No último capítulo…
Relena, Zechs, Tint, Daniil e Akane vão ao Primavera Plaza jantar. O shopping está muito movimentado apesar de ser segunda-feira por causa da estréia especial do filme de super-heróis. Ao irem embora, Tint decide ir ao pet shop comprar comida para Allegra, quando encontram o filhote de Husky na vitrine. Depois entram na loja en nesse meio tempo, o grupo se separa, Akane e Daniil se perdendo. Relena vai procurá-los e acaba encontrando Heero brincando com o cachorrinho. Depois, todos se reencontram e partem. Relena e Heero ficam a sós e conversam sobre o dia. Relena conta sobre a proposta de participar de uma campanha publicitária e Heero apoia que ela aceite. Eles trocam beijos e juras de amor, ambos muito orgulhosos das conquistas um do outro.
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28
_Nós vamos seguir eles. –Tint anunciou, assim que travou o cinto, a voz empostada de protagonista de filme de ação.
_O quê? –Zechs virou-se encarando-a, atônito.
Estalando a língua, a bailarina gesticulou de forma bruta à frente:
_A Ane e o Daniil, vamos seguir eles!
_Tint, não é possível. Você está mesmo desconfiada?
_Estou, esses dois estão aprontando alguma coisa.
Zechs sacudiu a cabeça, manobrando o carro com suavidade, era um excelente motorista:
_Eles sumirem ao mesmo tempo foi apenas uma coincidência…
_Coincidência, sei… Ali, Zechs, vira ali. Não perde eles não! –os olhos dela não descolavam da traseira do Civic, a mente prevendo a direção a seguir.
Zechs apenas sacudiu a cabeça, perguntando-se o que fez para merecer aquilo.
_No fim-de-semana é nosso aniversário de namoro.
_E você realmente está achando que o Daniil está te traindo? Justo agora? Justo com ela?
_Não! Ele deve ter pedido ajuda da Ane pra montar uma surpresa para mim!
_Ah, que nem o Heero fez para a Lena.
_Isso! Quero descobrir o que é!
_Mas Tint, assim você vai estragar tudo…
_Não, não vou não. Nunca liguei para spoiler.
Ele não conseguiu resistir à gargalhada.
_Cuidado, Zechs, não chega muito perto, senão eles vão ver a gente.
Ele obedeceu, embora não soubesse por quê. A verdade era que dificilmente dispensava uma aventura. O trânsito não estava muito intenso e fez o possível para não serem notados. Manteve-se dois carros atrás do sedan de Daniil, na faixa oposta, meio escondido atrás de uma caminhonete.
_Quanto tempo já faz que vocês estão juntos?
_Seis anos já, acredita?
_Como passa rápido! Parece que foi ontem que a Lena saiu de casa.
_Nossos tempos de alojamento foram tão bons…
_É por isso que decidiram morar juntas depois?
_Sim, até porque, com a promoção, eu ia precisar de um lugar para ficar. Lena propôs que a gente dividisse as despesas, mesmo o apartamento sendo dela… Talvez ela não quisesse ficar sozinha também.
_Não foi um momento fácil, não é?
_Ao mesmo tempo em que ela estava feliz, o Lohan deixou ela bem abalada. –e parou a frase bruscamente, obrigando-se a não falar mais, feito entrar nesse assunto a enfurecesse. Zechs compartilhava daquela sensação. Realmente, Lohan era a maior persona non grata no círculo social que compartilhavam.
_Parece até que ele nasceu para isso… –Zechs não estava falando de destino, mas ao mesmo tempo, azedava pensar que depois de tudo que o bailarino fez Relena passar, voltava para a vida dela, como se ela não pudesse escapar dele, até as coincidências conspirando a seu desfavor.
_Hã?
_Ah, nada… E então, o que espera que o Daniil faça para você? –e preferiu descartar o assunto. Precisava manter o espaço seguro para Relena tomar sua decisão.
Seguiam no trânsito, acompanhando o Civic com discrição, sem qualquer imprevisto até agora, tudo indicando que ele realmente seguia até o conservatório.
