Bem, depois de séculos volto com mais um capítulo!
Divirtam-se!
- 0 -
- Tem certeza de que está bem? - no outro extremo da linha telefônica, Yamanaka Ino fazia essa pergunta pela quarta vez na conversa, seguida de uma pausa - Posso aproveitar que amanhã saio mais cedo da escola para te ajudar se você precisar de alguma coisa...
- Não, obrigada... estou bem, Ino – Sakura respondeu sem dar tempo a outro desses silêncios incômodos – Talvez… – agora, era ela quem se permitia um segundo de dúvida –...talvez eu possa ir amanhã para apresentar o atestado.
Ino concordou com um "você quem sabe" e depois perguntou sobre a situação atual de Sakura.
Itachi.
- Bem... acho – Sakura sentiu as palavras travarem em sua garganta. Uma mentira completa, afinal.
Ino captou na mesma hora, mesmo sem estar à sua frente
-Sakura, você deveria descansar. Só passou um dia, mas... bem, você sabe.
-Naruto comentou alguma coisa? – a questão ia mais além do que mudar de assunto. Era uma distração em meio à cortante atmosfera de incerteza que pairava no apartamento.
- Não, ele sabe que se abrir a boca, eu o enviarei direto para a lua com um chute.
Ambas permaneceram sem palavras. Não houve risos de cumplicidade ou comentários semelhantes. Era como se tudo aquilo também houvesse permanecido no passado. Ino insistiu que poderia ir à enfermaria e pedir a Shizune-san uma justificativa para a amiga. Sakura concordou, mais por causa do desgaste emocional do que por qualquer outra coisa.
Desligou, permanecendo imóvel onde estava. No lugar em que havia estado naquelas últimas sete horas e que lhe pareciam uma eternidade: a cama em que costumava compartilhar com Itachi.
O pessoal do hospital a liberou às oito da manhã. A jornada da noite anterior também foi uma dificuldade. Dormiu muito, mas dormiu mal. Imagens entrecortadas e desconexas: pesadelos sem importância, mas muito reais para ignorar.
Sasuke...
O temor daquela tarde. A raiva, a fúria e a explosão de Sasuke... Era aquele jovem o mesmo com quem costumava sair há dois anos? Aquele que a atacou com toda covardia e golpeou-a com força? E se as consequências houvessem sido devastadoras? As marcas e a vermelhidão na pele produzidas pelo dorso da mão dele já estavam desaparecendo pouco a pouco, mas a memória e a origem sempre estariam lá, como uma mancha impregnada em um pano branco. As feridas internas nunca desaparecem.
Eles não falaram sobre isso, Itachi não disse nada; na verdade, desde que voltaram do hospital, ele não falou sobre mais nada – e Sakura tampouco. Apesar do problema, deixar tudo em paz até o momento poderia ser o mais saudável. Ela sabia que forçar um diálogo às vezes era prejudicial e a fragilidade entre eles era um fio esticado em um ponto máximo: ou se rompia... ou permanecia imóvel.
Itachi ficou com ela a noite toda e o restante das horas passadas do dia até agora. Imerso num silêncio que a fazia se sentir terrivelmente tensa, preocupada e... culpada? Inútil? Pior do que uma carga? Não consegui encontrar o termo, mas lá estava. Nem ele pronunciou mais palavras e essa pergunta havia se paralisado no tempo e no espaço:
O que faremos agora, Itachi?
Ambos ainda não haviam respondido. A única coisa que veio dos lábios frios do Uchiha foi a notícia que mais preocupava Sakura: a Akatsuki procurava por ele.
Não eram meras suspeitas, mas um fato em si. A nuvem vermelha havia encontrado o fio preto e eles (se já não houvessem) podiam encontrá-lo debaixo das pedras. O detonador foi ativado, os assassinos com quem Itachi fingiu uma aliança o seguiriam e o rastreariam até a menor pegada...
Agora ele levava uma vida a mais nas costas, frágil e desamparada. Ela esperava um filho seu. Um filho daquele que haviam tomado como traidor e colocado um preço pela cabeça, provavelmente.
