Until It Sleeps – Part I

Ao longo de sua vida, Draco havia ouvido seu pai dizer que Malfoys eram muitas coisas, mas em nenhum de seus longos discursos sobre como se portar de maneira condizente com o nome que carregava, Lucius disse que Malfoys deveriam ser compreensivos.

Isso não significava que Draco não tentasse, mas a cada segundo ele percebia que isso se tornava mais e mais difícil. Lucius nunca fora do gênero pai compreensivo, alguém para quem ele pudesse simplesmente expor suas dúvidas e falar de seus problemas, buscando ajuda para resolvê-los. Lucius acreditava muito mais em deixar que Draco percebesse os problemas e encontrasse, sozinho, uma maneira de lidar com eles.

Não era porque fora um garoto mimado durante grande parte de sua vida que Draco era completamente inútil no departamento de resolver problemas, mas esse era maior do que qualquer outro que já tivesse enfrentado - até mesmo os anos sofrendo com a dominância do Dark Lord. Porque naquela época, suas únicas preocupações eram ele mesmo e seus pais.

Agora, Draco tinha um mundo - seu mundo – para se preocupar. Uma ruptura entre ele e Shadow mudava não apenas uma pessoa a mais ou a menos em seu círculo social. Mudaria a maneira como seu Novo Mundo seria construído: com ou sem a sua influência e ajuda. Não era apenas uma pessoa. Era também - Draco não tinha problema nenhum em reconhecer isso - o poder que aquela pessoa traria consigo.

No entanto, mesmo mantendo esses pensamentos em mente, ao caminhar do ponto de aparatação até a porta de sua casa com Lucius silencioso e tenso ao seu lado, a única parte que Draco conseguia realmente registrar era que Shadow havia se afastado dele sem nenhuma razão explicada, sem nenhum fato que pudesse ter levado à ação. Não havia um porquê claro ou definido, simplesmente acontecera. E Draco não conseguia compreender isso. E ele estava precisando de todos os anos de autocontrole que seu pai havia lhe ensinado para não simplesmente voltar a Grimmauld Place e exigir respostas.

Não que, racionalmente, ele achasse que Shadow daria alguma resposta apenas porque havia sido exigido dele.

Dentro da mansão, havia murmúrios de vozes vindos da biblioteca. Lucius e ele trocaram um olhar, não era do hábito de Narcissa receber visitas não anunciadas ou convidadas, e eles certamente não tinham convidado ninguém até a sua casa àquela noite.

Aproximando-se do cômodo e parando à sua entrada enquanto seu pai seguia em frente, Draco pôde ver um par de olhos castanhos lhe encarando com leve malícia.

"Bom dia, Lucius, Draco.", disse Rabastan Lestrange, erguendo uma xícara de chá em cumprimento. Lucius e Narcissa trocaram um olhar que Draco já conhecia: um daqueles olhares cúmplices através dos quais eles conseguiam simplesmente entender um ao outro sem a necessidade de palavras. Lucius então tomou um lugar ao lado da esposa, mas Draco não entrou no cômodo, apenas encarando o mais novo dos Lestrange.

"Surpresa vê-lo aqui, Lestrange. Desistiu de tentar fazer com que Shadow o convidasse para morar em Grimmauld Place e imaginou que minha mãe teria pena de você e sua briga com seu... irmão?", perguntou com a voz leve e gelada que costumava usar na escola para perturbar seus colegas.

Rabastan, no entanto, não pareceu se zangar com o comentário. Apenas sorriu e escorou-se melhor na poltrona onde estava.

"Ora, Draco, eu estou surpreso de ver você aqui. Afinal de contas, meu irmão ainda está em Grimmauld Place com Shadow. Desistiu de tentar ser o guarda-costas dele?"

E, estranhamente – ou talvez não tão estranhamente assim –, aquilo foi a gota d'água em um dia que simplesmente não havia corrido como esperava, e não era nem mesmo meio-dia ainda.

