Capítulo 28 - Os deuses me perdoam por existir
Meu pai parecia duvidoso, mas algo no meu olhar deve tê-lo feito ignorar sua própria dúvida. Ele olhou para trás para Hades, que nos olhou brevemente antes de assentir.
Antes do que eu pudesse ter visto, as três Parcas estavam lá, em pessoa, com uma mortalha verde que tinha o caduceu de Hermes bordado em dourado.
Nos afastamos quando elas se aproximaram, e uma delas olhou para mim e deu uma piscadela com seus olhos de infinito.
Os pelos do meu braço se arrepiaram ao lembrar do meu sonho com elas, mas eu supunha que estava tudo bem agora que Cronos tinha ido definitivamente embora. Imaginei que tinha sido uma piscada amigável.
As Parcas ajeitaram Luke e o enrolaram na mortalha, levando-o para fora. Eu sabia que não teríamos a oportunidade de fazer luto por ele quando elas a levaram. Ele tinha sido, no final das contas, um traidor. Tinha se redimido ao ajudar a derrotar Cronos, mas eu não sabia se isso era suficiente para os deuses.
Voltei meu olhar para os tronos à minha frente, vendo que os deuses estavam agora em suas alturas normais de deuses. Eles conversavam baixo e rápido em grego antigo, todos eles usavam roupas tradicionais gregas.
Estavam de pé num pequeno círculo atrás do trono de Zeus. Meu pai olhou para mim brevemente, mas voltou sua atenção ao círculo tão logo a desviou.
Annabeth, Thalia e Nico estavam ao meu lado. Algumas ninfas e musas que eu não tinha notado que entraram, limpavam a sala dos tronos rapidamente de todo resto de concreto jogado no chão.
Só então eu percebi o quanto estava exausto, cambaleando um pouco para o lado.
Annabeth me segurou.
"Epa. Calma aí. Você está bem?" ela perguntou com preocupação nos olhos.
"Sim. Só estou cansado." eu balancei a cabeça para clarear meus pensamentos, que só queriam cama.
"É a maldição de Aquiles." disse Nico.
"Sim." completou Thalia. "Quíron nos contou as histórias."
Eu franzi, meio confuso.
"Que histórias?"
Annabeth deu uma risadinha ao meu lado, ainda me segurando, um braço ao redor na minha cintura e o outro segurando meu braço que estava apoiado em seus ombros.
"Sempre sem noção, não é, Cabeça de Alga?"
Eu fiz uma careta, mas não respondi nada para não piorar minha situação.
Ela riu de leve novamente, junto com Nico e Thalia, antes de continuar.
"Quíron nos contou que Aquiles era um guerreiro incrível e quase indestrutível por causa da maldição. Sua força e habilidades eram inigualáveis. Mas, sempre que ele saía de uma batalha, sabe qual era a primeira coisa que ele fazia?"
Eu balancei a cabeça em negativa.
"Ele dormia. Por horas e horas a fio. A maldição o dava poderes incríveis em batalha, mas o exauria. Ele estava tirando sonecas constantemente, para repor as energias que as lutas consumiam."
"Então é por isso que me sinto exausto." eu respirei fundo e me endireitei. "Eu realmente poderia fazer bom uso de uma soneca agora."
Os três riram de leve comigo, então Nico completou.
"Aguente mais um pouco. Os deuses acabaram sua conferência e estão prestes a falar conosco."
Eu olhei para frente e percebi que ele tinha razão. Os deuses agora se dirigiam aos seus respectivos tronos. Um trono especial entre Zeus e Hera tinha sido colocado lá para Hades, que era apenas um Olimpiano honorário.
Mas é claro que eu não ia dizer isso em voz alta.
Pelo menos eu esperava que não. Depois de sobreviver a uma profecia que dizia que eu iria morrer, eu não queria irritar nenhum deus, especialmente o deus dos mortos.
Espera, a profecia...
Zeus interrompeu meus pensamentos errantes, começando a falar assim que todos os deuses tinham sentado.
