DOCE DEZEMBRO
Capítulo 28
FINAL ALTERNATIVO
2ª PARTE
Início do Flashback
Um ano atrás, em algum lugar da França...
- Alexei? Já está acordado? – perguntou o homem de cabelos azul-marinho, batendo levemente à porta de madeira.
- Estou, pai. Pode entrar.
A porta do quarto abriu-se vagarosamente. Camus, segurando uma bandeja com um reforçado café da manhã, adentrou o cômodo.
- Pai, já disse que não precisa me trazer o café na cama. Eu posso muito bem ir até a cozinha e me servir por conta própria.
- Não fale assim com seu pai, Alexei... – disse Milo, entrando no quarto logo após Camus – Ele adora trazer o café para você... E eu adoro vê-lo tentando se virar na cozinha. – falou, enlaçando o companheiro pela cintura e dando-lhe um beijo do rosto.
Hyoga sorriu. Seu pai não sabia cozinhar, mas estava se esforçando. Na verdade, desde que voltaram a viver juntos, Camus vinha tentando, de diversas formas, redimir-se de suas atitudes do passado. O jovem escritor falava sempre que não havia necessidade para tanto, mas era em vão. Seu pai insistia e Milo disse a Hyoga que deixasse estar. Era importante para Camus fazer essas coisas; ele precisava fazer isso para se libertar do peso da culpa.
Aliás, Milo foi uma agradável surpresa para Hyoga. O companheiro de seu pai era um homem incrivelmente afável, com o qual o rapaz russo simpatizou rapidamente. Era um homem muito diferente de seu pai; era grego - tinha o sangue quente - sempre dizia o que pensava, era temperamental, brincalhão, não gostava de se estressar e adorava colocar o francês em situações constrangedoras, das quais ele mesmo o tirava em seguida, com bom humor. Por tudo isso, era o parceiro ideal para Camus. No passado, seu pai fora um homem frio que não soubera demonstrar sentimentos, mas hoje estava muito diferente. E Hyoga sabia que isso era devido à convivência com Milo.
- Bem, preciso ir agora. Senão, vou me atrasar de novo. – falou Milo, pegando uma torrada da bandeja de Hyoga e passando um pouco de geléia de morango nela – Sabe como é, Alexei... seu pai às vezes se empolga demais pela manhã e eu é que me atrapalho depois...
- Milo! – falou Camus, um pouco corado e com um severo olhar de reprovação.
- O quê? Seu filho já é grandinho; ele sabe muito bem que, quando vamos dormir à noite, fazemos mais que... apenas dormir. – respondeu Milo, com uma expressão divertida, enquanto dava grandes mordidas em sua torrada – Bom, estou indo. Tchau, amor. – e deu um beijo rápido na boca de Camus.
Camus sorriu ao ouvir Milo cantarolando qualquer coisa antes de deixar o apartamento em que viviam. Porém, o sorriso desapareceu ao voltar seu olhar para o filho, que ainda não tinha tocado na comida que estava diante de si.
- Filho, você precisa comer...
- Não estou com fome. – disse o rapaz.
- Está preocupado com os resultados que saem hoje?
- Na verdade... Estou cansado. Estou cansado de criar expectativas, pai. Não quero mais ficar acreditando que, dessa vez, será diferente.
- Filho, você não pode desanimar assim...
- Posso, sim. Aliás, é a única coisa que ainda posso fazer, já que não tenho mais controle sobre a minha própria vida. Ou o que resta dela.
Hyoga colocou a bandeja de lado, levantou-se da cama, vestiu-se rapidamente e saiu de seu quarto. Seu pai apenas observou-o calado. O jovem então deixou o apartamento e, ao ouvir a porta se fechando, Camus soltou um triste suspiro.
"O futuro é uma incógnita... terei tempo de decifrá-lo?"
