Capítulo 28 –Aberração.

A manhã nasceu ensolarada. O sol ao centro do céu azul, livre de nuvens, aquecia a terra com veemência. O barulho de grilos e cigarras soava alto pelas terras do Oeste. Uma paz esquisita assomava aquele reino tão acostumado à turbulência.

Rin estava de pé. Nem parecia mais a mesma das olheiras horrendas e da pele moribunda. As maçãs do rosto já se apresentavam mais coradas sobrepondo-se a tez de um morto que antes residia em seu semblante mórbido. Sentiu-se bem depois de tanto tempo de sofrimento, e aquela sensação a fez sentir uma felicidade indescritível. Teve que deixar um sorriso escapar. Finalmente estava a salvo, livre de Shinichiro.

Tratou de escolher um kimono bem bonito e fresco para aquele dia ensolarado. Mal podia esperar para encontrar Jin e Akane, apesar de ainda receosa sobre o que lhes dizer. Respirou fundo antes de emaranhar-se naquele mar de roupas. Por fim escolheu um kimono azul de seda com delicadas flores brancas desenhadas cuidadosamente por todo o tecido fino. Iria por fim vestir-se quando misteriosamente sentiu a claridade do seu quarto diminuir consideravelmente. Como se fosse noite.

Ficou sem entender por um instante, afinal havia acabado de olhar do lado de fora e jazia um dia lindo desmaiando por entre as montanhas do feudo. Uma sensação esquisita apossou-se do seu corpo, um vento gélido nada característico passou forte balançando seus cabelos lisos cumpridos.

Rin retesou-se completamente. Sentiu um frio na espinha, os pelos do corpo eriçaram quase que imediatamente. Um frenesi que já era conhecido. Pôs-se de pé deixando o kimono delicado que iria vestir escorrer da mão trêmula. Tomou coragem e assim que deu dois passos para frente sentiu como se o chão abaixo de si tivesse desaparecido. Estava novamente engolida pela escuridão profunda.

Olhou para suas mãos na tentativa de ver alguma coisa ao seu redor. Viu de relance, entretanto notou algo viscoso e avermelhado. Levou até o nariz e pode constar do que realmente aquele líquido significava.

-Sangue? –ela disse para si um pouco atônita.

Olhou novamente para as mãos e agora sem fazer muito esforço viu com nitidez um pequeno coração que pulsava fraco. Soltou um grito jogando o órgão ao chão. Agarrou-se ao pingente preso em seu pescoço que Cho a deu e pôs-se a proferir como um mantra.

-Não é real. Não é real. Não é real...

Não tardou para que a escuridão por fim desse lugar novamente aos raios de sol que tingia o céu do lado de fora. O calor e o chão abaixo de seus pés também foram voltando gradativamente. E ao abrir os olhos novamente estava a cochilar sobre o kimono azul a qual tinha escolhido outrora.

Sentou-se calmamente deixando um suspiro longo escapar pelos lábios. Encarou a pedra verde que a bruxa a havia dado. Lembrou-se de suas palavras.

-Eu consegui... –ela assentiu mesmo que ninguém pudesse ver. –Não vou deixar que essa energia me domine, nunca mais.

...

Jin estava sentado na varanda que bordeava todo o castelo. Fitava as montanhas ao longe imaginando o quão distante estava de casa. Deixou um suspiro desanimado escapar dos lábios. Não conseguia entender como Rin vivia naquele lugar medonho. Apesar de possuir gigantescas belezas e uma riqueza ímpar não conseguia ficar relaxado um único segundo por conta dos yokais que por ali passavam o encarando de forma incisiva.

-Akane já não o avisou para não ficar andando por aí sozinho?

Aquela voz masculina soou as suas costas. Ele não conhecia perfeitamente o dono, mas de certo imaginava de quem se tratava. Virou-se num instante e pode constatar que estava certo. Era Yashamaru que de braços cruzados o fitava de pé com um semblante sério. Sua armadura negra reluziu com o sol fazendo com que Jin colocasse a mão na altura das sobrancelhas a fim de proteger os olhos.

-Não tenho medo desses yokais. –Jin disse de maneira firme. –Se quisessem me atacar já teriam feito. Só estão querendo me intimidar.

