27º Capítulo - Anjo
(Edward POV)
Corri... O mais depressa que alguma vez tinha corrido, mas corri.
Tornando-me um borrão a olhos humanos, os meus pês quase não tocando no chão, Deixára Carlisle e os outros para trás, mas conseguia sentir a presença de Charlie ao meu lado, ele não era tão rápido como eu, mas estava a conseguir acompanhar-me.
Temos que chegar a tempo. Charlie pensava repetidamente. Não as posso perder, não as posso perder.
Conseguia imaginar o desespero do meu sogro. Perder a mulher que amava pela segunda vez e as filhas... Em parte, o meu coração comprimia-se exactamente com um mesmo medo que ele, a perda da mulher que amo. Perder Bella seria o meu fim, não haveria nada mais para mim se não chegassemos a tempo.
Chegámos à casa de Renée, as janelas e a porta estavam fechadas, mas não me interessava o interior, interessava-me o rastro do cheiro de Bella que estava no portíco.
- A Bella já aqui esteve. – Charlie disse tocando na porta. – A porta está selada por magia.
- Que quer isso dizer?
- Quer dizer que ninguém pode entrar, nem nada pode sair. – Charlie respondeu-me mordendo depois o dedo, deixando que sangue aparecesse sobre a sua pele branca.
- Charlie?
O meu sogro tocou com o dedo ensaguentado na parede, fazendo pequenos simbolos com o seu sangue na parede. Depois ele retirou o seu dedo de junto da casa e eu reparei como já não havia qualquer vestigio de sangue nele.
- Charlie!
- Apenas fortaleci o feitiço da Bella, se ela trancou a casa é porque há lá algo que não deve ser visto por olhos indesejados.
- Phil.
O olhar do meu sogro confirmou o que os meus sentidos me diziam.
Não há certezas de que ele esteja realmente morto. Na sua mente, a imagem de Esme surgiu.
Assenti e começamos a correr novamente, seguindo o odor de Bella.
Edward, eu amo-te. O pensamento fez-me correr mais depressa, ela estava viva. Mas algo não estava bem.
- Bella.. - Sussurrei
O cheiro guiou-nos até ao estúdio de ballet no final da rua e apesar do silêncio, o som reconfortante vinha de lá de dentro. O bater de três corações quase me fez suspirar de alívio, Charlie suspirou, mas algo estava muito errado. Um dos corações batia muito devagar, devagar demais, outro batia descompassadamente, demasiado acelerado. No entanto, o último era o que batia mais forte, estável.
- Algo não está bem. – Disse e Charlie olhou para mim, percebendo então as diferenças dos sons.
- Vamos.
Obriguei a minha mente a procurar outras. Depressa encontrei-as: Ana. Os seus pensamentos estavam caóticos, repletos de ódio, dor...
Tenho que me levantar. Ela pensou, a agonia a colorir-lhe os pensamentos. A Bella precisa de mim.
Bella...
Entrámos os dois no edificio, seguindo o som dos corações. Assim que nos aproximávamos, o som das respirações das três ficavam mais distintas, apesar de estar demasiado preocupado para identificar qual seria aquela que estava conectada ao coração que batia descompassado. Seria Renée com medo? Pelos pensamentos de Ana, podia apostar que o seu era aquele que batia mais devagar... a minha cunhada devia estar ferida. E por momentos, desejei que Jacob aqui estivesse, com a sua ajuda, a morte de James seria mais rápida do que o sádico vampiro poderia imaginar!
Quando entrámos no estúdio, a cena com que nos deparámos foi mais que chocante. Ana (como eu tinha calculado) estava deitada no chão inconsciente; Renée estava de pé em frente a uma cadeira onde cordas, os seus olhos (que pelo que todos me contavam serem azuis) estavam negros como a noite, e a imagem que vi e que ficaria na minha mente para toda a minha eternidade... Bella estava deitada no chão, totalmente imóvel, toda ela coberta de sangue, e pelo cheiro, do seu próprio sangue.
Não... Pensei querendo a todo o custo que aquela imagem não fosse verdadeira, que fosse só um pesadelo.
