Nota:
Obrigada pelos comentários e pelo suporte todo, vocês são maravilhosas! s2
Espero que tenham uma ótima leitura e um ótimo restinho de semana! ^^
(ver o final do capítulo para mais notas)
Capítulo 28: A Dançarina do Fosso
— Não, Armin. Fica! — Levi observava da sombra da entrada enquanto Eren repreendia seu sobrinho, com a expressão séria e um dedo firme estendido à criança. Armin, por sua vez, ria como se isso fosse apenas uma grande piada, com uma perna ainda pendurada sobre o lado da cesta em que Eren o colocara, ameaçando sair cambaleando de novo pela quinta vez desde que Levi chegara. Nenhum deles havia percebido sua presença ainda, então ele tinha conseguido um lugar para assistir de camarote ao fascinante vai e volta entre os dois. O bordel estava mais calmo do que o normal e, como ainda era de tarde e o movimento da noite ainda estava para chegar, era a hora em que Eren estava claramente esperando conseguir fazer um pouco de faxina. Tinha uma escada móvel apoiada numa das paredes de Muralha Rose logo acima da cozinha, e um conjunto de galhos secos amarrados em forma de um espanador rústico na mão, preparado para atacar as teias de aranha presas e ninhos de esquilos que se acumularam nas vigas antigas com o tempo. Exceto por Armin, que se recusava a ficar parado em sua cesta, engatinhando para fora assim que Eren se afastava para brincar no jardim empoeirado ali perto.
— Controle de peste? — Levi sacudiu o queixo na direção do teto sujo, finalmente se apresentando. Eren olhou para cima surpreso, no meio da bronca, e soltou um suspiro exausto.
— Não estou fazendo o melhor trabalho em controlar essa peste. — Colocou as mãos em sua cintura e franziu o cenho para Armin, que estava olhando entre os dois e dando risadinhas. Ele sentou obedientemente de novo, mas Levi sabia que faria uma nova tentativa de escape uma vez que tivesse a oportunidade. Bebês eram astutos assim.
— Enfim! — Eren voltou-se para ele com um largo sorriso. — Qual é o veredito?
— Hm? Oh, sim. — Eren estava assistindo-o ansiosamente, olhos destoantes fixados atentamente em seu rosto. Levi notou que Armin o observava também; um pé rechonchudo cuidadosamente se movendo por cima de um lado de sua cesta. — Há condições, é claro...
O grito triunfante de Eren o interrompeu. O garoto deu um salto, socando o ar com o punho enquanto se vangloriava e fazia uma estranha dancinha da vitória. Armin recuou novamente em seus confins por causa da algazarra.
— Você terá que sair de seu... Trabalho noturno. — falou assim que decidiu que o rapaz já comemorara o suficiente. Eren congelou no meio da dança com suas palavras, o sorriso instantaneamente varrido de sua face.
— O quê?
— Ah, fala sério, isso é mesmo uma surpresa? Você não pode trabalhar para as Tropas de Exploração e fazer um extra como bandido ao mesmo tempo.
— Mas eu preciso do dinheiro!
— Você será pago. — Levi suspirou. Hanji e ele decidiram que seria mais justo; não sabiam ao certo que tipo de trabalho ser assistente de Levi implicaria, mas qualquer um poderia apostar que seria no mínimo uma carga de trabalho tão extenuante quanto a de qualquer outro recruta novato, portanto, Eren seria elegível para algum tipo de pagamento. Os olhos de Eren se arregalaram novamente em perplexidade.
— ... Sério?
— Sim, mas tenha em mente que não será muito. E também... — Os olhos de Levi cortaram para Armin que estava no meio de uma escapada, cambaleando parcialmente sobre a beira da cesta. — ... Armin está escapando.
— Quê...? Armin! — Levi esperou Eren pegar o bebê, repreendendo-o baixinho numa língua que Levi não conseguiu captar.