-Onde está Akane? –Yashamaru indagou um pouco desconfortável. –Achei que estivesse com você.

-Ela foi procurar por Rin. Aquele yokai sapo avisou que ela acordou. Disse que veria se ela estava bem para podermos conversar. Iria me buscar caso ela estivesse.

-Sei...

-Akane já deve estar voltando, se quiser falar com ela é só esperar um pouco.

Yashamaru engoliu a seco. Não estava gostando daquela proximidade de Akane e Jin. Acabou por emburrar a cara deixando Jin confuso. O Comandante não disse sequer mais nenhuma palavra, pôs-se a continuar a caminhar sem ao menos se despedir saindo finalmente do campo de visão do rapaz. Jin balançou a cabeça negativamente.

-Que yokai esquisito...

-JIN!

A voz feminina que gritou o seu nome o tirou da antiga situação. Com um sorriso no rosto Jin ergueu-se imediatamente para poder vê-la. Rin vinha correndo em sua direção com o kimono azul de rosas brancas escolhido com tanto zelo para sua aparição. Os cabelos pendendo para trás e com a pele rubra como ele costumava ver no passado. Caminharam para um encontro de abraços sincero. Ela com os olhos cheios de lágrimas, mas dessa vez de alegria de poder vê-lo.

-Desculpa, desculpa por tudo que aconteceu. –ela disse enquanto o abraçava forte.

-Esqueça isso, não tem culpa de nada. Estou muito feliz que esteja bem. –ele sorriu afagando os seus cabelos. –Feliz por tudo ter acabado finalmente.

-Já falei isso para ela! –a voz de Akane finalmente ressoou as costas de ambos, e antes que pudessem se soltar ela os envolveu igualmente num abraço triplo. –Finalmente acabou!

Enquanto os três riam e se divertiam juntos, Sesshoumaru via ao longe aquela cena ao lado de Jaken. Eles não reparariam os olhos do Lord sob seus corpos que em silêncio analisava aquele encontro.

"Por que é que insiste em ficar longe dos seus?" pensou o senhor feudal encarando a menina que ria como há muito tempo ele não via. Divertindo-se como no passado distante do qual era uma menininha e vivia a pescar pelas margens do rio algum peixe sem sorte.

-Senhor Sesshoumaru, será que a Rin vai ficar mesmo bem? –a voz de Jaken cortou as suas lembranças não tão remotas para um yokai tão antigo.

-Só resta esperar.

...

Mitsue estava sentada na ponte que ficava acima do pequeno rio que cruzava o castelo. Com os pés desnudos e as pernas quase que completamente descobertas pelo kimono fino, fitava a água abaixo de si.

Viu ao longe Kenji conversar com alguns yokais. Ele parecia sério, apesar de despojado como sempre. Era um Comandante estranho aquele, ela pensou. Era forte, porém causava uma insegurança que ela não sabia descrever. Ficou a olhá-lo ao longe. Ele bradava sua espada para alguns yokais como se quisesse ensinar alguma coisa ou só estivesse os repreendendo.

O fato é que por um estranho motivo não conseguia mais deixar de segui-lo com os olhos. Analisava clinicamente todos os seus movimentos, seus passos.

Kenji subitamente se virou, e seus olhos se encontraram num baque, mesmo que há muitos metros de distância. Mitsue assustou-se por um instante. Acabara sendo pega desprevenida. Não queria que ele tivesse a visto o encarar por suas costas. A yokai se retesou por alguns segundos, estranhamente sentiu o coração disparar e as bochechas queimarem. Ele somente assentiu levemente com um sorriso no canto dos lábios e pôs-se a voltar a fazer o que praticava anteriormente.

Ela deixou um suspiro escapar pelos lábios. Levou a mão à testa para medir sua temperatura.

-De novo aquela sensação... –falou entre dentes. –Será que meu corpo ainda não se adaptou com a mudança?

Balançou a cabeça negativamente como quem quer afastar pensamentos desagradáveis. E quando deu-se por si já estava a encarar novamente Kenji que não demorou a desaparecer de sua vista.

