquanto aquela 'ovelha' atacava de 'lobo mau'? Relativamente era um cordeiro, mas dane-se; ele pensou irritado. Ambos produziam lã de qualquer jeito...
Bufou, exasperado... Não entendia as razões pelas quais o ariano fez aquilo, mas era melhor que dormisse com os olhos abertos.
-Nossa, parece que vai matar alguém com essa cara, Guilherme;
Parou de andar, vendo a poucos passos a sua frente o cavaleiro de Peixes, arqueou a sobrancelha, para quem andava depressivo nos últimos dias, ele parecia algum muito normal agora.
-O que quer?
-Eu hei, dormiu no sofá essa noite; Afrodite provocou, com um sorriso trocista.
-Filipe, se não quiser ir parar numa grelha na hora do almoço, é melhor guardar as piadinhas somente para si; ele resmungou.
-Tudo bem, tudo bem... Não precisa estressar; o pisciano adiantou-se, erguendo as mãos em sinal de paz. –Mas o que esta acontecendo?
-Nada; o canceriano respondeu seco.
-Nada? – Afrodite falou, arqueando a sobrancelha. –Você parece que vai matar alguém;
-Tudo depende do ponto de vista; Guilherme falou, respirando fundo antes que perdesse o pouco de paciência que lhe restava.
-...;Afrodite arqueou a sobrancelha.
-Mas Yuuri e eu, estamos tendo algumas divergências de opiniões... Só isso; ele completou desviando o olhar, detestava ter de admitir o obvio.
-Divergências? Eu não diria que é só isso, mesmo porque, posso ver que você realmente quer matar alguém; Filipe falou pensativo. –Então, antes que você faça uma besteira, é melhor me explicar o que esta acontecendo; ele exigiu.
O canceriano pensou em discordar, mas diante do olhar do cavaleiro, decidiu que o mais seguro seria contar a verdade, e quem sabe, conseguir uma forma de resolver aquele problema.
-o-o-o-o-o-
Sentou-se em uma das cadeiras de vime, com a delicada rosa champanhe nas mãos, ainda tentando entender o que acontecera ao terminar os buquês.
Um deles, o de gérbera, Mú lhe dissera que mandara para Áries, enquanto levaria apenas as rosas. Quando lhe perguntou, o que ele iria aprontar? O cavaleiro apenas respondeu que estava tudo sob controle e antes de sair, lhe dera uma das rosas do buquê.
Ainda conseguia lembrar-se da expressão divertida dos olhos dele, quando indagou se era algum aniversário, ou feriado comemorativo, que não estava sabendo, mas ele não respondeu, limitando-se apenas a acenar e desaparecer.
Mas agora, estava realmente curiosa para saber o que ele iria aprontar; Isadora pensou, erguendo os orbes na direção do relógio, notando que estava quase na hora do almoço. Uhn! Tinha uma idéia para descobrir aquilo e seria agora; ela pensou, levantando-se, correndo buscar sua bolsa.
-o-o-o-o-o-
Sentou-se em um dos cafés daquele corredor, esperando pelo filho e a nora. Já haviam decidido seguirem caminhos diferentes ali mesmo no aeroporto, então, preferiu deixá-los sozinhos para que se despedissem com tranqüilidade.
Lhe partia o coração imaginar como o filho estaria por se separar da namorada, mas como diria seu pai, há males que vem para o bem. Teria um tempo para passar com Shaka, enquanto Aaliah poderia resolver sua vida, com o pai. Mas ela bem sabia o quanto àquela saudade doía, mesmo que soubessem que logo iriam se reencontrar.
Suspirou pesadamente, enquanto levava a xícara de café aos lábios, mal notando alguém sentar-se a sua frente, alias, só percebeu isso quando a voz imponente do mesmo lhe chamou a atenção.
-Parece preocupada;
Ergueu os olhos, vendo aquele par de orbes azuis lhe fitando, limitou-se a assentir. Não havia nada que fosse falar que ele já não soubesse. Às vezes ter um pai como ele se tornava algo cansativo e limitado a apenas assuntos corriqueiros, porque conversas sérias que envolviam sentimentos, ele estava sempre a um passo à frente.
-É algo com o Shaka? – o senhor dos deuses indagou.