— Desculpe. Ele deu os primeiros passos outro dia, agora não há quem o pare. — Levi bufou, vendo Armin com divertimento enquanto o bebê começava a chorar em frustração. Oh, ele sabia bem o que era isso.
— Não se preocupe. Você pode começar nessa próxima semana. Esteja lá na primeira luz da manhã; nós começamos cedo e você precisará ficar a par de como tudo funciona.
— Sim, claro! — Eren assentiu entusiasmadamente, sua expressão grave como se tivesse que provar a Levi o quão sério estava sobre isso. Levi já tinha, porém, uma boa ideia; sabia como Eren se sentia sobre as Tropas, tanto pelo que soubera do próprio garoto quanto pelo que sua irmã dissera. Significava muito para ele, e apesar de Levi ter suas reservas sobre como sua imprudência e teimosia funcionariam em um ambiente militar, estaria mentindo se dissesse que não estava curioso. Sem mencionar que Hanji estava morrendo de vontade de aprender sobre suas habilidades únicas com o equipamento, que iriam beneficiá-los sem dúvidas.
Olhou novamente para a escada e a cesta vazia pendurada em seu topo que já deveria a essa altura estar cheia de galhos e folhas secas. Ele tinha que admirar a persistência de Eren; ficar de olho num bebê que acabara de aprender a andar e ao mesmo tempo limpar o teto não era fácil. Ele olhou para o sol. Só passava um pouco do meio-dia, ainda tinha umas duas horas livres. Levi estendeu seus braços e Eren olhou para eles e depois para seu rosto, confuso. Levi acenou com a cabeça ao menino em seus braços.
— Vou tomar conta dele para você conseguir terminar seu trabalho. — Eren começou a rir, mas esgotou-se lentamente quando percebeu que Levi ainda estava esperando com os braços estendidos. Ele franziu o cenho, sobrancelhas escuras se comprimindo.
— Oh, está falando sério. — Levi arqueou uma sobrancelha. Ele não era exatamente um piadista. — Você... Já segurou um bebê antes? — Agora era a vez de Levi retrucar.
— Você nem imagina. — Eren examinou-o desconfiado antes de entregar Armin cuidadosamente. Levi esperava mais agitação e protestos da criança, mas ele aceitou com tranquilidade, observando-o com olhos azuis curiosos e grandes. Oh, Deus, Levi nunca se acostumaria a ver os olhos de Erwin numa cabeça de bebê. Ele supôs que Armin devesse estar acostumado a ser pego e cuidado por muitas pessoas diferentes. Todas as mulheres em Muralha Rose pareciam tomar conta das crianças juntas como uma alcateia de leoas protegendo seus filhotes. Levi mudou a criança de posição em seus braços enquanto Eren o olhava com uma expressão desconfiada, como se esperasse que ele fosse desistir e entregar a criança de volta. Mas ele não o fez, e eventualmente Eren suspirou e deu de ombros, aceitando a estranha visão à sua frente e voltando ao trabalho.
Levi se sentou em um banco de pedra debaixo de uma antiga árvore de zimbro retorcida pela idade, com Armin em seu colo. A criança olhou para ele maravilhada, uma mão rechonchuda agarrada firmemente no tecido de sua camisa e a outra fechada em sua boca.
— Não faça isso, é sujo. — Levi gentilmente puxou sua mão para longe de seu rosto e Armin deu risada. Que bebê mais alegre.
Armin se estabeleceu, descansando sua cabeça loira no peito de Levi, satisfeito de ser apenas segurado no colo. Pelo menos, não estava mais tentando fugir. Levi distraidamente afagou seu cabelo. Era curto e macio, cachinhos dourados brilhando debaixo do sol. O cabelo de Erwin.
— Ele se recusa a dormir enquanto não cantar para ele. — Levi olhou para cima para encontrar Eren observando-os por cima do ombro enquanto limpava, um sorriso afetuoso no rosto. Levi fez uma careta.
— Eu não vou cantar. — Eren riu como se a ideia fosse absurda.