"Por que estou procurando esse yokai?" pensou franzindo o cenho.

-Mitsue.

Aquela voz feminina que chamava seu nome cortou o ambiente em absoluto. A senhora feudal pôs-se a voltar à realidade e virar-se imediatamente para o lado a fim de ver a dona da voz delicada.

-Rin. –ela sorriu ao constatar a presença daquela. –Que bom que está de volta.

-É bom estar de volta ao meu corpo. –ela sorriu ainda que sem graça. –Posso me sentar ao seu lado?

Mitsue somente assentiu e a chamou com a mão para que ela pudesse sentar-se. Rin sentou de vagar próximo a yokai majestosa que agora repousava seus olhos sobre ela.

-Eu queria agradecer por ter ajudado a me salvar, se não fosse pelas coisas que disse a Sesshoumaru talvez eu não estivesse mais viva... Ou pior, talvez muita gente não estivesse mais viva.

-Foi um palpite. –ela sorriu colocando a mão direta sob o ombro de Rin. –Eu sempre disse que gostava de você, não é mesmo?

-Desculpe por ter sido tão infantil. –Rin se retesou por um instante. Estava com vergonha da sua compostura malcriada anteriormente com Mitsue. –Eu lamento por ter perdido sua energia para poder me salvar.

-Não foi só por você, Rin. –Mitsue a pegou pelo queixo delicadamente a fazendo encará-la. Seus olhos eram ternos, serenos. –Foi por mim também. Eu precisava me livrar de Shinichiro tanto como você. E eu encontrei uma maneira. Você foi uma boa consequência do que aconteceu. Fico feliz que esteja viva.

-Mesmo assim, obrigada. –ela sorriu de volta de maneira leve, as bochechas um pouco rubras pela meninice do passado.

-Se teve alguém que não desistiu foi Sesshoumaru. Ele tem muito amor por você, Rin. Tem muita sorte de ter o amor de um yokai como Sesshoumaru. Ele lhe será leal para sempre. Sesshoumaru fez de tudo para salvar você. E teria feito mais se pudesse.

-Eu sei. –ela assentiu feliz com aquelas palavras, alisou a barriga pontuda e voltou-se a Mitsue. –E tenho que agradecer ao meu filho, que ainda nem nasceu, mas já foi capaz de me salvar. Mal posso esperar para que nasça. Para olhar nos seus olhos.

-Não tem medo por ele? Por ser um meio-yokai?

-Não. –ela balançou a cabeça negativamente colocando alguns fios de cabelo por trás da orelha. –Meu filho será incrível. E nem eu e nem Sesshoumaru vamos permitir que algo aconteça. Não temo os outros yokais. Pois sei que os bons estão conosco.

Mitsue assentiu finalmente com um sorriso no canto dos lábios, e como se fosse óbvio também se pôs a colocar a mão por sob a barriga de Rin. A menina por sua vez colocou a sua mão sob a dela, e elas puderam enfim ficar em paz sentindo a afável brisa passar.

...

Yashamaru estava numa espécie de oficina na parte de trás do castelo. Afiava a sua majestosa espada. De maneira analítica ia aprimorando nos mínimos detalhes a fim de deixá-la a seu gosto.

-Yashamaru!

A voz de Akane o fez sair de sua concentração. Lá estava a pequena meio-yokai dos olhos vermelhos e cabelos loiros encostada na porta tampando com o seu corpo um pouco da luz solar que adentrava aquele lugar escuro e empoeirado.

-Jin disse que estava me procurando. Precisa de alguma coisa? –ela falou novamente indo agora ao seu encontro.

-Jin... –ele revirou os olhos voltando a amolar a espada que a essa altura reluzia perfeita. –Estava sim.

-Por que é que está implicando tanto com Jin? –ela pareceu incrédula. –Ele ajudou muito com Rin, sabia?

-E por que está tão preocupada o tempo todo com ele? –Yashamaru voltou seus olhos a ela que simplesmente balançou a cabeça negativamente.

-Não estou preocupada o tempo todo com ele, da onde você tirou isso?

-Desde que voltou não sai mais do lado desse tal de Jin. Parece sombra.

