Capítulo 26
– Batalha Final –
Gina dormia. Imersa em sonhos doces e delicados, sendo levada
lentamente pelas lembranças, pelos desejos... Estava calma. Nunca
estivera tão calma em toda a sua vida. Serena como a primavera, que
já se desenrolava pelos Jardins. E serena como uma doce nuvem que
era soprada pelo vento primaveril.
Abriu os olhos lentamente,
ainda sonhando e levantou o corpo. Reconheceu em instantes a Sala
Precisa e se lembrou do pedido de Harry, da resposta que dera.
Lembrou dos corredores, e de como ninguém sabia do acontecido, e da
promessa de não contar, ainda, que iam se casar. Fora o noivado mais
rápido da história, pois poucos minutos depois da resposta, seus
cabelos eram enfeitados por Hermione com minúsculas flores de
cristal, seu corpo era envolvido pelo toque suave do vestido longo,
bordado com pérolas. E então suas mãos ganharam um buquê de rosas
vermelhas e seu pescoço ganhara uma corrente de ouro, com uma
delicada esmeralda. E dentro da Sala Precisa estava Harry, de terno e
gravata. O feitiço de união de almas, que Harry aprendera nas
memórias de seus pais, realizado por Rony. O irmão e Hermione,
únicas testemunhas do casamento. E ninguém mais importava.
A
Sra. Potter lembrou da longa noite na Sala Precisa, ela e Harry.
Infelizmente, assim como o noivado, fora a Lua de Mel mais rápida da
história. Mesmo assim, a mais completa.
– Já está acordada,
Sra. Potter? – A voz chegou sorrateira, mansa em seus ouvidos. O
beijo chegou depois, em sua nuca. O sorriso se espalhou por seu
rosto. A esmeralda lapidada que Rony lhe dera e Hermione depositara
ao redor do pescoço alvo da garota era a única coisa que sobrara em
seu corpo. Harry a enlaçou por trás e brincou com as mãos dela.
–
Harry – Chamou ela. – Foi o melhor presente que ganhei na vida.
– Foi o meu melhor presente também.
A voz dele estava
abafada, ele enterrara o rosto em suas costas alvas e na pele macia e
quente.
– A Guerra já está começando.
– Eu sei.
–
E você terá de liderá-la, matar a cobra e depois matar o maldito
Voldemort.
– Eu sei.
– E o Ministério vai estar lá. Junto
com o Véu que matou Sirius.
– Eu sei.
– Eu te amo.
–
Eu sempre soube.
Ela riu e girou o corpo. Agora Harry repousava em
seu colo, sentindo o perfume de flores que tanto gostava. Seu coração
não estava disparado, nem ele mesmo tremia. Sentia-se calmo, tão
sereno quanto a mulher ao seu lado.
– Vamos levantar –
Suspirou ele. – Continuamos depois.
Gina concordou e após
alguns instantes, saíram da sala. Ele vestia calças compridas,
camiseta de mangas curtas e botas. O diferente era que substituíra a
roupa negra pelo vermelho e dourado de seus ancestrais. A capa
dourada corria à suas costas, como uma longa cauda, que escondia o
escudo gravado com um Leão e a espada de Godric Griffindor.
Gina
usava as mesmas cores. Botas, calça comprida, camiseta de mangas
curtas, uma capa ajeitada para fazer uma das pontas se tornar um
capuz. A diferença era que a capa não tinha cor, mas parecia feita
de água.
Hermione e Rony, ouro e escarlate também, giraram o
corredor e deram de frente com eles. Primeiro reparam em Harry, que
parecia absolutamente normal e absurdamente feliz. Mas foi Hermione
que chegou primeiro nos olhos de Gina.
Maduros. Fortes. Sem
dúvidas.
Rony foi o segundo à perceber e suspirou. Agarrou a
moça pelo braço e a levou até um canto, enquanto Hermione mostrava
um arco dourado que ganhara para o "irmãozão".
