Capítulo 27 – Nasce uma Assassina
Algum tempo se passou desde que Spark e Renee se conheceram. O assassino continuava sombrio, mas aos poucos voltava a ser quem era. A companhia da elfa era estranhamente melhor que a dos outros de sua própria raça. Diferente dos demais, ela não o olhava com pena, não fazia perguntas sobre seus problemas, o que o deixava esquecer-se. Os assuntos entre os dois eram totalmente triviais. Conversavam sobre o clima em suas facções, sobre o povo, cultura, política... Spark tentava explicar a ela o que acontece quando a diplomacia falha, e porque ele gostava tanto de falhas na diplomacia. Renee por sua vez tentava ensinar ao novo amigo nada ortodoxo sobre o valor da amizade. Descobriram que ela era mais velha que ele, o que foi motivo de zomba dela durante vários e vários dias. E ambos passavam quase todo o seu tempo na região da fronteira. Renee havia contado a Lucya sobre sua nova amizade, o que causou choque na lutadora. Fora até apresentada a Spark, mas ficara alerta com a mão no cabo da espada o tempo todo. Mas depois de tantos dias, havia se acostumado com o assassino. Spark, por sua vez, havia contado a Bolt sobre Renee, mas seu irmão foi indiferente, afinal, era uma elfa. Desde sua transação Bolt havia ficado mais frio e mais travado.
Numa tarde, os dois amigos caminhavam próximos da muralha de Karis, conversavam sobre aventuras do passado e sobre os poderosos artefatos que haviam conseguido. Renee, rindo, resolveu cobrar Spark por um certo trato entre os dois.
- Ahh, falando nisso, você prometeu ir até o acampamento dos trolls na floresta e descobrir se eles têm nos tesouros deles uma armadura ou malha que me sirva.
- Se houver algo assim estará guardado pelo líder da tribo. Não será uma batalha muito simples.
- Medo?
- Não, claro que não. Somente que sozinho eu não vou.
- Ok, vamos nós dois então. Sozinho você não vai estar.
Spark hesitou um pouco, mas topou. Seria estranho. Seria a primeira vez que veria, ou ao menos ouviria sobre um elfo e um vail lutando lado a lado. Dirigiram-se para a floresta, ao extremo leste da fronteira. Mato alto crescia por todo lado ali. Árvores imensas, tão antigas quanto a própria terra, espalhavam-se por todo o lado. Grandes rios de águas escuras serpenteavam pela paisagem. O ar úmido favorecia o crescimento de musgo. Várias plantas e arbustos de cor verde muito escuro cobriam cada centímetro das encostas das colinas. Foram abrindo caminho por entre a selva. Pequenos raptores, répteis esverdeados, corriam entre o mato alto. Spark ia à frente abrindo caminho com suas garras. Andaram até a beira de um precipício. No fundo do penhasco, cerca de 20 metros abaixo, um largo e longo rio de águas negras corria veloz. Seguiram o leito do rio. Em certo momento, Spark parou de chofre. Renee ergueu rapidamente o cajado e preparou sua magia. Rodou de costas para o assassino e esquadrinhou o lugar com os olhos. Não viu nada. Precisava ficar atenta. Ambas as facções poderiam ser ameaças ali, assim como os raptores da região. Respirava com tensão. Então sussurrou.
- O que foi? Inimigos?
E Spark, sorrindo, falou com voz pesarosa.
- Não, só lembrei de um detalhe... Onde fica a tribo dos trolls?
Renee baixou o cajado, fechou os olhos e esfregou a testa com a mão livre. Virou-se para Spark e, falando entre os dentes, remendou.
- Você para dessa forma, do nada, me dá o maior susto que eu poderia levar numa hora dessas... Só para dizer que não sabe onde está indo?
- Você não sabe?
- Não, estou seguindo você.
- Então vamos pensar... Se você fosse um troll, onde viveria?
- Espere... Porque eu tenho que ser o troll? Pareço um troll, criança? – Perguntou a elfa cruzando os braços.
