XXVIII
Acordo pela manhã, ainda um tanto quanto sonolento. Meu gêmeo se encontra em meus braços, ainda dormindo. Seu rosto apresenta uma aparência mais tranqüila, rosado até.
Levanto da cama e o deixo descansando. Ainda envergando apenas a túnica que uso como roupa de baixo, desço e vejo os criados arrumando a mesa para o desjejum. Eles se surpreendem com a simplicidade de minha vestimenta. Ruth não demora a vir para a mesa e se depara comigo já tomando a refeição.
- Kanon... - diz ela, sentando ao meu lado - Como está seu irmão?
- Bem. Conversou comigo, dormiu tranqüilo... parece estar mais saudável.
- Vocês não estão mais brigados?
- Não. Fizemos as pazes. Mas... Ruth... por que não aproveita que Saga está melhor e lhe revela o real parentesco entre vocês?
- Ah, não... ele ainda está debilitado. Não é verdade? Qualquer emoção mais forte pode piorar seu estado.
- Se quiser, mãe, posso lhe ajudar. Eu revelo tudo a Saga e...
- Não. Por enquanto não, meu filho. Por favor, respeite a vontade de sua mãe.
Assinto, não insistindo mais. Comemos em silêncio, e em seguida cada um vai para seu lado. Eu sinto ímpetos de saber como meu irmão está, e portanto subo ao quarto dele. Porém, ao adentrá-lo, tomo um susto... pois a cama se encontra vazia.
- Céus! - exclamo afinal - O que aconteceu com ele?! Será que algum criado o tirou daqui?
- Kanon...
É a sua voz que me chama. Mais forte do que nos dias anteriores, e vinda de outro cômodo.
- Saga!! Onde está?! Não pode sair do leito ainda! Sag-
Surpreendo-me totalmente ao entrar numa porta contígua ao quarto e ver meu gêmeo nu, dentro de uma banheira, os cabelos presos no alto da cabeça para não se molharem. Um aroma doce, rescendente a baunilha... acaricia levemente minhas narinas.
- Eu disse estar cansado daquela cama = diz ele, numa aparência quase completamente nova e revigorada.
- Mas... Saga, a... a sua febre de ontem! O que aconteceu?
- Passou. Sinto-me novo outra vez.
- Mas está magro ainda... precisa se alimentar!
- Não agüentava mais - diz ele distraído, como se minha linha de raciocínio pouco importasse - Precisava de um banho e das minhas boas e velhas essências. Apenas isso! Posso voltar a meu dia-a-dia de novo.
Observo seu corpo, maravilhado. É bonito; formoso apesar de ainda mostrar sinais da doença. Sua pele é tão branca quanto naquele encontro que tivemos no quarto da antiga propriedade de Catherine Gray. Talvez até mais branca... pois ficou confinado num leito por tanto tempo...
De súbito ele se levanta e toma um tecido para se enxugar. A minha vontade... o meu ímpeto enfim... é abraçá-lo por trás e tomar seu corpo todo para mim. É bem provável que ele consentisse com isto... mas não. Ainda não. É muito cedo... acabou de se levantar de uma enfermidade terrível!
E também, minha mente não colabora... ainda tenho receio do incesto consciente. Meu irmão... simplesmente o ser mais perfeito que já conheci, e também o fruto mais apetitoso que meu paladar gostaria de colher. Já colheu antes, é verdade... mas não sabendo que era ele.
Sacudo a cabeça, indeciso, e o deixo passar por mim para pegar suas roupas e vesti-las.
- Já tomou seu desjejum, Kanon? - diz ele, nu tom puramente casual.
- Ah... sim. Mas Saga... você não deve se precipitar! Pode estar se sentindo melhor, mas... apenas quem está de fora pode opinar melhor.
Meu gêmeo vira repentinamente para mim e segura meus ombros de maneira sutil porém firme e olha para mim com seus olhos vítreos.
- Kanon... você voltou. Já não há mais o que possa me fazer adoecer!