"Um grão de arroz sempre pode inclinar a balança"
Óbvio. E ambos complicaram a situação. Não, não adiantava mais lamentar, nem Sakura por não ter prestado atenção aos devidos cuidados e nem Itachi pelas mesmas razões. Ele não estava em melhores condições do que ela. Desde que chegaram ao apartamento, moveu o sofá do espaço que ocupava contra a parede e colocou-o em frente à porta. Sakura esticou-se na cama e Itachi se postou no sofá desde então.
Podia vê-lo do umbral da porta. Simplesmente ali, sentado, sem dizer nada, sem expressar nada. Sem dormir. Imóvel, mas alerta, carregando a arma que Hoshigaki lhe havia dado desde o dia do confronto com Tazuna.
Eram duas da tarde quando Sakura finalmente decidiu se levantar. Já havia feito pela manhã, depois de engolir uma tigela de cereais e um chá e, então, recostou-se. Ela se sentia fraca, com as sequelas do incidente da tarde anterior, adicionadas aos incômodos da gravidez. Contudo, apesar das feridas físicas quase sumidas, queria falar sobre isso. Realmente falar.
Não poderia ficar assim. O tempo escorria e ela duvidava do que poderia vir depois. Só queria uma resposta, clara e concisa... antes de tomar qualquer outra decisão.
- Itachi... - sentindo que suas pernas ainda estavam fracas, e sua cabeça girava, Sakura se aproximou dele, sentando-se ao seu lado.
Itachi alçou a vista levemente para Sakura. Um reflexo condicionado, mas naquele curto período de tempo foi suficiente para ela ler a emoção impressa em seu rosto. Ele não estava preocupado, não estava chateado nem com raiva. Estava com medo.
- A culpa é minha – Itachi disse, como se falasse para o ar. - Lamento.
Sakura balançou a cabeça, embora ele não a olhasse mais.
- Lamentar o quê, Itachi? - suspirou cansada. Também fixou os olhos na porta – Tudo o que aconteceu entre nós? Você se arrepende disso?
Muito suavemente, ainda ouvindo o tremor de sua própria voz, Itachi revelou o que era significativo, cuspiu como se fosse um remédio horrível, muito amargo para se engolir.
-Akatsuki. Eles sabem onde me encontrar. Não tenho a menor ideia do que diabos seja Kyuubi ou para o que eles precisam. Não podemos ficar aqui, Sakura e não... não podemos… - interrompeu-se de repente e Sakura viu uma careta de mortificação em sua fisionomia – … não posso e não quero te trazer mais problemas. Não agora que por minha culpa você está...
-Nossa culpa. - fazendo um esforço para repensar as palavras dele, ela o olhou, embora ele não correspondesse de imediato - Nós dois queríamos isso, Itachi. Nós dois o permitimos – ele não soube como responder, então se limitou a assentir. Tomou uma de suas mãos nas dela e com gentileza a levou para baixo em sua blusa, apoiando em sua barriga – É nosso filho.
O pulso da mão de Itachi estava calmo, mas a tensão ainda era uma lembrança de seu pensamento relutante. Ele sentia o caloroso contato de Sakura e, embora houvesse assimilado os fatos e estivesse pronto para tudo o que fosse acontecer, havia uma dúvida persistente. De preocupação.
De medo.
-Sakura... você não precisa suportar isso se você não quiser...
Ela olhava para ele de perto com uma expressão tão perplexa que Itachi sentiu como uma onda de seu próprio desespero.
-Você quer que eu me vá, Itachi? É o que você quer?
- Não – exalou. E o resto, eram simplesmente palavras cortadas –…não. Sakura.
- O que faremos, Itachi?
- Não é o momento – seus olhos estavam perdidos, mas a palavra e o tom eram tão precisos quanto era necessário – Sakura... não. Não agora... Eu… - Itachi queria levantar o rosto, mas não podia – Sendo apenas nós dois, não haveria nenhum problema. Mas agora... com um filho a caminho...
- Nenhum de nós dois pensou nisso – ela também notou o tremor em sua voz.
- As coisas ficaram fora de controle... - Itachi não a interrompeu, apenas disse como se fosse um bocejo ou um espirro – Eu permiti que saíssem de controle... Sakura...
