Capítulo 27 – Quem sou eu?

29 de Maio de 1993

Após a sua pequena aventura, os leões precisavam de respostas e a única pessoa que parecia ser capaz de os ajudar era o Príncipe de Prata, para total e completo desgosto de Ron.

― O basilisco é uma das criaturas mais ferozes que alguma vez existiu, capaz de matar simplesmente ao olhar diretamente nos olhos do alvo…

― E como podes estar tão seguro de que o monstro é de facto essa criatura? ― desdenhou o ruivo ― Ninguém morreu… Foram petrificados! ― exclamou, com um sorriso que delatava escárnio em cada palavra por ele pronunciada.

― Ron! ― Harry chamou o ruivo à atenção. O último que precisava era que os amigos do seu Anjo decidissem que ele não era uma boa companhia para o loiro, devido às palermices sem nexo de Ron, pois como seria fácil de supor, Draco estava acompanhado da sua Corte Imperial aka. guarda-costas.

― Não há problema, Harry! ― disse Draco, acalmando o moreno instantaneamente ― Hermione desenvolveu uma teoria, acaso não se recordam de a ter lido no pergaminho que encontraram na mão dela? ― Ninguém parecia entender aonde o loirinho queria chegar. ― Petrificação através da reflexão! Ora, vejamos… ― Ergueu um dedo, iniciando a enumeração. ― Colin Creevey viu a serpente pela câmara fotográfica ― Levantou um segundo dedo. ―, Justin Finch-Fletchley provavelmente viu-a através do fantasma da Casa de Gryffindor. Pensem bem, Nick já está morto ― Juntou-se um terceiro dedo à contagem. ―, pelo que não pode morrer uma segunda vez! Por essa razão foi petrificado quando a olhou nos olhos. E Hermione… ― Mais um dedo. ― Não disseram que ela tinha um espelho na mão quando a encontraram? Inteligente como ela é, tenho a certeza que o usou para olhar através das esquinas dos corredores e não dar de caras com o basilisco! ― exclamou, gesticulando com as mãos ao agarrar um espelho ilusório e exemplificando a ação da menina.

― E a Madame Norris? Tenho a certeza absoluta que ela não tinha nenhuma câmara ou espelho ― refutou Ron com um sorriso arrogante.

― Água! ― exclamou Harry, com a voz abafada pela estupefação.

― Exato, havia água no chão esse dia. Ela só viu o reflexo do basilisco na água. Boa linha de raciocínio, Harry! ― elogiou Draco, causando um rubor no maior, que não passou despercebido para Blaise, que bufou com desagrado.

― Mas como é que ela se está a mover pelo castelo? ― questionou Theodore ― Uma serpente de tal envergadura não iria conseguir de forma alguma passar despercebida por um período de tempo tão longo.

― Harry, não disseste que escutaste vozes oriundas das paredes? ― sondou o loiro, recebendo um aceno de confirmação.

― O grande Harry Potter finalmente admitiu que está louquinho da carola! ― brincou Blaise, rodando o dedo indicador junto à têmpora, fazendo um gesto que indicava a maluquice do leão.

― Não é isso, Blaise. Harry é um parseltongue e o basilisco é basicamente uma cobra gigante…

― Então, a voz que eu ouço… É o basilisco a falar? ― interrogou o menino de olhos esmeralda admirado.

― Exato! Se a voz vem das paredes…? ― Draco começou a andar de um lado para o outro na pequena sala que haviam escolhido para a sua reunião secreta ― É isso… está a utilizar os velhos túneis do castelo. Lembro-me de ter lido sobre eles em "História de Hogwarts"; foram criados pelos fundadores para atuarem como meio de fuga no caso de sofrerem um ataque da inquisição, antes de serem conjuradas as barreiras sobre a ilha, tornando-a invisível ao olhos dos muggles.

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Os Gryffindors estavam a caminho da Sala Comum quando a Sub-Diretora emitiu um anúncio, no qual ordenava aos alunos entrar nas suas Casas e aos professores reunirem-se no corredor do segundo andar. Como bons leões que eram, Harry e Ron ignoraram o aviso e decidiram espiar os professores, na esperança de descobrir alguma novidade sobre a situação.