E logo depois sai do lavatório, disposto a descer e tomar o café da manhã normalmente. Seu ato, é claro, desperta a atenção de todos. Ruth e os criados insistem em levá-lo de volta para a cama, mas ele não aceita.
- Entendo bem de mim! - é o que diz, aborrecido - Já posso me cuidar sozinho. Por favor, não se preocupem!
Não podendo mais contrariá-lo, nada resta aos criados senão deixar meu irmão comer o que desejar da mesa.
- É uma alma indomável! - diz Ruth, balançando a cabeça - Sempre foi assim, Kanon! Quando cisma com uma coisa, não larga dela.
- É tenaz, Ruth! Por isso a doença não pôde derrotar sua força de vontade.
- Kanon, sente-se comigo! - diz meu irmão, chamando-me.
- Eu já comi, Saga.
- Então me faça companhia - diz ele, com um sorriso no rosto, apontando uma cadeira ao lado da sua.
Sento a seu lado e o observo comer. Já tão disposto! Até sorri. Sem que eu me aperceba, ele pega em minha mão por baixo da mesa. Será que isto ocorre somente porque voltei?!
O toque de sua mão na minha é macio, agradável... e eu sinto de forma quase involuntária meu coração batendo muito forte. Eu... eu o quero... mas não sei se devo!
Como para complicar minha situação, Saga começa a roçar sua perna na minha. Não demora muito e sua mão sai do contato da minha e começa a acariciar minha coxa. Diabo!! Será que se eu não tivesse tomado a liberdade de lhe dar beijos ontem, estaria assim?!
- Saga... - digo, tão baixo que é como se estivéssemos cochichando - Não faça isso... os criados e Ruth estão presentes!
- Deixe pra lá, tolo... eles não sabem do que se passa entre nós, e tudo que faço está debaixo da mesa!
- Saga... eu contei sobre nosso anterior relacionamento a Ruth...
Sua mão aperta minha coxa de tal maneira, devido à surpresa, que chega a me arranhar.
- Kanon, você está louco?!
- Precisava contar a alguém! Ruth disse que você estava morrendo... eu tive medo...
- Não!! Ela é apenas uma criada. Como foi capaz?! Nem eu tive coragem de contar a ela como o via, mesmo tendo sido criado por si desde os três anos!
Abaixo a cabeça. "Apenas uma criada"... é muito triste para Saga não saber da verdade.
Meu irmão logo termina de comer e se levanta, com um olhar estranho. É como se sentisse o peso do olhar dos criados sobre si... como se fosse julgado por seu incesto, mesmo eu crendo que os criados não saibam disto. Devagar, ele anda até uma das cômodas, toma um pente e começa a desembaraçar os longos cabelos louros. Quando vira-se para contornar a sala, porém, perde o equilíbrio e vai ao chão.
- Saga!!
Eu me levanto da cadeira e o pego imediatamente em meus braços. Ele abresenta um olhar embaçado, como se um laivo de doença ainda estivesse presente neles.
- Saga...!
- Kanon... meu estômago... ele...
- Não foi bom ter comido normalmente!
Logo vários criados vêm ampará-lo. O médico aparece, com um semblante reprovador.
- Por que não me consultaram?! Não se deve ir única e exclusivamente pela cabeça do enfermo! Vamos; temos de colocá-lo de volta na cama.
- Não... não, a cama não...!
Saga geme em meus braços, implorando para não voltar ao confinamento de seu leito. É inútil: o médico insiste, e eu o levo à cama, preocupado. As criadas despem suas roupas cotidianas e o deixam apenas com a túnica de dormir.
- Fique aí, senhor - diz o médico, num tom respeitoso porém incisivo - Não saia, e tome caldos apenas; não deve se arriscar mais.
Sem querer discutir com o terapeuta, Saga simplesmente suspira e se vira na cama. O médico quer deixá-lo sob a observação de alguém e eu me ofereço para ver como ele se comportará.