"Declaro esta assembleia oficialmente iniciada." Depois de uma breve pausa, ele continuou. "E estamos aqui para discutir os méritos destes quatro heróis na derrubada da volta da Titanomaquia."
"Acho que não há o que discutir." disse a deusa que se parecia com Annabeth, o que eu só podia supor que era Atena. "Esses semideuses tiveram um papel indiscutível na nossa vitória."
"Conversa fiada." o deus grandalhão com óculos escuros que não combinavam com sua armadura grega falou. Devia ser Ares. Dava pra sentir o ódio e a vontade de brigar que emanava dele, mesmo que ele não estivesse olhando pra mim. "Ainda são semideuses mortais. Não devemos nada a eles!"
"O que você está falando, seu estúpido?" perguntou a deusa mais bonita da sala, e eu realmente não preciso dizer o nome dela. "Sem eles, teríamos virado picadinho de titã."
"Ninguém faz o deus da guerra de picadinho, princesa." ele provocou, sua mão na lança que pendia de sua cintura.
"Chega, vocês dois." disse a deusa ao lado de Hades, Hera.
Estava claro que ela era a rainha do recinto, pois só de ouvir a voz reprovadora dela, eles pararam a discussão.
Eu me desliguei por alguns segundos, cansado demais para prestar atenção. Meus olhos derivaram para os detalhes da sala do trono enquanto os deuses discutiam nosso destino, se devíamos ser recompensados ou não.
Annabeth, Thalia e Nico esperavam ao meu lado, os três também parecendo cansados, mas ainda assim com uma melhor aparência do que eu.
Acho que essa coisa de maldição de Aquiles realmente drenava mais energia do que qualquer coisa. E olhe que eu nem sequer tinha usado muito minhas habilidades.
Eu olhei ao redor, e percebi que a sala do trono não tinha sofrido tanto quanto eu pensei. Ou talvez os deuses já tivessem arrumado uma boa parte da bagunça sem que eu registrasse o fato.
Senti um par de olhos em mim e me virei para ver meu pai me observando. Eu lhe dei um pequeno sorriso e ele sorriu de volta rapidamente, parecendo inquieto. Percebi que ele girava o tridente em uma das mãos enquanto ouvia os deuses brigarem por qualquer coisa.
Eu suspirei.
Minha atenção foi chamada de volta à discussão quando Ares voltou a falar, com mais raiva dessa vez.
"De um jeito ou de outro, temos aqui um filho de Poseidon." ele tinha um maldito sorriso provocativo no rosto. "E todos sabemos que Poseidon estava sob um juramento que dizia claramente que ele não deveria ter mais filhos semideuses."
Meu pai se mexeu na cadeira, desconfortável. Eu me mantive quieto, mas senti mais de um par de olhos derivar para me olhar.
"Poseidon não era o único sob julgamento." disse Ártemis, parecendo pequena demais em comparação com os outros deuses em sua forma de adolescente. "Nosso lorde Zeus também estava, e mesmo assim, concebeu uma filha há alguns anos, antes que lorde Poseidon fizesse o mesmo."
"E daí? Um erro não justifica o outro." terminou Ares, parecendo satisfeito.
Eu e Thalia nos olhamos brevemente antes que eles continuassem a conversa.
"De um jeito ou de outro," disse Apolo, olhando para nós rapidamente. "não se pode fazer mais nada agora. Não podemos condenar os semideuses pelos erros de seus pais, e depois da ajuda que eles nos deram, muito menos."
"Vocês sempre arrumam maneiras de diminuir o peso de seus erros!" disse Ares. "Nunca cumprem o que foi estipulado!" ele reclamou.
"Chega, Ares." Atena replicou.
"Chega nada! Isso é uma afronta. Eles não deveriam estar aqui. Não deveriam sequer existir, principalmente o peixinho de Poseidon! E, no entanto, vocês querem deixá-los viver?"
Annabeth segurou minha mão. Não olhei para ela, e empurrei o impulso de gritar para longe.
"Chega, Ares!" gritou meu pai, segurando seu tridente com mais força. "Se não fossem nossos filhos não teríamos vencido essa guerra. E você sabe muito bem disso."