O silêncio de Shadow, as explicações pedidas a Lucius quando ele podia muito bem ter dito tudo que Shadow queria saber, as dicas sutis à Granger quando ele não recebia nem mesmo um 'bom-dia', e então saber que Rodolphus Lestrange estava na casa e ele havia sido mandado embora como se fosse... como se fosse apenas mais um deles? Ele não era!

Ele era, sozinho, a razão de Shadow não ter se dividido mais uma vez! Ele era a razão de Shadow poder entender e aceitar que Harry ainda precisava existir, e ele seria a razão da união dos dois, não algum daqueles Lestrange, perturbados e destruídos, com problemas demais entre eles mesmos para conseguirem ajudar a qualquer um, quanto mais Shadow!

Sem uma palavra, deu às costas e saiu pelo caminho que havia acabado de entrar, decidido a ir até Grimmauld Place e obter respostas.

Rabastan apenas sorriu, olhando o rapaz se retirar, e pousou sua xícara sobre a mesinha de centro.

"Narcissa, muito obrigada pelo chá.", e se retirou com mais um sorriso.

Ele podia querer tentar se reencontrar sozinho, mas isso certamente não queria dizer que não quisesse mais que Rodolphus fosse dele.

E Shadow certamente não iria ficar no seu caminho.

-x-

Draco entrou na casa silenciosa sem fazer barulho. Arriscando um palpite, foi até a biblioteca, esperando encontrar Rodolphus e Shadow conversando àquela sua maneira misteriosa, cada um tentando parecer mais forte que o outro em meio à fumaça daqueles cigarros trouxas e doses de firewhisky.

O que ele não estava preparado para ver através da porta completamente aberta era Shadow no colo de Rodolphus. As palavras incompletas sussurradas, e gemidos baixos e contidos. A situação íntima demais para duas pessoas que nada tinham uma com a outra.

E a separação, sem nada de íntimo, sem nada de próximo, e o olhar impassível de Shadow. A compreensão brilhando nos olhos de Rodolphus.

E ele não conseguiu, por mais que soubesse que não deveria, evitar se sentir decepcionado.

Ele havia esperado tão mais de Shadow.

Tão mais.

Não se moveu. Não conseguiria mesmo se tentasse, e por isso apenas encarou os dois homens à sua frente, tentando desvendar qual deveria ser seu próximo passo, seu próximo golpe, sua próxima palavra.

Shadow levantou, nenhuma palavra de desculpas em seus lábios, nem mesmo um olhar que dissesse que estava envergonhado – nada. Rodolphus o seguiu, pegando sua capa sobre uma das poltronas no caminho. Shadow, costas para a porta, não interrompeu sua saída, e Draco meramente deu um passo para o lado, olhos cinza fitando os castanhos, que pareciam subitamente cheios de significado.

"Não significou nada.", Rodolphus sussurrou para que Shadow não ouvisse, e Draco meramente acenou em afirmativo, sem confiar em sua voz no momento.

Ele sabia que não havia significado nada. E repentinamente ele quase entendia o porquê do afastamento, o porquê de Rodolphus Lestrange ter acabado de sair dali.

Shadow estava sentindo por ele.

"Nunca pensei que fosse vê-lo sentir medo.", disse Draco, entrando na biblioteca e fechando a porta atrás de si, vendo a mão de Shadow hesitar em erguer o copo de whisky que tinha acabado de servir para si mesmo.

"Se é alguma espécie de desculpa que está esperando de mim, Draco, não vai receber.", devolveu Shadow com o tom de voz de quem pondera sobre o tempo, mas ainda sem virar para encará-lo.

"Eu não quero desculpas. Você não me deve nenhuma. Eu sou seu aliado, Shadow. Sua âncora, e nada mais. Eu entendo perfeitamente do que você precisa, não precisa temer que meus sentimentos entrem em conflito com suas necessidades, porque eles não entrarão. Eu sei meu lugar. E sei o seu."