Não... Ela não está morta. Charlie pensava ao meu lado. O coração dela ainda bate... Ela está viva, ela vai recuperar...
Tentei focar-me no som do coração de Bella... Demasiado rápido... Ia correr para junto da minha amada, quando Charlie me pôs a mão no braço, chamando-me à atenção.
- Olha.
Segui o seu olhar e a minha raiva inflou. James encontrava-se "espremido" contra uma das paredes de espelho. Tudo aquilo que via estava toldado por uma cor vermelha, a cor do sangue de Bella.
- Renée. – Charlie disse e eu olhei instintivamente para a mãe da minha namorada.
Assim que ouviu a voz de Charlie, Renée ficou com os olhos azuis novamente e ela caiu para o chão. O feitiço que aparentemente segurava James contra a parede foi quebrado e eu atirei-me contra ele, tão depressa como Charlie se dirigiu a Renée. Voltei a prender o desgraçado contra a parede, apertando-lhe o pescoço... No entanto, ele apenas se riu, como se estivesse a achar realmente graça à situação.
- Como te atreves... – Rosnei-lhe, empurrando-o mais contra a parede.
E ele riu-se mais, fazendo depois algo que me deixou perplexo. Com os seus braços, empurrou-me e fez-nos trocar de lugares, encostando-me à parede a agarrar-me pelo pescoço.
Na posição em que eu estava, conseguia ver Bella... A dor que sentia era ainda maior...
- Estás sozinho. – James disse, fazendo-me olhá-lo nos olhos. Estavam ligeiramente vermelhos, ele estava sedento. – Porque és mais rápido que os outros... – Ele bateu com a minha cabeça no espelho, fazendo-o partir-se. Senti os pedaços de vidro a picarem-me o couro cabeludo mas não me incomodavam. – Mas não mais forte.
A imagem de Bella naquele estado, inconsciente e ensaguentada, alimentou o meu ódio por James e o bater do seu coração fez com que eu ganhasse força...
- Sou forte o suficiente para te matar! – Exclamei, empurrando-o com mais força.
James voou pelo ar com a força do empurrão que lhe dei, indo embater numa das paredes espelhadas que se partiram com a força do embate. Voltei a correr, apanhando-o novamente pelo pescoço e prendendo-o contra a parede. Tencionava arrancar-lhe a cabeça tirar o sorrisinho odioso do seu rosto, mas alguém pôs a mão no meu ombro e o som da voz do meu pai despertou-me do meu ódio.
- Edward. – Carlisle disse, ainda com a mão no meu ombro. – Não.
- Ele mereçe morrer. – Rosnei, nunca tirando os meus olhos do vampiro que tinha perseguido o amor da minha vida, que a tinha magoado.
- A Bella precisa de ti, Edward.
E ouvir o nome dela foi tudo o que bastou para me tirar do meu transe. Apertei o pescoço de James uma última vez antes de ser substituido por Emmett e correr para junto da minha morena com o meu pai.
A imagem dela ficaria para sempre gravada na minha memória...
O seu rosto estava ainda mais pálido do que o que costumava estar, os seus cabelos castanhos, tal como a sua camisa, estavam ensupados em sangue. O seu coração batia muito depressa e isso preocupou-me ainda mais.
- Carlisle...
- Ela tem a perna partida. – Ele disse. – E a cabeça também... Assim como o braço direito, pelo que pareçe.
Oh minha Bella... O que te fez aquele monstro. Pensei, colocando-a no meu colo.
- Vamos ter que parar a hemorragia e imobilizar os membros partidos. – Carlisle continuou a dizer. – Alice, agarra-lhe na perna e coloca-a entre duas tábuas, temos que a imobilizar. Edward, usa isto para lhe imbolizar o braço.
Ele passou-me uma corda e eu, muito cuidadosamente, segurei no braço direito de Bella, trazendo-o para o peito dela para o amarrar. Foi naquele momento que reparei na marca crescente no pulso de Bella... Uma sensação gelada de pânico alastrou-se pelo meu corpo.
- Carlisle! – Chamei o meu pai. – Carlisle!