- Não, claro que não, você não me entendeu! Digo, forma de pensar...
- Tá, e que tal você ser o troll? Onde viveria?
- Em uma caverna... Ou em uma montanha... Ahh, não sei, trolls pensam?
- É, boa observação.
E os dois riram. Estavam perdidos, mas era engraçado. Mais a frente, o terreno se inclinava, e começava uma subida íngreme. Seguindo a linha de raciocínio, foram subindo. Andar por ali em linha reta era difícil. Numa subida era ainda mais difícil. Spark ajudou Renee a subir um trecho escorregadio. Continuaram a subida, até beirarem uma enorme clareira, com grandes cabanas mal feitas de pedra. Pareciam simplesmente pedras empilhadas. Alguns trolls andavam por ali. No fundo da tribo, um grande troll, empunhando uma clava brilhante, se fazia imponente. A rústica cabana atrás dele devia conter os tesouros da tribo. Com uma piscadela, Spark contornou a clareira abaixado, com Renee no seu encalço. Com um sinal para fazer silêncio, Spark saiu da proteção da floresta bem próximo da cabana do líder. Suavemente chegou ao lado do troll. Renee se preparou a média distância. Quando o assassino estava bem ao lado do líder, levantou-se, e com um salto, apoiou o pé no joelho do monstro, se jogou ao ar, e, enquanto girava, aplicou um forte chute no pescoço musculoso do troll. Era como chutar um bloco de concreto. O troll reparou sua presença, e olhou curioso para a pequena criatura que o incomodava. Mas era tarde demais para qualquer reação. Enquanto caía, Spark usou a queda para aumentar a força de seu golpe, e com um corte vertical, cravou suas garras nas costas do líder, mutilando sua coluna. O grande troll caiu paralisado. Renee já havia preparado o terreno. Rachou o solo em vários pontos. A queda do monstro foi abafada pela terra revirada. E ao cair, Renee continuou criando fissuras, que aos poucos enterrou metade do corpo do troll. Para garantir, ela comprimiu novamente as rachaduras. Um som abafado de ossos partindo se fez ouvir. Os outros trolls pareciam não ter ouvido nada. Em silêncio, entraram na cabana. Dentro não havia nada que pudesse ser chamado de tesouro. Ossos empilhados, trapos, pedras e todo o tipo de quinquilharia sem valor. Renee passou a mão pelos longos cabelos loiros e disse.
- Não era o que eu esperava encontrar.
- Eu entendo. Sorte que não foi uma luta difícil, senão eu ficaria realmente irritado.
- Idem.
Ainda em silêncio, voltaram para a floresta, e se afastaram do acampamento. Andaram novamente pela beirada do precipício até a trilha que haviam feito, e por ela até as bordas da floresta e aos campos de batalha da fronteira. Próximo ao forte Raigo, Spark esperou. Renee voltou-se pra ele e disse.
- E então, o que faremos agora?
- Eu não posso ficar mais, preciso ajudar uma guerreira da Connect a terminar o treinamento dela. Tarefas de líder.
- Ahh, entendo. Bom, então eu vou... Ahh, não sei, vou procurar alguma coisa para fazer. Não tenho com quem treinar.
Spark pensou durante alguns segundos, e perguntou.
- Espere, posso treinar a guerreira aqui na fronteira mesmo. Vamos para o deserto, que é isolado, treinamos lá. Você terá companhia para treinar.
Renee, sorridente, concordou com êxtase. Teria companhia. Spark despachou um mensageiro para a guerreira, dizendo onde encontra-lo. Enquanto se dirigiam para as enormes dunas de areia clara que marcavam o início do deserto, nas bordas oeste da fronteira, Renee pensou em uma hipótese pertinente.
- Spark, acho melhor você ir na frente sozinho, do tipo, bem na frente.
- Por que?
- Ela não sabe que você chegará com uma elfa. É provável que me ataque. Vá na frente e avise que eu estou indo. Depois volte e me avise.