Após escrever essa frase em seu caderno, Hyoga ficou pensativo. Apoiou melhor as costas no banco da praça em que estava sentado. Olhou para as árvores do parque, olhou para o céu muito azul... Havia uma brisa suave que lhe trazia o perfume das flores... Fechou os olhos e sorriu. Gostava de sentir-se vivo. Entretanto, nos últimos tempos, vida era o que mais lhe faltava. Eram tantos testes e consultas médicas e remédios e novos tratamentos... O jovem russo estava cansado. Muito cansado, bastante pálido, extremamente abatido... E sentia-se derrotado. Nunca quisera nada daquilo... não queria prologongar sua vida dessa forma. Aceitara apenas por causa de seu pai. Camus insistira muito, e o escritor percebera que seu pai precisava da certeza de terem feito todo o possível antes de... bem, antes do inevitável.
Por sinal, Hyoga encarava até bem o que estava por vir. Acreditava que sua vida tinha sido muito boa, afinal. Fizera muito pelos outros, reatara laços com seu pai... e tivera a chance de conhecer e amar Ikki. Esse último fato, contudo, fazia Hyoga sentir-se dividido. Ao mesmo tempo em que se sentia realizado por ter vivido uma grande paixão, ele tembém queria, por mais que tentasse reprimir esse desejo, continuar vivendo. Continuar vivendo... ao lado de Ikki.
- Pare de pensar besteiras, Hyoga. – repreendeu-se o rapaz – Tudo o que você não precisa agora é de ficar se iludindo...
Sorriu tristemente para si mesmo. Hyoga lembrava-se da última vez em que falara com Ikki. Aquela manhã fria de inverno. Lembrava-se de como fora difícil partir, de como tinha desejado ficar, entregar-se àquele sentimento, viver com aquele homem até o último de seus dias...
E então lembrou-se de que o último de seus dias já havia passado. Afinal, desde que viera à França, ele não tinha vivido mais. O que estava fazendo era sobreviver, e apenas para agrado e consolo de seu pai.
- Mas fiz o certo. – pensou ele – Não podia ser fraco e trazer Ikki comigo. Não seria justo com ele... Sim, foi melhor desse jeito. Só assim ele poderá reconstruir sua vida. Será mais fácil para ele superar a dor da perda se não tiver que me ver desaparecendo um pouco a cada dia que passa...
Fechou o caderno que estava em suas mãos. Ficara toda a manhã e parte da tarde naquele parque, escrevendo. Seu pai já devia estar preocupado. "É melhor eu voltar agora..."
- Alexei! Onde você estava? – perguntou Camus, indo ao encontro do filho assim que este entrou no apartamento.
- Passeando por aí, pai. Você sabe que eu preciso disso de vez em quando. – respondeu Hyoga, depositando suas chaves sobre uma mesinha.
- Por que não atendeu o celular? Eu te liguei o dia inteiro!
- Pai, você sabe que não gosto dessas coisas... por isso, não costumo andar com ele.
- Gostando ou não, eu te dei o celular por um motivo. É para usar! – Camus ia falando enquanto pegava uma pasta e a chave do carro – Vamos, Alexei. Já estamos atrasados para sua consulta.
Hyoga apenas deixou-se levar pelo pai. Não tinha a mínima vontade de comparecer a essa consulta; sabia que não haveria quaisquer novidades. O médico novamente diria que seu quadro oscilava muito, que de uma hora para outra melhorava, assim como também piorava. E então, aconselharia outros tratamentos; talvez um novo remédio que pudesse ser mais eficiente... E, como sempre, seu pai e Milo fariam tudo quanto os médicos indicassem.
- Tomara que o médico diga que meu quadro piorou de vez. – falou o rapaz, em um tom de voz baixo, mas que pôde ser ouvido por Camus:
- O que você disse? – interpelou seu pai, que tinha acabado de abrir a porta do carro.
- Nada. – respondeu Hyoga, desviando o olhar de seu pai.
- Eu ouvi o que você disse! – falou Camus, aumentando seu tom de voz – Repita o que você falou, mas olhando nos meus olhos, Alexei!
Hyoga então levantou o rosto para encontrar os olhos marejados de seu pai. Havia uma mistura de dor e ódio naquele olhar. Hyoga sentiu-se mal por provocar tais sentimentos em Camus, mas estava cansado de aguentar tudo aquilo:
- Eu queria que o médico dissesse, de uma vez por todas, que não estou bem, que não vou melhorar e que você e Milo não deveriam mais ter esperanças a meu respeito! – bradou o jovem, sentindo que algumas lágrimas estavam prestes a irromper de seus olhos também.