_Ele é um amante à moda antiga, então, imagino que seja lá o que ele tenha inventado vai envolver muitas flores, um rendezvous em um lugar inusitado… champanhe e morangos…
_Certo.
_Um banho de pétalas de rosa para dois…
_Entendi.
_Cordas de seda e…
_Chega, Tint, já visualizei!
_Visualizou, é? Safado… –se jogou um pouco para o lado dele, lançando uma mão e alisando seus ombros com essa.
_Akane vai me pagar. –ele pensou alto entre dentes, na verdade lutando para não rir. Da onde vinham aquelas coisas? Apesar do que ouvia, Zechs não conseguia imaginar Daniil como aquele tipo de homem…
_E para a Suicinha, não visualizou nada? –se recompondo após uma gargalhada burlesca, Tint indagou, ainda sugestiva, surpreendendo a Zechs.
Ele a relanceou com um franzido de sobrancelhas, mas não conseguiu pensar em que responder, o assunto se perdendo ao perceberem Daniil mudando de faixa e sinalizando que ia parar na frente da praça do conservatório. Passando um pouco, Zechs estacionou a frente, de modo que podiam observar o movimento pelo retrovisor.
Ficaram acompanhando. Akane simplesmente desceu, conversando com Daniil pela porta aberta por um ou dois segundos, rindo e assentindo com entusiasmo, e depois acenou. Procurou a motinha de Relena, vestiu o capacete, arrumou uma das bolsas dentro do baú, pendurou a outra a tiracolo e montando, saiu rapidinho, buzinando ao passar por Daniil e desaparecendo no tráfego. Daniil só foi embora depois que teve certeza de que Ane partira em segurança, fazendo o retorno em direção de sua casa.
_E é isso. –Tint anunciou, monótona, deixando os lábios ficarem um tanto entreabertos.
_O que você esperava? –Zechs provocou e ligou o carro de novo, achando a reação dela engraçada.
_Não sei… –suspirou, feito sua vida tivesse perdido todo o sentido. –Mas foi divertido, não foi?
Ele gargalhou e preferiu não responder nada, desistindo de vez de entender.
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Relena suspirou contente, sentindo Heero acariciando seu braço. Ainda estavam parados, encostados ao carro, abraçados. A lâmpada piscou e demorou a voltar a brilhar, despertando-os daquele idílio que se formava naturalmente sempre que estavam a sós. Trocaram um olhar e separaram-se para irem para casa enfim. Já que não podiam fazer aquele momento eterno, deixariam algo para o amanhã.
Ele abriu a porta para ela que acabou vendo os bonecos de pelúcia amontoados no banco de trás. Enquanto Heero dava a volta para entrar também, ela alongou-se e puxou um dos brinquedos para olhar melhor.
_Que lindos, Heero! –ao sentar, ele ouviu-a comentar. Relena já tinha pescado todas as pelúcias para seu colo. –Aw… –admirava uma a uma e depois recomeçava o processo. Havia uma ave que lembrava um tucano azul-turquesa, uma espécie de tigrinho lilás e outro que parecia um esquilo vermelho. Tinham rostinhos meigos e olhos enormes e cativantes, personagens apelativos para qualquer coração mole.
_Peguei sábado lá no fliperama, mas acabei me esquecendo de te mostrar. Escolhe um para você e outro para Tint e o que sobrar fica pra Ane. –explicou, divertindo-se com o encanto dela pelos brinquedos, sorrindo discretamente.
_Sério? Posso? –e vendo-o assentir, paciente, ela juntou o tucano ao seu rosto, fazendo sua eleição.
_Gostou? –verificou apenas para não parecer frio diante do fácil deslumbre dela.
_Muito! Para Tint, vou pegar o esquilo… –e devolveu o tigre ao banco de trás depois de acariciá-lo em despedida.
_Também separei a camiseta do caminhão que pediu, não se esqueça de pegar quando descer.
_Ah! Já vou estrear amanhã na aula!
_Espero que sirva bem, tínhamos poucos tamanhos pequenos no estoque.
_Não se preocupe com isso. –e guardou os dois bichinhos na bolsa. –Amanhã vamos treinar?
_Sim, resolvi meus compromissos com a organização da batalha. Coloquei a Schbeiker para cuidar disso.