-Estava tentando protegê-lo dos yokais daqui, Rin iria ficar muito triste se algo acontecesse a ele. E eu nunca iria permitir isso, pois ele é uma boa pessoa.

-Nosso senhor já havia dito para ninguém encostar nele, não precisava também ficar bancando a babá o tempo todo. Jaken estava de olho nele.

-Nossa, por que está com tanto mau-humor? Credo! –ela lhe deu uma careta. –Foi me procurar para passar um sermão? Até parece que está com ciúmes!

-Ci-Ciúmes? –ele pareceu enrubescer. –Eu não seria tão ridículo!

-Mas é o que está parecendo! –ela sorriu contente. –Mas eu não tenho nada com ele não.

-Isso não é da minha conta. –Yashamaru voltou a ajeitar a espada que a essa altura já não tinha mais nada para afiar.

-Sei... –ela suspirou frustrada. –O quê você queria comigo afinal?

-Eu tenho que te dar uma coisa. Já faz algum tempo...

Yashamaru enfiou a mão por dentro do seu kimono negro, buscou por algum tempo até por fim achar um embrulho. Algo estava cuidadosamente embalado no tecido elegante. Ele a entregou cuidadosamente, parecia um pouco sem jeito. A meio-yokai ficou sem entender por alguns instantes, e ainda sem ter o que dizer desenrolou para finalmente ver do que se tratava.

Era um sofisticado prendedor de cabelo. Um pauzinho dourado onde a base possuía duas flores: uma lilás e a outra amarela. Das flores pendia duas correntinhas, uma maior que a outra contendo duas pedras rubis.

Akane ficou surpresa por receber tal presente delicado. Ficou a fitar aquele acessório com as faces rubras.

-Eu estava te devendo um presente, não é? –Yashamaru quebrou o silêncio incômodo. –Daquela luta que você venceu, lembra?

-É... Muito bonito. –Akane sorriu voltando seus olhos para ele.

-Você quase nunca prende o cabelo com isso, achei que... Que iria... Ficar bem em você. Minha irmã sempre usava algo assim. –Yashamaru coçou a nuca virando-se um pouco para o lado.

-Eu me lembro. –ela assentiu contente. –É muito bonito.

Akane soltou os longos cabelos no mesmo instante. Pôs-se então a preparar um coque alto bonito, deixou apenas uma pequena mexa de cabelo do lado direito que emoldurava o rosto. E assim que ficou pronto, colocou o prendedor que Yashamaru a tinha dado.

-E então? –ela sorriu contente.

-Está... Está muito bonita. –ele por fim disse deixando um sorriso igualmente escapar dos lábios.

-Acha mesmo? –ela corou feliz.

-Sim... –ele cruzou os braços um pouco incomodado com aquele assunto. –Eu acho.

-Obrigada, Yashamaru.

Akane num ímpeto abraçou o yokai que por um instante ficou sem ação. Mas ao sentir o perfume daquela, o seu corpo quente e lembrar-se de que fazia tanto tempo que não ficavam sozinhos daquela maneira, acabou por se entregar a aquele momento. Ele a abraçou um pouco mais forte e de forma mais carinhosa, e aquela reação surpreendeu Akane bruscamente que não esperava tal atitude vinda daquele yokai.

Ficaram em silêncio. Sentindo seus corpos unidos. Um abraço que deve ter demorado pouco menos de quinze segundos, mas que para eles durou toda uma eternidade. Ao desvencilharem-se calmamente um do outro perceberam o quão próximos estavam. Suas faces rubras eram evidentes.

Akane pode sentir a respiração de Yashamaru em seu rosto. Sentiu que também ofegava. Tentou se separar, entretanto foi impedida pelo mesmo.

-Eu queria que soubesse de uma coisa. –ele disse com os olhos amenos. A fitando profundamente. –Estive pensando em você nos últimos dias, mais em você do que em mim mesmo.

-Yashamaru...

-Tive medo de não te encontrar mais. Nunca mais quero me separar de você de novo, Akane.

Aquelas palavras ficaram ecoando no interior da meio-yokai. Seria aquilo um sonho? Se fosse era melhor não acordar nunca mais. Atônita diante do que ouvira ficou completamente inerte.

