Capítulo XXVIII
As unhas de Ana-Lucia encravaram na terra e uma grande quantidade de grãos de areia ficou debaixo delas. Ela assustou-se, já era dia. Os raios de sol iluminavam-lhe o rosto fazendo com que piscasse sucessivas vezes.
Ela tentou mover as mãos, mas percebeu que seus braços estavam atados com força por uma corda. Mesmo assim forçou os braços o máximo que pôde até que a dor da pele roçando no material grosseiro da corda fez com que ela parasse.
Sua mente estava um pouco confusa, mas ela logo se deu conta de onde estava e por que estava amarrada. Havia sido capturada por bandoleiros durante a noite quando tivera a idéia estúpida de fugir de seu próprio castelo, de seu próprio marido. De súbito sentiu vontade de chorar, mas apertou os olhos, evitando as lágrimas, pois de nada iriam adiantar. Lady Sawyer precisava era encontrar um jeito de fugir dali. O que sua querida irmã endiabrada faria se estivesse numa situação como aquela?
O som de passos pisando o solo rochoso fez com que ela ficasse em estado de alerta e instintivamente voltasse a tentar soltar suas mãos.
- Bom dia, donzela.- disse um homem de longos cabelos grisalhos, barbado, de olhos azuis.
Ana-Lucia o reconheceu. Foi o primeiro homem que viu quando foi raptada.
- Quem és tu?- perguntou entre dentes, a coragem renovada pela ira que sentia ao estar amarrada ali.
- Espero que tenha tido uma boa noite de sono. A senhorita praticamente desmaiou nos braços do meu amigo quando a trouxemos.
- Senhorita não, senhora!- Ana respondeu com rispidez. Eu sou casada, com um homem muito importante e ele irá matá-los quando descobrir que estão comigo!
- Oh, é mesmo? Minhas sinceras desculpas então, senhora.- o homem debochou. – Quer dizer então que és esposa de um homem muito importante? Certo! Então diga-me por que a senhora estava andando sozinha nas colinas errantes ontem à noite? Não sabe que a floresta é cheia de perigos? Seu marido devia tê-la protegido melhor.
- Não foi culpa dele! Eu quis tomar um pouco de ar fresco.- ela respondeu, sarcástica.
O homem deu uma gargalhada.
- Então és uma daquelas mulheres geniosas? Teu marido devia ter te posto um cabresto, mulher.
Nesse momento, duas mulheres apareceram. A ruiva da noite anterior e uma morena de longos cabelos lisos. A ruiva disse:
- Frank, chega de ficar paparicando essa mulher rica! Eu quero os sapatos dela.
- E eu o vestido.- disse a mulher morena. – Dessa vez eu irei ficar com o vestido, Charlotte.
- Como queira, Naomi!- concordou a ruiva.
- E depois que nós tirarmos tudo o que ela tem de valor, a soltamos nas colinas. Com sorte, ela logo será encontrada pela família. Ouviu, queridinha? Não precisa ficar assustada.- disse Naomi com um sorriso. – Não é nada pessoal, tu apenas estava no lugar errado e na hora errada.
Ana-Lucia nada disse quando a mulher ruiva se abaixou para retirar-lhe os sapatos de cetim. O homem de cabelos grisalhos se agachou também e dessa vez, Ana retraiu-se.
- Escute, pequena, tenho certeza que não viestes às colinas para tomar ar fresco, estavas era fugindo de tua família. Diga-nos, teu marido bate em ti?- ele ergueu o queixo com a ponta de seu dedo. Ana fez cara de raiva.
- Marido?- Charlote retrucou procurando uma aliança nos dedos de Ana. – Frank, ela não usa aliança! Está mentindo, não é casada!
- Mesmo?- retrucou Lapidus que ainda não tinha prestando atenção àquele detalhe.
O coração de Ana falhou uma batida. Ela não gostou nem um pouco da forma como o homem olhou para ela quando descobriu que não tinha aliança. Sim, era casada, mas seu marido ainda não tinha lhe dado a proteção de uma aliança e isso poderia lhe trazer sérios problemas.