_Que bom, assim não fica sobrecarregado. –assentiu, mostrando o que para ela era o principal benefício da decisão, e depois abriu um sorriso, agradada com a sabedoria dele.
Ele sorriu de volta, tímido, agradecido pelo apoio que captava naquelas poucas palavras.
_Tem alguma academia de preferência? –Relena verificou então, prosseguindo com o assunto.
_Não, vamos aonde você costuma. Assim você fica mais bem atendida, suas necessidades são bem mais específicas.
_Está bem. –e suspirou. –Preciso voltar para o massagista também. O "Pássaro de Fogo" é muito exigente, estou começando a sentir meu tornozelo outra vez por causa dos saltos.
_Entorse?
_É, rompeu os ligamentos. Já faz uns quatro anos, mas essas coisas nunca param de dar trabalho.
_Então tome cuidado ao voltar a treinar, não se esforce mais do que deve.
_Acho que está doendo justamente por eu não exercitar mais. Vou consultar o fisioterapeuta para saber o que posso e não posso fazer no treino.
_Boa ideia.
O corpo dela era seu principal instrumento de trabalho e ela tinha consciência de que se não se cuidasse adequadamente seria quem mais sofreria as consequências. Entretanto, não fazia mal ver Heero se preocupando com ela, uma motivação a mais.
O Elantra parou na frente do prédio enfim, Heero desligou o motor por mais um instante e os dois suspiraram em uníssono. Trocaram olhares depois e Relena riu:
_Cansado?
_Bastante. –não hesitou em admitir, sério.
_E hoje é só segunda-feira. Na semana do feriado, espero aproveitar o tempo livre dormindo.
_Que inveja… –ele comentou, provocando-a.
_Quem mandou querer ser capitão? –e ela devolveu, em tom de reprovação, fazendo-o abrir um sorriso charmoso.
Beijaram-se mais um instante e então ela desceu, pegou a camiseta no banco de trás, e acenou várias vezes em despedida.
Era tão bom passar tempo juntos, tanto que Relena mal entrou no elevador e já estava revivendo mentalmente os destaques da noite, resistindo a se separar dele.
Os beijos e suas mãos carinhosas deixavam marcas de calor por sua pele, por seu coração, mas eram suas palavras, seus olhares e sua presença que causavam a impressão maior. Nunca se viu levada em tão alta consideração por um homem como era por ele, com tanta seriedade e encanto, com tanta confiança e amor.
E ao mesmo tempo, nunca se sentiu inspirada a respeitar tanto outro homem. Lembrou-se de novo do vídeo do resgate, meditou sobre o comprometimento de Heero com sua profissão e a forma como ele a encarava. Ele fazia a diferença para o mundo e merecia alguém que fizesse a diferença para ele.
_Eu vou ser esta pessoa. –nem percebeu o que sussurrou, feito uma prece. O elevador abriu e ela respirou fundo, sorrindo.
A porta do apartamento estava destrancada, como sempre, e tudo parecia tranquilo ali, vendo que Zechs estava acomodado no sofá-cama, a tela do celular acesa revelando os desenhos de seu rosto. Não conseguiu ver, mas ele deslizou os olhos em sua direção, acompanhando-a chegar em seu passo silencioso e sutil.
_Mandei as fotos para você, está bem? –avisou, sua voz tomando o silêncio da sala de assalto, e depois ele voltou a perder tempo desbravando o feed sem fim do Instagram.
Relena o relanceou por cima do ombro, colocando as chaves no balcão e acendendo os spots que havia ali em cima.
_Obrigada, Zechs. Mas já posso dar minha resposta agora.
_Conversar com Heero ajudou?
_Sim. Eu vou aceitar a proposta.
_Muito bem, fico contente. Se quiser, posso te acompanhar nas reuniões e nos ensaios.
_Nas reuniões eu quero sim. –e foi conferindo a correspondência com desinteresse, sem encontrar nada além das contas a pagar. –Vai ser meu consultor.
Ele riu baixo e fanhoso, assentindo.
_Boa-noite, Zechs.
