Capítulo 28: "Revelação"
Soube que o silêncio e a solidão do escritório estavam prestes a ser interrompidos quando ouviu ao longe os saltos do sapato de sua esposa baterem apressadamente contra o chão de madeira do corredor. Lucio virou sua poltrona a tempo de ver a porta se escancarar com violência. Narcisa era normalmente a mulher mais delicada que conhecera. Mas nos últimos meses não havia nada de delicado em seu temperamento ou no jeito que a esposa o tratava. E ela tinha toda a razão.
Ela parou na frente de sua escrivaninha, encarando com seus olhos azuis intensos e frios, seus cabelos levemente desarrumados não diminuindo sua elegância. Vestia um robe grosso e negro sobre o pijama, devia ter acabado de levantar. Narcisa apoiou as duas mãos sobre a mesa entre eles.
- Quando você ia me contar?
Sua voz saiu num quase susurro cortante e seu tom era ressentido. Lucio sustentou seu olhar por alguns segundos e então abaixou os olhos para o envelope que estava em sua frente. Em silêncio, deslizou ele até entre as mãos da esposa. Levantou demoradamente da poltrona excessivamente confortável e foi servir-se de firewhisky.
Narcisa hesitou por alguns instantes antes de abrir o envelope. Ela prendeu a respiração. Lucio caminhou até a lareira e fechou os olhos dolorosamente. Ouviu um soluço engasgado. Bebeu seu firewhisky em um só gole. Aproximou-se da esposa, mas manteve uma distância razoável. Largou o copo vazio sobre a escrivaninha.
Os olhos molhados dela pararam nos culpados dele. As fotos estavam espalhadas. Sentiu que precisava dizer alguma coisa.
- Narcisa...
PAF. Sabia que merecia o tapa, mas ainda assim foi pego de surpresa.
- Como pode ter escondido isso de mim todo esse tempo? – ela perguntou. – Snape teve que me contar. Você ao menos planejava em me mostrar isso?
Ela apontou para as fotos em cima da escrivaninha.
- Não queria que se preocupasse a toa – começou Lucio.
- Me preocupar a toa? – ela repetiu. – Me preocupar que eu não só tenho um neto que está exilado em Nova Iorque, mas que Voldemort está caçando ele, a mãe dele e meu filho?
Houve pausa em que o casal se encarou, contemplando o segredo que finalmente se acabava. Lucio estava aliviado, mas não deixava de se sentir culpado.
- Eu vou resolver isso – continou.
Narcisa soltou uma exclamação de descrença, andando para longe dele, em direção à janela.
- Como?
- Vou atrás deles eu mesmo – falou, fechando os punhos.
A esposa colocou as mãos trêmulas sobre o rosto. Foi até ela rapidamente e apertou seus ombros.
- Não se preocupe – murmurou no seu ouvido, tentando acalma-la. – Vou mantê-los seguros.
Draco andou até a janela da sala e a fechou, cortando o vento gelado que invadia o apartamento. Parou por alguns segundos para contemplar a vista e logo voltou-se para a esposa e a filha, sentadas na cozinha. Ginny dava comida para o bebê, entre sorrisos e risadas. Parou na porta, encostando o ombro no batente. Era um dia como outro qualquer, rotineiro. Os cabelos ruivos de Ginny estavam presos em um coque solto no alto da cabeça e ela já estava com o uniforme da lanchonete onde trabalhava. Nos ultimos meses ela pegara o turno da noite, assim eles se alternavam cuidando de Corine. Draco estava trabalhando informalmente pra uma empresa de reformas, como pintor. Seus trabalhos eram sempre bem cedo.
Sua filha estava com um ano e meio. Tinha os cabelos platinados iguais aos dele e os olhos eram cinza com tons de mel perto da íris. Já tinha algumas sardas como a mãe. Ficou observando as duas, sentindo uma paz interior agora era familiar para ele.
O casal se via pouco e ganhava pouco, mas viviam confortavelmente, com ajuda da magia – que só se atreviam a usar dentro de casa. Nos domingos e folgas às vezes saiam para passear em parques ou andar pela cidade. Era de se esperar que depois de o bebê nascer, não fossem ter sossego – mas aconteceu o contrário. Depois que Corine chegou, tudo ficou mais tranquilo. As poucas brigas que tinham acabaram, a saudade de casa foi amenizada, os dias tornaram-se calmos e plenos. A vida estava imensamente satisfatória, pra quem tinha tão pouco. Talvez tivessem exatamente o que precisavam, ele se pegou pensando.
- Pronto – disse Ginny, tirando-o do transe. Ela colocou o pratinho na pia e limpou o rosto de Corine. – Você lava a louça? – perguntou pra ele.
- Claro – respondeu.
