Capítulo XXVIII – Descobertas
Sonomi chega em casa e pergunta para as garotas como as duas passaram a tarde…
Quando Sonomi chegou estranhou ao ver os funcionários bocejando, trabalhando em ritmo lento, parecendo que tinham saído de um sono profundo. Quando perguntou a eles a causa desse súbito comportamento de todos, nenhum deles foi capaz de responder. Ao invés disso deram respostas vagas, como se estivessem sobre o efeito de um encantamento. Duas horas haviam se passado desde então e todos perceberam o salto no tempo. O que não tinha explicação em suas mentes era como aquele salto tinha acontecido. Os relógios pareciam que foram mexidos por alguém e era difícil imaginar que fosse Tomoyo ou Sakura. Primeiro porque Tomoyo não era uma menina de travessuras, e depois se uma das duas ou as duas tivessem aprontado algo assim não era possível não saber e, por fim, elas tinham que mudar a hora de todos os relógios, até os de pulso e os digitais. Era algo em larga escala difícil para duas garotas apenas fazerem ou arquitetarem, dizia a lógica, apesar de Tomoyo ser inteligente até demais. Ninguém ousava dizer a Sonomi que todos estavam imersos naquele sono, apenas disseram que o calor da primavera e o pólen das flores fizeram com que todos caíssem nesse torpor.
Sonomi resolveu verificar o jardim e descobriu um fato curioso. Uma das estátuas do jardim simbolizando um coelho havia quebrado faz uma semana e Sonomi encomendou outra. A nova estátua chegaria na terça-feira, mas a velha estátua estava lá novamente, como se não tivesse sofrido nenhum arranhão. Sonomi achou estranho tudo aquilo e começou a ficar assustada, pensou que sua casa estivesse sobre o efeito de alguma "força oculta" e resolveu procurar pelas garotas. A ideia era ir até o quarto de Tomoyo, mas antes parou na cozinha para beber um copo de água. Ao beber o copo viu a filha e Sakura da janela da cozinha, "abraçadas" na catedral. Desconfiou e não desconfiou profundamente daquele gesto, daquele abraço forte, na altura da cintura que sua filha dava em Sakura. Pensou mil e uma coisas até chegar a conclusão. Muitos fatos apenas podem ser confirmados quando olhamos os eventos de perto, e esse não seria exceção. Sonomi bebeu seu copo de água e foi até o lugar onde as garotas estavam. Precisava falar com elas e saber como havia sido a tarde das duas.
Na catedral das rosas, as duas estavam se entreolhando, depois do "ato" que Tomoyo não queria acabar tão cedo:
– Tomoyo-chan, acho melhor a gente parar por agora, ouvi o portão se abrindo e acho que a Sonomi-san já chegou; ela pode nos pegar aqui Tomoyo-chan!
– Pela primeira vez na minha vida eu não tenho medo de mais nada; todo o meu medo desapareceu quando você olhou para aquela rocha, aquele altar Sakura-chan, quando eu desabafei…
– Tomoyo-chan, temos muito o que conversar, se você quiser a gente faz isso mais tarde…
– Só se tem um primeiro beijo na vida Sakura-chan, quero torná-lo especial pra nós duas, e se minha mãe descobrir eu não preciso ficar preocupada com mais nada… vai ser mais fácil contar pra ela depois…
– Tomoyo-chan, esse momento já está sendo especial o bastante para mim, nunca tinha imaginado isso na minha vida, ela pode não gostar nadinha disso e ela pode piorar o seu castigo, isso pode virar um balde de água fria! Hoe!
– Não vai virar não…
– Hoe?
– Porque você está aqui Sakura-chan! – Tomoyo põe o indicador nos lábios da amada.
– Então que isso seja um segredo só entre nós duas…
– Está bem, vamos parar por agora… mas por agora.