Sakura olhou de relance para Itachi e ele deixou cair os olhos novamente. Tocou seu rosto e ela deu um leve suspiro. Isso doeu mais do que qualquer outra coisa, doeu muito mais do que ele poderia acreditar. O sentimento de culpa e medo voltaram em uma espécie de ventania esmagadora. Mas Sakura não chorava mais. Ela sabia que demoraria muito para chorar de novo. Os fatos e sua enorme importância no presente haviam sido demasiado impactantes.
- Entendo – Sakura colocou uma mão no braço do sofá, equilibrando-se e levantou-se. Ele sentiu as molas se moverem no mesmo instante e, ainda assim, não olhou para ela - Itachi... vou embora.
Foi quando ele sentiu uma pontada fria em seu coração. Aterrorizante. Ameaçadora.
Tirou o cabelo da testa. Seu rosto estava pálido e abatido. Seus círculos escuros eram mais profundos e a idade de repente era vista em seu rosto. Não, vinte e cinco, parecia... trinta e cinco.
E o que ambos sofreram, toda a maré que toleraram em torno deles... o que aconteceu com tudo isso?
Sakura... não...
Mas o pensamento não deixou sua mente. Ele não o verbalizou e nem tentou fazê-lo. Seu corpo também não ajudou em nada; permaneceu imóvel, enquanto a ouvia ir ao quarto e colocar algo sobre a cama. A mala provavelmente. Ele não fez esforço para assimilá-lo, apenas escutava.
O que aconteceu com o que os uniu? Das poucas ocasiões em que ambos sabiam que a única necessidade vital de um era a existência do outro? A intenção daquela caixa de bombons que ela lhe deu naquele dia? Seus esforços para tentar ser mil vezes melhor com ela do que seu irmão foi? E a entrega daquela primeira noite...?
Arruinado. Eu arruinei tudo.
Ele a viu abrir a porta. A cena parecia borrada, como algo por uma névoa da manhã. Sakura estava tão quieta quanto ele. Seus olhos brilhavam, mas nem uma única lágrima deslizou em qualquer momento. Nem quando ela desapareceu no horizonte do corredor e ele permaneceu lá no sofá. No estúpido sofá... sem fazer nada.
Arruinado. Eu arruinei tudo.
- 0 –
- Como é? - a voz de Uchiha Fugaku foi ouvida feito um estrondo de um canhão – Como assim meu filho não está aqui?
- Merda! No que você estava pensando ao deixá-lo ir, Kotetsu? - dessa vez, quem interveio foi o comissário Ibiki Morino, um dos elementos mais respeitáveis e inflexíveis do Judiciário de Konoha.
Deu um golpe contra os arquivos.
Da escrivaninha da área de jurisdição, o oficial Kotetsu pareceu desaparecer em sua cadeira, entre os gritos irritados de Ibiki, as perguntas de Mitarashi Anko e agora com as reclamações de um Uchiha Fugaku enfurecido.
- Impossível... esse rapaz impertinente nem sequer foi processado – Anko analisou as atas do caso referente a Uchiha Sasuke. Uma estava completa e a outra necessitava vários dados verdadeiramente importantes – Nós temos o testemunho e a denúncia de dois dos conhecidos da jovem agredida. Nem mesmo ela o denunciou ainda. Como aconteceu de você deixar que o levassem sem sequer processá-lo?
Kotetsu encolheu os ombros e tirou o registro do visitante, indicando a assinatura e a data.
- Enviaram alguém para libertá-lo... um familiar, ao que parece. Pagou a fiança pelas acusações e...
- Não enviei ninguém! - Fugaku arrebatou o registro examinando os detalhes da assinatura.
Hora da saída... oito e meia da noite... e a assinatura do "familiar"
- Uchiha... Obito... – leu Anko do outro lado –… e tem a assinatura do inspetor em sua hora de trabalho. - ela olhou de soslaio para Ibiki – Mas o senhor não estava fora de turno a essa hora?
-Maldito seja! - exclamou este. No entanto, seus olhos ainda estavam fixos na suposta caligrafia que imitava a dele - Quem quer que seja, esse maldito conseguiu falsificar minha assinatura em detalhes.
Obito, o mesmo Uchiha Obito... a quem Madara havia cedido a posição de Itachi. O protegido do falecido Madara... e o mesmo a quem Itachi havia acusado como o principal suspeito no "suicídio" de Shisui.