_Boa-noite, princesa. –sorriu, enxergando ainda a irmãzinha sonhadora que jamais soubera o que era um coração partido, muito embora a realidade não fosse essa.
Ela apagou a luz e foi direto para o quarto, tirando o celular da bolsa pelo caminho e largando-a no chão ao rumar para sua cama. Sentou ali um instante, enrolando para tomar banho, e tocando a tela do aparelho para acendê-la, não obteve nenhuma reação. Quanto tempo será que estava sem bateria? Não prestara atenção no nível de energia quando chegara ao shopping, mas devia estar bem baixo… Colocou o telefone para carregar e achou ali seu incentivo em entrar no banho.
Como era bom deitar! Passava da meia-noite e já usando o pouco de carga que o celular juntou, foi checar a mensagem de Zechs. A maioria das fotos eram collants, mas não via problema nisso porque eram exatamente estes que interessavam. Depois, havia dois conjuntos de agasalho e três de top e legging em um estilo mais fitness, adequado para um treino, corrida ou aula de Pilates. Também apareciam tutus de ensaio dos tipos sino e romântico.
A cartela de cores era delicada, mas original. Oferecia as opções tradicionais em preto e rosa-bebê, mas também tinha uma seleção de azuis, amarelos e beges em tons pastéis, além de um modelo vermelho maravilhoso. Os agasalhos tinham um corte feminino, mas dinâmico, e estampas elegantes com inspiração em grifes de luxo, mas uma Bomber jacket avulsa chamou a atenção de Relena pela ousadia da estampa – um enorme Pégaso galopante tomando todo peito, as asas abertas e imponentes.
Realmente, havia um diferencial na proposta da Argos e um enorme potencial. Não encontrou uma peça entre as que viu que não usaria. Analisando os produtos com a objetividade de consumidora, ficou impressionada com a força da identificação, quase como se a coleção fosse feita pensando nela, o que só fortaleceu sua decisão de participar da campanha.
Aquilo era sobre ela e só. Lohan não tinha o menor direito de influenciar como aproveitaria aquela oportunidade maravilhosa. Afinal de contas, ela tinha atraído a atenção em seu próprio mérito, através de seu próprio trabalho.
E de repente, se via empolgada para o projeto, sorrindo para a ideia que passara a tarde toda revirando na mente. Sua impulsividade pediu que ela aceitasse a proposta desde o primeiro minuto, mas ela sabia melhor do que isso. Fora com disciplina e esforço que conquistara seu sucesso, não apenas com talento e paixão. Assim, analisou os prós e contras, pensando em que impacto seu desempenho poderia sofrer se ela assumisse mais um compromisso. Assim como Heero, precisava seguir o conselho de não se sobrecarregar.
Não conseguia ver nada de mal. Não conseguia um motivo que apagasse a vontade de se aventurar também nessa atividade. Dançar tinha sido toda sua vida, mas desde que Heero chegou, ela se deu conta de que havia mais e era possível equilibrar tudo. E ela queria mais, descobrir e aprender, e estava ali uma chance perfeita, uma nova fonte de vigor.
Tinha decidido exatamente o que queria.
Um alerta de mensagem a levou para a tela em suas mãos outra vez, vendo que fora mencionada no Instagram. Tint havia postado um vídeo do husky, e Relena o assistiu com saudades do cachorrinho. Aquela postagem levou Relena para outras dentro do perfil de Tint e depois para outros perfis e, de repente, em uma foto antiga, ela encontrou Lohan marcado junto de outros bailarinos da época em que Relena ainda não tinha contato com o grupo avançado.
Cinco anos sem ver aquele sorriso seguro, sem receber aquele olhar de possessão. Se precisasse citar um exemplo de alguém que sabia que lugar ocupava no mundo, falaria de Lohan. Não importava onde ele estivesse, ele sempre ia agir como ocupante de uma posição invejável. E qualquer um a seu lado se sentia invejável também, ele fazia questão.
Lohan realizava desejos. Não de graça. O preço nunca era discutido, ele simplesmente cobrava quando chegava a hora. E como era de se esperar, ela só soube disso tarde demais, quando já tinha se machucado.
