"Como é bom dizer: finalmente o tenho de volta".
Capítulo 28.
Mal pregara os olhos a noite toda, Itachi sabia que isso não era normal para si. Jamais tinha perdido o sono por algo, quanto menos por uma decisão que deveria tomar. No entanto sabia que a hora era aquela, quando logo pela manhã encontrara Saya no sepulcro.
A capela estava vazia, a loira parecia triste e ao notar sua presença ali, a mesma ergueu-se e foi rumo á saída, mas o Uchiha chamou sua atenção:
– Sei o que está tentando fazer e não a culpo. Entendo como se sente culpada e em constante dúvida. –pronunciou e percebeu que tinha a atenção da garota para si.
– O que quer de mim? –indagou com uma mágoa mal contida em sua voz.
– Peço apenas que me acompanhe, por favor. –solicitou tranquilamente, deixando-a confusa, mas ao mesmo lhe passando alguma segurança.
E mesmo com uma incerteza e um estranho nervosismo pulsando em seu peito, a princesa o seguiu mantendo certa distância. No caminho encontraram vários fieis que pediram a benção do sacerdote e Saya não pôde deixar de se sentir um pouco abalada com isso, afinal era isso que ele era: um religioso e não o homem com o qual podia sonhar.
Adentraram na torre onde o bispo da capital residia, ali mesmo diante da igreja. Subiram os numerosos degraus de pedra e quando se depararam com a porta, Saya perguntou-lhe:
– O que estamos fazendo aqui?
– O necessário. –respondeu simplesmente batendo na porta e recebendo a permissão para entrar logo em seguida.
Ambos tomaram a benção do superior. Era um senhor de setenta anos, o mesmo parecia frágil, mas enganava-se quem confiava nessa sua aparência:
– O que deseja Itachi? –questionou com sua voz desgastada, enquanto o mais jovem depositava um envelope sobre sua mesa. – Do que se trata isso? –quis saber estranhando tal ação.
– Se trata da minha carta ao consulado. Estou reivindicando ao meu cargo na igreja católica. –informou sério.
– O quê?! –Saya não conteve a exclamação.
– Isso é algo muito sério rapaz, o clero não é como uma ocupação que pode deixar a qualquer momento. É algo nobre, um compromisso divino. –esclareceu o velho.
– Sei disso Vossa Excelência, estou decidido e não voltarei atrás em minha decisão embora minha fé e amor á Deus permaneçam os mesmos. –rebateu cordialmente.
– Posso saber o motivo desta decisão tão radical? –perguntou observando-o sobre as lentes dos óculos que usava.
– Passei esses últimos dias refletindo bastante, fui até aconselhado por meu irmão caçula á seguir meu coração. E por fim, cheguei á uma conclusão... Concorda Vossa Excelência, quando alego que Deus quer o nosso bem? Bem esse que incluí nossa felicidade e outros estados de espírito.
– Sim, concordo. Ele nos quer bem.
– Está aí o meu porquê. Devo servir ao Senhor com todo o meu coração, no entanto percebi que Ele não é o único que o ocupa. Não quero pecar e trair os costumes que aprendi por tanto tempo, por isso abdico de meu cargo á fim de me sentir bem e ter a consciência livre. –explicou.
– E o que compõe a sua felicidade? Qual a outra parte que ocupa teu coração? –continuou cada vez mais intrigado.
– Na verdade não se trata do que é e sim quem... Essa princesa ao meu lado. –disse sem medo ou qualquer censura, desde a hora em que vira os primeiros raios da manhã havia tomado sua decisão e não iria voltar atrás.
Naquele momento, Saya arregalou seus olhos azuis e teve de se controlar para não soltar um berro como os que o irmão Naruto costumava proclamar quando era surpreendido. Imaginou então que estava em um sonho, talvez tinha morrido e agora seu espírito vagava por um mundo alternativo, onde seus desejos pareciam ter ganho realidade. Entretanto, a voz de Itachi continuou á soar, como que para despertá-la daquela ilusão boa e real:
– Suas palavras, seus gestos, olhares e sorrisos despertaram um amor que eu desconhecia. Amor como o que eu sentia emanar dos casais que juntei em matrimônio e como aquele que via entre meus pais desde quando era apenas uma criança. –contou olhando diretamente para a loira, que sentiu sua vista ficar embaçada graças ás lágrimas que se acumulavam nos olhos.