Antes de apelar para qualquer outra prerrogativa por parte do comissário e da oficial Mitarashi, Fugaku se virou e tirou o telefone da mesa de Kotetsu como se fosse seu.
- O que você pretende fazer, Uchiha-san?
- Facilitar as coisas para vocês... isso não vai ficar assim - disse Fugaku a Ibiki, e, imediatamente sua voz respondeu para alguém do outro lado da linha, seu escolta pessoal - Genma, preciso que você sitie todo o perímetro do edifício Ad Worx – houve uma pausa, seguida de sua voz – Não, não é apenas Sasuke...Obito também.
Ele desligou, sentindo a consciência pesada com a memória de tudo o que estava começando a cair.
Todo esse tempo... primeiro Shisui, depois Madara... Itachi tinha razão.
- 0 –
Estúpido... Eu sou um estúpido!
Itachi desceu com toda a força que poderia exigir de suas pernas cansadas. Não se importava que o apartamento ficasse aberto, nem com o fato de ter deixado o telefone celular na mesa... e nem mesmo percebeu os olhos que o seguiam a três metros atrás.
Não, nada mais importava. Tudo o que girava em sua mente era em torno de Sakura.
E o único que Itachi fazia agora era correr na primeira direção em que seu corpo o projetava. Itachi enfrentou mais inimigos do que podia contar com os dedos de ambas as mãos, e nunca sentiu medo. Mas por algum motivo, aterrorizava-o apenas em pensar que algo aconteceria com Sakura. Ela não teria lugar para se esconder e nenhuma proteção. Era uma situação desconhecida para ele. A primeira vez que se sentiu à mercê de outra pessoa.
-Sakura! Sakura!
Ele correu, não se importando de fazer isso na direção oposta da rua. Estava apenas a alguns centímetros de um ônibus que o atingiu e jogou-o para o outro lado como um cadáver.
Sentiu um leve impacto contra os joelhos. O motorista e alguns passageiros gritaram várias palavras nada lisonjeiras para ele.
Também algumas pessoas na calçada gritaram. Itachi não ouviu. Não importava mais.
Havia arruinado tudo, talvez antes desta manhã. Mas errar é humano, não é?
Não importava. Não importava nada, exceto... encontrá-la.
-Sakura!
Encontrá-la. Ainda que tivesse que ir ao fim do mundo.
- 0 –
-Pein, não esperarei uma hora a mais. Você quer dizer que Kisame também está envolvido? - Obito perguntou. Não estava com a voz alterada, era mais ansiosa.
Do outro lado da linha, escutou o sujeito de cabelos laranja pronunciar um breve e preocupado "talvez".
- Pelo menos isso parece… - Pein completou – Ele não responde ao celular. E Itachi tampouco.
- Já te disse que cuidarei pessoalmente da minha família. Eu sei que ele ainda está em Konoha, Zetsu-san tem sido muito útil para reunir essa informação... - o apelidado "Tobi" se permitiu uma pausa meditativa e retomou o diálogo – Ele não vai fugir desse jeito.
- Há algo que devemos saber, Tobi?
- Nada. Minha família... meus assuntos, Pein – seus dedos tamborilaram inquietos no auricular – Você cuida do "resto" e da Kyuubi.
E desligou abruptamente.
- 0 -
Talvez... seja o melhor... para nós dois.
Essa ideia permanecia firme em Haruno Sakura e não era sua voz interior que exalava como a respiração derrotada de um corredor atrasado. Era um pensamento persistente, e que ela não queria assimilar, não porque não quisesse, mas porque doía demais.
Sua ideia de reencontro ideal, beijos, abraços, carícias, confissões... tudo havia ido pelos ares, haviam acabado sem sequer começar. Deixou cair a mala na calçada enquanto tomava tempo para descansar o braço. Nem percebeu o que havia embalado ou o que deixou para trás.
O que planejava fazer? Não sabia de todo. A realidade também havia se desequilibrado em seu horizonte.
- ...Itachi... por quê?
- Perdão!
Em um ato de reflexo, virou-se e olhou para a esquina de onde a voz vinha e que ela reconheceu na hora.
- Itachi... – seus olhos se dirigiram até o meio da avenida lotada. Pessoas que iam e vinham... e no meio de tudo isso, soube que não estava imaginando coisas.