Clicou na marcação e caiu direto no perfil dele. Seria tipo um tratamento de choque barra ensaio para seu reencontro com o rapaz que a fez andar nas nuvens e depois trilhar nos espinhos.
Riu-se, sentindo-se boba e exagerada com o que pensou, porém talvez não fosse tão engraçado se não fosse real. A primeira imagem já trazia um salto perfeito no figurino de Siegfried, o papel favorito dele. Lohan costumava defender que o príncipe do lago dos cisnes era o papel de mais destaque técnico para um bailarino, e sempre dizia que na verdade era ele o personagem principal, por mais importantes que fossem Odette e Odile.
A malha branca deixava evidentes todas as linhas curadas de cada músculo em sua silhueta. Ninguém jamais poderia atacar o talento dele, apenas de olhá-lo ali ela se sentia tanto motivada como assombrada. Só esperava que essa sensação não fosse fruto de qualquer domínio que ele ainda tivesse sobre ela. Porque mesmo depois de tanto tempo, ela via a imagem ali e sentia que jamais seria boa o suficiente.
Correu os olhos pelas fotos e pelos vídeos, tantos ensaios, momentos de descontração. Uma jovem étoile da Ópera de Paris fazia numerosas aparições ao lado dele. Avançando mais no perfil, entre as fotos antigas, antes desta vinha uma linda solista do Teatro Alla Scala como parceira apaixonada. Fotos dele em Lausanne, como parte da comissão julgadora. Fotos dele nos iates em Mônaco, Itália e Grécia. Fotos dele nas coxias, em total concentração, sob luzes divinas. Fotos dele no camarim, rodeado de amigos e buquês de flores.
Fotos dele com ela.
Um último sorriso partilhado entre os dois ali, eternizado para um propósito obscuro.
Suspirou profundo, a vista parada na imagem da perfeição.
Esse era o problema com as coisas perfeitas, aquelas tidas formalmente perfeitas: não existem. Não, não tem alma.
Respirou fundo, já era tarde demais quando percebeu que as lágrimas tinham chegado. O sorriso dele ali, ao lado dela, com as mãos ao redor dos ombros dela, era morto, sem graça, sem brilho. O olhar dele era agressivo, cheio de astúcia e ganância afiadas, agora ela enxergava. E o coraçãozinho vermelho marcado ali, fora da moldura da foto era o único que Lohan queria e que valia alguma coisa – ela tinha curtido a foto, ela tinha compactuado com aquilo, ela tinha assinado ali seu contrato bizarro.
Secou os olhos e riu de novo ante todo o absurdo. Não era por ele que gastou mais duas lágrimas, nem por ele que lamentava. Era por ela. Pela última vez.
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Zechs ouviu a campainha, mas não tinha intenção de levantar. A porta do banheiro fechou, o ruído sorrateiro fazendo-o lembrar-se que não estava sozinho. Eram seis e quinze. Olhou o celular ao lado do travesseiro e sabia que há essa hora as meninas já estavam se arrumando para sair.
A campainha tocou de novo, ele até já tinha se esquecido dela. Resmungou alguma coisa e saiu do sofá-cama, levando o lençol consigo, indo resolver logo aquele problema:
_Já vai. –ronronou no meio de um bocejo, à toa, porque, caso quem estivesse atrás da porta conseguisse ouvir aquele aviso, nada iria entender. Se espreguiçando espaçoso, erguendo os braços quase até tocar o teto, parou em frente à entrada.
_Bom-di…a… –Akane começou com uma voz vibrante e foi perdendo o compasso conforme sua vista tomava a imagem que surgiu atrás da porta escancarada.
_Akane…? –abriu espaço para ela passar.
_Hm, bota bom dia nisso, hein? Agora assim!
Ele estreitou os olhos e sacudiu a cabeça, sem a menor ideia de qual o motivo para tanto alvoroço. Havia algo nos olhos dela… algo de… perverso? Baixou o rosto e então percebeu que não estava usando nada mais além dos shorts do pijama, o que tampouco eram muita coisa.