– São realmente palavras bonitas rapaz e os dois formam um belo e jovem casal. Não posso me opor á sua vontade ou discriminá-lo por isso, mas sabes que com os fiéis não será bem assim... Eles não irão aceitar que um servo do Senhor simplesmente se encante por uma moça bonita, mesmo que se trate da princesa. Isso irá os revoltar. –disse realmente sem qualquer censura.
Itachi conhecia esse risco. Mesmo em províncias menores tinha presenciado casos em que mulheres foram queimadas vivas em fogueiras sobre a acusação de seduzir e desonrar membros do clero. Era uma escolha que não dependia só dele, mesmo que contassem com a proteção da Realeza e com as muralhas do feudo Uchiha, estariam expostos á todos os tipos de acusações ou demonstrações hostis.
– É um risco que estarei disposto á correr, se estiver ao meu lado. –disse diretamente para a garota.
Saya não sabia o que dizer, era tudo tão inesperado e surreal. No entanto convenceu-se de que ficar parada não adiantaria e se Itachi havia feito o que fez, tinha agora a certeza de que seu sonho não estava perdido.
– Eu estarei. –choramingou aproximando-se e segurando suas mãos.
O velho observando-os viu que não tinha mais nada a fazer, mas alertou-os:
– Enviarei a carta hoje para os outros membros do conselho católico, irá demorar de quinze a trinta dias para que entremos num consenso. Até lá, tu permanece um sacerdote afastado de sua função.
– Tudo bem, lhe agradeço Vossa Excelência. –tomou sua benção e deixou a sala acompanhado por Saya, ainda não podiam demonstrar nada, se não caminharem lado a lado, entretanto já sabiam que não eram gestos que demonstraria o que sem passava no coração de ambos.
...
Ino tinha ido recolher algumas margaridas no jardim que ficava ao exterior de sua casa. Agora com os amigos afastados, ela sentia se extremamente sozinha e no momento que mais precisava ficar acompanhada, afinal a cada dia que passava, acreditava que o volume em seu ventre se tornava mais visível e em pouco tempo, seria incapaz de escondê-lo.
Mesmo que se sentisse mal pelo pequeno e indefeso ser que carregava consigo e tivesse medo de ser abandonada pelos pais quando eles descobrissem, Ino tinha a certeza de que cuidaria de seu filho de um jeito ou de outro, afinal ela também havia o gerado.
Quando adentrou em sua casa, pôde ouvir a voz de seu pai interrogar alguém:
– Ainda não compreendi aonde quer chegar com isto monsieur. O que pretende conosco Gaara?
Nesse momento, seu coração quase saltou para fora do peito. Ino deixou a cesta de flores cair de sua mão e entrou na sala onde seus pais se encontravam frente a frente com o ruivo:
– O que estás fazendo aqui? –indagou diretamente ao rapaz.
– Que bom que chegastes, acho que nada é mais adequado que estejas aqui nesse momento. –respondeu-lhe cordialmente. – Monsieur e madame Yamanaka, estou aqui para assumir a criança que sua filha espera.
Naquele momento, Ino ficou de queixo caído, sua mãe parecia branca como uma folha de papel e Inoichi, bem... Este não parecia nada contente:
– Que história é essa Ino? –o pai desejou saber com a voz firme.
– Que disparate, isso sim! –a mãe exclamou. – Minha filha não está prenha, não é mesmo Ino? –questionou deparando-se com as expressões perdidas da loira, não sabia se ria e debochava da situação ou chorava e concordava com a bomba que Gaara lançara ali.
– Não tenha medo Ino, estou aqui para lhe apoiar. –acrescentou o ruivo. – Na verdade, também tenho que esclarecer as coisas que tu nunca me permitiste revelar. –caminhou até a moça que tremia de nervosismo.
– Esclarecer o quê? Tu eras um homem casado quando me conheceu e se de fato isso me veio á tona, foi por mim mesma e não porque tu confessaste. –rebateu amargurada.
– O quê?! Envolveu-se com um homem casado? –a mãe exclamou escandalosamente, mas foi em vão, pois mesmo com seus gritos, era como se as únicas pessoas que existissem naquele cômodo era o Sabaku no e a Yamanaka.