― Como podem ver, o Herdeiro de Slytherin deixou outra mensagem. O nosso pior medo tornou-se realidade: O monstro levou um estudante para a Câmara dos Segredos! Os alunos deverão ser enviados para os seus lares; temo que este seja o fim de Hogwarts ― finalizou McGonagall com voz quebrada e concluindo com um suspiro de resignação.

A chegada de Lockhart não foi o suficiente para amenizar o ambiente tétrico que havia avassalado todo o Corpo Docente.

― Peço desculpa, adormeci. O que é que eu perdi? ― questionou com um sorriso de orelha a orelha.

― O monstro levou uma menina, Lockhart. Chegou a tua oportunidade! ― respondeu o Chefe da Casa Slytherin com desdém.

― A minha oportunidade?

― Ora! Acaso não disseste a noite passada, que sabias exatamente onde é que ficava a entrada para Câmara dos Segredos? Pensei que te estavas apenas a vangloriar, mas se for de facto verdade, este é o momento de dar uso ao teu conhecimento.

Para espanto e terror do Professor de Defesa, a Diretora Substituta, Minerva McGonagall, concordou com Snape e incumbiu-o de entrar na Câmara, lidar com o monstro e realizar o resgate. Afinal de contas, as suas habilidades eram lendárias!

Lockhart desculpou-se, dizendo que estaria no seu escritório a preparar-se para a tarefa e abandonou o corredor apressadamente.

― Quem foi a aluna que o monstro levou? ― perguntou Poppy, preocupada com a pobre criança.

― Ginny Weasley!

Escondidos por detrás de uma esquina, o Duo de Leões entreolhou-se, com a preocupação a brilhar fortemente nas suas miradas.

Quando os professores saíram, estes puderam por fim ler a mensagem que o herdeiro havia deixado na parede, que ficara à vista, a simples frase encheu-os com incerteza e terror.

O seu esqueleto jazerá para sempre na Câmara.

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― Lockhart pode ser meio inútil, mas vai tentar entrar na Câmara… ― dizia Harry, enquanto corriam rumo à Sala de Defesa Contra as Artes das Trevas e entravam no escritório do professor ao fundo da mesma. ― Ao menos podemos dizer-lhe o que sabemos.

No instante em que atravessaram a soleira da porta, depararam-se com o mago a fazer as malas entre tropeções, ao querer mover-se mais rápido do que era humanamente possível.

― Vai a algum lado, professor? ― perguntou o moreno confuso.

― Oh! Sim, surgiu um… um assunto. Isso… Recebi uma carta e devo ir-me urgentemente ― Lockhart podia ser um bom ator, mas essa definitivamente não tinha sido nem de perto a sua melhor performance.

― E a minha irmã?! ― Ron sentia a fúria galopar fortemente pelas suas veias ofuscando o medo.

― Pois… em relação a essa lastimosa situação, ninguém lamenta mais do que eu. ― O ruivo, furioso, deixou-se levar pelos instintos, erguendo a varinha quebrada e apontando-a na direção do rosto do professor, que tremeu ao recordar o aviso do Professor Snape sobre os efeitos possivelmente irreversíveis que aquela varinha poderia gerar.

― Vai fugir? Depois de tudo o que conta nos seus livros? ― perguntou Harry, desviando a varinha do amigo com subtileza quase matemática.

― São só livros!

― Você escreveu-os.

― Por favor, usa o teu senso comum. Os meus livros vendem, porque as pessoas pensam que eu fiz todas aquelas coisas. ― A cólera de Ron contagiou Harry, que cerrou os punhos fortemente.

― O senhor é uma fraude! Só toma o crédito do que outros magos fizeram. ― Os punhos do moreno tremiam mais e mais, até que finalmente, ele mesmo tomou a sua varinha e apontou-a na direção do vigarista que se encontrava diante dele.