Ginny beijou e sorriu para a filha, se despedindo. Depois foi até o marido e depositou um beijo em seus lábios. Draco acariciou sua bochecha quando eles se encararam.
- Estou de volta lá pelas três – disse ela.
- Se cuida – respondeu, dando um meio sorriso.
Ginny pegou seu casaco e cachecol que estavam pendurados ao lado da porta da sala.
- Tchau, amo vocês! – disse, saindo.
- Também amamos você! – respondeu Draco, pegando Corine no colo.
Sabia que agora a filha iria se agitar um pouco antes de cair num sono pesado, então levou ela pra sala para brincar. Acabou pegando no sono logo depois de colocar ela no berço.
Acordou de repente, no meio da madrugada. Tateou os lençóis para ver se Ginny já tinha chegado, mas o lado direto da cama estava vazio. Então olhou para a esquerda, onde estava o berço, e viu que Corine dormia profundamente. Era quase três da manhã e Ginny chegaria em pouco tempo. Levantou-se e parou ao lado da filha alguns segundos antes de decidir ir ao banheiro. Estava quase na porta do quarto quando ouviu um rangido estranho vindo da sala.
Parou imediatamente. Aquele não era o som de Ginny girando as chaves na fechadura da porta. Conhecia esse som bem demais para se confundir. Prendeu a respiração. Pegou a varinha que estava, por sorte, no bolso de sua calça de moletom que usava pra dormir. Talvez fosse só o vento, ele pensou. Com seus pés descalços, seus passos não faziam barulho algum. A porta do seu quarto dava em um pequeno corredor que ia direto para a sala e poderia ver porta de entrada. Ao virar para dentro dele, ergueu a varinha.
Viu dois vultos encapuzados.
- Estupefaça!
- Boa noite – disse Ginny aos seus colegas de trabalho, enquanto enrolava o cachecol em volta do pescoço e saia pela porta da lanchonete.
Colocou as mãos dentro dos bolsos do casaco, onde no lado direito estava a varinha. Andar de madrugada no Brooklin era perigoso, mesmo que fosse apenas duas quadras. Apressou o passo, ansiosa por chegar em casa e deitar na cama quente que dividia com o marido. Apesar de não terem se casado de verdade, era assim que se apresentavam ao mundo trouxa, como marido e mulher. De qualquer forma, na prática eles tinham uma vida de casados.
Em poucos minutos chegou ao seu prédio. Subiu os dois primeiros lances de escada rapidamente, mas logo perdeu o fôlego e diminuiu o passo até chegar no terceiro andar. A luz do seu corredor estava desligada. Estranhou. Talvez a lâmpada tivesse queimado, pensou.
Foi quando estava a poucos passos da porta, com a chave na mão que viu que ela estava entreaberta. Uma fresta de luz azulada saia da sala e iluminava o corredor fracamente. Sentiu o coração subir até a garganta e tirou a varinha do bolso, preparando-se para entrar em casa, quando ouviu claramente alguém proferir um feitiço que gerou fagulhas vermelhas. Sem pensar duas vezes, abriu a porta do apartamento, apontando a varinha para frente.
Deparou-se com um vulto no meio de sua sala, virado de costas para ela e de frente para Draco, que também tinha a varinha erguida para ele. Sentiu alívio por ele não estar desmaiado ou pior. O casal se olhou brevemente, reconhecendo a posição um do outro.
- Cuidado com seu próximo passo – disse ela, encarando as costas negras do invasor. – Você está em desvantagem.
Fechou a porta com o pé, sem abaixar a mira do Comensal da Morte – tinha deduzido rapidamente que qualquer vulto negro que aparecesse em sua casa provavelmente era um enviado do Lorde das Trevas. E ela reconhecia a capa negra mesmo de costas. Voltou os olhos para Draco por alguns instantes e viu que ele tinha uma expressão confusa.
O vulto começou a levantar as mãos para cima, em sinal de rendição.
- Não é comigo que tem que se preocupar – disse o Comensal num murmuro. – Amarre a garota.
Ginny ficou confusa. Foi então que viu que no chão, entre Draco e o invasor, tinha mais um corpo desacordado. Antes que pudesse processar o que estava acontecendo, um choro interrompeu a cena. A varinha das mãos erguidas do Comensal caiu no chão.
Corine.
A ruiva arfou baixinho, preocupação aumentando, sentindo o coração bater forte no peito, mas não se permitindo perder a calma. Draco lhe lançou um olhar preocupado e ela entendeu. Ginny deu a volta, sem tirar os olhos do Comensal, e passou do lado do marido para entrar no quarto deles.
Correu rapidamente pro berço da filha, que estava de pé, agarrada nas grades. Ao ver a mãe, ela parou de chorar. Pegou Corine nos braços e a embalou um pouco. Beijou sua testa e sussurrou algumas palavras de conforto.