– Isso é verdade, no entanto eu ia revelar a verdade e me separar de Matsuri assim como fiz pouco depois. Não estava nesse casamento porque gostava dela Ino, nunca tive nada com minha própria esposa.
– O que está dizendo não faz o menor sentido monsieur. –Inoichi observou atento á conversa dos dois.
– Permitam-me explicar-lhes então. Meu irmão, Kankurô era mais velho que eu uns bons anos. Quando ele casou e teve Kisumi eu era um rapaz de dezessete anos. Então aconteceu... Ele foi assaltado e morto. Na época meu papa ainda era vivo e tinha uma aliança com a família de Matsuri, para não perdê-la, determinou que eu tinha de me casar com ela e assim foi. –concluiu por fim, sentindo um peso sair de suas costas e aliviado por dessa vez, a loira ter permitido que o mesmo dissesse tudo.
– E suportou tudo assim? –dessa vez era a própria Ino que questionava. – Poderia muito bem ter se divorciado antes nesse caso.
– Apesar de tudo, Matsuri é uma boa pessoa. Não queria deixá-la desamparada, nunca tivemos nenhuma relação de marido e mulher, ela me dava à liberdade de procurar quem eu quisesse. Estava conformado com essa situação, até que encontrei a ti.
– Mas há algo inegável nessa sua história... Kisumi, sua suposta sobrinha têm os seus olhos, era assim tão parecido com seu irmão?
– Dos três filhos, fui o único á herdar os cabelos ruivos e o par de olhos de meu papa, assim como ele herdou de seu avô e não diretamente do pai. –respondeu. – Agora será que pode parar de arranjar pretextos e desculpas? Estou aqui para pedir sua mão em casamento e cumprir com as palavras que sempre lhe dei.
– Ei, não é assim que funcionam as coisas. –Inoichi interpôs-se. – Quem deve decidir isso sou eu e não– foi cortado por Ino, que praticamente saltou sobre o ruivo gritando a palavra "sim" sem parar e por fim, sussurrou para que só o mesmo ouvisse:
– Aceito, mas deixo bem claro que se mentir para mim novamente, eu mesma hei de arrancar seu membro viril e jogar para os cães. –Gaara tremeu com a ameaça, ele quem não duvidaria de uma mulher como Ino, ainda mais quando essa estava grávida.
...
Sakura estava nos aposentos de Daisuke, acompanhada de Sasuke e Mikoto. Contava á respeito do casamento de Hinata, que acabou por ser uma união Real:
– Mal acredito que Hiashi tenha concedido isso. –Mikoto comentou.
– Acho que ninguém esperava sua aceitação, mas por fim deu tudo certo. Naruto e Hinata agora estão no castelo. Acho que mesmo com a imensidão da construção, já não tenho mais lugar lá.
– Volte para casa então. –Sasuke interveio, a mirava com aqueles orbes negros profundos e cheios de promessas.
– Sasuke tem razão... Devia voltar para casa, afinal ainda são casados. Espero que a minha presença não te impeça de fazê-lo. –Mikoto acrescentou, realmente a mulher tinha se arrependido.
– Esta é e sempre foi tua casa Mikoto. –rebateu-lhe. – Quanto á voltar...
– Deve voltar sim maman. –uma voz fina e aguda se fez presente, mesmo que ainda não tivesse toda a força que normalmente possuía.
– Daisuke! –Sakura exclamou apertando-o em seus braços.
– Finalmente retornou para nós, meu querido. –Mikoto juntou-se á nora e logo o menino dividiu-se entre os dois colos.
Mesmo que ainda não tivesse as bochechas coradas como deveriam, o menino parecia melhor. Até sorria enquanto sacudia os bracinhos, protestando:
– Ei, parem estão me apertando. –disse ás duas.
– Só vou parar porque ainda está doentinho. –Sakura rebateu rindo.
Nesse momento, os olhos do pequeno pararam na figura encostada á porta, reconhecendo-se em seu próprio olhar. Sasuke sem dizer nada, caminhou até lá, bagunçou lhe os cabelos e plantou um beijo em sua testa.
O silêncio predominou após o gesto, mas nenhuma palavra precisou ser dita quando o grande sorriso iluminou a face de Daisuke.
...