– Tomoyo-chan, depois disso tudo eu tou sentindo mas cólicas estranhas dentro de mim…
– Nem me diga Sakura-chan, eu estou sentindo o mesmo que você, por incrível que pareça…
As duas sorriem entre si. Sonomi se aproxima:
– Konnichiwa Sakura-chan, Tomoyo.
– Konnichiwa O-ka-san!
– Konha… Konnichiwa Sonomi-san!
– Garotas, vocês estavam aqui o tempo todo; como passaram a tarde?
– Passamos bem Sonomi-san, a Tomoyo cuidou de mim esse tempo todo, não é Tomoyo-chan?
– É sim mamãe, eu estava cuidando da Sakura-chan! A gente estudou pra burro essa tarde, estávamos aqui contemplando as rosas…
– Sakura-chan, que machucados são esses que você tem? Meninas vocês aprontaram alguma essa tarde? Olha Tomoyo, se eu souber de alguma coisa sua…
– Não foi nada não Sonomi-san, eu posso explicar…
– Sakura-chan, deixe comigo, eu explico para a minha mãe o que aconteceu…
– Acho bom Tomoyo, me conta o que foi…
– Mamãe, eu e a Sakura-chan estávamos brincando aqui no jardim depois dos estudos quando a Sakura-chan teve a mirabolante ideia de escalar atrás da abside da catedral, aquela parte de trás sabe, perto do muro…
– Sei muito bem Tomoyo, continue.
– Então mamãe, eu falei pra Sakura-chan não ir lá, tinha muitas rosas trepadeiras no caminho fora os bichos estranhos que pode ter lá atrás, mas ela falou que era corajosa e foi lá…
– Tomoyo-chan, não me compromete não…
– Vou te comprometer sim Sakura-chan… daí a Sakura-chan escalou a abside como um índio das Américas e olha o que ela encontrou lá: uma iguana!
– Uma iguana?
– Sim mamãe, uma iguana. A Sakura-chan me assustou quando me mostrou a iguana; eu gritei e ela caiu do alto da abside. Ela se machucou todinha mas eu tratei de trazer a maleta de primeiros socorros, aqui mamãe!
– Hum, estou vendo, e a iguana?
– A Sakura-chan e eu quisemos entrar em casa com o primo distante dela…
– Tomoyo-chan, eu não sou nenhum réptil…
– É sim, é o dinossauro mais lindo que eu já vi, você já sabe disso! A gente tentou entrar com ela, mas a governanta não deixou, falou que a Sakura-chan tinha se arriscado de mais, parecia um índio americano no corpo de um japonês! Daí a gente colocou a iguana de volta no jardim e ela tomou seu rumo.
– Vejo então meninas que o dia hoje foi bom, apesar de arriscado, Sakura-chan está tudo bem com você, dói alguma coisa?
– Está tudo bem Sonomi-chan, só estou sentindo umas cólicas e um pouco de fome depois disso, mas nada de mais não…
– Então está bem, se precisar de alguma coisa, se sentir alguma coisa eu estou à disposição Sakura-chan; bem vamos entrar, vou preparar um jantar delicioso para nós três, vocês só devem ter comido besteiras a tarde toda…
– Pois é mamãe, a senhora não sabe como, altas emoções, sabe?
– Tomoyo-chan, eu já estou mais queimada do que cabeça de fósforo, não me queima mais não tá?
– Tá bom Sakura-chan, só um pouquinho, quem sabe… hehehe!
As três sorriem juntas e vão até a cozinha. Depois a governanta não consegui afirmar nem negar a história de Tomoyo, estava confusa por conta do "encanto", mas o encanto que realmente era a origem dessas cólicas era fruto do processo de digestão, pelos corpos e mentes das duas "mocinhas" de todas as novas emoções e sensações que seus corpos e almas começaram a descobrir, sentir que podiam sentir desejo, amor uma pela outra, um ser humano por outro ser humano que nasce, cresce, ama, vive e, por fim, deixa seu legado no mundo, a continuação dos elos da eterna corrente do amor.