Assim que ele olhou para mim, mostrei-lhe o pulso de Bella, a marca crescente ensaguentada. Um ar de horror preencheu o rosto do médico.
- Ele mordeu-a. – Carlisle disse e eu percebi o pânico que lhe preenchia a mente. – Temos que lhe tirar o veneno. Antes que chegue ao coração.
- O que acontece caso o veneno lhe chegue ao coração? – Alice perguntou.
- Ela morre. – O meu pai respondeu à minha irmã, olhando para mim.
- O que fazemos? – Perguntei desesperado.
Vais ter que sugar o veneno do sangue dela, Edward. Ele pensou.
- O quê? Carlisle, não! Eu não vou conseguir conter-me...
- Só tu podes fazê-lo, Edward. – Carlisle insistiu. – És o parceiro dela... A sua outra metade!
- E se eu não conseguir parar?
- Tu vais conseguir. – Alice disse, olhando-me nos olhos. – Eu sei que tu vais conseguir.
- Como?
- Porque tu a amas... Nunca permitirias que ela morresse. – A minha querida irmã insistiu. – E nenhum de nós te iria deixar matá-la.
As palavras da fadinha encheram-me com coragem. Alice tinha razão, eu nunca seria capaz de magoar a minha bruxa. Olhei para Bella e mesmo através do seu rosto sereno, eu conseguia ver a dor que lhe atravessava o corpo. Na sua inconsciência, Bella choramingou e aquilo ajudou-me a resolver-me.
- Aguenta, meu amor. – Sussurrei-lhe pegando-lhe na mão. – Já vai passar.
Levei a sua mão aos meus lábios, beijando a sua pele levemente antes de enterrar os meus dentes na marca crescente que já lá se encontrava. Assim que mordi a sua mão, senti o sangue quente afluir à minha boca e senti Bella remexer-se contra o meu contacto, ouvi-a gemer alto, a dor do fogo provocado pelo veneno intenseficando-se.
Tal como um dia tinha imaginado, o sabor do seu sangue era tão delicioso como o seu cheiro, apesar de estar ligeiramente adulterado pela presença do veneno de James.
Senti o monstro em mim despertar, fazendo-me ficar ávido por beber aquele sangue, o sabor incrivel fazia explodir em milhares de sensações as minhas pupilas gostativas e a maior de todas as sensações era a de insasiatez, por mais que sugasse, isso não parecia ser o bastante, queria mais... Aquilo era o líquido mais viciante que alguma vez provara, nem a memória do sangue de humanos que tinha bebido durante a minha época de rebeldia se podia comparar àquele sabor, aquele néctar da vida...
Mas depressa o sangue mudou de sabor, o que num momento me sabia bem demais, me fazia desejar beber todo o sangue que se encontrava nas veias da rapariga, no momento seguinte queimava-me a boca, ardia-me na garganta como um fogo mais quente que o próprio lembrete da minha sede e quanto mais daquele líquido me entrava na garganta, mais intenso o fogo se tornava, mais forte, mais doloroso... Resisti até ao momento em que a chama se tornou insuportável e então extrai os meus dentes da carne dela, afastei os meus lábios da sua pele fria, a minha mente tentava rejeitar o facto de que algo tão bom poderia provocar tamanha dor, mas a voz de Carlisle trouxe de volta a racionalidade para a maior parte da minha mente.
- Edward? – Senti a sua mão no meu ombro. – Conseguiste?
- S-Sim. – Respondi incerto, só então percebendo que o fogo provocado pelo sangue de Bella só tinha começado a partir do momento em que o sangue afectado pelo veneno do outro vampiro tinha desaparecido. – Ela já não tem nenhuma quantidade de veneno no seu sistema.
O rosto de Bella parecia mais sereno, como se estivesse a dormir, mas eu precisava de ouvir a sua voz.
- Bella. – Chamei-a, tocando-lhe levemente no rosto. – Acorda, por favor.
Não houve nenhuma resposta e isso despertou o pânico no meu peito... Eu conseguia ouvir o seu coração, o seu peito descia e subia calmamente com a sua respiração... Então porque é que ela não acordava?