-Mais ou menos; Astréia respondeu. –Estou indo para a Índia com ele daqui a pouco;
-Decisão sabia; ele falou, calmamente. –Nada mais justo do que permitir que aquela garota acerte sua vida agora;
-Uhn?
-Eu conheci a mãe dela; Zeus continuou. –Eram bem parecidas, não apenas na aparência física, mas na força de caráter também;
-Conheceu Aimê? –Astréia indagou surpresa.
-...; Zeus assentiu. –Ela era amiga de Hypnos, alias, a forma com que se tornaram amigos é bastante interessante, mas essa história fica pra outra hora; ele falou sorrindo. – Mas ambas tem um coração muito valioso, imagino que as Deusas do Destino tenham pesado isso antes de entrelaçar os fios;
-Não sei; a senhora murmurou pensativa. –Dessa vez, acho que não foram elas;
-Como? –Zeus indagou aparentemente confuso.
-Nem sempre elas podem nos controlar, tecendo ou cortando por nós, papai; Astréia falou com um fino sorriso. –Emmus está certo quando diz que somente nós temos o poder de criar nossos próprios caminhos; ela completou.
-Puff! Esse Emmus de novo; ele exasperou.
-Algum problema com ele, papai? –Astréia indagou, tentando não rir ao imaginá-lo furioso porque o cavaleiro negro lhe passou a perna novamente, alias, não só nele, mas nos espectros de Hades enviados a Paris para a missão das erinias também.
-Ele me aborrece; Zeus resmungou.
-Sei, e isso não é só porque alem de ser mortal ele tem uma capacidade bem maior do que a sua? –ela indagou, em tom de deboche.
-Astréia; ele falou em tom ameaçador, ao ver seu 'calinho' sendo pisado pela filha, já bastavam os comentários de Hades sobre o assunto, agora ela também.
-Espero que esse senhor, não esteja lhe aborrecendo? –uma voz imperiosa indagou, interrompendo a conversa.
Virou-se para o lado, sentindo um braço possessivo envolver-lhe a cintura, enquanto o filho lançava um olhar furioso ao avô.
-Ora. Ora. Mas se não é o homem mais próximo dos deuses; Zeus falou em tom de debocho, fitando o virginiano.
-E você? Espero que não seja mais um idiota tomando o tempo da minha mãe; ele rebateu, com igual frieza.
Mediram-se dos pés a cabeça, como se no momento seguinte uma nova guerra santa fosse ser desencadeada. Astréia voltou-se para o filho, surpresa com tal reação.
-Quanta petulância garoto; Zeus provocou, vendo os orbes do cavaleiro faiscarem.
Observou-os atentamente, ambos eram extremamente parecidos. Astréia com seus cabelos dourados quase prateados, pele tão alva quanto à neve e os orbes, duas safiras com brilho intenso.
Se colocassem um de frente para o outro, seria como ver o reflexo de um espelho, mas haviam algumas peculiaridades herdadas do lado mortal da família.
Como no cavaleiro, há pele era um pouco mais bronzeada pelo sol do Ganges e os orbes com leves nuances esverdeadas, herdadas de Seth, entretanto aquele orgulho ferrenho e aquele timbre de voz, pertenciam ao seu lado da família; ele pensou, orgulhoso.
-Mãe, nosso vôo não vai demorar a sair, vamos; ele falou ignorando a provocação.
-Mas...; ela balbuciou.
Queria apresentá-los de maneira amigável, mas os ânimos pareciam inflamados agora. Viu o cavaleiro abrir a carteira e deixar uma nota sobre a mesa para o café que estava tomando, antes de lhe ajudar a levantar-se.
-Papai; Astréia falou, voltando-se para o senhor dos deuses.
-Vá querida, antes que o garoto se enfeze mais; Zeus falou, sem deixar de fitá-lo. –Nos vemos numa próxima vez; ele completou, antes de ver Shaka praticamente arrastá-la para longe dali.
-Shaka o que foi? –Astréia perguntou, enquanto aproximavam-se do local onde Aaliah os esperava.
-Nada; ele respondeu num resmungo.
Parou de andar, forçando-o a fazer o mesmo, fitou o filho notando uma fina veinha pulsar em seu pescoço. Isso sempre acontecia quando ele estava muito irritado; ela pensou intrigada.
-Ele é meu pai, Shaka; ela começou cautelosa, decidindo explicar as coisas primeiro e com calma.