- Eu sou casada!- Ana quase gritou as palavras. – Mas perdi minha aliança na floresta!
Charlotte e Lapidus se entreolharam.
- È claro que perdeu.- disse ele.
- Hey, vocês dois!- chamou Naomi. – Parem de importunar a moça! Se ela é casada ou não, não é de nossa conta! Vamos apenas ficar com as coisas de valor e devolvê-la à família.
- Naomi, Naomi...- Frank balançou a cabeça negativamente. – Que pensamento, pequeno, mulher! Foi por sua causa que perdemos o último grupo que assaltamos. Tu ficas aí com pena das vítimas. Somos bandoleiros, não temos honra!
- Pois eu ainda tenho!- Naomi retrucou. – Sinceramente não estou interessada em despertar a ira da família dessa donzela se fizermos algo com ela. Eles nos caçarão até no inferno, então é melhor que a deixemos partir.
- Pelo menos uma de vocês tem senso.- disse Ana-Lucia. – Meu marido os caçará e os matará um por um.
- Ah, cala boca!- disse Charlotte, irritada, fazendo menção de bater em Ana, mas Frank a impediu.
- Hey, não vamos macular esse rosto tão lindo até decidirmos o que fazer com ela.
Daniel Faraday e Miles, os outros dois integrantes do grupo de bandoleiros apareceram. Miles tinha as mãos cheias de frutas e um cantil com água fresca preso na cintura. Ana-Lucia estava faminta e sedenta, mas não pediria nada a eles. O outro homem, baixinho e barbudo segurava seu colar nas mãos.
- E então, Danny, foram à vila? Já sabem quanto vale o colar?
- Sim.- respondeu ele. – Consultamos uma casa de penhores na Vila. Nós inventamos uma história de que a jóia pertenceu à minha mãe.
Ele levantou o colar à luz do sol e Naomi arregalou os olhos negros.
- Por Dios! Onde conseguiram isso?
- Nós pegamos da moça!- disse Miles.
- Pois precisam devolver pra ela agora mesmo!
- Ficou louca, Naomi? Essa jóia vale uma fortuna!- contestou Miles.
- Uma fortuna que pode nos amaldiçoar. - Naomi acrescentou. – Vocês têm idéia com o quê estão lidando?- ela voltou-se para Ana-Lucia e indagou em um idioma estranho aos seus companheiros. – Eres una bruja? (Ès uma bruxa?)
Lady Ana não respondeu, sequer demonstrou qualquer reação, apenas ficou fitando a desconhecida.
- Eres cigana?(Ès uma cigana?)
Ana-Lucia continuou sem responder, mas Naomi pôde perceber algum tipo de emoção no rosto da prisioneira. Se ela não era cigana, certamente sangue cigano corria nas veias dela.
- Quién te Dio este talismán? (Quem deu a ti esse talismã?)- Naomi insistiu.
Ana resolveu responder. Conhecia a lenda do talismã cigano que lhe fora presenteado quando menina e percebeu que aquela mulher conhecia algo sobre isso. Quem sabe poderia assustá-la um pouco e livrar-se daquela situação?
- Perteneceu a mi madre (Pertenceu à minha mãe). - Ana-Lucia respondeu.
- Tu madre es uma bruja? (Tua mãe era uma bruxa?)
Ana-Lucia sorriu maldosamente e mais uma vez preferiu o silêncio.
- Sobre o que estão conversando?- Frank indagou, irritado porque não entendia uma palavra daquele idioma.
- Façam o que eu digo!- advertiu Naomi. – Libertem essa mulher e devolvam o colar. È o melhor para todos nós.
- Nunca ouvi tanta bobagem, Naomi. Eu acho que a sua descendência cigana está começando a afetar a sua cabeça.- debochou Miles.
Naomi olhou para o colar nas mãos de Daniel e disse:
- Pois quem tiver um pingo de bom senso como eu, vai fazer o que eu disse, caso contrário, estejam preparados para o pior.- ela se afastou de seus companheiros sem olhar para trás. Daniel entregou o colar à Miles e disse:
- Eu vou falar com ela.
