Aos Olhos do Mundo
Capítulo XXVI - The Woman
É muito bom chegar em um hotel que, mesmo não tendo reservado nada, esteja te esperando.
- Só por curiosidade, Srta Lunière, está a negócio na cidade? - Pergunta o recepcionista enquanto não consegue ser discreto ao correr os olhos de mim para Benedict.
- Sim. - Minto e abro um sorriso.
- Espero que tenha tempo para um passeio, afinal, é uma linda época do ano.
Benedict me acompanha até o quarto, abrindo a porta assim em que coloco o cartão no magnético.
- O que acha?
É um cômodo enorme que se abre para mim em seu estilo vitoriano, com sofá de estofados brancos e arestas em dourado, papel de parede com desenhos florais discretos e uma cama igualmente grande como a minha própria.
- É... - franzo o cenho procurando pela palavra exata. - Grande. Grande me parece ser uma boa palavra.
- Não gostou? Posso ver se_
- Não, é ótimo, mas é que eu não costumo, bem... uma vez. Será um ótimo lugar para relaxar.
Ele se aproxima de mim pelas minhas costas e, gentilmente, puxa meu casaco e o acomoda sobre uma das poltronas. Eu me viro para ele mas encaro seu peito porque estou com vergonha dele. Mordo o lábio em nervosismo enquanto sua pele encosta no meu rosto de novo.
- Olhe para mim, Lilian - e essas palavras estão começando a se tornar o gatilho para minha ansiedade.
Subo lentamente meus olhos até encontrar sua imensidão azul, apreciando cada parte do que me é exposto: o tecido macio de sua camiseta, os óculos Ray Ban descansando sobre a gola, o pouco da pele que me é revelada de seu corpo, a junção de suas clavículas levemente marcas sob a pele, seu pomo-de-adão saliente (e me pego imaginando se essa parte de sua anatomia é responsável pelo timbre grave de sua voz), os pelos da barba que começam a saltar pelos poros - e, não surpreendente, são ruivos, - o formato único de seus lábios, o nariz e, enfim, seus olhos.
Azuis e verdes. Hoje são azuis e verdes, em um lindo degrade meio desuniforme, mas migram em alguns pontos para o dourado, revelando a sensação de olhar para o interior de uma bola de gude. Há alguns poucos traços de castanho o que aumenta a percepção acerca do universo mágico de uma bolinha de vidro. É mágico, é calmo e, ao mesmo tempo, estimulante.
E igualmente estimulante é seu beijo sobre mim, a ainda saudade contida em um gosto e a não necessidade de acelerar nada, seu braço rijo enlaçar toda minha cintura e me trazer para mais perto, cessando aquela distância que antes eram quilômetros e muitos dramas e agora é isso: sua roupa com a minha, sua boca com a minha, minha mão direita enlaçada sobre seu pescoço e a outra o puxando pelo colarinho.
Não há urgência. Não há pressão. Não há motivos para corrermos com nada porque, agora, ambos estamos no mesmo hemisfério do globo, no mesmo fuso horário, no mesmo quarto, e temos todo tempo do mundo para ficarmos juntos.
E ficamos juntos, em toque constante entre nossas peles quentes e sensíveis ao outro, no suor de nosso esforço e de nossa vontade mútua pelo âmago do outro, pela minha entrega total em deleitar-me sobre o ímpeto dele e me perder pela lagoa celeste de seus olhos enquanto sinto algo crescer e se irromper com os movimentos ritmados de nossos corpos, mas ele se estende e, quando a sensação quase desconhecida por mim da Pequena Morte me acalenta, seu rosto se fecha em agonia de enfim não precisar mais se conter - e então o peso de seu corpo, desfalecido, sobre mim.
Meu coração bate contra o rosto dele e sinto a força de sua respiração em seu abdômen perto de minhas coxas. Ele se levanta um pouco colocando seu peso cobre os braços que estão ao lado do meu corpo e beija meu seio, entre eles, meu colo, meu pescoço e minha boca. Escorrega-se para o meu lado e se ajeita perto de mim, passando o braço por debaixo de meu pescoço e me fazendo virar para ele e me encaixar ali no meio de seu corpo. Enlaço-o com uma de minhas pernas e estamos de novo nos encarando de muito perto.
Benedict coloca uma mecha de meu cabelo para trás e alisa minha bochecha e me aninho diante de seu carinho. Quero falar alguma coisa, dizer que ele é incrível, o homem mais charmoso que já conheci, que nunca tivera um orgasmo durante o sexo, que a pele dele é muito quente - no entanto, ele meneia infimamente a cabeça em sinal claro de que não há necessidade de nada ser dito por hora.
Esperamos muito tempo por isso: eu, desde o dia em que o conheci de novo, como adulta, como profissional, como detentora da atenção de um homem que alcançara o mundo; ele, por todo o tempo em que teve de esperar pela benção do amigo.
Queria eu poder agora abrir a boca para explicar a ele que o que Roger fez foi errado e eu jamais conseguirei assimilar tais situações como um todo, mas eu o amo e ele sempre será o caminho certo para quando meu mundo desequilibra - e ele o faz com certa frequência, devo admitir, - no entanto, há espaços na minha vida para serem ocupados por outra pessoa e gostaria muito de que fosse ele, Benedict, o Sherlock Holmes que eu ainda não conheço.
- O que foi? - Diz ele ao ouvir minha risada escapada.
- Acabei de me dar conta de que ainda não o vi como Sherlock Holmes.
O som de sua risada é definitivamente umas das coisas bonitas de se ouvir: é tão sincera e espontânea.
- Está no Netflix. Você pode assistir quando quiser e quando longe de mim.
- Você não gosta de se ver?
- Não muito, mas em particular não gosto de ver as outras pessoas me vendo, ainda mais quando acharam que Sherlock é sexualmente atraente.
- Mas isso não é bom?
- Sherlock não era para ser atraente.
- Bom, acho que você deva ser o único com essa opinião.
- É porque você está nua na cama com o cara que empresta sua fisionomia ao personagem.
- Concordo que minha opinião esteja tendenciada no momento.
- Bom... que ela fique assim por um bom tempo então.
Após falarmos sobre a quantidade de não compromissos que eu tenho para o dia, Benedict me diz sobre o talk show que gravará hoje à noite e se eu me importaria de ir com ele. Apesar da minha vontade de dizer sim, a nossa foto no pronto atendimento retorna a minha mente, junto com a imagem de Gabriel e sua repugnante chantagem contra mim e o quanto não quero ninguém dizendo nada sobre minha ida à Nova York tão pouco tempo depois de ver as cinzas de um amigo em uma urna.
- Sair para jantar?
- Podemos jantar aqui no quarto.
- Macarrão com queijo?
- Não se preocupe, não serei eu quem vai organizar o nosso menu.
N.A.: Algumas confissões a serem feitas:
- Eu planejei "Aos Olhos do Mundo" até o capítulo XXIV, então, a partir de agora, a história será igualmente uma surpresa para mim;
- Espero que você tenha se apaixonado um pouquinho que seja pela Lil da mesma forma que eu. Qual personagem é o seu preferido até agora?
- Obrigada por se dedicar a essa leitura.