Finalmente o rapaz moreno se virou para ele, e Draco viu apenas frieza naquele olhar. Mais nada. Nenhum sentimento, nenhum pesar, nenhuma dor.

Exatamente como Shadow deveria ser.

"E Harry?", perguntou Shadow, fazendo Draco dar de ombros e servir-se também da bebida.

"Harry não é você, Shadow."

Shadow baixou o olhar, e pareceu deixar escapar um suspiro de alívio, ou talvez decepção, Draco não conseguiria definir mesmo se tentasse.

Draco podia ver as fraquezas de Potter como um todo – não Shadow, não Harry, mas o conjunto que por anos havia sido tudo que ele havia visto da entidade dividida em dois que agora estava à sua frente, e que era sua missão unir: na hora certa, apenas na hora certa.

"O que é que você quer de mim agora, Shadow? Aonde você quer chegar com essa proximidade com os Lestrange? Eu posso não ser exatamente um exemplo de sanidade, mas até você é mais normal que qualquer um dos Lestrange, em qualquer dia. Por que ele?

"Aonde você quer chegar com isso, Draco?"

"A lugar algum.", declarou o loiro, se afastando novamente, "Só quero estar do lado vencedor de toda essa tempestade que parece cada dia mais próxima, maior e mais perigosa. Você é nosso líder, nossa única defesa contra a opinião pública, contra o governo e contra as ideias erradas que certamente alguns tentarão convencer o povo de que são certas. Você – a sua imagem, o que você representa com o passado que tem – é nossa única linha de defesa. E eu não consigo acreditar que você colocaria tudo isso em jogo apenas por um possível desejo que tenha por um dos Lestrange. Ou pior – por não querer admitir que talvez sinta algo pela mesma pessoa que sabe que Harry sente. Não seja tolo de subestimar Rabastan, Shadow. Rodolphus é dele. Assim como Rabastan sempre vai ser de Rodolphus. E pode não ter significado nada para você ou para ele – mas para Rabastan isso foi uma ameaça. Toda a razão de você e Harry não serem um só é porque você não pode permitir que seus sentimentos prejudiquem seu julgamento das situação – mas quem não tem mais sentimentos é você, Shadow. O resto do mundo continua igual."

Draco tomou fôlego como se fosse falar algo mais, mas apenas balançou a cabeça, colocou o copo sobre o console da lareira, e saiu, ouvindo o som de algo se quebrando na biblioteca quando já estava na porta da mansão.

Ele realmente não sabia se teria condições de juntar todos os pedaços que iam estar espalhados pelo chão quando toda a guerra estivesse, por fim, terminada.

-x-

Rabastan chegou à casa que dividia com o irmão e sentou-se na sala de estar – calmo, composto, sério, remoendo pensamentos que não queria, ou talvez não soubesse como, remoer.

Rodolphus estivera com Potter. Com Shadow. Com Harry. Talvez com Harry Potter, o nome mais clássico, Rodolphus sempre fora um homem firmemente apegado às tradições, no fim das contas.

O que ele estava fazendo lá só ele e o garoto sabiam, mas Rabastan tinha uma boa ideia do que poderia ser, e não estava satisfeito. Não gostava, não queria, não era certo.

Rodolphus era seu. A única coisa, a única pessoa em todo o universo, bruxo ou trouxa, que sempre estivera ali, sempre lhe pertencera, desde que era criança. Seu manto no frio, a voz no silêncio, um ponto ínfimo de sanidade em meio à loucura e dementadores.

Rodolphus não deveria estar com Shadow, não era certo.

A porta da frente abriu e se fechou, mas Rabastan não se moveu, sentado na biblioteca em uma poltrona desconfortável, velha e mal cuidada, seus dedos nervosamente remexendo na lombada de alguns livros depositados por algum deles alguns dias antes. Seu semblante estava fechado, zangado.

Ele não gostava da sensação de perder.