E assim foi combinado. Spark entrou em Raigo novamente, encontrou a guerreira membro da Re-Connect e contou sobre a mudança de planos. Informou a ela sobre a presença da estranha amiga. A guerreira ficou um pouco perplexa. Seu cérebro nordein entendia apenas duas coisas, inimigo e combate. Mas confiava em Spark, se ele dizia que estava tudo bem, então estava tudo bem. Seguindo seu líder, se dirigiu ao deserto. Encontraram Renee nas bordas das dunas de areia. Instantaneamente a guerreira foi com a mão até seu grande machado, mas lembrou do que Spark havia dito. Conteve-se. Mas ainda olhava de esguelha para a elfa, de rosto fechado. Penetraram o deserto até algumas dunas perdidas, no meio do nada. Alguns escorpiões do deserto emboscavam vítimas naquela região, o que tornava o lugar perfeito para um treinamento duro. O sol castigava sem pena, nenhuma nuvem o bloqueava. Para onde olhavam, apenas areia. Muito ao longe, algumas pedras indicavam um rochedo avermelhado. Os escorpiões do deserto eram enormes. Alguns atingiam o tamanho de uma hiena. Dois escorpiões se moviam por ali, enterrando suas pinças na areia. Spark avançou contra os dois. Ambos atacaram com o ferrão na ponta de suas caudas. O assassino escapou veloz dos ataques, pisou em um deles e saltou por cima, chamando sua atenção para o lado contrário ao que estavam a guerreira e a maga. Imediatamente, a guerreira nordein se lançou contra um dos escorpiões distraídos, e com poderosas machadadas, o matou. Renee conjurou um grande raio que atingiu a carapaça do segundo escorpião, mas não o afetou tanto quanto imaginara. Começou a conjurar uma grande esfera de energia, quando, propositalmente, a guerreira girou seu machado, e matou o segundo escorpião também. Isso se repetiu durante mais três vezes. A guerreira se aproximou de Spark, e, sutilmente, perguntou.
- Spark, posso matá-la?
- Não! – Respondeu o assassino com seriedade.
- Eu faço parecer um acidente, digo que foi sem querer.
- Já disse que não. E lembre-se, estamos treinando juntos, deixe escorpiões para ela também.
Contrariada, assentiu com a cabeça e voltou a treinar. Assistia a maga matar os monstros com grande descontentamento. Após algumas horas de treinamento, voltou a chegar perto de Spark. Sua voz, típica dos nordeins, grave e pesada, permitia que Renee a ouvisse sem muito esforço. A guerreira falou ao assassino novamente.
- Spark, tem certeza que não posso matá-la? Dou só uma esbarradinha com meu machado.
O vail não aguentou e caiu na gargalhada. Negou enquanto ria. Aquela situação estava começando a diverti-lo. E, curiosamente, a Renee também. A elfa suprimiu um risinho, para não demonstrar que ouvira. A tarde foi passando depressa, e rapidamente anoiteceu. E com a noite, o frio no deserto. Adiaram o treino, e a guerreira foi embora, despedindo-se de modo agressivo, o que divertiu mais a Spark.
De volta à fronteira, os dois amigos sentaram-se em uma colina, sob a sombra da Grande Árvore Grandieta, a maior e mais antiga árvore de Teos, a origem da lenda da árvore da vida. Ficaram ali, sentados, mudos, até que Renee rompeu o silêncio.
- Spark, então... Posso te fazer uma pergunta invasiva?
- Claro, pergunte.
- Você me disse que namorava alguém, mas que tudo acabou. Me conta o que houve?
Por alguns instantes Spark hesitou. Não porque não conseguia dizer, mas porque não sabia o que dizer. Então, começou a contar, raciocinando as palavras.
- É uma longa história. Sabe, ela morreu.
- Entendo. Sinto muito. Desculpe perguntar.
- Não se desculpe, não tem problema algum. Essas coisas acontecem.