- Bella, meu amor! – Chamei-a novamente. – Sou eu, querida. Já acabou tudo, podes acordar!
O som do seu coração, agora mais calmo, continuava a dar a ideia de que ela estava a dormir. Queria que ela acordasse, queria ver os seus lindos olhos castanhos, poder ver neles todo o seu amor, o seu carinho... Mas ela não acordava.
- Deixa-a descansar! – Charlie disse, aproximando-se de nós com uma Renée inconsciente nos seus braços. – O corpo dela ainda está a repor aquilo que o veneno maltratou.
- Temos que levá-las para o hospital! – Emmett disse, pegando em Ana ao colo. – A Ana e a Renée podem não parecer estarem mal... Mas a Bella precisa de cuidados.
Assenti, pegando cuidadosamente em Bella, teriamos que correr...
- Cuidado, Edward! – Jasper chamou-me à atenção.
- Joe, precisamos que leves um carro até à porta do hospital. E tu também, Alice. – Carlisle disse aos meus irmãos.
Ambos assentiram e correram.
- Vamos! – Disse Charlie correndo atrás deles e nós seguimos no seu encalço.
Fiz uma pequena preçe a Deus, pedindo-lhe que tudo estivesse realmente acabado...
(Bella POV)
Acordei num sítio que me era estranho. Estava tudo branco, demasiado luminoso para os meus olhos que se tinha habituado à escuridão. O silêncio fazia pressão sobre os meus ouvidos e isso só me fazia ficar mais inquieta.
- Onde é que eu estou? – Perguntei em voz alta, apesar de saber que ninguém me iria responder.
No exacto momento em que as palavras sairam dos meus lábios, a luz branca começou a desvanecer-se e o espaço ganho uma forma familiar. Estava na clareira a que Edward me tinha levado... A nossa clareira.
Lágrimas encheram os meus olhos quando a memória do que se passara no estúdio de ballet me veio à mente. O veneno chegara ao meu coração... A minha vida acabara... Perdera Edward para todo o sempre. Deixei-me cair no chão enquanto lágrimas me caiam dos olhos, tinha sido tão idiota! Eu sabia que nunca conseguiria derrotar James sozinha! Isabel não fora capaz, o Angel não fora capaz... porque haveria eu de ser?
- Em primeiro lugar, gostava que soubesses que a tua vida ainda não acabou. – Uma voz suave fez-se ouvir e quando olhei para cima, vi a mulher de cabelos ruivos que uma vez aparecera no meu sonho com as crianças. – Olá, querida.
- O que quer dizer com a minha vida ainda não acabou? Onde é que eu estou? Quem é você? – Perguntas saiam dos meus lábios em rajada.
- Ainda não morreste, ainda não está na tua hora, minha querida. – Ela respondeu-me calmamente, os seus olhos verdes a brilharem. – Quanto à tua segunda pergunta... Digamos que estamos na vossa clareira e estamos em lado nenhum ao mesmo tempo. Já a pergunta de quem sou eu... Julguei que o soubesses... Mas se não sabes, pergunta ao teu pai acerca da Lizzie, ele saberá responder-te.
Observei-a, o seu vestido branco fazia com que a sua pele parecesse brilhar levemente, dando uma cor mais viva aos seus cabelos rubros e aos seus brilhantes olhos verdes. Toda a figura dela era-me familiar, apenas não sabia dizer de onde.
- Você estava com as crianças! – Exclamei lembrando-me dos meus filhos. – Onde estão eles? O que lhes aconteceu?
O riso da mulher reverberou pelo prado e ela olhou para mim. – Não te preocupes, minha filha. Eles estão bem... À parte de me terem desobedecido, eles estão bem.
- Porque os proibiu de me verem?
O sorriso da mulher ficou mais fraco, mas não morreu. – Quando eles forem para ti, minha pequena, terás todo o tempo do mundo para os mimares e abraçares.
- E quando será isso?
- Em breve, minha filha, em breve.
- Eles... Eles chamaram-na de avó... Eles são meus filhos e do Edward, não é?