Com um suspiro divertido, mas safado, Ane apreciou o desenho definido dos músculos do abdômen dele, tanto dos oblíquos, retos e transversos, e sua harmonia e proporcionalidade, feito ela fosse uma crítica de arte:
_Está explicadíssimo porque a Tint gosta tanto das suas visitas… –e pousando a mão no peito dele, bem em cima do coração, deu uma palmadinha ao dirigir-se ao balcão da cozinha.
Depois de curtir um instante de paralisia, Zechs tomou fôlego e riu, já não havia mais nada a fazer. A não ser se vestir…
_E o que traz a senhorita Mascote tão cedo aqui? –indo até o sofá buscar a camiseta, investigou.
_Café da manhã. –Akane abriu uma caixa de papel, que colocara em cima do balcão.
_Vocês combinaram?
_Não, eu sou assim mesmo.
_Hã?
Mas ela fez questão de não explicar, já indo procurar as cápsulas no armário para preparar bebidas para todo mundo.
Zechs deu de ombros, bem treinado em não contrariar, e apenas foi arrumar a sua cama. Precisava se trocar porque estava de chofer também aquela manhã.
Relena saiu do box enquanto Tint estava na pia escovando o dente. Ambas pareciam bem menos cansadas hoje, entretanto ainda não tinham dormido o suficiente.
_Esse sábado vai ter ensaio? –Tint confirmou com a escova presa no canto da boca.
_Creio que sim. Pegar firme para compensar a semana do feriado.
_Saco! Então vai sobrar só domingo mesmo. A gente vai hibernar, combinado?
_Combinadíssimo.
Tint assentiu e cuspiu a espuma na pia, lavando tudo a seguir. Entrou no box e tirou a camisola lá dentro, jogando-a para fora por cima.
_Eu preciso te contar uma coisa. –escovando o cabelo, Relena sentou na tampa do vaso, ainda de toalha.
_Conta! –a voz dela ecoou pelo banheiro.
_Fui chamada para fazer uma propaganda.
_Sério? –Tint ia abrir o chuveiro, mas desistiu. –Quando? –e abraçou o próprio peito.
_Ontem. Foi o Zechs que ajeitou tudo.
_Mas que máximo! Por que não falou antes? Detalhes, vai, quero todos os detalhes!
_Não, toma banho e no café te conto tudo. Senão vamos ficar atrasadas…
_Está bem. –chateada, enfim abriu o chuveiro, ainda tinha que lavar o cabelo.
_Vai demorar muito aí? –nem um segundo depois, Zechs indagou, batendo.
Relena abriu só uma fresta da porta:
_Tem certeza que quer fazer xixi agora? A Tint está aqui dentro e tal…
_Ela nem vai perceber.
_Por sua conta e risco… –e saiu então, rindo, deixando-o entrar.
_Já está na hora de comprar um apartamento maior. Você tem mais um potencial chupim lá na cozinha…
_Hã? –Relena estava quase entrando no quarto quando ouviu, mas ao voltar-se para Zechs só conseguiu assistir a porta se fechando.
Quem poderia ser?
_Ane?!
_Chora!
_Ah, só pra saber quem estava aí…
_Certo! –cantarolou. –O café está na mesa!
_Estou indo, só um momentinho.
Conversaram tudo aos berros, a manhã nunca tinha sido tão agitada antes no pequeno apartamento Darlian.
Os quatro se reuniram então vinte minutos mais tarde em torno do balcão. As bagels, com sua camada de pasta de abacate e presunto magro, estavam servidas cada uma em um pratinho. Os cappuccinos fumegavam nas xicrinhas e havia manga cortada numa tigela.
_Isso sim é que é um chupim… –Relena comentou, impressionada ao passo que Tint já mastigava.
_Chupim? –Akane fez um bico magoado, feito uma menina de cinco anos. –Mas por quê? –e prosseguiu, choramingando.
_Ah, isso é com o Zechs. –e a loira fugiu da raia, risonha, começando a comer.
_O quê?! Mascote eu aceito, mas chupim! –e deu um empurrão no braço dele.
Zechs apenas deu uma risada rouca e traquina, divertindo-se em importunar a menina.
_Crianças, se comportem! –Relena franziu as sobrancelhas, parecendo uma professorinha.