Sentiu o cheiro forte de fumaça de cigarros, whisky e sexo antes de ver Rodolphus. Os passos pesados de seu irmão mais velho pararam junto à porta e ali ficaram, como se ele precisasse de permissão para se aproximar mais, ou de uma ordem para sair, se quisesse não mais estar ali.

"Eu não gosto disso.", Rabastan disse baixo e raivoso, parte confissão, parte uma reclamação que soava quase infantil em sua simplicidade, mas era exatamente isso que Rabastan sentia: ele não gostava. Assim como não gostava do calor, de dias muito ensolarados, de gatos, mosquitos, grilos e leite. Não gostava. Era exatamente na simplicidade do sentimento que ele conseguia encontrar as fundações para sua resposta automática ao que Rodolphus havia feito – e ele nem mesmo tinha certeza do que aquilo era.

"De quê?", Rodolphus perguntou, e Rabastan virou-se na poltrona para poder vê-lo, encostado à porta, seu rosto fechado em zanga, em revolta, em contrariedade – um espelho do seu.

"Você precisa perguntar? Você nunca precisou perguntar antes.", Rabastan devolveu, sentindo-se mais e mais infantil a cada vez que falava, mas não conseguia evitar.

"Antes que você decidisse que prefere ser só você em vez de sermos nós dois? Não, eu não precisava, Rabastan. Mas eu não sei a que você se refere. Não gosta do clima? De estar sozinho? Do livro que você estava lendo?", Rodolphus se aproximou com passos pesados, encarando o irmão com os olhos estreitados de raiva mal contida, "Não gosta do fato de que eu e Shadow estávamos juntos, na biblioteca de Grimmauld Place? Não gosta de que não era você quem tinha ele no colo até poucos minutos atrás? Ou simplesmente não gosta de que agora eu não sou seu irmão, Rabastan?"

O mais novo dos dois não soube o que dizer, sua garganta fechada de tanta fúria e raiva. Rodolphus balançou a cabeça, suas mãos tremendo, uma das poucas vezes em que Rabastan o vira descontrolado com tanta clareza.

"Eu também não gosto disso. Mas foi você quem escolheu esse caminho, Rabastan. Você quis ficar sozinho para ver o que o mundo tinha a lhe oferecer. Eu não vou ficar aqui, apenas esperando."

O homem não esperou que seu irmão respondesse e começou a sair da biblioteca, seu rosto e sua voz uma vez mais calmos e contidos, quando parou à porta e disse, sem virar-se para Rabastan.

"Você sempre foi uma criança mimada, Rabastan. Está mais do que na hora de crescer."

-x-

Daniel Everlast acordou com o alerta alto e estridente que havia posto em sua lareira logo que começara a trabalhar como jornalista. No mundo das notícias nada espera, e se você não é o primeiro a chegar ao acontecimento, você é notícia antiga.

Correndo até a sala principal, enrolado em um roupão velho e esfiapado, Daniel deu de cara com o seu chefe de redação, pálido e parecendo preocupado.

"Ben? O que aconteceu?", perguntou ao rosto flutuando entre as chamas.

"Esteja em Hogsmeade o mais rápido possível. Os trouxas descobriram a vila."

E pelo olhar assustado e carregado de medo de seu chefe, Daniel sabia que não era apenas para passeio que os trouxas estavam no único vilarejo inteiramente mágico da Grã-Bretanha.

Colocou a primeira roupa que encontrou, e partiu com sua máquina fotográfica e seus pergaminhos para o ponto de aparatação mais próximo de sua casa.

Mas antes de sair, mandou um recado através da rede de Floo para Grimmauld Place.

'Hogsmeade está sendo atacada.'


Taram! I'M BACK!

Em homenagem ao Projeto FAWKES – Back From the Ashes do 6V, A Soma voltou! Yay!

Acho que posso declarar com 100% de certeza que estamos, finalmente, na METADE do plot da fic!

Agora sejam amores e deixem review que eu prometo postar logo, que agora entrei no embalo!

Beijos e

R E V I E W !