- Não julgo que queiras ficar com mais alguém nos próximos séculos... – O riso coloria a voz da mulher e ela mexeu nos seus cabelos ruivos.
- Quem é você? – Voltei a perguntar, começando a ficar exasperada.
- O meu nome é tabu em Salem, eu sou o sonho partido de alguém que tu admiras. – Ela disse, as suas palavras tão misteriosas como o brilho nos seus olhos verdes. – Eu sou o anjo que prometeu guardar-te, muito antes de tu nasceres ou de o teu pai ter pensado em ter-te.
Examinei a sua figura, os cabelos ruivos, os olhos verdes como esmeraldas, a pele branca como a neve, o ar materno que a rodeava...
Subitamente, a mulher levantou-se e o seu rosto ficou ligeiramente triste, então ela virou-se para mim, o sorriso novamente no seu rosto.
- Está na hora.
- Na hora? De quê?
- Logo verás... – As palavras da mulher misturaram-se com a brisa que começou a soprar.– Diz ao Edward e ao Joe que estou orgulhosa deles... Diz ao Edward que eles têm almas... Agradece por mim ao Carlisle, diz-lhe que peço-lhe perdão por o ter deixado receber as culpas que a minha mãe nele depositou... Diz ao teu pai que tal como ele, eu cumpri a minha promessa.
- O que quer dizer com isso? Porque quer que eu diga isso a cada um deles?
- Agradece por mim à Esme... Agradece-lhe por ter tomado conta do meu bebé...
- O seu bebé? Mas quem é o seu bebé?
- Não te esqueças... – A mulher disse, desvanecendo-se com a paisagem, fazendo-me voltar à escuridão.
- Não me esqueço! – Exclamei para a escuridão que agora me rodeava.
Não te esqueças... As palavras da mulher voltaram a alcançar-me com uma pequena brisa. Não te esqueças...
Não me esqueço. Pensei para o ar.
A escuridão tornava-se mais pesada com cada lento batimento do meu coração, a minha respiração era o único som que me fazia companhia e os meus sentidos, sentia-os esmagados pelo silêncio que me rodeava. Uma sensação de clautrofobia abateu-se sobre mim, fazendo-me abraçar o meu torso, tentando manter-me inteira... Se não tinha morrido, então porque não acordava? Porque é que estava tão envolta neste nada? Começava a ficar realmente com medo...
- Senhora? – Gritei e fui respondida pelo silêncio. – Senhora, por favor, responda!
Novamente o silêncio.
- Por favor, diga-me como posso sair daqui... Como posso voltar! – A minha voz já estava a ficar embargada pelas lágrimas.
- Por favor...
As lágrimas cairam dos meus olhos aos mesmo tempo que me deixei cair de joelhos... Deixei que o desespero, a dor, o medo e todos os sentimentos que tentara reprimir até ao momento tomassem conta de mim. Senti o meu corpo tremer com os soluços que me escapavam da boca, sentia-me fraca com frio e com medo.
Só queria ir para casa.
- A tua mãe está a descansar, meu pequeno anjo. – Uma voz fez-se ouvir por entre a escuridão, trazendo-me esperança. – Ela estava fraca daquela demonstração de magia.
Os meus ouvidos depressa reconheceram a voz e eu quase gritei de alívio.
- Pai... – Suspirei.
- O Edward está a dar comigo, com o Carlisle e todos os outros em doidos... – A voz de Charlie continuou a dizer.
Conforme a voz do meu progenitor vinha até mim, senti-me como se estivesse a despertar. Lentamente, a escuridão tornava-se menos densa, menos pesada... Quase que podia sentir mesmo o meu corpo.
- A Ana já está bem... Ela tenta dizer-nos que não tarda acordas... Mas já se passou tanto tempo. – A sua voz estava triste e eu queria poder consolá-lo, queria poder dizer-lhe que estava tudo bem. – Já se passaram três dias, Bella... Não achas que está na hora de acordar?
Três dias? TRÊS DIAS? Eu não podia estar na clareira à três dias! Tinham parecido horas!