-Eu sei; o cavaleiro respondeu como se fosse a coisa mais obvia do mundo. E o era, a semelhança entre ela e o senhor dos deuses era ridiculamente evidente.
-Então, porque essa hostilidade?
-Não gosto dele; ele limitou-se a responder.
Entreabriu os lábios, porém palavra alguma saiu. Não sabia se estava mais chocada ou surpresa com aquela resposta. Shaka não era dado a mentir e costumava ser franco, por isso sabia que não era apenas birra que ele estava fazendo.
-Não costumo julgar as pessoas logo de cara, mas não suporto aqueles que transformam instituições como a do casamento, num meio escuso de colecionar amantes sem ter de dar explicações; ele continuou.
-Entendo; ela balbuciou, ainda tentando racionalizar com clareza.
-Agora vamos, Aaliah esta nos esperando; ele falou, enlaçando-lhe o braço e levando-a consigo.
Iria pensar muito nessas palavras dali em diante, nunca pensou que a hostilidade do filho fosse exatamente por isso. Mas nesse caso tinha de concordar que o pai era realmente um devasso; ela pensou.
-o-o-o-o-o-o-
-E você esta assim, só por isso? –Filipe indagou, enquanto desciam os templos, rumo a Câncer.
-E você diz, só? –o canceriano exasperou, depois de descer de Peixes até seu próprio templo, explicando a ele o seu 'pequeno' problema.
-Veja bem; o pisciano começou, mas parou ao ver a jovem de melenas esverdeadas subindo os degraus.
Surpreendeu-se ao ver que ela parecia também um pouco distraída, olhando para uma rosa champanhe que tinha nas mãos.
-É, quero ver você lidar com isso agora; Mascara da Morte falou debochado.
Pelo visto ela também encontrara com o ariano; Afrodite concluiu de imediato.
-Boa tarde, rapazes; Isadora os cumprimentou, assim que os notou pouco a frente.
-Boa tarde; eles responderam.
-Ahn! Por acaso vocês sabem se o Milo esta em Escorpião, o procurei na arena, mas não o encontrei; ela falou.
-Há pouco mais de uma hora o vi fugindo do Shura e indo para Escorpião; Afrodite respondeu.
-Está certo, vou subir então... Até mais; ela falou, passando por eles calmamente, dando um baixo suspiro enquanto mantinha bem protegida a rosa nas mãos.
Fitou-a subir os degraus e desaparecer de sua vista. Uma rosa champanhe. Respirou fundo, mal notando que seus punhos estavam serrados de maneira nervosa. Que conversa fora aquela? –ele se indagou.
Tudo tão polido e impessoal. Aquela não era a Isadora que conhecia. Mas aquela flor lhe prendera todas as atenções. Essa era a única explicação.
-É, pelo menos agora eu não sou o único que quer fazer carneiro no espeto; a voz debochada do canceriano lhe chamou a atenção.
Voltou-se para ele, com os orbes azuis extremamente frios.
-Situações drásticas, requerem atitudes drásticas; ele falou.
-O que esta pensando? –Mascarada da Morte indagou, interessado.
-Vamos logo, assim resolvemos isso de uma vez; Afrodite completou passando reto por Câncer, o que surpreendeu o outro, que não fazia a mínima idéia do que ele estava tramando, mas apenas o seguiu.
-o-o-o-o-o-
Abraçou-a fortemente, agora a considerava como uma filha, o que tornava a saudade ainda mais forte, mesmo que aquele afastamento fosse necessário; ela pensou, ao afastar-se da jovem de melenas azuladas.
-Cuida bem dele pra mim; Aaliah falou, tentando sorrir mesmo com os orbes marejados.
-...; Astréia assentiu, afastando-se e deixando que eles se despedissem.
Voltou-se para a namorada, dizendo a si mesmo em pensamentos que era por pouco tempo. Envolveu-a entre os braços, afundando a cabeça em seus cabelos, sentindo a fragrância de rosas lhe inebriar. Queria gravar aquele momento e levar consigo.
Haviam conversado muito nos últimos dias, antes da partida, mas nenhuma delas foi capaz de prepará-los para aquele momento.
-Promete que não vai esquecer de me trazer uma daquelas estatuazinhas de Buda? –Aaliah falou, erguendo a cabeça para lhe fitar.