-Sakura-chan, eu...
As palavras chamaram sua atenção para a figura que agora vislumbrava na sombra de uma marquise, iluminada pela tênue luz que se deslizava pelas nuvens do céu chuvoso do outono. Silhueta que com lentidão se aproximava dela...
Itachi chegou mais perto, mancando por causa do golpe levado contra a freada do veículo momentos atrás. Estava morrendo de medo, ele não sabia o que esperar de Sakura. O que sabia era que, fosse o que fosse, ele merecia... Abandonou-a, deixou-a sozinha. E por quê? Só porque ele estava tão entorpecido por suas preocupações e com a importância do plano de Akatsuki.
- Sakura-chan... eu... – Itachi engoliu em seco, xingando-se em pensamento por não poder dizer mais nada.
Sakura continuou a examiná-lo com os olhos de alguém que olha para uma aparição. Apesar de tudo o que ela tentou salvar da relação deles antes mesmo desta manhã, uma parte de si acreditava firmemente que estaria sozinha de novo. Agora, vendo-o ali, seu mecanismo de autodefesa se levantou, aquele que lhe falou de uma angústia mais realista de que, mais cedo ou mais tarde, as coisas poderiam se tornar mais difíceis com alguém assim. Mais difícil do que havia antecipado.
Doía. Era como ouvir sua mãe dizendo um preciso e cruel "Eu te avisei".
- O que você faz aqui?
Itachi ergueu a vista e por um segundo a sustentou no olhar da garota para, em seguida, desviá-la, envergonhado
-Sakura, eu... eu... lamento muito.
Esse foi o gatilho de sua própria incerteza. O que ele lamentava? Haver dormido com ela e agora deixá-la à espera de uma criança indesejada? E que, por isso, estragou seus planos e agora a considerava a uma obrigação para ele? O quê?
Pairou um estranho silêncio entre eles. Um milhão de respostas possíveis acudiram à mente de Itachi em uma avalanche caótica. Embora considerasse algumas opções, agora pareciam vazias. Ele as rejeitou todas em favor da verdade.
- Me desculpe - foi tudo o que disse. Tudo o que poderia pensar em dizer. Itachi sentiu como se o resto do seu vocabulário houvesse se apagado por completo.
Sakura baixou o rosto e não disse nada. Surpreso, Itachi voltou a encará-la.
- Fui uma estúpida, não? - Sakura murmurou. Sua atenção estava fixa nas próprias mãos, firmemente presas em seu colo – Eu queria... Eu queria ser tudo de que você precisava, Itachi. E agora... só fiz as coisas se complicarem mais para você. Arruinei sua vida.
Itachi balançou lentamente a cabeça e o contato visual ainda estava preso nas esferas de jade de Sakura.
- Sakura... nunca. Você nunca arruinou minha vida – murmurou, num sussurro apenas audível – E eu não vou deixar você... deixar vocês.
Ela observou como os músculos de Itachi se contraíram.
- Não quero ir a lugar algum sem você – ela continuou, com a voz tremida, mas determinada.
De repente, ele olhou para baixo. Era hora de dizer a ela. Mas pronunciar essas palavras não era fácil, mas se não as dissesse... poderia perdê-la para sempre. O coração de Sakura falhou uma batida. Seu rosto, tão hierático no passado, agora estava tão agitado quanto sua alma. A garota permaneceu imóvel, essas três palavras a impactaram de uma maneira indescritível. Ela sentiu que ele a abraçava, mas Sakura simplesmente não podia se mover.
- O quê...?
As palavras escaparam sem ele sequer pensar nelas e agora, com Sakura embalada em seus braços e aquele olhar que o prodigava, sua seriedade habitual voltou a envolvê-lo, sem saber muito bem o que fazer.
- Eu te amo... eu te amo, Sakura.
Eu te amo. Eu te amo. Eu te amo.
As palavras se repetiam uma e outra vez na mente de Sakura, deixando-a perdida em um súbito vazio... Um calor agradável a envolveu e ela se rendeu a Itachi. Por fim, correspondeu ao abraço e apertou-o. Agora tudo estava bem, tudo estava no lugar.