- Já tem muito tempo?
- Tem, de certa forma.
- E como você se sente?
- Bem, de maneira estranha. Chateado sim, mas não pelo motivo que você imagina, tenho certeza.
- E por que seria então?
- Erros que cometi, verdades que me neguei a ver... Tenho raiva por ter sido enganado de maneira tão estúpida. Não deles, mas de mim mesmo.
- Enganado?
- Armaram uma teia para mim. E eu caí.
- Eu não estou entendendo, desculpe.
- Desculpe a mim, não estou explicando direito... Foi uma equipe. Fizeram uma deles fingir estar apaixonada por mim. E eu caí. Acreditei. Fiz o que eu podia e o que eu não podia por ela. Principalmente o que não podia. Magoei quem realmente gostava de mim. Perdi muita coisa. Ainda estou um pouco perdido, mas sei que as coisas vão melhorar.
- Eu sei que vão. – Disse a elfa com um sorriso, passando a mirar as estrelas.
- Sim... Mas e você. Tem me feito companhia todos os dias. Seus companheiros da luz não devem gostar nada.
- Não tenho muitos. Drake, aquele na caverna quando eu e você nos conhecemos, se lembra dele? Não? Ah, sim, você não o viu. Então, ele era meu melhor amigo, mas também está sendo enganado por uma ladra. Quando ele perceber será tarde demais, você deve saber disso muito bem. Depois que ela chegou, ele não tem mais tempo para nada, nem ninguém. Já não o vejo há tempos. E Lucya, minha companheira para todas as aventuras.
- Ela não vai muito com a minha cara. – Disse o assassino torcendo o nariz.
Spark e Renee riram. Então a elfa continuou.
- Ela só acha estranho a companhia de um elfo negro. Mas ela acha você divertido. Sério, porque essa cara? Então, mas Luvya tem se ocupado muito com seus assuntos durante o dia. Só nos vemos mesmo a noite. Então tenho ficado muito sozinha durante os dias. E mesmo a noite, ela está exausta, então logo se recolhe, e eu volto a ficar sozinha. Não gosto de ficar sozinha.
- Entendo.
Spark sentia sono. O dia havia sido puxado. Mas ainda assim, não queria ir embora e deixar a amiga ali. Não conseguia. Ainda olhando para o horizonte, ouviu a pergunta da elfa, e respondeu distraído.
- Você não vai para casa?
- E deixar você sozinha? Não, fico mais um pouco.
Renee sorriu. Sussurrou um "obrigada", recostou na grama e ficou olhando para o céu negro. Por incrível que parecesse, se sentia segura com o assassino presente. E durante grande parte da noite ficaram ali, no silêncio. Até que o assassino começou a cochilar, e decidiu que precisava ir. A elfa assentiu, e cada um foi para um lado. Spark se sentia mais leve. Renee também. E a noite virou dia.
Bolt notou seu irmão em casa, dormindo. Quando fora dormir, a cama de Spark estava vazia. Havia chegado durante a noite. Propositalmente deixou algumas peças de armadura cair no chão de pedra, o que causou um forte som metálico. Spark levantou num pulo, o que divertiu Bolt. Estava com um humor altamente sarcástico. Aproximou-se sorrindo e, prendendo o cabelo avermelhado em tranças, comentou.
- Bom dia flor do dia. Dormiu bem?
- Bom dia. – Respondeu Spark num rosnado.
- Passou a noite com sua nova amiga?
- Sim, treinamos um pouco.
- Não se esqueça novamente que você tem outros amigos. Kang vai para Astenes hoje a noite, e me pediu pra te perguntar se você quer ir.
- Eu sei. Diga a ele que vou sim.
Enquanto Bolt saía, Spark aproveitou para se vestir. Afivelou sua armadura negra e apanhou uma maçã. Passou os cabelos cor de gelo para trás e colocou seu capacete. Iria para Raigo.