- Alexei, como... Como pode dizer algo assim? – Camus abrandara o tom de sua voz, mas ainda deixava transparecer alguma revolta.
- Pai, eu... Eu sinto muito. Eu achei que poderia fazer isso... por você... Eu achei que teria forças, mas me enganei. Não sou tão forte quanto achava. Não aguento mais essa situação. Estou cansado disso tudo...
- Filho, você fala como se não houvesse mais esperanças...
- Eu estou cansado, pai! Estou cansado de ter esperanças que não levam a lugar algum! – falou Hyoga, batendo com força a porta do carro – Estou cansado de não saber... De ficar dependendo do que os médicos vão me dizer! Estou cansado de fazer um exame após o outro e continuar sempre com expectativas... Será que estou melhorando? Será que estou piorando? Eu nunca sei...
- Alexei, você não pode ficar se exaltando assim... – disse Camus, preocupado, aproximando-se de seu filho.
- Eu... – falou Hyoga, sentindo um pouco de falta de ar - ... Eu odeio isso, pai... Odeio sentir que não tenho controle sobre minha própria vida... nem sobre meu próprio corpo... – o jovem ia falando com cada vez mais dificuldade.
- Está bem, filho, está bem... – Camus falava em um tom conciliador – Vamos... É melhor entrarmos um pouco. Vou ligar para o consultório e cancelar sua consulta.
Camus então levou o filho para seu quarto e ajudou-o a se deitar. Ficou sentado ainda algum tempo, ao lado de Hyoga, cujos olhos cerrados davam já a impressão de o rapaz estar adormecido.
O francês então acariciou levemente os cabelos dourados de seu filho. E, em voz baixa, disse:
- Descanse um pouco, meu filho...
E o jovem, mantendo os olhos fechados, respondeu quase em um sussurro:
- É o que eu quero, pai... Desistir... Para poder descansar...
Pouco depois das 19:00, Milo chegou ao apartamento. Estava aparentemente cansado. Encontrou as luzes todas apagadas, de modo que, assim que abriu a porta, tratou de acender a luz da sala. Assustou-se ao ver a figura de Camus, sentado ao sofá, com os cotovelos apoiados nos joelhos e as mãos parecendo segurar a cabeça, como se esta estivesse tão pesada que precisasse desse apoio para se manter no lugar.
- Camus? Você está bem? – apressou-se Milo em averiguar o que estava se passando.
Sentou-se ao lado do francês no sofá e fez-lhe uma carícia no rosto. Foi como se essa carícia finalmente despertasse o companheiro do estado de transe em que se encontrava:
- Milo... Será que estou sendo um bom pai para Alexei? – perguntou Camus, sem encarar o outro.
- Claro que sim! – respondeu o grego, sem pestanejar – Por que essa pergunta?
- Porque... Eu não sei, Milo. Não tenho mais tanta certeza de que estou fazendo o melhor pelo meu filho. Estou muito confuso...
- Camus, você está fazendo tudo que pode pelo Alexei! Está indo atrás dos melhores médicos, pagando por todos os tratamentos indicados e...
- Aí é que está, Milo. Será que isso é o melhor para ele?
- ... Como assim?
- Às vezes, eu me pergunto se estou fazendo tudo isso por Alexei ou... por mim. Para ficar com a consciência tranquila... Para saber que fiz tudo que estava ao meu alcance e não me sentir mal... caso eu não consiga... evitar o pior.
- Camus, não diga uma coisa dessas... – falou Milo, sem ser tão convincente quanto gostaria. No fundo, sabia que Camus tinha essa necessidade de se redimir e estava empregando todos os seus esforços para atingir esse objetivo.
- E o problema é... Será que, na ânsia de fazer tudo que posso, não estarei prejudicando Alexei? Talvez ele esteja cansado demais de tudo isso... Talvez seja demais para ele... E que direito tenho eu de obrigá-lo a continuar com isso?
Milo silenciou. E, após essa pausa, disse:
- Bem, acho que apenas Alexei poderá dizer o que pensa de tudo isso.
