CAPITULO 28

Suspirando baixinho, Kate gemeu languidamente enquanto acordava do sono mais reparador deque podia se lembrar.
Ainda se encontrava naquela fase fluida e confusa entre o sono leve e o despertar, e se sentia satisfeita e relaxada.
Tentando se espreguiçar, ela sentiu um peso sobre a lateral de seu corpo, que a manteve no lugar.

O braço de Sawyer... lembrou, sorrindo levemente, começando a reaver a noção difusa da respiração dele, ritmada e confortante, em sua nuca, de seu braço em torno dela e de seu corpo, macio e protetor, abraçando-a por trás dela.
Instintivamente, acariciou o braço dele, suavemente.
Ela e Sawyer haviam dormido de conchinha... que inesperado... que bom!

Flashes da noite anterior invadiram sua semi consciência, como fiapos de sonhos eróticos, que a fizeram querer prolongar aquela sensação de estar à deriva numa zona excitante e enevoada.
Se mexeu preguiçosamente, aconchegando-se ainda mais as costas no peito de Sawyer, até que, de repente, sem nenhum esforço ou motivo, ela abriu os olhos e acordou completamente, com toda a consciência de onde, com quem e em que circunstancias estava.

Seu primeiro impulso foi o de se levantar correndo dali e fugir o mais longe que pudesse.
Mas continuou no mesmo lugar, sem mexer um músculo, o corpo nu e agora tenso, repousado no de Sawyer.
E o pior era que estava tão gostoso ficar ali!

O medo e o constrangimento tomaram conta dela, deixando-a literalmente paralisada e sem saber como agir.
No momento que se levantasse, teria que encarar Sawyer e a enormidade do que acontecera entre eles e ela não tinha a mais remota noção de como fazer isso!
Como olhar diretamente no rosto do homem que conhecia há menos de uma semana e a quem se entregara com uma intensidade que nem sabia que existia?

O que ela devia fazer?
Beijá-lo? Abraçá-lo? Ignorá-lo? Bancar a ofendida?
Transar com o namorado era uma coisa, mas Kate nunca tivera muita experiência com sexo de uma noite só, o que provavelmente era o que havia acontecido entre eles.
Uma coisa ela sabia: seria ridículo – e muito hipócrita – fazer o ato da dama ultrajada, levando-se em conta que havia sido ela mesma quem havia iniciado a sedução.

Lembrou-se, com um nó no estômago, de como Sawyer se gabara de se descartar facilmente das mulheres depois que as levava para a cama.
E se ele fizesse isso com ela?
Talvez ela devesse fingir indiferença e se comportar como se nada tivesse acontecido, antes dele. Era assim que as pessoas costumavam fazer...
Com certeza se o ignorasse, diminuindo a importância do que haviam partilhado, aquele ordinário iria pular de alegria e alivio! Cretino!
Era o melhor a fazer... declarar aquela noite um imenso e esquecível erro e seguir em frente, com a cara lavada!

Mas... era isso mesmo que ela queria?

Não se sentia arrependida de nada.
Tivera a noite mais extraordinária e o sexo mais incrível de toda a sua vida. Nunca se sentira mais feliz, aceita e em paz do que quando estiveram nos braços um do outro!
Tinha sido perfeito e impossivelmente terno!

Mas o problema nem era o que ela devia fazer, mas o que podia esperar de Sawyer!
Kate expirou com força, já cansada e teve a impressão de que Sawyer tinha feito o mesmo.
Será que ele já tinha acordado?perguntou-se preocupada.

Nesse instante, o celular de Sawyer tocou estridente, cortando o silencio do quarto e fazendo os dois pularem de susto ao mesmo tempo.
- Filho da mãe! – praguejou Sawyer, praticamente caindo da cama.

Só então Kate se recordou de seu celular desligado na bolsa - protegendo-a da vida real fora daquele quarto - e de todos os julgamentos e cobranças que a aguardavam sem falta.
A coisa podia ficar ainda mais complicada, calculou desanimada, enquanto Sawyer, nu e atrapalhado, recolhia as próprias roupas pelo chão, à procura de seu telefone em um dos bolsos do paletó.
E mesmo naquele instante, ela sentiu prazer ao observá-lo xingando e chutando coisas no chão, seus músculos se movimentando embaixo da pele bronzeada e brilhante. Quis muito, mas muito mesmo, que ele voltasse para a cama...

E como costuma acontecer, no instante exato que Sawyer colocou as mãos no aparelho para atender, este parou de tocar.
- Inacreditável! – rosnou ele.