E como se fosse óbvio ela atirou-se novamente em seus braços, mas dessa vez puderam selar enfim um beijo terno que demorou tanto tempo para acontecer.

Um beijo que pediu outro e mais outro. Até por fim seu prendedor escorrer pelos cabelos lisos e cair ao chão num baque abafado.

Os rubis que pendiam da trabalhada corrente reluziram os feixes de luz daquele dia.

...

-Meu irmão está se aproximando. –Mitsue disse ao entrar no quarto em que Sesshoumaru se encontrava com Rin.

O yokai estava sentado confortavelmente a frente de Rin que possivelmente tagarelava antes de Mitsue adentrar ao quarto sem pedir licença.

-Eu já o esperava. –Sesshoumaru disse erguendo-se calmamente.

-Ele deve estar sentindo a energia sinistra de Shinichiro. –Mitsue suspirou. –Vai querer me matar quando souber de tudo.

-Não é só a irmã dele. Agora é a senhora feudal desse castelo. –Rin acabou dizendo de uma forma tão simplista aquela frase que surpreendeu a yokai dos olhos verde-oliva. Mitsue somente assentiu com um sorriso no canto dos lábios.

-Fique aqui, Rin. –Sesshoumaru lhe falou seriamente e a menina somente assentiu.

...

Os grandes portões gemeram alto antes de finalmente se abrirem. Souichiro estava lá, do outro lado, e dessa vez não estava somente na companhia de seu General e Comandante. Trazia consigo um grupo enorme de yokais armados até os dentes. Postava-se a frente de todos, com as vestias antigas e uma armadura bem desenhada protegendo o peitoril. Apoiava uma espada longa no pescoço, maior do que a maioria das espadas comuns. Seus olhos verde-oliva pareciam furiosos.

Sesshoumaru que tinha Jaken ao seu lado parou próximo a Kenji e Yashamaru que naquele instante encontravam-se a postos próximos ao portão do lado de dentro. Akane que chegara atrasada via tudo de cima da enorme árvore do castelo.

O senhor das terras do Oeste arqueou uma única sobrancelha ao presenciar aquele pequeno exército que vinha na companhia de Souichiro.

-O que significa isso, Souichiro? –Sesshoumaru indagou de uma vez.

-Me diga você, Sesshoumaru. Faz um tempo que sinto a energia imunda daquele yokai e mal sinto a presença da minha irmã. O que está acontecendo nesse castelo?

-Não precisava fazer essa cena ridícula. –Sesshoumaru disse em tom impaciente. –Venha comigo.

-Onde está a minha irmã, Sesshoumaru?

-Eu estou aqui. –a voz feminina de Mitsue cortou o ambiente.

A yokai apareceu na varanda do castelo. Tanto Souichiro como os outros pareceram surpresos por vê-la. Houve um pequeno burburinho entre os yokais que foi silenciado novamente por ela.

-Vamos entrar. Temos muito que conversar.

...

Dentro do salão principal encontravam-se somente os três de pé. Mitsue pôs-se a contar toda a história pacientemente para seu irmão que mudava de expressão o tempo todo com todas aquelas revelações.

-Eu não posso acreditar que você fez tudo isso nas minhas costas! –Souichiro grunhiu irritado passando a mão pelos cabelos os desgrenhando pouco a pouco. –Eu mal a reconheço, Mitsue!

-Pois saiba que fiz e continuo sendo a mesma yokai de sempre. –ela o respondeu firme. –A energia era minha, talvez tenha me livrado dos maiores fardos de minha vida.

-Você não pode estar falando sério! Você deu parte de seus poderes para salvar a concubina do seu marido? Pior! Uma mulher humana! –Souichiro acabou gritando irritado. –Você só pode ter ficado louca!

-Como você é dramático, irmão. –ela suspirou pressionando as têmporas.

Sesshoumaru puxou o pequeno vidro mágico da qual continha a alma de Shinichiro e mostrou a Souichiro que pareceu relaxar por um minuto.

-A alma daquele yokai está aqui. –Sesshoumaru jogou o relicário para Souichiro que o pegou no ar. –Faça o que quiser com ele.

