CALEIDOSCÓPIO

Parte 28 - Vigiados


A noite não poderia ser mais perfeita: céu límpido com direito a estrelas luzentes e uma lua que sorria para quem a admirasse; temperatura agradável; brisa forte, porém fresca; praia quase deserta (exceto pelo Píer, onde era o point); e um mar ritmado, forte, mas harmonioso.

Nada poderia ser mais perfeito que aquele momento. E nada soava mais irreal também. Mas era real! Por mais que parecesse sonho.

Ou delírio...

Foi boquiaberto que uma figura obscura presenciou o encontro e desenvolvimento entre Snape e Hermione. Ele não podia acreditar em seus olhos e, se estivesse drogado, justificaria a visão. Mas não estava. Estava completamente sóbrio. Estava ali apenas para passar o tempo e "bater" as carteiras de alguns trouxas. Sua aparência não era das mais dignas, mas dava pra passar, afinal, aquela hora da noite ninguém estava ali para reparar como as pessoas se vestiam ou se penteavam, e, ainda, tratando-se da Inglaterra, qualquer fantasia mais ridícula era aceitável.

Ele era apenas um rapaz apagado, sem objetivos e ambições. Sabia apenas não gostar de trouxas e derivados, e sabia ser divertido bagunçar o mundo deles. Achava que era pra isso que ele vivia: pra se divertir, empurrando a vida como pudesse. Mas sabia ser civilizado quando quisesse, como naquele momento em que desfrutava a companhia de trouxas, e isso não o incomodava nem um pouco...

E foi com grande surpresa que avistou seu antigo professor. Era a primeira vez que o via desde que saíra de Hogwarts, há apenas cinco anos. Pensou em ir falar com ele, afinal, não estava fazendo nada mesmo, mas lembrou-se o quanto Snape o desprezava, aliás, o quanto Snape desprezava qualquer um de sua casa, a Lufa-Lufa. Então deu de ombros e continuou saboreando sua bebida.

Dane-se ele, pensou.

E continuaria apreciando sua bebida, não fosse pela chegada daquela moça que achou, desde início, muito atraente. E ficou muito surpreso em ver que ela se dirigia a Snape. Conjeturou milhares de pequenos pensamentos sórdidos, até que reconheceu a moça: era a super aluna de Hogwarts, amiguinha do Potter boçal, Hermione Granger. Ela foi monitora e monitora-chefe e ele, sendo um aluno exemplar em indisciplina, tomou advertências dela, várias vezes. Ele era só um moleque de 11/12 anos, mas já dava trabalho àquela época. Riu disso. Bons tempos aqueles.

Continuou observando a cena. A distância não era pouca e ele podia ser inconveniente em ficar olhando sem que eles percebessem. Entre especulações sórdidas que fazia sobre o encontro dos dois (bastante absurdo, diga-se de passagem) e as velhas lembranças de Hogwarts, chegou até Draco Malfoy, que venerava Snape e odiava a sangue-ruim Granger. Louro azedo, não havia melhor denominação para ele, mas era um bom companheiro de agulha e era um cara realmente inteligente; as pequenas azarações que ele havia criado eram muito divertidas de serem usadas nos trouxas, embora ele ainda não tivesse coragem e capacidade para experimentar a Crucius Kedrava... até tentou algumas vezes, mas só conseguiu fazer explodir fagulhas coloridas de sua varinha e que só causavam algumas queimaduras sem muita gravidade em seus alvos. Parou de tentar depois de algumas vezes. Ele sabia não ser capaz sequer de usar a Cruciatus, afinal, ele achava um pouco repugnante ferir e matar, mas não tinha nada contra quem o fazia; cada um se divertia da forma que mais gostava. Ele preferia azarações, fazer os outros de palhaço e enfeitiçar os artefatos dos trouxas. Isso sim era bem legal!

Porém, algo muito inusitado aconteceu, e quase o fez, literalmente, se afogar em sua bebida. O rapaz enchia a boca num gole grande de cerveja quando a cena absurda aconteceu: Snape e a 'monitorinha' se aproximaram e se beijaram, como fosse um belo casal de namorados! O pobre rapaz engasgou e tossiu, pondo cerveja pra fora até pelo nariz. Alguém qualquer próximo a ele fez-lhe a benevolência de uns tapinhas nas costas, outros riam. Ainda tossindo enlouquecidamente e, desesperadamente tentando não perder o lance da cena esdrúxula, o rapaz saltou da banqueta alta de alumínio, tentando controlar seu acesso de tosse e limpando seu rosto e camisa da cerveja que derramou.

Chegou a derramar lágrimas de tanto que tossiu, mas conseguiu, heroicamente, não perder de vista o bizarro casalzinho. Viu quando eles findaram o longo beijo e conversavam qualquer coisa entre eles e, muito lindamente, abraçaram-se e saíram caminhando no Píer, rumo à praia.