– Mana –
Sorriu o ruivo. – Acho que lhe devo desculpas.
– Por que,
Rony? – Estranhou Gina.
– Eu sempre fui contra seus namoros,
sempre odiei ver a minha pequena irmãzinha, que eu carregara no
colo, com algum garoto. E, sem dúvida, tive vontade de matar o Harry
todos os dias, desde aquele beijo no salão comunal.
"Mas acho
que não preciso mais disso. Minha pequena irmãzinha foi embora,
para as minhas lembranças. E no seu lugar ficou a mulher que vejo
aqui. E não tenho dúvida que se eu me metesse com ela, acabaria
perdendo".
Rony limpou a lágrima solitária que desceu pelo
rosto da irmã.
– Depois que essa guerra terminar, maninha, nós
vamos conversar. Quero conhecer a Sra. Potter, e ver se o maldito
moreno ali atrás é digno dela.
– Harry, eu sei que foi você que pediu aquele Véu pro Ministro.
Sei que você ensinou o feitiço usado na guerra anterior, e que
matou a mãe da Luna. Sei que você planejou tudo isso com base nas
lembranças de seus pais – Hermione tomou ar. – Mas não entendi
o seu plano!
Harry sorriu, mansamente. Desde que acordara, não
tivera mais receio. Alcançara por fim o poder que o Senhor das
Trevas desconhecia. E entendera o quê teria de fazer.
–
Hermione. Acho que se você soubesse, não teria graça. E com
certeza não aprovaria.
– O quê você vai fazer? Jogar
Voldemort no Véu?
– Basicamente, sim.
A moça deixou o
queixo cair enquanto Rony e Gina se aproximavam. Harry então fez um
sinal e eles o seguiram em silêncio até o pátio de entrada do
castelo. E por fim saíram para os Jardins, onde o batalhão
gigantesco aguardava. Ali ele realizou um pequeno feitiço e fez sua
voz ecoar por todo o castelo.
– Hoje termos a nossa batalha
final. E, sem dúvida, venceremos. – O Batalhão gritou, mas Harry
os acalmou. – Só que isso exigirá sacrifícios. Espero que todos
saibam que do mesmo modo que podemos estar comemorando alegremente
nossa vitória no fim do dia, podemos também não voltar. Mas mesmo
assim, nenhuma vida é em vão.
"Hoje estamos aqui para lutar
pelo quê acreditamos. Para combater as trevas que estão ali, em
nossos portões.
"Estamos numa guerra infindável, em que mesmo
quando derrotamos um inimigo, outro ocupa seu lugar. Pode parecer que
é idiotice continuar lutando, então. Mas nós lutamos, e lutamos, e
lutamos. Para que uma hora este grande mal acabe, para que não nós,
e sim as pessoas que amamos, possam viver em paz.
"Hoje eu
lutarei, assim como todos vocês, assim como todos nós. E lutarei
não para que eu possa ter uma vida calma, desfrutando de uma fama
qualquer. Mas lutarei por todos vocês, que me acolheram neste novo
mundo. Que me amaram, que amaram os que amo. Luto hoje, assim como
todos vocês, por todos aqueles que quero que fiquem felizes, que
fiquem em paz. Pois só se eles estiverem em segurança, felizes...
Só então eu também ficarei"
Os aplausos, gritos e clamores
foram ensurdecedores. Então Neville, carregando a Taça de
Huflepuff, e Luna carregando o grande escudo de Ravenclaw se juntaram
à Harry. O homem desembainhou a espada de Griffindor e sorriu. Gina
apanhou um grande arco dourado, uma aljava cheia de flechas e piscou
para ele. Os portões foram abertos e uma rajada curta de magia verde
foi lançada de fora para dentro.