— Não achei que você fosse. — Levi olhou de novo para a criança em seu colo. Ainda estava acordado, mas completamente imóvel, olhando para o lado com olhos sonolentos e distraídos. Levi puxou seu punho cheio de covinhas de sua boca novamente.
— Você é uma coisinha mimada mesmo, não é? — Sua voz era gentil apesar das palavras. — Parece que herdou o senso de direito do seu pai.
— Príncipe Erwin não é pai. — Levi voltou-se ao outro, mais surpreso com o tom afiado na voz de Eren do que com suas palavras. Ele não estava mais os assistindo, com as costas viradas enquanto puxava um ninho de esquilo nos fundos de algumas vigas. Ele riu amargamente. — Bem, pelo menos não para Armin. Não sei quantos outros bastardos ele espalhou pela cidade.
Levi apertou os lábios, e suas próximas palavras foram cuidadosas. — O Príncipe Erwin não é como...
— Como o quê? — Eren virou-se agora, seus olhos incendiados com um desafio e lábios curvados em ironia. — Você mesmo não sabia sobre Armin até esbarrar nele por acaso. — zombou ele, voltando ao trabalho, apunhalando as tábuas do teto rancorosamente com seu espanador. Levi o assistiu em silêncio, mas não tentou oferecer mais argumentos. O rapaz tinha direito de ficar zangado; todos os dias ele e sua irmã viviam com o medo de serem descobertos e o que aquilo significaria para eles. Sozinhos, carregavam nos ombros o peso de sustentar a família e proteger o segredo do parentesco de Armin. A única coisa que Erwin forneceu foi a promessa de execução caso fossem encontrados. Ele não tinha que carregar o fardo de ser um pai, e o ressentimento de Eren era justificado.
— Meu pai foi morto protegendo Mikasa e eu. — Eren quebrou o desconfortável silêncio primeiro, sua voz concisa e cortante. Estava claro que ele vinha labutando sobre o tópico. Ele moveu a escada alguns centímetros para o lado para trabalhar na próxima seção do teto, limpando a transpiração em sua testa, intencionalmente evitando olhar na direção de Levi. — O direito de ser chamado de pai tem que ser conquistado. É fácil fingir ser um bom homem quando você nasce com privilégios e nobreza. Às vezes, eu imagino como ele reagiria se eu levasse Armin a uma de suas paradas e, quando ele o pegasse para beijá-lo durante o desfile, dissesse que era seu filho. — Eren bufou, balançando a cabeça. — Ver o quão principesco ele agiria então.
Levi já se perguntara sobre o passado de Eren. Era claramente um rapaz educado; sabia cavalgar, ler e escrever, e falava várias línguas pelo que sabia. Como conhecera Mikasa? Como se tornaram uma família? O que acontecera com eles para deixá-los pobres e vivendo nas ruas? Estava curioso para perguntar mais, porém não era de sua conta e este certamente não era o momento certo.
— Eu não estou nem perto de ser uma autoridade no assunto paternidade; desculpe se minhas palavras causaram ofensa. — Levi olhou para Armin de novo; não podia ver seu rosto desse ângulo, mas estava imóvel exceto pelo leve subir e descer de sua respiração. Eren suspirou e pausou seu trabalho, ombros caindo bruscamente.
— Desculpe-me, eu não deveria...
— Não tem problema. — Não tinha mesmo. Levi devia entender mais do que tudo a raiva de ter um pai ausente e as dificuldades de uma jovem mãe em criar um filho sozinha. Mikasa tinha sorte de ter um irmão como Eren. Embora essa não fosse uma conversa adequada para um oficial ter com seu futuro subordinado, fora ele quem cruzara a linha do profissionalismo primeiro, então ele deveria fazer o esforço de restaurar a civilidade anterior.
— Lembre-se, eu espero que esteja nos portões assim que Fajr acabar. Não tolero atrasos. E vista algo adequado; botas resistentes e calças como aquelas que você usa nos assaltos.