Os dois se entreolharam então, pela primeira vez, cuidadosos e ariscos.
Kate havia puxado o lençol para se cobrir e o encarou, sem dizer palavra. Sawyer também pareceu desconcertado e ansioso, a julgar pelo jeito quase modesto com que colocara o paletó na frente de sua virilha.
Não lembrava em nada o jeito confiante e desavergonhado com que saira da piscina, há poucas noites atrás, o que deixou Kate estranhamente grata e esperançosa... embora não soubesse bem de quê.

O celular voltou a tocar e Sawyer atendeu mal-criado:
- O que é?!
Ela ficou prestando atenção, preocupada.
- Ah é? – continuou ele – Sei, sei... mas ele já acabou o trabalho tão rápido assim?

A pessoa respondeu alguma coisa que o surpreendeu, ela reparou pelo rápido levantar das sobrancelhas dele.
- Tá bom, já tô indo pra aí!
Kate esperou que ele falasse:
- Era o Sayid avisando que o guri já entregou nossa pesquisa há horas...
Ela também se surpreendeu:
- Há horas? Ele não dorme? Agora estou achando que ele cobra muito pouco...
Sawyer lhe dirigiu um olhar culpado e travesso e jogou a bomba:
- É que já passa da uma da tarde, Sardenta!

Kate arregalou os olhos em espanto e pânico:
- Uma da tarde?! Como a gente dormiu tanto assim, Sawyer? – indagou, saltando da cama, sem se importar se ele a olhasse só com o pequeno lençol que mal a cobria.
- Bom, Sardenta, a gente não dormiu cedo, exatamente. Na verdade, a gente não dormiu exatamente! – ele tentou explicar, maroto, enquanto vestia as calças.
Era verdade, ela admitiu, em silencio. E como podia se sentir tão bem disposta, então? Sabiamente, preferiu não formular a pergunta em voz alta.

- Anda! Se veste logo, vamos pra casa.
Ele parou e a olhou atentamente, o inicio de irritação se sobrepondo ao embaraço.
- Você quer que a gente vá correndo pra casa? Assim? – ele abriu os braços, expressivamente.
Kate virou os olhos, também começando a se enfezar.
- O que você acha?
- Eu acho que vou tomar um café!
- Um café?! Já passou da hora do almoço! Tenho que ir pra casa, Sawyer! Tenho que ir pra casa e nem sei o que vou dizer quando chegar lá!
Perdendo a paciência, ele foi, pachorrento, até a cozinha, deixando-a falando sozinha.
- Puxa! Não sabia que você tava morando com a tua mãe! – debochou ele.

Kate colocou o vestido de qualquer jeito e o seguiu com os sapatos na mão.
- Sawyer! Para com isso! Vamos agora! – ela exigiu secamente.
- Eu não vou a lugar nenhum sem, pelo menos, um gole de café e uma chuveirada – ele retrucou impaciente – E você devia pensar, ao menos, em lavar a cara!
Vendo a raiva brilhando nos olhos dela, ele provocou mais um pouco:
- De que adianta correr agora? Já foi! O estrago ta feito! Acho que tem toalha no banheiro... vou ser cavalheiro e te deixar ir na frente!

Desistindo de brigar, Kate se virou pisando duro, mas ao se ver no espelho do pequeno banheiro, viu que Sawyer estava certo: sua aparência estava indescritível.
Não eram apenas os cabelos revoltos, a cara de quem tinha dormido demais (ou de menos, já não fazia diferença) ou o vestido amassado. Era mais do que isso!
Temeu que qualquer um que olhasse para ela, percebesse que já não era mais a mesma mulher.
Quando se enfiou embaixo do chuveiro, se sentiu sensual, selvagem e invencível e rezou para que a água fria pudesse, magicamente, evitar que essas sensações transparecessem em seu olhar.
Saiu mais calma do banho e resolveu tomar o café como Sawyer havia sugerido.

Ele sorriu quando a viu já vestida e com os cabelos úmidos.
- Hummm, agora tá mais apresentável... pros outros! Porque, por mim, você ficava como estava...
Ela piscou e sorriu, se sentindo boba por ter gostado do elogio.
Sawyer passou por ela sem evitar o contado físico, raspando no corpo dela, sondando como ela reagiria e ficou feliz ao vê-la sorrir.
Por sua vez, Kate ficou satisfeita por perceber que Sawyer não estava, como ela supôs, fingindo que nada acontecera. Engoliu o resto de café que estava na caneca que ele usara e reuniu coragem para ligar o celular.