Finalmente, Itachi conseguiu se libertar de todas as emoções que experimentou. Separou-se um pouco de Sakura, para poder contemplá-la. Duas lágrimas fugitivas escorreram pelas feições delicadas dela.
- Desculpe mesmo. Você me perdoa?
Sakura assentiu, sem dizer uma palavra. Ele aproximou o rosto e deixou que sua bochecha se encostasse na dela, acariciando-a. Naquele momento, Itachi percebeu o quanto ele precisava fazer algo assim. Colocou seus braços ao redor dela e sentiu seu corpo trêmulo se encaixar no dele. Começou a sugar as lágrimas dela com os lábios e com gentileza beijou seu rosto da testa até o canto dos lábios. Ela parou de tremer.
-Itachi... - disse Sakura, ofegante pelo beijo. Enterrou o rosto no pescoço dele, beijando-o febrilmente – Me leve para casa.
Itachi colocou a mão em sua bochecha e correu o polegar ao longo da linha de seus lábios.
- Vamos... para casa – respondeu Itachi suave, acariciando os fios rosados com os dedos – Para nossa casa.
- 0 -
- Hum... Então é com isso que você estava tão ocupado, garoto? – o murmúrio abafado vinha de uma extremidade da avenida central na área metropolitana de Konoha, de dentro de um carro patrulha. Os olhos pequenos, mas inquiridores e escondidos atrás da lente polarizada de uns óculos de polícia, ainda estavam fixos no casal que ia aos subúrbios do noroeste – Uau, bem... uma pequena surpresa Pein teria com isso... – soltou uma risada amarga –... se ele soubesse.
O comunicador tocou e Kisame ligou a transmissão da chamada.
- Hoshigaki... nós reportamos um quarenta e sete, entre duas ruas que cortam a principal - a voz que soava da estação era a tonalidade grave e profunda de Morino Ibiki.
O código era o equivalente a uma ordem de busca. Geralmente, era um procedimento de rotina para suspeitos ou aqueles que deixavam a liberdade condicional. O lugar mencionado era a área de patrulha nos arredores da empresa Uchiha.
-Quem, por enquanto? Em uma área como esta nenhum roubo foi relatado.
- Apenas se limite a servir como reforço... estamos à procura de um tal... – escutou a voz de Ibiki falhar devido a alguma interferência –... Uchiha... Sasuke...
- Justo agora? Raios... é hora do meu descanso.
- Agora – Morino cortou brusco.
Kisame deu partida no carro de má vontade. Mal havia desligado a transmissão quando seu celular foi o próximo a tocar quase no mesmo instante. Olhou para o número de Kakuzu na tela pela vigésima vez nos últimos dois dias. O primeiro impulso foi lançar o fodido dispositivo pela janela, mas ele ainda apreciava o que restava de sua vida e era melhor não tentar o demônio.
- Ainda não deu em nada – disse, elevando o viva-voz e falando o mais alto que podia para encobrir a interferência do ambiente e antecipar o que já sabia que lhe seria perguntado.
- Dois dias... dois malditos dias atrasados com todo o plano. No que diabos você está pensando? – Kakuzu murmurou. Uma voz zombeteira pode ser ouvida na distância entre o ambiente da outra linha. Kisame reconheceu o breve timbre de Hidan impresso nele – Pein e Konan nos deixaram o resto e já é hora de você fazer algo, Hoshigaki.
- Façam o que vocês têm que fazer. Eu não vi o "garoto" e seu apartamento está vazio. Então não sei onde ele se enfiou – Kisame suspirou sem qualquer sinal de raiva ou medo. –... e eu estou de serviço.
Não houve outra reivindicação ou argumento de Kakuzu. As outras vozes pareceram silenciadas também. Kisame desligou o aparelho e deixou-o dentro do porta-luvas. Seus olhos vagaram pela distância da rua enquanto fazia uma nota mental dos fatos.
Uchiha... Uchiha Sasuke... hum, então o irmãozinho do garoto gênio também está envolvido, deduziu enquanto os dedos tamborilavam sobre o volante.