— Assaltos? Não sei do que está falando, Levi. Eu sou só um humilde dançarino. — Ele podia ouvir o tom travesso na voz do outro, e estava feliz por ter conduzido a conversa satisfatoriamente a um assunto menos penoso. Eren desceu da escada mais uma vez e examinou seu trabalho de baixo, limpando as mãos sujas em seu shalwar manchado antes de fazer seu caminho até onde Levi estava sentado. Ele fizera um trabalho bem decente com as vigas, Levi notou.
— O que você achou? — perguntou o outro com o peito estufado de orgulho quando notou seu olhar observador.
— Nada mau. — Eren riu, aceitando o elogio pelo que era, e então agachou à sua frente. Levi automaticamente ficou tenso pela aproximação inesperada, até perceber que Eren estava apenas dando uma olhada no bebê em seus braços.
— Uau, olhe só para isso. Dormindo profundamente. — disse, gentilmente retirando o cabelo do rosto de Armin com um sorriso afável. — Eu nem tive que cantar. Devia te pedir para tomar conta dele com mais frequência. — Levi fez um som contrariado no fundo de sua garganta. Tudo que fizera fora sentar lá e fitar Armin. Provavelmente assustara a criança até dormir. Eren começou de repente, como se lembrasse de algo.
— Quer algo para beber? Ou está de jejum? — Levi balançou a cabeça enquanto Eren gentilmente retirava Armin de seus braços e o embalava em seu peito oleoso de suor. Levi fez uma careta à camada de sujeira cobrindo a pele do jovem.
— E pelo amor de Deus, coloque uma camisa quando voltar. — Eren torceu o nariz e fez um biquinho exagerado.
— Mas eu estou tão quente, Levi. — disse, sua voz virando um gemido enquanto corria uma mão por seu torso molhado de suor como se para demonstrar seu argumento. Levi apertou os olhos para o garoto, tentando encará-lo para diminuir o brilho travesso nos olhos dele, mas não mostrou nenhum sinal de minimizar. Eren tentou segurar um sorriso e treinar sua expressão em algo mais solene, mas sua face simplesmente não conseguia cooperar, e ele eventualmente desistiu, deixando um sorriso estúpido se espalhar por seus lábios.
— Pensando bem, eu gostaria de uma xícara de chá preto. — Aquilo eliminou o sorriso do rosto do rapaz. — E você deve me chamar de Senhor ou Capitão, não Levi. — Eren suspirou.
— Sim, Senhor. — Levi murmurou sua aprovação. Assim estava melhor.
— Bem-vindo às Tropas de Exploração, garoto. — Veremos se você ainda estará sorrindo ao fim da próxima semana.
Fazia um tempo desde a última vez em que vira Erwin. O príncipe estivera mais ocupado do que nunca nesta última semana e chances de um encontro casual foram impossíveis de arranjar em sua agenda agitada. Quando recebera a mensagem de que o outro queria encontrá-lo naquela noite apenas algumas horas antes do horário proposto, Levi aceitou de má vontade. Odiava planos de última hora, mas não era como se fossem conseguir outra oportunidade logo, e ele estava relativamente curioso para ver o fascínio do bar obscuro em Dauper que Erwin sugerira.
Era um complexo sombrio e decrépito escondido em um nicho entre o labirinto de becos e paredes estreitas que formava o lado mais sujo daquele bairro. Ele teria tido dificuldade para encontrá-lo se já não fosse familiar com a área que era notoriamente coberta de casas de apostas ilegais. Por sorte, ele se vestira em roupas escuras e simples para não se destacar nessas redondezas e atrair atenção indesejada para si, e percebeu que Erwin fizera o mesmo. O loiro ainda atraía olhares suspeitos por sua postura nobre e presença autoritária, mas não havia muito o que fazer sobre aquilo, então Levi só se certificou de encarar até dispensar quem quer que olhasse por muito tempo na direção deles. O príncipe não trouxera seu habitual grupo de seguranças esta noite também; se algo acontecesse, estaria nas mãos de Levi tirá-lo vivo de lá.