Renee acordou cedo. O céu, límpido e azul da Aliança, fazia a luz do sol matinal iluminar cada folha de cada árvore da floresta. A elfa se vestiu e rapidamente se pôs a caminho de Karis. Chegou à fronteira bem cedo, e, certificando-se que não havia inimigos, partiu para as proximidades de Raigo. Não precisou esperar muito, Spark logo apareceu por ali. Passaram horas andando atoa e conversando sobre assuntos triviais. Até que, após pensar um pouco, Spark disse.
- Renee, alguma vez já cogitou ser parte da União da Fúria?
- Uma elfa? No meio de vocês? Nunca eu acho.
- Sim, exatamente. Você diz que não tem tantos amigos entre seu povo, e que quase não os vê. Pelo menos aqui treinaríamos juntos mais facilmente.
- Não acho uma boa ideia, de verdade. Seria legal, mas não, obrigada.
- Ok, é com você. Hoje eu ficarei pouco, tenho um compromisso. Eu preciso me apressar. Até amanhã?
- Sim, claro, até amanhã. Boa sorte!
- Obrigado. Boa noite pra você.
- Pra você também.
E enquanto Spark partia, Renee foi se sentindo sozinha. Virou-se e voltou a passos vagarosos para Karis. E durante a caminhada ficou pensando no que fazer para passar seu tempo. Primeiro pensou em fazer uma incursão até a floresta, mas sem Spark não seria tão divertido. Desanimou. Então pensou em Lucya. Uma aventura com ela não seria uma má ideia. Apertou o passo e correu para Keolloseu. Já era quase noite quando chegou a maior cidade da Aliança. Demorou a encontrar a amiga humana. Mas não tiveram tempo para conversar muito. A lutadora estava muito cansada, e partiu logo. E Renee, sozinha novamente, foi para casa. Sentando-se na cama, ficou pensando nas palavras de Spark. Sozinha e no escuro, a solidão foi fazendo-se mais forte, e dominando sua alma. Notando a brecha, a Deusa da Fúria lhe tocou o espírito, e com suavidade suspendeu o toque. Renee pesou as consequências de uma decisão como aquela. Passou a noite em claro. E quando a manhã se anunciou, havia chegado a uma conclusão. Sem pensar duas vezes, levantou-se e começou a empacotar suas coisas. Após quase uma hora, estava pronta. Correu até os arredores de Keolloseu, onde Lucya treinava alguns soldados recém-graduados. Não entendeu bem quando Renee se despediu. E naquele dia, quando Spark chegou à fronteira para encontrar a amiga, a encontrou decidida.
- Falava sério quanto a eu ir para a Fúria?
- Sim, claro.
- Pois vamos. Eu topo.
E naquele momento, Renee abraçou o lado sombrio. Sentiu o toque abrasante da deusa da Fúria abraçar sua alma. Seu cabelo, dourado como o sol, perdeu a cor viva, clareou, uma cor de gelo, como o de Spark. Sentia o corpo queimar. Era uma sensação nova. Diferente da calmaria da Luz. Porém, no momento que abriu os olhos, descobriu algo estranho. Não percebia mais a energia do ambiente ao seu redor. Não sentia mais a magia fluir por suas veias. Apertou seu cajado e tentou fazer um feitiço. Nada aconteceu. Começou a se assustar. Tentou um feitiço mais simples, e novamente nada aconteceu. Seu poder mágico era raro, proveniente diretamente da Luz. E, no momento que abandonou a Luz, a Luz a abandonou. Assim como seu poder. Olhou para Spark procurando auxílio, e o assassino não soube o que fazer. Ainda não tinha entendido o que se passava. Ao ouvir que a amiga perdera os poderes, não se abalou. Sorriu e disse.
- Sabe, elfos sabem mais coisas que magia. Quer que eu lhe ensine?
- Não gosto do seu estilo de combate. É interessante, mas não me vejo lutando assim. Quero meus feitiços. – Disse Renee, agora uma vail, com expressões tristes.