Luna assoviou com força, junto
de Hagrid, e uma manada de Testrálios, que só alguns ali podiam
ver, estourou da Floresta, junto dos Centauros, Lobisomens, elfos
domésticos, todos. A marcha dos povos mágicos se iniciou, num grito
selvagem, e pulou sobre o sombrio inimigo, na força infindável dos
que lutavam pela Luz.
– ESTAMOS SEM FLECHAS! RÁPIDO!
O berro de Gina fez com que
um rapaz trouxesse uma braçada de flechas para ela, Hermione e mais
alguns. Elas estavam numa barricada de aço que um dos duendes de
Gringotes fabricara com magia. A ruiva levantou um pouco o corpo e
disparou uma flecha, cercada de magia, direto num Comensal que se
aproximava. O dardo de madeira se fincou no ombro do homem, e queimou
dolorosamente. Este gritou, tropeçou nas vestes e caiu sobre outro
Comensal.
– Menos um – Resmungou Gina, tirando uma mecha
incômoda do rosto.
Hermione disparou também. Apanhou outra
flecha.
– Menos dois.
Uma moça da Corvinal sorriu e fez dois
pequenos riscos na barricada, perto de onde estava protegida.
–
Quantos, Elise? – Perguntou Hermione.
– Cento e
cinqüenta...
Gina fincou mais uma flecha num Comensal, desta vez
carregada de feitiço de atordoamento. O Comensal agora distribuía
feitiços nos próprio companheiros.
– ...e um.
Neville estava atrás de Luna. O escudo de Ravenclaw era grande o
suficiente para que os dois ficassem protegidos, e poderia aumentar
ou diminuir o quanto quisesse. Impenetrável, agora protegia uma
improvisada enfermaria. Luna o carregava, pois as toneladas de escudo
para todos simplesmente não pesava para ela. Neville era incansável,
distribuindo poções, fazendo emplastos, curando feridas. Suas
habilidades simplesmente eram notáveis. Ele mandara os feitiços e
quase todas as poções para o inferno e fazia pastas, pomadas e
sucos com plantas. Por esse motivo, a estufa era uma parte de sua
enfermaria. Madame Pomfrey estava, simplesmente, aterrada com o
rapaz. Sem hesitar ele aplicava plantas e seivas sobre os feridos,
utilizando propriedades que ninguém conhecia, e os enfermos saiam
como novos. Quando os ferimentos eram graves, enchia a taça com água
e os forçava a beber. Em alguns segundos os que entravam gemendo e
gritando pegavam suas armas e pulavam novamente na batalha.
–
Neville, preciso descansar – Arfou Luna. – O escudo não tem
peso, mas não agüento mais ficar de pé.
O garoto colou uma
camada verde sobre um rapaz e suspirou alto. Ele olhou em volta, e
não vendo nenhum perigo por perto, segurou na mão da loira. O
escudo diminuiu assustadoramente e ele a levou até um dos leitos
desocupados.
– Fique um pouco com ela – Disse a enfermeira. –
Os Curandeiros de reforço chegaram. Eles vão cuidar de tudo por
enquanto. Qualquer problema eu te chamo.
Neville assentiu. Então
passou uma pequena cortina ao redor de onde Luna e ele estavam. Tirou
com cuidado as botas dela e arregaçou as pernas das calças dela até
os joelhos. Com delicadeza, começou a esfregar e afagar as cãibras
da moça, além de curar seus pequenos arranhões.
– Obrigada.
–
É o meu trabalho – Sorriu ele. – Nunca fui bom em luta. Então
cuido dos que lutam.
– E está fazendo um trabalho maravilhoso.
Se não fosse uma emergência, Mme. Pomfrey estaria tomando nota do
preparo daqueles remédios.
– Eu passei meses estudando para
esse momento. Sabia que não ajudaria diretamente, lutando. Mas
pesquisei tudo em Herbologia, e aprendi um bocado em Poções, para
poder ser útil.
– Você sempre é útil – Sorriu a loirinha.
– Pelo menos pra mim.
