Esta noite eu sonhei com peixes mortos e ovos quebrados

E aprendi com o senhor Anaxarco

Que ovos quebrados e peixes mortos significam infelicidade

- Molière

Não estavam no aposento comumente usado para reuniões, mas sim onde já fora uma amigável e cálida sala de visitas no andar de baixo. Pesadas cortinas cobriam a visão do jardim onde a grama que se agitava calmamente; há anos crescia livre durante a primavera e o verão e somente o outono e o inverno podavam-na. O Lorde parecia abatido, ainda que aquilo fosse difícil de ser afirmado pela coloração inusitada de sua pele que, ao contrário da grama, não sofria nenhuma influência temporal ou climática além da temperatura do interior da casa e a brisa sempre fria da noite. Augustus podia dizer aquilo porque sua postural corporal, sempre tão altiva, soberana, e ao mesmo tempo relaxada como se sempre tivesse o mundo entre as mãos agora estava tensa e cerrada em si como se aguardasse um ataque repentino a qualquer instante.

Era no mínimo estranho pelo fato de estarem tão próximos da vitória definitiva, e era exatamente como Valkiria andava nos últimos tempos, apesar dele imaginar que os motivos eram distintos. Os assuntos do Ministério estavam praticamente nas mãos dos Comensais e ele não perdia tanto do próprio tempo se preocupando com a deposição do Ministro e quem seria o próximo; apenas ordenou que Bagman morresse em um ataque para que os aurores não conseguissem arrancar nada dele e que seus espiões prosseguissem dominando o máximo de pessoas que tivessem ao alcance. O assunto ali era outro.

Ao lado da poltrona de Voldemort estava Reiniger quase ocupando um divã inteiro com sua corpulência e relaxamento tão destoante do resto da cena, enquanto o irlandês mantinha-se desconfortavelmente sentado junto a Severus Snape em um sofá corroído por traças. O jovem andava frequentando o círculo com muito mais constância do que ele ou a esposa jamais frequentaram, e pelo fato de estar perante eles em um encontro sem máscaras ou mistérios, era óbvio que possuía a confiança do mestre.

- A presença de Snape se faz necessária, Rookwood. - A voz fria falou, completando a observação que o Inominável fazia sobre o rapaz em silêncio. – Em verdade estamos aqui hoje graças a um assunto que ele me trouxe. Uma profecia deveras intrigante, se ele tiver a bondade de compartilhar com os cavalheiros palavra por palavra do que ouviu... – fez um gesto direcionado ao jovem, indicando que aquilo era, naturalmente, uma ordem.

O irlandês trocou um olhar com Reiniger, que era tão próximo da família e especialmente afável a ele no que se referia aos Mistérios que Augustus via-o como a um sogro, e naquela qualidade sabia que a indagação muda sobre o motivo de toda aquela cerimônia era compartilhada.

- Aquele com o poder de vencer o Lorde das Trevas se aproxima. – Snape iniciou a fala, obedecendo estritamente a ordem que lhe foi dada. - Nascido dos que o desafiaram três vezes, nascido ao terminar o sétimo mês. O Lorde das Trevas o marcará como seu igual, mas ele terá um poder que o Lorde das Trevas desconhece. – Ele fez uma pausa, observando os olhares que caíam sobre si. – Foram estas as palavras que ouvi, porém fui expulso do lugar antes que pudesse prosseguir.

- Quem realizou esta profecia? – Perguntou Reiniger imediatamente, com um tom de aflição na voz que o fez endireitar a postura prontamente.

Voldemort pareceu ter considerado o tom dele algo positivo para algum pensamento próprio que estava elaborando, pois sorriu antes de respondê-lo calmamente:

- Não se preocupe, não foi nenhum dos seus. – Observou, mordaz. - Sybill Trelawney, descendente de Cassandra e tida como uma completa charlatã até então, revelou-a a Albus Dumbledore. O senhor considera a possibilidade desta profecia ser fruto do resquício de um dom, a obra-prima de uma vida? Ambos sabemos que há bruxos capazes de fazer uma única predição grandiosa sobre a mudança de cursos históricos que imaginávamos capazes de prosseguir ininterruptamente; e ambos sabemos o quanto isto pode consternar alguns e dar falsas esperanças a outros, não é mesmo?