- Vamos, experimente pelo menos, o que tem a perder?
E mesmo sem gostar muito da ideia, aceitou. Spark procurou por uma adaga e entregou a Renee. Sacou então suas garras, para mostrar alguns truques a ela. Imediatamente ela o interrompeu.
- Espere. Porque eu fico com uma adaga e você usa garras? Eu quero garras também.
- Garras são mais avançadas. Possuem uma forma diferente de empunhar, e uma forma diferente de lutar. No geral, é mais complexa que uma adaga. Poucos assassinos usam, e menos ainda dominam bem. Use a adaga, vai ser mais fácil para você. E, no futuro, se ainda quiser, treine com uma garra.
E sem prestar atenção no que o assassino dizia, ela revirou suas coisas, e encontrou um par de garras, que a muito estava tentando vender. Segurou firme o punho das garras e disse.
- Pronto, agora estou pronta. Ensine.
Contrariado, Spark sacudiu a cabeça, mas assentiu. Rapidamente, passou para ela alguns modos de esquivar-se, algumas estratégias de combate, alguns truques duvidosos... Renee aprendia rápido. E aos poucos, foi gostando da brincadeira de atacar com velocidade as árvores e o vento a sua frente. Até que Spark a parou.
- Você aprende rápido, mais rápido que eu. Vamos aumentar o ritmo então. Vamos para Starfumos. Pego umas coisas em casa e vamos para Aumeros, lá nos aventuramos por uma vila de trolls. São pequenos e bem mais fracos do que estava acostumada a enfrentar com magias, mas vai servir para pegar o jeito das garras.
E partiram. Renee estranhou aquela terra. O céu era enegrecido. Quase não havia grama, era tudo terra. E ainda mais estranho era o olhar do povo, ao ver a vail de pele clara e cabelos cor de gelo passar, cheia de itens e artefatos da luz. Vails e nordeis olhavam curiosos para a cena. Ao chegar a Starfumos, Spark a conduziu até sua casa, onde a entregou algumas mudas de roupas femininas, típicas de assassinos, e a deixou a vontade para trocar-se. Pouco tempo depois, a elfa saiu pela porta, com suas garras presas à cintura, com a malha escura de assassino recém-formado. Sorriu para Spark, dando uma voltinha.
- E então, como ficou?
- Caiu muito bem. Como se sente?
- Ah, não sei exatamente, difícil de dizer. Vamos indo? Pelo que me lembro, você, criança, ficou de me mostrar uns trolls.
Spark ia devagar, mostrando a terra e as trilhas para Renee. Contornaram Aumeros e pegaram a trilha ao sul. Os trolls por ali eram bem menores e mais fracos que os outros de sua raça. Não eram desafio algum para soldados do seu patamar, mas foi onde ele e Bolt reaprenderam a usar o corpo. Era o lugar perfeito, e ele queria ver como a amiga se sairia. Em uma curva, saíram da trilha e desceram uma colina. Não se preocuparam em não chamar atenção, de modo que, ao terminar de descer, um troll já se aproximava para examinar o que eram aquelas criaturas. E seu modo de examinar as coisas era acertando-as com seu porrete. Spark recuou um pouco e disse.
- Agora é com você. Vamos ver como se sai. Lembre-se das esquivas.
- Ok, e até quando ficamos aqui?
- Não sei, até eu estar satisfeito... Eu no seu lugar, eu olharia para o porrete.