- Ele já disse, Milo. Ele me falou hoje à tarde. Disse que quer desistir para... poder descansar.
As palavras de Camus fizeram Milo estremecer. Havia se apegado ao rapaz, como se este fosse também seu filho. Sentia que os três formavam uma família. Por isso, nunca tinha passado pela sua cabeça desistir. Sempre achou que lutariam com todas as forças e que... no final... tudo daria certo. Sempre fora otimista. E agora, a realidade parecia derrubar seu otimismo de forma cruel. Não estava preparado para o que acabara de ouvir. Não soube o que dizer para Camus. Não sabia nem o que pensar.
E assim, ficaram os dois calados, longamente. Até o sono tomar conta de seus corpos. Até adormecerem naquele mesmo sofá, abraçados.
Na manhã seguinte, Hyoga acordou cedo. Sentia-se mais disposto em relação ao dia anterior. Era o efeito dos remédios que tomava. Em alguns dias, sentia-se bem; noutros, nem tanto.
Percebeu que ainda era cedo. Levantou-se da cama e, sentindo sede, saiu de seu quarto em direção à cozinha. Porém, ao passar pela sala, viu que seu pai e Milo ainda dormiam placidamente sobre o sofá.
- Não acredito que eles passaram a noite aqui... – falou Hyoga, em voz baixa, enquanto cobria os dois com a manta que ficava sobre o sofá.
Olhou para Camus e Milo com um semblante sério. "Isso não pode continuar assim...", pensou ele. O jovem escritor sentia-se impotente, revoltado... Sem pensar muito, vestiu sua jaqueta e deixou o apartamento, às pressas. Precisava espairecer... Tudo aquilo ainda o deixaria louco...
Assim que deixou o prédio em que morava com seus pais – afinal, Milo era considerado por ele um pai também – olhou ao redor e lembrou que era mesmo muito cedo. Uma brisa fria passou por ele, brincando com seus cabelos dourados. Foi então que se lembrou daquele dia... Daquela manhã em que partira deixando para trás o homem que amava. Que nunca deixou de amar. Que certamente jamais deixaria.
E foi então que, num repente, tudo tornou-se claro. Sim... Era isso que tinha de fazer.
- Milo! Milo, acorde!
- Ahn? O quê... quem? – disse o grego, despertando assustado.
- Milo! Alexei sumiu! – falou Camus, que após revirar papéis sobre a mesa vinha agorar remexer as almofadas do sofá.
Milo parecia ainda não ter se localizado. Sacudiu a cabeça, tentando se situar, deu-se conta de que estava no sofá e não em sua cama, e finalmente pareceu entender as palavras de Camus:
- Sumiu...? Como assim, "sumiu"? – perguntou, enquanto levantava-se do sofá para que Camus pudesse revirar o assento por completo.
- Ele não está em lugar nenhum! Já revirei o apartamento e ele não está aqui! – dizia Camus, enquanto caminhava apressadamente em direção à cozinha.
- Ei, espera aí! – falou Milo, segurando o companheiro pelo braço – Pare um pouco e respire. Você está muito agitado...
- Não posso! Eu... eu preciso encontrá-lo, Milo! – dizia Camus, angustiado, e evitando encarar o grego.
- E você espera encontrá-lo onde? Debaixo das almofadas do sofá? Dentro de algum armário na cozinha? Amor, se você já revirou o apartamento e viu que ele não está aqui, então...
- Mas ele pode ter deixado um recado em algum lugar! Ainda não olhei na cozinha! – interrompeu Camus, desvencilhando-se de Milo.
O grego soltou um suspiro e foi atrás do francês. Ao entrar na cozinha, encontrou-o abrindo e fechando gavetas. Olhou para a geladeira – onde os três tinham o costume de deixar recados presos a ímãs. Não havia nada ali.
- Camus...
- Não, Milo! Se não vai me ajudar, fique quieto! – exaltava-se o francês.
Milo viu lágrimas escorrendo pelo rosto de Camus. Sentiu um aperto no peito. Aproximou-se do companheiro que mexia freneticamente nos armários da cozinha.