- Acorda, Bella. – A voz do meu pai abateu-se naquele momento e então percebi que ele estava a chorar.
O meu pai? A chorar? Ele nunca chorava, nunca.
- Por favor, minha filha... Por favor, acorda. – Ele soluçou. – Nós precisamos de ti... Eu preciso de ti, Bells.
E eu tinha que acordar, eu precisava ajudar o meu pai...
Fiz força para abrir os meus olhos, lutando contra as trevas que ainda pesavam sobre as minhas palpebras. Tinha que acordar, tinha que confortar o meu pai, tinha que confortar o meu Edward... Saber como a minha mãe estava... como a Ana estava. Fiz mais um esforço e uma luz branca cegou-me. Tal como no meu "sonho", estava tudo demasiado branco, a luz reflectia-se nas paredes que estavam pintadas de um branco sujo, mas mesmo assim ainda me cegavam.
- Bella? – A voz do meu pai surgiu preocupada e então uma sombra cobriu-me os olhos. – Calma, meu amor... Já passou.
Tentei falar, mas tudo o que saiu foi um ataque de tosse que me fez perceber que tinha a garganta mais seca que o deserto do Arizona. Tentava constantemente parar de tossir, mas não conseguia... Até Charlie me oferecer um copo de água, ainda cobrindo cuidadosamente os meus olhos para os proteger da luz.
- Vai com calma, querida. – Charlie ajudou-me a sentar e lentamente, retirou a sua mão da frente da minha vista, permitindo-me ver. – Melhor?
- Obrigada, pai.
Assim que acabei de falar, o meu pai abraçou-se a mim, apertando-me contra si e fazendo um irritante pi pi aumentar ensurdecedoramente no quarto. Só quando ele me largou, percebi que estava ligada a máquinas, fazendo-me reparar no pequeno tubo IV que estava espetado nas costas da minha mão.
- Argh!
A mão de Charlie cobriu a minha, tirando-me da vista aquilo que eu detestava.
- O que os olhos não veêm, o coração não sente.
- A nós não se aplica isso lá muito bem... – Disse, tentando distrair-me nos olhos do meu pai.
- Ignora... Fazes melhor do que estar a pensar constantemente nisso.
Assenti, olhando ao meu redor. Ouvi a máquina a que estava ligada, o meu batimento cardiaco aparecia no ecrã do aparelho de uma maneira estranha e irritante, continuei na minha inspecção...
- Quais os danos causados? – Perguntei tentando aliviar o silêncio que pesava no quarto.
- Perna esquerda partida, uma fractura que não é nada bonita, minha filha. Braço direito partido e ombro direito deslocado. Cabeça partida... E perda de muito sangue. – Charlie disse-me, um ar soturno no seu rosto. – Uma experiência de quase morte que, espero eu, deve durar para o resto da tua existência, pequenita.
- A mãe e a Ana? – Perguntei momentos depois, recebendo um olhar deprimido do meu pai.
- A Ana já está bem, não sofreu danos físicos nenhuns... Não digo o mesmo da tua mãe...
- O que é que se passou com a mãe?
Ele suspirou, parecendo perturbado. – Ela demonstrou possuir magia.
- A mãe?
- Sim... Ao ver-te e à Ana perto de estarem mortas, a Renée libertou magia, detendo o James de te sugar mais sangue, dando-nos tempo para chegar lá.
- A mãe é uma bruxa... – Disse estupefacta. – Como?
- O Carlisle e eu temos uma teoria, mas nada com que te devas preocupar. Pelo menos não agora. – Ele disse-me baixando-me para me deitar.
- Pai. – Disse estando deitada na cama desconfortável.
- Sim?
- Quem é a Lizzie?
Charlie virou-se para mim, os seus olhos perplexos, confusos.
- Porque perguntas?
- Enquanto eu estava... inconsciente, estava numa clareira, com uma mulher.
- Uma mulher? – O seu ar confuso assentuou-se aidna mais no seu rosto.
- Sim, ela tinha longos cabelos cor de cobre, olhos verdes esmeralda e a sua pele era pálida... Ela fazia-me lembrar a Denize.