- Exatamente. – Limitou-se a responder, por mais que a fala do Lorde o tocasse intimamente. – O caso de ser oficialmente uma profecia ou não cabe a Augustus averiguar. Palavras ditas ao acaso, afirmações, esperanças pronunciadas não geram nada além de ondas fracas ao redor da própria pessoa, no entanto predições criam impressões concretas devido a uma ordenação mágica. Archimedes Freher, seu chefe, é especialmente talentoso em captá-las e transformá-las imediatamente em objetos de estudo. Não tenho dúvidas de que ela já se encontra no Departamento de Mistérios.

- O Hall das Profecias é mais impenetrável do que a Câmara da Morte. – Rookwood interpôs. – O velho Freher considera os assuntos dos vivos mais dignos de segredo do que os dos mortos. Até onde eu saiba as profecias que chegam passam por um longo período de análise nas mãos dos Inomináveis responsáveis, que criam uma espécie de tapeçaria do destino, uma tentativa de registrar com o máximo de perfeição o trabalho das Moiras. Depois são arquivadas e esquecidas.

- Um trabalho em conjunto com os Inomináveis que trabalham com o tempo, imagino. É muito audacioso, se tenho a capacidade de interpretar o interesse deles bem, estão tentando encontrar o elo que liga todos os acontecimentos e, somando passado, presente e futuro, concretizar uma cadeia atemporal que possa ser magicamente trabalhada sem necessidade de retornar ou avançar com Vira-Tempos. – Reiniger falou, parecendo seguir uma linha de raciocínio tão fascinante que quase o retirava completamente em espírito daquela sala, tão longe seu olhar foi enquanto divagava.

- Operar como se fosse possível mudar acontecimentos passados de modo a construir um futuro ideal? – O rapaz de cabelos oleosos finalmente se pronunciara sem necessitar ordens, parecendo considerar aquilo realmente intrigante.

- Consiga-o para mim, Rookwood. – Decretou Voldemort, sem permitir que as reflexões prosseguissem. – O futuro já está escrito, meus fiéis amigos, e nele não haverá espaço para filhos de traidores e prerrogativas heróicas. Os heróis serão vocês que construirão o novo mundo ao meu lado, aos outros caberá a morte e a servidão.

- Milorde, eu terei que invadir o Hall das Profecias e talvez até mesmo passar sobre o cadáver de Freher para obter...

- Pois o senhor fará tudo o que for necessário, Rookwood. – O homem viperino interrompeu-o, com tranqulidade fria. – Reiniger conhece os Mistérios e seus homens melhor do que você, pelo que estou vendo, e tenho certeza que estará à sua disposição no que necessitar, não é mesmo... velho amigo?– Sorriu de maneira torta uma segunda vez para o Ministro alemão.

- Tudo o que estiver ao meu alcance, milorde.

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Augustus adentrou sozinho a mansão uma vez que Reiniger fora detido para uma conversa particular com o Lorde. O silêncio que reinava supremo indicava que o filho estava preso nas garras educacionais de Valkiria, então não houve outro aposento que o irlandês buscou antes de abrir a porta do escritório para ver o pequeno em uma cadeira alta manejando com absoluta concentração a pena sobre um pergaminho à mesa. A loira ao lado supervisionava com os óculos apoiados na ponta arrebitada do nariz.

- ...seu "e" ainda está muito fechado, parece um "i" sem ponto, e aqui é letra maiúscula. – Ela cessou a avaliação e levantou o olhar para o marido em uma saudação vaga. – Augustus.

- Papai!

Caesar, ao contrário da mãe, assim que avistou o pai abriu um sorriso imenso e largou a pena de qualquer jeito sobre o pergaminho, saltando da cadeira para correr até ele e ser recebido por um abraço tão grande quanto seu sorriso. O homem agora sabia que ele mesmo tinha um problema a resolver e uma preocupação a lidar, talvez não pudesse dar aquela atenção ao filho por vários dias seguidos, ou semanas, quem sabe meses; e era algo que Valkiria não faria por ele. Os olhos azuis que o recebiam, alegres por vê-lo, inspiraram repentinamente Rookwood, que sem pensar duas vezes disparou:

- Comportou-se bem hoje? Será que a sua mãe tem algum motivo contra eu te levar a um jogo dos Kestrels?