Frank pegou o cantil com água e estendeu a Ana, que mostrou as mãos amarradas indicando que não poderia usá-las para virar o cantil na boca, mas Lapidus virou a boca do cantil em direção aos lábios dela e Ana-Lucia não teve escolha senão beber água daquele jeito.
Quando ela começou a se engasgar, Frank retirou o cantil. Charlotte começou a experimentar os sapatos dela, dizendo:
- Então tu és cigana como a Naomi? Sabe, eu falo bem pouco da língua cigana, mas compreendi o suficiente da conversa de vocês para saber que Naomi pensa que tu és uma bruxa. Mas não adianta pensar que o medo de Naomi irá salvá-la, querida, pois nem eu, nem o Frank, nem o Miles acreditamos nessas crendices ciganas. Portanto, vá se despedindo de seu rico vestido que virei apanhá-lo em breve. Depois disso, Frank irá decidir o que faremos contigo. Na melhor das hipóteses, se tiveres mesmo um marido, o que eu duvido, pediremos um bom resgate.
A mulher riu maldosamente e Ana-Lucia sentiu um calafrio na espinha. Por mais que a mulher a quem chamavam de Naomi acreditasse na lenda do talismã, Ana-Lucia sabia que o colar não iria salvá-la.
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O capitão Jack Shephard avistou um riacho e fez um sinal para que os homens levassem os cavalos para descansar e beber água. Sawyer parou seu cavalo bruscamente e indagou:
- O que pensa que está fazendo, Capitão?
- Estou dizendo aos homens que dêem água aos cavalos. Nós galopamos à noite inteira Lorde Sawyer e não encontramos sua esposa ainda. Os cavalos precisam de água para que possamos continuar a busca.
- Não podemos parar um segundo!- ele retrucou. – Quanto mais tempo esperamos...
- Mais tempo sua esposa fica perdida.- completou Jack. – Eu sei disso e entendo sua preocupação, mas...
- Entende a minha preocupação? Por acaso o senhor iria querer parar se fosse Lady Endiabrada quem estivesse desaparecida?
Jack lembrou-se de tudo o que passou com Kate desde que a tirou da prisão. Lorde Sawyer estava certo, ele não parou de procurá-la um segundo sequer quando ela fugiu da pensão de Widmore.
- Provavelmente o senhor está certo, Lorde Sawyer. Eu jamais deixaria de procurar Lady Kate, mas certamente eu gostaria de ter um amigo que me chamasse a atenção para a necessidade de matar a sede dos cavalos e dos homens antes que eles fiquem cansados o bastante para prosseguir.
Lorde Sawyer sabia que o capitão tinha razão, mas não daria o braço a torcer assim tão facilmente.
- Tudo bem, cinco minutos!- ele gritou e galopou sozinho para dentro da floresta.
Não foi para muito longe, queria retomar a busca por sua esposa o quanto antes. Estava muito arrependido por ter brigado com ela e trancado-a no quarto. Ela não merecia isso e ele agira como um bárbaro.
Desceu do cavalo e começou a vasculhar o terreno ao redor. Viu uma marca estranha no chão, várias marcas de botas e uma marca em especial que dava a entender que alguém tinha sido arrastado. Sawyer tinha experiência militar suficiente para entender disso.
Ele seguiu esses rastros e encontrou, jogada no meio da grama, uma inconfundível fita de cabelo feminina, seu coração se encheu de esperanças, pois se lembrava de que Ana-Lucia usava um adereço igual na noite anterior.
Sawyer segurou o cetim entre os dedos.
- Estás perto, meu amor?- indagou a si mesmo.
- Lorde Sawyer!- ele ouviu a voz do Capitão Shephard chamá-lo.
- Eu estou aqui!- respondeu Sawyer.
Jack galopou até ele e desceu do cavalo.
- Encontrou alguma coisa?
Lorde Sawyer estendeu a fita a ele.