_Vai, Lena, conta logo do job de publicidade. –Tint exigiu, de boca cheia.
Akane parou o pão no meio do caminho até a mordida, dando um pulinho de surpresa no banco, abrindo um sorriso enorme:
_Mas gente, o que é esse excesso de sucesso esse ano?! Parabéns, Lena! –e puxou Relena pelo ombro, gargalhando contente, juntando suas cabeças.
De primeira, Relena paralisou, sobressaltada com a efusividade, mas acabou rindo:
_Obrigada!
_Então era por isso que vocês dois estavam todos misteriosos ontem…
_Era sim… –Relena ria. –Mas não queria dizer nada antes de ter certeza.
_Você fala sobre aceitar o trabalho? –Tint verificou, enfim engolindo.
Assentindo com a cabeça, Relena puxou o celular então e abriu as fotos para Akane e Tint verem do que ela falava:
_É para a Argos. Veja só que bonitos os produtos deles. Todos desenhados especialmente para balé.
_Eu quero bordar esse vermelho! E mamãe ia se divertir demais com esses tons pastéis! –com a feição de quem estava cheia de ideias, Akane ia apontando conforme Tint ia passando as imagens.
_Lindos! Esse nude também é fantástico.
_Você vai conseguir uns presentinhos para a gente, não é? –Ane piscou os olhinhos brilhantes várias vezes, charmosa.
_Quem sabe? –mas Relena se fez de difícil.
Enquanto as meninas seguiam fazendo planos e comentando animadamente a beleza das peças, Zechs comunicou a irmã:
_Depois que te levar, vou ligar para Anneliese e dar o sinal verde. Até o fim da semana ela deve entrar em contato com a diretoria do conservatório.
_E tem roupa masculina também? –Tint se interessou, por fim, tendo estudado todas as fotos que havia ali.
_Tem sim. Você tem fotos delas, Zechs?
_Não… –ele até verificou a mensagem de novo, mas realmente o foco ali era só Relena.
_Os tutus são incríveis… –Ane estava vendo tudo de novo, querendo analisar os detalhes a sério.
_Só falta ver a qualidade do material. –Relena murmurou, pensativa.
_Sim, estou bem curiosa com isso.
_Agora é sua vez: a Lena já contou a novidade dela. Por que a Madame te chamou ontem, Ane? –Tint aproveitou o momento para tocar nesse assunto também.
Devolvendo o celular para Relena, Akane explicou:
_Ah! Verdade! Queria falar sobre uma proposta de joint venture entre da turma de pas de deux e o grupo principal de canto…
_Tipo o quê? –Zechs incentivou, intrigado pela escolha de palavras.
_Um musical.
_E você vai cantar, né, Ane? –foi a vez de Tint pular no lugar, segurando a amiga pela manga, implorando ou coagindo, quem sabe.
_Nós ainda vamos sentar para pensar tudo, mas a ideia é essa… –e sorriu, despretensiosa, mas encabulada ao mesmo tempo.
_Não sabia que cantava! –Relena colocou as mãos na cintura, fazendo-se de traída, mas sorridente.
_E como canta! Que voz, vocês precisam ouvir! –Tint não deixou chance pra Akane reagir.
_Não é para tanto… –franzindo as sobrancelhas, ela riu, repreendendo Tint. Apanhou os pratos de todos, já vazios, e levou para a pia. –É só um hobby. –suspirou e voltou buscar as xícaras. –Será que dá tempo de lavar?
Todos procuraram as horas no relógio de parede, já eram praticamente sete e dez.
_Melhor só passar uma água… Zechs, você lava depois, não é? –e Akane mesmo decidiu, lançando para ele uma mirada imperativa ao falar, a sobrancelha curvada no ângulo de ênfase preciso.
_Sim, senhora.
_E…? –ela já não parecia uma professorinha, mas sim uma mãe.
_Desculpa chamar você de chupim.
_Bom garoto.
Tint deu uma última olhada em Allegra e começaram a sair, assim. Depois de Zechs trancar o apartamento, pararam diante do elevador e esperaram, de repente em silêncio, de repente cada um concentrado nas tarefas do dia, em não ter esquecido nada, em não ter dormido o tanto que queria. Até que o transporte abriu e os quatro se espremeram lá dentro.