Ares estreitou os olhos. "Como você sabe? Somos deuses!"
"Mas precisamos dos mortais, Ares." disse Atena. "Não foi a primeira vez que derrotamos um inimigo com ajuda de nossos filhos. E não será a última."
"Ela tem razão." disse Hermes, e todos os outros deuses com exceção do próprio Ares concordaram.
"Chega dessa discussão. Ares, é inegável que sem os semideuses não teríamos conseguido. Eu odeio admitir isso tanto quanto você." disse Zeus, parecendo irritado. "Mas é a verdade e temos que ser justos." Ele olhou para Hera. "Hera?"
Ela assentiu uma vez e proclamou. "Todos a favor de mantermos Thalia Grace e Perseu Jackson vivos, levantem a mão."
Eu gelei, mas soltei um suspiro de alívio ao ver que todos os deuses (de novo, com exceção de Ares) tinham levantado suas mãos.
Me virei para Thalia e ela também parecia aliviada. Eu apertei sua mão.
"Ótimo. Agora podemos discutir assuntos mais importantes." Zeus tirou os olhos da assembleia e nos encarou. "Semideuses, aproximem-se."
Nós quatro nos olhamos antes de dar alguns passos para a frente, ficando mais perto do trono de Zeus. Arrisquei um olhar para o meu pai, que me deu uma piscadela e um sorriso, o que me acalmou exponencialmente.
"Nicholas di Angelo." Zeus falou.
Nico fez uma careta antes de se aproximar e fazer uma reverência, sem dizer nada. Olhei para Hades, que tinha um olhar indiferente. Não dava pra saber o que ele pensava do filho, por mais que Nico tenha me dito que Hades de vez em quando falava com ele, assim como meu pai fazia comigo.
"Por seus serviços aos deuses e ao Olimpo durante esta guerra, e por ajudar o herói da profecia a cumprir seu destino, nós lhe concedemos o título oficial de Embaixador do Mundo Inferior. Você terá acesso total e irrestrito ao Mundo Inferior, e ajudará seu pai, Hades, em assuntos específicos de tempos em tempos. Permanecerá no Acampamento, porém. Você aceita este título?"
Nico parecia que ia desmaiar de choque, mas ele conseguiu dar um sorriso pequeno e assentir.
"Será uma honra." ele deu uma olhadela no pai, que lhe deu um sorriso pequeno e rápido, do tipo que se você piscar, perde. Pareceu ser o suficiente para Nico, e então ele voltou para seu lugar ao nosso lado.
Thalia o parabenizou e eu também. Annabeth, de longe, sorriu para ele e acenou. Nico parecia além de animado.
"Thalia Grace." Hera chamou, parecendo desgostosa com o fato.
Só então me bateu que Thalia era a prova viva da traição do marido, por isso Hera parecia tão irritada.
"Por resistir às tentativas de Cronos e ajudar os deuses, nós lhe concedemos o título de líder do Acampamento Meio-Sangue. Você será responsável por novas atividades e por organizar o Acampamento na melhor forma possível. Trabalhará diretamente com Quíron e Dionísio para isso. Você aceita?"
Thalia parecia prestes a gaguejar, mas assentiu e sorriu. "Sim, Lady Hera. Obrigada. Será uma honra. Farei o meu melhor."
Ela assentiu e dispensou Thalia com um gesto de mão, e Zeus a olhou torto por isso, mas não fez nada.
Assim que ela chegou perto de nós, a abraçamos e parabenizamos. Ela também parecia extremamente feliz.
A próxima foi Annabeth, e Atena falou com orgulho.
"Annabeth Chase. O Olimpo sofreu bastante com essa guerra. Podemos precisar de uma nova arquiteta para reconstruir tudo. Você aceita este trabalho?" ela perguntou.
Annabeth parecia estar tendo uma experiência extracorpórea, mas assentiu e sorriu largamente.
"Sim. Eu aceito. Será uma honra. Obrigada!" Atena e Zeus assentiram para ela, e ela voltou para perto de nós.