-Prometo; ele sussurrou, tocando-lhe a face marcada pelas lágrimas choradas durante a noite, que ela pensou ser capaz de segurar. –E você, não vai se esquecer do que me prometeu?
-...; ela negou com um aceno. –Jamais;
-Meu vôo é menos longo que o seu, então, me liga quando chegar; Shaka falou, abaixando-se e pousando um beijo suave sobre a testa dela.
-Pode deixar; Aaliah sussurrou, serrando os orbes ao senti-lo deslizar os lábios pela pontinha de seu nariz, até alcançar os seus, selando-os em um beijo carinhoso, terno e repleto de saudade.
-Ultima chamada para o vôo 653 para Pequim;
-É o seu; ela falou, ao se afastarem.
Eles iriam até Pequim de avião e depois, pegariam um trem para o Tibet, seguindo de lá, diretamente para a vila no Ganges.
-...; Shaka assentiu, antes de dar-lhe um último abraço. –Boa viajem;
-Pra você também; ela sussurrou acenando, enquanto o via desaparecer entre as pessoas, indo para o portão de embarque.
Suspirou pesadamente, sentando-se em uma das cadeiras livres, teria mais alguns minutos para esperar até seu vôo, mas não queria ir até o corredor de vidro, ao lado do portão de embarque, para ver a decolagem.
Já sentia o coração oprimido demais, para se torturar com isso; ela pensou, instintivamente massageando as temporas, para conter uma leve dor de cabeça, que começava a despontar.
Mas nem isso, fez com que esquecesse a promessa que havia feito...
♥
Quais eram suas intenções? O que queria para o futuro? –ele se indagou, quando o pensamento surgiu de repente em sua mente, pouco tempo depois da conversa que tivera com a mãe sobre ir para a Índia.
Instintivamente os orbes fecharam-se e um fraco gemido escapou de seus lábios, quando unhas finas deslizaram por uma brecha na camisa e arranharam levemente suas costas.
-Você esta pensando demais; Aaliah falou, acomodando-se confortavelmente no colo dele.
Suas palavras morreram num sussurro quase longínquo, enquanto a respiração ofegante perdia-se em meio ao barulho suave do farfalhar das folhas naquela tarde.
Ela era simplesmente mais do que poderia desejar; ele constatou ao envolver-lhe a cintura com os braços e roçar-lhe os lábios, antes de dar-lhe um rápido beijo.
Beijos jamais seriam suficientes, desde o começo sabiam que seria assim. Tinham uma ligação tão forte que os fazia esquecer do resto do mundo.
-Estou com saudades; ele murmurou, virando-a de frente para si.
-Você ainda nem viajou; ela brincou, notando o sorriso levemente sensual moldar os lábios dele e os orbes azuis obscurecerem.
-Mesmo assim; o cavaleiro falou, deslizando as mãos por suas costas, fazendo-a estremecer e buscar o apoio de seus ombros.
A brincadeira antes inocente tornou-se tão provocante quanto o olhar que tinha sobre si, que deixou sua respiração presa na garganta.
As mãos hábeis deslizaram pelas costas, acariciando-a sem demora, buscando gravar cada detalhe antes de seus lábios se encontrarem, dispostos a matar uma saudade que ainda iriam sentir.
Inclinou-se para frente, fazendo-a deitar-se sobre a toalha xadrezada, enquanto os cabelos azuis espalhavam-se pelo tecido e o coração parecia bater cada vez mais rápido. Um fraco gemido perdeu-se em meio ao vento, enquanto os lábios afoitos desciam pela curva do pescoço até o colo.
-Shaka; Aaliah sussurrou, com a respiração entrecortada.
-Prometa que não vai se aproximar por outro enquanto eu estiver longe; ele pediu, voltando-se para ela.
Um sorriso cristalino surgiu nos lábios da jovem e aquela foi uma cena que ele desejou emoldurar para sempre em sua mente.
-Acha mesmo que isso é possível? –ela perguntou, enquanto os dedos finos entrelaçavam-se entre os fios dourados que roçavam levemente sua face.
-Como diz minha mãe, é melhor prevenir, do que remedir; Shaka falou, pousando a mão sobre a dela, antes de levá-la as lábios, distribuindo uma série de beijos ao longo da palma ao pulso.
Aaliah riu, um riso alegre e porque não dizer aliviado. Ouvi-lo finalmente chamar Astréia de mãe era sua principal conquista, principalmente porque Shaka era muito, mas muito teimoso quando queria e admitir as coisas quando contrariado, era um milagre realmente divino.