Renee se virou a tempo de ver um porrete enorme de madeira vindo horizontalmente em direção a sua cabeça. Rapidamente se abaixou, e sentiu o vento da arma passando a centímetros de altura. Pôs-se de pé novamente e sacou as garras. Continuou olhando para a criatura em frente a ela. O grande troll sacudiu novamente o porrete. De modo ainda sem jeito, Renee se lançou para o lado, e desviou novamente. O troll começou a se irritar por não acertar a elfa, e começou a reclamar alguns sons guturais, que acabaram por atrair mais trolls curiosos. E aos poucos mais inimigos se juntaram. Renee era ágil, escapulia dos golpes com velocidade. Ainda eram esquivas desajeitadas, mas ela tinha potencial. E quando Spark se preparou para dizer que apenas esquivando ela não os derrotaria, a nova assassina investiu contra um dos monstros, e rasgou sua barriga grande de fora a fora. Ela se entortou para esquivar de um golpe, abaixou para esquivar de outro, e, escorregando por baixo das pernas de um deles, cortou seus tornozelos. O monstro ferido tombou, e numa tentativa de se manter de pé, derrubou outro companheiro. Renee subiu em um deles e chamou a atenção do último ainda de pé, que agitou nervoso seu porrete. Ao tentar esmagar a vail, ela saltou de cima do troll caído, e ouviu o som do grande porrete esmagar o crânio do monstro. Escalando rápido as costas do inimigo de pé, cravou uma de suas garras no pescoço. O monstro cambaleou algumas vezes até cair. Então ela se virou para o último, com os pés retalhados, tentando agarrar o porrete. Foi caminhando até ele e o exterminou. Voltou até Spark e disse empolgada.
- Até que foi divertido. E então, como me saí?
- Foi muito bem. Achei que fosse precisar intervir, mas se saiu muito bem mesmo. Quer tentar enfrentar um oponente de verdade?
- Como assim?
Então, sacando suas garras, Spark disse.
- Deixa eu avaliar de perto. Prepare-se.
Renee ergueu as garras a tempo de bloquear um golpe do assassino. Ela olhou perplexa para o amigo. Ele havia atacado para valer. Perguntou surpresa.
- Então é para atacar com tudo?
- Claro, se não vier com tudo o que tem, não vai conseguir me derrotar.
Renee então avançou para cima dele. Ele fez uma finta para o lado e girou o corpo, passando por trás dela para o outro lado. Agarrou seu ombro e a puxou. Ela rodou como um pião e caiu sentada, com uma lâmina em seu queixo. Recolhendo a garra, ele deu a mão para ela levantar. Ela não estava contente. Mal levantou, voltou a atacar. Spark conseguiu chegar a cabeça para o lado, para desviar de uma estocada da garra dela. Com o mesmo braço, ela girou, e Spark abaixou-se. Vendo o amigo no chão, ela levantou o pé e o chutou. Ele não conseguiria desviar, só restou defender. O chute dela pegou em seus braços, o que não causou tanto dano, mas Spark não deixou de admitir, era forte. Com o impacto, foi jogado de costas ao chão. Continuou o giro, virou por cima do pescoço e deu uma cambalhota para trás, se pondo de pé. Não tinha tempo de respirar, pois mal ficara de pé, Renee já atacava novamente. Uma das garras de Spark havia caído. Não havia tempo de pegar. A amiga tentou um golpe lateral, mas Spark interceptou seu braço e segurou firme pelo punho. Com a outra garra, Renee tentou outro golpe lateral, que foi repelido pela garra de Spark. Com os dois braços afastados, Renee pulou, e, com os dois pés ao mesmo tempo, chutou o peito de Spark. Desta vez, sem fôlego, o assassino rolou pelo chão. Estava surpreso. Conseguiu alcançar sua garra, mas tarde demais. Sentiu a pequena mão da amiga agarrar o ombro de sua cota, e puxar com força. Bateu com as costas em uma árvore e sentiu o metal gelado da garra dela contra seu pescoço. Rindo e ofegando, a vail disse.
- Se eu te disser... Que desde que nos conhecemos... Eu estava esperando... Por isso... Você acredita?
- Pior que sim. – Respondeu o assassino sorrindo.
- Obrigada... Sabe, é divertido. Gostei destas garras. E o que faremos agora?
- Não sei dizer... Realmente, não sei. Acho que você não precisa mais de treino básico.
E naquele dia, a Re-Connect ganhou mais uma assassina poderosa.