- Mamãe está aqui – disse. – Está tudo bem.
A filha recostou a cabeça no ombro da mãe. Ginny a segurava apoiada em um braço e não chegou a largar a varinha da mão direita. Encarou a porta aberta nervosamente.
- Não vou machucá-los – conseguiu ouvir o Comensal falar.
Deu alguns passos em direção ao corredor, conseguiu ver as costas de Draco.
- Espera que eu acredite em você? – a voz do marido estava cheia de rancor.
- Por favor, Draco - a voz pedinte do invasor tinha um tom magoado. – Prenda a garota...
Foi então que entendeu. Aquele não era um Comensal qualquer. Era Lucio Malfoy.
Mal conseguiu acreditar. Foi mais por impulso que estendeu a cabeça para espiar o sogro. Draco ainda estava com a varinha erguida para o peito do pai e dava pra ouvir sua respiração tremer. Lucio estava sem a máscara, que se encontrava caída aos seus pés juntos com a varinha.
- Eu esperei por isso – disse Draco, num tom sombrio. Ginny percebeu os olhos de Lucio pararem nela. – Sabia que um dia você apareceria aqui pra terminar o trabalho que começou anos atrás.
- Draco, meu filho, por favor... – o tom do pai era sofredor.
Houve um estalo e Lucio foi atirado contra a parede no outro lado da sala. Ele caiu no chão, mas não estava desacordado. Draco recolheu a varinha do pai e a colocou no bolso. Acenou para o corpo do outro Comensal e logo ele estava preso por muitas cordas – também recolheu a varinha dele. Outro aceno e o sogro estava com as mãos atadas.
O loiro parou na frente de Lucio, ajoelhado no chão. Draco apontou a varinha para o rosto dele. Pai e filho se encararam – mesmo de longe, Ginny percebeu que tinha muitos sentimentos naquele olhar. Eram quase idênticos, tirando a óbvia diferença de idade. Mesmo de longe, viu no olhos do sogro o que ia acontecer.
- Draco, pare – disse, entrando na sala.
O marido virou-se para vê-la, sem tirar a varinha da cara do pai. Ele a olhou confuso.
- Esse foi o homem que nos separou, Ginny – podia ouvir a raiva crescente na voz dele, mesmo que tentasse não gritar. – Esse foi o homem que me obrigou a ir para o treinamento...
Draco a olhava indignado. A ruiva observou o sogro, ajoelhado, com as mãos atadas.
- Ele é seu pai, Draco – explicou num tom baixo. – Não importa o que ele fez, isso não é o caminho.
Silêncio. Apenas ouvia a respiração dele, enquanto os dois se encaravam na sala quase escura. Foi então que Corine levantou a cabeça do ombro para encarar o pai. Ela soltou um suspiro e estendeu a mão para ele. Draco fechou os olhos dolorosamente. Então, com um estalo, as cordas que prendiam os pulsos de Lucio sumiram. O loiro aproximou-se da filha e a beijou na testa, que soltou uma risadinha. Depois ligou um dos abajures no canto da sala e andou até o corpo desacordado no chão.
Depois de Corine perceber a presença do avó, passou a encará-lo curiosamente.
- Esse é seu avô, Corine – disse Ginny.
Lucio hesitou em se aproximar, mas ela percebeu, mesmo por trás de sua expressão dura e fria, que ele estava emocionado.
- É melhor eu colocá-la na cama – disse. Assim, voltou para o quarto e observou a filha até ela cair num sono profundo.
Quando voltou para a sala, o corpo do Comensal desacordado estava estendido no chão em frente ao sofá. Lucio e Draco estavam de pé o observando, cada um em um canto da sala. Ginny aproximou-se. Levou um susto.
O Comensal estava sem máscara agora. Conhecia aquele rosto.
- O quê? – falou, confusa. – Eu estudei com essa garota.
- Mona – disse Draco. – Ela estava comigo na Rússia.
- Ela é uma das Comensais mais fiéis – disse Lucio. Era estranho ter ele ali, há alguns passos de distância, falando normalmente. - E perigosas.
- O que faremos com ela? – perguntou Ginny. Sabia que os três estavam pensando na mesma coisa.
Lucio coçou o queixo. Draco passou a mão pelos cabelos. Os dois se olharam e pareceram se comunicar sem palavras.
- Não estão pensando em matá-la – disse. – Estão?
- Acho que não temos outra escolha – disse o marido.
- Não pode estar falando sério...
- É provável que Lorde a mate por ter falhado – falou Lucio.
- Sim – concordou Draco.
Ginny encarou o rosto jovem da moça. Ela tinha sua idade.
- Não podemos deixá-la pra trás simplesmente? Apagar sua memória?
- Talvez os atrase – disse o sogro.
- Como assim? – questionou Ginny.