- E ela disse-te o seu nome?
- Não, ela disse-me para te perguntar pela Lizzie. Portanto...
Ele sentou-se numa cadeira ao lado da minha cama, os seus olhos distantes, num passado longinquo.
- Elizabeth... – Ele disse. – A minha querida Lizzie.
- Quem era?
- Ela era a filha da Denize, a minha única amiga, a minha melhor amiga. – Charlie fez uma pequena pausa, o seu olhar estava distante, como se visse as suas memórias. – Eu tinha pelo menos mais uns anos que ela... Talvez uma década... Não te sei dizer... Mas nós éramos inseparáveis... Ela era... muito como a Denize... Os cabelos ruivos, os olhos verdes... E depois... Aquilo que fazia com que nós os dois nos déssemos indescritivelmente bem, o dom dela.
- Qual era?
- O mesmo que o teu. – Um sorriso pequeno cresceu no seu rosto. – Ela conseguia ler mentes. Apenas se quisesse... Ela era uma grande feiticeira.
- O que lhe aconteceu?
- As nossas famílias achavam que ficávamos muito bem juntos e que seria o melhor para ambas as famílias que nos casássemos. Nós discordamos, não gostávamos um do outro desse modo, não estávamos envolvidos romanticamente um com o outro... e isso fez-nos confusão. – Ele fez uma pausa. – Foi nessa altura que ela conheceu o Edward Masen... Foi amor à primeira vista... Ele cortejou-a, sob a minha supervisão... Foi algo que eu não me importava, gostava realmente dele, era um homem simpático e culto, a minha querida Elizabeth estaria bem entregue...
Vi os seus olhos ficarem mais escuros com uma sombra que por eles passou, temi ouvir a sua mente, temendo vir a saber algo que não queria.
- Ela queria partir com ele, incentivei-a a falar com a Denize, a pedir-lhe autorização para se casar com ele, para que ele pudesse morar em Salem, seria bem recebido disso eu estava certo... Mas ela nunca lhe tinha contado o que era.
- Ela nunca lhe contou que era uma bruxa?
- Nunca e então percebi quais os seus planos para ter vindo falar comigo.
- O que queria ela?
- Ela gostava da normalidade... Da normalidade de ser humana junto dele... E para estar com ele, ser bruxa não fazia parte daquilo que ela podia ser. – Ele suspirou. – Ela sabia as consequências de ser o que era... Um relacionamente com um humano não é algo que dure... Nós não envelhecemos, eles envelhecem... E ela não queria ficar perto dele e vê-lo definhar enquanto ela ficava para sempre com a aparência de vinte anos apesar de já ter um século. – Outro suspiro. – Então pediu-me que lhe tirasse todos os seus poderes, que os guardasse em mim... que a tornasse uma humana.
Olhei para ele horrorizada. Não pela ideia de que fazer aquilo pela sua melhor amiga fosse mau, mas a ideia de tanto poder dentro do mesmo corpo... não poderia ser fácil, mesmo para alguém como o meu pai, ter controlo sobre tantos poderes.
- A principio, recusei, dizia-lhe que nunca seria capaz de os retirar sem a matar. Eu conhecia os meus limites, eu conhecia a capacidade do meu controlo... Mas ela insistiu e eu cedi, "suguei" os seus poderes, aumentei as minhas capacidades com os poderes dela, mas nunca me senti tão fraco naquele momento. – Ele desabafou, a sua voz ficando mais baixa como se a dor das lembranças fosse insuportável. – Ela teve uma feliz vida humana... Casou-se com o Edward, teve dois filhos, fui padrinho de um deles e nem te digo o ataque que ela ia tendo quando ambos pareciam ter algumas capacidades mágicas... O medo assolou-a... Mas sosseguei-a... Claro está, anos mais tarde tive que a deixar, mas sempre mantive a sua família sob a minha protecção, nunca passariam necessidades, nada...
Absorvi lentamente a história de Elizabeth, Lizzie como ela tinha dito para perguntar ao meu pai.
- Pai, ela disse-me para te dizer que, tal como tu, ela tinha cumprido a sua promessa... O que quis ela dizer?