– Vamos lá, Luna. Você fala como se
estivesse morrendo. Em dez minutos você estará segurando aquele
escudo de novo!
– Eu sei, Nev. Mas estou tão cansada e dolorida
que acho que posso desmaiar a qualquer momento. E acho que isso
poderia significar a morte. Dormir em campos de batalha é muito
perigoso...
– Algum bicho estranho, invisível, vai entrar nos
seus ouvidos durante o sono? – Perguntou Neville, desesperado,
esfregando as pernas endurecidas da moça.
Ela sorriu
graciosamente.
– Não. Desta vez não é nada estranho, ou que
os outros não possam ver. É apenas a realidade fria.
– Nem em
mil anos você vai combinar com realidades frias, Luna. Você é viva
demais para que ela te toque.
– Porque você acha isso?
–
Seus olhos são bonitos demais para que a tristeza fique neles.
Harry enfiou a espada no braço do Comensal e mandou uma carga
elétrica pela lâmina. Faltava muito pouco para chegar à Voldemort.
E ele ainda estava perto do Véu...
Sentiu um silvo à suas
costas. Um arrepio. Então um grito, forte, feminino. Reconheceu que
era o grito de Gina. Virou.
Uma flecha dourada de tanta magia
sobre ela se enterrou na cabeça chata de Nagini, que chegava por
trás de Harry. A cobra morrera em pleno bote, e explodiu graças à
Magia da flecha. Harry usou o escudo para aparar o sangue fétido da
cobra. Encontrou, distante, o olhar de Gina, ainda completamente em
pé, por trás da barricada. Trazia o arco em mãos, e preparava
outra flecha. Uma voz doce ecoou em sua cabeça.
"Isso foi pelo
basilisco. Uma cobra por uma cobra"
A voz foi embora. Almas
ligadas pelo feitiço da União Eterna. O feitiço que Rony fizera,
horas atrás, no casamento com a ruiva. Almas ligadas, corpos
ligados, mentes ligadas. Sorriu alegremente e avançou, com sangue
quente novamente nas veias.
E encarou, sem medo, Voldemort.
– ELE CHEGOU NO VOLDEMORT! ELE CHEGOU NO VOLDEMORT!
O berro de
Gina parou praticamente toda a batalha que ocorria nos próximos cem
metros. Todos olharam para o homem alto e pálido e para o homem
moreno e forte. Havia fogo correndo entre eles, que se olhavam nos
olhos, defronte ao Véu da Morte do Ministério. Mesmo sem nenhuma
brisa o tecido leve do véu estremecia e ondulava.
– Chegou a
hora, Potter. A hora de sua morte.
Harry sorriu.
– Será
mesmo, Tom? Chegou realmente a minha hora?
– NÃO PRONUNCIE ESTE
NOME, MOLEQUE!
– Eu não sou um moleque, TOM. Eu já sou um
homem!
Voldemort riu e sacou sua longa espada esverdeada. Harry
fez o mesmo, e o brilho vermelho de uma lâmina lutou contra o verde
da outra.
– Varinhas gêmeas não lutam. Parece que pensamos
parecido desta vez, Potter.
– Mas não se preocupe, Tom. Foi a
única vez que alcançou a minha mente. Não acontecerá de novo.
–
Hum – Debochou o Lord das Trevas. – E por quê?
Harry se
lançou na direção dele e as espadas se chocaram com um estrondo.
–
Por quê você vai morrer.
A batalha de espadas era realmente
incrível. As lâminas estavam tão carregadas de magia que destruíam
tudo em volta. Até que finalmente, com um grito de triunfo,
Voldemort empurrou Harry o suficiente.
– Acho que não vou
morrer, moleque. Mas não posso dizer o mesmo de você.
E sem
hesitar, lançou Harry no Véu.
E sem hesitar, Harry lançou um
feitiço com a varinha que escondia no bolso, e puxou Voldemort com
ele.