Era decerto bem diferente dos lugares que costumavam visitar. Levi estava francamente surpreso que Erwin tenha sequer ouvido falar de tal lugar e muito menos quisesse ir até lá quando seus gostos estavam mais no nível de Muralha Rose. O estádio, por falta de termo melhor, consistia em vários andares que eram abertos como um canteiro de obras incompleto; pavimento em madeira simples e estruturas e vigas expostas. Havia um grande vácuo cortando todo o centro, então as pessoas em todos os andares podiam se reunir e olhar para um fosso aberto e empoeirado no térreo. Uma única corda fora pendurada para providenciar uma grade em volta do abismo, e uma velha rede desgastada e esfiapada era a única outra medida de segurança protegendo as pessoas de caíram para suas mortes no fosso. Um vislumbre rápido para a perigosa instalação já dizia a Levi tudo o que precisava saber; frequentou lugares como este o suficiente em seu passado para reconhecê-lo pelo que era: um ringue de luta clandestino.
— Como diabos você ouviu falar desse lugar? — Levi não conseguia evitar de curvar os lábios desdenhosamente enquanto examinava a cena ao seu redor, usando sua espada embainhada para afastar quaisquer corpos pungentes que chegassem perto demais. Homens bêbados e suados em camisetas esfarrapadas e lungis manchados gritavam agressivamente uns com os outros apostando, exigindo bebidas e berrando ameaças. O chão de barro estava pegajoso com bebidas derramadas e o que parecia com sangue seco também, e uma névoa de fumaça preenchia o ar pesada e sufocante pela aglomeração de pessoas. Não parecia haver uma luta acontecendo no momento, mas algum tipo de performance acontecendo no fosso para entreter os clientes. Ele não podia ver de sua posição, mas conseguia ouvir o estrondo estável de uma batida de tambor e um cântico murmurado construindo o início de uma música. Todo o lugar fedia a fumaça de tabaco, álcool, fluidos corporais e feromônios. O que Erwin estava pensando?
— Um de meus guardas mencionou este lugar e eu queria ir aonde não encontrasse com nenhum conhecido. Estou tão cansado e só queria um tempo. — Vendo uma mesa vazia, Erwin rapidamente fez um atalho até ela e Levi manteve-se por perto, usando o mais alto como um escudo contra outros corpos.
— Eu vou ter que fechar este lugar agora que sei que ele existe. — Ele podia estar de folga agora, mas não poderia deixar passar uma operação grande assim.
— É claro. Eu não ligo, só estava curioso. — Levi deitou seu lenço no raquítico banco de madeira com vista para o ringue antes de se sentar. Erwin acenou para uma das garçonetes que serpenteavam agilmente entre os clientes amontoados e equilibravam bandejas cheias de bebidas. Ela piscou com um olho ao príncipe quando ele lhe deu uma gorjeta generosa e Levi revirou os olhos, engolindo a vontade de fazer um comentário sarcástico para focar na questão verdadeira, que era a razão pela qual Erwin gostaria de fugir de Sina em primeiro lugar. Bem, ele já podia arriscar um palpite.
— ... Como está seu pai? — Erwin olhou para ele e deu um sorriso apertado.
— Morrendo. — Levi revirou os olhos e tomou um longo gole de seu copo, estremecendo com o vil líquido que descia queimando sua garganta. Se isso fosse alguma infusão tóxica de kasippu, ele iria matar Erwin.
— Não estamos todos?
— Bem, ele vai morrer um pouco mais cedo do que você ou eu, Levi. — soltou Erwin cansadamente, esfregando os olhos com as pontas dos dedos.
Levi fez uma careta, respirou fundo e tentou de novo. — Quero dizer, como ele realmente está? Como está sua... Condição? — Ele não era bom com esse tipo de coisa; etiqueta, maneirismos e tudo o mais. Como você perguntava educadamente a um amigo próximo sobre seu pai doente que você ao mesmo tempo meio que odiava? Ele nunca escondera sua antipatia pelo velho Imperador, mas não era tão desprovido de tato para manter a mesma atitude agora. Ele apenas não era muito bom em fingir simpatia.