- Eles sabem nossa localização – respondeu Draco. – Quando ninguém responder nas próximas vinte e quatro horas, vão mandar outros Comensais aqui.
- É verdade – disse Lucio. – Vocês devem partir o quanto antes.
A ruiva deixou-se cair no sofá da sala, cansada. O que estava acontecendo?
- Eu ficarei aqui – disse o sogro, mas sua voz parecia distante. – Vou cuidar de quem aparecer.
Quando a noite começou a dar sinais de que estava acabando, o casal estava com seus poucos pertences dentro de uma mala magicamente aumentada. Ginny embalava a filha nos braços, que ainda dormia pesadamente. Estava parada na porta enquanto Draco entregava a varinha para o pai. Eles não falaram nada. A ruiva apenas lançou um olhar para o sogro antes de dar as costas e sair do apartamento.
Ninguém se despediu.
Soube no instante que entrou na Casa dos Gritos que essa talvez fosse a última coisa que ia fazer. E estava estranhamente em paz com isso. Era sua redenção. Era o que tinha esperado todos esses anos para realizar. Mas a cada passo que dava, sentia um grito aumentar dentro da sua cabeça. Desde que descobrira da existência do menino, sentia-se perturbado. Sabia que não podia deixar aquilo atrapalhar seus planos. Mas era difícil. E com cada passo, mais pensava nele.
Foi no Beco Diagonal que o tinha visto a primeira vez, enrolado em várias roupas para protegê-lo do frio. Não entendeu naquele momento o que aquilo significava. Mas um pressentimento o fez investigar os últimos meses da vida de Eleonor. E foi assim que descobriu que ela tinha dado a luz a um menino saudável no dia três de outubro daquele ano. A matemática funcionava. Tentou se convencer que ela podia ter dormido com outros homens, mas algo no fundo de sua mente lhe dizia que aquilo era uma mentira reconfortante - o suficiente para se esconder nela.
Aquela pulga atrás da orelha não o deixou em paz. Então começou a segui-la quando podia. Foi na terceira vez, quando viu os cabelos negros da criança, que percebeu que Eleonor tinha engravidado dele e que ela não tinha lhe dito absolutamente nada.
Primeiro, sentiu raiva e frustração. Depois, pensou que não poderia dar nada para aquela criança além de vergonha e ressentimento. Seu passado, suas ações, sua vida dupla. Era um fardo que ele sempre carregaria. E não era justo passar para outra pessoa carregar. Não podia arriscar a vida de Eleonor e de seu filho – não naquele momento em que tudo se encaminhava para o fim. Sabia que Potter já tinha destruído pelo menos o medalhão e era questão de tempo até que destruísse os outros Horcrux. Então fez paz com a decisão de Eleonor.
Mas naquele momento em que entrava na Casa dos Gritos, não conseguia parar de pensar na mulher e no filho que nunca ia conhecer.
E foi o rosto dela que ficou na mente enquanto seu Sectumsempra matava a cobra de Voldemort. O feitiço foi tão forte que abriram-se talhos na madeira do chão e das paredes. O Lorde das Trevas foi rápido o suficiente para conjurar um feitiço de defesa para si – mas não para Nagini.
E foi no rosto de Eleonor e nos cabelos pretos do bebê em seus braços que pensou enquanto sentia seu sangue ensopando suas roupas, logo após Voldemort contra-atacar.
N/A:
pois é, pessoas.
comecei essa fanfic há 9 anos. na história se passaram 13 anos até o momento onde estamos nesse capítulo.
e ta tudo chegando ao fim...
preciso confessar que cada palavra que coloco no "papel" é mais difícil que a outra. não estou apenas encerrando uma saga, estou encerrando uma parte da minha vida como escritora. quando comecei a fazer fanfics eu era uma criança e agora que cresci, percebo que inventar histórias e escrever é algo que sempre fez parte de quem eu sou. demorou muito tempo pra eu descobrir e aceitar, mas hoje sei e consigo dizer que sou uma escritora. fanfic foi o meio pelo qual eu me aprimorei, despreocupadamente e sem pretensão nenhuma. vocês que leram anel de latinha e anel da rosa (e outras fics) viram essa evolução acontecendo.
enfim, eu sei que com esse final, vai ser o final da minha jornada no mundo das fanfics. é a hora de eu reunir a coragem que nunca tive de escrever algo original e começar a colocar no papel o que eu tenho guardado todo esse tempo.
vocês fizeram parte desse crescimento - uma parte importantíssima. deixaram reviews, cobraram capítulos, elogiaram. isso tudo me fez chegar aqui. apesar de não conhecê-los, sem vocês nada disso existiria. e sou muito grata e sinto muito amor por vocês.
nos vemos nos capítulos finais.
com amor,
D-B.