A liderança de Obito não fazia nenhuma diferença. Mal conhecia o indivíduo e o fato de Kisame ter passado cinco anos fazendo trabalhos informais para Pein e os membros da organização não lhe faziam se sentir particularmente apegado a Akatsuki como tal. O fim sempre justificou tudo e sua contratação sob essa horda de submundo era algo que, no fator pessoal, lhe dava o mesmo. Igual o desfile de colegas com quem trabalhou em equipe. Estúpidos, imaturos, indiscretos ou completos cretinos, bons para nada.
Não tinha nada contra Uchiha Itachi. Ele era reservado, não falava muito e, pelo menos, havia demonstrado ter mais cérebro do que todos os outros bastardos. E a suspeita de sua estratégia oculta – é claro, nada escapou do olhar atento do tenente Hoshigaki – de bagunçar o esquema da Kyuubi era um argumento que nem ele poderia se opor.
Talvez Kisame também estivesse à margem de um boicote atrás do cenário de Akatsuki... talvez não. Ele mesmo não podia se assegurar.
Como já havia dito antes: Itachi sabia no que estava se metendo, depois de tudo. Embora agora adicionasse seu irmão na luta, a favor ou contra ele, o contexto era o mesmo.
- Vá e me traga o Uchiha de qualquer jeito – um pedido agora de ambos os lados. Não questionaria: ordens eram ordens e, se ele não intervisse, outros fariam.
Sinto muito, "garoto". Mas creio que acabou sua lua de mel.
- 0 -
A manhã se consumiu e a tarde pairava sob uma capa tranquilizante, filtrando suas luzes pela pequena fenda na janela do apartamento de Uchiha Itachi e Haruno Sakura.
A sala estava vazia e o som vago de suas vozes vinha do quarto, retomando a marcha inicial da respiração em ambos. De seus corpos nus.
Sobre o colchão macio, a cabeça de Itachi descansava sobre o ventre de Sakura, os cabelos pretos espalhados por seu torso como uma maré escura. Ele não dizia nada, mas ela sabia que estava acordado; sentia o fraco roçar de seus cílios enquanto piscava. Sakura alcançou sua cabeça e acariciou seu cabelo.
Sentiu-o se mover contra seu estômago e beijá-lo em resposta.
- Sakura-chan...
- Hum? – a jovem levantou a cabeça ligeiramente
Itachi moveu os braços ao redor do quadril de Sakura, abraçando-a. Seu rosto esboçou um sorriso quase invisível de lado.
- Temos que ir.
- Quê?
Itachi ergueu a cabeça e colocou o queixo com cuidado sobre seu ventre para fitá-la.
-Irmos ... longe daqui, Sakura. Longe de Konoha... Longe de todos – deslizou a mão sobre o delicado estômago dela e desenhou um círculo com os dedos, pensativo – Somente nós três .
Sakura sentiu seu coração pular uma batida quando o escutou. A dúvida se filtrou por seus olhos
- E Akatsuki?
A indagação pairava no ar para ambos. Itachi repensava nisso mesmo antes desse reencontro. Pensava, mas não tinha uma resposta concisa.
Fugir...
Não, fugir não. Desaparecer e deixar tudo para trás. Akatsuki que o procurasse e se o achasse... que Kamisama tivesse pena deles.
Claro, do plano à realidade sempre havia um enorme trecho. E o que um único homem podia fazer contra uma organização e seus possíveis aliados?
Ele tentou respirar, tentando acomodar as palavras... interrompendo-se assim que a porta começou a ser batida com quatro golpes estridentes.
Os dois pularam quase ao mesmo tempo. O estrondo foi repetido duas vezes mais e nenhum deles proferiu qualquer barulho. Itachi fez um gesto para Sakura e ela se cobriu com um robe. Ele se levantou, apenas colocando a calça e parou na entrada da sala.
Sakura ficou atrás dele, de pé e segurando-o pelos ombros com apreensão.
- Eu irei... – Itachi estava prestes a avançar quando sentiu Sakura agarrar seu antebraço.
Um breve "não" emergiu de seus lábios e Itachi a deteve. Ele não tinha certeza do que faria, não havia uma boa alternativa. Quem quer que fosse: Kisame, Sasuke ... ou o próprio Pein. Itachi não queria imaginar os inconvenientes e as consequências. Não.
Seria ele quem protegeria sua parceira, sua futura família, não importa o que...
-Sakura! – a voz do lado de fora pertencia a um Naruto muito alarmado. Ambos suspiraram de alívio enquanto seus corações retornavam ao ritmo normal – Sakura-chan!