- Amor... por favor...
- Não! – bradou Camus. Suas mãos abandonaram as portas dos armários para apoiarem-se à bancada da cozinha. Baixou a cabeça e seus olhos fecharam-se como se quisessem negar a realidade.
Milo abraçou o corpo de Camus, que agora se mostrava tão frágil. A princípio, Camus não aceitou o abraço, mas a tentativa de libertar-se dos braços do grego não passou de um gesto; e logo deixou-se ficar ali, afogando as lágrimas no peito forte do outro.
- Eu falhei, Milo... Eu falhei novamente...
- Não, meu amor... Você não falhou em nada... – disse o grego, acariciando os cabelos do francês enquanto sentia que lágrimas também lhe brotavam dos olhos.
De repente, ouviram o telefone tocar. Os dois homens entreolharam-se e, num ímpeto, levantaram-se e correram para atender à chamada. Foi Camus quem tirou o fone da base:
- Alô? Alexei?
- Pai...? Eu... acordei você?
- Filho? Meu Deus, ainda bem! Onde você está, Alexei? Você está bem? Aconteceu alguma coisa? – Camus ia perguntando sem dar tempo para que Hyoga lhe respondesse.
- Eu estou bem, pai.
- Por que saiu de casa tão cedo? Aonde você foi? – perguntava Camus, deixando transparecer a angústia que sentia em sua voz.
Hyoga percebeu que deixara seu pai preocupado. Sabia que isso iria acontecer. Mas não mudaria de idéia; já havia se decidido...
- Pai, me desculpe por sair assim... sem deixar um recado nem nada. Desculpe ter demorado para ligar também; mas não quis telefonar antes porque não queria acordar você e Milo.
- Tudo bem, filho, não se preocupe. Agora volte para casa, por favor. Aqui poderemos conversar melhor.
- ...
- Alexei? Está me ouvindo?
- ... Me desculpe por isso também, pai. Mas eu não vou voltar. – respondeu Hyoga, com a voz séria.
Camus apertou o fone com mais força. Franziu a testa e olhou para Milo, que o observava preocupado. A expressão que tomara conta do rosto de Camus inquietou ainda mais o grego.
- Do que você está falando, Alexei?
- Eu não vou voltar, pai. Tomei uma decisão. Eu vou embora.
- Alexei, pare de dizer bobagens! Você não dormiu direito essa noite; não sabe o que está falando. Volte para casa imediatamente! – disse Camus, usando um acento autoritário em sua voz.
- Não, pai. Sei exatamente o que estou falando. Não posso continuar aí com vocês. Isso não está sendo bom para ninguém.
- Filho, você...
- Pai, eu estou muito agradecido por tudo que você fez. – interrompeu Hyoga – De verdade. Mas cheguei à conclusão de que preciso ir embora agora. Sinto muito, pai... mas eu não posso mais continuar com isso.
- Alexei, isso é por causa da nossa discussão de ontem? Filho, não se preocupe; já falei com Milo e decidimos que, a partir de agora, faremos do modo que você achar melhor! Não vamos mais forçá-lo a nada! Agora volte, por favor... – a mão de Camus tremia e ele precisava segurar o fone com as duas mãos para não deixá-lo cair.
- Pai... – a voz de Hyoga ao telefone era fraca, quase sumida – Mesmo que vocês me deixassem fazer as coisas ao meu modo... Eu não conseguiria ficar. Eu não seria capaz de vê-los sofrendo por minha causa. Eu posso suportar a minha dor, mas não a de vocês.
Diante de um Camus que mal conseguia se manter em pé, Milo, que já havia entendido o que se passava, arrebatou-lhe o telefone para falar com Hyoga:
- Alexei? Me diga onde você está, agora mesmo. Estou indo aí buscá-lo. – falou o grego.
- Sinto muito, Milo. Mas isso não será possível. E eu preciso desligar agora.
- Alexei, você precisa voltar para casa. Você não levou roupas ou dinheiro para ir embora, levou?
- Não.
- Então, não tem como ir para lugar algum. Vamos, deixe disso. Volte para casa e conversaremos a respeito, está bem?