Eu fui o primeiro a abraçá-la, me sentindo feliz por ela. Era realmente uma honra enorme, e eu só podia imaginar o quanto ela estava feliz com a oportunidade.
Antes que eu pudesse me preparar mais, meu nome foi chamado.
"Perseu Jackson, filho de Poseidon, aproxime-se." a voz de Zeus ressoou no salão.
Eu engoli seco e sorri tensamente para meus amigos, que me encorajaram com seus próprios sorrisos tensos.
Eu andei devagar até Zeus, fazendo uma reverência e mantendo minha boca fechada.
"Você sabe que é um semideus proibido. Sua existência nunca deveria ter acontecido." ele disse, sério. Eu tinha medo de olhar em seus olhos, então fiquei encarando meus pés. "Porém, todos sabíamos que um dia, um filho do mar, um filho de Poseidon, estava destinado a nos ajudar em batalha. Não sabíamos quando iria acontecer, pois algo determinado pelas Parcas nem sempre é do conhecimento dos deuses."
Eu engoli em seco novamente, e Zeus continuou falando.
"Mesmo assim, você foi corajoso. Enfrentou diversos perigos e tomou as decisões certas. E no final, foi o seu esforço que nos salvou."
Eu levantei meus olhos para a mudança de tom de voz de Zeus, e me surpreendi ao ver que ele me olhava com menos irritação do que antes.
"Por todos os seus feitos e atos, este conselho tomou uma decisão."
Eu prendi a respiração.
"Não oferecemos isso a qualquer um, e muito menos com frequência. Mas estamos dispostos a lhe conceder o presente da imortalidade." Eu ofeguei baixinho, ouvindo meus amigos fazerem o mesmo atrás de mim. "Você será um deus menor, trabalhando como sub-tenente de seu pai. Seu nome será para sempre lembrado, e você terá mais poder do que jamais sonhou em ter. Você aceita esta honra?"
Eu estava travado.
Imortalidade? Pra mim? Sério?
Eu sempre pensei que morreria no final, mas a essa altura já tinha entendido que aquela profecia não falava sobre a minha morte, o que era ótimo. Eu gostava de ficar vivo, muito obrigado.
Mas eu também já tinha me conformado em não receber nada, muito menos um 'obrigado' dos deuses. Meu pai tinha me avisado, os deuses eram, em sua maioria, egoístas. Nunca admitiriam que precisavam de ajuda.
No entanto, aqui estava eu, testemunhando enquanto o Conselho Olimpiano dava a meus amigos presentes incríveis, e me oferecia imortalidade por nosso papel na derrota de Cronos e seu exército.
Imortalidade. Eu poderia viver pra sempre. E trabalharia com meu pai? Isso era além de incrível!
Mas, por outro lado... Se eu fosse imortal, precisaria desistir de muitas coisas. Minha mãe, minha vida, meus amigos... Annabeth. Eu não poderia ter muito contato com eles, sendo um deus, mesmo que fosse um deus menor.
Me virei brevemente para meus amigos, e enquanto Thalia e Nico pareciam chocados, mas animados, Annabeth parecia levemente assustada.
Eu podia fazer isso? Deixar tudo para ser imortal? Parecia uma escolha fácil de se fazer.
No entanto... Não era a coisa certa. Não era o que eu precisava fazer.
Eu sabia que minha nova ideia maluca poderia me fazer ser incinerado ali e agora, mesmo que os deuses tivessem me perdoado por existir. Mas eu também sabia que eu não teria outra chance.
E eu tinha prometido.
Reuni toda a minha coragem e olhei nos olhos de Zeus, que me olhava parecendo irritado e um pouco impaciente. Eu supunha que tinha demorado tempo demais pensando.
Pigarreei para limpar a garganta e respondi o mais respeitosamente possível.
"Senhor Zeus, eu agradeço a oferta, mas receio que terei que recusar." Minha voz era firme, sem um pingo de dúvida.
Hehe, ninguém viu isso vindo, né. ;)
Não esqueçam de comentar.