― Há alguma coisa que realmente consiga fazer? ― perguntou Ron desconfiado.

― Sim, de facto sou extremamente versado em feitiços de memória. Caso contrário, aqueles outros magos teriam falado e eu nunca teria vendido um mísero livro em toda a minha vida ― exclamou orgulhoso o professor idiota. Deu a volta e planeou uma fuga estratégica. ― Aliás, vou fazer-vos o mesm… ― Foi surpreendido com as pontas de ambas as varinhas contra a sua nuca.

― Nem sequer pense nisso. Varinha para baixo, agora! ― disse Harry, querendo bater com a cabeça na superfície mais próxima ao ver o sorriso cínico do seu amigo Ron, que encontrara facilmente uma dupla conotação da sua demanda.

Maldita a hora em que haviam encontrado acidentalmente aquele número de "Varinhas Mágicas", que uma estudante do Sétimo Ano da sua Casa havia perdido na Sala Comum e tiveram a "maravilhosa" ideia de espreitar a revista, deparando-se com vários homens em pouca roupa, nenhuma de facto. Desde então, nenhum podia evitar recordar as imagens das "varinhas" quando escutavam a palavra varinha, ainda mais quando exposta daquela forma naquele tipo de frase e com aquela possível conotação.

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Depois de muita discussão sobre a possível localização da entrada para a Câmara, Harry recordou-se da estudante que morrera cinquenta anos antes, ao encarar a mortífera mirada do basilisco.

Lockhart entrou no quarto de banho sob ponta de varinha, neste caso até foram duas, ou uma e meia, considerando a atual condição da varinha de Ron.

Myrtle, soluçante, respondeu às questões de Harry, levando-o a concluir que a entrada ficava nos lavatórios. Harry abriu a torneira, mas nada saiu, pelo que aproximou-se lentamente e viu uma pequena cobra detalhadamente esculpida, tocou-a delineando os contornos do réptil e ergueu-se.

― É aqui! É esta, Ron, creio que esta é a entrada para a Câmara dos Segredos!

― Diz algo, Harry, diz algo em parsel.

― *Abre-te!*

A parte superior da estrutura separou-se e levitou, ao mesmo tempo que os lavatórios se dispersaram e avançaram. O lavatório onde estava esculpido o réptil desceu, sendo coberto por um escoador e deixando assim a entrada para Câmara totalmente visível e por consequência, acessível.

Um poço profundo e escuro, sem fundo à vista, não seria exagero afirmar que estavam perante um abismo.

― Excelente, Harry! ― disse Lockhart ― Bom trabalho! Bom, eu vou… Não há necessidade de que eu fique. ― Tentou correr rumo à saída do quarto de banho, mas foi impedido pelos estudantes.

― Sim, sim há! ― respondeu Harry.

Lockhart tropeçou para trás e agarrou-se aos lavatórios laterais para não cair no profundo e desconhecido abismo.

― O senhor primeiro ― disse Harry, apontando uma vez mais a varinha na direção do docente, sendo imitado de seguida por Ron.

― Mas, para que serviria isso?

― Antes você que nós. Idade primeiro… ― respondeu o Menino-Que-Sobreviveu.

― … e idiotice também ― concluiu Ron, empurrando o professor vigarista.

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A descida foi atribulada e depois disso, no decorrer da travessia, Lockhart tentou enfeitiçá-los e acidentalmente acabou por apagar a própria memória, ao usar um Obliviate com a varinha de Ron. O impacto do seu corpo contra a parede da caverna causou um derrubamento tal, que acabou por resultar na separação de ambos os leões.

Harry seguiu caminho e Ron ficou preso com um Lockhart ainda mais idiota, se é que isso era possível, o que o obrigou a ter de lhe bater na cabeça com uma pedra para poder calá-lo e dessa forma parar com as perguntas incessantes de "Quem és tu?", "Quem sou eu?", "Que sítio interessante! Vives aqui?", "Devias fazer limpezas. Queres que te ajude?", "Não te sentes só ao viver aqui?", "Onde é o quarto de banho?"…