Charlie voltou a suspirar. O seu semblante parecia realmente cansado, fazendo-o parecer ser realmente mais velho do que aparentava.
- Antes de a transformar, fizemos um juramento de sangue um com o outro. Eu prometi que protegeria e tomaria conta da sua família, durante toda a minha existência e ela prometeu-me que onde quer que estivesse, como quer que estivesse, ela tomaria conta da minha filha... Que seria o seu anjo guardador, tal como eu seria da sua família.
- O meu anjo guardador? Ela disse que prometera guardar-me muito antes de eu nascer.
- Exacto. – Ele sorriu ligeiramente. – Eu via-te... Via uma menina de cabelos e olhos castanhos, tudo em ti era-me familiar e eu sabia que serias minha filha, sabia que serias a próxima rainha de Salem... Esperei muito para te poder ter nos meus braços, mas tive-te... E a minha querida amiga nunca quebrou a sua promessa... Manteve-te a salvo depois do teu nascimento, trouxe-te agora de volta... Só tenho a agradecer-lhe.
Relembrei-me das palavras do anjo, Elizabeth... Agradeçe ao Carlisle... Agradeçe à Esme... Diz ao Edward e ao Joe que estou orgulhosa deles... Nenhuma das suas palavras faziam sentido, que queria ela dizer?
- Pai, a Elizabeth conhecia o Carlisle? E a Esme?
- Ela conhecia o Carlisle, sim... Mas a Esme já é depois do tempo da Lizzie, não vejo como ela poderia tê-la conhecido. Porque perguntas?
- Ela pediu-me para agradecer ao Carlisle e para lhe pedir perdão por ter levado com a ira da Denize... E para agradecer à Esme por ter tomado conta do bebé dela... Não percebi nada do que ela queria dizer...
- Minha querida Liz... – Charlie suspirou e sorriu tristemente. – A Elizabeth teve dois filhos, dois rapazes, fui padrinho do seu segundo filho, tal como ela teria sido tua madrinha caso fosse viva...
- Ela morreu? Como? Porquê?
- Morreu com a Gripe Espanhola. Ela morava em Chicago com a família quando a epidemia chegou... 1918.
- O ano em que o Edward foi transformado.
- Eu tinha tido a visão do que se iria passar... Pedi a Carlisle que se dirigisse para Chicago, tinha esperança de que o meu irmão fosse capaz de os salvar... A Lizzie reconheceu-o e em vez de pedir para ser transformada, implorou que Carlisle salvasse o seu filho que também estava a morrer... O meu afilhado. O seu bebé.
- O Edward...
- Já percebes? – Assenti. – Quando a Denize conheceu o Edward, viu nele a sua filha... Os cabelos, os olhos verdes... O Carlisle ia sendo churrasco, não tivesse a minha mãe intervido... Desde esse dia, a Denize está de luto pela filha e procura proteger o seu neto... Por ela, quando os Cullen tiveram que abandonar Salem por tua causa, o Edward teria ficado para trás, o Edward teria sido transformado num feiticeiro, teria sido alimentado com o sangue dela para que ficasse com ela. Mas o Edward recusou...
Lentamente as peças começavam a fazer sentido e eu sabia que teria que falar com Edward e Joe... Tal como teria que entregar os recados a Esme e Carlisle...
Contra a minha vontade, bocejei, sentindo os meus olhos pesados e sentindo-me muito cansada.
- Descansa agora, minha pequena bruxinha... – Charlie disse fazendo-me deitar. – Precisas de repousar para te restabeleceres depressa.
- Mas eu já dormi muito. – Reclamei, ouvindo a minha voz a ficar arrastada pelo sono. – Não quero dormir mais.
Mesmo não querendo dormir mais, aninhei-me à almofada e ouvi Charlie rir-se.
- Dorme agora, minha filha, descansa e que os anjos te protegam... – Senti os seus lábios na minha testa e deixei que a escuridão me tomasse mais uma vez, não temendo que nunca mais acordasse pois via a companhia que me aguardava sorridente na clareira.