-O que foi? –ele indagou confuso.
-É impossível; Aaliah falou calmamente. –Não existe ninguém mais perfeito para a minha vida, do que você; ela completou com um sorriso sedutor.
♥
Não, não existia mesmo; ela pensou, dando um baixo suspiro, ouvindo a voz nos auto-falantes do aeroporto anunciarem a decolagem.
.VI.
Subiu os últimos degraus até Escorpião, com os passos trêmulos. Não pensou que fosse encontrar Filipe tão cedo, mas a quem estava querendo enganar, que isso não lhe deixava de alguma forma perturbada; ela pensou, suspirando pesadamente.
-Ah! Pelo visto você já encontrou com o Mú;
Voltou-se na direção da voz, encontrando o amigo encostado em um dos pilares do templo, com os braços cruzados na frente do corpo e um sorriso travesso nos lábios.
-Como? –Isadora indagou, mas viu-o apontar na direção de sua mão, a mesma que segurava a rosa. –Ah! Sim... Ele foi a floricultura hoje pela manhã; ela respondeu.
-É, e esta virando o santuário de ponta cabeça; Milo falou, desencostando-se. –Mas entra e a gente conversa melhor longe desse sol quente; ele falou.
Seguiu-o pelo interior do templo, em silêncio, tentando entender o que estava acontecendo, alias, fora por isso que fora ao santuário.
-O que esta acontecendo por aqui, Milo? –Isadora perguntou, sentando-se em um dos sofás da sala do templo.
-Mú deu uma rosa para cada garota, desde solteiras a comprometidas; ele começou.
-Uhn?
-Foi apenas uma gentileza, não vai pensando que ele esta atacando de Don Juan, mas isso serviu pra dar um susto nos caras; ele explicou.
-Como assim susto? –ela indagou.
-Para aqueles que não estão lá muito confiantes quanto ao relacionamento. Eles parecem bem preocupados com o fato das garotas terem gostado muito das rosas; Milo falou. –Yuuri e Guilherme acabaram se desentendendo, ele agora ta querendo matar o Mú e ela não quer ver o Guilherme nem pintado na frente dela, por um bom tempo;
-Céus, só por causa de uma rosa; Isadora falou quase chocada.
-Só? Você ainda diz só? –Milo falou, jogando a cabeça para trás e rindo. –Você tem noção de que esses caras jamais fizeram algo aparentemente tão 'banal' antes e agora estão sentindo na pele o que é pagar pela 'falta de atitude';
-Não entendo; ela murmurou, lembrando-se que ao passar por Afrodite e Mascara da Morte, o canceriano não parecia mesmo com bom humor.
-Isadora, quantas vezes você já recebeu uma rosa, ou qualquer outra coisa de alguém sem uma segunda intenção? –ele indagou.
-Uma vez por semana você me da uma garrafa de vinho ou chocolates; a jovem respondeu com simplicidade.
-Que não seja de mim; Milo falou. Afinal, ele não contava. Tinha que ser alguém de terreno neutro.
Parou por um momento pensando nas possibilidades, ignorando as rosas que estavam chegando pela manhã. Isso não acontecera, alias, acontecerá... Pela manhã também quando Mú lhe dera uma das rosas que compunham o buquê.
-Então; Milo falou calmamente como se já soubesse da resposta. –Se antes eles já estavam inseguros, agora então... Só não entendo o porquê disso;
-Todos têm suas inseguranças; ela falou calmamente, compreendendo o que o ariano estava planejando.
-Mas colocar uma porta trancada no meio do relacionamento não é justificativa... Ter ciúme e se preocupar é uma coisa. Agora achar que uma aliança no dedo é o suficiente para levar uma relação adiante, é patético...; Milo falou, parecendo realmente irritado com a situação, o que a surpreendeu, já que em anos de amizade, nunca o vira assim. -Quem não gosta de ser mimado, convenhamos, que se você gosta dessas coisas, não há mal algum em fazer isso com os outros. Demonstrar seus sentimentos, não quer dizer uma fraqueza. Por isso acho que essa insegurança é uma desculpa esfarrapada pra justificar o fato de que o relacionamento esta naufragando; ele falou sério.