-Por que não acabou com ele de uma vez? Por que está me dando isso?

-Para provar que fiz o que você não fez todos esses anos, que peguei Shinichiro e que Mitsue está finalmente protegida desse yokai.

-Quanta arrogância. –Souichiro sorriu maldosamente. –Só conseguiu porque Mitsue o ajudou!

-Se bem me lembro ela é casada comigo, logo foi o meu feudo que conseguiu a vitória, e não o seu. –Sesshoumaru sorriu irônico o que deixou Souichiro visivelmente irritado.

-Sesshoumaru, você...

-Está sofrendo mais do que eu Souichiro. –Mitsue o interceptou. –Eu não fiz tudo para salvar Rin, fiz para me salvar também. Você sabe disso.

-Que seja Mitsue, mas e esse meio-yokai? –ele fitou a ambos completamente absorto. –Vai ser um escândalo! Era pra ser você a esperar um filho, não uma camponesa humana!

-Quem arranjou esse casamento foi você, bastava assinar um contrato. –ela deu de ombros pouco se importando. –Isso não vai mudar nada. Ninguém vai deixar de segui-lo ou seguir Sesshoumaru por conta disso.

-Não se ofende com a sua honra? –Souichiro balançou a cabeça negativamente. –Podíamos acabar com esse casamento agora mesmo. E terminar de vez com esse contrato!

-Isso é tudo o que você que não é mesmo, Souichiro? Você sempre quis invadir o meu reino no fim das contas. –Sesshoumaru o encarou profundamente colocando a mão na barra da espada presa em sua cintura. –Se quiser, faça isso agora.

-Ele não vai fazer nada disso. –Mitsue interrompeu o clima áspero que havia se firmado no local. Pegou na mão de Souichiro que ainda parecia incrédulo demais com tudo que havia ouvido naquele curto espaço de tempo. –Esqueça isso. Nossos feudos estão bem juntos. Não comece algo sem sentido. Sei que o sangue guerreiro soa mais forte em seus ouvidos, mas precisa escutar a sensatez.

Souichiro ficou a olhar para Mitsue por algum tempo. Tentou buscar sentido em tudo aquilo, mas foi incapaz. Entretanto acabou cedendo aos seus olhos, que apesar de iguais aos seus, emitiam um brilho a mais. Ele deixou um longo suspiro escapar, puxou a mão de volta para si e repousou em cima da cabeça da irmã como tinha o hábito de fazer.

-Se quer assim eu não vou falar mais nada. Conviva com essa aberração nesse castelo.

Sesshoumaru engoliu a seco aquelas palavras de Souichiro. Franziu o cenho desconfortável ao ouvir tais dizeres. Mas o que podia o Lord das terras do Oeste dizer? Não podia culpá-lo afinal. Lembrou-se de todas as vezes que chamara Inuyasha, seu meio-irmão, assim. Acabou por virar-se de costas e encaminhar-se para fora.

-Sesshoumaru. –Souichiro o chamou novamente interceptando o grande Yokai que somente virou o rosto ainda de costas. –O nosso acordo continua.

Sesshoumaru não disse mais nada, continuou o seu caminho deixando aqueles dois para trás. Quando finalmente saiu da vista daqueles, Mitsue abraçou fortemente o irmão.

-Desculpe por ter dito tanta coisa ruim naquele dia. Eu amo você, meu irmão.

O Lord que era tão sanguinário de repente esmoreceu. Deixou um sorriso límpido escapar dos lábios e afagou os cabelos macios da irmã.

-Eu também amo você, Mitsue.

...

Dentro do quarto, Jin tomava um chá fumegante na companhia de Rin. A paz de antes havia sido dominada bruscamente por aqueles yokais que iam de um lado para o outro falando alto.

-Que agitação é essa? –Jin disse enquanto assoprava o chá em suas mãos antes de tomar um gole do líquido esverdeado. – Parece que ficaram todos loucos.

-Sempre quando o irmão da Mitsue vem ao castelo acontece essa confusão, apesar de que hoje está mais do que o normal. –a menina respondeu dando um longo suspiro. –Espero que fique tudo bem com Sesshoumaru.