- Eu consigo me virar; já fiz isso uma vez e deu tudo certo. Meu pai sabe bem disso. Desculpe, Milo. Será melhor assim.
- Alexei, não faça isso... Nós só queremos o que é melhor para você... – Milo já não falava com tanta autoridade.
- Se é o que realmente querem, então me deixarão em paz. É a última coisa que lhes peço. Por favor, não venham atrás de mim. – e desligou o telefone.
Assim que colocou o fone no gancho, deixou a cabine telefônica de onde fizera a ligação. Acenou gentilmente com a cabeça para a senhora que esperara pacientemente para telefonar. Levantou a gola de sua jaqueta para proteger-se mais do vento frio daquela manhã e começou a caminhar. Havia muito o que fazer. Mas, ao menos, agora tinha de se preocupar apenas com ele mesmo. Não era justo que seus pais tivessem de sofrer junto com ele. Não era justo que eles também tivessem de carregar esse fardo.
Foi o que ele pensou quando deixou Ikki para trás. Não era justo com Ikki... Era Hyoga quem tinha de enfrentar tudo isso. Sozinho. E essa decisão agora passava a valer também para Camus e Milo.
- Será melhor assim. – disse o rapaz russo, repetindo para si mesmo o que havia falado para Milo, tentando se convencer de suas próprias palavras. Entretanto, o escritor sabia que, no fundo, ele não estava poupando os outros do sofrimento. Não importava onde ele estivesse, Camus e Milo sofreriam do mesmo jeito. E ele sabia disso. O problema é que ele não se sentia capaz de lidar com essa situação.
Havia duas coisas na vida que Hyoga sabia fazer bem: ser independente e fazer as pessoas se sentirem bem. Mas agora ele se encontrava em uma posição que o impedia de fazer as duas coisas que considerava suas especialidades. E, se ele não podia fazer nada, então... era melhor partir. Porque "será melhor assim". Porque não havia nada mais a ser feito. Porque ele não queria mais ver esforços em vão. Já bastava a frustração que ele sentia diante de tudo isso. Ter de ver essa mesma frustração estampada nos rostos de Ikki, Camus e Milo quando eles finalmente entendessem que não havia nada a ser feito era demais para Hyoga...
E foi então que se deu conta.
Talvez, a sua fuga tenha sido causada não devido a um gesto altruísta de sua parte.
Talvez, fugir de Ikki e de seus pais tenha sido motivado pela sua fraqueza.
Fraqueza, pois havia se dado conta de que não era auto-suficiente.
Fraqueza, pois não suportava ver a dor nos olhos das pessoas que amava.
"Um fraco... é isso que eu sou. Não estou poupando os outros de sofrerem... estou apenas poupando a mim mesmo de vê-los sofrer."
Mas não podia fazer mais nada. Era tarde para mudar. E Hyoga nem sabia se desejava ser forte nesse momento. Para quê? Qual seria o propósito? "É melhor deixar para lá... É melhor esquecer..."
Enquanto isso, em seu apartamento, Camus e Milo encontravam o diário que Hyoga deixara para trás... O diário que contava sua história com Ikki e que o escritor dedicara-se a escrever desde que chegara à França. Os dois abriram o diário, esperando achar alguma pista de onde poderiam encontrar o rapaz russo. Porém, o que viram ali não foi muito animador. Lá, na última página daquele caderno, estava a frase escrita pelo jovem no parque, um dia antes:
"O futuro é uma incógnita... terei tempo de decifrá-lo?"
Fim do Flashback
Continua...
N/A: Eu não estava muito certa do que fazer com esse final alternativo. No início, saiu um capítulo super sem-graça, que eu tratei de deletar o mais rápido possível. Aí, tive a idéia de tentar fazer um capítulo mais interessante, no qual eu poderia mostrar o que aconteceu com o Ikki, além do regresso do Hyoga. Ficou até bonzinho. Então pensei que seria legal mostrar o que aconteceu com Hyoga também e foi nesse ponto que travei. Felizmente, creio que esse bloqueio passou e já tenho o final alternativo em mente, por inteiro. Só que, pelo visto, vou precisar de mais um capítulo para terminá-lo...
Lua.