Erwin se recostou em sua cadeira e deu de ombros. Parecia tão exausto esses dias, com o peso das crescentes responsabilidades de ser o próximo na fila. Fora difícil vê-lo mesmo hoje, estaria ainda mais ocupado nas semanas seguintes. O Imperador nem estava morto ainda, mas ele podia sentir a inevitável turbulência ganhando forma.
— Ele mal consegue se sentar na cama sem ajuda, e mesmo assim isso não o impede de tentar trabalhar.
— Aposto que ele está ainda mais resmungão agora. — Erwin riu, mas foi uma risada cansada e curta. Foi a primeira risada de verdade que Levi ouvira dele a noite inteira; ele mal fora capaz de forçar um sorriso convincente para as garotas zumbindo em volta deles.
— Oh, sim, os servos estão aterrorizados. Ouvi dizer que tiram a sorte para decidir quem irá servi-lo durante o dia. Eu deveria dizê-lo para ser mais atencioso para que não coloquem algo escondido em sua comida para acelerar sua... Partida.
— Como se você fosse dizer isso na cara dele.
— Por Deus, não. Pode estar morrendo, mas ele ainda é uma força a ser reconhecida. Preciso continuar a ficar nas suas graças ou ele vai nomear aquele meu irmão que é o próximo na linha de sucessão e eu odiaria dar à mãe dele essa satisfação. — Era uma piada, é claro. Ambos sabiam que o pai de Erwin era um defensor da tradição e linhagem, e o meio-irmão de Erwin não tinha o temperamento nem estrutura para o trono. Ele basicamente passara a vida preparando o filho de sua primeira mulher para o trono; não mudaria de ideia no leito de morte.
— Vai ser uma bagunça, não vai?
— Sempre é. Digo, eu vou sucedê-lo, disso não há dúvidas, mas quando um Imperador morre sempre está fadado a haver algum drama de herança tedioso. Estimo que pelo menos uma dúzia de pessoas tentarão reivindicar o trono. A Máfia terá um dia de campo.
Levi não pôde evitar de fazer uma careta sobre aquilo. Como ele podia falar desse jeito? Como se não estivesse se referindo a uma horda de assassinos sanguinários em massa se espalhando pelas ruas da cidade e matando cruelmente jovens mães inocentes e seus bebês; qualquer um que pudesse potencialmente apresentar uma ameaça à posição dos atuais herdeiros. Assim sendo, Levi fez uma nota mental de avisar Eren sobre o iminente problema surgindo em Sina; dizer a ele para advertir a todas as garotas que as próximas semanas prometiam as piores rebeliões que já experimentaram em suas vidas. Notícias do que acontecia na Capital corriam até as favelas incrivelmente devagar; eles provavelmente nem sabiam que o Imperador estava morrendo, muitos menos estariam preparados para a carnificina que se seguiria. Trost não tinha um novo Imperador em décadas; a tensão política na Capital iria entrar em erupção nas favelas na forma de motins e infanticídio em massa, e aqueles nos bordéis seriam os mais atingidos.
— Você não pode fazer alguma coisa em relação a isso? —Erwin olhou para ele confuso.
— Em relação a quê?
— À Máfia. Você não pode... Não sei, criar uma lei criminalizando os motins? Tantos inocentes morrerão porque os idiotas em Sina não conseguem calar a boca e aceitar uma sucessão linear direta.
— Eu não posso fazer isso, Levi. Minhas mãos estão atadas agora mais do que nunca enquanto meu pai está doente. Quaisquer comandos evidentes podem ser vistos como se eu estivesse prematuramente empunhando um poder que ainda não é meu. Especialmente se envolver os militares; mesmo que as ordens sejam completamente irrelevantes, está fadado a alguém me acusar de tentar intimidar algum dissidente em complacente. Meu pai também não está no melhor estado agora; odeio imaginar como ele é suscetível a rumores de que seu filho esteja tentando roubar seu poder enquanto ele ainda está vivo, ou, Deus me livre, que eu estivesse esperando ele morrer há um tempo e, em minha animação, estivesse indo com muita sede ao pote. — Levi escondeu sua careta com o copo. Não podia falar por Erwin, mas ele mesmo estivera certamente esperando o Imperador bater as botas há um bom tempo.