Como tinha imaginado, estava lotado de mensagens de voz e de texto.
Jack devia ter passado a madrugada inteira tentando falar com ela, para ter, simplesmente, conseguido esgotar a capacidade de sua caixa postal.
Ela foi pulando cada mensagem quando reconhecia a voz dele, alterada e enfurecida. Não estava pronta para isso ainda.
Mas, parou, surpresa, em uma mensagem quando ouviu a voz de Claire.
- Kate? Oi! Não quero incomodar, mas o Jack está aqui em casa, muito nervoso, procurando você! O que eu digo pra ele?
Encontrou outra mensagem e nessa, a voz de Claire estava mais agitada:
- Kate, olha, o Jack tá parado no pátio e acho que tá bebendo... o Locke tentou falar com ele, mas não deu certo. Não quero reclamar, mas ele está me deixando nervosa... liga pra ele? Diz pra ele ir embora, tá?

Uma bola de desconforto e ansiedade começou a inchar no peito de Kate. Ela imaginou, com riqueza de detalhes, como Jack devia ter se comportado na frente de seus vizinhos
Que vergonha! Coitadinha da Claire, não devia ficar se aborrecendo no estado dela...
Como pudera ter sido tão irresponsável?
Calculou, angustiada, a extensão da frustração de Jack e sentiu culpa por ter causado isso a ele.

Em uma nova mensagem, das onze da manhã, Claire parecia mais calma:
- Kate, o Jack tinha ido embora, mas acabou de voltar. Só pra você saber... ele... hã... tá com a mesma roupa de ontem! O Charlie acabou dormindo no sofá pra me fazer companhia. É isso, tchau!.

Kate suspirou: agora mesmo que não teria coragem de ouvir as mensagens de Jack, mas sabia muito bem o que a aguardava quando chegasse em casa.
E se havia sido difícil encarar Sawyer depois de ter passado a noite com ele, seria ainda mais embaraçoso olhar para Jack, sabendo que o havia traído!
Se sentiu envergonhada ao pensar nisso, mas, por mais que tentasse, não conseguia sentir arrependimento, só um sentimento vago de tristeza e melancolia... nunca imaginara que tudo acabaria assim.

Seu celular tocou e, para completar, era Ana Lucia, que foi direto ao ponto:
- Olha só, Austen, você tá me devendo uma! Teu ex-noivo me ligou ontem de madrugada, aos berros, exigindo que eu dissesse onde você estava... como se eu soubesse!
- Ah, Ana... – Kate tentou falar, desolada.
- Tudo bem, eu quebrei teu galho! – respondeu a outra – Disse que você ia passar a noite na minha casa porque não tava a fim de ver os cornos dele!
Kate foi obrigada a rir. Animada com a risada de Kate, Ana Lucia prosseguiu:
- Jack disse que ia lá te pegar, mas eu falei que se ele aparecesse, eu metia ele em cana e lembrei que ele já tem antecedente por seguir a ex-mulher. Aí ele sossegou bonito! Só pra te avisar!
- Ah... ok, obrigada, - Kate se forçou a dizer – você me quebrou mesmo um galho! Desculpe pelo incômodo!
Ana pensou um pouco e indagou:
- Você tá aonde eu penso que está?
Sentindo o perigo, Kate desviou:
- E eu sei lá o que você pensa, Cortez?

Ana deu a risada dessa vez:
- Não precisa falar nada. Eu estou com o Colin... na cama do Colin! – havia um tom de triunfo na voz dela – A gente voltou e como estou me sentindo muito feliz, e você sabe como isso é raro, vou te dar um conselho: não deixa aquele babaca te dominar de novo!
Kate suspirou, apertando os olhos de cansaço.
- Escutou? Não deixa ele te acuar, nem te intimidar. Se impõe, Austen, é a tua vida! Você foi ótima ontem!
E dando uma pausa, ela afirmou:
- Tive orgulho de você! Tô até achando que você pode mesmo ser uma policial de verdade...

O queixo de Kate bateu no chão.
- Não deixa o Jack estragar tudo! – ela ordenou – ah e a gente tava enganada.
Emocionada como poucas vezes antes, Kate perguntou, achando a voz:
- Sobre o quê?
- Sobre ser difícil um vigarista se ajeitar na vida. Dificil não é impossível.
Sem saber o que responder, Kate murmurou:
- Obrigada, Ana Lucia!
- Pra que servem as parceiras? – respondeu ela, desligando.