A jovem se dirigiu para a porta.
- Não é hora de visitas, sabia, Naruto? – disse enquanto abria a porta – O que pode ser tão importante para você vir aqui fazer um escândalo?
Antes que ela pudesse completar outra frase, o garoto loiro quase a derrubou, abraçando-a intensamente. Sakura ficou assustada e ainda mais por notar o contato trêmulo no corpo do rapaz. Ele tremia como uma folha de papel ao vento.
- Naruto... O que... o que foi? – perguntou enquanto tentava acalmar seu amigo.
- Eles machucaram a Anko-chan e ... e o Jiraya...! – ele a abraçou ainda mais – Pensei que eles também iriam te machucar…
- Eles? – Sakura engoliu em seco com a sensação de que conhecia a resposta – O quê...? Quem são eles?
Naquele momento, Itachi se aproximou da porta para averiguar quem era o visitante, ficou surpreso ao ver Naruto e, quando seus olhos se encontraram, a surpresa aumentou ao ver uma fúria assassina no olhar dele.
-Você! Maldito! – Naruto largou Sakura e atacou Itachi - Não vou deixar você tocar nela!
Itachi era maior, mais forte, mas o bom Naruto cresceu praticamente com os punhos levantados, e com toda aquela experiência viva e curtida nas batalhas pessoais do jovem Uzumaki, conseguiu derrubá-lo sem muito esforço e dar-lhe dois golpes no rosto deixando o Uchiha atordoado enquanto se sentava sobre ele e começava a sufocá-lo. Itachi lhe socou mais por reflexo do que por outra coisa, mas não causou muito impacto; as mãos do enfurecido Naruto se fecharam sobre sua traqueia.
Sakura viu tudo como se fosse um filme, algo estranho para ela. Então lhe veio uma explosão de adrenalina ao perceber que o amigo estava realmente tentando matar Itachi. Não foi um impulso, foi um ato totalmente racional. Correu até eles e empurrou Naruto contra a poltrona da casa, puxando-o pela gola da jaqueta.
- Que merda você tem na cabeça? – Sakura pronunciou aquela obscenidade enquanto se agachava para abraçar um atordoado Itachi lutando para recuperar o fôlego – Que diabos você está fazendo?
- Ele está com eles! – Naruto disse levantando um dedo – Esse filho da puta hipócrita é um Akatsuki
Itachi e Sakura trocaram um olhar.
- Eu sei. – disse a garota enquanto ajudava seu parceiro a se levantar. Voltou sua atenção para Itachi e ele apenas assentiu, com um sinal mudo de que prosseguisse – Faz algum tempo que ele... ele está tentando acabar com essa corja por dentro.
Naruto abaixou os braços, ostentava a expressão de alguém atingido com um raio.
- Eles foram os culpados do homicídio do meu primo. - Itachi conseguiu se recuperar – Eu tenho coletado evidências para fazê-los pagar. – deu um passo em direção a Naruto - Por que eles atacaram Jiraya?
Naruto alternou um olhar de desolação a ele primeiro e depois a Sakura; era óbvio que não esperava algo assim. Tragou um pequeno gole de saliva, como se quisesse expulsar algum tipo de suspiro.
-Kyuubi. – foi tudo o que disse.
Itachi ficou tenso, Sakura agarrou seu braço.
- O que você sabe sobre isso? – Itachi perguntou, enquanto sua respiração passava com dificuldade em sua garganta.
Em resposta, Naruto tirou a jaqueta e a camisa, virou-se e revelou uma tatuagem no ombro direito de uma figura pequena em tinta preta. Em uma área de cinco por cinco centímetros, estava pintado o desenho curvo de uma raposa.
O olhar perscrutador de Itachi se deteve no desenho. O detalhe da tatuagem parecia um trabalho cuidadoso no contorno, cabeça e... caudas.
Nove caudas. Uma raposa de nove caudas.
Uma Kyuubi.
- 0 -
E aí? esperavam por essa? Quem diria que o Naruto tinha a chave?
Pois é, gente, aproximamo-nos do fim da história, faltam somente quatro capítulos. Esse ano termino com certeza. Me mandem reviews sim?
Até a próxima.