— Tem que haver alguma coisa que você possa fazer. E daí se as pessoas fizerem algumas acusações? Você lidou com rumores e acusações a vida inteira. É irrelevante em face de potencialmente salvar milhares de vidas.
— Levi, política não funciona assim. — Erwin apertou a ponte de seu nariz e fechou os olhos apertados. Parecia tenso e frustrado, como se tivessem discutido isso uma dúzia de vezes antes. Levi entendia que seu amigo devia estar exausto de discutir política; eles vieram aqui esta noite para esquecer estas coisas um pouco afinal, mas como Erwin não enxergava que havia tantas vidas em risco aqui? Erwin fora treinado para lidar com agitações com um discurso carismático que faria todos se empurrarem para cair em suas graças de novo. Era treinado para a diplomacia; com certeza ele poderia emitir alguns comandos aos guardas do palácio para dissipar qualquer sinal da Máfia se reunindo, e se explicar sem causar rebuliço?
Um coro de gritos e assobios erupcionou ao redor do bar e os homens próximos foram para a frente aplaudindo quando a música se intensificou. Erwin voltou-se para o ringue quando uma mulher em um belo lehenga rosa e laranja apareceu rodeada de um grupo de dançarinos masculinos. Seus braços e abdômen estavam cobertos de intrincados padrões de henna que espiralavam e rastejavam em sua pele branca como marfim. Olhos negros contornados com kohl esfumado dançaram pela audiência, infiltrando-se com a confiança cativante de uma artista experiente. Seus quadris balançantes eram hipnóticos enquanto dublava as palavras da música, lambendo seus lábios pecaminosamente e deixando suas pálpebras flutuarem até se fecharem com um particularmente sugestivo rodopiar de seus quadris. Levi voltou-se para Erwin, que estava tentando desesperadamente focar na apresentação.
— Inocentes vão morrer, Erwin. Você entende isso? Bebês assassinados em seus berços, suas mães executadas. — Erwin fechou os olhos e respirou fundo antes de virar-se para encará-lo, nivelando-o com um olhar duro.
— O que quer que eu faça, Levi? Acha que eu já não considerei isso? — Levi arqueou uma sobrancelha cética.
— Não, definitivamente não se você se resignou à indiferença. — Levi notou o modo como os dedos de Erwin se apertaram em volta de sua caneca. Ótimo, ele estava feliz de atirar os insultos necessários se significasse conseguir algum tipo de resposta proativa do outro.
— Eu odeio os motins, Levi. Eu os abomino com cada fibra de meu ser. São a parte mais imunda do legado de meu pai e eu tenho toda a intenção de eliminá-los para sempre uma vez que eu tiver o poder, mas no momento eu não tenho. Assim que for coroado, eu juro que não deixarei mais nenhum assassino sair impune.
— Milhares já terão morrido até lá. — Erwin grunhiu e jogou suas mãos para cima, recostando-se pesadamente em sua cadeira. Levi inclinou-se para a frente, deixando sua voz mais baixa enquanto fitava seu amigo com um olhar intenso. — Escute-me, Erwin. Poderia ter sido sua mãe, sabe. Poderia ter sido eu, morto quando bebê. — As sobrancelhas de Erwin se comprimiram e ele fitou Levi de lado com uma expressão que dizia "Sério? Vai apelar para isso?" Sim, ele iria. Levi não ligava de dar golpes baixos às vezes. Ele tinha esperança de que trazendo para o lado pessoal por mencionar seu passado pudesse atingir seu ponto fraco, mas apesar de Erwin estar sentindo empatia, estava claro que ele ainda não mudaria de ideia. Levi respirou fundo. Ele estava prestes a tentar uma coisa que poderia muito bem causar o efeito contrário agora; precisava se certificar de abordar o tópico delicado com tato.