- Encontrei esta fita que estava no cabelo de Ana e rastros que indicam a direção pra onde ela foi levada.
- Levada?- inquiriu Jack.
- Sim, minha esposa foi raptada Capitão, eu já estava desconfiando. Se não fosse assim já a teríamos encontrado.
- Quem acha que a raptou? O Conde Linus, como retaliação por ter perdido o duelo?
- Não sei, Capitão, mas seja lá quem for que a levou, pagará com a vida assim que eu encontrá-los.
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Inglaterra
Os sapatos da princesa Claire Littleton ecoavam pelo corredor escuro, iluminado por tochas apesar de ser dia. O rei Jacob não gostava de claridade e exigia que as janelas do castelo de Snowether permanecessem cerradas dia e noite.
Por causa disso, tudo dentro do castelo parecia sombrio. Tão sombrio quanto o coração da princesa naquele momento. Tom partira há vários dias e Claire ainda não recebera nenhuma carta dele. Já devia ter mandado mesmo que não tivesse chegado ao Marrocos ainda. O Visconde Jarrah dissera que o navio pararia em mais de um porto da onde ele poderia enviar correspondência. A princesa estava muito preocupada com a ausência de notícias.
Mas não era só isso que a preocupava. Há cerca de uma semana vinha se sentindo indisposta. Acordava nauseada todas as manhãs e quase não tinha apetite. Os criados atribuíam isso à reclusão que a pobre princesa era submetida, principalmente depois de sua última fuga para se despedir do amado. O pai ficara tão zangado com o sumiço dela que lhe impôs um terrível castigo. Não ia poder pôr os pés nem nos jardins do castelo por um ano.
A princípio, a princesa não se importou com o castigo, pois não sentia vontade de deixar o castelo sabendo que Tom estava tão longe, porém, um comentário de sua tia à mesa da ceia dois dias atrás deixou-a desesperada. A rainha Lindsay fizera um comentário maldoso quando Claire recusou a sopa de aveia com carne engordurada, prato que antes costumava ser o seu favorito.
- Toda essa indisposição e falta de apetite é muito estranho, minha cara.- dissera Lindsay, devorando um prato de carne com batatas. – E quanto às suas regras?
- Do que está falando?- inquiriu Claire.
- Sabe do que estou falando.
Naquela noite, o rei Jacob não estava à mesa e Claire agradeceu à Deus por isso. Levantou-se de súbito da mesa e foi refugiar-se em seu quarto, mas ficou pensando na insinuação da tia.
Dois dias depois, a indisposição e a falta de apetite prevaleciam. Mas o pior de tudo era a ausência de suas regras. Desesperada por uma resposta, Claire resolveu tentar uma pequena fuga para falar com uma curandeira que poderia tirar suas dúvidas. Para isso, contou com a ajuda de sua criada pessoal que lhe deu cobertura enquanto ela ia procurar a velha senhora que se encontraria com ela dentro dos limites do castelo.
Ao descer as escadas e chegar aos jardins, sua criada pessoal já a esperava e juntas elas foram encontrar a mulher que era conhecida entre o povo como Sra. Monforte. As três se reuniram embaixo de uma árvore frondosa, próxima ao labirinto de trepadeiras.
Claire então contou à mulher tudo o que lhe afligia e a velha senhora observou-a por vários minutos como se estivesse tentando enxergar dentro dela. Por fim, disse, com muita seriedade:
- Deixe-me ver seus seios.
A princesa Claire olhou para os lados a fim de ver se não tinham guardas por perto. Então mandou que a criada fosse vigiar enquanto ela desfazia os laços de seu fino corpete. A mulher, em sua sabedoria, observou o corpo da princesa e logo mandou que ela se vestisse antes de dar o seu veredicto final.
- E então, Sra. Monforte, carrego uma criança em meu ventre?- Claire perguntou, temerosa.
A mulher respondeu com seriedade e firmeza:
- A semente vingou. Em alguns meses terás uma criança em teus braços.