-Tenho certeza que ele sabe se cuidar. –Jin sorriu confiante. –Vai ficar tudo bem, Rin.

-Vai. –ela assentiu um pouco mais animada.

-Já que você está bem, eu preciso voltar para o vilarejo. –ele anunciou repousando a xícara ainda um pouco cheia no chão de madeira. –Já fiquei muitos dias afastado. As pessoas precisam de mim.

-Eu entendo. –ela assentiu entristecida. –Gostaria que ficasse aqui comigo.

-Nesse covil de lobos? –ele riu baixinho. –Nem em sonho. Eu não consigo imaginar como consegue viver todos os dias de baixo dos olhos desses yokais.

-Eu acho que acabei me acostumando. E agora, com essa energia sinistra no meu corpo, parece que eles me ignoram. –ela riu dando de ombros. –Algo de bom tinha que acontecer, não é mesmo?

-É. –Jin sorriu contente. –Fico feliz por vê-la feliz. Prometa que vai ficar bem, sim?

-Eu prometo! –ela sorriu novamente pegando nas mãos do amigo. –Vou sentir saudades. Tente vir algum dia que esteja passando pelo castelo. Venha visitar a mim e ao meu filho.

-Eu virei. –ele beijou as suas mãos em tom de respeito. –Amanhã, assim que o sol nascer, irei partir.

...

Quando os últimos raios solares pisaram no castelo Souichiro se preparou para partir. Foi-se com seus soldados da mesma maneira que havia chegado: de maneira barulhenta. Ao finalmente abandonarem o local tudo voltou a ser calmo e silencioso como antes.

Sesshoumaru lia alguns pergaminhos antigos no silêncio de seus aposentos. A luz bruxuleante do fogo que crepitava parecia não incomodar seus olhos aguçados. O que tirou sua atenção foram os passos bem suaves atingindo a madeira em direção ao seu quarto.

O yokai já estava preparado, fitou a porta que deslizou em seguida mostrando aquela silhueta feminina conhecida.

Era Rin quem entrava no meio da noite com um sorriso sincero nos lábios viçosos. Ela fechou a porta atrás de si e encaminhou-se até aquele que a acompanhou com os olhos.

-Pensei que já estivesse dormindo. –ele lhe disse deixando os papéis de lado.

-Fiquei com um pouco de medo de dormir. –ela colocou a mão atrás da cabeça como se estivesse um pouco sem jeito. –Às vezes tenho aquelas visões estranhas. São tão reais... Sinto um pouco melhor quando estou acordada.

-Isso vai passar com o tempo.

-Sim! –ela sorriu sentando-se a frente de Sesshoumaru. –Pensei que podia ficar aqui essa noite.

Sesshoumaru assentiu fazendo com que ela deitasse em seu Futon ficando a sua espera. O yokai apagou toda a chama acesa, emergiram na escuridão, mas daquela Rin não tinha medo. Pois em seguida ele encontrou-se com ela por debaixo das cobertas finas e macias.

Ficaram encarando-se em silêncio. Ela podia ver com clareza seus olhos âmbar desafiadores que naquele instante pareciam inofensivos. Nada típico do yokai que ele era.

Ousou então a tocar em seu rosto aveludado. Acariciou-o de leve até finalmente encostar seus lábios no dele. Fazia tanto tempo que não estavam assim tão próximos. Pensou que poderia morrer ali que não iria mais se importar. Estava onde queria. Não iria embora nunca.

Rin sentiu as mãos dele por dentro do seu kimono. Um único toque na pele a fez arrepiar-se por completo. Que saudade que sentia daquela sensação, daquele frenesi que só ele era capaz de produzir em seu diminuto e frágil ser.

Entregou-se mais uma vez, dentre tantas que já havia. Deixou-o bailar sob sua pele lisa, passar os lábios pelos pontos mais excitantes. Arfou com o seu toque íntimo e desejou que jamais terminasse.

Não sabia como seria o caminho pela frente, e tampouco se tinha chances de sobreviver por muito tempo ao seu lado. Mas tinha a certeza de que era ali, debaixo dos braços daquele impiedoso yokai que queria viver.

...

CONTINUA...