O rapaz seguiu até certo ponto, um sorriso travesso iluminava seu rosto. Seria muito divertido contar aos outros o que ele viu ali, tanto que já gargalhava em antecipação. Lamentava não ter uma câmera fotográfica consigo, pois certamente seus amigos duvidariam de sua palavra, achariam que ele estava apenas drogado e vendo coisas bestas demais.

Quem diria, heim? Aquele intragável e absolutamente nefasto professor, diretor da Casa mais arrogante de Hogwarts, ex-Comensal da Morte e bam bam bam em Poções, andando aos beijos em encontros na madrugada há quilômetros de distância de Londres e da escola com uma ex-aluna e, pior!, ex-aluna sangue-ruim e namoradinha do Potter Incrível!

O rapaz ria com satisfação, só imaginando as caras que seus companheiros fariam quando soubessem! E fazia questão até de mostrar sua lembrança numa penseira para os incrédulos! E, mais ainda, se deliciava de prazer só de imaginar a cara atônita que Malfoy faria quando soubesse.

Ele não precisaria seguir o belo casalzinho pra ver o que eles iriam fazer. Podia muito bem imaginar o quê, e sem nenhuma dificuldade. No momento, era mais importante contar a bombástica novidade.

E, sem se importar se tinha ou não platéia, o rapaz desaparatou do Píer de Brighton, indo para algum gueto obscuro de Londres.


Hermione e Snape caminham sossegados pela areia, abraçados um ao outro, à borda da água, sentindo o frio úmido nos pés descalços. Havia muito de leveza na alma de ambos, era como se todos os problemas e todas as neuroses tivessem sido sanadas. A orla exageradamente iluminada tirava um pouco da beleza noturna da praia, mas isso não parecia incomodar a nenhum dos dois.

—...então pretende recuperar oito anos em apenas um dia?

—Não, claro que não, isso seria ridículo... mas quero, ao menos, zerar tudo, e me livrar de tudo que me incomoda... a começar pelo meu emprego no escritório... aquilo sempre foi uma fuga e... não tenho mais do que fugir...

—É bom ouvir isso...

Ambos param, pondo-se frente a frente. Snape passa os braços em torno de Hermione, e ela nunca lhe pareceu tão bonita: estava verdadeiramente feliz, estava radiante.

—E voltará a viver definitivamente no Mundo Bruxo? Tenho certeza que podemos conseguir uma boa colocação para você em qualquer lugar que escolher... até mesmo como professora, em Hogwarts...

Ela riu ao responder: —Isso já é ir com muita sede ao pote. Farei isso, aos poucos, mas não quero cometer o mesmo erro com o Mundo Muggle, não quero abandoná-lo por completo. Há muitas coisas aqui de que gosto... mas preciso me preparar profissionalmente para o Mundo Bruxo, não sou apta à exercer nenhuma função lá dentro, menos ainda lecionar em Hogwarts.

—Muito bom... e o que mais?

—Hum... rever meus amigos... pedir-lhes perdão por minhas atitudes... tentar reconstruir laços... gostaria apenas de ter tomado essa decisão há mais tempo, antes da morte de Rony...

—Não comece a desenvolver culpas que não existem, Hermione. Cada coisa ao seu tempo. O que tem de acontecer, acontece em seu tempo previsto. É lamentável, sim, mas não é questão para culpas ou remorsos. Isso faz parte da vida e é bom saber isso. Não se deixe dominar por esses pensamentos mesquinhos e continue planejando sobre sua nova fase de vida...

Hermione baixou a cabeça, pensativa. Deslizava as mãos nas dobras do sobretudo de Snape, até que o encarou novamente, com um brilho no olhar renovado.

—Você tem razão... não é hora para isso... não posso permitir que se desenvolvam culpas. Não quero me apressar em nada, mas há algo que também não quero esperar muito mais...

—O quê?

A moça sorriu matreira e sussurrou: —Casamento.. e filhos...

Hermione subiu suas mãos até o rosto de Snape e, na ponta dos pés, alcançou-lhe os lábios.


O rapaz que havia presenciado o encontro entre Hermione e Snape, desaparata dentro do porão de um bar pé-sujo no subúrbio de Londres. O que havia acontecido ali, é melhor nem mencionar detalhes. Houve uma festa regada à álcool e drogas, e as conseqüências dessa festinha estavam espalhados pelo chão imundo e frio do porão.

Desviando-se das pessoas que estavam largadas no chão como fossem bonecas de trapo, algumas nuas, tentava chegar até Draco Malfoy, que estava num canto isolado, com a cabeça recostada à parede, mas todo seu resto esparramado no chão. Ao seu lado, uma garrafa de fire-whiski quase vazia e uma seringa com a agulha torta. Os braços de Draco tinham uma coloração que ia do roxo ao negro.

O rapaz parou com pose, as mãos na cintura, soltando um muxoxo de contrariedade. Olhou atentamente para Draco... parecia morto. Deu-lhe um chute na perna, e o 'morto' apenas deslizou alguns centímetros da parede. Realmente, Draco estava morto de drogado, cheio de álcool e heroína no sangue. Provavelmente levaria ainda um dia inteiro para ele acordar.