As pernas de Claire vacilaram ao ouvir aquelas palavras e a criada a amparou.
- Ai, meu Deus, o que eu vou fazer?- Claire murmurou, preocupada.
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- Deseja mais alguma coisa, Lady Austen?- indagou Nikki, servindo uma xícara de chá à Kate, na biblioteca.
- Obrigada, Nikki. Isso é tudo.- Kate respondeu.
A moça fez uma reverência e já estava se preparando para ir embora quando sentiu uma forte vertigem. Mal pôde segurar-se em uma poltrona próxima à lareira. Kate correu à ajudá-la, por um momento esquecendo-se de suas preocupações com o desaparecimento da irmã.
- Nikki, estás bem?- indagou a lady.
- Eu estou bem, senhorita, eu só...
- Pareces tão pálida! O que te afliges minha amiga?
Nikki observou o semblante preocupado de Kate. Já não podia mais guardar aquele segredo. Há dias não conseguia dormir.
- Ah, Lady Kate, estou tão aflita!- confessou.
- Oh, deixe-me ajudá-la.- ofereceu-se Kate puxando-a para que ela se sentasse na poltrona enquanto servia uma xícara de chá para a pobre criada. – O que está acontecendo, Nikki? È alguma coisa em Isengard? Minha mãe não passa bem?
- Não, senhorita, está tudo bem em Isengard, a senhorita Thompson cuida de tua mãe que ainda sofre com o desaparecimento dos filhos. Ela está magoada com Lady Ana porque ela se casou com Lorde Sawyer e não mandou nenhuma mensagem contando por que. Está preocupada também com a senhorita...
- Nikki, mamã irá superar tudo isso, fico feliz que Libby esteja com ela, mas preciso saber o que acontece contigo. Se não é um problema sério em Isengard, então?
- Eu disse que a senhora sua mãe está preocupada com Lorde Austen, bem, não mais do que eu, porque o desaparecimento de teu irmão há de ser minha ruína, Lady Kate.
- Por que dizes isso?
Lágrimas começaram a deslizar pela face pálida da moça quando ela confessou:
- Eu estou grávida, Lady Kate. Vou ter uma criança de teu irmão.
Kate arregalou os olhos verdes.
- Meu Deus, isso é sério?
- Temo que sim. Mamã descobriu e disse que assim todos esses problemas no Castelo do Cisne acabarem, ela irá procurar um marido pra mim porque não quer uma filha desonrada. Papa não sabe de nada ainda, mas ficará muito zangado quando descobrir. Vai dizer que fui eu quem tentou Paulo, mas senhorita, nós nos apaixonamos, eu juro!
Kate balançou a cabeça positivamente. Entendia o que a moça devia estar passando. Abraçou-a, procurando confortá-la.
- Nikki, me escute.- Kate tomou as mãos dela entre as suas. – Tenho esperanças em meu coração de que meu irmão Paulo voltará para nós, mas não importa o que aconteça, tens um herdeiro dos Austen em teu ventre, o futuro herdeiro de Isengard.
- Não, senhorita. Tenho um bastardo em meu ventre!
- Não fale assim!- Kate a repreendeu. – Meu sobrinho não é um bastardo. Falarei com Rose, a partir de agora, Nicole, estás sob a minha proteção.
Um dos sentinelas bateu na porta. Kate levantou-se da poltrona, aflita, achando que o guarda trazia notícias do grupo que partira para encontrar Ana-Lucia.
- Tens notícias para mim, guarda?- Kate indagou.
- Infelizmente ainda não, Lady Austen, mas eu vim procurá-la porque tem uma senhora idosa às portas do castelo chamada Nahí que deseja falar-lhe. Ela está acompanhada por um criado.
Kate esboçou um sorriso. Estava com saudades da velha ama.
- Venha, Nikki!- ela chamou e as duas correram a descer as escadas.
Encontrou Nahí e Eko esperando por elas no jardim.
- Nahí!- Kate gritou ao ver a velha cigana.