- Não seja cúmplice de seu irmão - diz o médico para mim - Vigie seus passos e não o deixe sair da cama.
- Eu o farei.
Os criados saem do quarto e eu, como combinado, permaneço. Sento novamente em meu antigo posto ao lado do leito dele. Não tarda para que meu irmão pegue em minha mão novamente.
- Kanon... fique comigo. Ao seu lado me sinto seguro...
- O que sentiu lá embaixo para quase desfalecer, Saga?
- Medo... muito medo.
- Medo... só isso?
- "Só" não. Foi terrível. Era como uma força me devorando por dentro.
- Mas estava tão bem...
- Sim, estava. Até o momento de você revelar o que disse a Ruth...
- Saga, me desculpe! Não sabia que aquela declaração o deixaria tão... desolado.
- Ela vai me rechaçar, Kanon... eu sei como Ruth é! Sempre dedicada a suas funções de governanta, jamais a vi com um único homem sequer. Nem sei se fez algum voto de castidade...
- Não. Ruth não pode nos condenar, porque ela já foi pivô de um adultério.
- C-como?! Me conte isso, Kanon! O que você e a criada conversaram nestes dias em que estive inconsciente?!
- Ela foi amante de nosso pai, Saga!
Os olhos de meu irmão se arregalam, e em seguida ele me pergunta:
- Amante?! Por que ela contou isto a você?!
- Porque ela é... é nossa mãe, Saga! Não devia lhe contar isto agora, pois ela me pdiu segredo por enquanto, mas se o que teme é o julgamento dela... bem, não há motivo para temer!
- Kanon... Kanon...!
Meu gêmeo respira fundo e ofegante, várias vezes. Temo que ele piore e seguro suas duas mãos com firmeza.
- Saga... tente se acalmar!
- Como... como pode ter certeza de que Ruth falou a verdade?!
- Ela mostrou a certidão de nascimento. Assinada por nosso pai!
- Por isso... por isso ele vinha até aqui por três ou mais dias... para me ver, mas para também se deitar com ela!
- Eles casaram, Saga! Após a morte de Anne Windsor, eles contraíram matrimônio. Mas ela teve que cuidar de você, na época uma criança... e então...
- Tudo bem, Kanon... se eles não houvessem se casado, seria o mesmo para mim! Mas... a minha comoção se dá pelo fato... de que sempre quis que Ruth fosse minha mãe!
Sem se conter mais, meu irmão começa a chorar. Eu limpo suas lágrimas, comovido.
- Saga...
- Kanon... a mulher que me criou é minha mãe!! Chame-a aqui.
- Não!! Eu prometi segredo a ela, esqueceu?
- Mas Kanon... eu preciso dizer a Ruth o quanto sempre gostei dela, apesar de vê-la como criada...
- Saga... por enquanto não!!
Meu irmão não insiste mais, e fica calado no leito. Eu permaneço segurando suas duas mãos.
- E então, Saga? Ainda sente enjôo?
- Não... parece que o fato de termos sido concebidos de maneira não-convencional nos dá a liberdade de... de nos amarmos de maneira não-convencional. Não é mesmo?
- Sim, é sim... eu acho que sim.
E ao falar neste nosso... amor... olho de novo para os lábios de Saga, agora já sem nenhum receio. Tão bonitos... alias, tão bonito ele em si...
Quando dou por mim, estou beijando sua boca novamente. Ele corresponde da maneira mais intensa que pode, abraçando-me e intentando me trazer para junto de si na cama...
To be continued
OoOoOoOoOoOoO
E eu não posto o lemon que vem a seguir se não deixarem um número decente de reviews! Eu olho nos stats, tá cheio de visitas de inúmeros países, mas review que é bom é sempre das mesmas e fiéis amigas! Rs...
Aliás, fic terminada no manuscrito. Postem as reviews que eu logo coloco o desfecho dessa coisa toda!
Beijos a todos e todas!