- Um jogo de verdade? – O pequeno perguntou, já maravilhado com a ideia de entrar pela primeira vez em um estádio de quadribol.

- Você está louco? – Valkiria pareceu ter desaparatado e aparatado em sua frente, tão rápida foi sua aproximação furiosa. – Levar uma criança para o meio de um bando de irlandeses insanos, Augustus?

- Ele estará comigo, Valkiria. – Defendeu-se prontamente, no entanto ela permaneceu fulminando-o com o olhar como se não tivesse escutado resposta alguma. – É só um amistoso contra os Prides, você sabe como os torcedores deles são frouxos, é só soltar algumas azarações e eles saem correndo...

- Não! – Ela exclamou definitiva, as duas mãos na cintura e a pose arrogante que remetia Augustus às primeiras implicâncias entre eles, fazendo-o sorrir torto e despropositadamente, sendo ignorado por ela que prosseguiu: - Caesar, você tem uma lição para terminar.

- Mas, mãe... só hoje... – protestou o menino, choroso, enquanto a loira retornava altiva para a mesa.

Antes de sentar-se novamente, no entanto, soube pelo som sutil da desaparatação que o marido realmente havia relembrado os velhos tempos momentaneamente e bancado o petulante com ela. Respirou fundo, fechou o livro e arrumou os pergaminhos no escritório vazio.

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Abriu os olhos assim que sentiu o toque quente a envolver os tornozelos e tentar subir pelas suas pernas abaixo do lençol. De sobressalto Valkiria fugiu das mãos de Augustus e levantou-se da cama, fazendo-o seguir a seu encalço enquanto parecia fugir dele pelo quarto.

- Valkiria, o garoto merece sair e se divertir de vez em quando, você não sabe como ele ficou feliz em assistir um jogo de verdade pela primeira vez... – o irlandês andava incansável por trás dela, tentando se explicar.

- Você me desacatou na frente dele! – Ela voltou-se para ele abruptamente, sem medo de elevar a voz. – Se ele pegar este hábito seu, eu juro por Loki que abandono vocês dois!

O olhar dela fremia enquanto as bochechas coravam de raiva, o homem não podia levar a sério aquela pequena ameaça, que já ouvira tantas vezes, e sequer conseguia deixar de reparar em como ela estava linda irada. Se quando dominava seu corpo e seu coração pela paixão era difícil vê-la expressar além do ato, tê-la dominada pela raiva contra ele e de maneira tão aparente era algo inevitavelmente delicioso. Puxou-a para si pelos ombros, sentindo-a relutar e ainda assim cessar os débeis tapas quando a boca dele invadiu a sua. Se a esposa quisesse realmente acabar com ele, ela seria capaz de fazê-lo com as mãos nas costas. Aproveitou o momento para provar o sabor do sono perturbado e interrompido que amargava o gosto de seus lábios macios assim como o calor do momento amargava seu temperamento já tão difícil. Provou, logo após separar a boca da dela, a força de um tapa que ardeu em sua face enquanto a via se afastar e se fixar de costas a ele perante a janela.

- Você só piora com o passar do tempo, Augustus, nada é sério para você. – Murmurou agora, como uma constatação triste.

Rookwood aproximou-se dela e chegou a esboçar um toque em seus cabelos soltos, ligeiramente bagunçados. No entanto, como ela encolheu-se incomodada com o mero roçar de seus dedos pelos fios mais arrepiados, acabou desistindo da ideia.

- Eu estive com o Lorde hoje, Reiniger também estava lá. Se você se perguntava sobre o motivo dele não se preocupar tanto com o futuro Ministro britânico quanto você acha que deveria, eu tenho essa resposta para você.

Valkiria virou-se lentamente, mantendo-se de perfil, olhando-o de soslaio. Era sua maneira silenciosa de pedir para que ele prosseguisse ainda que estranhasse suas palavras, e estranhou ainda mais depois que ouviu o relato completo pela boca do marido. De repente a breve fuga dele com o filho não era mais algo que importava.