- Niña!- exclamou a mulher acolhendo Kate em seus braços, como costumava fazer quando ela era menina. – Oh Dios, eu e tu madre estávamos tão aflitas que não tínhamos notícias tuas. E Paulo?
Kate balançou a cabeça negativamente.
- Não sabemos dele, Nahí, ainda não.
- Nicole, por que não nos contou que Lady Kate estava em segurança?- indagou Eko.
Mas antes que ela respondesse, Kate disse:
- Ela tinha ordens de não fazê-lo. È perigoso que mamã queira vir visitar-me. Os ingleses ainda não sabem que eu sou a endiabrada.
- E tu irmã? Onde está?- indagou Nahí. – Estou preocupada com ela também. Não soube mais nada dela desde aquela noite em que aqueles bandoleiros apareceram e a levaram, fiquei desesperada, mas a senhorita Thompson disse que eu não devia me preocupar, que Ana ficaria bem.
- E de fato ela ficou bem, Nahí. Ela casou-se com Lorde Sawyer.
- Sim, foi isso o que ouvi dizer no mercado da Vila esta manhã. Que houve até um duelo entre o Conde Linus e Lorde Sawyer pela mão de Ana. Por isso vim até aqui hoje. Quero muito ver minha menina.
Mais uma vez Kate sentiu-se mal.
- Ela não está aqui agora Nahí. Ontem à noite ela teve uma briga com Lorde Sawyer e não sabemos pra onde ela foi. Estou com medo de que ela tenha se perdido nas colinas ou raptada por bandoleiros. Sawyer juntou os homens ontem à noite e foi procurá-la, mas ainda não temos notícias.
- Ela estava com o colar?- indagou a cigana.
- Ela nunca o tira do pescoço.
- Então ela vai ficar bem, pequena Kate, não te preocupes.
- Eu queria ter a mesma fé que tu tens naquele colar, Nahí. Venham, vamos entrar e esperar juntos por notícias. Tem alguns ingleses no salão de visitas do Castelo, mas não fiquem assustados. Eles estão sob controle.
- Ingleses?- Eko indagou, surpreso.
- È uma longa história, Sr. Eko.- respondeu Kate, conduzindo-os para dentro do castelo.
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- Despiertate, Ana!- sussurrou uma voz ao ouvido de Ana-Lucia depois dela ter cochilado mais uma vez. Abriu os olhos e percebeu que era noite. Por quanto tempo tinha dormido dessa vez?
Procurou pela voz que a despertou e viu uma linda mulher com roupas de cigana diante dela. Ela tinha cabelos longos e negros, os olhos tão verdes que pareciam duas esmeraldas.
- Quem é você?- perguntou. Não se lembrava daquela mulher no grupo de bandoleiros quando os vira pela manhã.
- Levante-se.- ordenou a mulher, porém, seu tom de voz era doce.
Ana-Lucia levantou-se e percebeu que seus braços não estavam mais amarrados ao tronco da árvore, estava livre.
- Por que está me ajudando?
A mulher sorriu e disse :
- Porque sou sua mãe.
Ana piscou duas vezes, incrédula. Aquilo era impossível. Sua mãe morreu quando ela nasceu, não resistira ao parto. Começou a balançar a cabeça negativamente.
- Ana, hija, escute!- pediu a mulher que parecia jovem demais para ser a mãe dela. – Acredite em mim, eu sou sua mãe. Agora preste atenção, você precisa fugir daqui! Eles estão dormindo agora e o colar irá protegê-la.- a mulher de olhos verdes estendeu seu colar para que ela o pegasse.
Ana-Lucia o pegou das mãos dela, a expressão confusa.
- Agora tu deves ir, menina. Teu marido procura por ti! Vá! Eu te amo, hija!
- Mas...- Ana começou a dizer olhando para a direção onde a mulher que se dizia sua mãe indicava que ela fosse.
Mas quando ela voltou-se novamente para trás, a mulher não estava mais lá. Ao invés dela, viu Charlotte apontando uma arma direto para o seu peito.
- Aonde pensa que vai, cigana?
Continua...