_Afinal de contas, o que você veio fazer aqui? –paradas muito perto uma da outra, Tint encarou Akane com suspeita, perguntado.
_Mas só agora que você notou? –Relena explodiu em uma gargalhada enorme, se apoiando em Zechs.
Akane mordeu o lábio inferior, mas os olhos estavam rindo:
_Vim tomar café com vocês. –e deu qualquer motivo. A verdade é que não existia uma explicação.
_Ah é? –Tint fez fusquinha, e cutucou a costela da amiga.
_É! Por que, algum problema?
_Não, mas fique sabendo que posso me acostumar com isso…
_Eu também! –Relena levantou a mão, delicada, ainda rindo.
Akane revirou os olhos e bufou, mas sempre terminava rindo.
Terminaram a descida.
_Mas Lena, se tem roupa masculina, quem vai fazer a campanha com você? –e foi Akane quem se lembrou de perguntar.
_Ainda dá tempo de indicar o Daniil? –Tint piscou um dos olhos, sacudindo os cabelos e colocando o capacete.
Relena estacou pouco antes de chegar ao carro, mas Zechs continuou. Voltou até as duas amigas e olhou para sua scooter, brincando, digressiva:
_Ela deu muito trabalho?
_Que nada, foi um amor. –Akane tocou o guidão e respondeu, sorridente. Depois riram, tolinhas.
Tint montou a motinha dela e se ajeitou. Trocou com Relena um olhar preocupado, vendo-a estalar a língua. Akane também se preparou para partir. Não disse nada, mas percebeu que Relena estava evitando responder sua pergunta.
_O Lohan.
_O quê? Ele vai fazer a campanha com você? Justo ele? –Tint não conseguiu conter a revolta.
_Foi uma escolha da marca, eles fizeram várias pesquisas. Sabe como funcionam essas coisas…
_Mas Lena, você está de boa sobre isso?
Suspirou. Não queria sentir que estava mentindo:
_Sim, estou sim. –e como a voz não tremeu, até que se saiu melhor do que pensou.
_Você não precisa fazer isso. Não tem que provar nada para ele.
_Eu sei. Por isso mesmo quero voltar a trabalhar com ele. Você me entende?
Tint bufou, aborrecida, mas assentiu. Akane ia ouvindo a conversa, já imaginando o que havia ali.
_Misericórdia… A gente larga o embuste, mas o embuste não larga da gente! –Tint suspirou com irritação.
Boa-noite! Aqui é a autora.
Muito obrigada por acompanhar essa grande jornada romântica, cômica e dramática! O reino do Pássaro de Fogo é feito de gente como a gente, por mais diferentes que sejam de nós e uns dos outros.
Desde que resolvi trazer o Lohan para a trama, a história se complicou e estou como Relena, pisando em ovos para lidar com esse rapaz. Eu já consegui decidir como ele vai ser e aqui já apresentei bastante do conceito dele.
No final, gostei muito do capítulo, talvez o costume de trabalhar com este estilo leve esteja tirando a graça e o brilho do texto para mim, e espero que tenham se divertido ao ler mais esse capítulo.
O reino do Pássaro de Fogo é aquele em que o tudo e o nada acontecem! Parece muito com a vida da gente ao mesmo tempo em que não tem nada a ver...
Aguardo com muito interesse seus comentários, críticas, elogios, xingamentos, dúvidas... fiquem à vontade!
Muito obrigada de coração pela sua atenção!
Perdoem os erros de revisão.
Quero agradecer a todo mundo que me ajudou a escolher o nome da empresa de artigos esportivos (a Argos) e mandar um beijo especial no coração daquelas que me ajudam sempre a fazer acontecer: Jessica Yoko, Lica, MariSales e Miyavi Kikumaru, parceiras de crime.
Vou lutar para voltar logo, o mais rápido possível, quem sabe até por nos eixos o ritmo de publicações?
Visitem o Tumblr da fic para inspirações, estéticas e face claims: apartmenti95. tumblr. com
Beijos e abraços!
24.07.2018