- Isso é terrível, essa profecia, surgindo justo agora... – ela praticamente sussurrou em resposta a tudo, tão vaga que Augustus não soube o que dizer e aguardou o silêncio dela quebrar-se novamente: - Você sabe quantas vezes isso já aconteceu nas histórias e nos mitos? O rei escuta sobre a história da criança que nascerá para destroná-lo, sai em uma cruzada precipitada e são os erros que comete nela que fazem com que a criança acabe por destroná-lo de fato.

- Val, isso não é uma história fantástica, isso é a realidade. Primeiro eu tenho que ter certeza que o que foi dito é uma profecia de fato, e então conseguir o que me foi pedido. Ele possivelmente matará todas as crianças que nascerem em Julho, um bebê morto não é capaz de realizar coisa alguma.

- Matará absolutamente todos que nascerem em Julho? Bruxos e trouxas, no mundo inteiro? Ninguém será poupado, ocultado, protegido, haverá um extermínio de fato? – Ela meneou a cabeça negativamente, respondendo a própria pergunta. – Não é assim que as coisas acontecem.

- Se Reiniger estiver certo e este tal artefato capaz de alterar os fatos existir e cair nas mãos do Lorde, não será necessário sequer matar alguém. Algo assim transformaria qualquer um no escritor do destino.

- Agora é você que está acreditando em histórias fantásticas.

Novamente foi vaga, e novamente o marido permaneceu em silêncio aguardando que ela prosseguisse, porém desta vez a voz dela continuou mud, e tudo o que aconteceu em minutos foi uma troca de olhares que deixou o ar mais denso.

- Volte a trabalhar no Ministério, Valkiria, cuide de tudo o que te preocupa. Eu sei que você será capaz de dominar Crouch e talvez até mesmo definir o próximo governante. Eu farei o que o Lorde me ordenou, e este é um assunto que eu cuidarei, fique tranquila em relação a isto.

- Só não confie tanto assim na boa vontade de Reiniger. Pode não parecer, aliás, é justamente por não parecer, que ele acaba sendo ligeiramente pior do que o outro Reiniger.

- Ele não tem motivos para lesar a mim, a você ou a Caesar, não é mesmo? Se tivesse, o teria feito há muito tempo... – ele se aproveitou da demonstração de preocupação de Valkiria para tentar envolvê-la novamente entre os braços, agora com êxito.

- A nós não, a menos por hora... – ela deu de ombros, levantando a sobrancelha como se pedisse desculpas por ter que considerar a imprevisibilidade. – Mas ao Lorde...

Ela não falou a última palavra, mas seus lábios desenharam no ar a forma perfeita dela. Augustus sentiu uma necessidade intuitiva de conduzir o rosto dela até o peito, aninhá-la ali e acarinhá-la, pois fossem o que fossem, os assuntos do Ministro alemão com Voldemort pareciam ter ligação com sua ida para o país natal no seu aniversário de vinte anos. Quase seis anos depois, e com uma aparente relação saudável com o avô, ela apresentava o mesmo olhar inevitavelmente frágil que lançou a ele ao retornar.

- Se você quiser me explicar como lidar com ele... – murmurou baixinho, próximo a ela, deixando-se inebriar um pouco pelo cheiro de lavanda que parecia mais forte nos cabelos loiros. – Eu sou da sua família agora, não sou? Não dividimos os mesmos problemas?

- Cuidado com o que você deseja... – respondeu enigmaticamente com a voz abafada. – Eu preciso dormir, Augustus, preciso ir ao Ministério amanhã.

Ela de fato dormiu poucos minutos depois que se deitaram na cama, e de todas as lembranças de suas posturas, olhares e infantilidades passadas, a única que faltou fora a de sua manha antes de relutantemente cair no sono. Augustus desejou aproveitar-se daqueles pequenos momentos preguiçosos naquela noite, uma conversa à toa, uma carícia boba ou algumas frases sem sentido antes dela finalmente não conseguir mais controlar as próprias pálpebras. Contentou-se então em apenas vê-la respirando profundamente enquanto agarrava-se ao seu peito. Os mesmos pensamentos que o levaram a escapar com o filho para uma partida de quadribol somente para sorver o máximo de sua companhia e seus risos antes que a responsabilidade os afastassem, se voltaram para Valkiria. Finalmente entendia a tensão que abalava a todos tão próximos ao topo.

E levava tudo aquilo tão a sério que doía.