Sabendo que era um caso perdido, o ex-lufano deu de ombros e fez um gesto desdenhoso com a mão. Olhou por toda a sua volta e não encontrou ninguém sóbrio, e ninguém que, mesmo sóbrio, fosse digno o suficiente para ouvir sua história. Desistiu, por ora, de tentar encontrar alguém por ali para contar as novas e simplesmente desaparatou, indo para outro gueto ou beco onde poderia encontrar um amigo que não estivesse drogado e nem bêbado – o que seria um pouco difícil.


A manhã estava nebulosa e fria, um clima que anunciava a proximidade do Outono. Harry Potter estava atrás de sua escrivaninha, diante de pequenas pilhas de papeis de pastas. Lia um relatório enquanto anotava pontos importantes num bloco à parte. Estava tão concentrado em seu trabalho que não dispensou atenção imediata a um auror que acabava de adentrar seu escritório. O assunto era importante e o auror não iria esperar pela atenção de seu chefe.

—Sr Potter! Finalmente temos informação a respeito de Draco Malfoy...

Harry parou no mesmo instante de fazer o que estava fazendo, voltando-se para o auror: —O que vocês conseguiram?

O auror deu um sorriso vitorioso e estendeu a Harry uma pasta de papel. Harry a pegou e abriu, encontrando relatórios e até mesmo algumas fotografias.

Harry olhou muito interessado para as fotografias e teve certa dificuldade para reconhecer Draco nelas. Estavam nítidas e muito bem feitas, mas aquele rapaz andrajoso que ali estava não lembrava em nada o antigo Draco Malfoy da época da Guerra, menos ainda o garoto que foi seu colega em Hogwarts. Harry foi passando as fotos, devia haver mais de dez, e em uma delas estava uma particularmente bem focalizada: mostrava Draco de semiperfil, olhando para um ponto qualquer da rua movimentada. Por mais maltratado que o rapaz estava, era indiscutível que aqueles olhos cinzentos e repuxados, o queixo anguloso e maçãs salientes pertenciam a Draco Malfoy.

Não sabia o que dizer de imediato. Estava estupefato com essa revelação, em quão desgraçado ficou o orgulhoso Malfoy. Certamente que seus investigadores fizeram um excelente serviço – e não esperava menos deles – e algo precisava ser dito e ordens despachadas, mas no momento Harry não sabia o que dizer ou pensar. Acreditava que encontraria um homem forte que transparecesse suas tendências homicidas, e não um rapaz acabado, de pele macilenta, seca e quase acinzentada. Por aquele momento Harry teve pena de Malfoy, em quão desgraçada deve ter-se tornado sua vida. E ele sabia, apenas por olhar as fotografias, que Draco havia sido reduzido a um viciado psicótico que minava diariamente seu resto de vida com doses cada vez mais pesadas de narcóticos.

Harry subiu os olhos para o auror, que o aguardava com ansiedade: —Excelente trabalho...

Envaidecido, o auror sorriu em resposta: —Obrigado, senhor! Mas leia o relatório, por favor. Sei que o senhor ficará ainda mais surpreso com o que conseguimos descobrir sobre Malfoy. E assim que o senhor ordenar, poderemos captura-lo.

—Conseguiram algum flagrante também?

—Não senhor, mas podemos usar o argumento de precaução. Infiltramos os aurores no underground como o senhor mandou e eles presenciaram, inclusive, o que o senhor comentou sobre o que o Sr Snape presenciou no subúrbio de Londres.

—Rinha humana...?

—Isso mesmo! Malfoy não participa diretamente, mas nossos infiltrados viram que muitas idéias partem dele... ele é como um líder intelectual, dá sugestões como fossem brincadeiras. Eles não planejam nada a sério, o que é ainda mais repugnante...

—... então os ataques e atentados são como brincadeiras...

—...ou jogos, senhor! Eles não são organizados porque não têm capacidade de organização, porque todos têm muito poder. Eles estão mais preocupados com festas, bebidas e drogas.

Harry baixou sua vista novamente para os papeis e fotos que segurava. Estava preocupado, muito preocupado. Não sentia um mínimo de euforia que achava que sentiria ao encontrar Draco Malfoy.

Nenhuma guerra é tão terrível quanto aquela que é feita por mera diversão...


Fim do capítulo 28: continua...

By Snake Eye's - Setembro de 2008.


N/A: Desculpe possíveis erros, não tive tempo para betagem.

Obrigado pela leitura!

E: renata gomessss Nini Snape Maristela Bella Black Snape Letih Larissa Potter naj Fla Apocalipse Ju Thayz Phoenix Sophi s2 Dinharj Evelinne

Mto obrigado pelos reviews! Espero que gostem deste capítulo, apenas de curto e corrido, mas já são 2 semana sem atualizações e não quero deixar vcs esperando mto mais. Não entrei em detalhes com o Snape e a Hermione, mostrei apenas que eles passaram a noite juntos, fazendo o que fica por conta da imaginação de cada uma de vcs XDD

Bjus! E até a próxima atualização! Bom findi!

Snake ;)