— Já pensou alguma vez sobre quantos meio-irmãos e irmãs você já perdeu para as rebeliões, Erwin? — Ele não estava mesmo pegando leve.
— Levi, pare. — A voz de Erwin continha um tom de comando nas entrelinhas, mas Levi decidiu fingir que não ouvira. Podia sentir que estava perto. — Eu não saí hoje para falar sobre política.
— Oh, acredite, eu não gosto de falar de infanticídio em massa tanto quanto qualquer um, mas isso precisa ser discutido. Deus sabe que ninguém em Sina se importa o bastante para falar do assunto. Diga-me com sinceridade, Erwin: você já pensou nisso? Já pensou em quantas crianças já perdera para eles? — Erwin olhou para cima com isso, suas sobrancelhas um pouco levantadas em surpresa.
— O quê?
Levi zombou e se recostou em seu banco, momentaneamente se esquecendo do quão imundo devia estar. Ele fez uma careta e recuou quando suas costas fizeram contato com o descanso do assento. — Vamos lá, você já deve ter considerado isto. Toda a sua curtição deve ter resultado em alguma coisa. — Erwin parecia perdido em pensamentos agora, fitando sua caneca com um franzir de cenho distante. Levi apertou os lábios.
— ... Talvez não. Acho que você tem o privilégio de não ser responsabilizado por algo assim. Altivez realmente é uma felicidade. — Erwin grunhiu e cobriu o rosto com suas mãos.
— Minha cabeça dói. — Bem na deixa, a multidão ao redor explodiu em aplausos e assobios irritantes. Um vislumbre ao fosso mostrava a causa; a dançarina havia jogado seu lenço na plateia fanática e estava escalando a extensão de um tecido de seda aéreo que se pendurava do teto, se segurando de ponta-cabeça e apresentando uma série de acrobacias e giros enquanto um dos dançarinos fazia voltas com o pano embaixo. Ela soprava beijos na direção deles quando passava voando, e os homens à sua volta gritavam com prazer, batendo canecas contra tábuas de madeira e mesas apodrecidas. Levi fechou a cara para a algazarra e tomou outro gole do líquido marrom em seu copo, engolindo-o antes que pudesse sentir o sabor em sua língua.
— Bem, você veio ao lugar errado, meu amigo. — O próximo grunhido de Erwin foi abafado por suas mãos e pelo tumulto em volta deles. Era uma pena que ele teve que amargar a noite de folga de dramas políticos de Erwin com um tópico tão mórbido, mas Levi não se arrependia. Erwin se importava mais com as opiniões de Levi do que gostaria de admitir, e ele sabia pelos seus ombros caídos em derrota que o atingira no final. Levi lembrou-se da imagem do rosto de Armin olhando para ele de seu colo mais cedo naquele dia, sua expressão num misto de curiosidade e apreensão. Ele estava feliz porque Erwin começara a escutá-lo agora e antes que precisasse fazer algo drástico.
Notas:
Fajr: oração da alvorada, a primeira oração do dia para os muçulmanos.
shalwar: uma espécie de calças largas, normalmente utilizado com uma camisa comprida por cima (mas no caso de Eren, ele só usa as calças mesmo rsrs)
lungi: espécie de pano amarrado em volta da cintura que forma algo parecido com uma saia e normalmente vai até o joelho.
kasippu: segundo a autora, é uma bebida preparada clandestinamente, onde as pessoas colocam todo o tipo de coisa tóxica, como produtos químicos, animais mortos, etc. Pessoas já morreram só de beber uma dessas.
lehenga: traje composto por uma saia longa rodada, um top e um lenço que fica pendurado no ombro e então cai pela frente e costas. Normalmente é todo desenhado e detalhado, é uma roupa linda.
...Levi segurando o bebê Armin no colo até ele dormir merece o prêmio de cena mais fofa da humanidade! ;u;