Olhou-o espantada, diante daquelas palavras tão pouco usuais do amigo, mas ele estava certo e nem ela podia negar que era realmente muito bom ser mimado. Não precisava ser necessariamente por um namorado, mas sim um amigo, um irmão... Qualquer um que coloque seus sentimentos num presente, mesmo que sejam apenas palavras escritas em um cartão, já é suficiente para se saber o que realmente representa em sua vida.
-Você tem razão; ela murmurou.
-Mas e ai? O que veio fazer por esses lados, alem de me ver é claro; ele falou com um sorriso infantil, mudando de assunto, deixaria para os outros se estressarem com isso.
-Vim exatamente por isso, estava curiosa para saber o que o Mú estava aprontando e também, para saber quem ganhou o outro buquê?
-Que buquê? –Milo indagou, curioso.
-O de gérberas vermelhas; Isadora falou, logo dando-se conta de que mais ninguém o havia visto. Recriminou-se mentalmente pela indiscrição.
-Não, esse não vi, então, não sei quem ganhou... Mas certamente deve ser a Mia; Milo falou calmamente. –Ele não faz nem questão de esconder que ta afim dela;
-Uhn?
-Acho que ele é o único que não se preocupa em dizer o que pensa e agir como quer. Alias, sempre foi assim... Desde o começo; Milo comentou pensativo. –Mú sempre foi o tipo de pessoa que não se preocupa com a opinião do coletivo e age sob as próprias regras;
-Sério?
-...; ele assentiu. –Ele sempre foi muito lógico e racional. Acho que só o vi perder a paciência uma vez;
-Quando?
-Quando mestre Shion morreu e o Ares assumiu o lugar dele. Tudo bem, que ali, já era o outro Ares, não o irmão do mestre. Mas até então, dava no mesmo. Ele pretendia deixar o santuário e o Ares não queria, Shaka tentou intervir e os dois quase lutaram. Do jeito que ele estava aquele dia, não duvidava que ele lutaria contra o Shaka até a morte e ainda levaria o Ares com ele;
-Ele deve odiar muito o Ares, não? –Isadora indagou, lembrando-se que até ela, antes de descobrir a verdade sobre o cavaleiro de Gêmeos, também queria a cabeça do irmão do Grande Mestre numa bandeja de prata.
-Ele nunca falou sobre isso, agora menos ainda. Se na época ele não contou nada ao mestre Shion sobre o que Ares fez... Agora, o mestre só ficou sabendo alguns dias atrás porque Eurin tocou no assunto e fomos obrigados a contar toda a historia... Mas dizer que ele ainda odeia o Ares, não posso fazer com precisão. Porque eu no lugar dele, ainda odiaria, mesmo sabendo que uma boa parte de tudo que aconteceu foi por culpa do outro Ares. É difícil separar as coisas, quanto tudo aconteceu daquela forma; ele explicou.
-...; Isadora assentiu. Sem duvidas, era difícil não odiar, principalmente naquela situação. –Mas e você?
-O que tem?
-Afrodite falou que você estava fugindo do Shura, o que andou aprontando?
-Ah! Ele só está bravo porque convidei a Shina para jantar comigo; Milo falou como se fosse a coisa mais normal do mundo.
-Como é? –a jovem indagou, quase engasgando.
-Oras, desde que você me abandonou, temos conversado bastante; ele falou com ar trágico. –Mas falando sério, gosto da companhia dela e o Shura é outro pato;
-Você não tem jeito, não é; Isadora falou sorrindo. –Se faz de devasso, mas é bem chegadinho em atacar de cupido; ela brincou.
-Você sabe, nunca fui um santo e nem faço questão de o ser, mas quero ver meus amigos bem, nem que seja com um certo 'sushizinho'; ele falou torcendo o nariz.
Arqueou a sobrancelha, diante do tiro a queima roupa, tava demorando para ele tocar no assunto.
-Mas me diz, já almoçou? –Milo indagou, optando por uma retirada estratégica ao vê-la serrar os orbes.
-Não; Isadora respondeu.
-Bem, não garanto que você vai sobreviver, mas andei fazendo alguma coisa aqui, me acompanha? –ele indagou.
-Olha lá hein, meu seguro de vida não cobre atitude suicida; ela brincou, seguindo com ele para a cozinha.
-Bem... Se você me colocar como seu beneficiário, a gente da um jeito; ele falou com um sorriso travesso.
Continua...
